Chorografia do Maranhão: Gordo Elinaldo

[O Imparcial, 27 de outubro de 2013]

Nascido, criado e formado no choro entre os bairros da Madre Deus e Monte Castelo, Gordo Elinaldo é o 18º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Gordo Elinaldo já havia sido marcada ao menos duas vezes. Em uma foi reagendada por incompatibilidade entre as agendas do músico e dos chororrepórteres; na segunda, teve que ser suspensa por conta do clima de pânico instaurado na cidade – o que incluiu uma “greve” relâmpago do sistema de transporte público, após uma sangrenta rebelião na Penitenciária de Pedrinhas.

Trabalhador da música, Elinaldo de Oliveira Silva mora na rua 1º. de Maio, no Monte Castelo, subindo a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, mesmo endereço em que mantém seu estúdio, onde recebeu a chororreportagem. “Isto aqui não vai tomar muito tempo”, advertiu o músico a um técnico que chegou por lá durante a conversa. Longe de traduzir qualquer desdém, a fala do músico dá ideia de sua imersão workaholic quando o assunto é música.

Nascido em 28 de agosto de 1966 em São José de Ribamar, Gordo Elinaldo é multi-instrumentista – além do violão sete cordas pelo qual é mais conhecido, toca violão, cavaquinho, banjo e percussão, entre outros –, arranjador, compositor, diretor e produtor.

Filho de Eliezer Adauto Costa Pereira da Silva, ex-vereador de São Luís por várias legislaturas, e de Maria das Dores de Oliveira Silva, Gordo Elinaldo presenteou os chororrepórteres com uma audição em primeira mão de seu disco de estreia, que pretende lançar ainda em 2013, com a ideia de levá-lo a escolas públicas, difundindo a música instrumental produzida no Maranhão. Ele assina as 10 faixas, incluindo Tributo a Zé Hemetério, faixa já gravada em Na palma da mão, disco do grupo Serrinha & Cia, com a participação especial do Regional Tira-Teima. O homenageado foi seu primeiro professor e é um dos nomes lembrados na entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão.

Foto: Rivanio Almeida Santos

Você tem essas lembranças de mais ou menos com que idade [referindo-se ao avô, Joaquim Pessoa de Oliveira, músico de quem Gordo Elinaldo começou a falar antes do início da entrevista e a quem dedica Doce lembrança, valsa gravada em seu disco de estreia, a ser lançado ainda em 2013 Update exclusivo do blogue: o disco não saiu]? Coisa de sete, oito anos de idade. 10 anos. Era o único músico que eu via pegar em instrumento ainda criança. Eu sabia que ali tinha uma alma, uma vida, um sentimento, ele já velhinho, quase sem forças. Eu compreendi o que ele queria fazer com aquele violão, aquela rabeca.

Foi a partir de ver teu avô que você sentiu vontade de se dedicar à música? Foi. Eu tenho um irmão que aprendeu primeiro do que eu, César, e ele é solista. Ele ouvia o disco, tirava, mas não tinha quem ensinasse. Até que uma vez passou o mestre Zé Hemetério aqui na porta. Aí eu disse: “César, esse é o Zé Hemetério, fala com ele, vê se ele ensina a gente alguma coisa”. E ele: “Zé Hemetério toca violino, será que ele conhece esse negócio de chorinho?”. E ele já vinha festejando, era final de semana, já vinha tomando umas brahmas [risos]. Chegamos lá, Zé Hemetério conhecia tudo, sabia tudo, e começou a passar os choros de Waldir Azevedo, de Jacob [do Bandolim], os choros que ele tocava pra César, quando ele disse: “e tu, meu filho? Vai ficar só olhando teu irmão aprender?” Eu disse: “não, minha parte eu já sei, é só a dele que tá faltando”, eu metido [risos]. Conversa fiada! Faltava coisa pra danar. E ele disse: “então me mostra aí”. César tocava, aprendendo, eu ia atrás do jeito que eu tinha ouvido no disco, do meu jeito, e ele disse: “olha, tá quase bom. Não tá bom, mas vai ficar”. Aí a gente começou a frequentar as aulas de Zé Hemetério, às tardes, quando ele podia. Ele botava discos, a gente sentava ali na sala. Depois eu passei a levar a sério o estudo, passei por métodos de música, segui em frente estudando música, sete cordas. Logo depois eu passei a ir pra festas com ele, aniversários, casamentos, ele era muito solicitado na época, as famílias, no Calhau, o grande bairro da época.

Foi teu primeiro professor? Foi o primeiro. Depois eu saí, pra fazer conservatório em Brasília, Recife, andei estudando muito ainda, mas o começo foi lá com ele, toda a base, a história do choro. Depois eu tive que seguir outros caminhos, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência.

