Filosofia na tela

[Vias de Fato, agosto/2014]

Nota do blogue: a convite de Dida Maranhão, com quem já tinha trabalhado quando assessorei Lourival Tavares, fiz a assessoria de comunicação para o lançamento do filme O camelo, o leão e a criança, do diretor paranaense radicado no Maranhão Paulo Blitos. Conversei com ele antes de ver o filme (tinha visto apenas um trailer), embora a entrevista só tenha sido publicada depois da sessão de estreia. Por isso, por exemplo, não aparecem, nem no texto de abertura, nem na entrevista, qualquer elogio à sublime trilha sonora, de autoria de Joaquim Santos, expert nisso, ou qualquer opinião sobre o filme, bem feito e bonito, embora me incomodem as cenas de making of integradas à trama.

Vias de Fato entrevistou o ator e diretor paranaense Paulo Blitos, que acaba de lançar O camelo, o leão e a criança, seu primeiro longa-metragem. Filme está em cartaz nos Cines Praia Grande e Lume

O ator e diretor durante a entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: Zema Ribeiro
O ator e diretor durante a entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: Zema Ribeiro

POR ZEMA RIBEIRO

A sinopse de O camelo, o leão e a criança, primeiro longa-metragem do ator e diretor paranaense Paulo Blitos, 60 anos, fala em “espantoso, estranho e inusitado, tal como se inserem, de modo geral inadvertidos, no curso da vida cotidiana”.

O filme mescla a história de vida de seus três personagens à tipologia do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, encontrada no capítulo Das três transformações, de seu clássico Assim falava Zaratustra.

Com uma peça de teatro, alguns curtas e uma aposentadoria na bagagem, o ex-engenheiro chegou à São Luís há pouco mais de um ano, para realizar o filme, e acabou morando.

Em cartaz nos Cines Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) e Lume (Edifício Office Tower, Renascença), O camelo, o leão e a criança teve sessão de estreia no último dia 21 de agosto, no primeiro. O filme foi rodado entre o Paraná (Curitiba) e o Maranhão (São Luís, Morros e Santo Amaro).

No Cafofo da Tia Dica, por detrás da livraria Poeme-se, na Praia Grande, o diretor conversou com o Vias de Fato sobre o filme e sua trajetória, do Paraná ao Maranhão, desde a engenharia até o cinema.

Paulo Blitos em cena de “O camelo, o leão e a criança”. Frame do vídeo. Reprodução

 

Como surgiu a ideia de um filme com essa tipologia nietzschiana? O camelo, o leão e a criança é retirado da tipologia do Nietzsche. Eu peguei a tipologia e tentei observar se isso acontecia nas histórias de pessoas. O filme é baseado em histórias reais. Tem três personagens centrais. Um personagem, que é a linha mestra do filme, que é um professor [interpretado por Paulo Blitos], a história é baseada em minha história.

Como o cinema entrou em sua vida? Eu sou engenheiro de formação. Trabalhei 30 anos em uma empresa, comecei como engenheiro, fui gerente, depois de cerca de 15 anos, larguei tudo [as atividades de engenharia e gerência], e fui trabalhar com treinamento, dentro da própria empresa. Larguei mão da engenharia, como eu digo “eu fui engenheiro”. Fui trabalhar com treinamento, a coisa da implantação da Qualidade Total, naquele tempo. Teve um gerente de área que bancou e eu fui trabalhar na área operacional. Nessa empresa eu me aposentei. Lá eu comecei a me envolver com arte, fui fazer curso de teatro para fazer treinamento. Foi através do curso de teatro, que eu fiz com um rapaz [Mauro Zanatta], que inclusive é um dos atores que está fazendo o trabalho [de O camelo, o leão e a criança] agora com a gente. Eu levei o teatro para dentro da organização, isso foi inovador, nessa área, nas empresas, em Curitiba.

