Obituário: Neném Bragança

“Meu Deus, me deixe ficar mais uns dias/ dias que digo alguns anos/ anos assim não mais que uns 26”. As preces que Neném Bragança [Bragança/PA, 19 de março de 1960 – Imperatriz/MA, 15 de janeiro de 2015] cantou em Os milagres (Erasmo Dibell) não foram atendidas: vítima de um câncer de palato contra o qual lutava há cerca de um ano, o cantor faleceu nesta madrugada.

Os milagres abre o recém-lançado cd/dvd de Neném Bragança, segundo volume da série Som do Mará, produzido por Chiquinho França, que inaugurou-a. O câncer de Neném, aliás, foi descoberto quando o artista se preparava para entrar em estúdio e foi submetido a um tratamento dentário.

O trabalho é um apanhado de sucessos colecionados por Neném Bragança ao longo dos anos, composições autorais e clássicos da música do Maranhão, como Prisma (Carlinhos Veloz), Bela Mocidade (Donato), Agosto (Nando Cruz), Grades (Zeca Tocantins), Plenitude das palavras (Neném Bragança) e Ilha magnética (César Nascimento), entre outras. Ave de arribação (Javier dy Mar-y-abá) seu maior sucesso, encaixa-se nas três categorias – no fim das contas a música é também de Neném, será dele a interpretação para sempre lembrada.

Há poucos dias, em uma roda de amigos, comentávamos a situação da saúde de Neném e a torcida coletiva por sua pronta recuperação, enquanto ouvíamos um exemplar em vinil do festival Tribo (1989), que reunia nomes como Zeca Baleiro, Nosly, Renata Nascimento, Luis Carlos Dias, Neném Bragança e Tutuca, entre outros. Foi o último quem comentou: “Pra mim a música que ganhou é essa aqui [aponta para Ave de arribação na capa do vinil]: foi a única que tocou em rádio”, declarou. Na mesma ocasião, ganhei de presente, do amigo e fiel leitor Otávio Costa, o volume dedicado ao cantor da série Som do Mará.

Neném Bragança ficou conhecido como “papa festivais” entre os amigos, tantos os troféus acumulados em certames país afora, em especial no entorno da região que o acolheu. Artista iluminado, trazia a luz no sobrenome de batismo, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. Tinha 54 anos. Sua Plenitude das palavras pode lhe servir de epitáfio: “quero a plenitude das palavras/ chegará a hora da verdade/ e aí? O que vai ser de mim e de você?”. Ou Ave de arribação: “o certo é que acaba, como todas as folias/ o certo é que passa, como passa uma euforia/ (…)/ não, não vou deixar meu coração perder a luz”.

Paulinho da Viola: um belo show prejudicado pelo som

Alguns paragrafinhos sobre o show que Paulinho da Viola apresentou quinta-feira passada (22) em São Luís

Foto: Paulo Caruá
Foto: Paulo Caruá

 

Um set de samba cuidadosamente preparado pelo DJ Franklin preparava o terreno para Paulinho da Viola, que surgiria às 23h40 no palco do Patrimônio Show. Com a abertura, o show produzido por Ópera Night foi anunciado para 21h.

O público era menor do que supus, levando em conta a grandeza e importância de Paulinho da Viola e os 12 anos de sua última vinda à Ilha. A divisão entre pistas e mesas acabou não fazendo muito sentido, com nem um nem outro espaço lotando. Nos camarotes menos gente ainda.

Impossível não redundar e falar em elegância ao lembrar a subida de Paulinho da Viola ao palco, bastante aplaudido e atacando de Prisma Luminoso (parceria com Capinan), samba que deu título a seu disco de 1983.

Otávio Costa, querido amigo-irmão e leitor atento deste blogue, apostara que Paulinho da Viola abriria o show com Timoneiro (parceria com Hermínio Bello de Carvalho) – errou –, que acabou vindo em meio ao rosário de sucessos desfilado pelo artista. Não faltaram Ame (parceria com Elton Medeiros), Coração leviano, Coração imprudente (parceria com Capinan), Pecado capital, Foi um rio que passou em minha vida, Eu canto samba, Dança da solidão, Pra jogar no oceano, Argumento, No pagode do Vavá, Foi demais (parceria com Mauro Duarte) e Onde a dor não tem razão (parceria com Elton Medeiros), entre outras, em pouco mais de hora e meia de show.

Paulinho da Viola cantou em pé quase o tempo inteiro e durante quase todo o show tocou cavaquinho. Em Dança da solidão desistiu do violão – voltando ao cavaco – antes de a música terminar. No bis, mandou Sinal fechado e Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues), inteiras ao violão, para delírio da plateia.

O charme da voz de Paulinho da Viola foi bastante prejudicado pelo equipamento de som: de onde assisti ao show foi impossível ouvir qualquer coisa que ele disse, as histórias que contou entre algumas músicas. O que cantou era possível entender, sobretudo por conhecer-lhe a obra e ser capaz de assobiar algumas melodias.

“Não sou eu quem me navega/ e nem me navega o mar”, Bruno Batista ousou contrariar Paulinho da Viola, influência confessa, em sua Rosa dos ventos. Cantarolei-lhe este trecho ao encontrar e abraçar o compositor na plateia do outro. Conversamos rapidamente sobre seu show, em que lançará , semana que vem em São Luís.

Paulinho da Viola fez sua parte. As águas de maio continuam oferecendo obras-primas aos ilhéus. Que o 2014 em que o mestre completa 50 anos de carreira continue assim.