Além de teu avô e teu irmão, quem mais na tua família… Não, não tinha mais ninguém. Eu tinha um pai que cantava muito bem. Não deixa de ser música. Era um seresteiro, gostava daquelas histórias ao luar.

Então se ouvia muita música na tua casa. Muita. Eu acordava ouvindo música. Eu achava o maior barato. Aquelas músicas bonitas, Nelson Gonçalves. Hoje eu fico puto quando acordo com forró, fico indignado.

A tua moradia era aqui? Era. Depois, primeiro casamento mais em frente, na mesma rua, segundo casamento Madre Deus, terceiro de volta ao quadrado [Gordo Elinaldo mora na mesma casa que pertenceu a seu pai].

Teve incentivo da família para seguir esse caminho musical? Muito pouco. Eu tinha que fazer uma faculdade de artes, por que eu gostava de desenhar, tinha muito talento. Aquele quadro não fui eu quem pintou, foi meu irmão César, mas a gente era bem parecido na arte [levanta e vai buscar um quadro com temas musicais em cores vibrantes, lembrando um pouco o estilo de Romero Brito]. Esse aqui foi um dos quadros que ele pintou, me deu de presente. Não deu para seguir. Aí foi quando abri o olho, a música entrou muito forte, foi derrubando tudo. E a música requer muito estudo, um tempo exclusivo para você aprender, saber o que é.

Como você se definiu pelo [violão] sete cordas? Foi rápido. Assim que eu comecei a estudar com [] Hemetério, quando eu pegava o violão [de seis cordas] eu já sentia falta de alguma coisa. O cara fazia no disco, eu tentava e não conseguia, “ah, não, tá faltando alguma coisa”. Aí pintou o primeiro sete cordas na Mesbla [extinta loja de departamentos], um Di Giorgio, ô, maravilha! Quando eu peguei aquele violão, que o disco fazia, eu fazia, ô, satisfação! Aí o cara que acompanhava Waldir Azevedo, bêi, ele caía na sétima, eu junto com ele, bêi [imita o som da bordoada com a boca], de ouvido. A gente passou a se reunir, tinha uma reunião muito boa de músicos ali na Raimundo Correia [rua no Monte Castelo], 30 músicos, 40 músicos, todos os domingos, só chorões.

Ainda há pouco você falou em uma faculdade de artes. É, eu ia. Mas não deu. A música veio muito forte, era quase uma cegueira.

Você sempre viveu de música? Nunca teve outra profissão? Não. Olha, meu pai era vereador, eu passei muito tempo, vereador tinha 10 assessorias, eu tinha uma dessas. Vivia também de música, gostava da música, depois ela virou profissão. Eu levei a sério, papai, mamãe começaram a esculhambar, meu irmão, sério, engenheiro, “não tem futuro, vai largar teus estudos”, e eu “quem não tem futuro é tu como engenheiro” [risos]. “Rapaz, será? Pensa bem”.

Hoje você vive de música? Hoje eu vivo de música, não tem dúvida. Vivo muito bem, satisfeito. Hoje eu sou um profissional realizado. Talvez não financeiramente, mas profissionalmente. Já rodei o mundo todo com minha música, já rodei os quatro cantos do mundo, tocando banjo, cavaquinho, violão. Só com o Barrica eu já fiz 18 viagens internacionais, China, Japão, Coreia, a Europa inteira. O que me dá prazer é isso aqui, isso aqui é meu orgasmo [bota novamente faixas de seu disco para tocar]. A minha obra tocada do jeito que eu quero. Arranjos que eu faço pra gravar, pra Barrica, pra Bicho Terra, eu faço pro gosto deles. Aqui não, eu faço pra mim. Como eu pensei, como eu gostaria de ouvir.

Esse é teu primeiro disco solo? Autoral, é. Acho inclusive que é o primeiro do Maranhão. Autoral de um só compositor, né?

Como ele vai se chamar? A princípio, o projeto era chamar A arte de Gordo Elinaldo. Pela diversidade dos instrumentos que eu domino, principalmente do choro. Se eu me colocar pra tocar um pandeiro de choro, eu toco, surdo eu toco, cavaquinho, sete cordas, violão seis cordas. No começo, a primeira ideia, era eu fazer um disco sozinho, eu tocando tudo, Gordo e Gordo. Mas depois eu consegui um apoio da lei de incentivo [Lei Estadual de Incentivo à Cultura], que o disco pegou uma dimensão, cresceu, vieram novas ideias. Digo, pô, por que eu não boto a nata do choro pra tocar comigo, minhas músicas?