Qual era a empresa? A Copel, uma empresa do setor elétrico [patrocina o filme, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura]. É uma empresa renomada em termos de treinamento, sempre contratando pessoas para fazer treinamento, mas não tinha essa coisa do teatro, da arte. Eu fui fazer teatro para aprender e acabei levando para dentro da empresa, montamos um grupo de teatro. Daí a arte começou a entrar em minha história. Nessa época eu já estava largando a engenharia, e buscando coisas mais filosóficas, estudava Física Quântica, Filosofia, eu gostava de usar isso dentro do treinamento, não ficar naquela coisa muito mecanicista, muito cartesiana. Então fiz esse curso que me ajudou. Sempre li bastante. Eu lia Nietzsche com 17 anos. Não entendia nada. Mas eu adorava! [risos]. Muita gente passou por essa experiência. Eu sempre gostei de Filosofia, mas acabei enveredando por outro caminho. Depois eu voltei, mas queria aplicar isso, não ficar só no hobby.

E sua carreira de ator e diretor? Houve uma carreira para além das atividades na empresa? A primeira atuação foi em 1999, no teatro. Eu comecei com treinamento em 1994, com esse rapaz, fiz um curso em Curitiba, para poder dar os cursos que eu dava na empresa. Ele me criou, digamos assim, foi o primeiro professor de teatro que eu tive. Ele me preparou para a questão da interpretação, e até hoje. Eu tive um trabalho premiado em um festival no sul, em Pinhais [no Paraná], Tuareg [exibido dia 16 no Cine Praia Grande, em sessão seguida de debate com o ator], curta-metragem rodado nos Lençóis [Maranhenses]. É um monólogo, eu ganhei o prêmio de melhor ator nesse festival. O teatro foi minha entrada como ator, fiz uma peça só, no circuito externo, o resto trabalhei mais na empresa, fazia algumas esquetes com atores que trabalhavam comigo. Eu me dedicava mais à empresa, acabei não me dedicando muito a uma carreira de ator. Sempre tive uma coisa de buscar, gosto quando tenho uma participação também na construção do texto. Essa peça que a gente fez, a gente fez muitas conversas sobre física quântica, espiritualidade, daí saiu o roteiro. Eu sempre procuro me envolver com o tema dos trabalhos que eu faço, no teatro e agora no cinema. Eu tenho que estar sentido, o afeto tem que estar presente. Eu fiz um curta que era de um amigo meu [Jul Leardini], parceiro no teatro, ele fez o roteiro de minha primeira peça, foi diretor, é codiretor desse filme [O camelo, o leão e a criança]. Ele ia ser o diretor, se o filme fosse rodado em Curitiba, mas como eu trouxe o filme para cá, eu assumi a direção, por uma contingência.

Você está morando em São Luís? Sim. Há um ano. Vim para São Luís fazer o filme, precisei ficar e gostei de ficar.

Fale um pouco das locações do filme. O filme foi rodado em Curitiba, São Luís, Lençóis, em Santo Amaro, e Morros. Em Curitiba nós fizemos algumas cenas internas, quase não aparece a cidade, e algumas cenas no campo, área rural, não dá para saber que é Curitiba. São Luís dá para saber que é a cidade, as cenas externas caracterizam bem a cidade.

De sua aposentadoria para o teatro e cinema foi um salto automático? Quando eu me aposentei, fiquei parado um tempo, fiz palestras fora, não estava mais querendo ficar na área organizacional. Primeiro fizemos um curta, não deu certo. Desenvolvemos o roteiro juntos, eu e esse meu amigo que era meu diretor, o Jul Leardini, na época nós nos juntamos, tinha uma outra pessoa, uma mulher que era minha companheira na época, e a gente fez o roteiro. Umas discussões, umas conversas dos três, questões filosóficas, existenciais, fizemos as filmagens. Foi em 2009, meu início no cinema foi em 2009, é recente. Eu me aposentei em 2008. Ele estava fazendo o curso de cinema em Curitiba, achamos um câmera interessado, mas não deu certo. A ideia do filme foi legal, mas o filme não chegou a ser concluído. Tem baixa resolução, a gente não quis nem colocar no youtube. Está parado, não foi concluído. Em 2011 começamos um segundo, com o mesmo pessoal, mudamos os câmeras. Pegamos a produtora que hoje está aqui comigo. Fizemos um curta chamado Ser lacerante, concluído no final de 2012. E fizemos uma animação, um curta, super oito, tem um festival de super oito em Curitiba, é super curta, tem três, quatro minutos. Este foi premiado e o roteiro é meu.

