Terça é dia de Choro

Foto: ZR (4/7/2017)

 

Terça à tarde, ou para ser mais charmoso, terça boca da noite. Há tempos eu devia a visita, o projeto já tem algum tempo. O Núcleo de Choro da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem) toca às terças-feiras, a partir das 17h, no Buriteco (Rua Portugal, Praia Grande).

A formação, regida e acompanhada pelos olhos brilhantes do professor Nonatinho, de percussão, responde a algumas indagações preocupadas deste boêmio: onde tocam os músicos formados pelas escolas de música locais? Por que não há eventos não noturnos de música? (esta pergunta chegou a ser feita no programa de rádio que apresento com Gisa Franco, o Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, ao vivo, por telefone).

São vários/as alunos/as, revezando-se no palco. Isto é, em uma, são várias formações musicais distintas, todas primando pela qualidade de repertório e execução. Modestamente afirmo: vale a pena!

Adentrei o Buriteco, digamos, por acaso. Já conhecia a casa, de outras ligeiras passagens. Restou-me de um desencontro com um amigo e um (re)encontro com outros, esta (pretensão de) crônica inspirada, sempre, obviamente, por Paulo Mendes Campos e adjacências.

Ricarte Almeida Santos ia dar aula e não se furtou a tirar onda: como é que podia, em plena terça à tarde, encontrar uma mesa formada pelo arremedo de cronista, o cineasta Francisco Colombo, o sociólogo Igor de Sousa e a engenheira Clariane Natali? Só restava fazer uma foto para comprovar – afora o casal Bruna e Max, que após cumprimentarmo-nos sentou-se numa mesa mais ao fundo.

Volto a pensar em Paulo Mendes Campos e naquela crônica de viagem em que ele, não encontrando bar aberto, teima, sempre há, sempre há, encontrando um, mais de meia noite. Não era o caso, pouco passava de boca da noite, 18h, cedo, programa familiar, vão e levem as crianças.

O repertório, impecável, passeava por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Raul de Barros, Paulinho da Viola e Zezé Alves, entre outros grandes mestres. Uma armação de bumba meu boi ao lado do palco remetia ao período recém-encerrado, sob fortes chuvas fora de hora – Deus e São Pedro sabem o que fazem.

Não era acaso estarmos ali – Deus e São Pedro sabem o que fazem – e logo adentraram o recinto para somar-se às feras já presentes, e refiro-me ao palco, e não à plateia, o flautista João Neto, depois, e, antes, o violonista João Soeiro, aniversariante do dia, saudado com um merecido parabéns a você.

Pedi mais uma cerveja, sob protesto de meu companheiro de mesa. Aos garçons havia gracejado: eu fazia a reversão. Ele era um crente que eu havia convencido a beber após minha ladainha bebum.

Deixamos o recinto na contramão de onde eu havia estacionado: por solicitação da esposa, eu precisava arcar com as encomendas de uns Sousas. Incluí um para este que vos perturba, embora àquela altura, ainda não percebesse fome.

A sede é de voltar lá terça que vem.

O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

O lirismo de Paulo Mendes Campos revisitado

O amor acaba. Capa. Reprodução

O título O amor acaba [Companhia das Letras, 280 p., 2013] pode soar pessimista, mas ao leitor menos avisado, que não conhece o autor, ou dele não lembra, será quase certeza do contrário: amor à primeira leitura, o amor começa.

Um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, como classificou o amigo Otto Lara Resende – um deles – sobre grupo completado por Hélio Pelegrino e Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos é desde sempre um dos maiores cronistas do Brasil.

Talvez dizer isso hoje soe fácil, a crônica, este brasileiríssimo gênero, caindo em desuso; mas não o era quando o mineiro ocupou redações cariocas, tempos de Antonio Maria, Rubem Braga, de Drummond e dos próprios colegas citados, para ficarmos em poucos – e grandes – exemplos.

As “crônicas líricas e existenciais” – o subtítulo – do volume (leia três textos, incluindo a crônica-título) revisitam um Paulo Mendes Campos entre o amor, o cotidiano, a boemia, o futebol, a poesia. Poesia, aqui, deixemos claro, tanto o escrever em verso responsável pela estreia literária do autor, quanto seu texto em prosa – as crônicas deste volume carregadas de… poesia!

Selecionadas por Flávio Pinheiro – que assina a apresentação do volume. Ivan Marques assina o posfácio –, as crônicas deste O amor acaba foram publicadas originalmente em jornais e revistas entre 1951 e 1990, a maioria em Manchete, mas também no Correio Paulistano, Diário Carioca e Jornal do Brasil, além dos livros Homenzinho na ventania (1962), Os bares morrem numa quarta-feira (1980) e Diário da Tarde (1981) – recentemente relançado pelo Instituto Moreira Sales, no formato pensado pelo autor, assunto para outra resenha. Como também merece outra resenha O mais estranho dos países – Crônicas e perfis (2013), também publicado pela Companhia das Letras.

Com sua leveza e lirismo, Paulo Mendes Campos permanece atual e sua leitura tem muito a nos ensinar, de estudantes do ensino fundamental – onde o conheci em livros de gramática e paradidáticos – a jornalistas, mas não só. A quem se interessa pela vida e pelo que de mais prosaico esta tem. Ou a quem precisa, vez por outra, dar um tempo no corre corre para observar o que realmente importa: o canto de um passarinho, o sorriso de uma criança, um boteco com os amigos, um beijo em quem se ama, uma crônica de Paulo Mendes Campos.