Quem está contigo nele? Quem vai estar, por que ainda falta muita gente pra gravar. Quatro cavaquinhos: Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] e Biné [Gomes, vulgo do Cavaco]. Aí vem, de sopro, de palheta, o sax, Zequinha [Gomes, vulgo Zequinha do Sax, irmão de Biné], os flautistas, vem Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] e o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. Bandolim: Adelino [Valente], Wendell [Cosme, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] e o outro, César Jansen. É um time pesado, um time bom.

Uma grande representatividade. Antes do Tira-Teima você integrou algum outro grupo? Eu tinha um grupo com meu irmão, mas não era um grupo de choro. Era um grupo de forró, foi quando eu conheci Paulo Trabulsi em Nina Rodrigues. Nós tocávamos forró. Forrozinho, baiãozinho, pé de serra. Era um violão, um cavaquinho e um pandeiro. Antes de começar a festa, pro pessoal dançar, a gente fazia o chorinho.

Como chamava esse grupo? GMax. A gente tocava aqui e viajava muito, Itapecuru, Nina Rodrigues, Vargem Grande. Era um regional, não era uma banda. Éramos eu, meu irmão, César, outro irmão no atabaque, Belmonte, Marciano da Madre Deus, que tocava bongô e pandeiro, e Renê, que fazia um ganzazinho.

Isso era que ano? Coisa de 1982, 81.

E o Tira-Teima, quando aparece? O Tira-Teima, na primeira versão, de Ubiratan [Sousa, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], eu já ouvia falar. Depois, o Tira-Teima me aparece pela primeira vez depois daquelas rodas na Raimundo Correia. Quando eu cheguei lá, tanto Paulo, como Juca, como Biné, os três tinham seu repertório de choro. O repertório de Hemetério era tão grande, que com ele eu acabei me preparando para os três simultaneamente. O repertório dos três estava debaixo de meus dedos. Não demorou muito eu recebi um convite. Serra tocava no Quatro Rodas [extinto hotel], com [o violonista] Luiz Sampaio e Juca. Paulo me parece que não tocava profissionalmente na noite. Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] já veio de outra turma, da Vila Passos, mais do samba, Solano [Francisco Solano, violão sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], já é do Mascote [o violonista e pandeirista Antonio Sales Sodré], é outra linha. Foi legal. Paulo é o nome que ainda resta daquele time fantástico, [o compositor] Antonio Vieira, Ubiratan Sousa, [o compositor] Cesar Teixeira, Adelino Valente, uma turma pesada.

Fora Tira-Teima, Barrica, Bicho Terra e GMax, algum outro grupo de que você fez parte? Eu fiz, eu fiz um grupo de samba aqui, chamado Zeca Diabo e seus Diabinhos. Era eu, Zeca do Cavaco. Era pagode pra todo lado, mas a gente não queria tocar pagode, a gente queria tocar samba, embora eu ache que samba é pagode e pagode é samba, tudo é dois por quatro. Mas tem gente que “não, isso é samba de raiz”. Nós fizemos um grupo pra tocar esse tipo de samba, que chamavam samba de raiz. Aí não sei quem deu a ideia, “bota Zeca Diabo e seus Diabinhos”, olha os diabinhos: [os percussionistas] Josemar, Caju, Sabujá, só fera. Não deu certo. Como não deu certo, eu fiquei com a banda. Tava no auge o negócio do pagode aqui, [o cantor] Serrinha saiu do [grupo] Magia, e eu não queria ficar com aquele projeto parado. Aí eu chamei Serrinha pra compor comigo o [grupo] Serrinha & Cia.

Qual era a formação do Serrinha & Cia.? Era eu, Serrinha, Josemar, Caju e Sabujá. Quando nós gravamos aquele disco [Na palma da mão], que [o cantor] Jorge Aragão veio participar, ele vinha muito no Maranhão, ele levou a gente pro hotel, eu dei uma força, de carro, leva Jorge aqui, leva acolá, eu era cunhado de [o produtor cultural Antonio Carlos] Tote, foi através dele que chegamos a Jorge Aragão. Ele não tinha essa fama toda, veio a ideia de pedir uma música pra ele, estávamos fazendo o primeiro disco. Ele disse: “rapaz, eu tenho uma, eu fiz pra Beth Carvalho” [cantarola trechos de Uns e Alguns, faixa cujo refrão “na palma da mão” dá nome ao disco]. O movimento do samba em São Luís, eu lembro, A Máquina de Descascar’Alho eram cinco mil pessoas, todo mundo na palma da mão, a música é essa. Ele gravou, Serrinha gravou depois, montamos, fizemos um grande disco, vendeu demais, mas aí a gente não teve cabeça. Nós não tivemos cabeça, capacidade, estrutura, pra lidar com aquele sucesso imediato. Não levamos pra frente. E nem eu conseguia conciliar o Barrica, eu já tinha um sentimento muito forte pelo grupo, com o pagode. O que me fascinava era que era um trabalho autoral. A gente cantava na praia, os pagodes dos outros, depois chegava no Ceprama pra fazer o show com o Bicho Terra, fazendo sua própria música, a multidão delirando com a gente. Éramos os reis, mas descia do palco, ninguém nem te conhecia. Não conseguíamos apoio pra disco, pra nada.