Filmes curta-metragem ainda têm uma vida muito restrita ao circuito de festivais. Qual a vida de teus filmes, em termos de exibição? Ser lacerante é um filme pesado, não foi selecionado por festivais. Esse de super oito foi feito para o festival. O terceiro foi Tuareg, para um festival em Taguatinga [no Distrito Federal] e para Pinhais, onde teve essa premiação. Curta no Brasil basicamente é festival. Hoje alguns canais, o Canal Brasil, parece que começam a exibir. O Tuareg não foi selecionado aqui no Guarnicê [festival de cine-vídeo].

E o processo de financiamento de tuas obras? O Tuareg eu banquei. Os outros foram feitos em cooperativa. Ser lacerante, que foi concluído, o que não foi concluído também. Cada um dá seu trabalho e se acontecer alguma premiação a gente divide. Em Tuareg nós gastamos cerca de 10 mil. Para O camelo, o leão e a criança captamos 80 mil de 277 mil. É um filme com uma proposta, uma linguagem mais artística, não tão convencional, não tão linear, hollywoodiana. A ideia é trabalhar muito com zoom, com luz, trabalhar com close, conseguimos um orçamento mais em conta [o filme tem patrocínio da Copel, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura].

Voltando à São Luís: como foi a decisão de fazer o filme aqui? Eu e minha produtora estamos juntos desde o começo [o início de sua carreira]. Eles [parte da equipe de produção do filme] vieram para cá em maio do ano passado, morar. Eu vim visita-los em junho, tínhamos uma ideia de fazer alguma coisa, um texto que eu tinha, que acabou gerando o Tuareg. Fomos para os Lençóis conhecer e acabamos filmando em cinco dias. Eu já tinha mandado o projeto [de O camelo, o leão e a criança] para a Lei Rouanet, aprovamos no final de 2012. Quando eu estava aqui, em junho, visitando-os, saiu a notícia de que havíamos sido contemplados com 80 mil, um terço do valor pedido. Estávamos aqui, eu e a produtora. A ideia era fazer o filme lá, o Jul ia ser nosso diretor. Daí resolvi vir para cá e fazer aqui. Apostamos nisso, viemos para cá, trouxemos tudo o que precisávamos. Vim fazer o filme e fui ficando, experimentei morar. O resultado foi o filme, vou lançar o filme em Curitiba também.

Gostaria que você comentasse um pouco do elenco e das personagens. Mauro Zanatta, que foi meu professor, interpreta o personagem baseado na vida do Jul, ele representa ser manco, o Jul tem uma paralisia. A ideia é que ele está representando de fato o próprio diretor [Jul Leardini, codiretor de O camelo, o leão e a criança]. Meu personagem se baseia na história de um professor, tem um pouco da minha história, das minhas ideias. O terceiro personagem é uma médica, esposa de meu consultor. Ela passou elementos da história dela, usamos no roteiro, para essa atriz interpretá-la. É uma médica muito ligada com espiritualidade, misticismo.

