Teatro e política

Foto: Teatro Arthur Azevedo. Reprodução
Foto: Teatro Arthur Azevedo. Reprodução

 

Vindos do foyer os atores adentram o palco por uma lateral da plateia. Entram em cena cantando. Estão em busca de Ariano Suassuna (1927-2014), sua estrela guia. Ariano, o cavaleiro sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos, foi apresentada no palco do Teatro Arthur Azevedo na última sexta-feira (22), na programação da 14ª. Semana do Teatro no Maranhão, promoção da casa de cultura.

É um espetáculo impecável, que junta o teatro de comédia a canto e dança, com beleza e leveza. O figurino merece destaque. O grupo é feliz ao seguir a pista do homenageado, arquiteto do Movimento Armorial, equilibrando-se com desenvoltura entre o popular e o erudito.

Com seis atores em cena – Carla Meirelles, Fabíola Rodrigues, Getulio Nascimento, Julio Cesar Ferreira, Nívea Nascimento e Renato Neves –, a peça, escrita e dirigida por Ribamar Ribeiro, é dividida em seis partes, seis são as letras que escrevem o nome de Ariano. Como a palavra teatro. O texto passeia entre uma biografia cronológica de Suassuna e citações mais ou menos escancaradas a obras de sua lavra, com destaque para O auto da compadecida e O santo e a porca.

Com 23 anos de história e 12 peças no repertório, os cariocas da Ciclomáticos encarnaram bem o universo nordestino de Ariano Suassuna, afinal de contas, um de seus mais ferrenhos e aguerridos defensores, entre o fazer artístico (em teatro e literatura) e a gestão pública (chegou a ser secretário de Estado da Cultura de Pernambuco).

O componente político também comparece ao texto: quando lembram que o pai de Ariano Suassuna – João Suassuna era então presidente do estado da Paraíba, quando ele nasceu – foi assassinado por razões políticas, completam: “como Chico Mendes, como Marielle Franco”.

Longamente aplaudidos de pé, revelaram estar felizes por voltarem a São Luís – a peça havia sido encenada no próprio TAA no período junino – e tristes pela atual situação do Rio de Janeiro, sob a necropolítica de Wilson Witzel, e do Brasil sob o bolsonarismo.

O grupo vinha do Recife, onde apresentaram Ariano no Festival Recife do Teatro Nacional (dias 16 e 17/11), e de São Sebastião/SP, onde apresentaram Casa Grande e Senzala – Manifesto Musical Brasileiro no Dia da Consciência Negra.

Os Ciclomáticos festejaram a longevidade da Semana do Teatro e desejaram a continuidade do evento. Pela mesma lateral que entraram, saíram, cantando e tocando e recebendo ainda mais aplausos.

Encerramento – A 14ª. Semana do Teatro no Maranhão encerra-se hoje. Às 19h, no Teatro Arthur Azevedo, com encenação de Ensaio sobre a memória, da Pequena Companhia de Teatro (texto e direção de Marcelo Flecha, homenageado desta edição do evento, a partir do conto A outra morte, de Jorge Luis Borges, com Cláudio Marconcine, Jorge Choairy, Tássia Dur e Kátia Lopes), acontece a solenidade de premiação do evento.