Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Chorografia do Maranhão: Rafael Guterres

[O Imparcial, 18 de maio de 2014; a 31ª. entrevista da série Chorografia do Maranhão, com o percussionista e cantor Léo Capiba (19/1/1947-1º/11/2014), publicada nO Imparcial em 4 de maio de 2014, pode ser lida aqui]

O cavaquinhista Rafael Guterres é o 32º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Rafael Guterres deu “a cara à tapa” pela primeira vez no saudoso Clube do Choro Recebe, projeto realizado semanalmente no Bar e Restaurante Chico Canhoto, como integrante do grupo Os Cinco Companheiros, formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM).

Filho de Josarnaldo Ramos Paulo, funcionário público – ex-Ibama, hoje Icmbio –, e da dona de casa e autônoma Lilian Guterres Pinto, Rafael Guterres Pinto Paulo nasceu em São Luís do Maranhão em 17 de março de 1987.

Crescido em meio a rodas de samba e batucadas organizadas pelo pai e por tios, em reuniões de família ou para comemorar o aniversário de algum parente, logo o menino pegou gosto pela música, influenciado sobretudo por nomes como Toquinho, João Nogueira, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Martinho da Vila e Baden Powell.

Ainda criança, nas rodas, já se arriscava na percussão. Depois estudou cavaquinho na EMEM e aprofundou os estudos no curso de Música da UFMA. Hoje é professor de música, dando aulas particulares e em projetos sociais do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Rafael Guterres convidou a chororreportagem a prestigiar o Samba de Classe, grupo com o qual está envolvido atualmente, que se apresenta aos sábados no Quiçá [restaurante e pub no Renascença]. Acompanhado da namorada, a enfermeira Liana Taveira, ele conversou com os chororrepórteres na Quitanda Rede Mandioca.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te fez, dentro de casa, no ambiente familiar, optar pela música? A família de meu pai veio daquela região de São Benedito do Rio Preto, Belágua, Urbano Santos. Eles sempre estiveram em meio à música, sempre tiveram essa coisa bem forte, da música, essa parte da música. Meu avô eu não cheguei a conhecer, o pai do meu pai, mas dizem que ele tocava cavaquinho. Meu pai, meus tios, sempre tocaram violão, percussão, a maioria, então eu sempre tive isso.

Em casa ouvia-se música? Desde que eu nasci eu ouvia muita música.

E o que se ouvia? Sempre rolou muito samba, muito samba do João Nogueira, Martinho da Vila, desde os sambas tipo João Bosco e Tom Jobim, Vinicius de Morais, até o samba mais popularzão, do morro, do Zeca [Pagodinho, cantor e compositor], sempre houve essa mistura assim. Choro, também ouvi.

Isso rolava em disco ou com o pessoal tocando? Os dois, rolava os dois. Até hoje eu tenho o vinil do, eu tenho por que eu herdei, né?, vinil de choro, de samba, eu tenho lá em casa, coisas do Altamiro Carrilho, coisas do Waldir Azevedo.

Entre estes que você cita, você lembra algum que ao ouvir, foi possível dizer “é isso!”? Por incrível que pareça eu sempre gostei de muitos. Mas sempre me chamou muita atenção o Toquinho, eu sempre gostei dos sambas dele, do João Bosco também, desde moleque eu sempre gostei muito. Foi uma mescla mesmo. Junto com isso eu sempre tive muito contato com a MPB também, além do samba.

A partir de quando e o que te fez se interessar pela música, para aprender a tocar um instrumento? Você entrou direto para a Escola, ou antes já praticava? Para aprender foi assim: quando criança, eu sempre tive esse contato e aconteciam aniversários, reuniões da família e meu pai, meus tios, sempre tocavam, percussão, violão, e sempre tinha, por menor que fosse o aniversário ou a reunião, sempre tinha ali uma batucada, uma coisa. Eles nunca foram chorões, instrumentistas profissionais. Mas eles sempre tocaram, sempre tiveram essa coisa da música muito viva dentro da família. Desde moleque, estando no meio da roda deles, batucando um pandeiro, um tambor, um tantã, um tamborim. Aí eu acho que eu tinha mais ou menos uns 12 a 13 anos, estudava no Colégio O Bom Pastor, que é lá no Cohatrac, Cohatrac II. Aí eu vi um anúncio, tinha um anúncio espalhado por todo o colégio, de um professor que dava aula particular de cavaquinho e violão. Aí eu li e disse “rapaz, eu vou aprender a tocar cavaquinho”.

Você lembra o nome desse professor? O nome dele é Nato Araújo, o Nato Araújo que todo mundo conhece, ele é músico e cantor, nessa época ele dava aula de cavaquinho e violão. Eu entrei em contato com ele, ele residia no Cohatrac também, falei com meu pai, “ah, pai, eu quero aprender cavaquinho, compra um cavaquinho e tal”. “Ah, vamos falar com esse professor”. Ligamos, fomos na casa dele, combinamos, marcamos uma data para começar as aulas, meu pai pegou e comprou um cavaquinho. O primeiro cavaquinho que eu tive foi um Gianinni, série estudo, esse com que muitos cavaquinistas iniciam. Aí eu tive três meses de aula com ele e nos três meses eu desenvolvi muito rápido, eu assimilava muito rápido. E me veio a vontade de ir para a Escola de Música do Estado. Fiz o seletivo e comecei a estudar lá.