Como foi desenvolver o roteiro? Eu e Jul já tínhamos uma história anterior, dos filmes anteriores. Nos primeiros filmes a gente fala muito da gente. Os primeiros curtas são trabalhos filosóficos, não tem muito enredo, muita história pessoal. A ideia foi juntar essa questão filosófica, que a gente trata nos curtas, num filme falando de nossas histórias, fazendo uma ponte com a Filosofia. Daí veio a história do Nietzsche, do camelo, do leão e da criança. Conseguimos identificar, na história do Julmar [Jul Leardini], ele sofrendo discriminação por causa da paralisia dele, eu tenho uma história em relação a vícios, na verdade peguei um pouco da história do meu pai, foi alcoólatra, teve internações, eu junto com minha história. A médica apareceu depois. Nós não tínhamos uma mulher e queríamos uma ligada com o misticismo. Nossas conversas filosóficas elas versavam sobre questões sociais, filosofia, ciência, e espiritualidade. Buscávamos alguém que pudesse falar de uma vivência mística, de cura. Essa médica, além da cura da medicina mesmo, isso está no âmbito retratado no filme, ela volta-se mais para a questão da mística. Ela trouxe a história dela, dentro das práticas religiosas. Ela passa por meditação, budismo, e acaba desenvolvendo uma relação com religiões amazônicas, ayahuasca, Santo Daime, o professor também acaba usando. A gente trouxe tudo isso para o filme. Montamos o roteiro a partir de dados trazidos por essas histórias pessoais. Aí tivemos a participação desse meu amigo psicanalista [João Perci Schiavon, consultor do filme], ele trabalha muito a questão da psicanálise com a arte. Ele trouxe isso para o filme também. O professor faz essa ponte.

É possível resumir as intenções do filme? É a gente conseguir ver essa tipologia que o Nietzsche apresenta na história de três pessoas comuns e a gente conseguir perceber as fases de camelo que nós vivemos, a fase de leão, até a fase de criança. Conseguir enxergar essa tipologia. Nós pegamos essa tipologia específica e vamos ver como é que isso se encaixa na minha história pessoal, na história do ator e na história dessa médica. As histórias caminham em paralelo. Os três personagens estão se mostrando desde o início do filme. Há uma linearidade, a fase camelo no começo, mais característica para um e para outro, o professor que tem uma característica mais forte, o camelo do ator já mistura um pouco com a discriminação, a sociedade age sobre, e a da mística [a médica] com a religião. O professor tem uma relação mais subjetiva, mais psicológica, dele mesmo, o ator está mais ligado com a questão com a sociedade, e a mística está mais ligada com a questão religiosa, a espiritualidade, com a prática religiosa. Eu convergi essas três linhas para chegar ao professor. O professor é a linha mestra. Você consegue perceber as situações claramente, camelo e leão. A criança é outra história: eu usei de metalinguagens, vamos dizer assim. Eu não conseguia dizer onde é que está essa criança. Tem muito a ver com o super homem do Nietzsche. Eu não conseguia achar uma saída para isso, mas eu sinto que tem uma criança em alguns momentos da minha vida, em alguns momentos em que estou entregue para aquilo, os cursos que eu fazia.

A criança é uma constante? O Nietzsche fala que a criança não tem passado nem futuro: ela é inteira no presente. Não há diferenciação entre ela e o objeto: ela é o objeto. É o corpo que se configura. “Ame aquilo que te acontece, você é aquilo que te acontece”. Eu tenho momentos de criança, mas eu não consigo pegar e traduzir isso em uma atividade como eu consigo ver meu processo de leão, meu processo de camelo, assim como eu conseguia ver o processo do ator e da médica. Essa criança talvez não seja um processo para chegada, talvez o leão e o camelo sejam. É preciso passar pelo camelo, depois ser leão, pra chegar na criança finalmente. Como são passos, eles conseguem se apresentar como processo. A criança, como é mais um estado, vai se apresentar de forma não completa, não continuada, ela vai se apresentar em flashes, em situação, principalmente para a gente, que vem sempre sendo camelo e leão. Como é que eu mostro isso no filme? Eu tive uma sacada que espero que passe no filme.

