Sem tirar de dentro

A ginga de Patativa ladeada por Philippe Israel e Cauê Veloso. Foto: Zema Ribeiro

 

Philippe Israel (pandeiro e voz) cantou dois sambas da Madre Deus à guisa de aquecimento: Araçagi, de Cristóvão Alô Brasil, e um de Luís de França, uma das muitas lendas do bairro, berço do gênero na capital maranhense.

Patativa chegou trajando seus indefectíveis chapéu e galho de arruda na orelha esquerda. A maioria em pé, um bom público já aguardava no pátio do Centro Cultural Vale Maranhão (Av. Henrique Leal, 149, Praia Grande). A pedreirense, que acabaria por tornar-se a mais madredivina entre as sambistas, inaugurava a temporada 2018 do programa Pátio Aberto, com shows semanais gratuitos, sempre às quintas-feiras, às 19h.

Foi apresentada pelo cordelista Moisés Nobre, que emendou, com personalidade, versos de alguns sambas de Patativa ao chamá-la ao palco. Esta não se fez de rogada e atacou com um tambor de mina, abrindo a apresentação que se equilibraria entre músicas inéditas e algumas gravadas em Ninguém é melhor do que eu [Saravá Discos, 2014], até aqui seu único registro fonográfico.

Casos da própria Ninguém é melhor do que eu, Santo guerreiro e Xiri meu – que invariavelmente é a mais pedida pelo público, que dança e canta em coro. Entre as inéditas, destaque para Feijoada incompleta. “Chico Buarque tem a Feijoada completa; Patativa fez a Feijoada incompleta”, provocou Philippe. “Essa é uma boa história. Um dia um amigo me chamou para um aniversário. Eu fui. Chegando lá, me serviram uma feijoada que era só feijão e água”, contou para risos da plateia.

No intervalo entre uma música e outra, virou-se para Cauê Veloso (cavaco e voz): “bóra, meu filho, três sem tirar de dentro, pra eu sair ligeiro”, brincou. A apresentação durou cerca de 45 minutos.

Além de Philippe e Cauê, a banda se completava com ​ Kit (violão), Marcão (percussão), Osvaldo (percussão) e Ricardo (percussão). O show acabou com outro medley madredivino, com sambas compostos pelos saudosos Henrique Sapo, Paletó e Bibi Silva para o bloco Fuzileiros da Fuzarca, do qual Patativa é integrante.

O bis ficou por conta de Babado na favela, outra autoral gravada em Ninguém é melhor do que eu. “O show não acabou. Todo mundo pra Fonte!”, convidou Philippe Israel, anunciando o esticar da noite no tradicional Samba na Fonte, na Fonte do Ribeirão, cartão postal da cidade, agora emoldurado de samba.

Um sábado chuvoso e choroso

Foto: Rose Panet

 

Apesar do clima chuvoso, um bom público prestigiou a apresentação do Instrumental Pixinguinha, ontem (24), no Auditório Itapecuru do Centro Cultural Vale Maranhão (Rua Henrique Leal, 149, Centro).

João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Raimundo Luiz (bandolim), Domingos Santos (violão sete cordas) e Nonatinho (pandeiro) tinham, todos, diante de si, o Caderno de partituras – Choros maranhenses, organizado pelo flautista Zezé Alves, membro emérito do grupo, também professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), em cujos corredores o Pixinguinha se formou ainda no final da década de 1980.

“O único da formação original é Domingos. Ele costuma dizer que é o dono do conjunto”, gracejou Juca, mantendo a marca bem humorada das apresentações do grupo. Mais adiante, brincou com a plateia: “vocês já repararam que tem dois caladinhos aqui, não é? Mas eles vão falar já já”, disse, referindo-se a Domingos e Nonatinho, no que o violonista retrucou: “tu já falou o que eu ia falar”, referindo-se ao fato de Juca ter feito os comentários anunciando o choro Miritibano, de sua autoria, a segunda da apresentação. O título é o gentílico de Miritiba, antigo nome do município de Humberto de Campos, onde o autor nasceu.

João Neto, Juca e Raimundo Luiz revezavam-se nas explicações entre as músicas, ora comentando autorias, ora contando histórias sobre as composições, determinados contextos, dando um ar didático ao concerto. “Muito obrigado pela presença de todos vocês, apesar do clima chuvoso”, agradeceu Juca. Neto emendou: “é um sábado chuvoso e choroso”.