Isso foi em que ano? Tem uma parte que eu esqueci de falar. Voltando. Antes do Nato, como eu já participava dessas reuniões, batucando e tudo, meu pai falou “rapaz, tu tem aptidão pra música”. Ele já tocava, então percebeu, né? “Vou te matricular na Escola de Música do Estado”. Aí ele me matriculou, eu tinha uns 12 anos. Só que na época, o primeiro ano na escola era só teoria e flauta doce. Eu, bem moleque, não gostava. Eu queria bateria na época. Aí eu fiz seis meses, era um ano, só teoria e flauta doce, para no ano seguinte você escolher o instrumento. A Escola de Música ainda era ali na Rua de Santo Antônio. Eu fiz os seis meses, depois de seis meses eu não quis mais. Sabe como é criança, né? Aí que eu vi o anúncio. “Rapaz, eu quero é cavaquinho!”. Aí eu fui pro Nato, ele me passou alguns acordes iniciais, uma palhetada, coisa bem básica, e eu fiz três meses. Depois desses três meses eu não quis mais ter aula com ele, queria voltar para a Escola de Música, aí eu me rematriculei e consegui voltar. Aí continuei lá.

Você lembra das rodas em casa, com violão e percussão, e você começou nelas. É, batucando, uma coisa muito informal.

Você foi direto para o cavaco ou chegou a passar por violão? Não. O primeiro instrumento harmônico que eu toquei foi cavaquinho.

E hoje é o único que você toca ou você toca outros instrumentos? Não. Hoje eu toco violão, toco guitarra, bandolim eu estou estudando.

Hoje você vive de música? Não tem outra profissão? Só de música. Sou professor de música e músico profissional.

A tua família nunca teve resistência? Geralmente há muito preconceito em relação às carreiras artísticas. Nunca houve um pé atrás? Não. Eles sempre me deram forças, mas cobravam. “Olha, tu quer isso? Tem que ir pelo caminho certo, tem que estudar. Tu quer música, vai estudar música, vai pelo caminho correto”. Eles não queriam que eu fosse um músico da noite, sem formação, sem perspectiva de algo melhor, né? Como chegar a dar aula em alguma instituição, ou a nível técnico ou a nível superior, que é o que eu estou correndo atrás.

Você chegou a estudar alguma outra coisa, na perspectiva de a música não dar certo ou foi para a música direto? Não. Eu fiz três vestibulares para a UFMA. O primeiro eu fiz para Ciências Biológicas, que eu gostava na época. Eu tinha 18 anos. Aí não passei. O segundo eu fiz para Administração, não passei. Aí todo mundo: “rapaz, tu é louco! Por que tu não faz para Música?”. Eu já tocava. Tem um momento da vida que a gente tem essa indecisão. Aí eu acordei e fui estudar para fazer para Música.

O Nato foi teu principal mestre no cavaquinho? Não. O Nato ele iniciou comigo, coisa bem básica. Até por que eu nem tive tempo, foram três meses de aula. Ele me apresentou o instrumento, “ó, esse aqui é o cavaquinho”, um tipo de palhetada, uma palhetada de samba tradicional, que é aquela mesma do tamborim [imita o som do tamborim com a boca], tem no cavaco também, e me ensinou alguns acordes. Agora, com relação ao estudo realmente do instrumento, foi na Escola de Música.

Com quem você começou a estudar na Escola de Música? Eu iniciei o cavaquinho com João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], na época ele dava essa matéria, dava o curso de cavaquinho. Aí eu tive aula com Juca [do Cavaco, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] e também tive uma influência muito grande com Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], que hoje em dia é diretor de lá, mas era professor de bandolim, mas também toca cavaquinho e outros instrumentos.

Estes você destaca como os mais importantes? Sim, os mais importantes para mim. Essa parte do estudo da Escola foram eles três. Para o instrumento.

Hoje você toca vários instrumentos e tanto cavaquinho centro como cavaquinho solo. No cenário local você já falou, mas no cenário nacional, que cavaquinistas você tem como referência? O grande Waldir Azevedo, gosto do Canhoto [o cavaquinista Waldiro Frederico Tramontano], gosto do Arnaldinho [o cavaquinista Arnaldo Galdino da Silva], eu gosto do Henrique Cazes, do Dirceu [da Mangueira]. Tem uma série de outros, o filho do Monarco, o Mauro Diniz, e outros tantos. Às vezes a gente dá um branco, mas tem muita gente boa. Alceu Maia também é muito bom.

