Professor de sentimentos

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor. Capa. Reprodução
Paulinho da Viola e o Elogio do Amor. Capa. Reprodução

 

Intérprete de Paulinho da Viola – de quem gravou Para ver as meninas em Canção brasileira – A nossa bela alma [1992] – Eliete (Eça) Negreiros propõe outra interpretação para a obra do príncipe do samba em Paulinho da Viola e o Elogio do Amor [Ateliê Editorial, 2016, 146 p., R$ 41,00], obra não à toa dedicada a, entre outros, Arrigo Barnabé – cujo antológico Clara Crocodilo [1980] tem incidental de Paulinho da Viola –, ícone do movimento a que se filia, a Vanguarda Paulista.

No livro, a cantora e filósofa se propõe a analisar a representação do amor na obra do compositor, quase nunca incluído em galerias de gigantes da música popular brasileira por apequenarem-lhe no rótulo de sambista. Divide o estudo em três partes, “o amor breve”, “o amor e a melancolia” e “o amor feliz”, para arrematar com “educação sentimental”, afinal de que trata o repertório do compositor, provocando a aproximação entre a obra do portelense e as ideias de pensadores como Montaigne, Walter Benjamin, Platão, Aristóteles, Roland Barthes e Sêneca, entre outros, recorrendo também a pensadores nacionais tão fundamentais quanto Marilena Chauí, Nuno Ramos, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit.

“Mas longe de mim querer traçar uma ainda que breve história da felicidade, no pensamento, na literatura ou na canção. O que irei fazer é ver como a questão da felicidade aparece nas canções de Paulinho da Viola, como ela foi colocada por alguns poetas e filósofos e buscar as afinidades entre as suas canções e a nossa tradição ocidental amorosa”, afirma.

Eliete Negreiros faz um profundo mergulho em músicas mais ou menos conhecidas, como Coisas do mundo, minha nega, Foi um rio que passou em minha vida, Num samba curto, Onde a dor não tem razão, No velório do Heitor, Bebadachama, Eu canto samba, entre muitas outras, sem esquecer que “outro aspecto importante em sua obra é a presença do choro, não só em composições instrumentais, como Choro negro, Abraçando Chico Soares e Sarau para Radamés, mas também na composição de canções. Os sambas de Paulinho da Viola têm uma melodia muito elaborada, herdeira da tradição do choro. Sua iniciação musical se deu pela escuta dos maiores tocadores de choro brasileiro, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, em saraus que aconteciam em sua casa”, afirma a autora sobre o filho do saudoso violonista César Faria, integrante da formação original do mítico Conjunto Época de Ouro.

A obra de Paulinho da Viola aproxima-se também – num paralelo dos tipos de amor que contém – das de Cartola, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, de quem é intérprete, entre outros.

“O sambista só sabe que nada sabe, mas que deseja saber, que ama o saber. Nesta medida, nesta canção, o poeta é filósofo, é alguém que ama a sabedoria, que a deseja e que se dedica a isso através da canção. Cantar aqui se apresenta, pois, como um modo de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo, um modo de buscar o conhecimento. Cantar, neste sentido, é filosofar”, anota sobre Coisas do mundo, minha nega, reflexão que de resto cabe perfeitamente na elegância que permeia o conjunto da obra de Paulinho da Viola.

“A canção popular brasileira se insere aqui como grande instrumento de autoconhecimento, de conhecimento, de dilatação e de intensificação da vida, quero dizer, como grande veículo de educação sentimental e estética da maioria dos brasileiros”, ao menos aqueles que já ouviram Paulinho da Viola – que nunca mais será simplesmente ouvido, isto é, ouvido do mesmo jeito, após a leitura de Paulinho da Viola e o Elogio do Amor.

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Ouça Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola):

Cecília Leite: equilíbrio e consistência

Enquanto a chuva passa. Capa. Reprodução
Enquanto a chuva passa. Capa. Reprodução

 

Cecília Leite demorou cerca de 10 anos entre um disco e outro. Em Enquanto a chuva passa, repete a opção de misturar compositores locais a nomes nacionais, dando sua contribuição para o fim das barreiras geográficas impostas pelo mercado fonográfico – o disco foi gravado no Rio de Janeiro.

A faixa-título é sua estreia como compositora e narra a vida de um casal que enquanto se separa e um tenta esquecer do outro, mais se lembram de momentos vividos a dois. “Enquanto me esqueço de ti/ lembro do amor/ tingindo as tardes do Rio/ com as cores da nossa leveza/ sorrisos, certezas/ dos meus nos teus passos/ lembro dos beijos de braços/ abraços de pernas/ nas horas eternas”, canta, no refrão.

A chuva que ajuda a batizar o disco volta a aparecer noutras faixas. Em Maré cheia, inspirado samba de Bruno Batista, o compositor veste uma persona feminina ao compor pensando na intérprete. “Por isso se eu mostrar minha alma/ levantem os olhos com calma/ e batam palmas para mim”. A dobradinha merece os aplausos, emoldurada – como de resto a voz de Cecília ao longo do disco – por Luís Filipe de Lima (violão sete cordas), Marcos Nimrichter (piano), Ney Conceição (contrabaixo), Edu Neves (sax) e Marcos Suzano (percussão).

Também chove em Tempo afora (Fred Martins), sucesso de Ney Matogrosso: “Onde mora a ternura/ onde a chuva me alaga/ onde a água mole perfura/ dura pedra da mágoa/ eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora”, começa a letra. Cecília Leite recria ainda outra música já gravada por Ney Matogrosso: Noite Severina, parceria de Pedro Luís e Lula Queiroga. A água ganha destaque no projeto gráfico de Claudio Lima, cantor e designer talentoso em ambos os ofícios, outra dobradinha do primeiro disco que se repete.

Ela recria ainda Por um fio (Marcelo Segreto), de O hábito da força (2011), primeiro disco da Filarmônica de Pasárgada, De todas as maneiras (Chico Buarque), hit de Maria Bethânia (de Álibi, de 1978), Seule, de Pixinguinha, com letra em francês de Vinicius de Moraes, trilha do filme Sol sobre a lama (de Alex Viany, de 1963) e, num medley emenda dois grandes nomes da poesia brasileira, maranhenses, um de adoção, outro de nascimento: Palavra acesa, de José Chagas, e Traduzir-se, de Ferreira Gullar. A primeira, musicada por Fernando Filizola, sucesso do Quinteto Violado; a segunda, por Fagner.

Falecido ano passado, é de Chagas, a propósito, a honrosa apresentação da cantora no encarte: “O canto em Cecília é tão visceral quanto nos pássaros, que cantam porque nisso está uma das razões da vida”.

Completam o disco Tem dó (Paulo Monarco e Zeca Baleiro), que o abre, falando na dor da despedida de maneira original; Arrastada (Patrícia Polayne), um martelo sobre o sofrimento e a emancipação feminina; Ainda mais (Eduardo Gudin e Paulinho da Viola), um samba sobre a esperança de reconciliação, com a típica elegância do portelense; Enquanto a chuva passa termina com Lembranças, outra vez Bruno Batista vestindo a persona feminina, competente qual um Chico Buarque, para citarmos dois dos compositores preferidos de Cecília, a propósito, os únicos que comparecem em ambos os discos – este, na estreia, fez uma versão em francês para Eu te amo (Dis-mois comment) e cantou com ela. “As lembranças que inventei…/e já gasta de mim, quis poder confessar/ o que me faz amarga e nua/ não sou minha… sem ser tua!”, termina a letra de Bruno.

Cecília equilibra-se com desenvoltura entre músicas (mais ou menos) consagradas e material inédito, num grandioso exercício de seleção de repertório – prévio, portanto, à gravação. Ela canta o que gosta, sem se prender a rótulos e gêneros. O resultado é o consistente trabalho que apresenta agora aos fãs e aos que certamente virão a tornar-se.

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Cecília Leite apresenta hoje (10), às 19h30, no São Luís Shopping (segundo piso) um pocket show de pré-lançamento de Enquanto a chuva passa, com entrada franca. A noite contará ainda com exposição de fotos, exibição de videoclipe e lançamento de remix da faixa Arrastada, com os djs Alex Palhano e Macau. Confiram o teaser.

Música instrumental no Sesc Amazônia das Artes

João Pedro Borges faz passeio por escolas do violão brasileiro. Josué Costa, vencedor do I Festival de Violão do Piauí, se apresenta na sequência

João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos
João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Violonista e professor de música, João Pedro Borges, 67, é um nome fundamental para o violão brasileiro, que ajudou a divulgar inclusive fora do país. Entre o fim da década de 1970 e boa parte da de 80, Sinhô, como também é conhecido no meio musical, integrou um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali.

A bagagem e as histórias são muitas. Musicalmente, boa parte poderá ser conferida em concerto que o músico apresenta amanhã (23), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca, dentro da programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes.

Sinhô, que recentemente percorreu o Brasil ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, numa série de concertos pelo projeto Sonora Brasil, também do Sesc, apresentou-se na última edição da Mostra Sesc Guajajara de Artes, ao lado da cantora Célia Maria, em outubro do ano passado. Sobre estar mais uma vez escalado para uma programação da instituição, ele comentou: “Desde o Sonora, mantenho excelentes relações com o Sesc e é com grande prazer que participo da sua extraordinária programação. Representar o Maranhão no Sesc Amazônia é uma distinção que muito me honra”.

O concerto do maranhense será seguido pelo de Josué Costa, às 20h, no mesmo palco. O piauiense venceu o I Festival de Violão do Piauí, cujo júri era formado, além de João Pedro Borges, por nomes como Turíbio Santos e Guinga. “É um jovem violonista muito talentoso e que nos deixou impressionados quando venceu aquele concurso. Estou curiosíssimo para ver como está “a Fera” neste momento”, elogia.

Eventos como os citados, de que Sinhô participou, demonstram a valorização da música instrumental pelo Sesc. Pergunto-lhe o que falta para que isto seja mais corriqueiro e pauta dos poderes públicos e da iniciativa privada. “Creio que a excessiva politização da vida brasileira e da maranhense em particular, sempre acaba levando as chamadas políticas públicas para o campo suspeito das disputas pelo poder. O primeiro mundo há muito nos dá o exemplo de como integrar o público e o privado criando um mercado independente onde a música instrumental vive dos seus méritos. O Sesc, preenchendo uma lacuna brasileira, tem desenvolvido projetos que contemplam a música não comercial e de mais difícil acesso, tendo em conta os critérios da indústria cultural”, respondeu.

Como repertório de sua apresentação ele anuncia “um passeio pelo violão brasileiro, juntando patriarcas como [Heitor] Villa Lobos, [Ernesto] Nazareth, Radamés Gnatalli e figuras marcantes como João Pernambuco, Garoto e Paulinho da Viola. O programa mostra as relações de influência entre eles e registra mudanças rítmicas, harmônicas e sociais da vida brasileira”, antecipou.

Após sua participação no Sesc Amazônia das Artes, João Pedro Borges irá ao VI Festival de Violão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O festival acontece de 21 a 25 de setembro e, além do maranhense, terá concertos gratuitos de Marco Pereira, Turíbio Santos e Egberto Gismonti, entre outros.