Antes de São Luís, você sempre morou em Curitiba? Estive em Florianópolis um tempo, outro no Rio, mas sempre em Curitiba. Isso aqui [São Luís] é muito rico, é muito para entender ainda. Tem uma cultura que ao mesmo tempo em que reage, se opõe ao desenvolvimento neoliberal cultural europeu, acho que o Sul acabou se entregando muito mais a isso, Paraná, São Paulo, Porto Alegre, Minas, a coisa do europeu está muito mais clara, mais visível, aqui se tem uma coisa mais africana, indígena, europeia também. É para entender. Eu vejo uma desobediência civil, às vezes, parece que o povo faz só para desobedecer mesmo, a gente vê isso na rua, no trânsito, no jeito, alguns costumes. Eu vejo uma coisa às vezes tribal, deslumbramentos às vezes. Às vezes eu brinco, o carro é o espelhinho, tem uma disputa no trânsito. Por outro lado é interessante, não se submeteu. No Sul o que se vê: não se vê a pobreza na cidade, você vê a cidade limpa, a pobreza está na periferia. Aqui você vai na [Avenida dos] Holandeses, vira a esquina, é uma coisa mais verdadeira, um retrato de nossa civilização ocidental.

Da engenharia para a filosofia e o cinema e parece que agora para a antropologia. [Risos] A filosofia acaba buscando. No filme, a fala final conta uma história dos nômades, Deleuze [Gilles Deleuze, filósofo francês] fala muito nisso, é um cara que eu respeito na filosofia. Esse meu amigo consultor tem uma ligação forte com o Deleuze, é tradutor de Deleuze aqui no Brasil. Não está explícito, mas está lá. Tem essa coisa não linear, uma coisa assim, a gente até mexe com a questão do tempo, mas não o tempo cronológico. A personagem começa remetendo a uma história que teria acontecido no passado. As primeiras cenas são os três em preto e branco. Só que eles estão com a mesma figura de hoje, até o final do filme, e isso é proposital. Poderíamos ter feito o cara mais novo, maquiagem, outro ator, mas queremos sair dessa linearidade, dessa cronologia. A gente trata também essa coisa da filosofia com alguns textos, no filme. Uma característica do filme é essa: você não sabe se o professor é casado, se é pai, se é filho, se é homossexual, se não é. Você sabe da problemática dele, é tratar da questão, do problema dele, como ele se relaciona com as coisas da vida dele. O filme não mostra questões pessoais, isso para todos os personagens. Eles podem ser qualquer coisa, não vai fazer diferença. A gente trata das questões para as quais o filme foi feito: a questão do conhecimento, a questão do vício, a questão da discriminação e a mulher com a questão da religiosidade.

Ficha técnica: Roteiro e Direção: Paulo Blitos. >>> Codireção: Jul Leardini. >>> Produção: Paulo Blitos e Sync Cultural. >>> Elenco Principal: Paulo Blitos, Mauro Zanatta (preparação de elenco em Curitiba), Vanessa Gonsioroski, Raimundo Reis. >>> Direção de Fotografia e Câmera: Evandro Martin. >>> Som, Edição e Montagem: Edemar Miqueta. >>> Trilha Sonora: Joaquim Santos. >>> Direção de Produção: Élida Aragão (Maranhão), Suzana Aragão (Paraná). >>> Direção de Arte: Dida Maranhão. >>> Argumento: Paulo Blitos, João Perci Schiavon, Jul Leardini, Ana Lahis Tano Schiavon. >>> Consultor: João Perci Schiavon >>> Preparação de elenco (no Maranhão): Igor Nascimento.

Filme baseado em tipologia de Nietzsche estreia hoje (21) em São Luís

[release]

O camelo, o leão e a criança, primeiro longa-metragem do curitibano Paulo Blitos foi rodado entre Paraná e Maranhão

Paulo Blitos em cena de "O camelo, o leão e a criança". Reprodução
Paulo Blitos em cena de “O camelo, o leão e a criança”. Reprodução

 

Como O camelo, o leão e a criança, seu primeiro longa-metragem, a trajetória do cineasta Paulo Blitos não é convencional. Engenheiro de formação, o teatro entrou em sua vida quando trabalhava em uma empresa do setor energético, em Curitiba, onde se aposentou.