Durante muito tempo, e não está tão distante assim, a gente ouvia muito falar que não era possível viver de música, que o músico tinha que ter outra profissão. Hoje a gente fica feliz de ver tanto jovem vivendo de música. Quais as dificuldades para um músico jovem, feito você, poder bater no peito e dizer que vive de música, que vive bem, que vive com dignidade? Quais os caminhos, o que tem que fazer? Quais as estratégias? Como fazer isso? Não era possível. Eu acho que continua sendo muito difícil. A música continua sendo um exercício de perseverança aqui no Maranhão. É complicado. Tem que ter garra e amar trabalhar com música. Tem uma diferença entre o músico de show e o professor de música. Atualmente eu trabalho assim: de manhã eu dou aula de música e à noite eu toco.

Muitos de nossos entrevistados aliam as funções de músico e professor de música. O que é um espaço que está aumentando muito: a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas abre possibilidades de trabalho. É. O músico da noite, o cara que chega e “ah, eu vou ser músico, eu vou tocar, eu vou fazer show”. Tem aquele período em que ele faz bastante shows. Se ele for um cara organizado ele faz a reserva dele. E tem um período em que ele não tem tantos shows. Mas se ele tiver a reserva num período que ele fez, tipo um São João, ou um final de ano, que tem bastante coisa, muito evento, ele consegue ir levando. O cara que é professor de música já não precisa disso. Ele vai trabalhar o ano todo nas instituições em que ele dá aula e vai fazer os shows dele nos finais de semana, quando ele não tiver show ele não vai ficar aperreado por que ele tem os outros empregos dele com aula de música. Está acontecendo isso, isso é muito bom. Os músicos estão começando a ver que ao se fazer uma faculdade, um ensino superior, eles vão conseguir ter este tipo de vida mais tranquila, uma coisa mais segura, sem estar dependendo tanto só de show.

Hoje você canta também, se apresenta só, mas é multi-instrumentista. A história do instrumentista, que é como a gente te conheceu, como integrante de grupos de choro: como foi que se deu sua inserção nas rodas de choro? Nos grupos de choro eu comecei a ter contato mesmo lá pela Escola de Música quando eu comecei a estudar lá, acho que mais ou menos em 2002. 2000, 2002, por aí. Eu conheci o Juca, conheci o Raimundo Luiz, o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e toda a galera. E comecei a frequentar os locais em que eles tocavam. Eles fizeram muitos anos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen], na terça, muitos anos no Antigamente [extinto bar na Praia Grande]. O Clube do Choro na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa, APCEF], na [Serenata] Caixa Alta, fui lá algumas vezes, este período em que eu estava estudando, aprendendo. Eu também assistia muitos vídeos, documentários sobre choro. A vontade de montar um trabalho de choro e tocar partiu disso: de eu estar assistindo documentários e shows.

Você desenvolveu um gosto pelo choro. Eu desenvolvi um gosto pelo choro. Eu acho que isso foi uma continuidade do gosto que eu já tinha, pelo costume de ouvir música em casa, de ouvir o Tom Jobim, ouvir o Toquinho, ouvir o Baden Powell, essa galera, que meus tios e meu pai, a gente tinha esse costume, então foi fácil assimilar o gosto pelo chorinho. Eu ouvia o chorinho, mas eu não entendia. A pessoa, quando ela não conhece, eu lembro que quando moleque, eu ouvia o chorinho e não tinha noção daquilo ali.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Em partes. Eu não sou um chorão profissional, daquela coisa. Por que tem pessoas que são assim: ou toca choro ou não toca nada. É o chorão! Pra mim o choro é uma escola, eu considero o choro uma escola. É a escola da música popular brasileira. Se você quiser estudar a linguagem musical brasileira você tem que passar pelo choro. Se tu não estudar choro tu não vai ter a essência, tu não vai saber tocar na essência a música popular brasileira. Eu não me considero um chorão [enfático], até por que eu não me considero um exímio instrumentista. Eu tento tocar, eu tento solar. Eu tenho amor pelo choro, é minha escola, entendeu?

Qual foi o primeiro grupo de choro que você fez parte? Foi Os Cinco Companheiros. Se não me engano Os Cinco Companheiros é de 2007.

Vocês surgiram para tocar no Clube do Choro Recebe, não é? O período do Clube do Choro. Foi até interessante você tocar nesse assunto, por que o interesse partiu de mim, aí eu falei com Osmarzinho [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], a gente falou com João Soeiro, depois com Wanderson [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de outubro de 2013]. Aí a gente começou a se reunir lá pela Escola, nas salas lá, a ensaiar alguma coisa, e daí surgiu a ideia de fazer um choro dançante, tipo gafieira. Daí surgiu a ideia do Osmar do Trombone [trombonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. A gente eu acho que se reuniu duas vezes. Na terceira o Osmar já estava. Aí a gente passou a ensaiar na casa do Osmar e ele já começou a falar “olha, vamos fazer um bom trabalho, que tem show em Cajari, tem show não sei aonde”. E lá naquele clima dele ele já foi falando, tentando fechar algumas coisas, e apareceu a oportunidade de tocar no Clube do Choro [Recebe], foram vários shows lá.