A apresentação do Pixinguinha, penúltima da temporada 2017 do programa Pátio Aberto, do CCVM (provavelmente transferida de lugar em virtude da chuva), foi aberta com Nova república, do saudoso advogado e cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, também gravado pelo grupo em Choros maranhenses [2006]. Se o Regional Tira-Teima é o mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, o Pixinguinha foi pioneiro: seu disco de estreia foi o primeiro inteiramente dedicado ao gênero por estas plagas.

O Caderno de partituras por que se guiavam ontem é uma espécie de ampliação do repertório do disco, este composto por choros autorais e choros de autoria de mestres do gênero, já então saudosos, caso por exemplo de Um sorriso, de autoria do rosariense Nuna Gomes.

Chorinho da Beatriz (Domingos Santos) “foi a música com que participamos da Mostra de Música Sesc Onde Canta o Sabiá, apesar de ser uma música instrumental”, revelou João Neto. Na sequência foi a vez de Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense). “Cearense era sobrenome mesmo, ele era maranhense”, riu Juca, cujo cavaco evocava uma viola, dando certo ar caipira à execução da música. No meio dela ele soltou um “vocês!”, encorajando o público a cantar o refrão: “não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão”. “Com um coral desses, a gente nem precisa de cantor”, elogiou o cavaquinhista.

Após tocarem Viajando para Carajás (Zé Hemetério), Juca revelou terem alterado a ordem do set list. “Era para termos tocado a que vamos tocar agora, os nomes das cidades são até parecidos”, fez a plateia rir, ao anunciar De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) e perguntar para João Neto: “de quem é essa música?”, ao que o flautista respondeu, rindo também: “de titio” – para quem não sabia, sim, João Neto é sobrinho de Josias Sobrinho.

Juca derreteu-se em elogios ao choro Elegante (Raimundo Luiz), cheio de nuances. “É uma das que eu mais gosto de tocar”, emendou João Neto, no que o cavaquinhista relembrou o Prêmio Universidade FM de melhor música, conquistado pela composição em 2006, ocasião em que o quinteto recebeu também o troféu de melhor disco instrumental. Cabe lembrar que durante muitos anos foi o Pixinguinha também o responsável pelo espaço dedicado ao choro na noite ludovicense, quando ocupavam semanalmente o palco de um bar, hoje extinto.

Ontem ao luar (Catulo da Paixão Cearense) antecedeu Lembro-me de você assim (Juca do Cavaco). “Essa música eu fiz quando a gente estava gravando o disco. Houve uma ocorrência na família, meu sogro faleceu. Era uma pessoa animada, dançante, eu sempre lembro dele desse jeito”, revelou o autor. “É difícil falar mesmo”, completou, a emoção travando a garganta, o sentimento percebido pelo público em comunhão.

A sequência formada por Candiru (Zezé Alves e Omar Cutrim) e Choro axixaense (José Maria Fontoura) garantiu também um passeio pela brejeirice e malemolência do lelê e do bumba meu boi de orquestra, manifestações culturais típicas da região do Munim, particularmente os municípios de Rosário e Axixá, num diálogo saudável entre o choro e estes ritmos.

Catulo da Paixão Cearense ainda voltaria ao repertório, com Flor amorosa (parceria com Joaquim Callado), que antecedeu Chora cavaco (Juca do Cavaco). Antes de tocarem a saideira, o grupo mais uma vez agradeceu a presença do bom público. João Neto anunciou: “para fechar, uma de Cesar Teixeira. Esse choro é a cara dele, enrascado, cheio de passagens harmônicas e melódicas complexas”. Terminaram a noite, após pouco mais de uma hora de apresentação, com Conversa fiada.

A certa altura, Juca havia gracejado que o grupo havia ensaiado seis meses para aquela apresentação. “Seis meses e um dia, não vamos mentir por um dia”, emendou João Neto, também rindo. Brincadeiras à parte, o fato é que poucas vezes, por aqui, o choro foi tratado com tanto esmero, em execuções impecáveis. Uma apresentação como a de ontem demonstra que também em se tratando do gênero o Maranhão não deve nada a outras praças brasileiras.