Ney Matogrosso: um jeito de ser

Atento aos sinais. Capa. Reprodução
Atento aos sinais. Capa. Reprodução

Mais que o título de um disco, Atento aos sinais [2013] poderia ser uma espécie de slogan do cantor Ney Matogrosso, reconhecidamente um dos mais talentosos artistas da música brasileira, sempre aberto a novidades, apontando caminhos.

O artista pode ter suas paixões antigas entre os criadores a quem empresta sua voz, mas não deixa de dar voz a novos nomes e a outros que estão entre o primeiro e o segundo time. Prova disso é a presença, neste novo disco, de nomes como Lenine, Arnaldo Antunes, Vitor Ramil, Itamar Assumpção, Paulinho da Viola e Criolo, entre outros, nos créditos de letra e música.

O disco foi ensaiado nos palcos: lançado no finzinho do ano passado, foi testado antes em turnê do cantor. Incêndio, de Pedro Luís, pode soar óbvia, se lembrarmos das recentes manifestações de rua que tomaram conta do Brasil, mas a música, da extinta Ruge, já conta mais de 20 anos de idade. É par perfeito para a regravação de Rua da Passagem (Trânsito), parceria de Lenine e Arnaldo Antunes, lançada pelo primeiro há 15 anos.

O título do disco vem de verso de Oração (Dani Black) e há espaço para o bom humor em Samba do blackberry (Rafael Rocha e Alberto Continentino). A ilusão da casa (Vitor Ramil) é lírica exceção em repertório mais “quente” e mesmo a recriação do samba Roendo as unhas (Paulinho da Viola) ganha ares que fogem à tradição.

Como Maria Bethânia, Ney Matogrosso grava o que lhe dá na telha, sem que o resultado seja um monstrengo sem molho, liga ou alma. A unidade de seu disco é ele próprio quem dá. Mais que o título de um disco, Atento aos sinais é um jeito Ney de ser.

Paulinho da Viola: um belo show prejudicado pelo som

Alguns paragrafinhos sobre o show que Paulinho da Viola apresentou quinta-feira passada (22) em São Luís

Foto: Paulo Caruá
Foto: Paulo Caruá

 

Um set de samba cuidadosamente preparado pelo DJ Franklin preparava o terreno para Paulinho da Viola, que surgiria às 23h40 no palco do Patrimônio Show. Com a abertura, o show produzido por Ópera Night foi anunciado para 21h.

O público era menor do que supus, levando em conta a grandeza e importância de Paulinho da Viola e os 12 anos de sua última vinda à Ilha. A divisão entre pistas e mesas acabou não fazendo muito sentido, com nem um nem outro espaço lotando. Nos camarotes menos gente ainda.

Impossível não redundar e falar em elegância ao lembrar a subida de Paulinho da Viola ao palco, bastante aplaudido e atacando de Prisma Luminoso (parceria com Capinan), samba que deu título a seu disco de 1983.

Otávio Costa, querido amigo-irmão e leitor atento deste blogue, apostara que Paulinho da Viola abriria o show com Timoneiro (parceria com Hermínio Bello de Carvalho) – errou –, que acabou vindo em meio ao rosário de sucessos desfilado pelo artista. Não faltaram Ame (parceria com Elton Medeiros), Coração leviano, Coração imprudente (parceria com Capinan), Pecado capital, Foi um rio que passou em minha vida, Eu canto samba, Dança da solidão, Pra jogar no oceano, Argumento, No pagode do Vavá, Foi demais (parceria com Mauro Duarte) e Onde a dor não tem razão (parceria com Elton Medeiros), entre outras, em pouco mais de hora e meia de show.

Paulinho da Viola cantou em pé quase o tempo inteiro e durante quase todo o show tocou cavaquinho. Em Dança da solidão desistiu do violão – voltando ao cavaco – antes de a música terminar. No bis, mandou Sinal fechado e Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues), inteiras ao violão, para delírio da plateia.

O charme da voz de Paulinho da Viola foi bastante prejudicado pelo equipamento de som: de onde assisti ao show foi impossível ouvir qualquer coisa que ele disse, as histórias que contou entre algumas músicas. O que cantou era possível entender, sobretudo por conhecer-lhe a obra e ser capaz de assobiar algumas melodias.

“Não sou eu quem me navega/ e nem me navega o mar”, Bruno Batista ousou contrariar Paulinho da Viola, influência confessa, em sua Rosa dos ventos. Cantarolei-lhe este trecho ao encontrar e abraçar o compositor na plateia do outro. Conversamos rapidamente sobre seu show, em que lançará , semana que vem em São Luís.

Paulinho da Viola fez sua parte. As águas de maio continuam oferecendo obras-primas aos ilhéus. Que o 2014 em que o mestre completa 50 anos de carreira continue assim.

Paulinho da Viola faz única apresentação hoje (22) em São Luís

Última passagem do artista pela Ilha aconteceu durante o Festival Internacional de Música, em 2002

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

Paulinho da Viola volta à São Luís para um show depois de 12 anos de sua última apresentação na ilha – no Festival Internacional de Música que celebrou os 390 anos da cidade. O artista se apresenta hoje (22), no Patrimônio Show (Aterro do Bacanga), às 21h, acompanhado de sua banda: Beatriz Faria (vocal), Celsinho Silva (percussão), Cristóvão Bastos (piano), Dininho (contrabaixo), Hércules (bateria), João Rabello (violão), Marcos Esguleba (percussão) e Mário Sève (sax, flauta e clarinete). A abertura fica por conta do DJ Franklin, em um set de samba que dá pequena amostra de sua vasta vinilteca e de seu conhecimento profundo do assunto.

A elegância e a serenidade de sempre estavam impregnadas no homem que surgiu para a coletiva de imprensa com pouco mais de meia hora de atraso. Calça clara e camisa listrada, sequer havia almoçado, embora pouco se importasse com isso. Vanessa Serra, assessora de comunicação da produtora Ópera Night, disse-lhe que todos os que ali estavam, eram, além de jornalistas, seus fãs.

No lobby bar do Grand São Luís Hotel, que hospeda o príncipe do samba, o clima era de descontração. Às perguntas, o músico respondia calma e longamente, sem se importar que dali a pouco teria que sair para comer algo. De repente sua esposa advertiu: “Paulinho, o pessoal está querendo ir!”. “Que pessoal?” Ela se referia às equipes de televisão presentes, que precisavam captar sonoras e correr para o fechamento das edições. Não sem antes passar para gravar um pronunciamento patético do senhor prefeito sobre as chuvas que ora castigam a cidade.

O artista lembrou-se das origens, o início ao violão, as rodas de choro que ocorriam em sua casa, “humilde, modesta”, e de figuras como Jacob do Bandolim, a cujo Conjunto Época de Ouro seu pai, o violonista César Faria, pertenceu. Lembrou ainda a influência dos mais velhos, particularmente do pai, e a preocupação deste em o filho seguir seu caminho, além de gravações importantes que presenciou.

Com a elegância que lhe é peculiar, confessou-se atrapalhado com tantos flashes. Parecia perder o fio da meada. Uma pausa de um fotógrafo menos contido e continuou as histórias. Em meio às várias que contou, respondendo perguntas dos repórteres e emendando memórias – cantando e/ou chorando –, chegou a lacrimejar lembrando seu Zé Maria, seu primeiro professor de violão: “meu irmão encontrou-o muitos anos depois, se apresentou. Ele não disse nada. Simplesmente continuou o caminho, e falou: sabe por que o socialismo não vai dar certo? Por causa da vaidade do homem”.

Paulinho da Viola deu poucas pistas do repertório do show de hoje: mesclará suas obras mais conhecidas a repertório inédito. O artista tem gravados dois discos ao vivo ainda não lançados e esta turnê não terá registro. Tampouco haverá choro no repertório: “há tempos não toco; choro você tem que tocar todo dia, não dá para fazer de qualquer jeito. Mas preciso voltar, as pessoas cobram”. Alguma coisa de Lupicínio Rodrigues será lembrada, por conta do centenário de nascimento que o gaúcho completa neste 2014 – Nervos de aço batizou seu disco de 1973, com a gravação mais conhecida desta sublime dor de cotovelo.

Lembrei-lhe A obra para violão de Paulinho da Viola, disco que João Pedro Borges gravou em meados da década de 1980, com participação do compositor e de seu saudoso pai. Gravado pela Kuarup e distribuído como brinde a clientes de uma empresa mineira, o álbum nunca teve relançamento em cd. O maestro gaúcho Radamés Gnattali – com quem o maranhense tocou na Camerata Carioca – dizia ser quase possível falar em uma escola Paulinho da Viola do instrumento. Perguntei-lhe se não havia planos de relançar o disco.

“Eu falei com João algumas vezes. Como não existe mais a empresa que fez o brinde, aquilo [o disco] nos pertence. Eu pensei em mais uma vez conversar com ele, encontrá-lo agora [aproveitando esta sua passagem pela ilha] e a gente tentar fazer isso. Isso foi em 80 e pouco, 85, por aí. E ficou lá escondido, brinde, não foi vendido nem nada. Aconteceu um fato engraçado: uma violonista, não sei como, ouviu, e me procurou. Márcia Taborda. E disse: “olha, eu ouvi, tenho um amigo que tem o disco, e eu gostaria de saber se eu poderia fazer um trabalho com estas músicas”. E eu falei “claro”. Ela foi na minha casa algumas vezes e eu passei a maior vergonha, não estava encontrando as partituras e ela queria tirar algumas dúvidas comigo. E eu pegava o violão e algumas coisas eu não lembrava mais, foram muitos anos, e ali tem algumas músicas que não são muito simples, você precisa estar permanentemente tocando. E eu há muitos anos não tocava aquilo e passei uma vergonha [risos], eu tinha que me lembrar e dizer “foi feito assim”,    e algumas coisas eu tinha que voltar ao disco. Depois eu achei as partituras e ela gravou um disco [Choros de Paulinho da Viola, Acari, 2005] e gravou até outra música [Além das 10 faixas de A obra para violão de Paulinho da Viola, Marcia Taborda gravou Rosinha, essa menina, Escapulindo e Floreando]. Foi lançado comercialmente, um trabalho bonito que ela fez também. Mas este disco podia ser reeditado, é legal”, relatou.

Éramos poucos repórteres no recinto, mas além dos disparos de máquinas fotográficas, celulares tocavam vez por outra atrapalhando o fluir da entrevista. Paulinho da Viola manteve a elegância e a tranquilidade. Disse que propagava histórias justamente contando-as aos outros. Perguntei-lhe se não havia planos de escrever um livro. “Eu, até para escrever um bilhete para alguém, demoro. Escrevo, isso não está bom, apago, muda uma palavra. Leva tempo. Acho que não, eu escrevo mal”. Lila Rabello discordou. Eu também, e trechos de músicas de vários discos seus vieram-me imediatamente à cabeça. Um gênio manso e modesto.