“Trabalhei 30 anos, comecei como engenheiro, fui gerente, depois de cerca de 15 anos, larguei tudo [as atividades de engenharia e gerência], e fui trabalhar com treinamento, dentro da própria empresa. Larguei mão da engenharia, como eu digo “eu fui engenheiro”. Comecei a me envolver com arte, fui fazer curso de teatro para fazer treinamento. Foi através do curso de teatro, que eu fiz com um rapaz [Mauro Zanatta], que inclusive é um dos atores que está fazendo o trabalho [de O camelo, o leão e a criança] agora com a gente”, conta.

O filme é baseado na tipologia nietzschiana do capítulo Das três transformações, de Assim falava Zaratustra, conhecida obra do filósofo alemão. Blitos, que teve consultoria do psicanalista João Perci Schiavon (USP), conta que lia o bigodudo desde a adolescência. “Sempre li bastante. Eu lia Nietzsche com 17 anos. Não entendia nada. Mas eu adorava! [risos]. Muita gente passou por essa experiência. Eu sempre gostei de Filosofia, mas acabei enveredando por outro caminho. Depois eu voltei, mas queria aplicar isso, não ficar só no hobby”, revela.

“Eu peguei a tipologia e tentei observar se isso acontecia nas histórias de pessoas. O filme é baseado em histórias reais. Tem três personagens centrais. Um personagem, que é a linha mestra do filme, que é um professor [interpretado por Paulo Blitos], a história é baseada em minha história, mesclada a de meu pai”, adianta.

“A ideia do filme é a gente conseguir enxergar essa tipologia que o Nietzsche apresenta na história de três pessoas comuns e perceber as fases de camelo que nós vivemos, de leão, até a fase de criança. Nós pegamos essa tipologia específica e vamos ver como é que isso se encaixa na minha história pessoal, na história do ator e na história dessa médica”, resume.

Fora do trabalho na empresa, Blitos tem uma peça de teatro e três curtas-metragens na bagagem. O quarto [cronologicamente o primeiro realizado] não chegou a ser veiculado. “A ideia do filme foi legal, mas o filme não chegou a ser concluído. Tem baixa resolução, a gente não quis nem colocar no youtube. Está parado, não foi concluído”, revela, sem se lamentar. O mais recente, Tuareg, rodado em Barreirinhas/MA, em cinco dias, foi exibido sábado passado (16), no Cine Praia Grande, em sessão seguida de debate com o diretor/ator. O monólogo, que participou de festivais em Taguatinga/DF e Pinhais/PR, foi premiado no último.

O camelo, o leão e a criança foi rodado no Paraná (Curitiba) e Maranhão (São Luís, Morros e Santo Amaro). “Em Curitiba nós fizemos algumas cenas internas, quase não aparece a cidade, e algumas cenas no campo, área rural, não dá para saber que é Curitiba. São Luís dá para saber, as cenas externas caracterizam bem a cidade”, adianta.

O lançamento do filme acontece em sessão para convidados/as nesta quinta-feira (21), às 20h, no Cine Praia Grande. Interessados/as em geral poderão ocupar vagas de convidados/as faltantes, mediante disponibilidade. A partir dessa exibição o filme entra em cartaz na sala do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Na mesma data o filme entra em cartaz no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), às 16h.

Sinopse

“Três transformações do espírito vos apresento: como o espírito se transforma em camelo, o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança” (Nietzsche em Assim falava Zaratustra). É com o espantoso, o estranho e o inusitado, tal como se inserem, de modo geral inadvertidos, no curso da vida cotidiana, que o filme O camelo, o leão e a criança se constrói. Um professor de filosofia da ciência, um ator e diretor de teatro, uma médica e mística vivem diferentes fases de suas vidas (baseadas em histórias reais e relacionadas à tipologia nietzschiana). Cada uma das personagens se depara, em sua linha de vida, com a dimensão do estranho, seja na experiência de discriminação e seu fundo de violência, seja na vertigem do vício e da loucura, seja, ainda, no indizível do transe místico. O encontro com o real e a comoção que o filme desencadeia exigirão novos modos de pensar, de agir, de existir.

