O Maranhão investe 144 milhões de reais no Centro de São Luís

A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro
A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro

Há alguns dias a Praia Grande, bairro do Centro Histórico de São Luís, tornou-se uma espécie de Torre Eifel, Estátua da Liberdade, Cristo Redentor: um lugar onde todos querem tirar fotos. Além da beleza do conjunto arquitetônico do lugar, a decoração para o período junino chama a atenção: as tradicionais bandeirinhas formam diversas imagens ligadas aos folguedos, num enorme mosaico colorido.

O fluxo de turistas cresceu, a partir também da inauguração de espaços como o Museu do Reggae do Maranhão (que completa um ano e meio em funcionamento em junho) e o Museu da Gastronomia, recém-inaugurado, ambos na Praia Grande. A isto, somam-se eventos já fixados no calendário cultural da cidade, como a Feirinha São Luís e o Choro na Tralha, que acontecem aos domingos, respectivamente na Praça Benedito Leite e nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, também no Centro.

No último dia de São João (24 de junho) o governador Flávio Dino, em solenidade no auditório do Palácio dos Leões, assinou um decreto criando o Programa Nosso Centro, iniciativa ousada que pretende injetar um total de R$ 143,7 milhões na área, em diversas frentes, algo mais abrangente que o inacabado projeto Reviver, realizado durante o governo de Epitácio Cafeteira, que teve tanta repercussão que até hoje é como parte da população chama o bairro da Praia Grande.

Durante a solenidade Dino revelou que a inspiração é o PAC Cidades Históricas, lançado no governo de Dilma Rousseff – cujas ações alcançaram a ilha maranhense. Os investimentos se darão em várias frentes: habitação (moradia popular), tecnologia (incentivo à instalação de startups no local), cultura (ações permanentes), turismo, lazer, comércio, gastronomia e institucional (com a região voltando a ser ocupada por órgãos públicos), além de ações de infraestrutura e segurança.

O Programa Adote um Casarão pretende reformar prédios e destiná-los à habitação e comércio, através de incentivos tributários – empresas que se dispuserem a participar poderão deduzir a totalidade dos recursos investidos em tributos estaduais, notadamente o ICMS.

“Vivemos um momento em que a conjuntura econômica é desfavorável, mas o Maranhão está na moda. São Luís hoje é a prova viva disso. Inclusive aqui no Palácio dos Leões, onde recordes de visitação são sucessivamente quebrados. Teremos, com este programa, uma convergência de esforços, feito pelo Governo Federal, representado pelo Iphan, pela Prefeitura de São Luís e pelo Governo do Estado, o que transcende o governo, numa interação com a sociedade. É um ótimo negócio investir no Centro Histórico de São Luís. O Programa Nosso Centro vai fortalecer vocações já instaladas na região”, afirmou o governador durante a solenidade, quando antecipou o anúncio que deverá fazer, nas próximas semanas, da revitalização do Largo do Carmo e da Praça João Lisboa, dois cartões postais da capital maranhense.

​Denis Cutrim de Lima, diretor da Associação de Moradores do Centro Histórico, se mostrou otimista: “Esse diálogo com a comunidade é importante. Há um déficit habitacional no Centro Histórico. Não se pode construir nem ampliar [determinados prédios tombados] por conta da legislação. É importante falar do patrimônio humano, as pessoas que fazem a história fluir. Não é só pedra e cal. Só assim se dá vida ao Centro Histórico. Sem o elemento humano não há vida, que dirá preservação, manutenção desse patrimônio. O principal fator é estabelecer nesse projeto essa perspectiva de tanto crescer em matéria econômica, com o desenvolvimento do turismo, que é a terceira maior indústria do mundo, mas preservando seus moradores”, afirmou.

[textinho nosso originalmente publicado na revista CartaCapital, edição nº. 1.061]

Patrimônios culturais em debate

Um pertinente debate sobre patrimônio cultural material e imaterial foi travado hoje (9) pela manhã, na mesa redonda que abriu os trabalhos do VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural, na sede do Centro Cultural do Ministério Público do Maranhão (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro). O evento é promovido pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), presidida pelo promotor Fernando Barreto.

O evento é ousado por ir de encontro ao desmonte promovido pelo governo de Jair Bolsonaro, cujos pouco mais de quatro meses são marcados pela destruição de qualquer patrimônio nacional: as instituições, a Educação, a Segurança Pública, o Meio Ambiente – gerando reação de todos os ex-ministros da pasta –, a Cultura (incluindo seu Ministério) e um longo etc. Um debate necessário e urgente.

