A diversidade de Moska

Beleza e medo. Capa. Reprodução

 

Liminha foi um dos artífices da sonoridade do que se convencionou chamar de brock ou rock brazuca: produziu discos importantes daquela cena nos anos 1980, além de trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não à toa os primeiros ídolos de Moska.

Não à toa, Moska também foi personagem importante daquela cena roqueira no Brasil: em meados da década de 1980 fez sucesso no rádio e tevê à frente da banda Inimigos do Rei, com seus hits Adelaide (You be illin) (I.Simmons/ R.White/ I.Mizell) e Uma barata chamada Kafka (Luiz Guilherme/ Marcelo Marques/ Paulinho Moska).

Sucessor de Loucura total, que Moska dividiu com o argentino Fito Paez, em 2015, Beleza e medo [Deck, 2018] marca o encontro de Moska e Liminha, em disco que diz muito sobre a dupla, e cujo título e os tons de cinza e vermelho dizem muito sobre o Brasil de hoje – a capa traz Moska mergulhado em local incerto, usando uma espécie de véu cor de sangue. Ele mesmo assina o projeto gráfico do disco.

A sonoridade do disco transita entre o pop do começo da carreira de Moska, a MPB que abraçou – e por quem foi abraçado –, um flerte com o reggae, escancarado em Medo do medo, parceria dele com Zélia Duncan, pontuado pelo contrabaixo do produtor Liminha (que ao longo do disco toca ainda violão 12 cordas, percussão e guitarras), em time que se completa com o próprio Moska (voz, violões e direção artística), Rodrigo Nogueira (guitarras e violão), Rodrigo Tavares (teclados), Adriano Trindade (bateria) e Adal Fonseca (bateria).

A propósito cabe destacar o leque de parceiros de Moska, ao longo das 10 faixas de Beleza e medo: além de Duncan, Carlos Rennó (com quem assina Em você eu vi, Nenhum direito a menos e Megahit) e Zeca Baleiro (Pela milésima vez).

O “que beleza” entoado na abertura de Que beleza, a beleza (Moska) evoca a “imunização racional” de Tim Maia, em faixa que versa sobre o belo, passando por indagações como “a tinta vibra quanto pinta a tela?/ o que Picasso achava de Dali?” e especulações como “ouvi dizer que Darwin passou mal/ sentindo um pouco de irritação/ olhando a cauda de um pavão real/ mudar sua ideia de evolução”.

Megahit é encontro de especialistas no assunto: Moska e Rennó são dois dos maiores hitmakers que o Brasil já conheceu. “Você não sai da minha cabeça/ como canção que toca à beça/ toca em excesso, é um puta sucesso/ um megahit”, começa a letra, que tem tudo para se tornar um.

Outra parceria da dupla, Nenhum direito a menos é incisiva e direta, marca particular da produção mais recente do letrista Rennó. Toca em feridas escancaradas pela invasão de Michel Temer ao Palácio do Planalto, após o golpe perpetrado por seus comparsas que depôs Dilma Rousseff. “Nesse momento de gritante retrocesso/ de um temerário e incompetente mau congresso/ em que poderes ainda mais podres que antes/ põem em liquidação direitos importantes/ eu quero diante desses homens tão obscenos/ poder gritar de coração e peito plenos:/ não quero mais nenhum direito a menos”, mandam direto, com direito a trocadilho cristalino, logo na primeira estrofe.

Minha lágrima salta (Moska), que fecha o disco, é sobre um fim de relacionamento. Tomara que em pouco tempo não se configurem politicamente proféticos os versos “porque um vazio foi se construindo em nós/ ficou distante pra escutar alguma voz/ e fomos desaparecendo sem ninguém desconfiar”.

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Ouça Beleza e medo:

Um compositor de grandes canções

Retrato: Mayra Lins. Selo Sesc. Divulgação

 

Em 1985, interpretada por Tetê Espíndola no Festival dos Festivais da Rede Globo, Escrito nas estrelas, parceria de Carlos Rennó com Arnaldo Black, tornou-se para sempre um hit radiofônico, graças à vitória naquele certame. Muita gente até hoje assovia a música, que abre com os versos “você pra mim foi o sol/ de uma noite sem fim”, imortalizados pelos agudos da cantora sulmatogrossense, quase sempre sem saber quem são seus autores.

Nascido em São José dos Campos/SP em 29 de janeiro de 1956, Carlos Rennó é compositor, escritor e jornalista, tendo trabalhado na década de 1980 no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Em 1996 organizou Todas as letras: Gilberto Gil [Companhia das Letras]. Em 2000 assinou a produção artística do disco Cole Porter, George Gershwin: canções e versões [Geleia Geral], com composições do norte-americanos vertidas ao português e interpretadas por nomes como Caetano Veloso, Cássia Eller, Chico Buarque, Elza Soares, Rita Lee e Tom Zé, entre outros.

Carlos Rennó conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. O telefonema aconteceu em agosto, após a entrevista ser adiada algumas vezes diante da agenda apertada do artista, às voltas com novos projetos. O mote: suas canções de letras quilométricas que têm lançado um olhar poético e político sobre diversos temas da realidade brasileira.

Modestamente, digo sem medo de errar: Carlos Rennó é o autor das maiores canções brasileiras do século 21. E não me refiro apenas à extensão de suas letras. Ao blogue ele falou sobre esta faceta mais recente de sua obra, parcerias, política, além de disco e livro que pretende lançar ainda este ano.

Você ficou bastante conhecido graças ao sucesso de Escrito nas estrelas, parceria com Arnaldo Black, gravada pela Tetê Espíndola em 1985, vencedora do Festival dos Festivais da Rede Globo. Outra faceta que merece destaque no campo musical de tua carreira, que a gente sabe que tem outras vertentes, jornalista, escritor, é o trabalho como versionista, sobretudo do cancioneiro americano. Como é que tem sido nos últimos tempos se dedicar a mergulhos de maior fôlego como letrista?
Tem sido a tônica do meu trabalho. Nos últimos anos é um aspecto a se destacar em meu trabalho, a criação de determinadas canções de temática política, escorada em letras longas, algumas bastante longas, como foram os casos de Reis do agronegócio, com Chico César, e também com Chico César, Demarcação já!, que foi gravada por 23 cantores, defendendo a causa indígena principal, que é a de demarcação de terras, e este ano, Manifestação, uma letra também de mais de 100 versos, a exemplo de Demarcação já!, que foi musicada por três parceiros, o Russo Passapusso, do BaianaSystem, o Rincon Sapiência, que fez a parte do meio, que é de rap, ele fez a divisão ali, e o Xuxa Levy, que fez a melodia do refrão e foi o produtor da música, que teve a gravação de 30 vozes. Mais recentemente, saiu o quê?, há duas semanas, Nenhum direito a menos, com o Paulinho Moska, que é uma canção mais curta.

Mais curta, mas ainda assim longa [risos].
É. Considerando a extensão média das canções é notoriamente mais longa. Isso tem marcado meu trabalho nos últimos anos. Antes de Reis do agronegócio teve Quede água, com Lenine.

Eu estava lembrando, além dessas que você falou, de Todas elas juntas num só ser, que não é essencialmente política, mas que a letra também é longa.
É, já é de 2005.