Trailer

 

Ficha Técnica

Gênero: ficção
Duração: 88 minutos
Roteiro e Direção: Paulo Blitos
Codireção: Jul Leardini
Direção de Fotografia e Câmera: Evandro Martin
Som, Edição e Montagem: Edemar Miqueta
Trilha Sonora: Joaquim Santos
Direção de Produção: Élida Aragão (Maranhão) e Suzana Aragão (Paraná)
Produção: Paulo Blitos e Sync Cultural
Direção de Arte: Dida Maranhão
Assessoria de comunicação: Zema Ribeiro

O camelo, o leão e a criança será lançado no Cine Praia Grande

[release]

Rodado no Maranhão e Paraná, longa-metragem de Paulo Blitos dialoga com a obra de Nietzsche

Cartaz. Reprodução
Cartaz. Reprodução

 

O Cine Praia Grande, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), será palco do lançamento de O camelo, o leão e a criança, longa-metragem de Paulo Blitos, rodado no Paraná e no Maranhão. A sessão de lançamento acontece dia 21 de agosto (quinta-feira), às 18h, a partir de quando o filme entra em cartaz nos cines Praia Grande e Lume (Office Tower, Renascença).

O filme entrecruza a trajetória de três personagens centrais, identificando neles a tipologia nietzschiana do capítulo Das três transformações, de Assim falou Zaratustra, importante obra do filósofo alemão.

Cada personagem se depara com a dimensão do estranho: a experiência de discriminação e seu fundo de violência, a vertigem do vício e da loucura, e ainda o indizível do transe místico.

Assista ao trailer:

Guerrilhas, novo livro de Flávio Reis

Este blogue dá em primeira mão. Antes, o prefácio:

OUTRA HISTÓRIA
Celso Borges*

Cada um luta com a arma que pode, com a arma que tem. A de Flávio Reis está na cabeça, no pensamento, na palavra. Afiada e lúcida, perpassa vários campos nesses 20 textos de Guerrilhas, em sua maioria publicada em jornais de São Luís nos últimos anos. Um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante.

O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís. Cinco artigos desconstruindo o discurso oficial, que prefere idealizar a fundação da cidade pelos franceses, em lugar dos portugueses “bárbaros”. Um discurso que privilegia a filiação distinta de Daniel de La Touche, o fidalgo francês, Senhor de La Ravardière, em substituição a Jerônimo de Albuquerque, que nem português era, um mestiço do sertão. Analisando o debate em torno do nosso “mito fundador”, o autor afirma que a argumentação da maioria dos intelectuais e historiadores, sedimentada a partir do início do século 20, é resultado de uma visão narcísica que busca esconder uma história de violência e miséria em nome de um passado glorioso.

Guerrilhas ressuscita também assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Um verdadeiro circo de horrores, retrato da república em terra tupiniquim.

Quase 100 anos depois, mais um capítulo da barbárie política do Maranhão é revisto, agora sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009 (“O Nó-Cego da Política Maranhense”). Aqui ele aponta o dedo aos que sempre estão posando para a foto no baile dos vencedores. Mais adiante, no artigo em que saúda o primeiro aniversário do jornal Vias de Fato, (“Vias de Fato: um ano memorável”), retrata onde estamos metidos, imersos num jornalismo distante da comunidade, ressonando uma estrutura apodrecida.

Os primeiros nove textos de Guerrilhas são, portanto, uma radiografia de como a estrutura política dos últimos 100 anos nos obrigou a ler o Maranhão à sua maneira. Em seguida, o autor escreve sobre a violência urbana. E o Maranhão está ali também, como um “estado onde a moldura do poder oligárquico conseguiu atravessar o século sem grandes alterações, as polícias militar e civil sempre estiveram perpassadas por interesses políticos e prontas a se submeterem às vinganças privadas que passam ao largo do sistema judiciário.” (“Crime e Cinismo”).