Lembrei-me de Chico Buarque, que gravou sua Sinal fechado, dos grandes intervalos entre seus últimos discos – o que ocorre também ao autor do diálogo musical que virou símbolo de resistência à ditadura militar – e do tempo roubado àquele pela literatura. Paulinho da Viola disse que a relação com as gravadoras mudou, sobretudo com o advento da internet. “Qualquer um, com um equipamento não muito sofisticado pode obter, em um quarto, uma sonoridade que não conseguíamos em estúdios há uns anos. Isso realmente mudou toda a relação artística com o público, a distribuição de determinado produto. Eu gravo uma música, ponho na internet, posso não ganhar nada, ou ganhar de outro jeito”, declarou.

Alguns grandes nomes da música brasileira de sua geração agruparam-se no Procure saber, defendendo o veto às biografias. Sobre o assunto, ele é a favor da publicação sem a necessidade de autorização prévia. “Biografia tem que ser uma coisa aberta mesmo. Eu só não quero saber de fofoca”, afirmou.

A banda já tinha se mandado na frente. Paulinho da Viola, a esposa e a produção iam almoçar. Eu seguiria para outro compromisso. A pressa impediu-me de perguntar-lhe ainda sua opinião sobre as manifestações que tomaram conta do Brasil desde junho passado. Ele volta à São Luís para um show e encontra a cidade em meio a chuvas torrenciais, protestos diários e greves anunciadas para hoje, dia de seu espetáculo. Que seja como o título de um de seus choros: Inesquecível!

Lena Machado inaugura a série Amigos do Tira-Teima

O Tira-Teima em ação no saudoso palco do Bar e Restaurante Chico Canhoto, no projeto Clube do Choro Recebe

O Regional Tira-Teima completou 40 anos de atividades em 2013 e este ano planeja lançar seu disco de estreia, com repertório autoral e de grandes nomes do choro no Maranhão. O disco, ainda sem título, está sendo gravado no estúdio de Gordo Elinaldo e conta com arranjos de Ubiratan Sousa e dos integrantes do grupo.

São eles: Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro), Francisco Solano (violão sete cordas), Zé Carlos (percussão) e Serra de Almeida (flauta). O grupo já passou por várias formações, tendo figurado nos créditos do antológico Lances de Agora (1978), disco de Chico Maranhão gravado por Marcus Pereira na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís.

Dando prosseguimento à jornada comemorativa, o quinteto inaugura amanhã (31) a série Amigos do Tira-Teima. Revivendo os tempos de Clube do Choro Recebe, o grupo terá ao longo do ano diversos convidados especiais no palco. A primeira será a cantora Lena Machado, que noutras ocasiões já dividiu o palco com o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

O reencontro acontece às 20h, no terraço do Brisamar Hotel, lugar que faz jus ao nome e se configurou, há pouco mais de um ano, o palco regular do Regional Tira-Teima, com seu repertório de choro, todas as sextas-feiras.

Nesta, a participação de Lena Machado somará a Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth e outros grandes mestres, gênios da criação musical brasileira como Bororó (Curare), Paulinho da Viola (Para um amor no Recife), Cesar Teixeira (Flanelinha de avião), Josias Sobrinho (Terra de Noel), Candeia (Preciso me encontrar) e, entre outros, Argemiro Patrocínio, cuja Amém cantará em dueto com Zeca do Cavaco.

A noite promete. E esta frase pode ser lida no plural, já que a lista de amigos do Tira-Teima é grande.

Chorografia do Maranhão: Zeca do Cavaco

[O Imparcial, 21 de julho de 2013]

“A vida é a arte do encontro”, já ensinava o centenário Vinicius de Moraes. 11ª. entrevista de Chorografia do Maranhão marcou o encontro casual de Cesar Teixeira com um dos seus maiores intérpretes, Zeca do Cavaco, entrevistado pelos chororrepórteres no quiosque-bar de Dona Lulu, em pleno burburinho da Feira da Praia Grande

 

TEXTO: CESAR TEIXEIRA, RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

“A resistência Tira-Teima se apresenta toda sexta-feira no Brisamar Hotel, na Ponta d’Areia. Começa às 19h30min e vai até 22h30min”, anuncia Zeca do Cavaco, indagado, a quem interessar possa, quando e onde vê-lo e ouvi-lo.

A 11ª. entrevista da Chorografia do Maranhão foi marcada por uma feliz coincidência: na Barraca do Corinthiano, na Feira da Praia Grande, combinaram os chororrepórteres de se encontrar. Ali encontraram, bebendo uma “temperada”, o jornalista e compositor Cesar Teixeira, que acabou somado ao time.

“Se fosse combinado não daria certo”, afirmou Zeca do Cavaco, cumprimentando o ídolo confesso, de quem é, depois do próprio, o maior intérprete, na opinião modesta da chororreportagem.

A ideia era procurar, naquela quinta-feira abafadiça, um ponto silencioso na Casa das Tulhas, ou ir entrevistar o cavaquinho centro do Regional Tira-Teima noutro ponto da Praia Grande.

Nem tão silenciosa assim, acabaram conversando no quiosque-bar de dona Lulu, feirante simpática que regou a ocasião com cervejas geladas, como era merecido.

José Cândido dos Santos Silva, o Zeca do Cavaco, nasceu em São Luís em 11 de março de 1960. Mais precisamente no Monte Castelo, bairro em que começou a formar-se o chorão que não se considera. É filho dos já falecidos Jaime de Oliveira e Silva, militar, e Carmina Maria dos Santos Silva, doméstica.

Ao longo da entrevista, Zeca do Cavaco ainda tocou Sapo já foi na Lua (Cesar Teixeira), Adeus, batucada (Sinval Silva) e Das cinzas à paixão (Cesar Teixeira). Ao final, Zeca e Cesar, com este ao cavaquinho, cantaram juntos Folhas secas (Nelson Cavaquinho).

Além de músico, você tem outra profissão? Sou engenheiro eletricista de formação, é com o que sustento a família, é minha profissão. A música é minha paixão.

Quando começou essa paixão? Eu fui aluno da antiga Escola Técnica, depois Cefet, hoje Ifma. Lá, em 1976, eu tinha um irmão, já falecido, ele ouvia muito choro, Nelson Gonçalves, Paulinho da Viola. Aquilo ali já acendeu em mim o gosto por aquele tipo de música, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim… Foi ali que eu tive contato com o disco Vibrações, do Jacob, aquela maravilha de disco, e por aí vai. Ele tinha alguns amigos que já mexiam com música e a gente sempre estava perto. Mas, na verdade, comecei ouvindo. Depois é que comecei a conhecer as pessoas. Na [rua] Raimundo Correia, eu tinha um amigo, Zé Carlos, hoje pandeirista do Tira-Teima, ele fazia parte de um grupo em que ele tocava com [o violonista] Mascote. Eles tinham uma roda de samba na Vila Passos e o Mascote descia da Vila pro Monte Castelo, ali pra Raimundo Correia e iam tocar. E ali eu ia vê-los tocando e me admirava daquilo. Só ouvia e me arriscava uma coisa ou outra ao violão.

E quando foi que você começou a pegar em instrumento e a cantar? Ali já com 17 anos, em 77, eu comecei a pegar o violão e fazer ali os primeiros acordes, aquela coisa de principiante… A casa do sol nascente [The house of the rising sun, cuja versão em português teve intérpretes como os Agnaldos Rayol e Timóteo].

Você teve algum professor? Nenhum.

Sempre autodidata? Sempre autodidata. Mais tarde, com o conhecimento do choro, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, ouvindo muito, é que eu me apaixonei pelo cavaquinho. Aí eu comecei a dar as primeiras palhetadas, e não parei mais. Daí pra frente fui só conhecendo as pessoas e olhando. A primeira oportunidade que me deram de participar de um grupo, não de choro, de samba, em que se tocava Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Noel Rosa, foi Mascote. Finado Mascote. Quem conhece a Vila Passos conhece Mascote, tocava violão de seis cordas, vocalizava, era uma figura! E ali tinha um cavaquinhista conhecido nosso, o Raul, que por um motivo ou outro se afastou do grupo. Aí Mascote me chamou. Eu ali ainda com três acordes, quatro acordes, fui pra casa dele, e ele começou a me passar coisas, acompanhamentos. Ali foi o começo.

Em teu universo familiar, além do teu irmão, teus pais te incentivaram à música? Nenhum incentivo. Só comigo mesmo.

Mas também nenhum desincentivo… Não, não. Nenhum. Eu aprendi olhando, arriscando, ouvindo. Às vezes a gente começa a pegar as informações e, de repente, cria uma própria personalidade instrumental, vamos dizer assim. Ninguém toca igual a ninguém.

A que se deveu a escolha pelo cavaquinho? A escolha pelo cavaquinho se deveu, e se deve, não é?, ao meu contato com o chorinho, o conhecimento que eu tive. Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, esses discos, e outros discos de cantores que se acompanhavam de regionais, como Nelson Gonçalves, Paulinho da Viola e outros.

Você já tinha conhecimento do Regional Tira-Teima? Não. Eu tive conhecimento do Tira-Teima através de um disco do Chico Maranhão chamado Lances de Agora. Aquele disco pra mim também foi um grande professor. Eu escutava muito e olhava naquele encarte Adelino Valente, Ubiratan Sousa [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Paulo Trabulsi, Chico Maranhão, Vanilson, um flautista que foi embora daqui. Então ali eu lia Tira-Teima, mas só muito tempo depois é que eu fui ter contato com Paulo Trabulsi, a primeira pessoa do Tira-Teima com que eu travei amizade, conhecimento, por conta da música.

O Tira-Teima parece uma referência para o choro no Maranhão. Você concorda? O Tira-Teima é uma referência e mais importante: é uma bandeira. É uma baita de uma bandeira. Os grupos se formam, se reformam, várias formações, e o Tira-Teima está lá. Nós, enquanto Tira-Teima, eu vou falar por mim e pelos outros, a gente tem essa responsabilidade e sabe que tem. Daí o grupo não se desfaz, se renova, e está aí.

Nós já entrevistamos Ubiratan, que é de uma das primeiras formações do grupo, e já entrevistamos Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], da formação atual. Ambos falaram do processo de gravação do primeiro disco do Tira-Teima, até que enfim. Vocês vão deixar essa bandeira hasteada ou vão deixar a bandeira arriar? Não, a bandeira está hasteada. Já se tentou hastear várias vezes, já se chegou a meio mastro, aí bate o vento. O mastro tá fincado e a bandeira tá amarrada, é só uma questão de deflagrar o processo. Não tem mais volta: o Tira-Teima tem que fazer um registro!

Quem é o instrumentista que mais te influencia? Eu, particularmente, sou assim apaixonado por um sambista, que é o Paulinho da Viola, eu escutei muito, tem em mim muito da influência dele.

Ele é sambista e chorão. Sambista e chorão, uma grande figura da música brasileira.

Zeca, você já falou de sua porção instrumentista, primeiro o violão, depois o cavaquinho, que te deu sobrenome artístico. E o canto, quando foi que você começou a cantar? A história do intérprete já vem depois. Eu só vou completar um pouco mais para não cometer o pecado de não esquecer alguém ou alguma informação. Naqueles encontros da Vila Passos foi que eu conheci Solano, ele também começando no violão de sete cordas. A gente se identificou, ele gostava muito do Cartola e eu já cantava um monte de coisas do Cartola, eu tinha dois discos e cantava os dois de cabo a rabo, e por isso a gente travou uma amizade. Vamos voltar para a Raimundo Correia. Lá, no bairro do Monte Castelo, eu conheci ainda uma figura ímpar: seu Zé Hemetério. Eu conheci o Gordo Elinaldo, sete cordas, e por conta de Gordo eu conheci Zé Hemetério, que era professor dele. Pra lá desciam Biné Gomes, filho de seu Nuna Gomes, Bastico, e se criou ali uma forte célula de choro. Começaram a aparecer o bandolinista Carequinha, que tocava com o violonista Luiz Sampaio, depois apareceu Paulo Trabulsi. Ali foi um negócio forte de choro, e de samba. Mas nós estamos nos atendo mais ao choro.

Era o quê? Era uma quitanda? Era um bar, chamado Ângelo. O quê que era o Ângelo? Era um carioca, que tinha um restaurante de luxo lá no Calhau. Ele talvez tenha sido pioneiro nessa história de você entrar no restaurante, tem aquele moço de terno, tinha um piano-bar. Mas, por um motivo ou outro, ele faliu. O nome do restaurante era D’Angels, salvo engano. Ele saiu da elite e veio para a Raimundo Correia, alugou um negócio ali e botou um boteco fino, a que não estávamos acostumados. Ali se reuniam as pessoas. Mais tarde o professor Zé Luiz [saxofonista] começou a frequentar também, já trazia [o violonista] Luiz Jr., garoto, acompanhava [a cantora] Virna Lisi, irmã dele. Aos sábados se reunia aquela roda: Gordo, Biné, Solano, Chiquinho, um violonista sete cordas que já se foi… às vezes Agnaldo [Sete Cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Então, virou aquela coisa.

A gente falou do primeiro disco do Tira-Teima e sabemos que algumas faixas serão cantadas. É por que no Tira-Teima a gente sempre trabalhou assim, a nossa cara é essa: a gente toca o choro, executa o choro e canta o choro, por que tem os choros cantados. A gente é isso. Eu vou cantar duas, Léo Capiba vai cantar duas, e o resto choros autorais, de Paulo, Solano, seu Serra [de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] da flauta.

O disco do Tira-Teima é importante, mas não vai suprir tua porção cantor. E teu disco? Eu quero gravar só inéditas. As pessoas regravam, tudo bem, é importante. Mas quero fazer com 10 músicas, gravando só inéditas. Já pedi música pra Cesar, estávamos até conversando sobre isso. Vai haver. Vamos fazer o registro.

Você já viveu de música? Já. Uma época da minha vida os dividendos da música eram muito bem vindos. Mas já passou e tá tudo certo.

De que grupos você já participou? Do regional de Mascote, um grupo que foi formado por mim, Biné Gomes, Gordo Elinaldo e Zé Carlos, que o Biné colocou, naquela impetuosidade dele, “Conversa de Gente Grande”. Ele botou esse nome, a responsabilidade é dele [risos]. Depois a gente formou outro grupo, eu, Gordo Elinaldo, Zé Hemetério, que ora tocava o bandolim, ora tocava o violino, e pela percussão ora passava o Marciano, ora Zé Carlos. Não nomeamos esse grupo, mas tocamos muito.

Existem sambistas que te influenciaram a cultura musical daqui do Maranhão? Cristóvão Colombo da Silva, Antonio Vieira, eu estou do lado de outro, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Chico Saldanha. Essa turma já deu muito de si pra gente, e ainda tem muito que dar. Tá todo mundo trabalhando a música.

Este parece ser um momento interessante para o resgate de alguns nomes esquecidos de nossa música, além de Cristóvão, como Luís de França, Veríssimo, Sapinho, entre outros, por meio do seu trabalho. O que você acha? Eu lamento não conhecer, até por que eu não sei nem se existe esse material ou se está só na memória de algumas pessoas. Eu realmente não sei onde beber dessa fonte, eu não sei onde está essa fonte. Mas se soubesse seria uma coisa sensacional.

Vamos trabalhar em cima disso? Vamos! Conheço todos de nome, mas não sei onde buscar.

E para disco, shows e o repertório cotidiano, tocar em casa, nas casas dos amigos, qual é a fonte em que você bebe? Como eu ouço muito, já há muito tempo, eu geralmente bebo lá atrás. Ano passado, na época do mês de aniversário de Noel Rosa, eu fiz um projeto chamado Dezembro de Noel, e eu gosto muito de Noel, então, eu achava que sabia alguma coisa de Noel Rosa. Quando eu fui pesquisar, é muito… É uma coisa assim, entendeu? Conseguimos mostrar. Quem sabe nesse dezembro agora a gente não repita? O show está ensaiado, todo bonitinho, todo escrito. A fonte que eu bebo é essa, são os grandes sambistas, os artistas de música popular brasileira. Eu não ouço só samba, eu ouço tudo, choro, todos os ingredientes.

Há gente da nova geração que te chame a atenção? Tem. Não sei se a gente pode chamar de nova geração. Por exemplo, eu não falo mais em nível local, não se fala mais em MPM, a gente até aboliu isso, né? Cesar Teixeira, Josias Sobrinho… A gente tem certo, eu não diria nível de exigência, mas um gosto, que a gente acha que é bom gosto. Mas a gente é um pouco seletivo. Está se fazendo muita coisa por aí, adoidado, com aquela sede de chegar ao sucesso. Há quem me chame a atenção como intérprete, como compositor, não. Ou estou ouvindo pouco o novo.

E quem te chama a atenção como intérprete? De samba, de cantor de samba… de cantora, por que o Brasil é um país de cantoras. Se você vir, estão surgindo várias cantoras. Roberta Sá é um bom gosto, Mariene de Castro, Mariana Aydar.

De que discos você participou? Eu participei de um disco, lá atrás, do Serrinha & Cia. [Na palma da mão], eu gravei a música de Cesar, Das cinzas à paixão. Eu acho que a música se tornou conhecida ali, eu fui muito feliz, as pessoas gostaram, começaram a cantar. Eu participei de um disco, Antoniologia Vieira [vários intérpretes cantando músicas de Antonio Vieira], produzido pelo Adelino Valente, cantando uma música chamada Vou pro mar. Isaac [Barros] me chamou pra cantar um samba num disco dele, o Samba pra Rosana.

Existe uma aura positiva, um espaço para o samba do Maranhão? Existe um coração mais coletivo ou as pessoas continuam trabalhando o samba individualmente? Eu acho que hoje a gente está carente desse espaço, o Tira-Teima que o diga. Antigamente a gente saía, procurava um bar, sentava ali, e tocava o samba. Tá aqui, o exemplo está acontecendo aqui [aponta na direção de onde vem a música brega que, tocada em alto volume, ocupa as barracas próximas]. Então hoje, a gente se sente bem na casa da gente, na casa de um amigo, onde a gente sabe que as pessoas vão acolher a nossa música, o nosso jeito de tocar, o nosso repertório. Fora isso…

Pra você, o que é o choro e qual a importância desse gênero para a música brasileira? Eu costumo dizer que o choro nunca foi sucesso. A origem do choro, se a gente for buscar uma origem histórica que vocês conhecem, começa com a invasão portuguesa. Historicamente é isso, todo mundo conhece. Nunca foi sucesso, nem no tempo em que se vendiam partituras na feira, Antonio Calado, Chiquinha Gonzaga… Olha de onde viemos e onde chegamos! Nunca foi sucesso, por que naquela época era discriminado e rechaçado, nunca vai ser sucesso, mas sempre vai ser eterno. Pode até ser chamado de gênero marginalizado, no sentido de que está sempre ali à margem, passa ali aquele monte de coisas que vão, criam mais um ritmo, mais um sucesso, e vão embora. E o choro tá ali. Quero lembrar uma época, faço um filme, uma novela, uma série de época, aí vão buscar os chorinhos, tudinho.

Nunca vai ser sucesso e sempre foi à margem. Então qual a tua pretensão ao fazer choro? Nenhuma. Só perpetuar a música, só continuar trabalhando essa coisa, para ela continuar ali. É eterno, vai embora. E o que tá aqui pelo meio, o turbilhão de sucessos, vão e vêm, vão e vêm, e acabou.

Como é que você percebe o choro hoje no Brasil? Mudou um pouco. Evoluiu. O choro tinha aquela formação tradicional, cinco, seis músicos, às vezes dois violões. Começaram a se formar os músicos virtuoses e o choro foi evoluindo com isso. Antigamente a gente tocava Doce de coco [de Jacob do Bandolim] com um regional de seis pessoas. Hoje os músicos, graças a Deus, evoluíram tanto, que hoje se juntam dois e tocam tudo. Evoluiu nesse sentido.

Você se considera um chorão? Não, eu sou uma pessoa que gosto de choro.

Você é um cavaquinhista centro. Qual é o cavaquinhista que mais te influenciou? A gente toca, a gente é uma mistura, uma reunião de um monte de coisas. Tive a influência de Paulinho da Viola, Jonas [do Conjunto Época de Ouro]. Escutei muito aqueles discos de Jacob do Bandolim, Época de Ouro, muitos sambas de Paulinho da Viola. Hoje eu gosto muito do centro de Luciana Rabello, muito bonito, também. Essas pessoas todas me influenciaram.

Algum jovem da nova geração do choro que te chama a atenção? Vários. Hamilton de Holanda, Danilo Brito. Violonista a gente tem vários, o próprio Yamandu Costa, Alessandro Penezi, que a gente teve a oportunidade, enquanto Tira-Teima, de abrir o show que ele fez no Barulhinho Bom, Marcelo Gonçalves, e por aí vai. Mas a gente tem aqui também nossa resistência, nossos virtuoses, Solano Sete Cordas, Gordo Elinaldo, Paulo Trabulsi, [João] Neto da flauta, João Eudes, Luiz Jr., Robertinho [Chinês, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell, Tiaguinho.

Existe choro maranhense? Um repertório de choro maranhense? Ou é tudo muito ocasional? Acho que a gente ainda não pode dizer isso, ainda não podemos dizer isso, mas vai ter. Tem choros de ocasião, alguém faz ali, outro faz aqui, mas acho que daqui pra frente a gente vai ter. Já se começou a trabalhar nesse sentido. O Zezé Alves [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] produziu um livro de partituras, com um disco. É uma iniciativa brilhante e considero aquilo um começo, outras virão. Começou o caminho. Daí a ideia do Tira-Teima de fazer um disco todo autoral.

Quando você chegou, cumprimentou Cesar Teixeira como um ídolo, que também é nosso. Em que ocasião você o conheceu? Na verdade eu comecei a conhecer Cesar através de suas músicas, conheci sua arte. Muito depois a gente começou a travar, a conviver etilicamente, se encontrar, conversar, tocar. Uma vez eu fiz no antigo projeto Clube do Choro Recebe um show cujo repertório era de Cesar e Noel, uma de cada. Cesar é importante, tudo o que ele faz é maravilhoso.