Você tem catalogadas todas as suas músicas? Sabe quantas músicas você já compôs? 40. 41. Gravadas tem umas 15. 10 nesse disco. A maioria choros. Arranjos eu tenho espalhado por aí um monte: Bicho Terra, Barrica, Turma do Quinto, Isaac [Barros], Serrinha & Cia. Feras, bloco tradicional, Vagabundos do Jegue eu fiz todos os discos, praticamente todos os arranjos.

Você pretende com este disco que ele tenha uma vida, no sentido de show de lançamento, temporada, ou é só um registro? Não, é só um registro, inclusive nem tem caráter comercial. O disco vai ser distribuído em escolas, vamos falar sobre o disco em escolas públicas. Vamos ver o que a gente pode fazer para melhorar a vida social desse povo sofrido, que a gente tá vendo o resultado aí na criminalidade.

Ainda faltam coisas pra gravar e a ideia é lançá-lo ainda em 2013, ou seja, ainda está em processo. Mas dado o fato de ter mais de 40 músicas, você já consegue pensar num segundo volume? A ideia é lançar no final de outubro. Com certeza! Isso aí é o que eu mais gosto, é dessas 10. São o xodó. Mas com certeza virão outras, vou fazer outro disco. O próximo eu vou fazer só, o que era o projeto original, eu tocando tudo, do pandeiro ao cavaquinho centro. Isso vai ser muito bom pra cidade, vai estimular os chorões, Serra, por exemplo, vai voltar a tocar. E saber que é um trabalho autoral, e é nosso! Passamos a vida inteira tocando Jacob, não que a gente queira se comparar, mas nós temos uma identidade própria superimportante.

Com essa sua agenda intensa de viagem, Barrica, arranjo, disco, estúdio, parece não estar sobrando tempo para uma vivência que você já teve no passado, das rodas. Dá saudade? Como você lida com isso? Faz falta. Mas eu voltei. Estou me encontrando com Paulo, Serra, Zeca, Solano, [o violonista sete cordas] João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], todos os domingos. Inclusive a gente está se preparando para gravar o disco do Tira-Teima. Vai ser produzido e gravado aqui, sob minha direção, vai ser um disco fantástico, a hora é essa. Chega uma hora, o momento agora é “peraí, cara, agora eu também quero dar uma respirada”. Já corri muita praia, já lutei muito, se chega num ponto, daqui eu não vou passar. Não vou ganhar mais dinheiro do que isso, não vou ficar mais pobre do que isso. Agora eu vou curtir, vou parar, vou viver. Vou tocar aquilo que eu gosto, aquilo que eu quero. Lógico, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência, mas eu também sinto prazer, não é pra me transformar num robô. É botar isso aqui [coloca novamente trechos do disco para tocar], vocês podem achar que o som está muito feio [os chororrepórteres discordam], mas pra mim isso aqui tá lindo, é minha alma que tá aí. Isso é que é importante.

Você tem noção de quantas participações você já fez em discos? Não tenho. São muitos. Assim como já acompanhei muita gente em shows. Eu lamento não poder contar nesse disco com um grande amigo que eu tive em Brasília: [o flautista] Carlos Poyares. Aquele homem quando soprava naquela flauta matava a raiva de qualquer um. Era uma coisa maravilhosa.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música para o Brasil? Antigamente era assim, na minha ótica, na minha leitura, no meu pensamento: o que é o choro? É um instrumentista que domina certo instrumento, que ele transforma todo sentimento dele através daquelas notas dadas uma após a outra, o conceito técnico de melodia. Pra mim é isso, ele consegue passar aquela beleza. Nós temos isso, o Jacob, as músicas não têm uma letra, mas a gente consegue sentir o que está se passando na alma do cara, ler o coração, o pensamento, o que ele está sentindo, o que ele passa pra gente e o que a gente passa a sentir ao ouvi-lo. Não adianta ser um chorão, “ah, eu quero ser o Jacob”, tocar com uma velocidade, tem que ter o sentimento. Eu conheço gente que plim plim plim plim plim [imita um dedilhado veloz com a boca]: aquilo não se sente nada. Mas eu tenho que chegar e dizer “como tu é bom, estudou, evoluiu bastante, tá muito veloz”. Mas eu não tenho coragem de chegar e dizer: “mas eu não senti nada”.