O que significou aquele projeto para vocês? Para você, especialmente? Eu acho que foi a melhor época do choro aqui em São Luís. Eu não sei se chegou a ser melhor do que no tempo da Caixa, naquela época eu acho que eu nem tocava ainda. Mas do que eu vivi, do que eu participei, o melhor foi ali no Chico Canhoto.

Lá foi o teu primeiro palco? De choro, com certeza. A primeira vez que eu mostrei a cara.

Depois dOs Cinco Companheiros, de que outros grupos você fez parte, de choro e de samba? Do samba foram muitas participações, bem mais até do que do choro. Deixa eu lembrar do choro aqui, primeiro: eu participei dOs Cinco Companheiros, fiz participações com o Urubu Malandro, com o Instrumental Pixinguinha, com o grupo, tem um atual aí que é o Camisa de Bolso, é grupo de choro, com João Soeiro. No Chorando Calado eu fiz uma participação, no Clube do Choro e em outros locais também. Quê mais? Do samba eu participei do grupo Som Brasil, já fiz bastante coisa com Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014], de samba. Tinha um grupo legal que a gente fazia no Panela de Barro, no Danado de Bom [extinto bar, na Cohama]. A gente fez samba no [bar] Cumidinha de Buteco com esse grupo. Grupos assim que eu cantei, que eu toquei cavaquinho, que a gente fez show, coisas fixas. Mas participação eu fiz com vários outros.

E atualmente, você integra algum grupo? Atualmente eu estou com o projeto Samba de Classe. É uma mistura, a gente está fazendo choro, samba, samba-rock, músicas da MPB, botando uma roupagem de samba, nessa linha. Lá no Quiçá [restaurante e pub no Renascença], aos sábados. Vão lá sábado agora, vou botar o nome de vocês na lista vip.

Além de instrumentista e cantor, que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho, tenho algumas músicas, nessa linha de MPB, samba, afoxé. Não sei dizer quantas.

Quando você compõe faz só instrumental ou faz com letra também? Faço com letra.

Você tem participação em gravação de discos? Tenho. Já participei. Já toquei em discos do [Bumba meu boi] Pirilampo, em discos de grupos de samba. Participei do Festival Viva 400 [2012], defendi uma música minha, chegou até a semifinal, não foi para a final.

Pra você o que é o choro? Qual a importância dessa música para você e, na tua percepção, para a música brasileira? É uma escola. É importantíssimo que a população tenha contato com essa música. Só assim ela vai conhecer a essência da música popular brasileira. A maioria dos ritmos, dos estilos, teve influência, partiu do choro. O choro tem uma influência muito grande, dentro da cultura brasileira. O choro foi uma mistura da polca mais batuques africanos e influência indígena. Foi se formando a partir disso.

Tem gente que pensa que o choro é só um gênero, uma música fechada. Você acha que o choro é uma música fechada ou aberta, que pode se misturar com outras coisas? Aberta total! Tanto é que tem no baião, tem polca, tem maxixe, tem choro-canção, tem samba-choro, tem uma série de coisas, tem Beatles tocado em ritmo de choro.

Você acha que o choro pode beber na fonte da cultura popular do Maranhão? Com certeza! Existem muitos compositores de música popular daqui que se utilizam de elementos do choro. Sempre fizeram. Tem o Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], antes do Biné teve o [multi-instrumentista] Zé Hemetério e muitos outros que sempre beberam nessa fonte. Dentro do choro há uma similaridade com a riqueza melódica e rítmica da música, da cultura popular maranhense. Um pode beber na fonte do outro tranquilamente.

Chorografia do Maranhão: João Soeiro

[O Imparcial, 30 de março de 2014]

Professor de violão popular da EMEM e músico de igreja, o violonista João Soeiro é o 29º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.

Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.

Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.

O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.

Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.

Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.

Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.

E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.

Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.

Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.

Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.

Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.

Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.

E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.

Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].

Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.

E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.

Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o show Noel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.

E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.

Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.

Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.

Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.

A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.

Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…

Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.

Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.

Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.

Chorografia do Maranhão: Osmar do Trombone

[O Imparcial, 23 de junho de 2013]

Osmar do Trombone está prestes a lançar seu disco de estreia, gravado em Belo Horizonte/MG. Para o nono entrevistado da série Chorografia do Maranhão, falta apoio para a consolidação da cena choro em São Luís

Osmar do Trombone, o “pequeno gigante”

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Técnico em eletrotécnica, Osmar Ferreira Furtado enverga dois apelidos. Um, o nome artístico, Osmar do Trombone, que ganhou após escolher o instrumento de sopro para chamar de seu; o outro, “pequeno gigante”, que faz jus, primeiro por sua altura física, segundo pelo que se torna quando sopra seu instrumento.

Osmar nasceu em 1º. de junho de 1950 em uma família de músicos. Não à toa, sua composição mais conhecida, inicialmente intitulada Quatro gerações, foi rebatizada Cinco gerações depois de ele descobrir mais um avô que tocava.