Teresa Cristina cai no bom rock

Cantora uniu-se à banda carioca Os Outros e dedicou disco ao universo poético na obra de Roberto Carlos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Não é a primeira vez que Teresa Cristina dedica um disco inteiro à obra de um compositor. Sua estreia, em 2002, com o Grupo Semente, se deu em A música de Paulinho da Viola, disco duplo em que passeou pelo repertório do portelense.

Há pouco mais de 10 anos ela foi figura de proa na redescoberta do samba a partir da Lapa, bairro carioca que deu ao Brasil diversos outros talentos do gênero. Teresa Cristina seria rotulada como sambista – ou cantora de samba –, limite que quase nunca coloca, por exemplo, Paulinho da Viola entre nossos grandes compositores. Como se o samba fosse coisa menor.

A intérprete não precisava provar nada para ninguém, mas, versátil, mostra que é bem mais que sambista ao dedicar um disco inteiro à obra de Roberto Carlos. Ou, antes, ao universo “real”, já que não se limita a composições dele, solo ou em parceria com Erasmo Carlos.

Roqueira – A fórmula é conta que fecha certeira: Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deck, 2012) passeia por um repertório que o faz fugir do óbvio, a começar por “transformar” a cantora em roqueira. Pela ousadia é um disco tão ou mais importante que As canções que você fez pra mim (1993), que Maria Bethânia dedicou ao repertório do ídolo da Jovem Guarda, para ficarmos em um exemplo mais ou menos próximo.

Com um disco lançado – Nós somos os outros (Bolacha Discos, 2006) – a banda carioca acompanha Teresa Cristina ao longo de 14 faixas, que viraram disco de estúdio após o encontro dela com o quarteto para um show em homenagem a Roberto já há alguns anos. O vocalista Botika canta solo em Você não serve pra mim (Renato Barros). Além dele, Os Outros são Eduardo Sodré (guitarra), Rafael Papel (guitarra) e Vitor Paiva (baixo e ukulele).

Yuri Villar (sax tenor, sax soprano, flauta e triângulo), Ricardo Rito (teclado e sanfona) e Antonio Neves (bateria) completam a “cama e mesa” de Teresa Cristina, garantindo o ar roqueiro e jovem-guardista do disco – embora o repertório se concentre na fase entre o “movimento” e o romantismo mais desbragado que culminaria na novelesca e comercialíssima Esse cara sou eu.

Aos descontentes com o Roberto de hoje em dia, um disco para ser ouvido sem susto: a música mais nova é Cama e mesa (1981). Emoções, do mesmo disco, por exemplo, ficou de fora, como Detalhes (1971), do disco em que foram pescadas Como 2 e 2 e I love you. A quem o acha datado, não o conhece, ou conhece apenas dos especiais de fim de ano na Rede Globo, este disco é ótima introdução, um rebobinar competente de parte importante de sua obra.

Escoltada pelOs Outros, Teresa Cristina mostra versatilidade em homenagem a Roberto Carlos

Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos: repertório

1. Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos), 1976
2. A janela (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1972
3. Como 2 e 2 (Caetano Veloso), 1971
4. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1973
5. O moço velho (Sylvio Cesar), 1973
6. Do outro lado da cidade (Helena dos Santos), 1969
7. O portão (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974
8. Você não serve pra mim (Renato Barros), 1967
9. Quando (Roberto Carlos), 1967
10. Nada vai me convencer (Paulo Cesar Barros), 1969
11. Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1981
12. I love you (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1971
13. As curvas da estrada de Santos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1969
14. Despedida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974

[O Estado do Maranhão, 21 de junho de 2013]

Chorografia do Maranhão: João Pedro Borges

[O Imparcial, 14 de abril de 2013; aos poucos mas fieis leitores do blogue um bonus track: a versão abaixo traz algumas perguntas e respostas que ficaram de fora da edição do jornal, embora isso ainda esteja longe de ser a íntegra da deliciosa conversa que Ricarte Almeida Santos e este que vos perturba tivemos, fotografados por Rivânio Almeida Santos, com o mestre João Pedro Borges, um papo longo em uma noite de segunda-feira; o violonista fala como professor que é, fazendo questão de deixar tudo bastante explicado para que não restem dúvidas aos alunos; orgulho de ter aprendido essa lição.

Este post é dedicado a Maria Pepê, cunhada de Sinhô]

Quarto entrevistado da série, João Pedro Borges é um dos mais importantes nomes do violão, do choro e da música brasileiros. Seu talento é reconhecido internacionalmente

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

João Pedro da Silva Borges nasceu em uma vacaria, espécie de pequena fazenda, onde hoje fica o edifício Clara Nunes, “olha que grata coincidência”, no Apicum, região central da capital maranhense, em 23 de junho de 1947. O apelido Sinhô ganhou da avó: “Minha avó, mãe do meu pai, eu nascendo numa fazendinha, nasceu o Sinhozinho, nossa herança coronelesca. Era o Sinhô, Sinhozinho. Aí pronto, pra distinguir dos outros irmãos, que eram muitos [onze], era Sinhô e acabou-se”.

Filho de Raimundo Felipe Borges e Marina Silva Borges; a mãe, professora normalista, o pai, técnico em eletrônica, especialista em rádio e televisão, um empreendedor que chegou a ter gráfica, trabalhava com o avô na Livraria Borges, de propriedade da família, a maior da São Luís da época, quando o menino João Pedro nasceu.

Ele é um dos maiores violonistas brasileiros em todos os tempos e participou de um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca do gaúcho Radamés Gnattali, com que o maranhense chegou a gravar discos e fazer diversas apresentações Brasil afora. Seu talento é hoje reconhecido internacionalmente e o disco mais recente, Clássicos Latino-Americanos, foi gravado em 2005, em uma igreja na França.

Wilson Marques concluiu recentemente um perfil seu para uma coleção que pretende publicar em breve. Para a construção do livro, entrevistou o próprio João Pedro Borges além de figuras próximas, como Chico Saldanha, Arlete Nogueira da Cruz e Sérgio Habibe, entre outros. “É ele contando a história dele, não é uma minuciosa biografia, mas sobretudo um registro de sua trajetória e da importância do trabalho dele para a música brasileira”, adiantou o jornalista.

João Pedro Borges conversou com O Imparcial/ Chorografia do Maranhão no Chico Discos, acompanhado, na decoração do ambiente, de diversas personalidades da música: algumas delas ele chegou a conhecer pessoalmente e são citadas por ele ao longo da conversa.

Quando foi que tu percebeste que teu negócio era a música? Eu sempre tive certos indícios de sensibilidade. Por exemplo, eu ganhei, por ocasião de um natal, um violãozinho de plástico, e aquilo era o brinquedo que mais me encantava. Então eu simulava cantar com aquilo, com o passar do tempo eu buscava alguma forma de afinação. Lembro que na minha infância passava um deficiente visual numa carroça puxada por um burro, conduzida por um ajudante que provavelmente era filho dele, e tinha a peculiaridade de que este senhor  tocava cavaquinho. Então, eu guardava dinheiro pra ter o que levar pra ele, por que quando a gente chegava, ele dizia “a pedido é mais caro”. Lembro que quando ganhei esse pequeno violão eu queria imitar um pouco o homem cego que passava lá na minha rua, quase que todos os dias. Mas só mais tarde [consegui], meu padrinho José Silva foi meu primeiro professor de violão. Ele fazia parte da velha guarda das pessoas que lidavam com o choro. Foi ele o meu vínculo com o choro, era violonista, compositor. Ele era irmão adotivo, por afinidade, do famoso professor Custodinho, Custódio Zaqueu Coelho, que eu considero o grande violonista do Maranhão, anterior a[o violonista] Turíbio [Santos], por exemplo, como geração. Era um violonista extraordinário. Cheguei a ter aulas com ele.

A tua escolha por ser músico contou com o apoio da família? De uma parte da família, que me incentivou. Tinham muitos saraus na minha casa. Sistematicamente tinham reuniões de violonistas, de músicos na minha casa, onde o repertório era basicamente choro de violão. Esse meu padrinho era um pintor de paredes, mas era um homem autodidata, de uma intelectualidade muito grande, tinha um conhecimento extraordinário. Ele foi a primeira pessoa que me falou da cultura musical brasileira. Os personagens que ele citava para mim eram Pixinguinha, Ernesto Nazareth, falou de Agustín Barrios quando passou aqui, ele era amigo do pai de Turíbio, que era seresteiro, e frequentava um pouco esse grupo, que a gente chamava os velhos, na época. Nessas reuniões meu padrinho notou meu interesse em ficar ouvindo aquilo. Aí ele perguntou se eu não queria tocar violão e eu disse “quero!” Ele disse “então eu vou te ensinar”, e me ensinou um choro. Eu não comecei por acordes, fazendo assim, ele botou a minha mão e me ensinou um choro chamado Mariazinha [toca trechos ao violão, não sabe dizer a autoria]. Esse choro tem uma peculiaridade formal [fala enquanto continua tocando]: é que ele tem três partes, todas no mesmo tema, ele é uma síntese da forma do choro.

O choro, durante muito tempo, os músicos tocavam por diletantismo. Tinham geralmente outra profissão e tocavam choro nas horas vagas para se divertir e às vezes, como desenvolviam muita capacidade, habilidades, acabam se tornando músicos conhecidos, consagrados, mas não eram profissionais da música. Você é um profissional da música, vive de música, sempre viveu de música?Isso faz diferença? Sim. Faz diferença. Quer dizer, em termos. Se a gente levar em consideração que Jacob do Bandolim era escrivão, César Faria trabalhava numa repartição, há que se levar em consideração aí que há um impulso por detrás desse aparente amadorismo. Quer dizer, eles tinham profissões que lhes davam sustentação, mas grande parte da atividade deles era exercida em torno do choro. A diferença é a seguinte: uma carreira de concertos não é uma carreira convencional, é algo que vive de oportunidades que se inventam, que são criadas. Por exemplo, os concursos de violão são uma forma de atrair a atenção para jovens, têm limite de idade. Eu fui por outro caminho alternativo, me beneficiei da companhia dos meus professores. Depois de um ano que eu estudava com Jodacil Damasceno, ele me tornou assistente dele, eu tive como alunos Dori Caymmi, Guinga, Marlui Miranda, Durval Ferreira, Miltinho do MPB-4. Depois Turíbio me convidou para montar um curso no Rio de Janeiro.

Eu queria que tu contasse um pouco de tua participação em uma banda cover dos Beatles. Tinha a vizinhança próxima com os Saldanha, na Rua de São Pantaleão, Ubiratan Sousa, que gostava muito de choro, foi quem me falou pela primeira vez da bossa nova, me mostrou uns acordes e aprendia comigo a linguagem do choro, aquelas baixarias, que eu era especializado por conta de meu padrinho, que era craque na área. Nessa época surge a televisão por aqui e os irmãos Saldanha, principalmente o mais novo, Nena, falavam bem inglês. E surgiu essa coisa da televisão e todo mundo encantado com a música dos Beatles. Então eles fizeram um conjunto em que eu era apenas o acompanhador. Eu não aparecia no vídeo, e ficava com um violão de cordas de aço poderoso que eu tinha, que parecia uma guitarra, e acompanhava só com esse violão todo mundo. Era Francisco Saldanha, Nena, o Antonio Saldanha, Benedito, que eu não lembro o sobrenome, estudava também no Liceu, Chico Linhares, o Francisco Linhares, que também morava na Rua de São Pantaleão, Edson, também não me lembro o sobrenome e eu acompanhando. Mudou essa formação. Entra Ubiratan nesse conjunto, que muda de nome, de The Five Gems para Os Rebeldes, e ficamos vinculados à televisão, inicialmente através dos programas de Reinaldo Faray. Tava começando a Difusora.