Mais à frente, em artigo sobre “Litania da Vela”, poema de Arlete Nogueira da Cruz, toma por referência o filósofo Walter Benjamin e encara o poema como “ladainha do fim dos tempos modernos”. Poema do grotesco, prenúncio da nova barbárie, faz a descrição crua da miséria de uma velha na ‘cidade que se desfaz em salitre’. É a deixa para a retomada do primeiro assunto do livro. Como um boi triste e furioso, o autor continua ruminando o mito da fundação da cidade, tema que perpassa todo o livro. Nasce aí, talvez, o mais importante texto da coletânea: “A Saga do Monstro Souza”, sobre a obra de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos.

Nesta análise, consolida algo que me parece fundamental em Guerrilhas, um desejo de recontar a história numa busca obsessiva pela cidade real, não a de azulejinhos e boizinhos de butique, embalagem ideal para os turistas de pacote e o desenvolvimento de campanhas publicitárias, que alimentam a insossa cultura do elogio. Um Não à “Ó minha cidade, deixa-me viver…”, de Bandeira Tribuzi ou à Ilha Magnética de César Nascimento, mas um viva a São Luís de “Eh, Ponta D’areia, há muito tempo que eu não te vejo”, de Chico Maranhão. Flávio acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel.

A discussão sobre identidade reaparece através da música. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O texto é apenas a ponta de iceberg de um debate complexo e extenso. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”. Talvez tenha esquecido de destacar no bolo de influências de alguns compositores da tal MPM o reggae, que divide com o bumba-boi, o prato preferido desses artistas, de 1978 a 1998. Afinal, aquilo que se fez com o boi, tirando-o do terreiro para dentro dos estúdios (leia-se Papete e compositores do Bandeira de Aço), aconteceu também com o reggae, retirado dos salões para o sucesso das rádios (leia-se Beto Pereira, Mano Borges, César Nascimento, etc).

Da música para o cinema. Dos três artigos destaco “Marginal Sim, e por que não? Babaloo, Babilônia, Brasil”. Defesa enfática do cinema marginal, produzido no Brasil nos primeiros anos da década de 70, enaltecendo a postura dessa geração, que continuou com a câmera livre do cinema novo, mas sem as amarras deste: “de certa forma radicalizavam o mergulho no subdesenvolvimento preconizado anos antes por Gláuber Rocha, faziam a escancaração da barbárie sem a carapaça política e o sentido de missão”.

Os textos sobre cinema mostram uma opção clara pela radicalidade, com exceção da análise que faz sobre a filmografia do maranhense Frederico Machado, em que é mais ponderado. No olhar sobre “Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane, acompanha os passos-imagens do filósofo alemão enquanto a loucura toma sua alma. Um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.

De Nietzsche para Lacan, Freud e companhia: recalque, desejo, angústia e pulsão. Dois artigos, dois peixes fora d’água, dois peixes dentro do mar da existência, o doloroso mundo da psicanálise. Talvez Flávio pudesse deixá-los de fora, mas como evitar a vida fora da arte?

*Celso Borges é autor de oito livros de poesia, entre eles “Pelo Avesso”, “Persona Non Grata”, “NRA”, “Música” e “Belle Époque”.

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2011 foi o ano em que conheci pessoalmente o desde antes e sempre admirado Flávio Reis. Entre as muitas lacunas em minha formação, uma delas certamente é não ter sido seu aluno. No entanto, tenho aprendido um bocado com seu convívio, nas reuniões do conselho editorial do jornal Vias de Fato, do qual “nosso mestre”, como o chamamos eu e Emílio Azevedo, é grande entusiasta.

Autor de Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007), ambos editados às próprias custas s/a, o professor da UFMA agora bota na rua o bloco de Guerrilhas, “reunião de artigos escritos na última década, quase todos publicados na imprensa local, reeditados com pequenas correções”, cujo prefácio acima bem resume.

O livro “ainda não foi impresso, mas será” e o lançamento acontecerá em janeiro, detalhes o blogue dará em momento oportuno, antecipando que trata-se de uma publicação que envolve esforços do próprio Flávio Reis (às próprias custas s/a, ibidem), da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, cujos selos comparecem à obra. Antes do lançamento os poucos mas fieis leitores deste blogue já podem baixar o pdf: Guerrilhas.