Sua mãe, a grajauense Julieta Pereira Furtado, 87, sempre cantou acompanhando seu pai, José Antonio Furtado, 92, ainda hoje soprando “seu saxofonezinho de vez em quando, dentro das limitações”. Osmar não poderia fazer trocadilho com seu sobrenome, portanto não se furtou a herdar-lhes a aptidão musical.

Hoje divide o tempo que sobra de curtir a aposentadoria entre a música e a Pizzaria Lauletas (ex-Stop, Cohab). Acabou de gravar seu disco de estreia em Belo Horizonte, a capital mineira para onde viajou para visitar o filho Osmarzinho, saxofonista que o acompanhou no grupo Os Cinco Companheiros, o grupo de Osmar que toma emprestado nome de clássico de Pixinguinha.

O nono entrevistado da série Chorografia do Maranhão recebeu os chororrepórteres no restaurante que Chico Canhoto mantém – embora sem espaço para um retorno do Clube do Choro Recebe – nas imediações do Aririzal. Ele nasceu em Barro Vermelho, à época povoado de Cajari, quando a cidade ainda pertencia à Penalva. É lá que se inicia a trajetória de Osmar, abordada nesta entrevista, que se inicia justo por sua vinda para a capital.

Então se empregaria aquela frase que dá título à música de Josias [Sobrinho, compositor], você veio de Cajari pra capital? Também, né? Primeiro de Cajari pra Pindaré, e de Pindaré pra capital.

Teve escala, né? Teve escala. Em Pindaré city [risos].

Como era o universo musical, em casa, na tua cidade? Quando tu começaste a se envolver com música? Que tipos de estímulos recebia? Tu nasce no meio musical, tu já fica… [chora. Continua depois de uma longa pausa] Tu já fica contagiado. Aí papai começou a me ensinar música com oito anos de idade. Tinha a bandinha, lá tinha banda, eu fui tocar aquela trompinha, o apelido do instrumento na banda era cachorra, a cachorrinha, aquela de marcação, de contraponto, fazia “pom, pom” [imita o som do instrumento com a boca]. Todo dobrado, valsa, tudo era no contraponto. Aí eu toquei na banda, a gente viajava pra várias cidades, Penalva, Pindaré Mirim…

Tu gostavas? Ah, adorava. Sempre no meio dos músicos. Isso por muitos anos. Até 14 anos, nós morávamos em Cajari, quando papai recebeu uma proposta de Pindaré, de um amigo dele, um cara que é conhecidíssimo lá, o Chico Devora, era festeiro, aquele cara que aparecia, que só andava de linho branco, dançando, era o pé de valsa da cidade, todo elegante. Ele convidou papai. “Cajari não dá, o meio musical da cidade, vam’bora pra uma cidadezinha mais adiantada”. Aí papai disse “eu vou”. Mas quem influenciou mesmo foi mamãe: “nós temos que ir, Zé Furtado, ele está convidando, lá a gente vai…” Aí mudamos pra Pindaré em 1964. Só que em Pindaré eu fiquei só de junho a dezembro. Foi quando minha mãe fez uma carta para minha irmã que morava aqui em São Luís e disse que não queria os filhos dela lá no interior, que iam ficar só pescando, que aquilo não era vida. Mamãe já tinha uma visão de crescer, que os filhos fossem alguém na vida, que viessem pra São Luís estudar. Aí eu vim, peguei aquela lanchinha lá, tradicional, de Pindaré, passando por Cajari, Viana, fazia escala, Penalva e São Luís. Passava dois, três dias viajando. Cheguei em 64, fui morar no pensionato com minha irmã e aquela vontade de estudar na escola. Fiz exame de admissão, passei.

Em que escola? Na Escola Técnica Federal do Maranhão, na época. O sonho era tocar na banda da escola. Na época era o… o nome dele eu não recordo, mas era conhecido como o velho Dó, o maestro. Logo depois foi o João Carlos Nazaré [maestro, pai da cantora Alcione], o nosso mestre.

Além de teu pai, quais foram teus principais mestres? Quem mais te orientou na formação musical? Importante na minha formação foi João Carlos Nazaré e mestre Nonato [do grupo Nonato e Seu Conjunto]. Além de meu pai foram estes dois músicos, estes dois maestros, que me orientaram. Depois que eu saí da escola, e mesmo quando eu estava lá, já trabalhando, fui bancário, antes de ir pra Cemar [Companhia Energética do Maranhão], eu já era convidado pra tocar em vários grupos de música. Toquei na Banda Reprise, Banda O Peso, Banda Reluz, Mákina du Tempo, e outras. Nessa época não tinha a influência do choro aqui em São Luís, a não ser aqueles velhos chorões. Eu não tava no meio musical, mas já ouvia falar, [o multi-instrumentista] Zé Hemetério tocava choro, Agnaldo Sete Cordas [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Quando eu já estava tocando no Barrica, aí eu encontrei [o violonista sete cordas Gordo] Elinaldo, e comecei a despertar para o choro, comecei a curtir. Peguei um vinil do grupo Chapéu de Palha, no qual [o trombonista] Zé da Velha tocava. Silvério [Pontes, trompetista], acho que tava molequinho ainda. Eles tocando sambas bonitos. Tem um chapéu na capa, acho que ainda tenho o vinil. O choro mesmo chegou pra mim depois que eu larguei o Boi Barrica, ainda toquei em alguns grupos de bumba meu boi, foi o tempo que me aposentei da Cemar, aí eu gostei mais de choro.