Você se considera um chorão? Eu não. Eu me considero um clínico geral. Eu também sou um amante do bumba boi, do carnaval, eu adoro carnaval, nossos ritmos. E adoro choro. Choro é uma coisa que me arrepia todo.

Quem te chama a atenção na nova geração do choro no Brasil? Eu gosto muito do rapaz do bandolim, o Hamilton de Holanda. Ele tem a velocidade, tem a execução, tem a beleza e tem o sentimento. É impressionante! Fantástico, gosto demais dele. Tem um bandolinista em Brasília, presidente do Clube do Choro, o Reco [do Bandolim], também gosto, mas como Hamilton…

E do violão? Tem um violonista em São Paulo que eu gosto muito dele, na linha do choro, do samba, Edmilson Capelupi. Eu gosto demais, admiro muito.

Como você avalia o choro hoje no Maranhão? Acho que cresceu bastante, acho que o movimento está bem. A gente vai aos lugares, vê a turma tocando. Tem Wendell ali, Robertinho, Juca, Paulo, melhorou bastante. João Eudes, falando dos solistas. Maicko, meu sobrinho, sete cordas, está no samba, mas também curte o choro. Solano, o tempo todo estudando, se dedicando.

Você acha que o choro aqui deve ser tocado com a influência da cultura popular daqui, como o é em Pernambuco? Eu acho que pode. Por exemplo, eu tou botando aí uns agogôs com umas células de bloco tradicional. Eu acho legal. Deixa seguir. Tou botando uma cabaça [imita o som dos instrumentos percussivos com a boca]. Quanto mais maranhense, melhor pra gente.

Chorografia do Maranhão: Serra de Almeida

[Primeira entrevista da série Chorografia do Maranhão, publicada em O Imparcial, 3/3/2013]

 

 

O flautista Serrinha inaugura série de entrevistas com grandes instrumentistas do Choro maranhense. Chorografia do Maranhão será publicada quinzenalmente aos domingos em O Imparcial.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Mais conhecido pela alcunha de Serrinha, Serra de Almeida é um senhor tranquilo e elegante. Naquela tarde quente, típica de São Luís, estava mais à vontade, de bermuda, camisa e boné. E flauta em punho, tocada em alguns momentos do bate-papo, a ilustrar musicalmente a conversa, acontecida no bar e restaurante Cumidinha de Buteko (Cohajap, São Luís/MA). Sua imagem, uma espécie de Copinha timbira, contrastava o senhor de camisa e calça sociais, sempre muito bem alinhadas, quando de apresentações em espaços como a Serenata Caixa Alta, o Clube do Choro Recebe e as mais recentes rodas com o Regional Tira-Teima que têm ocupado as sextas-feiras do Hotel Brisa Mar.

Aos 76 anos, diz ser um velho sem muito tempo dedicado ao choro – para ele a música maior. Isso apenas para explicar que passou a maior parte da vida trabalhando com petróleo. Mas só no Tira-Teima já está há quase um quarto de século.

José Serra de Almeida nasceu em São Bernardo/MA, em 13 de novembro de 1936, filho de Francisco Coutinho de Almeida, comerciante que chegou a prefeito do município, flautista diletante, e da dona de casa Maria Magnólia Serra de Almeida. Ainda na infância o menino se apaixonou pela música. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Fale um pouco de suas experiências profissionais, além da música, com o petróleo e hoje trabalhando em cartório. Nesses 70 e poucos anos que eu tenho, já fiz muita coisa. Mas o trabalho que eu perdurei mais na vida foi quando eu fui petroleiro, petrolista, não sei como é que chama. Eu era auxiliar técnico de petróleo. A empresa investiu muito em mim, fiz vários cursos de petróleo: refinaria, terminal. Houve uma época em que eu passava muito tempo naqueles navios.

Você trabalhava no Maranhão? Não. Eu trabalhei na Bahia, todo esse tempo. 21 anos. De fevereiro de 1960 até 1980. Voltei novamente ao Maranhão, aí saí da empresa. Eu digo 21 anos, mas incompletos.

E quando o senhor saiu do ramo do petróleo, foi fazer o quê? Vim pra cá, fui ser comerciante, comércio de madeira, exploração de madeira, aqui em São Luís. A maior burrice que já fiz. Peguei um ramo errado na minha vida. Foi onde eu gastei quase tudo o que eu ganhei na minha vida, lá na Bahia. Terminei indo à falência. Aquela recessão de 1983, 84, eu comprei uma serraria ali no Anil. A maior serraria de São Luís era a minha, mas eu não tinha experiência. Passei a vida toda trabalhando na Petrobrás, cheguei aqui, fui me meter nisso, arranjei um sócio quebrado, meu irmão, o mais novo, que me induziu a esse tipo de coisa. Sempre muito humilde, eu aceitava tudo aquilo. Nunca tive a impressão que aquilo estivesse errado, sempre tocava pra frente, pagava tudo à vista, pagava os impostos rigorosamente como manda a lei, tinha empregados além do que precisava. Se eu precisava de oito, eu tinha 16. Tinha um caminhão trucado que eu puxava tora do interior pra cá, pra serrar.