Depois tu ajudaste a fundar a Escola de Música do Estado, que surge no momento em que uma nova geração de artistas começava a produzir com base nas linguagens da cultura popular. E eles tinham a esperança de que a Escola de Música pudesse ser a continuidade de um processo de absorção dessas linguagens, numa escola de identidade mais maranhense? Tinha esse desejo? Como é que era isso na época? A responsável intelectual por todo esse movimento é [a poeta e ex-secretária de Estado da Cultura] Arlete Machado. Foi ela quem concebeu e encomendou o plano da Escola de Música. O que aconteceu foi o seguinte: os primeiros professores, quer dizer, eu vim em 1974, da África, diretamente para cá para São Luís do Maranhão. Criou-se essa escola de música, a primeira diretora é nossa melhor pianista de todos os tempos, Maria José Cassas Gomes, e o resto eram professores que vieram de fora. Era Clemens Hilbert, um alemão que dava cursos de extensão nos seminários de música da ProArte, lá por Teresópolis. Tinha outro professor chamado João Solano, que era um pianista que também estudava relações internacionais, queria ser diplomata. Veio daqui do Ceará um pianista chamado Flávio, não me lembro agora também do sobrenome dele, mas um excelente músico, pianista, e Gilles Lacroix, que chegou a dar aula de música, de teoria musical, tempo em que ele estava se decidindo a largar a batina. Nesse contexto a Escola de Música foi organizada, ali no Apeadouro, e os primeiros candidatos que surgiram, por exemplo, [o compositor] Sérgio Habibe, que trabalhou também um tempo como funcionário lá da escola. Então surgiu [o compositor Giordano] Mochel, Zé Martins, Josias [Sobrinho] e [o compositor] Cesar Teixeira, sempre a gente tendo aquele cuidado de que eu não queria descaracterizar o trabalho deles, mas eles estavam em busca de formação. Eu tinha um discurso de fundamentação. Dizia “até para você fazer bem essas coisas nossas, você precisa de recursos, de técnica”. Sérgio Habibe é um caso flagrante de ter mudado o nível de composição a partir do estudo, ele próprio reconhece isso. Josias Sobrinho foi o meu melhor aluno de harmonia, eu dei um curso pra ele de harmonia aplicada ao violão. Eram alunos dedicados. Eu forneci uma espécie de subsídio pra eles, mas sempre com a recomendação, dizendo “olha, vocês não têm que estudar pra serem músicos eruditos, nem nada, é pra melhorar o que vocês estão querendo fazer”. Naturalmente da parte deles devia haver certas expectativas políticas, por que o movimento pra eles não era só artístico. Pra mim era um movimento artístico, pra eles era político.

Lá no Rio você teve uma convivência com uma nova geração de chorões, com gente da antiga, e você vivenciou o momento de renovação do choro, ali da virada dos anos 70 para os anos 80, convivendo ali com nomes como Paulinho da Viola, com a Luciana [Rabello], com a turma dOs Carioquinhas, Radamés [Gnattali]. Conte um pouco dessa história. Eu passei a ser habitué de todos os saraus que o Jodacil participava. Tinha um amigo nosso chamado Tonzinho, que na realidade é Milton Borges, eu chamava até ele de parente, morava em Niterói, tinha sido amigo pessoal de Jacob, de Six e de Jonas, e através das idas de Six ao Rio de Janeiro nós fomos parar um dia na casa desse Tonzinho e lá ele reunia Abel Ferreira, Copinha, Arthur Moreira Lima passou por ali, Paulinho da Viola, tudo o que era do choro, Ronaldo do Bandolim com os irmãos. O Raphael Rabello, que eu conheci tocando junto com Turíbio, tinha 12 anos, travou logo amizade comigo, tocava, tinha uma formação bem consolidada de música e ele tinha o que eu gostava, tudo em quanto dizia respeito ao choro tava consolidado na cabeça dele, não tinha que aprender nada. Ele era herdeiro de toda a tradição do Dino [Sete Cordas] e do Meira [Jaime Florence], que foi o grande professor dele, professor do Baden [Powell]. O Raphael, um dia assim, disse “olhe, aniversário da Nara Leão, nós vamos lá na casa dela, e eu queria te levar por que eu tenho uma pessoa que eu quero te apresentar”. Aí me apresentou pro Joel [Nascimento], estávamos tocando, quando ele me viu tocar, disse “olha, nós estamos iniciando um trabalho”, não existia esse nome, Camerata [Carioca], isso veio depois, “de tocar uma suíte que o Radamés tá transcrevendo”, acho que nem todos os movimentos ainda estavam transcritos, só tavam os primeiros, “você não gostaria de participar?”, e eu “gostaria”. Marquei um ensaio com eles, acho que na minha casa, e me encantei com o trabalho, aí começamos a montar a Suíte Retratos. A partir dessa nova abordagem com o choro, os saraus começaram a mudar de feição, num determinado momento eles abriam espaço, “vamos ouvir a rapaziada”, e ficavam encantados com aquilo. E aí esse trabalho começou a chamar a atenção, por que a gente começou a montar um espetáculo chamado Tributo a Jacob do Bandolim, foi considerado o melhor espetáculo de 79 no Rio de Janeiro.

Tu tens uma vasta discografia, tocando, integrando a Camerata Carioca, fazendo Valsas e Choros [1979] e Choros do Brasil [1977]… [interrompendo] Com Turíbio eu tenho três discos. Choros do Brasil foi o primeiro, Valsas e Choros, depois tem o Violão Brasil [1980], que a gente fez para um projeto, por que nessa época, disco instrumental dependia também muito desses projetos que eram feitos pra dar brindes de empresas. Por exemplo, eu gravei a obra de Paulinho da Viola [A obra para violão de Paulinho da Viola, 1985], não quisemos nem eu nem Paulinho editar comercialmente, por que sabíamos que os acordos não iam ser bons, apesar de que eu tinha muita consideração com a [gravadora] Kuarup, Mário de Aratanha [idealizador e proprietário da gravadora] praticamente me lançou como produtor, eu ganhei cinco prêmios Sharp como produtor de discos, e editor, fazia aqueles acabamentos todos, tem discos nossos inclusive que ganharam também prêmio na Europa, foram lançados lá pelo Chant du Monde, gravadora que substituiu a Erato francesa. Eu fiz o meu primeiro disco de forma independente em 1977. Logo depois daquela ideia lançada pelo Antonio Adolfo, do disco independente, alguns músicos eruditos descobriram que podiam fazer aquilo. E Jodacil me disse “por quê que tu não faz um disco?” Aí eu decidi fazer também um disco, isso em 1977, concomitante com a ideia do Choros do Brasil, com Turíbio, eu fiz esse disco, sozinho, gravei no estúdio do Museu da Imagem e do Som. O segundo disco [João Pedro Borges Interpreta, 1983] já foi proposta da Kuarup, como eu fiz muitos trabalhos com a Kuarup, Mário disse “olha, a gente tava querendo fazer um disco teu”. Foi um disco dedicado a violonistas espanhóis e clássicos. Depois deste, A obra para violão de Paulinho da Viola, o quarto que eu fiz já foi na França [Clássicos Latino-americanos, 2005]. Eu também nunca me entusiasmei muito com a indústria do disco especificamente, por que eu era muito criterioso, a gente tinha aquele medo de ser explorado, mesmo tendo a compreensão de que um disco não era uma forma de ganhar dinheiro, era uma forma de divulgar o trabalho.

Era o que eu ia perguntar: tem disco com a Camerata, com Paulinho da Viola, com Turíbio, tem disco em que tocas só em uma faixa, casos de Mistura e Manda [de Paulo Moura, 1983] e Shopping Brazil [de Cesar Teixeira, 2004], para citar apenas alguns. O que tu consideraria, ou por razões afetivas ou por razões de importância pra música do Brasil, uma discografia básica de João Pedro Borges? Pro pessoal ir atrás, baixar na internet. Tributo a Jacob do Bandolim [da Camerata Carioca, 1979], sem a menor sombra de dúvida. Por que na realidade eu era um mero componente, eu digo que fui testemunha privilegiada. O Hermínio Bello de Carvalho tinha a seguinte definição: “olha, essa Camerata vai dar certo por que tem o grande arranjador e compositor, tem o grande intérprete e tem o grande ensaiador”, por que eu tinha uma técnica de ensaio que nem Turíbio tem essa técnica, era tudo muito bem organizado, até Radamés eu enquadrava. O [jornalista] Aramis Millarch uma vez, num ensaio, eu discutindo com Radamés, mas discutindo assim numa boa, a gente tinha uma amizade muito grande, mas eu sabia o limite dele, já pela idade, ia até certo ponto, por que ele já queria sair para tomar chopp, comer alguma coisa, ele não tinha muita paciência de ficar ensaiando, como Turíbio também nunca teve, mas o resto do pessoal precisava de ensaio. Aí Radamés dizia “não, agora já tá bom”, e eu dizia, “não senhor, ainda não está bom, ainda tem uma partezinha que nós vamos limpar aqui”. Aí terminava o ensaio e eu dizia, “e aí, Radamés?”, “é, é, ficou melhor”, aí ele dava o braço a torcer.

Soubemos que você anda compondo. Eu fiz arranjos na época, na própria época do Valsas e Choros os arranjos eram assim coletivos, mas sempre prevalecia uma base. Como Turíbio tinha muita confiança em mim, sabia que eu tinha formação, lia música melhor do que todos os outros, eu dava muita colaboração nesse sentido dos nossos discos, assim a parte mais erudita. Agora a parte mais tradicional, mais dentro da linguagem do choro, imagine, com Jonas e Raphael, não dá nem… pelo contrário! Foi uma escola, foram meus mestres, o que aprendi com eles não tá no gibi. Aqui, depois que eu voltei à São Luís do Maranhão, minha amizade com [os poetas José] Chagas e Nauro [Machado], e as reuniões periódicas pra ouvir música, com Arlete [Nogueira da Cruz Machado, poeta, esposa de Nauro], o Chagas começou a me passar umas poesias dele não editadas. Me deu vários cadernos. E olhei aquilo, eu digo “rapaz, isso dá música!”.