Nestes grupos que você citou eram tocadas mais músicas de baile, não é? Sim, músicas de baile. Mas também samba, muito samba, gafieira.

E na tua experiência anterior, ainda lá na baixada, Cajari, Pindaré? Ah, tocava muito com meu pai. Tocava sambas, maxixe, bolero, tudo na festa de meu pai. Cheguei a tocar até tuba. Quando faltava o contrabaixista, ele: “meu filho…”, ele ficava com pena. O instrumento era muito grande, eu apoiava num tijolo, nove quilos e meio.

E como é que se deu a escolha do trombone? A partir do quê você definiu que era seu instrumento? O trombone, tudo é assim: você focar. É tipo torcer por um time. É tipo o cara quando nasce e vai crescendo, o pai diz “meu filho, torce pelo Flamengo”…

Não dá certo! [risosMas só que eu torci pelo Flamengo. O filho disse; “não, eu não quero torcer pelo Fluminense, eu quero é pelo Flamengo” [o anfitrião Chico Canhoto acompanha a entrevista vestido numa camisa do tricolor carioca]. Então o instrumento, quando eu olhei uns alunos de meu avô, Antonio Cacete, Lupércio, eu achava a sonoridade muito grande. Meu pai foi um grande trombonista.

Teu pai tocou trombone? Ave Maria! O primeiro instrumento de meu pai na orquestra de meu avô foi o cavaquinho. Depois ele gostou, tocou trombone. Então meu pai era um instrumentista que quando dizia assim “faltou trompete”. Aí meu avô dizia assim: “Zeca, dá pra ti tocar trompete?” Aí ele ia lá e tocava trompete. “Dá pra ti tocar não sei o quê?”. Então ele saía tocando tudo. Tocou trompete e hoje toca sax, ainda, dentro das limitações. Aí eu comecei a ouvir a sonoridade. Quando eu cheguei na Escola Técnica, eu já tocava. O trombone de vara não era muito comum. Mandaram buscar quatro trombones de vara. Tocava eu, João Carlos Filho [filho de João Carlos Nazaré], Zé Américo [Bastos] tocava bombardino.

Você já viveu de música? Nunca! A música fazia a feira, comprava a cervejinha.

Tu estás aposentado da Cemar? Sim, aposentado da Cemar.

No trombone, quem é tua grande referência? Hoje existem grandes trombonistas, mas minha referência é o Raul de Barros. Quando eu o ouvi tocar Na Glória [de Ary dos Santos, Felipe Tedesco e Raul de Barros], eu pensei: “esse é o cara! Isto é o choro!”, aquela sonoridade linda do Raul. Hoje tem o Vittor Santos, o próprio Zé da Velha. Zé da Velha superou todo mundo, com aqueles contrapontos.

Como está o processo de gravação de teu disco? Graças a Deus terminamos. Está concluindo a mixagem. Osmarzinho [saxofonista, filho de Osmar] me ligou essa semana, minha sobrinha está fazendo a arte da capa. Tem que ter muito cuidado pra fazer a coisa. Sempre o segundo sai melhor, mas o primeiro a gente tem que dar uma caprichada pra sair legal.

É um disco solo? Solo.

Autoral? Autoral.

Todo autoral? Não, só cinco músicas.

E as demais? Uma de Antonio Vieira, O samba é bom, a de Josias é Terra de Noel, a de Joãozinho Ribeiro é Saiba, rapaz, e as duas de Cesar, eu não poderia deixar Cesar Teixeira de fora, Das cinzas à paixão e Rayban.

Todo instrumental? Todo instrumental. Eu sou suspeito pra falar, mas tá uma maravilha. Os músicos lá, não que a minha cidade não tenha grandes músicos, mas foi a oportunidade que me deram pra gravar isso, sem custos, sem patrocínio.

Sonho realizado? Sonho realizado. Tive um grande carinho dos músicos, professores da UFMG. [O trombonista] Marcos Flávio, um dos melhores do Brasil, um cara que tem referência internacional, que já tocou com [o trombonista] Raul de Sousa, com grandes músicos fora do país, gravou com uma simplicidade. Tranquilo! É professor de Osmarzinho em uma cadeira lá de chorinho. Ele me ouvia, cara. E me dizia: “Osmar, todo músico é bom naquilo que ele faz. Eu já ouvi tu tocar, tu é um talento nato”, ele falou pra mim. Não tem como não se emocionar.