E hoje, está aposentado? Eu tive que me aposentar. Foi aí que eu comecei minha vida de novo. Essa flauta aqui [está com o instrumento nas mãos], que eu tocava muito fraco [tinha pouco conhecimento] nesse tempo, ainda, que me ajudou a manter inclusive meus filhos no colégio.

Você se tornou um flautista respeitado em São Luís. Teu pai era flautista. Além do teu pai, qual era o universo musical de tua cidade? Tu conviveste com bandas? Como era o universo musical na tua infância e adolescência? Isso aí sempre teve muita influência por que eu era apaixonado por música. O padre de lá, Padre Nestor, que mataram lá em São Bernardo, não sei se você soube dessa história, ele era formado em música e conseguia tudo pra lá, instrumentos, tudo. A banda tocava em festas, em cidades vizinhas. Lá, só tinha mais do que em São Bernardo, só em Brejo. Brejo sempre foi uma cidade muito musical, histórica. Teve uma época que teve o Pedro Ambrósio, um grande músico, nascido em São Luís, que era muito amigo desse padre.

Havia algum músico, além desse padre, do Pedro Ambrósio, que tu observava em São Bernardo e tinha admiração por ele? Tinha. Não só um, mas vários. Tinha Chico Vaz, que tocava clarinete, o Assis, que tocava trompete e trombone, o Elpídio tocava cavaquinho, o Péricles tocava violão. Essa turma toda, eu menino ainda, convivia com eles. Eles gostavam muito de mim, eu só andava pelo meio.

O fato de tu ter um pai flautista foi o que te levou pra flauta? Nunca teve vontade de aprender outro instrumento? Em parte foi. Em parte foi essa herança de meu pai. A flautinha dele era uma flautinha de ébano, de sete chaves.

E ele foi quem te deu as primeiras aulas? Não, pelo contrário. Eu depois que comprei uma flauta na Bahia, que eu trouxe uma flauta dessas, ainda dei umas aulas para ele [risos].

Tu tinha que idade? Eu já era coroa, já tinha mais de 40 anos.

Teus pais, então, nunca apoiaram, essa iniciativa de tocar? Meu pai nunca desapoiou. Pelo contrário, ele gostava demais disso. Agora, ele não tinha bagagem assim, pra me ensinar. Ele foi aluno desse padre, do maestro Pedro Ambrósio, e lia música. Melhor do que eu. Eu leio muito mal.

O rádio teve alguma influência? Muita! Eu gostava daqueles programas americanos, jazz, aquele Benny Goodman, eu era louco por aquele cara. Eu tenho um dvd em casa que a maior parte é com ele. É um tributo a Louis Armstrong que parece muito com aquela época. A Orquestra Tabajara. Severino Araújo saiu aqui da Paraíba muito novo, mas já formado.

Fora esses, quem são os músicos que te influenciaram, flautistas ou não, brasileiros ou não? Depois que eu comecei a tocar flauta, Altamiro Carrilho. Minha maior referência sempre foi Altamiro Carrilho. Onde eu via qualquer coisa dele eu comprava. Até hoje é assim. Tudo o que passa [na tevê] dele eu gravo. O bom humor dele. Eu tenho um programa que eu gravei já perto de ele morrer, em que ele começava a tocar [imita o som da flauta com a boca] Mozart, um arranjo que ele fez [toca o trecho de abertura na flauta]. Isso ele começou a tocar e no meio da música parece que faltou alguma coisa na memória. Aí ele botou a flauta assim [põe a flauta no colo] e “quiá, quiá, quiá” [imita], caiu na gargalhada [risos]. Aí ele voltou e começou a explicar que a paixão dele era Mozart.

E hoje tu estando aposentado e tendo mais tempo para te dedicar à música, dá para dizer que tu vive ou já viveu de música. Ou é só prazer? Como aposentado eu não tenho muito tempo para música. Já tive. Mas aí eu saturei e tive que arrumar algo para fazer, se não ia ficar estressado, ia adoecer. Há muito tempo vinham me oferecendo uma vaga no cartório, e eu resolvi pegar, já tinha trabalhado com isso. Ele [o proprietário] morreu e eu assumi um compromisso com a filha dele. Sobre a questão de me sustentar com música, isso só nessa época que te falei, que a flauta me ajudou. Eu tava quebrado mesmo. Mas eu, pela ajuda de Deus, eu tive muita sorte, e na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa] tinha uma seresta [Serenata Caixa Alta], e quem fazia, não deu certo. Paulo Trabulsi, Sadi, esse pessoal, não deu certo. Aí eu entrei. Entrei e como eu sempre respeitei muito tudo aquilo que eu pego pra fazer, eu não gosto de falhar, eles não ligavam para nada e eu comecei a mostrar que eu tinha interesse pela coisa. Aí os diretores me chamaram. “Serra, você é que vai ser o chefe do grupo”. E eu digo, “mas rapaz, Paulo é meu amigo”. “Não senhor, é você quem é o chefe do grupo, ou então nada feito”. Me encostou na parede, né?

Como era o nome do grupo? Era Chão de Estrelas. Anos 80. Durante três anos aquilo ali foi dinheiro. Era organizado. Sempre vinham grupos de fora. Eu conheci muita gente boa. Dominguinhos, por exemplo. Sempre que chegava gente, me diziam: “toma conta desse cara”. Aí eu ia andar com Dominguinhos, com outros.

De que grupos musicais você já fez parte? Você disse ainda há pouco que já tocou com Agnaldo [Sete Cordas, lenda vida do instrumento em São Luís]. Agnaldo era do grupo lá da Caixa. Paulo, cavaquinho, Agnaldo, violão [não consegue lembrar de outros nomes]. Ivone cantava, muito boa, Paulo deve ter alguma coisa dela gravada…

Esse era o Chão de Estrelas. Antes, tu já tinha tocado em outro regional? Antes disso aí eu tocava com Paulo mesmo. Era eu, Paulo e Zé Carlos [percussão]. Era esse trio.

Tinha nome esse trio? Não. Era o Tira-Teima mesmo. Por que ele [o regional Tira-Teima] varia muito a formação. O único original que ainda está no grupo é Paulo.

De que grupo você participou por mais tempo? O Tira-Teima mesmo. Do Chão de Estrelas foram quatro anos. No Tira-Teima eu estou desde 89.

Qual a sua opinião sobre o Tira-Teima? O que você acha desse grupo? É muito cheio de caracol, é muito enrolado [risos]. Mas pra mim, não é por que eu participo do grupo não, mas pra mim ainda é um dos grupos que toca tudo. Tudo o que você pensar o Tira-Teima toca. É um grupo genuinamente de choro, o nosso forte é choro, mas se você quiser valsa, baião, música clássica, se toca. Esse que eu toquei agora é um clássico. De Mozart. Minueto do divertimento, o nome dele.

Além de instrumentista, você desenvolve outros tipos de habilidades na música? Compositor, arranjador… Eu me meto a tudo, a compor, a arranjar, a ler música, que eu não sei. Mas quando eu quero eu faço. Faço e escrevo. Paulo fica admirado: “rapaz, como é que tu escreveu isso?” Quando eu tinha tempo, né? Agora…

Tu tens quantos choros, quantas composições? Três. Dom Chiquinho, um choro amaxixado. Eu fiz um choro, e eles [os músicos do Regional Tira-Teima] mudaram. Zé Carlos, com a batida dele, terminou ficando um maxixe. Tem o Choro nobre, que é o segundo. E tem Chorinho embolado, um choro muito bonito [toca um trecho na flauta]. Por aí você já vê que é um choro bonito. Mas mais bonita é a terceira parte [toca novamente; e a pedido de Ricarte, um trecho de Dom Chiquinho]. Eu comecei a cismar com ele [o choro Dom Chiquinho] por que quando eu fiz esse choro eu não conhecia um choro chamado Cheguei [de Pixinguinha], e a segunda parte dele tem muito disso aqui [toca um trecho de Cheguei]. Tem alguma coisa diferente, mas é quase todo igual. Parece demais! Mas eu nem conhecia esse choro. Depois que eu conheci, eu comecei a querer aleijar o Dom Chiquinho, mas já tinha pegado.

Serra, tu já participou da gravação de algum disco? Já. Tem um disco aí, Na palma da mão [verso de Uns e alguns, de Jorge Aragão, que dá título ao primeiro disco do grupo Serrinha & Companhia], que eu participei, no Tributo a Zé Hemetério [outra faixa do disco, de Gordo Elinaldo, executada pelo Regional Tira-Teima, em participação especial] e em Das cinzas à paixão [de Cesar Teixeira, cantada no disco por Zeca do Cavaco, membro do Tira-Teima; Serra de Almeida toca um trecho na flauta]. No cd de Anna Cláudia, num do Festival da Caixa na Paraíba, tem até uma música de Paulo [Trabulsi].

Quem são os compositores do Maranhão que tu mais admira? Da música em geral. Aqui do Maranhão Cesar Teixeira para mim é o melhor. Gosto muito de Ubiratan [Souza], também é um cara muito inteligente.