Um aspecto que eu ia destacar nessas tuas composições, é que elas estão entre as maiores, tanto em qualidade quanto em duração, em termos de tempo, fugindo do padrão radiofônico, e de versos, não é uma coisa de uma introdução longa ou um improviso de um músico pelo meio, quer dizer, o tempo que elas têm, as que têm seis minutos, as que têm 10 minutos, elas são o tempo todo cantadas. Então: letras longas, como você já frisou. Isso as coloca, em minha opinião, entre as maiores canções já escritas no século 21 no Brasil.
Em extensão, você quer dizer.

Em extensão e em qualidade, eu arrisco dizer.
Puxa, eu agradeço seu elogio [risos]. Em termos de extensão de versos não há dúvida, não há dúvida. Reis do agronegócio tem 96 versos, Demarcação já! tem 114, Manifestação, 117.

Como foi chegar nesse padrão? Se bem que não dá para falar em padrão por que cada música tem uma história, mesmo elas transitando nessa seara mais política, mas como é que foi pensar nesse formato mais longo?
Eu tinha uma tendência a fazer letras longas, por influência de alguns compositores importantes na minha formação, compositores letristas, como Cole Porter, como Bob Dylan, e mesmo Caetano, Chico Buarque, que têm algumas letras compridas. E aí aconteceu o seguinte: até um período, até metade da minha carreira desenvolvida até hoje, eu mais escrevia letras sobre música pré-existente do que o contrário. E aí eu passei a fazer, a partir de um determinado momento, mais letras sem música, para serem musicadas. E aí nesse processo, influi mais no meu trabalho de compositor a formação literária. A formação e a informação literária, de poesia. E aí eu tendo a fazer letras mais longas, por causa da influência de alguns poetas e de alguns poetas de música, entre os quais eu citei alguns, que tendem a fazer letras longas, ou poemas longos, e versos metrificados. Então minhas letras tendem a ter, quando feitas antes de uma melodia pré-existente, elas tendem a ter um formato fixo de estrofes e de versos metrificados. É o caso de Nenhum direito a menos, por exemplo, são seis sextilhas, não seguindo rigorosamente a regra da sextilha, por que tem rimas emparelhadas, o final do primeiro [verso rimando] com o final do segundo, o final do terceiro com o final do quarto e o final do quinto com o final do sexto. E aí além das seis sextilhas, um verso que é o refrão, então são cinco estrofes de seis versos mais o refrão. No caso de Manifestação também tem uma fórmula rigorosa que eu estabeleci antes de escrever a letra, ou no começo de quando eu estava escrevendo. Tem três partes: a primeira parte, 10 redondilhas maiores, versos de sete sílabas, que é a parte cantada, a melodia, aí vêm duas estrofes de oito versos, são decassilábicas, às vezes dodecassílabos, que é a parte do rap, e aí o refrão, um refrão curto de três versos mais curtos.

Rennó, quando eu te provoquei a falar, o mote eram essas cinco letras longas, incluindo Todas elas juntas num só ser, que é menos política, e no meio saiu Nenhum direito a menos.
Teve também Ecos do ão, com Lenine, além de outras com Lenine, É fogo, isso é só o começo.

Essas que a gente citou, além das que você citou agora, Todas elas juntas num só ser, Quede água, Reis do agronegócio, Demarcação já!, Manifestação, e agora Nenhum direito a menos, todas elas primeiro letra depois melodia feita pelos parceiros?
Isso.

No caso de Manifestação e, antes, Demarcação já!, a experiência de gravar com um grande número de artistas, como é que é arregimentar esses times? Eu acompanho pelas redes sociais e você acaba se envolvendo muito com a produção das faixas. Como é essa experiência?
Eu realmente acabo sendo produtor artístico. Para alguns isso é muito difícil de fazer, não têm paciência para isso. É um trabalho que realmente requer paciência, não só paciência. Eu faço com certa naturalidade. Trata-se de projetos meus, projetos que saíram da minha cabeça, e eu sei que se eu não fizer esse trabalho de convidar um a um os artistas e ficar em contato, com produtor, ir a shows, eventualmente tenho que fazer isso, ir a shows de artistas para falar com eles pessoalmente, o que não é um problema, por que se são artistas que eu quero para um projeto meu são artistas cujo trabalho eu aprecio, então é um prazer ver o show. Mas às vezes isso é por trabalho mesmo. Então é um trabalho trabalhoso esse da produção artística, mas que eu faço por que se vincula a projetos que eu concebi.

No caso de Manifestação, o que veio antes, a letra dela ou a decisão de ela servir às comemorações de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Anistia Internacional?
Ah, não, veio antes a letra. O que aconteceu foi o seguinte: um ano antes eu tinha feito Demarcação já!, na verdade um ano e meio antes eu tinha composto Demarcação já! e vieram umas pessoas, uns ativistas do Greenpeace aqui em casa, para conhecer uma canção minha com [o guitarrista paraense] Felipe Cordeiro sobre hidrelétricas da Amazônia, canção essa que vai sair agora num cd que eu vou lançar com canções minhas em setembro, pelo Selo Sesc, e eles acabaram conhecendo uma gravação demo que eu tinha de Demarcação já! A canção ia ao encontro de uma campanha que o Greenpeace tinha pela demarcação de terras indígenas. Por isso acabou servindo a essa campanha e o Greenpeace se tornou um grande parceiro na produção da música, do vídeo, que ficou maravilhoso, aqueles artistas incríveis. No caso de Manifestação foi a mesma coisa: eu estou escrevendo Demarcação já!, eu comecei a trabalhar em Manifestação. Inicialmente me dediquei quatro meses exclusivamente à feitura da letra e quando eu tinha a coisa em mente e à medida em que fui fazendo a letra, o que eu tinha em mente, dentro do tema, de assunto, de causa, se confirmou. E aí eu vi que aquilo combinava com a campanha da Anistia Internacional por direitos humanos da mesma forma que a letra de Demarcação já! combinava com a campanha do Greenpeace pela demarcação de terras indígenas. Aí eu já conhecia uma ativista da Anistia, a Jandira Queiroz, que eu conheci na casa de uma amiga comum, a cantora Luciana Oliveira, e apresentei pra ela a ideia e ela achou ótima. Eu já tinha inclusive falado um trechinho pra ela da letra, e aí o pessoal da Anistia curtiu e foi ótimo, deu certo. Mas sempre assim: a canção pré-existiu em relação ao projeto, à parceria, à utilização da música para campanhas dessas duas organizações.

A gente vê nessas obras todas que são o mote principal dessa entrevista uma preocupação profunda e constante com a necessidade de uma tomada de posição. Você toca em temas muito sensíveis da realidade brasileira: demarcação de terras indígenas, o esgotamento dos recursos hídricos, são várias pautas pelas quais você passeia nessas canções de fôlego maior. Como você enxerga o papel do artista diante de tantos desmandos? O Brasil vive um momento terrível de sua história, você tem se posicionado. Você acha que o artista tem essa obrigação ou deveria ter? Como você avalia isso?
Eu não acho que o artista tenha obrigação de expressar em seu trabalho uma preocupação, uma visão, uma sensibilidade em relação a esses aspectos da realidade brasileira. Não tem a obrigação disso. Mas ele pode ter, não é? [risos]. No meu caso, sim, existe essa preocupação em comentar poeticamente na arte que eu pratico, a arte da canção popular, que eu considero importante, o que está acontecendo no plano social, político, no Brasil e no mundo.