Na entrevista anterior Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] comentou a felicidade de saber que tu tinhas gravado o disco em Minas. Parece que foi por acaso, já que tu foste à Minas visitar um filho, não gravar um disco. Como é que foi esse processo? Osmarzinho foi em algumas rodas de choro. Toda vez que ele ia numa roda de choro, ele dizia “papai vem aí, papai toca trombone”. Tem um dia que acontece, que dá tudo certo, aí eu viajei pra Belo Horizonte. Geralmente no Bar Mosteiro, que fica na Savassi, lá em Belo Horizonte, é o point, é o point do choro, é a elite do choro de Belo Horizonte. É só músico bom, só músico talentoso! Osmarzinho disse assim: “papai, eu vou lhe levar primeiro lá no Mosteiro, depois eu te levo no Salomão, no Pastel de Angu, no Bolão”, e eu “tudo bem”. Quando eu entrei, já com trombone e tudo, que a galera olhou, rapaz, tem um pandeirista superengraçado, fora de série, ele levantou a cabeça e disse assim “pode tirar logo, que eu já sei que é pai de Osmarzinho”. Aí eu disse pra Osmarzinho, “e se eu não tocasse? Eu tava ferrado” [risos]. Uma coisa que eu achei muito legal é que o músico que toca em roda de choro é impecável. Uma vez Silvério me falou isso: “Osmar, a música não é brincadeira. A brincadeira tá no meio da música. Mas quando você tá tocando, tem que ter responsabilidade pra tocar certo, fazer tudo pra tocar tudo certinho”. Eu fiquei maravilhado com aquilo que ele me disse. Eu fui sentir lá em Belo Horizonte a capacidade da execução dos músicos. Quando eles perguntaram que música eu ia tocar, eu perguntei qual a música eles queriam que eu tocasse. Altamente sugestivo [risos], sugesta na manha. Mas eu sabia que eu poderia dizer que tava brincando, mas disse “olha, eu vou tocar o hino do trombone”. Eles perguntaram qual era, e eu disse “olha, na minha concepção é Na Glória, é uma música que eu acho que todo chorão tem que saber tocar, e vou tocar um choro que eu compus, chamado Cinco gerações [Osmar do Trombone]”. A paixão pelo choro foi instantânea. Os amigos do choro, tem uma turma lá, que é carteirinha, toda sexta-feira, juízes, advogados, engenheiros, profissionais liberais, aquela galera, alguns que já trabalharam em São Luís, perguntando como estão as praias, “ah, estão ótimas, poluídas, mas estão boas” [risos]. Eu toquei outras músicas, vários choros.

Você listou uma série de grupos de que já participou, mas não falamos ainda de grupos de choro. O que significaram pra ti? A pessoa quando tem na alma a música, qualquer música, soando bem em seus ouvidos, você toca, gosta de tocar. O choro, eu não sei por que, já há uns anos eu me identifico mais com choro e samba, é uma linguagem fantástica, aquela malícia, aquela malandragem da melodia, aquelas armadilhas, aquelas coisas que só a música pode falar por si. Os Cinco Companheiros tem mais de oito anos, foi no bar de meu amigo Chico Canhoto que teve a repercussão de grandes grupos de choro aqui de São Luís, e a gente fica muito feliz de participar, de ter a música na vida da gente, de ter a música como um elemento da vida da gente.

Tu tens quantas composições? Gravada, escrita, tem cinco. Mas já tenho outros seis choros prontos para passar para partitura. E eu pretendo fazer o próximo cd só com músicas minhas. Essas cinco que já estão no primeiro mais essas seis novas, que já estão praticamente prontas, faltando alguns acertos de melodia, algumas notinhas que ficam o tempo todo querendo mudança.

Quanto tempo você demorou para dar o disco por pronto? Olha [pensativo]… em novembro de 2011 a ideia, mas começou mesmo em maio de 2012, então tá com um ano. Sempre com cuidado.

Isso envolveu várias viagens. Cada viagem era uma história. Uma história de conhecer outros grupos, outras rodas de choro.

Dentro do que depende só de ti, tu pretendes colocá-lo na rua, fazer um show de lançamento em São Luís, quando? Depois que o cd estiver pronto eu quero convidar o meu amigo Ricarte para ser o intermediador dessa ideia de fazer um show de lançamento. Ele que tem muita experiência nisso aí, eu quero que ele me mostre o caminho. “Olha, fica melhor por aqui, em ambiente tal”, eu sou todo ouvidos. Foi a primeira pessoa em que eu pensei.

Mas tua ideia é fazer isso quando? O cd estará pronto agora, fim de junho, começo de julho. Eu gostaria de fazer em agosto, por que em setembro já está agendado para eu fazer lançamento em três casas de choro lá em Belo Horizonte: o Bar Mosteiro, o Pedacinho do Céu e o Salomão.

Além deste disco tu tens participação em outros discos? Tem. Na Companhia Barrica, participei de uns dois discos. Participei do cd dOs Foliões, Antonio Vieira ao vivo no Teatro Arthur Azevedo [O samba é bom, 2001], Vagabundos do Jegue, o cd do Fuzarca [grupo carnavalesco que reúne os cantores Cláudio Pinheiro, Inácio Pinheiro, Fátima Passarinho e Rosa Reis], o de Isaac Barros, Cabeh [o póstumo Esquina da solidão].