Isso é recente? Mais recente, eu sempre tive minha ideia de compor, compor choro, compor valsa, sempre toquei valsas e choros que eu mesmo compus. Tem coisas que eu nem escrevi, que foi embora, Turíbio até brigava comigo por conta disso. Aí comecei a escrever essas canções de Chagas, musiquei dez poesias de Chagas, uma de Nauro e descobri mais recentemente, desse povo novo, que existe por aí, fora dessa geração, pra mim, na minha opinião, a melhor poeta que a gente tem chama-se Aurora da Graça Almeida. Ela me deu um livro, eu preciso dar esse livro pra vocês lerem. Ela me deu um livro e eu descobri coisas assim maravilhosas. Deixa ver se me lembro, sem compromisso [começa a dedilhar o violão]. Chama-se Mágoa. Um homem prevenido vale mais do que dois desprevenidos [abre o case e tira uma folha de papel em que o poema está anotado]. Olha a letra, diz assim [recitando]: “meu coração sem cor e sangue/ maldiz a mágoa renascida do tempo estilhaçado que vivi/ meu coração sem cor e sangue/ esconde a selva oculta do perdão/ esconde as palavras mais belas e fugazes que não disse/ no meu coração de veias seculares/ padece a solidão de antigamente/ maltrata-me a vida retalhada/ maltrata-me não ser o que eu queria/ maltrata-me deixar sem poesia/ os que previram minha dor, minha agonia/ meu coração sem cor e sangue/ repleto de veios de fervor/ resgata a duras penas o sentido/ de ser ao menos navegante nessa vida” [canta, acompanhando-se ao violão; ao final recebe aplausos dos chororrepórteres].

Ficou clara tua percepção sobre o cenário no Brasil, tanto no Rio como em Brasília, que são os dois focos. No Maranhão como é que tu observa a cena choro? Quais os fatos mais importantes, recentes? O choro tá presente desde o século XIX, a própria pesquisa que Maurício [Carrilho] e Luciana fizeram no acervo João Mohana, se identifica, desde quando nasceu no Rio, já existia choro aqui. Mas hoje, o cenário, pra onde aponta? O quê que tá faltando? Olha, o que acontece é o seguinte: eu digo que tem coisas que as brasas podem passar muito tempo só fumegando de leve mas não apaga completamente. Aqui sempre houve esse potencial, que fez surgir os primeiros conjuntos, tipo [o Regional] Tira-Teima, Rabo de Vaca, já com o advento da Escola de Música já surge a ideia do [Instrumental] Pixinguinha, todo mundo sempre com uma estética voltada inicialmente para a inovação. Aqui no Maranhão surgiu a ideia do Clube do Choro, todo mundo aqui foi testemunha do grande impacto que isso causou na sociedade. Eu vejo esse cenário que o choro se diversificou, atraiu o povo da nova geração, a gente vê agora o movimento Madre Deus, o movimento do Clube do Choro. Pra mim o grande impulso foi lá o Chico Canhoto, com o Clube do Choro Recebe, por causa da concepção inteligente, de compreender que o choro é mais do que ele aparenta ser, ele está presente nas coisas todas, está presente na música de Tom Jobim, Caetano Veloso fez choro, Chico Buarque faz choro, Cesar Teixeira. Então essa junção, primeiro da música instrumental com a música cantada, pra quebrar os preconceitos, e segundo, com o componente da música maranhense, foi a boa fórmula. Nós estamos vivendo ainda dos dividendos desse investimento, na minha opinião. Eu acho que está faltando o aspecto didático, ou melhor dizendo, pedagógico da coisa. O choro tem uma vertente de entretenimento, que ele agrada todo mundo, todo mundo vai, tem público sempre, quando a coisa é bem organizada, tem espaço; segundo, isso só não garante a subsistência do choro, os movimentos vão e vêm, as casas comerciais, os estabelecimentos, tem época que é moda aqui, tem época que é moda ali, tem muita oferta na cidade. Por isso que até hoje eu lamento que a ideia da casa lá [uma sede própria] do Clube do Choro não tenha dado certo, por que tinha um projeto social relevante envolvido.

Dessa nova geração tem alguém dos instrumentistas do choro que te enche os olhos, que tu vê como uma boa promessa? Tem. Robertinho [Chinês] eu acho que é um grande talento. Aliás, antes dele se projetar no choro, o pai dele me procurou na época da formação da Escola de Música do Município, quando a gente ainda tava dando aula lá naqueles camarins da [praça] Maria Aragão e o pai dele me procurou, são dois filhos, nem sei o que é feito do irmão. O que eu passei pra ele, na época, foi o seguinte: “olha, você tem que investir em formação. Teus filhos têm talento, mas eles têm que investir na formação, por que o que garante o desenvolvimento do talento, a formação é o adubo do talento, sem formação, sem você correr atrás do fundamento, se fundamentar, desenvolver”. Essa juventude, por exemplo, eles têm uma facilidade técnica pra tocar, mas isso só não garante. Eu vi muito menino prodígio que abandonou a profissão. Por que tem toda uma estruturação que é psicológica, por que na realidade você tá lidando com a própria vida. Às vezes ele pode se desenvolver no instrumento, absorver bem a coisa do choro e ser mais um chorão na cidade, muito bom. Mas é só isso?

Na tua entrevista diversas vezes tu citaste Turíbio. Na tua opinião, quem é Turíbio Santos? Turíbio Santos é o mais importante violonista brasileiro. Pra mim ele é uma espécie também de matriz fundadora. E é facílimo de explicar. Foi o primeiro violonista brasileiro que se destacou internacionalmente, o primeiro que ganhou um concurso que chamou a atenção pra profissão. Se Ronaldinho Gaúcho botou uma porção de meninos pra jogar futebol e querer ser Ronaldinho, Turíbio fez isso com o violão. A importância dele foi pelo seguinte: ele deu o exemplo, ganhou o concurso e projetou uma carreira internacional de respeito; segundo, foi o violonista brasileiro dessa geração mais generoso, montou curso de violão, criou movimentos sociais como ele fez lá com os Villa-Lobinhos, atraindo banqueiros para bancar a carreira de gente, tem gente que tirou a mãe do tráfico, da marginalidade, alugou apartamento, tá vivendo da profissão, toca na noite, estudaram lá graças a ele. O que pode se acrescentar à dimensão de um bom instrumentista é a dimensão social, o que ele faz em benefício dos semelhantes dele. Turíbio criou os dois cursos superiores, tanto na UFRJ como na UniRio. Foi o primeiro camarada que tirou o violonista de seu isolamento, por conta de criar a ideia de Orquestra de Violão, foi o primeiro violonista que pegou João Pernambuco e disse “isso aqui é música de qualidade”. Quer dizer, quem é o camarada que tá por trás de todos esses movimentos? São as ideias que ele gerou.

E a preocupação dele com a memória de Villa-Lobos, também, não é? Com a memória de Villa-Lobos. Que é um reconhecimento, por que Villa-Lobos projetou a carreira dele. A Mindinha Villa-Lobos [viúva de Heitor Villa-Lobos] quando encomendou dele os 12 estudos para violão talvez nem imaginasse a projeção que ia dar, foi o que facilitou a carreira dele lá fora, foi o primeiro violonista a gravar os 12 estudos de violão de Heitor Villa-Lobos.

Você ajudou fundar a Escola de Música, mas ajudou a fundar outras escolas, mostrando uma preocupação sua sempre com o processo de formação pedagógica. Ceuma, depois foi diretor da Escola de Música, fundou a Escola de Música do Município. Fale um pouco dessa tua preocupação com o processo da formação do músico. Eu acho que é uma questão de humanidade. Essa preocupação eu sempre tive. Eu raciocinei a seguinte coisa: se eu não tivesse tido certa ajuda, que me projetasse, que me ajudasse nos momentos em que eu precisei, numa família de 11 filhos, quais seriam as perspectivas que a gente teria aqui? É uma preocupação social, humana, de ver que a música pode ajudar uma pessoa a plantar ideias que podem mudar sua vida. Ela é uma porta de entrada, ela não é a solução pra tudo, mas ela é a porta de entrada. É como se você entrasse num ônibus e esse ônibus começasse a passar por paisagens que você não conhece e você pode nem saltar, mas você diz “olha, se eu quiser ir eu tomo esse ônibus e vou pra ali pra aquele lugar”, eu sempre tive essa preocupação. Quando eu digo que eu vim da África pra ser o primeiro professor, talvez as pessoas não dimensionem o que representou em termos de sacrifício pra mim. O caminho natural era ir pra França, e eu vim pro Maranhão. Uma coisa que eu fiquei consciente ao longo desse tempo: não dá pra fazer agora sacrifícios maiores esperando que as coisas que você constrói sejam mantidas se elas estiverem vinculadas ao processo político. A política é a coisa mais traiçoeira que pode existir na vida, por que uma hora tá, outra hora não tá, outra hora volta, outra hora não volta mais, não tem continuidade, esse é que é o grande problema.

Queria que tu deixasse registrada aquela história gostosa do carrinho de picolé. As lembranças que eu tenho da minha infância, eu vivia muito dentro de casa, por que minha família não me deixava sair muito. Nem pra praça, tinha a Praça da Misericórdia ali, minha mãe dizia que eu tinha que evitar “adjunto”. Antes mesmo de começar a estudar mais seriamente o violão, eu já tava começando, tinha um ouvido assim que apurava, eu gostava de ouvir rádio, meu pai consertava rádios, a gente dormia com aquele barulhinho de rádio, ele ouvia a BBC de Londres, A Voz da América, aquelas coisas, e eu gostava, tinha um rádio em casa, e de tarde, chegava da escola, almoçava, tirava uma sonequinha, e aquele calor danado, ficava esperando a hora do sorvete passar, picolé e sorvete, e tal. Antes era num tipo de carrocinha, que o sujeito abria, aquela coisa toda. E nesse dia, rapaz, um dia quente, eu ligo o rádio e tá tocando essa valsa de Nazareth [Coração que sente], na Rádio Ribamar, que coisa linda, e o cara do sorvete gritou, “sorvete!”, aí eu aumentei o volume pra não perder, e fui correndo, naquele calor, esbaforido, e disse “eu quero um sorvete de baunilha”, e ele disse “você mesmo escolhe, abre aí pra escolher”. Agora, você imagina a sensação de você sair de um calor danado, faz aquele esforço, eu nunca tinha olhado pro lado de dentro [do carrinho de sorvete], que eu abro, vem aquela brisa gelada, com todos os sabores que estavam ali dentro. Ai, que sensação maravilhosa. Peguei o sorvete, volto, continuei ouvindo a música. Passa-se o tempo, cada vez que eu ouço essa música, Coração que sente, Arthur tocando, o quê que vem no meu nariz?, no meu olfato? O cheiro de todos aqueles aromas e pode estar o calor que tiver que vem aquela brisa maravilhosa.

Semana Joãozinho Ribeiro 4

Ontem postei aqui um texto de Chico Saldanha em que ele comenta a emoção de participar de Milhões de uns, show que resultará no primeiro disco de Joãozinho Ribeiro. No texto, o autor de Itamirim bem define Zeca Baleiro: “esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses”, ele, o filho de seu Tonico e dona Socorro, certamente um dos maiores entusiastas das noites de hoje e amanhã e do que nelas/delas (se) vi(ve)rá.

Abaixo, palavras de Zeca Baleiro sobre Joãozinho Ribeiro e Milhões de uns. Palavra, no singular, a propósito, é uma das peças da lavra do segundo que o primeiro cantará.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS

POR ZECA BALEIRO*

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

*O cantor e compositor Zeca Baleiro participa das duas noites de Milhões de uns, hoje (27) e amanhã (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Semana Joãozinho Ribeiro

O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.

Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS
POR ZECA BALEIRO

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

Duas coisas

Ontem bebi no Retão. Sim, reabriu. Funcionará, agora, apenas de quinta a sábado, sempre à noite. O garçom me disse que vão meio que ver no que dá, terminar 2012, avaliar se vale a pena e, se for o caso, alugar o ponto ano que vem. Torço pra que continue, vida longa ao Retão!

Tratei equivocadamente, por puro esquecimento mesmo, o disco A obra para violão de Paulinho da Viola como um disco dele. Não é. É um dos volumes de Brasil Instrumental, disco-brinde duplo distribuído por uma empresa mineira de mineração a clientes, amigos, parceiros, fornecedores e que tais em fins de 1985. No primeiro volume, o violonista maranhense João Pedro Borges executa 10 peças instrumentais de autoria de Paulinho da Viola, acompanhado por este ao cavaquinho e César Faria, pai do compositor, ao violão. No volume 2, Brasil, sax, violão, cello e trombone, um encontro sui generis, um quarteto, no mínimo inusitado, tanto quanto talentoso: Paulo Moura (sax, clarinete), Raphael Rabello (violão sete cordas), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Zé da Velha (trombone). Brasil Instrumental nunca chegou ao formato digital, ao menos não oficialmente. Mas seus dois volumes podem ser abracadabaixados.

Viva Paulinho da Viola!

Paulinho da Viola completou 70 anos ontem. Não houve estardalhaço como para outros setentões de 2012 (ou como imagino que haverá, não imerecidamente, para Chico Buarque daqui a dois anos). Não é de hoje a diminuição quase sempre imposta a este grandessíssimo artista, em geral tido apenas como sambista (como se isso fosse coisa menor) e não como um artista da MPB (o que é MPB? Samba não é música?, não é popular?, não é brasileiríssimo?).

Paulinho da Viola é fundamental! Artista de nobre linhagem e rara elegância, merece figurar em qualquer panteão da música brasileira. Se a mídia não deu a devida atenção, mesmo que apenas por ocasião da efeméride, o artista anuncia shows (no Rio, de graça, na Madureira berço de sua Portela do coração, e no Carnegie Hall) e caixa com discos, informações que li na Folha de domingo, onde soube também que a Portela irá homenageá-lo na avenida em 2013.

O maranhense João Pedro Borges, que tocou em A obra para violão de Paulinho da Viola, dividindo o disco com o artista e o pai dele, César Faria (violonista do conjunto Época de Ouro que acompanhou Jacob do Bandolim), já afirmou que é bastante valiosa a contribuição do músico para a escola brasileira do instrumento. Esta sua faceta, de compositor de choros sofisticados, é bem menos conhecida que a de sambista, porém não menos importante. O disco citado é hoje tão desconhecido quanto raro: foi distribuído como brinde de fim de ano aos clientes de uma empresa em meados da década de 1980, nunca tendo chegado ao formato digital.

Um dos momentos de maior emoção na vida do músico aconteceu quando sua Foi um rio que passou em minha vida foi cantada no aquecimento, o “esquenta”, o samba que anima os membros da escola antes de a mesma entrar na avenida. Isso foi em 1971, o disco lançado no ano anterior, espécie de resposta que Paulinho dava a si mesmo, depois de ter escrito Sei lá, Mangueira (parceria com Hermínio Bello de Carvalho), enaltecendo a rival.

Até hoje há quem acredite que sua Sinal Fechado, regravada por, entre outros, Fagner e Chico Buarque, seja de autoria do último.

Para um amor no Recife já teve regravações de Marina Lima e Zé Ramalho, alguém aí ainda desconfia que Paulinho é só do samba (o que não seria pouco)?

Paulinho é também presença constante nos discos de Marisa Monte, seja emprestando obras primas do quilate de Para ver as meninas e Dança da solidão, seja tocando um violão aqui, um cavaquinho acolá.

Acompanhada do grupo Semente, Teresa Cristina estreou em disco há 10 anos, com um trabalho inteiramente dedicado à obra do mestre: o duplo A música de Paulinho da Viola.

Ainda há muito por dizer e muito mais com o que ilustrar este post. Paulinho da Viola tem obra vasta e bem mais merecem as celebrações e homenagens por seus 70 anos. Uma frustração? Nunca ter sido gravado por Aracy de Almeida, “uma das maiores cantoras de samba” que o Brasil já (ou)viu. Uma historinha? Já cansada de ser sempre cobrada para cantar o repertório de Noel Rosa, sua maior intérprete um dia confessou estar cansada de “carregar o peso desse morto nas costas”, disse, referindo-se, “sei lá, não sei”, ao samba de Noel ou ao próprio compositor. Caetano Veloso compôs um samba novo, A voz do morto, em que homenageia Paulinho da Viola, “viva Paulinho da Viola”, vivíssimo, atuante e elegante aos 70.

Maranhão 70

O discreto aniversário de 70 anos de Chico Maranhão, “um ser criador”.

ZEMA RIBEIRO

O compositor durante show no Clube do Choro Recebe (Restaurante Chico Canhoto) em 27/10/2007

Como era de se esperar, não houve estardalhaço midiático pelos 70 anos de Chico Maranhão, compositor tão importante quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, outros ilustres setentões da senhora dona Música Popular Brasileira. Nem os meios de comunicação de Pindorama nem os timbira deram qualquer atenção à efeméride.

“Para mim é uma data como outra qualquer”, me diz o compositor ao telefone, em 17 de agosto passado. A afirmação não demonstra arrogância, mas simplicidade e desapego. Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, “nome usado unicamente para guardas de trânsito e delegados, com os quais ele não permitia a intimidade de seu verdadeiro nome – Maranhão”, como afirmou Marcus Pereira na contracapa de Lances de Agora (1978), há pouco mais de um ano descobriu um erro em seu registro de nascimento. “Nasci 17 e no registro consta que nasci 18; agora eu comemoro as duas datas”, diz. Avesso a comemorações, no entanto, o autor de Ponto de Fuga passou as datas em casa, lendo Liberdade, de Jonathan Franzen.

Puro acaso (ou descaso?), 17 de agosto foi a data em que o Governo do Estado do Maranhão anunciou a programação cultural oficial do aniversário dos controversos 400 anos de São Luís, em que figuras como Roberto Carlos, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo & Luciano desfilarão pela fétida Lagoa da Jansen, os shows sob produção da Marafolia, com as cifras mantidas em sigilo, em mais uma sangria nos cofres públicos. Como outros artistas de igual quilate domiciliados na Ilha, Chico Maranhão ficou de fora.

“Quando eu tava em São Paulo [estudando Arquitetura e já envolvido com música, participando dos grandes festivais promovidos por emissoras de televisão, na década de 1960] e resolvi vir embora, muita gente me desaconselhou. Eu vim, sabendo para onde estava vindo. Sou feliz aqui, apesar de ver a cidade crescendo desordenadamente, de saber que daqui a algum tempo acontecerá aqui o que já aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador: você não poder mais sair de casa ou por que não há espaço para seu carro ou por que você pode ser assaltado em qualquer esquina”, conta Chico, que revela estar com um disco praticamente pronto. “Estou esperando passar esse período de campanha eleitoral, em que os estúdios ficam todos ocupados para finalizar”.

Maranhão (1974)…

A obra musical de Chico Maranhão tem uma qualidade extraordinária e ao menos três discos seus são fundamentais em qualquer discografia de música brasileira que se preze: Maranhão (1974), do mais que clássico frevo Gabriela, defendido em 1967 pelo MPB-4 em um festival da TV Record, Lances de Agora(1978), de repertório impecável/irretocável, gravado em quatro dias naquele ano, em plena sacristia da Igreja do Desterro, na capital maranhense, e Fonte Nova (1980), da contundente A Vida de Seu Raimundo, em que Maranhão recria, a sua maneira, a barra pesada da ditadura militar brasileira (1964-85) e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI.

… Lances de Agora (1978)…

A trilogia é tão fundamental quanto rara: lançados pela Discos Marcus Pereira, os discos estão esgotados há tempos e confinados ao vinil. Curiosamente nunca foram relançados em cd, como os trabalhos de Canhoto da Paraíba, Cartola, Donga, Doroty Marques, Papete e Paulo Vanzolini, para citar apenas alguns poucos nomes produzidos e lançados pelo publicitário, que após mais de 100 discos em pouco mais de 10 anos, acabaria se suicidando, acossado por dívidas.

… e Fonte Nova (1980): a trilogia fundamental de Chico Maranhão

A estreia fonográfica de Chico Maranhão data de 1969. À época, seu nome artístico era apenas Maranhão e ele dividiu um disco brinde com Renato Teixeira, um lado para composições de cada um. Do seu já constava Cirano (que apareceria novamente em Maranhão e Lances de Agora), para a qual Marcus Pereira já nos chamava a atenção à qualidade literária desta obra-prima. “Este disco merece um seminário para debate e penitência”, cravou certeiro o publicitário na contracapa de Lances de Agora. Bem poderia estar se referindo à obra de Maranhão como um todo.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, na turma abandonada por Chico Buarque, a formação acadêmica de Maranhão, também Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, certamente influencia sua obra musical, onde não se desperdiça nem se coloca à toa uma vírgula ou nota musical, em que beleza e qualidade são a medida exata de sua criação. “Na verdade, sou um criador, não me coloco nem como arquiteto nem como músico, sou um homem criador, o que eu faço eu vou fazer com criatividade, com qualidade”, confessou-me em uma entrevista há sete anos.

A obra de Chico Maranhão merece ser mais e mais conhecida e cantada – para além do período junino em que muitas vezes suas Pastorinha e Quadrilha (parceria com Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Sérgio Habibe e Zé Pereira Godão), entre outras, são cantadas a plenos pulmões por multidões que às vezes sequer sabem quem é seu autor.

A reedição de seus discos em formato digital faria justiça à sua obra infelizmente ainda pouco conhecida, apesar de registros nas vozes de Célia Maria (Meu Samba Choro), Cristina Buarque (Ponto de Fuga), Diana Pequeno (Diverdade), Doroty Marques (Arreuni), Flávia Bittencourt (Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba), MPB-4 (Descampado Verde e Gabriela) e Papete (Quadrilha), entre outros.

As palavras de Marcus Pereira, em que pese o número hoje menor de lojas de discos, continuam atualíssimas. A contracapa agora é de Fonte Nova: “‘Lances de Agora’, o mais surpreendente e belo disco jamais ouvido pelos que a ele tiveram acesso, nesta selva do mercado brasileiro onde, em 95% das lojas, encontram-se apenas 100 títulos de 20.000 possíveis. Esses 100 discos privilegiados todo mundo sabe quais são. Este ‘Fonte Nova’ é um passo além de ‘Lances de Agora’. Quem duvidar, que ouça os dois. Mas os seus discos são de um nível poético e musical que, no meu entender, não encontra paralelo na música brasileira”.

[Vias de Fato, agosto/2012]