Entre as participações de Demarcação já! está a Sônia Guajajara, que hoje é pré-candidata a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo Guilherme Boulos. Como você está sentindo esse momento de Brasil, desde que Dilma foi tirada do poder, Temer assumiu e Lula foi preso? Vem uma eleição com uma ameaça real de um candidato reacionário, de extrema-direita. A eventual eleição de Bolsonaro seria o Brasil ter uma nova ditadura, agora pela via do voto.
O Brasil vive um grande retrocesso no plano da mentalidade social e no plano político, econômico. É algo para tirar o que chamam de esperanças, a curto e a médio prazo. É uma onda de direita que vem tomando conta não só do Brasil e isso é muito ruim para o que já foi conquistado e vem se perdendo. A melhor coisa nesse quadro eu acho justamente a candidatura da Sônia Guajajara, pelo que significa, pelo que ela simboliza. Uma candidata indígena e só mesmo talvez uma candidata indígena para ter a consciência ao mesmo tempo social e ambiental que necessariamente um político tem que ter hoje no mundo, não só no Brasil. Particularmente no Brasil por que nós temos aqui caminhando juntas uma desigualdade social abissal e uma devastação avassaladora, coisas a que a nossa sociedade assiste dormindo. Particularmente a devastação ambiental. Não há uma consciência aguda disso e lamentavelmente não há uma consciência disso, nem na esquerda, haja vista governos que tivemos, do PT, de Lula e Dilma, que, se por um lado fizeram totalmente o que um governo tinha que fazer desde o começo da história do Brasil independente, ou seja, olharam e fizeram pelas classes desfavorecidas o que nunca ninguém havia feito, por outro lado, do ponto de vista ambiental, eles foram governos que agiram igualzinho aos governos de direita. Por que, justamente, a sensibilidade ambiental prevalente no PT é uma visão de desenvolvimento idêntica à da direita. Entende? Que não leva em conta o fato de que a natureza se meta, a coisa do crescimento, que é algo tipicamente capitalista. O capitalismo quer sempre indefinida e infinitamente crescer e crescer e crescer. Isso não é mais possível. Tem que se pensar em salvar o planeta, a civilização, a maior parte da humanidade, incluindo os excluídos. Por que se forem incluir os excluídos, como sugere a letra de Manifestação, aí só resta uma coisa: acabar a desigualdade. Pra salvar o mundo é preciso acabar com a desigualdade. De um lado a riqueza, o acúmulo e o desperdício de riqueza pelas classes dominantes no Brasil e no mundo são absurdos. E a gente sabe há muito tempo que o que eles acumulam e desperdiçam daria muito bem para não só para matar a fome dos famintos, mas para dar educação para todos. A conjugação de social e ambiental nunca foi tão premente. Na verdade já é há 20 anos, mas a sociedade assiste à devastação dormindo, como eu disse. Incluindo a esquerda, boa parte da esquerda. Então, nesse quadro, a chegada de uma política como a Sônia Guajajara, que para mim não é vice-presidente, ela é copresidente, junto com o Boulos, essa chegada, pra mim, é pra ser celebrada, por que ela representa uma política de fato feminina, que é a única coisa capaz de salvar nosso futuro de uma característica prevalentemente catastrófica. Uma política feminina, ou seja, que leve em conta [enfático:] a mulher que é a mãe natureza. Mãe natureza por que é mulher. A política desenvolvimentista destrutivista da natureza é uma política machista. E é a que prevalece na esquerda [risos]. Lamentavelmente.

Portanto é tua chapa?
É, é a minha chapa. É em quem eu vou votar no primeiro turno.

Eu queria destacar outro aspecto da Sônia Guajajara. Além de tudo que você enumerou, é maranhense. Qual a tua relação com o Maranhão? O que você conhece daqui, gosta?
Eu fui aí apenas uma vez. Não faz muito tempo, gostei muito. Fiquei assim de voltar, conheci as pessoas que me levaram, muito legais, amigas. Gostei de São Luís, fui a Pinheiro, curti também. Eu gostei muito do que vi e senti aí. Maranhão, da minha amiga Sônia Guajajara [risos].

Poesia – Canções de Carlos Rennó. Capa. Reprodução

Para fechar: essa entrevista demorou um pouco a acontecer, você estava sempre com a agenda lotada, me pedia uma semana, outra. Mas finalmente aconteceu. Essa agenda lotada indica que você está aprontando coisa. O que vem aí de Carlos Rennó, em 2018, 2019?
[Risos] Pois é, eu estou muito ocupado mesmo com a realização de alguns projetos importantes. Um reúne um disco pelo Selo Sesc [Poesia – Canções de Carlos Rennó, R$ 20], comemorando 40 anos da primeira gravação de uma canção minha [Pássaro no cerrado, de 1978]. Vai sair pelo Selo Sesc com vários parceiros, são 16 faixas e parcerias que vão de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola a Lenine, Chico César, Moska, Gilberto Gil, João Bosco, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Moreno Veloso. É um disco que vai sair junto com um livro, pela Perspectiva, com letras minhas, com boa parte da minha produção de letras. Esse livro, por sua vez, vai trazer embutido um álbum digital, com mais cerca de 16 canções, com vários parceiros. Eu estou às voltas com a finalização disso, desse disco e desse livro, com a preparação do show, hoje mesmo nesse momento, desligando o telefone aqui, eu vou estar às voltas com a necessidade de resolver problemas urgentes sobre esse show, a definição do elenco, vai ter uns oito artistas nesse show, então eu estou às voltas com esses trabalhos todos nesse momento [nota tardia do blogue: os shows aconteceram dias 26 – com Moreno Veloso, Chico César, Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola – e 27 de setembro – com Marcelo Jeneci, José Miguel Wisnik, Moreno Veloso, Tetê Espíndola, Ellen Oléria e Rubi – no Sesc Bom Retiro, em São Paulo].

Ouça Poesia – Canções de Carlos Rennó:

Uma homenagem comovente. E cheirosa

Viola perfumosa. Capa. Reprodução

 

“Café quentinho em cima do fogão/ chuva miúda caindo peneirando,/ peneirando molhando o chão// Ai, como é gostoso a gente escutá/ a chuva caindo e o café quentinho com bolinho de fubá”. A letra de Bolinho de fubá (Edvina de Andrade) dá a pista do que é Viola Perfumosa [Circus Produções, 2018, R$ 30], nome do disco e do trio formado por Ceumar (voz, violão e tambor), Lui Coimbra (voz, violoncelo, violão, rabeca e charango) e Paulo Freire (voz e viola caipira) para homenagear Ignez Magdalena Aranha de Lima (1925-2015), a Inezita Barroso.

Mais que uma homenagem a Inezita Barroso, o disco é um tributo ao Brasil profundo, à diversidade musical brasileira – engana-se quem pensa se tratar de um disco de música sertaneja ou música caipira, pura e simplesmente: é uma viagem pela diversidade rítmica do país, entre toada, moda, guarânia, calango, coco e causos deliciosamente contados por Paulo Freire. Ao longo das 11 faixas não se repete o nome de qualquer compositor, dando ideia do amplo leque da cantora, violeira, atriz, folclorista e apresentadora de televisão.

Viola perfumosa é também um passeio por uma espécie de árvore genealógica da música popular brasileira, das raízes de Inezita Barroso aos galhos e folhas de seus descendentes artísticos, uma viagem pela obra de nomes que a reverenciaram ao longo dos tempos: Vicente Celestino, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Diana Pequeno, Gal Costa e Tavinho Moura, entre muitos outros.

A seleção de repertório tem um quê de afetivo: com relevantes serviços prestados à música brasileira, Ceumar, Lui Coimbra e Paulo Freire não têm a pretensão de esgotar o vasto repertório de Inezita, tampouco de apresentar algo como uma coletânea de maiores sucessos. Estão lá, entre outras, Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco), Índia (Manuel Ortiz Guerreiro e José Assunción Flores, versão de José Fortuna), Coco do Mané (Luiz Vieira) e as hilariantes Moda da pinga (Ochelsis Laureano) e Horóscopo (Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado).

Arranjos delicados valorizam as letras, com o núcleo formado pelos instrumentos do próprio trio, com adesões de Pedro Aune (contrabaixo em Luar do sertão e Índia), Marcos Suzano (pandeiro em Moda da pinga, Oi calango ê e Coco do Mané e percussão em Bolinho de fubá).

Menina Ignêz (Renata Grecco) é declamada por Paulo Freire sobre a melodia de Chitãozinho e Xororó (Athos Campos e Serrinha): um comovente retrato da artista ousada que desafiou a família e o machismo vigente para se tornar uma das principais tradutoras de um Brasil que o Brasil teima em não conhecer, missão que, de algum modo, o trio Viola Perfumosa toma para si.

Troque uma onça e um mico leão por um ingresso

Eduardo Dussek. Foto Academia de Ideias. Divulgação

 

Mês passado a roteirista potiguar Milena Azevedo esteve em São Luís, ministrando uma oficina de roteiros para histórias em quadrinhos. O grande trunfo das 20 horas em que passamos juntos, no Condomínio Fecomércio, foi ela ter ido além dos quadrinhos, se valendo de exemplo de outras expressões artísticas para transmitir o conteúdo a que se propôs.

Logo no primeiro encontro ela botou a turma para ouvir Brega-Chique (O vento levou Black), parceria de Dussek com Luiz Carlos Góes. Se hoje a letra do hit-título de seu disco de 1984, popularmente conhecido como Doméstica, poderia facilmente ser rotulada de “politicamente incorreta”, serviu bem à professora para ilustrar os exemplo de reviravoltas e clímax necessários para o assunto naquele momento.

Eduardo Dussek se apresenta hoje em São Luís, na sétima edição do projeto Ponta do Bonfim: amizade, música e por do sol. Um grupo de amigos se reúne, desde 2011, para trazer artistas que eles mesmos gostariam de ver no palco, mas que por uma série de razões, nunca (ou quase nunca) sobem aos palcos da ilha. Vendem ingressos limitados e fazem a história acontecer em uma casa no bairro que dá nome ao projeto, onde o fundo de palco é São Luís vista de outro ângulo. A quem nunca foi, é realmente uma maravilha.

Por lá, em anos anteriores, já vi shows de Bruno Batista, Ceumar, Danilo CaymmiRenato Braz e, entre outros, Cida Moreira, cantora e pianista que, destaco aqui pelo que tem em comum com o destaque de hoje: ambos, além de cantar, atuam também no teatro. São atores. O que torna a música que fazem sui generis, com toda essa expressividade traduzida nas interpretações – no que voltamos à Brega-Chique com que abro este texto. A propósito: dele, ela gravou Singapura, em Abolerado blues, seu disco de 1983.

Dussek também é bastante lembrado por Nostradamus, com que participou de festival da TV Globo em 1980, e o Rock da Cachorra, composição de Léo Jaime com que acabou flertando com a cena do chamado rock brazuca, na mesma década.

O artista, outro arquiteto da música (nem tão) popular brasileira – estudou arquitetura, além de música e teatro –, é único em sua mescla de bom humor e erudição, termos que bem poderia usar entre os parênteses onde convencionalmente se lê “letra e música”.

Sua apresentação hoje na Ponta do Bonfim será antecedida pelo dj Jorge Choairy, que, a julgar pela relação que sempre promove entre seu set list e o show ao vivo no palco, deve caprichar no escracho – não nego a curiosidade. Na sequência é a vez do show Caros Amigos, que marca o encontro de Marconi Rezende, Tutuca, Gabriela Flor e Chico Neis, que passeiam por um repertório de clássicos da MPB e da música popular produzida no Maranhão, incluindo temas autorais.

A programação da Ponta do Bonfim começa às 15h30 e os últimos ingressos disponíveis (R$ 70,00) podem ser adquiridos pelos telefones (98) 3235-5844, 99166-8736, 99117-0970.

Samba de Nosly

Sambas. Capa. Reprodução

 

As referências aludidas pelo pianista mineiro Kiko Continentino em texto no encarte de Sambas [2018], novo disco do maranhense Nosly, são todas cabidas. O aguardado sucessor de Parador [2011] se aproxima bastante da bossa nova – é lançado no ano em que a revolução musical de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e os Joões Gilberto e Donato completa 60 anos –, e consequentemente do jazz, tanto do ponto de vista temático quanto da arregimentação.

Autor de todo o repertório, em parcerias com Gerude, Carlos Berg, Nonato Buzar, Zeca Baleiro, João Nogueira e Luís Lobo, Nosly (violões e voz) é acompanhado por Kiko Continentino (piano), Rogério dy Castro (baixo), Victor Bertrami (bateria) e Wendel Silva (percussão), por 10 faixas que versam, como a maioria dos clássicos bossa-novistas, sobre praias, o amor e a própria música.

Ao refinado time de instrumentistas somam-se as participações especiais de Carlos Malta (sax soprano em Samba em sete, parceria com Luís Lobo), Marcelo Martins (flautas em Pedras do mar, que fecha o disco) e Jorge Continentino (saxes, clarinetes e flautas em Pagar pra ver, parceria com Gerude e Carlos Berg).

Quase todo o repertório é inédito, as exceções são Coração na voz (parceria com Gerude e Nonato Buzar) e Japi (com Zeca Baleiro). O João protagonista de Ladeira (parceria com João Nogueira) evoca o Pedro Pedreiro buarqueano.

Nosly reverencia igualmente a Copacabana, paisagem-musa de bossa-novistas (em É bom viver, parceria com Gerude), e a Ponta d’Areia já louvada por tantos conterrâneos (em Segura o banzeiro, também parceria com Gerude, parceiro mais constante, que assina metade das faixas do disco).

O álbum é embalado pelo belo projeto gráfico de Andrea Pedro, que já assinou trabalhos dos parceiros Zeca Baleiro e Chico Saldanha. Nele, ganha destaque o colorido musical das telas de Betto Pereira, cantor, compositor e artista plástico maranhense radicado no Rio de Janeiro, onde Sambas foi gravado (no Castelo Studio, em Niterói).

Sambas reafirma o lugar de Nosly na música brasileira: um sofisticado compositor popular que merece a atenção de mais ouvidos.

As mil almas de Tatá Aeroplano

Tatá Aeroplano lançou seu primeiro disco em 2004, Onda híbrida ressonante, como frontman do grupo Cérebro Eletrônico. O artista voa pelo chão: é um legítimo flaneur paulistano, que curte a cidade a seu modo, tendo estabelecido com a capital paulista uma relação bastante particular – e inspiradora.

De lá para cá vieram outros três discos com o Cérebro Eletrônico (Pareço moderno, de 2008, Deus e o diabo no liquidificador, de 2010, e Vamos pro quarto, de 2013), dois com o Jumbo Elektro (Freak to meet you, de 2004, e Terrorist!? The last álbum, de 2009), outro grupo de que foi vocalista, na persona de seu alter ego Frito Sampler – personagem que já lançou, por sua vez, dois álbuns solo: Aladins Bakunins [2015] e Cosmic Damião [2016].

Alma de gato. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano acaba de lançar o quarto álbum de sua carreira solo: Alma de gato [2018], sucessor de Step psicodélico [2016], Na loucura & na lucidez [2014] e Tatá Aeroplano [2012]. Ou quinto, se contarmos Vida ventureira [2017], que dividiu com a cantora Bárbara Eugênia.

É isto mesmo: entre bandas, solos, alter ego e duo, são 13 discos (em 14 anos), o que o torna um dos mais profícuos operários da música no Brasil. Isso sem contar suas colaborações em discos de outros artistas, tocando, produzindo, fornecendo composições – para ficarmos num único exemplo, a recente produção de Diamantes na pista [2018], estreia da cantora Malu Maria, parceira dele em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, uma das oito faixas de Alma de gato.

Alma de gato é um disco que, por um lado, demonstra o amadurecimento do artista, percebido a começar pelo maior entrosamento com a banda que o acompanha desde o primeiro disco solo. Por outro, mantém o clima bucólico-psicodélico que já é uma espécie de marca de seu trabalho autoral.

“No fim de 2016 mudei de Santa Cecília para o bairro da Vila Romana […]. Esse novo disco que chega está cheio de vivências e experiências de nova fase na cidade de São Paulo”, pontua o artista no release que ele mesmo escreveu. “Batizei o novo álbum em homenagem ao belo pássaro Alma de Gato, que avisto direto pelas ruas e praças da região, e me inspirou a escrever a canção Mil almas de gatos”, continua. O disco é “mais um lançamento de Aeroplano pelo selo não identificado Voador Discos” e “conta com a distribuição digital da Tratore” – a exemplo de toda sua discografia, está disponível para download gratuito em seu site.

Por ocasião do lançamento de Alma de gato, Tatá Aeroplano conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos, a que se refere diretamente.

Retrato: Luiz Romero

Homem de vícios antigos – Tatá, você é um paulistano, homem da metrópole, mas teus discos têm um frescor pastoril, embora urbano, bucólico. Acho que um bom rótulo para teu trabalho, se ele coubesse em um, seria bucólico-psicodélico. Nele, esse equilíbrio entre coisas aparentemente tão díspares, no entanto, soa bastante natural. Como você enxerga isso?
Tatá Aeroplano – Zema , bucólico-psicodélico, tem tudo a ver com a música que eu tenho feito. Eu passei uma boa parte da infância e da adolescência no bairro do Passa Três, um vilarejo na zona rural que fica perto da cidade de Tuiuti, no interior de São Paulo. Também vivi em São Paulo, depois fui pra Bragança Paulista na adolescência e com 18 anos voltei pra morar em Sampa. Eu passei muito tempo vivendo a metrópole, mergulhado na cidade, nas noites, escutando sons de todos os tempos, assistindo shows de todas as galeras que vêm morar na cidade, artistas, amigos. Porém, sempre vivi em São Paulo como se eu estivesse vivendo no sítio, de uma forma simples, nunca tive carro, sempre gostei de caminhar e com isso estabeleci uma relação interiorana dentro da cidade, caminhando dia e noite. Hoje, quando tenho uns dias mais tranquilos, passo uns dias na natureza, observando pássaros, conectado com uma essência que eu nunca perdi e que me guia até hoje. E quando estou em São Paulo, vivendo agora na Vila Romana, faço altas caminhadas com a Malu [Maria, cantora e parceira], andamos seis quilômetros pra pegar um cine ou simplesmente curtir o movimento da Avenida Paulista.

Alma de gato é nome de um pássaro, mas também pode ser entendido como a essência do felino, libertária, com seu tempo todo particular. São ângulos possíveis de ouvir este teu novo disco?
Sim, total, Zema. Quando eu comecei a observar o pássaro Alma de Gato foi caminhando por Sampa. Eu ainda não tinha reconectado minha essência espiritual com os pássaros e um dia eu fui participar de um ensaio no estúdio do Guilherme Kastrup [percussionista], que fica no Alto da Lapa, e no quintal da casa dele tem uma vegetação linda com várias árvores e pela primeira vez eu prestei atenção numa Alma de Gato que pulava de galho em galho. Mexeu comigo, pois é um pássaro grande, multicolorido, meio pré-histórico e que se mexe nas árvores numa mistura de gato e macaco. Logo depois eu tive um sonho em que a [jornalista e radialista] Patrícia Palumbo me dizia que eu tinha que voltar a observar os pássaros que eu vi na infância, que eles não tinham sumido, pelo contrário, que ainda veria muitas espécies de pássaros que eu não tive a oportunidade de ver na infância. A partir daí, em Sampa, ou em qualquer cidade ou sítio que eu visite, a Alma de Gato sempre esteve presente. Batizar o álbum com esse nome é também brindar a essência felina, libertária, o voo da mente, porque a gente pode ser de tudo um pouco quando a gente mentaliza e observa, até nos movimentos mesmo, a gente passa a ser um pouco felino nas andanças, nos saltos, na vida. De uns tempos pra cá tenho vivido experiências maravilhosas com várias espécies de pássaros, insetos, plantas e árvores. A gente pode se reaproximar dessa natureza que tem tanta coisa pra ensinar e mostrar pra gente, é como receber fragmentos, estilhaços do elo perdido.

Alma de gato é conduzido por parceiros teus de longa estrada e demonstra um amadurecimento em relação aos discos anteriores. Foi mais fácil fazê-lo? Você o considera seu trabalho mais bem acabado?
É o quinto disco que eu gravo no estúdio Minduca com Bruno Buarque [bateria e percussão], Junior Boca [guitarra] e Dustan Gallas [contrabaixo e sintetizadores]. A gente vive uma sintonia, astral e amizade que fica mais bonita a cada disco, entramos em estado de festa quando gravamos. A gente é uma banda e isso me deixa totalmente realizado e sempre quando terminamos um novo álbum, fico já pensando o que faremos no próximo. Nesse disco eu vivi alguns momentos onde tive que buscar energia e concentração para gravar. Cores no quarto é uma música que veio de uma vez, gravei o momento da criação e levei alguns meses para pegá-la novamente. Tive que me isolar por alguns dias para me familiarizar com a canção. Quando fomos gravar o disco, aproveitei o melhor momento para a gente tocá-la. A base que está no álbum é do primeiro take. As músicas desse disco caminharam prum lugar novo, nesse ponto foi um desafio que com o passar do tempo foi ficando cada vez mais gostoso. Eu perdi a referência e o controle por diversas vezes, e isso foi muito bom. Não sei dizer se é o disco mais bem acabado que a gente fez, mas a gente está tão entrosado na vida e no estúdio, que naturalmente isso vai parar nas canções. Alma de gato abriu um caminho novo para os próximos trabalhos. Estou curioso sobre o que vamos fazer daqui pra frente.

Parceiras mais ou menos recentes, como Bárbara Eugenia, com quem você dividiu disco ano passado e turnê europeia este ano, e Malu Maria, de quem produziu o disco de estreia, comparecem à Alma de gato. Essa brodagem que marca a cena paulista me parece fundamental em teu fazer artístico, concorda?
Uma das coisas que me movem são os outros e seus devires. Desde pequeno sou assim. Gosto muito de escutar novos sons e conhecer novos artistas. Vivo de braços abertos pro desconhecido, pro mistério e encontros musicais. Esse disco está repleto de parcerias. Com a Malu Maria eu compus Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols. Com Luiz Romero, que é de Recife e mora em Sampa, rolaram as parcerias Deixa voar e Hoje eu não sou. Com o poeta cearense radicado em Sampa Daniel Perroni Ratto rolou a canção Colorir de carnavais. Com Beto Antunes, que é mineiro de Milho Verde, foi a vez de se inspirar e criar algumas partes juntos de O alienista da Vila Romana. E do João Sobral, que nasceu em Sobral no Ceará, eu gravei a composição de sua autoria Vida inteira. A Bárbara, a Julia Valiengo e a Ciça Góes, que participaram do disco anterior, também estão presentes nesse álbum. Eu gosto muito desse criar coletivo natural, sem pensar muito. Esse disco nasceu de parcerias feitas principalmente à noite, sem combinar, sem pensar muito a respeito, e quando eu me dei conta, o disco estava pronto. Isso tem feito cada vez mais a minha cabeça: deixar o inconsciente consciente nos momentos de inconsciência total.

Teus discos também trazem uma abordagem bastante particular do carnaval, aqui representada por Colorir de carnavais, uma música alegre, alto astral, mas que fala de superação, de curar uma dor de amor com outro amor. É algo autobiográfico?
Essa canção nasceu a partir do poema presente no livro de poemas Vozmecê do Daniel Perroni Ratto, num domingo à tarde, no Condomínio Cultural que fica na Vila Anglo. O Ratto me deu o livro e eu abri direto na página com a letra de Colorir de carnavais. Automaticamente eu comecei a cantar a melodia da música, a Malu Maria, que estava filmando, registrou o momento e na hora soube que ali estava uma canção vibrante. Depois que eu gravei a música, captei a essência da letra, que foi escrita por um amigo de longa data: com o Daniel Ratto eu tive uma banda, chamada Luz de Caroline. Nessa banda ele cantava e eu tocava brinquedos que passavam por um pedal de delay e reverbe. Daí que nascem as grandes parcerias da vida. Agora, falando sobre a letra da música, alguns amigos que passaram por momentos de separação e superação se conectam a história da letra e isso eu chamo de magia e encontro, porque a letra do Daniel me representou totalmente, é uma história universal.

O título Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, de longe o que mais chama a atenção à primeira vista, dialoga diretamente com o verso de Caetano Veloso em Sampa, “os Novos Baianos passeiam na tua garoa”, embora tua música, diretamente, nada tenha a ver com a de Caetano. Ela de algum modo serviu de inspiração?
Com certeza, o Caetano Veloso é uma inspiração eterna, bem como Gilberto Gil, Itamar Assumpção, Chico Buarque, Os Mutantes, Novos Baianos, Tom Zé, João Gilberto, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Alceu Valença, Zé Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Elis [Regina]… só pra ficar nos artistas do fim da década de 1960 e começo dos 1970. Hoje minhas influências também são os amigos contemporâneos que compõem e fazem música, eles me guiam totalmente. Quando eu terminei de compor essa canção com a Malu Maria, me veio o título referência na hora, pensei na canção do Caetano. Achei até um pouco exagerado colocar a palavra “sapateiam” em vez de “passeiam”. Eu quis dar aquela espetada na galera que vive escutando e louvando a vida inteira artistas gringos e passam batido com a nossa música que tem tanta coisa maravilhosa. Um adolescente brazuca conhecer o Sid Vicious sem saber quem são os Novos Baianos, soa surreal, mas foi o que aconteceu numa noite de show no Teatro de Bolso do IV Mundo e inspirou a feitura da música em parceria com a Malu.

Ainda falando em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, há um verso, bonito e sutil, que fala em virar à esquerda. Como se posiciona Tatá Aeroplano nestes tempos sombrios em que o Brasil está mergulhado?
Eu nasci canhoto e dobrei a esquerda. Cada vez mais eu consigo captar o espírito do tempo político de cada época. Através da literatura, história e poesia, quando a gente volta séculos e séculos para trás, se conecta com o estado de espírito político de pessoas que viveram no passado e naturalmente se posicionavam corporal e espiritualmente com as forças da natureza, questionando as brutalidades empenhadas pelas religiões, tradições, coisas que com o passar do tempo carregam uma energia que eu quero passar longe. A realidade que vivemos é que a gente ainda corre o risco de viver preso dentro das religiões, do conceito de família, se você é católico ou evangélico você se torna uma propriedade. Vive-se um tipo de aquietação espiritual, já que te é privada a possibilidade de certas transcendências, pecados, culpas e não se pode tocar em algumas feridas. A gente entrega uma parte do nosso livre arbítrio para outros decidirem. O momento político que vivemos é muito delicado. Sofremos o Golpe [maiúscula dele], domínio das bancadas ruralistas, cristãs, evangélicas a mil por hora e o #EleJamais como uma ameaça real. Mesmo assim sou otimista e acredito que vamos representar nessa eleição. Nasci canhoto, gauche, assim como você, sou um maluco por vícios antigos. Na escola alguns professores tentaram me fazer escrever com a mão direita. Eu chegava em casa e fazia a lição com a mão canhota, no dia seguinte, a professora reclamava e dizia pra eu refazer com a direita, que doideira isso, né? Então, sou mais Zema, [o cantor e compositor Juliano] Gauche, Galírio [o cantor e compositor Gustavo Galo, integrante da Trupe Chá de Boldo], Anelis [Assumpção, cantora e compositora], Karina [Buhr, cantora e compositora], Dustan, Boca, Bruno, Bárbara, Malu, Sobral, Tulipa [Ruiz, cantora e compositora], Ratto, Lenis [Rino, percussionista]… Esse é o nosso estado de espírito, que naturalmente se posiciona frontalmente contra esse estado atual estabelecido através do Golpe contra a Dilma.

A longa O alienista da Vila Romana, que fecha o disco, evoca a balbúrdia de Mutantes, com citações a Macunaíma, Dorival Caymmi e, talvez, Machado de Assis, entre outros, e reúne nada menos que 25 participações especiais, “via rede”. Como foi organizar e conceber isto?
Essa música nasceu de uma noite de bebedeira fumaceira na Casa Gramo, com o Beto Antunes Lanterna, que é muso inspirador e parceiro de alguns trechos da canção. No dia seguinte à bebedeira geral eu fui com a Malu a pé até a feira orgânica no Parque da Água Branca e eu ainda estava meio embriagado do dia seguinte quando os versos todos vieram. Primeiros as cabras e bodes e depois a ideia do Beto Antunes como o Beto Lanterna, uma espécie de Alienista da Vila Romana. Na hora eu saquei que tinha chegado uma música balbúrdia que ia encerrar o disco novo, e assim eu fui fazendo com os amigos da boemia total. A música foi se transformando numa peça teatral e aí fui inserindo áudios que recebi e que achei que podiam entrar e alguns áudios eu pedi especialmente para entrar na música. Enviei [uma mensagem pelo] whatsapp para alguns amigos dizendo “me envia um áudio de cinco, seis segundos falando de um tal de Alienista da Vila Romana”. Faltou o Tom Zé nessa música. Essa peça é uma mistura de devaneio, loucura, cinema marginal de inspiração Sganzérlica, o “MacunaCaymmicamente” veio como um sugestão da Liara [Gattolini, amiga], que foi assistir show junto com o Lucas [Paolillo, amigo] na Sensoria Discos, e o Lucas disse “Tatá, a Larissa está usando direto o termo MacunaCaymmicamente”, e ele entrou na música. Eu fui inserindo áudios até o último dia da mix. Foi como fazer um prato bem doideira mesmo, misturando tudo sem saber como vai ficar o sabor. Ou melhor, são aquelas coisas que a gente faz sem pensar no sabor e sim nas sensações. eu acho que vou escrever uma peça de teatro a partir desse música. Béeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeeee.

Você já se referiu à sua própria produção fonográfica, à feitura de seus discos, comparando o processo à produção de alimentos orgânicos no Brasil, em pequena escala, lutando contra o poderio dos grandes produtores. Por outro lado, disponibiliza gratuitamente cada trabalho quando do lançamento, apesar de ainda acreditar no formato físico do disco. Como você equaciona todas estas questões?
Zema, eu comecei a disponibilizar os álbuns inteiros em mp3 de forma gratuita em 2012, quando lancei meu primeiro trabalho solo. A partir daí, o que aconteceu foi que me conectei com uma galera que gosta de ter o registro em cd. Como eu vendo os discos através do site e eu mesmo que cuido disso, descobri que tem muita gente que ainda gosta de ter o cd, ou o Vinil, que colecionam. Hoje os serviços de streaming dão o norte total, a cada ano mais e mais gente escuta a música nas plataformas youtube, spotify, deezer e afins. Com isso o número de downloads no meu site caiu muito. Mas as vendas de cds, lps, da caixa de Pandora [com todos os discos] e tals, continuam iguais, o que me possibilita lançar os discos ainda nos formatos cd e vinil. Ainda existe um galera massa que cultua vícios antigos. Assim como nós!

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Ouça Alma de gato:

Wado, lírico e político

Precariado. Capa. Reprodução

 

Um dos pilares da identidade musical brasileira, o samba é elemento central em Precariado [2018], disco novo do catarinense radicado alagoano Wado, o 10º. álbum de sua carreira, com 11 faixas inéditas, sucessor de Ivete [2016], disco em que flertava com a axé music. Não que seja um disco de samba, pura e simplesmente, ou que o samba lhe caiba como rótulo.

Mas samba com a pegada moderna e flerte com a eletrônica que pauta há algum tempo a sonoridade de Wado, que junta pontas de fi(li)ações que vão de Dorival Caymmi e Novos Baianos a Radiohead e Michael Jackson, entre outros, no campo da música.

No campo político, a principal referência é Noam Chomsky, filósofo e linguista norte-americano de cuja obra Wado pesca o título do disco: segundo o teórico, “precariado”, soma de precário e proletariado, é aquilo produzido no terceiro mundo com mão de obra barata dos trabalhadores em condições precárias para o consumo nos países desenvolvidos, algo evocado há 20 anos por Tom Zé – outra fi(li)ação do novelo de Wado –, em Com defeito de fabricação [1998].

Wado continua afiado e antenado, suas músicas combinando a dança e a reflexão, lírico e político. “É no raso que as águas se agitam”, diz a letra de Correntes comprimidas, com um violão puxado à bossa. “O esgoto deixou a grama verdinha/ apesar de sua podridão”, ironiza em A grama do esgoto, que abre o disco.

Precariado é disco agregador, que soma participações especiais – Kassin (em A grama do esgoto), Peartree e Tuyo (em Janelas), Baleia (em Bailar dos barcos), Morfina (em Roupa), Momo (em Tudo salta e Correntes comprimidas), Figueroas (em Quem dera) e Teago Oliveira (em Onda permanente) – a músicos que já estão na estrada com Wado há bastante tempo: Vitor Peixoto (guitarra, violão de nylon e voz), Dinho Zampier (teclados e voz), Igor Peixoto (baixo, guitarras, voz, violão e 909) e Rodrigo Sarmento “Peixe” (bateria, percussão e 909).

Com 17 anos de carreira, iniciada com O manifesto da arte periférica [2001], o Precariado de Wado mantém a sofisticação que marca seus trabalhos. O disco está disponível para download no site do artista, como toda sua discografia.

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Ouça Precariado:

Eddie se reinventa: surfrevo da banda segue cheio de gás

Mundo Engano. Capa. Reprodução

 

Como em Morte e vida (2015), seu disco anterior, Mundo engano (2018), disco novo da Eddie, começa com um conselho: “preste atenção”, dado pela voz firme de Fábio Trummer. A correnteza, título da primeira faixa, é metáfora para falar da vida, esse vai e vem de emoções, problemas e superações, em letra que fala ainda em “redemoinhos internos/ a vida e seus invernos”.

Na capa do álbum, de Helder Santos, o olho do céu mirando uma onda-mão a querer catar um barco – nossa miudeza diante da natureza, do universo. Como ao longo do disco, o mar continua tema central em O mar apaga, faixa seguinte, samba surf, flerte em forma de música, fazendo jus ao Original Olinda Style, título do segundo disco da banda (de 2002), que passou a descrever seu som desde então, aqui com reforços do colega de Nação Zumbi Pupillo (produção musical e participação especial na bateria), Carlos Trilha (mixagem e masterização) e Guri Assis Brasil (participação especial ao violão 12 cordas), entre outros.

Oriunda de Olinda, a Eddie, fonograficamente falando, pertence à segunda dentição do MangueBit, tendo estreado com Sonic Mambo, em 1998 – há 20 anos, portanto. Seu som, feito o de pares de movimento, como Nação Zumbi e mundo livre s.a., mistura ritmos pernambucanos como o maracatu, ciranda e frevo a rock, reggae, funk e soul, entre outros, e no caso da Eddie, particularmente, surf music: surf mais frevo, surfrevo.

Essas mesclas ganham destaque, em Mundo engano, em faixas como a funkeada Dobra esquina e a frevada Girando o mundo. Pontuada por violão e slide guitar, O mar lá fora tem clima praiano, de luau: “O mar lá fora e aqui um pacífico oceano pulsa/ Pairando no espaço o tempo nos circunda/ Os pontos cardeais de sol areia e sal/ Ardendo como sempre verões dentro de mim”, diz a letra.

“Riscos escarlates/ marcam a paisagem distante,/ Becos cortam atalhos mostrando/ as vísceras citadinas”, diz a letra de Brooklin (Fábio Trummer e Jorge Du Peixe), homenagem ao bairro paulistano.

O sétimo disco da carreira da banda de Quando a maré encher (faixa de Original Olinda Style, gravada por Cássia Eller e Nação Zumbi), é, politicamente, o mais leve da banda, que nunca se furtou, ao longo de sua discografia, de tocar em feridas brasileiras, o que fazem, aqui, em Medo da rua.

Vivo tendo fogo é uma espécie de trocadilho, trava-língua em que a Eddie junta referências musicais como o forró e o raggamuffin, “uma homenagem que vai de Pato Banton ao Genival Lacerda”, conforme o material de divulgação do disco – disponível para download no site da banda (como toda a discografia da Eddie).

Para Iemanjá é um poema de Marcelino Freire musicado por Fábio Trummer (compositor solitário de todas as faixas, exceto onde indicado): um samba a la Eddie, com a adesão do violão sete cordas de Everson Pessoa, em que a banda volta à questão ambiental, tema de Desequilíbrio (faixa de Carnaval no inferno, de 2008): “Não fui eu quem jogou ao mar/ essas garrafas de Coca./ Essas flores de bosta./ Não mijei na tua praia”, diz a letra. E continua: “Oferenda não é essa maré de merda./ Esse tempo doente. Deriva e degelo./ Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão./ Se a minha esperança é um grão de sal./ Espuma de sabão. Nenhuma terra a vista./ Neste oceano de medo” – o disco foi lançado em fevereiro passado.