Você falou que despertou para o choro um pouco depois. O que significa o choro, pra ti, hoje? Ave Maria! É a música! O choro é a música! Não tem outra música. Aprendo muito tocando choro, a cada dia tu tem um ensinamento diferente, é um acorde, é uma maneira, um improviso.

Você gosta de tocar com essa geração mais nova? Adoro! Tem uma galera aí muito legal. Em São Luís, eu não sei, é meu ponto de vista, eu não sei se é falta de formação, de mostrar que choro é uma música legal, tem muita gente nova que não está tocando choro. Por exemplo, Daniel Miranda, que é trombonista do Quinteto de Metais, eu digo “Daniel, tu tem uma sonoridade legal, aprende a tocar choro”, ele não toca. Tocou uma vez, tu lembra, que um quarteto de trombones tocou o Tororoma [Saudades do Tororoma, música de Osmar do Trombone que homenageia um riacho de sua região de origem] lá no Clube do Choro Recebe?

Você ainda participa de algum grupo de choro em São Luís? Só free lance, quando me chamam eu toco.

E Os Cinco Companheiros? Os Cinco Companheiros toca de vez em quando. O problema maior é que não tem onde se tocar, não tem uma casa fixa. Todos os componentes dOs Cinco Companheiros tocam em outros grupos.

Você está vindo de Belo Horizonte, onde pode sentir a efervescência da cena, várias casas, vários grupos, e viveu também a experiência do Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. A gente via, naqueles três anos em que o projeto existiu, um público cativo. Por que esse público não vai para outras casas, ver outras apresentações, de outros projetos? Eu acredito que pela inconstância. Deixaram de acreditar. Eles acreditavam tanto naquele projeto no Chico Canhoto, que aquilo ali era como se ir pra igreja todo domingo, rezar, já sabiam que sábado tinha. Eu encontro pessoas, “rapaz, era tão bom, por quê que acabou aquilo?” Um dia arrumaremos outra casa.

Como tu tens observado a cena choro, o desenvolvimento do choro no Brasil hoje? Tem muitos grupos no Brasil hoje tocando muito choro. Pode acessar a internet aí que tu vê. Nos Sescs, cada instrumentista fantástico. Tem muita coisa boa. Aqui tem grandes músicos.

Quais os chorões que tu mais gostas, que mais te tocam? Pra te ser sincero, Zé da Velha e Silvério Pontes, musicais, alegres. Tenho cds de [o clarinetista] Paulo Moura, que tá lá no outro andar, grande instrumentista, Yamandu [Costa, violonista sete cordas] tem um cd de samba e choro do Paulo Moura com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, o Cliff Korman [Gafieira Jazz, 2006]. Aquilo ali é uma maravilha, cara!

E no Maranhão, quem é que te enche os ouvidos? Tem uma pessoa aqui em São Luís, que já tocou comigo em vários grupos, que tocou no Osmarmanjos comigo em São João e Carnaval, e participou também de roda de choro, que é Daniel Cavalcante, toca trompete. Juca é excelente cavaquinhista, o [cavaquinhista] Rafael Guterres, [o violonista] João Soeiro, tem o Domingos Santos, o sete cordas, Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] é maravilhoso tocando aquele sete cordas dele, parece que ele tá é navegando, não tá tocando. Serrinha de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é um cara supertalentoso, concentrado, não é aquele músico de muita firula. Na última comemoração do Dia do Choro [23 de abril de 2013, na Associação Atlética Banco do Brasil, Serra de Almeida foi homenageado em evento anual que reúne diversos chorões de São Luís] eu achei fantástica, impecável a apresentação de Serrinha. [O flautista] João Neto é um excelente músico. Então, pra não ser indelicado com alguns que eu não lembre, aqui tem muitos músicos, estamos bem servidos. Falta é apoio, principalmente dos poderes maiores, culturais, que nós não temos. A sede do Clube do Choro ficou só no papo de político, ninguém fez nada por aquilo.

Com tudo isso que você fala, é possível prever um bom futuro para o choro no Maranhão? Como tou te falando: só se tiver apoio. Eu não digo nem do poder público, mas da iniciativa privada. Vamos investir, vamos patrocinar o músico.

Mas você não acha que falta iniciativa dos músicos, perceberem a capacidade de gerar essa movimentação? Sim, tem essa carência, essa falta de pulso, de chegar e tomar a frente da coisa. A inviabilidade, às vezes, é até pela forma de retorno financeiro. Tem muita gente que vai tocar choro, vai numa roda de choro, e não tem retorno. A cidade não tem grandes empreendimentos para você ter um salário digno. O músico, geralmente, se ele viver só de música, já é precário. Faltam políticas públicas, oportunidades, incentivos. O músico pode se mexer, mas ele tem que ter pra onde se mexer.