Os tropicalistas de hoje em dia

O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches
O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches

 

Em texto sobre a banda em seu site, O Terno se apresenta como um “power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental de São Paulo”, mas é claro que é bem mais que isso. Há ecos das décadas de 1960 e 70 em seu som, sobretudo da Tropicália, mas longe de cheirar a mofo ou a um de seus antídotos, a naftalina.

Não são pautados pelo saudosismo – a propósito, de um tempo em que nem viveram, mas que conhecem bastante pelos discos e pela história – e atualizam o movimento, reprocessando suas influências explícitas.

Melhor do que parece. Capa. Reprodução
Melhor do que parece. Capa. Reprodução

Tim Bernardes (guitarra e voz), Guilherme d’Almeida (contrabaixo) e Biel Basile (bateria) acabam de lançar seu terceiro disco, Melhor do que parece [2016]. Sábado passado (19) estiveram na Ilha, para um show no Cidade Velha Pub – elogiaram o público ludovicense.

As citações à Tropicália, veremos, não são despropositadas, nem mera mania de crítico de encontrar um antecessor a qualquer novidade que apareça. O trio agradou a Tom Zé, um dos nomes mais interessantes do movimento, ainda na ativa – acaba de lançar, aos 80 anos, Canções eróticas de ninar [2016]. O Terno participou do EP Tribunal do feicibuque [2013] e do álbum Vira lata na via láctea [2014] – em ambos há parcerias de Tim e Tom.

Por motivos de força maior, Homem de vícios antigos não esteve na plateia dO Terno, sábado passado. Mas o blogue entrevistou Guilherme d’Almeida por e-mail – a ideia era publicar o papo antes do show, mas as respostas só foram recebidas depois da passagem do grupo pela cidade.

O início da carreira de vocês, com covers de Beatles e Mutantes, colaborou para a aproximação com Tom Zé, de quem vocês já participaram de discos?
Participar de gravações com o Tom Zé foi uma grande honra para nós. O convite veio através do [jornalista e produtor musical] Marcus Preto, que reuniu artistas da nova geração para gravar no EP Tribunal do feicebuqui, onde participamos de duas músicas. O trabalho ainda rendeu mais algumas gravações que foram incluídas no disco Vira lata na via láctea. Sobre o início da banda não sei dizer se o fato de um dia termos tocado músicas de outros artistas colaborou para o encontro, mas foi uma boa escola para aprender mais sobre arranjos e sonoridades, apesar de O Terno nunca ter sido uma banda cover.

66, seu disco de estreia figurou em várias listas de melhores em 2012 e lhes deu vários prêmios. Ao fazê-lo vocês tinham noção da seriedade da coisa ou essa repercussão toda lhes causou surpresa?
A repercussão do nosso primeiro disco foi muito boa para nós, que ainda estávamos começando nossa trajetória. O clipe de 66 foi um grande diferencial nessa fase, pois chegamos em públicos que não imaginávamos através do compartilhamento na internet. Acho que não tínhamos muita ideia de onde o disco poderia chegar, mas fizemos todo o trabalho com muita seriedade e planejamento, pensando repertório, clipes, datas de lançamentos e show com o intuito de levar o som o mais longe possível.

O segundo disco de vocês, que leva apenas o nome da banda, é autoral e foi realizado graças a financiamento coletivo, mecanismo a que cada vez mais artistas têm recorrido. Em tempos de golpe e crise, como vocês preveem o futuro da música independente no Brasil?
Acho que essa cena indie no Brasil está cada vez mais autodidata e, de fato, independente. O caminho pela frente parece bem obscuro, mas acredito que os músicos e o público saberão criativamente driblar essas adversidades.

As influências da Tropicália seguem em Melhor do que parece. É intencional ou é algo do qual simplesmente vocês não conseguem se desligar, de tão introjetado em seu DNA musical?
Não acho que seja intencional ou ocasional, é apenas uma questão estética que nos agrada. O disco traz diversas referências para alem da Tropicália: as gravações da Motown e da Capitol, bandas e artistas atuais como [o cantor, compositor e multi-instrumentista canadense] Mac de Marco, [a banda americana] Fleet Foxes, entre outras. Não costumamos pensar em influências como fórmulas diretas para isso ou aquilo, mas nossa formação musical tem uma base grande em comum, o que resulta em arranjos, timbres, formas que remetem certos períodos ou artistas.

E sobre São Luís, quais as impressões sobre esta primeira vez dO Terno na Ilha?
Foi quente! Público muito atencioso, cantando as músicas junto e um dos maiores calores que já passamos em cima do palco!

Veja o clipe de Culpa (Tim Bernardes):

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal: