Dá-lhe, Criolina!

[Antes um aviso: isso não é jornalismo: é tietagem! Ah, o tempo: impediu-me de transcrever e publicar uma entrevista-lenda-inédita com o duo, para engrossar o caldo de sua torcida. Rolará em breve, fiquem ligados, poucos mas fieis leitores]

Confesso que não sou o cara mais crente em grandes prêmios tipo o Oscar, Grammy ou o de Música Brasileira. Não consigo não ver com desconfiança. Primeiro que o número excessivo de categorias sempre parece querer justificar alguma premiação sem merecimento. Quantos filmes, diretores, atores e compositores antológicos passaram em brancas nuvens nesta ou naquela edição do Oscar? Quantos escritores geniais morreram sem o Nobel de literatura? Por que Vargas Llosa demorou tanto a recebê-lo? O que justifica até hoje Saramago ser o único autor de língua portuguesa a ter recebido um? E nenhum brasileiro? A meu ver faltam critérios. Rabugice minha? Não creio.

Bom, mas hoje é dia de deixar ranzinzices de lado e torcer pelo “casal mais charmoso da música brasileira”, já saudado por Zeca Baleiro (olha aí um excelente nome que não figura entre os finalistas do Prêmio da Música Brasileira de 2011, do que era mesmo que estávamos falando?) como “o melhor acontecimento da música maranhense nos últimos vinte anos”, o Criolina (foto).

Não que o Criolina precise da chancela de algum prêmio, grande ou pequeno. A seleção de Telê Santana de 1982 não ficou para sempre nas memórias e corações dos brasileiros que assistiram ou não aquela fatídica copa?

O Criolina concorre em duas categorias e entre seus concorrentes/finalistas não há nada melhor que seu trabalho: original, sincero, autêntico, talvez até mesmo por ser gestado sem pressa e/ou preocupações com mercado, prêmios e quetais. O páreo é duro: mesmo a, er, “crítica”, er, “especializada”, é, às vezes, de um terrível mau gosto.

Torço pelo Criolina, mas não serei pego de surpresa se em vez de seu Cine Tropical, o melhor álbum escolhido for Cabaret do Rossi, de Reginaldo Rossi, ou 30 anos ao vivo, do Roupa Nova. Ou se a melhor dupla, em vez do Criolina, for Victor e Léo. Ou, pasmem, eles ainda estão vivos e ainda concorrem, Zezé Di Camargo e Luciano.

A premiação acontece hoje. Detalhes e lista completa de categorias e finalistas aqui.

Um ano de Biotônico, hoje

 

Os cérebros do Biotônico

O rádio vai à tv. Modo de dizer: tudo na internet. Hoje (5) os brothers Celso Borges, Otávio Rodrigues e Zeca Baleiro (em ordem alfabética e fotográfica) apresentarão ao vivo dos estúdios da TV Uol o Biotônico, “o seu programa de rádio na rede”, como apregoa um dos slogans/vinhetas do programa “de branco, de índio e de preto”.

A transmissão tem início às 17h. É o 32º. programa do trio webradialista. O Biotônico vai ao ar quinzenalmente e nesta edição serão apresentados duas listas pra lá de nickhornbianas: as 10 melhores cantoras de óculos de todos os tempos e as 10 letras mais bizarras. Mas só se vendouvindo pode crer: com certeza tem muita surpresa pra você!

Música, poesia, curiosidades, bate-papo, descontração e inteligência: é a fórmula do Biotônico. Ouça! E hoje, em especial, veja! A quem não puder assistir no horário da transmissão, a edição de aniversário será gravada e como todas as outras do programa ficará disponível para audições posteriores.

Música e ponto.

Já conhecia e gostava bastante de DonaZica quando ouvi o primeiro disco solo de Andreia Dias, lançado depois dos dois trabalhos da banda em que ela dividia os vocais com Iara Rennó e Anelis Assumpção. Boas letras em melodias idem, opinião que mantive quando tempos depois a moça botou o segundo filho na rua. Parece haver três donazicas agora, com os muito interessantes trabalhos solo de suas três cantoras, embora isso pareça diminuir muito a questão, e não é o que se quer aqui.

A notícia dada por Alê Muniz por msn me entusiasmou: Andreia Dias faria um show em São Luís. Data, horário, local, preço do ingresso, o homem Criolina passou-me todos os detalhes e o blogueiro tentou logo cavar uma entrevista com a cantora paulista, por e-mail.

Ela só me responderia após o show, enxuto – “não deu tempo de ensaiar”, ela me justificaria depois, no bate papo do facebook –, em que cantou apenas três músicas de sua lavra (Asas, O fio da comunicação e Seu retrato), reverenciando grandes mestres: Sérgio Sampaio (Que loucura!), Roberto e Erasmo (Mesmo que seja eu), Cláudio Zoli (À francesa, sucesso de Marina Lima), Benito de Paula (Do jeito que a vida quer) e Zeca Pagodinho (Maneiras, composição de Silvio da Silva).

Andreia Dias iniciou a turnê Fora do Eixo por Belém, no mesmo esquema de São Luís, seu segundo palco na jornada: ao todo serão dez cidades brasileiras, ela viajando sozinha, se aliando a uma produção local e tocando acompanhada por uma banda idem. Ao palco do Novo Armazém na última quarta-feira (15), subiram com ela Edinho Bastos (guitarra), George Gomes (bateria) e João Paulo (contrabaixo). “Com uma banda dessas fica até fácil”, brincou a certa altura.

Os DJs Pedro Sobrinho e Natty Dread foram os pães da noite-sanduíche, cujo recheio contou ainda, além de Andreia Dias, com o casal Criolina Alê Muniz e Luciana Simões, indicados ao 22º. Prêmio da Música Brasileira, na categoria Canção popular, sobre o que falaremos em hora oportuna. Confira a seguir a entrevista que a cantora paulista concedeu com exclusividade, sem pudores nem papas na língua, a este modesto blogue.

Sem papas na língua, ela não poupa ninguém. Sobre a "nova" geração: "tem muita gente mala e bunda mole que acha que 'tá abafando, muita masturbação musical e lixo muito mais pesado sendo consumido"

ENTREVISTA: ANDREIA DIAS
POR ZEMA RIBEIRO

Zema Ribeiro – Em fevereiro você reverenciou Sérgio Sampaio no projeto Bendito é o maldito entre as mulheres. Sérgio é um de teus ídolos? Quais as tuas principais influências?
Andreia Dias – Acabei conhecendo mais o Sérgio através do convite pra esse show [a série homenageou ainda Jards Macalé, interpretado por Camila Costa com participação do mesmo, Tom Zé por Anna Ratto, com participação de Anelis Assumpção, e Jorge Mautner, que participou do show das Chicas]. Virei entusiasta e desde então tenho que cantar umas músicas dele, elas já fazem parte do meu ser. Me identifico muito com a obra dele. Minhas principais influências vêm do gospel, rock e do samba. Depois passei a assimilar outras linhas, mas essas três são as principais vertentes da minha obra. O gospel ainda de forma bem sutil, nota-se em Astro ReiO Fio [da comunicação, música já gravada pela DonaZica, retomada por ela em Vol. 2] etc.  Um dia pretendo gravar um disco de metal do senhor.

Em que momento você “decidiu” ser artista? Quando descobri que não gostava de estudar nem trabalhar. Com 16 anos.

A relação com as ex-colegas da DonaZica parece ser boa, pelas participações delas em teu disco de estreia. A banda acabou ou continua acontecendo em paralelo à tua carreira solo? DonaZica acabou, mas continuamos amigas e participando das fuleiragens umas das outras.

Em recente entrevista ao caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, o cantor, compositor e pensador Rômulo Fróes, disse que “essa é uma geração das mais brilhantes da história da música brasileira”. Como você, que faz parte dessa geração, analisa a afirmação? Eu acho essa afirmação muito pretensiosa, quase arrogante.  Nem sei mesmo se ele falou isso por que também não confio muito nos jornalistas, Nada pessoal, só acho que alguns filhos de Marat [o jornalista francês Jean-Paul Marat, 1743-1793] distorcem  muitas vezes o que dizemos. Se ele disse mesmo, do meu ponto de vista está equivocado. Todas as gerações têm o seu brilho e o seu encantamento, seu peso e sua influência nos costumes e na sociedade como um todo. Nenhuma é mais ou menos que a outra. A nossa tem grande potencial, tem artistas interessantes, mas também tem muita gente mala e bunda mole que acha que ‘tá abafando, muita masturbação musical e lixo muito mais pesado sendo consumido. Falta muita distorção e sangue nos olhos pra muita gente. Acho que essa geração deixa muito a desejar em vários aspectos.

Essa geração, que não dá satisfação, por exemplo, a grandes gravadoras, tem, em tese, mais liberdade para construir sua obra. No entanto, em tempos em que todo mundo é repórter de si mesmo em twitter, orkut, facebook, myspace e toda a internet, “conquistar espaço” parece bem mais difícil. Os discos já não têm mais as vendagens de outrora. Como você enxerga este atual momento da música popular brasileira? Acho que esse é um grande momento pra se saber quem é quem de verdade. A mentira não cabe mais. Tá todo mundo exposto com a cara pra bater. Todo mundo tem potencial artístico e não cabe mais o modelo do artista glamourizado imposto pela  grande mídia. A ditadura do super artista, o ser superior e iluminado está ruindo a cada dia. Ninguém mais deixa de cantar ou tocar sax por que não vai fazer sucesso e precisa trabalhar no escritório pra pagar as contas. Todo mundo pode fazer, as armas estão aí;  partindo deste princípio saberemos quem sobreviveu daqui há uns dez, vinte anos. Daí saberemos se essa geração foi brilhante mesmo.

Música popular brasileira, um conceito, aliás, cada vez mais contestável. Como você define a música que faz? Música, só. Eu faço música. Antes eu gostava de dizer ‘musica popular contemporânea da América latina’. Mas também já acho isso uma punheta. Música e ponto.

Por que batizar os discos simplesmente de Vol. 1 e Vol. 2? Por que fazem parte de uma trilogia ainda em construção.

Você que tem asas e precisa abri-las, para citar a letra de Asas, que abre teu disco de estreia, em que projetos está envolvida atualmente, incluindo próximos discos? Estou em uma circulação por 10 cidades do Brasil através do coletivo Fora do Eixo. A ideia é percorrer 10 pontos em dois meses de viagem. Estou sozinha na estrada e em cada cidade que chego tem uma banda pra me acompanhar. Comecei por Belém onde já gravamos duas faixas inéditas e um videoclipe em parceria com músicos de lá. Minha segunda cidade está sendo São Luís e já comecei uma faixa com o casal Criolina. A ideia é acabar com um disco e um documentário da expedição, que batizei de tatuducerto.

Qual o segredo para tratar dos amores e das inevitáveis rimas para eles, as dores, sem meramente cair no brega, quer coisa mais brega que o amor? Quanto há de autobiográfico e de ficção em tuas letras? O segredo é viajar e se amar acima de tudo. Minha obra é bastante autobiográfica, na música exorcizo meus sentimentos e minhas dores, como também minhas alegrias.

O que você achou do show desta quarta-feira (15) no Novo Armazém? E o que tem achado da cidade? São Luís estava no roteiro desde o começo. Eu, antes de ir pra Belém, já tinha batido uma bola com a Lu [a cantora Luciana Simões], daí então surgiu o convite. Embora aqui não tenha um ponto Fora do Eixo definido, o Criolina atua como representante e através deles foi criada toda a rede de produção e interação com os músicos. Fiquei muito satisfeita com o show e a ideia é voltar em breve e fazer mais shows. Tô amando essa cidade, as pessoas são muito calorosas e a comida muito boa, vou conhecendo aos poucos.

Volto um pouco à questão dos grandes avanços tecnológicos, não só em relação à música: como você enxerga, por exemplo, a questão dos downloads? A seu ver, downloads gratuitos atrapalham ou ajudam as vendas? Acho que deve atrapalhar por que incomoda muita gente. Eu acho massa!! Vamos baixar o universo! Pau no cu das grandes instituições que dependem de vendas, de juros e lucros!! Malditos escravocratas!!!! Tá tudo aí, é só querer pegar. O mundo é nosso e ninguém pode impedir mais a tecnologia. Eles vão tentar, mas a casa deles ‘tá caindo e enquanto isso vamos downloadeando!!

Sobre anjos musicais

O cantor e compositor Bruno Batista acaba de lançar Eu não sei sofrer em inglês, seu segundo disco. Via Facebook ele conversou com o Vias de Fato.

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista (foto) já morou no Piauí e no Rio de Janeiro antes de cravar residência em São Paulo, onde vive hoje. Na terra de São Sebastião gravou seu primeiro disco, que levava apenas seu nome no título, Bruno Batista (2004), elogiado pela crítica. (Re-)gravado por nomes como Cecília Leite, Cláudio Lima e Lena Machado, é um dos principais nomes da cena musical contemporânea do Maranhão.

Na terra da garoa Bruno Batista gravou seu segundo disco, o belíssimo Eu não sei sofrer em inglês (2011). Se no primeiro disco já eram surpreendentes suas elaboradas letras e melodias, neste segundo o cantor e compositor se supera. “O primeiro era um disco sem pretensão nenhuma”, afirma modesto o jovem de fã-clube cada vez maior.

O novo disco ainda nem estava pronto e só chegou às lojas pouco antes deste número do Vias de Fato, já neste maio. Pode ser encontrado nas lojas Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande) e Playsom (Tropical Shopping), além do Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais) – onde a reportagem tentou encontrá-lo por duas vezes, conversa adiada diante de problemas na agenda ou do artista ou do repórter.

“Esse jogo não pode ser um a um”, diria outro poeta da canção. O desempate aconteceu via Facebook: pelo site de relacionamentos, entre os dias 7 de abril e 11 de maio, Bruno Batista concedeu a entrevista abaixo ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: BRUNO BATISTA
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Quando é que, de fato, Eu não sei sofrer em inglês será lançado? Bruno Batista – O Eu não sei sofrer em inglês, que já deveria ter sido lançado no fim do ano passado, deverá chegar nas lojas no início de maio [chegou]. O atraso todo se deu no processo de mixagem, que se prolongou além do previsto. Atualmente ele ‘tá na fábrica e, só pra não deixar dúvidas: há realmente um disco no forno, chamado Eu não sei sofrer em inglês, que, muito em breve, estará circulando por aí . Não é lenda urbana, não [risos].

A que se deveu a demora entre a estreia e este segundo trabalho? O primeiro disco, muito embora seja muito importante pra mim pessoalmente, não tinha nenhuma pretensão. A proposta inicial era apenas registrar aquelas canções, de uma forma cuidadosa, claro, com as minhas ideias na época. Mas o fato é que, a partir dele, eu peguei gosto pela coisa – a experiência em estúdio e a troca com as pessoas que ouviram o disco me contaminaram – e passei a considerar, realmente, seguir no terreno musical. Esse tempo sem gravar me permitiu conhecer mais profundamente o mundo da música no Brasil, a enorme quantidade de artistas independentes que faz um trabalho incrível, e me deixar influenciar por eles. Muito embora no Eu não sei sofrer em inglês haja canções feitas há nove anos, além de duas regravações, eu esperei a minha própria música se modificar e se estabelecer em mim pra fazer um novo registro.

Eu não ouvi todos os discos [título de uma das faixas do primeiro disco] não é, mas bem poderia ter sido o título de teu primeiro disco. Eu não sei sofrer em inglês, título do segundo, tem a mesma quantidade de letras daquela faixa que Ricarte Almeida Santos referenciou em artigo de relativa fama no meio jornalístico e intelectual da capital maranhense. Para além dessa coincidência, digamos, numerológica, que diferenças e semelhanças entre um e outro tu poderias apontar? Sério? Que coincidência maravilhosa [risos]. Não tinha atentado para isso. Mesmo. Na verdade, Eu não ouvi todos os discos deveria, sim, ter sido o nome do meu primeiro disco. Não lembro mais a razão de não tê-lo batizado assim. Muito provavelmente se deveu à tal despretensão de que falei. Mas o fato é que, se fosse hoje, esse teria sido o nome do disco. Tanto que é o nome do meu blog [o desatualizado http://www.batistabruno.wordpress.com]. Quanto ao outro ponto, vejo mais diferenças que semelhanças entre os dois álbuns. A começar pela concepção: enquanto aquele recebeu arranjos de um maestro sofisticado – e saudoso – Alberto Farah, este foi gravado em três sessões, com uma banda tocando ao vivo e sem conhecimento prévio das canções. Além disso, penso que também ficou flagrante a inclinação mais “pop” do trabalho, com maior espaço para guitarras, bateria, coros. Mas, sobretudo, acho que ter gravado em São Paulo, com essa geração muito especial de músicos que forma a atual cena paulistana, deu um sabor bem distinto ao disco.

Seu blogue anda meio parado. Como já aconteceu com outra experiência, de blogueiro do jornal O Imparcial, e como aconteceu com o próprio curso de Comunicação Social, que tu abandonaste sem concluir. Podemos dizer que tu abandonou tudo pela música? Ou o cantor e compositor Bruno Batista se conciliará em breve com as letras, passando a trabalheira de “parir” um novo disco? Acho que não tenho muita vocação pra blogueiro, né? [risos]. Mas o instinto jornalístico é muito presente em mim. Vou conciliar as duas coisas, sim, e tem novos projetos vindo por aí.

Sobre estes novos projetos, podes adiantar alguma coisa? Tenho conversado muito com o Pedro Henrique Freire [editor-chefe de O Imparcial] sobre um novo projeto jornalístico. É uma proposta bem legal, mas ainda não posso adiantar muita coisa. E, musicalmente, após passar esse primeiro momento de lançamento do novo disco, quero muito viabilizar o meu trabalho de músicas infantis, além de um grupo de baião. Este último é um desejo antigo, que recrudesce à medida que meu trabalho autoral vai se distanciando dos signos nordestinos. É meio louco isso, não? Mas é o que acontece.

Entre as feras que estão em Eu não sei sofrer em inglês, como foi chegar a nomes como Chico Salem e Marcelo Jeneci, ambos da banda de Arnaldo Antunes, mais Estevan Sinkovitz, da de Kléber Albuquerque, Guilherme Kastrup, que já tocou com Zeca Baleiro, que participa de regravação de Acontecesse, mais Rubi, Juliana Kehl e Tulipa Ruiz? Na verdade, tudo começou quando assisti ao Partimpim, da Adriana Calcanhoto. Lá tinha um percussionista que tirava som de tudo, com muita graça no palco. Foi assim que cheguei ao nome do Guilherme e o procurei pela internet. Mandei algumas canções, ele curtiu, e começamos a pensar no trabalho. Em princípio, ele iria fazer só as percussões mas, ao ouvir o disco Vol. 1, da Andréia Dias, percebi que ele também era um puta produtor e o convidei pra produzir também. Pra minha sorte, ele aceitou e convocou esse time maravilhoso. O curioso é que, exatamente nessa época, eu estava ouvindo muito o Ao Vivo no Estúdio, do Arnaldo, e entusiasmadíssimo com o Jeneci, o Chico Salem. Foi demais poder contar com todos eles. Quanto às participações, uma das coisas mais gratificantes desse disco foi poder dividir uma faixa com o Zeca. Ele sempre foi um dos meus grandes mestres, lembro de ter ouvido um milhão de vezes o [Por onde andará] Stephen Fry, o Vô Imbolá, e acho mesmo que, ele e o Chico César, foram os responsáveis por eu ter me tornado compositor. Isso em falar no prazer de conhecer o Rubi, um dos timbres mais especiais da música brasileira, a Tulipa, que é uma fofa e tem uma personalidade artística incrível. Ambos foram muito generosos e me emocionaram enquanto gravavam. Mas, talvez o mais bacana de tudo, foi a relação que construí com o Guilherme e o Chico. Depois de tanto tempo depurando o disco, burilando, refletindo acerca de todas as questões, ficamos amigos. São músicos fantásticos e pessoas raras.

As referências trazidas por ti, aqui, são bastante contemporâneas: Chico César e Zeca Baleiro não têm, ainda, 20 anos de carreira. Partimpim e Ao vivo no estúdio são discos novíssimos, embora estes conceitos estejam cada vez mais dissolvidos, em tempos de produção musical cada vez mais efêmera, onde tua música não se insere, obviamente, dado o apuro, a preocupação, o cuidado com cada detalhe. Teu blogue homenageia na definição Zico, Kusturika, Oscar Wilde e Waldick Soriano. Tarantino, Marley, Lennon, Bowie, Morris Albert, Bob Dylan, Joan Baez são outras personalidades que passeiam pelas letras de Eu não sei sofrer em inglês. Gostaria de citar outras influências e referências? Sim, eu citei algumas referências contemporâneas porque, atualmente, é o que tenho ouvido com mais frequência. Mas minha memória afetiva, inelutavelmente, me remete a Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Amelinha, Egberto Gismonti, que era o que meu pai ouvia quando eu era criança. Minha casa sempre foi muito festiva e musical, e se consumia, fundamentalmente, música brasileira. Além disso, havia a casa da minha avó, em Teresina, onde passava as minhas férias ouvindo o violão dos meus tios, sobretudo o do meu tio Naeno. A minha maneira de tocar, meu dedilhado, advém dele. É um artista maravilhoso. Quando citei o Zeca como responsável por me tornar compositor foi, além de todo o entusiasmo e impacto que sua música causou em mim, ele ter provado que um artista saído dali, da cidade em que eu vivia, podia, sim, ser bem sucedido, construir uma carreira além muros. Mas, com relação estritamente à herança musical, o meu maior credor, provavelmente, é o Naeno. Um dos meus grandes desejos é, um dia, gravar um álbum só com suas canções.

Se teu primeiro álbum não tinha pretensões, podemos dizer que este segundo te consolida como cantor e compositor, além dos planos e sonhos para o futuro: um disco infantil, outro com canções de Naeno, de quem tu herdas também uma doce melancolia. Em que momento, antes do primeiro disco, tu te sentiste artista? E quando, talvez na feitura do segundo, tu pensaste em fazer deste o teu principal ofício? Na verdade, esta sempre foi uma questão pra mim. Antes do primeiro disco eu nunca me senti, de fato, artista. Não percebia em mim a necessidade de dialogar com as pessoas através da música, nunca tive um fascínio especial pelo palco ou encantamento pela carreira artística. Tanto que as canções que fazia ficavam restritas ao ambiente familiar e, não fosse a iniciativa dos meus pais e irmãos, talvez repousassem lá ainda hoje. Mas, para citar um momento importante, lembro de quando ouvi pela primeira vez a gravação de Já me basta, feita pela Cecília Leite. Ali percebi que eu tinha uma voz e que ela poderia encontrar eco em algumas pessoas. Foi, talvez, a minha primeira afirmação enquanto compositor.

Outros nomes que já te gravaram são Lena Machado e Cláudio Lima. O último, com quem já dividiste o palco em shows, assina o projeto gráfico de teu novo disco. Em tempos em que é possível baixar discos em qualquer esquina virtual, informação e um bom projeto gráfico são, a meu ver, fundamentais. O disco, além de aos ouvidos, precisa agradar aos olhos. Como foi dialogar com Cláudio Lima neste sentido, de dar a cara a Eu não sei sofrer em inglês? Trabalhar com Claudio é sempre um privilégio, é um dos artistas mais sensíveis que eu conheço. A arte gráfica é apenas uma de suas facetas. A de cantor, mais conhecida, dispensa comentários – é um dos melhores do país – mas, além disso, ele escreve, compõe e anda de monociclo [risos]. É de um perfeccionismo comovente, tende a ruminar muito antes de apresentar qualquer trabalho e eu compreendo isso muito bem. Já foi uma delícia poder dividir o show Hein – que fizemos em São Luís em 2008 – e ainda iremos gravar um disco juntos.

Dá para culpá-lo um pouquinho pela demora do Eu não sei sofrer em inglês? Brincadeira [risos]. E aqui o Vias de Fato, novamente, apresenta em primeira mão outro projeto de Bruno Batista: um disco com Cláudio Lima. Ficando no disco novo, vamos ao repertório: por quê abri-lo com regravações de Já me basta e Acontecesse, músicas de teu disco de estreia, a primeira agora ganhando uma levada bumba meu boi, ainda que deixando a tradição de lado, a segunda com participação especial de Zeca Baleiro? [Risos]. Dá sim, ele também tem culpa nisso. Quando fomos selecionar o repertório, acabei apresentando 18 canções para os produtores que iriam comandar o processo. Entre elas, Acontecesse e Já me basta. Pensei: “Já que estou encarando este como meu primeiro trabalho, por que não mostrar tudo o que tenho?”. Eles acabaram escolhendo as duas e, num primeiro momento, eu hesitei. Mas depois veio a possibilidade da participação do Zeca, a gravação de Já me basta foi um dos momentos altos daquele processo, passei a me entusiasmar com os novos arranjos. No fim, elas iriam abrir o disco numa, digamos, coincidência intencional.

Encarar Eu não sei sofrer em inglês como primeiro trabalho não significa renegar Bruno Batista, o disco de estreia, ou significa? E seguindo no faixa-a-faixa: e a faixa-título, soma de referências em música de ninar gente grande? Não, não. Tem a ver, apenas, com a tal despretensão que já mencionei. A faixa-título foi composta na bacia das almas, praticamente dentro da cabine de gravação. Ia gravando os takes e alterando a letra [risos]. Mas tinha tido a ideia uns dois anos antes e sabia que seria o título do disco. Tem uma candura na própria melodia que acabou contaminando o arranjo. Mas gostei da tua definição “música pra ninar gente grande”. Talvez seja isso mesmo, muito embora eu já recebido alguns e-mails do tipo “Bruno, meu filho, sempre que entra no carro, pede pra colocar aquela música do sofrer em inglês”.

A faixa seguinte, Tarantino, meu amor é uma desbragada declaração de amor ao ator, diretor e roteirista, certamente outra referência, um tango, digamos, impuro… Sim. Na verdade, antes de uma declaração de amor, é uma alegoria, uma sacanagem. Acho que tem a ver com ele. É um diretor que eu gosto muito e, na canção, trato de alguns temas que são caros a ele, como a personagem feminina, alguma violência e humor. Ele tem um humor sádico incrível. Originalmente tratava-se de um xote, que era pra dar uma coisa mais louca na canção – um sujeito tão cosmopolita como o Tarantino ser tratado num xote e chamado de “quentín”. Mas o arranjo tomou outro caminho com a banda e acabou, sim, transformando-se num quase tango. Quase.

Depois vem Vaidade, samba-choro modernoso de letra belíssima, com a participação de Rubi, uma das mais belas vozes do Brasil… Sim. A melodia deste samba foi composta em Recife há alguns anos. Lembrei dele quando estávamos selecionando o repertório e fechei a letra. De cara, sabíamos que ela seria uma faixa que teria participação especial, mas faltava definir quem convidar. Foi o Gui Kastrup quem sugeriu o Rubi e eu pirei na ideia. A gravação foi muito especial, o Rubi interpretou magistralmente e, ao final, sem que nos déssemos conta, estávamos todos chorando. Lindo e inesquecível.

Sobre anjos e arraias te devolve ao Nordeste, entre o Pernambuco de nascença e o Maranhão e Piauí da infância e adolescência… Sim, acho que é a faixa mais “nordestina” do disco. A influência pernambucana é mais consciente que atávica, uma vez que não lembro da minha vivência no Recife. Mas ouvi muito Chico Science e toda a geração do mangue beat. Tem o lance do acordeom, a percussão que assume o papel do baixo. Curioso é que essa canção foi criada para ter um único acorde, queria que ela soasse renitente, como um filho que não larga as saias da mãe. O arranjo final amenizou um pouco isso, o que, no fim das contas, acabou me deixando contente.

Quem é a Bonita? Na verdade, Bonita não foi feita especificamente pra ninguém. Partiu de uma imagem, do verso “Que te fez, Bonita!”. Depois, fui delineando a letra.

E Hilda Regina? Hilda Regina já foi inspirada numa amiga que adorava viajar, era castrista e fascinada por música cubana. Por isso, fiz uma salsa em que a personagem passeia pelo mundo.

Para um amor em Paris evoca dois compositores: Paulinho da Viola, por seu Para um amor em Recife e Zeca Baleiro, pela mistura de línguas da letra, o que já ocorria em Hilda Regina Sim, O título de Para um amor em Paris é uma alusão clara á obra-prima de Paulinho da Viola, uma de minhas preferidas da sua obra. Já o uso dos estrangeirismos tem ligação, sobretudo, com os poetas brasileiros modernos, como Jorge de Lima, que se valiam muito desse recurso.

Em Nossa paz, a participação especial de Tulipa Ruiz, personagem de um novo momento da música brasileira que merece ser descoberta por mais e mais gente, tal qual Bruno Batista, que devagarinho vai conquistando seu espaço… A Tulipa é, definitivamente, um novo momento na música do Brasil. Acho que há tempos não aparecia alguém com uma personalidade artística tão singular. E com tanto carisma também. Nossa paz é uma canção terna, cotidiana, que foi composta com essa intenção mesmo. Acho que acabou tendo uma boa aceitação porque muita gente se identifica com aquele sentimento.

E a mulher a quem você aconselha em Lia, não vá? É uma música otimista, esperançosa que, ao suceder Nossa Paz, cria certo momento de aconchego dentro do disco. A Lia, especificamente, não existe, mas talvez tenha inspirada numa antiga namorada que passou por um momento difícil.

E fechando o disco a densa e bela As cigarras As cigarras é meio tropicalista, rápida, esquizofrênica. É o único rock do disco e, por isso, foi até difícil encaixá-la. Quase não entra. Mas acho que ela, também por isso, acaba fechando bem os trabalhos.

Todas as músicas são assinadas por ti, o que também aconteceu no primeiro disco. Compor sozinho é uma opção? Acho que por muito tempo foi uma opção, sim, porque é mais fácil. Não há embate de ideias ou propostas. Mas, com o tempo, você acaba se tornando refém de si mesmo e ter parceiros que possam te desamarrar parece ser o melhor caminho. Tanto que já tenho algumas parcerias com o Chico Salem, Djalma Lúcio e, no próximo álbum, quero explorar bastante essas novas influências.

[Vias de Fato, maio/2011]

Esse cara é massa!

CELSO BORGES*
ESPECIAL PARA ESTE HUMILDE BLOGUE

Xico Sá (foto) tá em São Luís. E isso não é pouco. É difícil a gente encontrar um profissional do nível dele, que combina bom texto + humanismo + ironia + 1 dose de pinga + Waldick Soriano na vitrola + Dom Quixote no coração. Esse cabra do Crato (CE) é um craque da palavra. Desses raros que a gente anda atrás pra saber o que anda escrevendo. E não é pouco. Em 26 anos de jornalismo espalhou seu estilo muito pessoal prum mundaréu de jornais e revistas e ganhou os prêmios Esso e Abril. Na TV faz parte da equipe do programa Cartão Verde, da TV Cultura/SP, ao lado do ex-jogador Sócrates.

Além disso, tem parcerias musicais com o grupo Mundo Livre S/A, é coautor de roteiros de longa-metragem, fez pontas como ator em Crime delicado e O cheiro do ralo. Mas quem disse que é só isso? Xico é também um grande escritor. Nem vou citar todos os títulos. Eu já li dois e adorei: Chabadabadá e Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente. A mim resta incitá-los a procurar nas casas do ramo. É provável que não se ache aqui em São Luís. Grande novidade. Alô livreiros, pelo amor à literatura, peçam os títulos de Xico Sá!

Nunca é demais repetir: Xico é um craque da palavra. Só que ao invés de vesti-la com paletó e gravata, vai buscar excelência de linguagem na poeira das ruas. Em lugar de cátedras, mesas de bar. Cita do suicida da esquina que acabou de tomar formicida e se matou por amor ao valente e essencial Nietzsche. Sabe que no balde da vida a sabedoria tá num e noutro. Em lugar de Mahler, Magal, ou melhor, Mahler e Magal. É antológica sua apresentação ao lado de Sidney Magal.

Diferente de intelectuais e jornalistas formados (alguns deformados) dos anos 50 e 100 (sim, eles continuam vivos), Xico também bebe com prazer do lixo pop. No seu caldeirão de referências coloca o que seria incabível para os letrados de araque. Sou fã da coluna que ele escreve sobre futebol na Folha de S. Paulo. Depois de À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues, eu pensei que nada fosse me comover tanto.

Eu encontrei Xico umas três, quatro vezes, duas delas em lançamentos de livro, mas é como se fôssemos velhos conhecidos. Tasco-lhe sempre um abraço enorme, que é uma forma de expressar a alegria por tê-lo perto dividindo espantos. Dessa vez não será diferente. Pena que não vai dar tempo de levar esse cara pruma rodada dupla do campeonato maranhense no Nhozinho Santos. Logo ele torcedor do Ibis (PE) e do Santos (SP), amante e devoto de peladas homéricas. Salve, irmão! Seja bem-vindo!

*Celso Borges é jornalista e poeta. Seus títulos mais recentes são Belle epoque (2010), Música (2006) e XXI (2000).

O vinil vive

DJs ainda usam os bolachões para embalar os que se aventuram nas pistas de dança. Brasil tem a única fábrica da América Latina

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

Falecido no último dia 27 de março, o multiartista pernambucano Lula Côrtes deixou em seu legado o mais raro e mais caro vinil do Brasil: Paêbirú, disco duplo com duplo acento que dividiu com o paraibano Zé Ramalho em 1975. A gravadora Rozenblit, de Recife, responsável pelo lançamento da obra-prima que inauguraria a psicodelia brasileira, ficava às margens do Capibaribe e naquele ano uma enchente levou a maioria das cópias: sobraram apenas cerca de 300, hoje disputadas a tapas e a preço de ouro em sebos Brasil e mundo afora – chega a custar 5 mil reais.

Uma edição em cd chegou a ser lançada por um obscuro selo alemão, sem o mesmo charme. O disco duplo tem seus lados representados por elementos da natureza: terra, água, fogo, ar. É facilmente encontrado para download na internet. Mas o bom e velho vinil ainda exerce fascínio – e isso não é privilégio de Paêbirú.

Vinis de valor – Há vários discos bem valorizados, em lojas físicas ou virtuais, além de colecionadores que comercializam os velhos bolachões. “Entre os brasileiros eu citaria o Racional, de Tim Maia, e os discos de Dom Salvador. Os mais caros que comprei foram de Willie Lindo e de um baixista jamaicano chamado Loyd Parks. Custaram cerca de 300 reais, cada”, afrma o DJ Joaquim Ferreira, da Rádio Zion.

Joaquim, 47, coleciona vinis desde os 16 anos, um hobby que virou “profissão”: ele discoteca há 18 anos.

“A minha opção pelo vinil é a paixão pela música antiga produzida no Brasil e no mundo. De velhos nomes da música popular brasileira temos dificuldade em conseguir bons discos em CD. Em geral as gravadoras não têm mais interesse em lançar este material”, continua.

As agulhas são, para ele, um material de trabalho precioso: Joaquim não usa CDs em suas discotecagens – nem ninguém da Rádio Zion, coletivo de DJs integrado por ele, Marcus Vinicius e outros.

Franklin Santos usa CDs. Mas só quando não encontra vinis. “É uma dificuldade encontrar tudo que se quer em vinil, às vezes é preciso recorrer ao CD. Mas quando tenho o material em vinil, ele é a prioridade. Vinil sempre!”, entusiasma-se. Sua paixão é tanta que carrega tatuado em si um toca-discos.

Jornalista, professor universitário e DJ, Pedro Sobrinho usa CDs mais comumente: “Mas usar os vinis de vez em quando é trabalhar com um artigo de luxo”.

Ele e Franklin concordam em relação às vantagens do CD: a portabilidade, o peso reduzido e a possibilidade de gravação de compilações específicas, para serem usadas em determinadas ocasiões. “Por outro lado, o som do vinil, quando tocado em um equipamento decente é infinitamente melhor que o CD. Além das capas e encartes, maiores e mais bem trabalhados”, comenta Franklin.

Coleções – “A última vez que eu contei, tinha cerca de 4 mil vinis, entre LPs, EPs e compactos. Mas só tenho coisas que me interessam, nenhum disco está ali só para ocupar espaço”, Joaquim Ferreira contabiliza sua coleção. A de Franklin é menor, mas nada desprezível: cerca de 1.500 vinis. Da coleção de Pedro Sobrinho o mais raro é o disco do Bumba meu boi de Pindaré, com a toada Urrou do boi, de Coxinho, que depois seria alçada à condição de “Hino do Folclore do Maranhão” por lei estadual. “Existe obra prima mais rara na música popular brasileira?”, indaga-se, acerca da controversa faixa – Bartolomeu dos Santos, o Coxinho, falecido há 20 anos, nunca recebeu um centavo de direitos autorais.

Onde comprar – Eles dão o caminho das pedras para outros colecionadores: compram tanto em sebos em São Luís quanto fora, em viagens ou pela internet. “Hoje ligo para meus fornecedores, que se tornaram amigos”, conta Franklin. Joaquim recomenda sites como o nacional Mercado Livre e os estrangeiros ebreggae, vpreggae e reggae record. “Apesar do reggae dos nomes dos sites, é possível encontrar discos de funk, soul, jazz, rock e até mesmo música brasileira”, afirma.

Em São Luís os pontos de “pescaria de pérolas” são comuns: a banca do Adriano (João Paulo), a de Seu Domingos (Praça Deodoro) e os sebos Poeme-se (Praia Grande), Chico Discos (Afogados, Centro) e Papiros do Egito (Sete de Setembro, Centro).

Francisco de Assis, o Chiquinho, proprietário do Chico Discos, não consegue contabilizar a quantidade de vinis vendidos: “Não há uma média. Há dias em que não se vende nada, mas tem dias que um colecionador chega aqui e sai com 20, 30 vinis debaixo do braço. Varia muito”.

“Não chega a 80 por semana”, Moema Alvim faz a mesma conta. A professora universitária aposentada abriu o Papiros do Egito como um hobby há mais de 20 anos. Por lá os vinis mais caros são os de reggae e merengue, com preços semelhantes aos de uma raridade como um vinil de Violeta Parra, autora de Gracias a la vida, que pode ser levado por 30 reais.

A fábrica – Sediada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, a Polysom é a única fábrica de vinil da América Latina. A empresa iniciou suas atividades em maio de 1999. Depois fechou as portas, por conta de uma série de dificuldades – pouca demanda, cancelamentos de pedidos, dívidas – sendo reaberta em 2008, após ser adquirida e reformulada por sócios da Deckdisc, seus atuais proprietários.

“Quando topamos entrar nessa verdadeira cruzada que foi a reativação da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil”, arrisca João Augusto, um de seus fundadores.

A Polysom pode ser conhecida em seu site e interessados podem ficar por dentro de suas novidades nas atualizações do twitter. Os vinis fabricados por ela podem ser adquiridos na loja virtual Sete Polegadas, alusão a uma das medidas dos discos (LPs têm 12 polegadas). Lá são encontrados nomes como Secos & Molhados, Chico Science & Nação Zumbi, Tom Zé, Ultraje a Rigor, Titãs, Rita Lee, Jorge Ben, Fernanda Takai, Pitty e Cachorro Grande. Mesmo com o frete grátis, o preço é, ainda, salgado: os compactos custam, em média, 30 reais; LPs podem chegar a 85.

O leque deverá ser ampliado: algumas gravadoras têm demonstrado interesse em relançar em vinil títulos de seus catálogos. “Estamos falando de um catálogo infindável de discos inesquecíveis”, afirma João Augusto. E arremata: “Vou me emocionar muito no dia em que a Polysom produzir os discos do Rei, Roberto Carlos”.

Fora do Brasil nomes como White Stripes, Arctic Monkeys, Radiohead, Foo Fighters e Beach Boys recentemente lançaram trabalhos em vinil.

Pérolas e esmeraldas – Alguns vinis têm a sorte de ganhar reedição em cd. Tornam-se conhecidos da meninada mais nova, antenada. Mas logo voltam ao ostracismo, as tiragens, em geral, pequenas. No começo dos anos 2000 o então baterista dos Titãs Charles Gavin deu início a um árduo trabalho de pesquisa que recolocou diversos títulos brasileiros de primeira importância nas prateleiras das lojas de discos país afora. Raridades como Todos os olhos e Se o caso é chorar, de Tom Zé, Revólver e Ou não, de Walter Franco, Novos Baianos F. C., dos Novos Baianos, além de títulos de Carlos Daffé, Belchior, Guilherme Arantes e muitos outros. Dois vinis em um cd, com reproduções dos encartes e textos de críticos, contextualizando os trabalhos.

Outros discos não têm a mesma sorte, caso da passagem do compositor Chico Maranhão pela gravadora Marcus Pereira, que lançou, entre outros, nomes como Cartola, Papete, Diana Pequeno e Canhoto da Paraíba. De Maranhão, discos como Gabriela (1974), Lances de agora (1978) e Fonte nova (1980), além da estreia dividida com Renato Teixeira, em 1969, ainda anseiam chegar à era digital.

Jorge Benjor irá refazer, ao vivo, o disco Tábua de esmeraldas (1974). Tido por muitos como o melhor disco de sua carreira, é o último em que Benjor – à época apenas Ben – se acompanha tocando violão, instrumento que trocaria pela guitarra. A ideia de regravá-lo em show partiu de um fã, que criou um perfil no site de relacionamentos Facebook pedindo por isso. Ganhou em pouco tempo mais de cinco mil seguidores e convenceu o autor de Os alquimistas estão chegando os alquimistas à empreitada. Não se sabe ainda se o registro ao vivo será lançado em vinil, CD ou em ambos.

Mais

Em busca do vinil
Onde encontrar vinis em São Luís

Banca do Adriano (João Paulo).
Banca do Seu Domingos (Praça Deodoro, ao lado da Biblioteca Pública Benedito Leite).
Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande – (98) 3232-4068)
Papiros do Egito (Rua Sete de Setembro, Centro – (98) 3231-0910).
Chico Discos (Rua dos Afogados, 384-A, altos, Centro – (98) 8812-3433).
 
Raros
Um pouco mais sobre alguns discos raros citados ao longo da matéria

Paêbirú (1975) – Zé Ramalho e Lula Côrtes: Experiência psicodélica nordestina em disco duplo. Tornou-se raridade após uma enchente em Recife levar quase toda a tiragem embora. Sobraram apenas cerca de 300 exemplares – nascia o mito.

Racional (1975; um segundo volume foi laçado no ano seguinte) – Tim Maia: Disco renegado em vida por seu autor, Racional fez a cabeça de muito músico brasileiro. Tim descobriu-se alvo de picaretagem (pelo líder da seita Racional Superior) e até falecer, em 1998, não autorizou reedições do disco. Relançado pela Trama, trouxe CD extra que imitava os chiados do vinil. Atualmente 15 discos do “síndico” são vendidos em coleção que chegará semanalmente às bancas de revistas. O brinde é um inédito Racional Volume 3 para quem comprar a coleção completa.

Lances de agora (1978) – Chico Maranhão: Gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro, no Centro Histórico de São Luís. Como os outros títulos do compositor maranhense na gravadora Marcus Pereira, Lances de agora amarga o ineditismo em formato digital.

[O Imparcial, 5/5/2011]

Paródia é coisa séria

Com um terceiro CD no forno, Alberto Trabulsi concedeu entrevista a O Imparcial. Falou de seus trabalhos e abordou assuntos espinhosos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

À redação de O Imparcial chegou o boato: Alberto Trabulsi (foto) estava com o baú cheio de novas paródias. Era preciso conferir. Sinal dos tempos, via Facebook, pegamos o seu contato de Messenger, por onde ele concedeu entrevista ao jornal. O boato não se confirmava, mas não íamos interromper a entrevista.

Cantor e compositor formado em Educação Física – e atualmente também acadêmico do 5º. período de Direito – Trabulsi completa 40 anos neste maio. Por cerca de uma hora e meia ele conversou com O Imparcial sobre arte, políticas públicas, gestão cultural e… paródias.

Paródias – “Eu faço todo ano, duas ou três, em média, para o bloco [Herdeiros do Aldemir] desfilar no carnaval. Mas só nesse momento. Tudo ficou mais conhecido depois do sucesso nacional de Wilson Vai [versão dele para I Will survive]. O público em geral não conhece. Só os integrantes do bloco. Tem pelo menos umas 20 que são desconhecidas de todos. São paródias de músicas conhecidas. Só troco a letra e às vezes dou um toque mais animado pra gente poder desfilar e dançar no carnaval, mas conservo o mais original possível.

Por exemplo: Você tinha…, em cima de Burguesinha, e Biba do cunovíneo, em cima de Mina do condomínio, de Seu Jorge fizeram sucesso, pois estavam em voga ano passado. São sempre músicas que estão fazendo sucesso, principalmente na TV, ou clássicos da música brasileira. Mas é preciso perceber uma coisa: todas têm duplo sentido porque a gente sai travestido sempre de mulheres. Outra que fez sucesso esse ano foi Eu quero é mostrar meu bofe na rua, em cima do clássico Eu quero é botar meu bloco na rua [do capixaba Sérgio Sampaio]”.

Trabalho sério – “As paródias são meu lado folião irreverente… que só funciona quando o carnaval se aproxima. O resto do ano faço minhas canções. São dois discos lançados [Antes que a poesia acabe, de 1998, e O silêncio, de 2002] e um no forno, precisando ser lançado”.

Maranhão: carnaval e São João – “Esses eventos [os períodos carnavalesco e junino] se transformaram numa corrida ao ouro. Há pessoas que se alimentam exclusivamente desses períodos e passam o ano inteiro reclusas, sem produzir nada de interessante em benefício da música e das pessoas que ainda querem a música como um alento prazeroso da vida.

Eu ando triste em pensar no destino dos artistas autorais do Maranhão, que se resumem apenas ao Maranhão, pois essa nem de longe é a mais viável via para o tão almejado sucesso”.

Os artistas e os poderes públicos – “O que acontece é que se vive na expectativa de o poder público fazer tudo pelo artista, mas o poder público deve estar em beneficio da população como um todo e apenas inserir a música, a arte, em um projeto maior. Não ficar apadrinhando uns e outros, porque isso exclui tanto o artista que está por vir, como o público que anseia por diversidades. Penso, utopicamente, num momento em que depois de tantas reviravoltas, a gente vai poder voltar às rádios, às praças, aos teatros”.

Uma paródia aos gestores, pelos 400 anos da Ilha – “Eu teria que fazer uma paródia de Geni e o zepelim [de Chico Buarque]ou mesmo de Faroeste Caboclo [da Legião Urbana, cita referindo-se ao tamanho das letras das músicas] para citar tudo que quero. Mas estou num projeto maior e mais audacioso, participando de um livro de fotografias de Meireles Jr., que irá retratar a cidade sobre todos os ângulos merecidos através de fotos e textos”.

Os 8 milhões da Beija-Flor – “Essa grana poderia ser aplicada em vários projetos, separadamente, com muito mais resultado social, que um dia de desfile. Mas o que acontece, e assim até concordo, é que se quisermos ser homenageados, temos que pagar. O carnaval é a festa mais popular do Brasil, logo é o maior outdoor também. Nós merecemos várias outras homenagens. Se parar por essa aí, vai ser um fiasco”.

[O Imparcial, 6/5/2011]

Letras mortas

Ensino de história e cultura afrobrasileira e indígena e música nas escolas são leis que nunca saíram do papel.

A data de 13 de maio é “vendida” em calendários oficiais e comemorações idem como dia da abolição da escravatura. A ela o Movimento Negro refere-se como “falsa abolição”. “O Movimento Negro Unificado, a partir de 1978, instituiu a data como Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo, para desconstruir o heroísmo da princesa bondosa”, afirma Maurício Paixão, Assessor de Direitos Étnicos, Povos e Comunidades Tradicionais do Centro de Cultura Negra do Maranhão. A princesa bondosa a que ele se refere é a princesa Isabel, filha do imperador D. Pedro II, tida como “a mão que assinou a Lei Áurea”.

Para o assessor do CCN, “a classe dominante brasileira da época escondeu que às vésperas da abolição apenas 5,6% da população negra ainda era escravizada. A grande maioria dos negros já tinha efetivamente detonado o escravismo, através de várias formas de luta, entre as quais fugas massivas, insurreições e o quilombismo”. Para ele uma estratégia para calar e apagar quaisquer resquícios de resistência e luta da história de um povo.

“Mais de 500 anos depois da descoberta do Brasil o povo negro ainda busca reconstruir sua dignidade e conquistar sua própria liberdade”, continua.

Não é recente a obrigatoriedade do ensino de cultura e história afrobrasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. Sancionada pelo presidente Lula, a Lei 11.645, de 10 de março de 2008, diz: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena”.

Mas a quantas anda, de fato, o cumprimento das leis que a asseguram, principalmente no Maranhão? “Algumas escolas têm incorporado os assuntos em disciplinas como História e Artes. Mas ainda é um número pequeno e menor ainda na rede pública, onde em geral este ensino depende da boa vontade de professores, de forma isolada. Outros inserem o conteúdo em projetos, apresentados em vários momentos ao longo do ano letivo”, afirmou a professora Joana D’Arc Martins, do Colégio São Marcos.

No quesito descumprimento, aliás, à Lei 11.645 soma-se a 11.769, de 18 de agosto do mesmo ano: esta devolve à música o status de conteúdo obrigatório do currículo escolar – a expressão artística já havia figurado entre as disciplinas obrigatórias entre 1932 e 1971. Seu retorno a este rol foi proposta da então senadora Roseana Sarney (PMDB). No entanto, a legislação permanece apenas no papel e, se ainda não vemos “músicos em formação” – papel que nem teria o ensino obrigatório da música – tampouco tempos estudantes mais sensíveis, ou com gosto mais apurado.

O dia da Consciência Negra (20) – este sim, celebrado pelo movimento negro – e o de Santa Cecília (22), padroeira da música, estão em novembro. Seis meses até lá para se elevarem preces aos céus para que na terra as leis dos homens (e mulheres) sejam cumpridas. Procurada para comentar os assuntos a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) não se pronunciou até o fechamento desta matéria – espera-se que estivesse ocupada tratando da greve dos professores, que já conta cerca de dois meses de idade. Aliás, cabem orações aí também.

o “grammophone” de tereza pineschi

[primeira classe, jp turismo, jornal pequeno, hoje]

Cantora carioca niteroiense pesquisa e grava lundus, maxixes e polcas – os pais do samba – em agradável e gracioso disco de alto valor histórico.

por Zema Ribeiro*

Nascida em 1944, a carioca niteroiense Tereza Pineschi, bióloga de formação e profissional do canto há vinte anos, estréia graciosamente em disco com “O teu grammophone é bão[Por do Som/Atração, 2005, R$ 20,00], que leva como subtítulo “A música brasileira entre 1830 e 1910”.

As catorze faixas remontam os primórdios do samba; estão lá os pais do brasileiríssimo gênero: lundu, maxixe e polca, num minucioso trabalho de pesquisa que registra, agora, pérolas inéditas.

O encarte traz as grafias originais da época – vide o “grammophone” do título, entre outras – e respeita as partituras, executadas com maestria por Carlos Almada (flauta e arranjos), Queque Medeiros (bandolim), Jorge Mathias (contrabaixo) Rodrigo Paciello (violão) e a voz de Tereza Pineschi, que concebeu o disco a partir do livro “Feitiço Decente”, de Carlos Sandroni.

O didatismo está presente, mas sem chatices: notas sobre as origens dos gêneros que compõem o disco, imagens de um Rio de Janeiro que já não existe, e pinturas de nomes como Johann Moritz terminam de enfeitar o singelo biscoito.

Há momentos de pura diversão. Bons exemplos são as faixas “Quem é pobre não tem vícios” (“Quem é pobre não tem vícios / deixe-se de namorar / se as moças cantam assim / como pode o pobre amar”, reza a letra) e “Sou batuta…” (Um maxixe bem dançado / o prazer sabe excitar / quem o dança apaixonado / fica logo a palpitar / maxixando bem a geito (sic) co’ uma dama appetitosa (sic) / eu a junto contra o peito / e minh’alma inteira goza…”).

* correspondente para o Maranhão do site Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com