2019, uma microfábula distópica

Ilustração: Paulo Stocker. Reprodução

 

Os índices de acidentes de trânsito nas cidades cresceram assustadoramente, apesar de o fato não preocupar os governantes. Os semáforos operam apenas com as cores verde e amarelo, já que o vermelho foi proibido pelo decreto presidencial número 1.

Um setor do comércio severamente atingido por uma crise inédita e nunca imaginada foi o das floriculturas: com a proibição do vermelho, rosas deixaram de ser cultivadas e vendidas. Símbolos do amor e da paixão desde sempre, casais tiveram que reinventar o jogo da conquista, e os sentimentos tornaram-se clandestinos.

Armas de fogo levaram guarás à extinção. “Onde já se viu? Aves vermelhas? É proibido!”, bradou uma autoridade, eufórica, pouco se lixando para a beleza das revoadas e o equilíbrio ambiental.

A coca-cola mudou as cores de suas embalagens e faturou em cima, tornando tudo mais uma jogada de marketing e ironizando o velho jargão de que “comunista não bebe o líquido símbolo do capitalismo”.

A Cruz Vermelha teve que retirar-se do país, pois, ao contrário da marca de refrigerantes, não teve como investir pesado em publicidade, além de avaliar que não faria sentido modificar uma marca e um nome consolidados há mais de 150 anos.

Os caminhões dos Corpos de Bombeiros espalhados pelo país perderam sua cor padrão. Não fossem as sirenes, seria mais difícil identificá-los no trânsito e abrir passagem para evitar que o fogo consumisse algo mais em um incêndio – embora o fogo não agisse sozinho em sua sede de destruição.

Em Parintins, no Amazonas, o Boi Caprichoso foi declarado campeão. O Garantido, vermelho, foi proibido de desfilar no Festival Folclórico. No Rio Grande do Sul, o Internacional foi proibido de disputar o campeonato gaúcho – e outros certames.

De vermelho sobrou apenas o sangue derramado de negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência. Mas vermelho é modo de dizer, imaginação baseada em lembrança: como uma imensa máquina do tempo nos levou de volta a um passado de pouco mais de 50 anos, a televisão em cores ainda não havia chegado ao Brasil.

(Mais de) 600 tons de poesia

“Eu sou uma pessoa má/ eu menti pra vocês”, parafraseio a adorada Karina Buhr.

Mas menti por uma boa causa: como poderia a Temporada Paulo Leminski ter acabado acá en el blogue? O poeta não é fruta de estação, é autor de música de título parecido, Mudança de estação, sucesso d’A Cor do Som, então tem que pintar por aqui o tempo todo, já que é uma das referências/inspirações deste modesto espaço.

Outro post dedicado a ele, pois. O mote: seu Toda poesia acaba de desbancar do primeiro lugar da lista de mais vendidos da rede da Livraria Cultura o best seller 50 tons de cinza.

Prolífico e popular, o curitibano foi fenômeno editorial na década de 1980, com o lançamento de Caprichos e relaxos (1983), pela Brasiliense, responsável por lançamentos de, entre outros, Ana Cristina César, Jack Kerouac e Yukio Mishima. Não por acaso Luiz Schwarcz, hoje proprietário e editor da Companhia das Letras que nos devolve a obra leminskiana era editor da Brasiliense, à época. Agora o autor volta a ocupar seu merecido lugar de destaque na cena literária, no mercado editorial, pelo que também merecem louvores os trabalhos de Sofia Mariutti e Alice Ruiz S.

Uma grande notícia, que sem dúvida merece comemoração.

Dum Paulo gênio a outro: Stocker homenageia Leminski