Conceitos amplos de patrimônio foram trazidos como exemplo pelas promotoras Ana Maria Moreira Marchesan (MP/RS) e Eliane Cristina Pinto Moreira (MP/PA), que dividiram a mesa com Márcio Thadeu Silva Marques (diretor da Escola Superior do MP/MA), que mediou-a, e Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae do Maranhão.

As promotoras deram exemplos significativos, entre brasileiros e estrangeiros, da conjugação de preservação do patrimônio histórico com habitação, de participação popular na definição de bens tombados e de culturas, inicialmente marginalizadas, posteriormente reconhecidas por instituições oficiais. Marchesan revelou ainda o aprendizado e a emoção em ter visitado o Museu do Reggae e outros museus em sua rápida passagem pela ilha.

A fala de Ademar pontuou o que ele chamou de vitória do reggae, outro exemplo de cultura inicialmente marginalizada, ao longo dos anos incorporada como traço da identidade cultural brasileira, sobretudo maranhense, agora reconhecida oficialmente pelo poder público estadual, com a instalação do Museu (o primeiro dedicado ao gênero fora da Jamaica e o primeiro público no mundo), e pela Unesco, que em novembro passado reconheceu o reggae como patrimônio cultural imaterial.

Cabe destacar, aliás, que a instalação do Museu do Reggae e do Centro Cultural do Ministério Público colocam o Maranhão na contramão do Brasil: enquanto uns sucateiam, desmontam e privatizam, o Maranhão reforma, inaugura e mantém, apesar de todas as dificuldades enfrentadas.

O VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural prossegue ao longo de todo o dia de hoje. A programação do evento tem transmissão ao vivo no canal da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão no youtube.

(Re)veja a mesa:

Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.

Estacionamento o caralho!

CELSO BORGES*

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez mil, vinte mil, cinquenta, cem mil carros arrombam um sobrado que fica na rua do Sol ou Nina Rodrigues, 567, esquina com a rua da Mangueira, conforme indicam os catálogos telefônicos absolutamente obsoletos. Ali querem construir um estacionamento no mesmo lugar em que ficam o sobrado e a alma do sobrado de Aluísio Azevedo, escritor da terra, futuramente expulso pela elite escravocrata local da cidade, que ainda sonha com a Atenas do passado.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Um carro arranca na frente, outro descarrega sua carne de prata e alumínio sobre a calçada, um terceiro entra na sala da casa, o quarto invade o quarto da mãe de Aluísio cuspindo gasolina sobre a mesinha de cabeceira, o quinto dos carros infernos outros tantos vários em acúmulo de tijolos de barro e cimento de amianto no coração do sobrado entre alicerces e subterrâneos enferrujando de fumaça e fuligem o sonho do pai de Aluísio e do irmão Artur, que a essa altura do campeonato já está no Rio de Janeiro há muito tempo cansado da província que só quer saber de construir estacionamentos no centro da cidade.

Melhor alguns carrinhos enfileirados do que esses prédios velhos que não prestam pra nada e ficam atrapalhando o progresso da cidade tombada pela Unesco, o que na prática não significa porra nenhuma.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Carros e mais carros sobem as escadas uns sobre os outros. Os azulejos portugueses já ficaram para trás. Seguir adiante, esse o futuro que temos pela frente. O quintal da casa é uma questão de tempo. Cadê Aluísio? Cadê o filho de Aluísio? Cadê o neto de Aluísio, O Cortiço de Aluísio, a Casa de Pensão de Aluísio, o final dO Mulato de Aluísio? Cadê Américo Azevedo Neto? Por que não escreve mais Cartas a Daniel? Cadê o berro de Emílio e suas foices de bigorna? Cadê a AML e o busto perdido de Aluísio? Notas de consternação não ressuscitam mortos. Aluísio e seu bigode em triunfo, suas bengalas polidas esgrimando com martelos que derrubam fachadas e economizam trabalho da chuva do próximo inverno.

A morada inteira se levanta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Quem viver verá os carros subindo as escadas até o mirante, lá em cima de onde se vê um tanto de outros telhados inúteis com seus musgos e mururus. Ali cabe uma coleção de Mercedes, quem sabe uma Ferrari envenenada. Haja cicuta para tanto filho da puta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

*CELSO BORGES é jornalista e poeta. Seu livro mais recente é O futuro tem o coração antigo.