Na tua opinião, qual a importância do choro para a música brasileira? O choro é a única música brasileira, genuinamente brasileira. Se não fosse tão boa não era tão admirada lá fora. Não era invejada. Causa inveja em algumas partes do planeta. Alemanha, França, Espanha. E difícil! O choro é isso: ninguém consegue dominar com facilidade.

Tu acha que o choro, enquanto linguagem, influencia a música popular brasileira? Não deixa de influenciar. O samba, por exemplo.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Tem desenvolvido demais. Pelos contatos que tenho, alguns amigos, televisão, a gente vê. O [clarinetista brasiliense] Fernando Machado me conta muita coisa sobre a evolução do choro lá em Brasília, as novas gerações, todo mundo, os jovens entusiasmados tocando choro. Esse Dom Chiquinho ele levou a partitura. Depois esteve aqui e disse: “Serra, teu choro tá sendo tocado lá pelos garotos”.

Isso te alegra? Não deixa de me alegrar, né? Eu já tou mais pra lá do que pra cá e vou levar uma coisa que eu sei que agradou alguém.

Tu participou daquele show de Zé da Velha e Silvério Pontes [lançamento do cd Só Pixinguinha, da dupla, no Circo da Cidade, em 2006, produzido por Ricarte Almeida Santos, com participação de diversos nomes da cena local]. O que foi pra você dividir o palco com aquelas figuras nacionalmente reconhecidas? Foi um verdadeiro banho de orgulho, por estar tocando ali. Aquilo foi um orgulho pra mim. Esse orgulho que tenho não me diminui, não faz mal. Acho que sou capaz de fazer algo semelhante ao que eles fazem.

Eles disseram isso. Compararam com Copinha, que é um dos maiores. Isso também Turíbio Santos já me disse. “Rapaz, você até parece com o Copinha!” Apesar de eu não zelar como devia, pela desenvoltura ao instrumento. Se eu pegasse todo dia no instrumento, como músico tem que fazer.

Tu acha que o choro hoje é diferente de antigamente? Houve algumas modificações, mas em se tratando de choro, na essência, é a mesma coisa. Isso aí ninguém pode mudar.

Qual a tua avaliação do choro praticado no Maranhão hoje? Eu vejo muito pouca coisa. No Maranhão nós somos poucos. Destaque tem você [Ricarte], que é um homem que se dedica, tem que respeitar. Depois tem grupos como o nosso [o Regional Tira-Teima], o [Instrumental] Pixinguinha. Tem muita gente aí que toca choro, mas não é com a alma. Não é como nós, que tocamos e admiramos outras músicas, mas o choro é a principal.

Tu acha que falta, no Maranhão, um espaço de valorização da cultura do choro? Fora o programa de Ricarte [Chorinhos e Chorões, aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], o [projeto] Clube do Choro Recebe, que aconteceu no bar do Chico Canhoto. Eu acho. O negócio vai mudando muito devagar. Não é como em Brasília que a gente vê o entusiasmo. O Chico Canhoto foi importante, mas o vento levou. Aquilo deixou um resultado. A gente [o Regional Tira-Teima] tá tocando no Hotel Brisa Mar [Ponta d’Areia], toda sexta-feira, de sete e meia às 10 e meia da noite. O rádio tá divulgando, de vez em quando chega gente que era de lá [frequentadores do Chico Canhoto].

Quem são os maiores instrumentistas de choro no Maranhão hoje? Essa pergunta é um pouco difícil. Flauta, eu e João Neto. João Neto é um músico que toca choro. Eu sou chorão. Eu toco choro por prazer, não troco por nada, não desisto. João Neto não é um entusiasta do choro. A pessoa que eu admiro tocando choro aqui é Paulo Trabulsi. Ele é um entusiasta do choro. E não é por que seja meu colega, não.

O Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. O grupo não já devia ter um disco gravado? O que falta para isso? Sim. Isso é um descaso. Uma falta de responsabilidade nossa, até. Falta unificar o pensamento e o interesse do grupo. Eu nunca perdi o ânimo, continuo na esperança de a gente gravar um disco. Quando o negócio tá pra se encaminhar, todo mundo esquece. Não é falta de condição financeira, é falta de responsabilidade mesmo.

Tu arriscaria dar um chute sobre como estará a cena daqui a alguns anos? Eu faço votos de que a gente esteja muito melhor. Nomes novos estão surgindo, mas não é a essência do choro. Eles mudam as coisas. Outro dia eu ouvi o Luizinho [Sete Cordas, músico paulista] dizendo: “gente, vamos respeitar o choro! Vocês estão querendo colocar o carro adiante dos bois”. É isso mesmo!