A banda Eddie em foto de Beto Figueiroa

Faixa menos animada, mas não menos inspirada, De pouco em pouco fecha com pura poesia este novo álbum, sobre a dor da perda de uma pessoa querida. Fábio Trummer (guitarras e voz), Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (trompetes, teclados e samplers), Rob Meira (contrabaixo) e Kiko Meira (bateria) conseguem se reinventar – são 20 anos de carreira contados do primeiro disco, mas uma banda existe antes de gravar, conta que fecha em quase 30 anos de atividade. Noves fora, o surfrevo da Eddie continua cheio de gás.

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Ouça Mundo engano:

O tempo de Elomar

Elomar e João Omar durante o concerto “Muntano o Mondengo”, sexta-feira (24), no Teatro Arthur Azevedo. Foto: Zema Ribeiro

 

Além da obra monumental, extensa e singular, que fala por si só, o anacronismo faz de Elomar uma figura ímpar.

Diversas vezes durante o concerto Muntano o Mondengo, apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta-feira passada (24), o artista declarou sua inadequação ao tempo em que vivemos, como se tivesse “descido na estação errada”, para usar suas próprias palavras.

Aos 80 anos, Elomar está em plena forma: pensamento afiado, memória idem, para lembrar as quilométricas letras de suas composições, as mãos dando conta de suas elaboradas melodias. “Se eu voltasse no tempo e fosse fazer tudo de novo, eu ia fazer como rock. Três acordes, às vezes um, e tá tudo certo. E a juventude gosta”, declarou, num dos muitos pontos do show em que fez a plateia rir. A sério, relacionou as opções musicais do povo à situação em que o país se encontra.

“Eu já nem devia estar cantando, minha música está fora de moda”, disse, modesto, ao mesmo tempo em que agradecia a presença do público, que compareceu em bom número ao teatro, aproveitando talvez uma das últimas oportunidades de assistir Elomar por estas bandas. Suas apresentações devem ficar cada vez mais restritas à Casa dos Carneiros, fazenda em que mora e onde construiu um espaço para a apresentação de óperas.

O artista não gosta de viajar de avião, o que torna ainda mais difícil grandes deslocamentos. Ao relembrar o trajeto que fez até São Luís e projetar o que faria de volta até Vitória da Conquista, tornou a brincar: “avião de rico vai direto, de pobre vem pingando. A gente saiu de Vitória da Conquista, foi pra Salvador, de lá para Recife, pernoitamos em uma pensão, de lá para cá. Afora que os pousos são sempre difíceis, eu não sei como é que ateu anda de avião”, afirmou, fazendo a plateia cair na gargalhada.

Outra inadequação de Elomar aos tempos modernos é a dependência humana do celular. Como no show que apresentou no mesmo palco em 2014, novamente o cerimonial foi direto ao frisar a proibição de filmar ou fotografar o espetáculo – tomei a liberdade de fazer um único registro, pensando em ilustrar o que viesse a escrever sobre o show. Em ambas as ocasiões, o menestrel de Vitória da Conquista apresentava, no repertório, alguns temas inéditos.

Numa de suas saídas do palco, em que o filho João Omar ficava sozinho, ao violão, executando peças compostas por Elomar, como Calundu e cacoré, voltou demonstrando insatisfação: disse que não tocaria mais nenhuma das peças inéditas previstas no script. E lembrou-se de diversas ocasiões em que shows seus foram parar “no tubo”, fazendo novamente a plateia gargalhar ao aportuguesar o youtube.

João Omar lembrou-se do tempo em que só encontrava partituras ao viajar, e de como tirava músicas de ouvido, escutando discos como Violão Brasil, do violonista maranhense Turíbio Santos, com a participação especial do idem ibidem João Pedro Borges. Acabaria tomando aulas com ambos e a eles dedicou São João Xaxado, outra peça para violão solo de Elomar.

Depois Elomar voltou atrás e apresentou composições inéditas, entre árias e trechos de óperas, demonstrando o engano de quem acredita ser o baiano um daqueles artistas que vive do passado. Entre suas músicas mais conhecidas, apenas Faviela, Corban e Clariô, a que convidou o público a cantar junto, já no bis – “bis é um porre”, declarou após os pedidos de “mais um”.

Arquiteto de formação, Elomar não poupou elogios à beleza do Teatro Arthur Azevedo, além de fazer os devidos agradecimentos aos técnicos – som e luz irretocáveis, “sem uma microfonia, um piado”, declarou – e à produção, realizada por cúmplices capitaneados pelo “cavaleiro” Aidil Filho, “um idealista” que trouxe Elomar pela segunda vez à ilha – foi quem “tomou a iniciativa” (significado da expressão que intitula o concerto de sexta passada) e encabeçou a organização do concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, em 2014.

O time de cúmplices parece disposto a novas empreitadas. Resta saber se pode contar com o aval de Elomar, que certamente sempre terá um público disposto a ouvi-lo.

Uma banda é um mundo inteiro

O saxofonista Ney Platt sola em “Dengoso” (Manoel Alves e Marcelo Jardim). Foto: Zema Ribeiro

 

Quando o maestro Jean Gonçalves comenta o fato de que as rádios só tocam música comercial é que nos damos conta do quão escondidos estão verdadeiros tesouros musicais, oriundos de outras práticas, caso dos repertórios das bandas sinfônicas que ora circulam o país pelo projeto Sesc Sonora Brasil – em São Luís, até amanhã (27), sempre às 17h, no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca.

A Sociedade Musical União Josefense, oriunda do município de São José, na região da grande Florianópolis, em Santa Catarina, completará em novembro próximo 142 anos de atividades – o que volta a nos dar dimensão dessa invisibilidade: se pensarmos na banda mais antiga em atividade no Brasil, por exemplo, certamente nos virá à cabeça um grupo de rock ou samba.

O regente e seus 11 músicos apresentaram um concerto didático, passeando por diversas fases da trajetória das bandas de música no Brasil, formações que dialogam diretamente com as fileiras militares – o exército brasileiro é uma grande escola – e religiosas – qualquer pessoa, sobretudo os de mais idade, lembrará de uma banda tocando em procissões e festejos. Como o próprio Jean Gonçalves lembrou que havia visto duas cortando as ruas de São Luís desde que chegou à ilha, no dia anterior.

Em ordem alfabética, Artur José Fernandes (trombone), Braion Jhonny Zabel (clarinete), Cristiano Canabarro Forte (percussão), Gabriel dos Santos Guimarães (bombardino), Jean Carlos da Silva Rodrigues (trompete), Jean Leiria (percussão), João Geraldo Salvador Filho (tuba), João Paulo Trierwaller (trompete), Ney Platt (saxofone alto), Rui Gilvano da Silva (clarinete) e Vinícius Inácio Nery (flauta e flautim), sob regência de Jean Gonçalves, apresentaram peças como Jubileu, composta por Anacleto de Medeiros em homenagem aos 50 anos do Corpo de Bombeiros fluminense, tendo sido um dos primeiros dobrados registrados em disco no país, no início do século passado.

Fé cristã, de Osmildo Delvan, escancarou as relações destas “formações e repertórios” – tema da segunda parte do biênio 2017/2018 do circuito Sonora Brasil, que ano passado proporcionou a circulação de quatro grupos de coco – com a religiosidade e, consequentemente, sua relação com as comunidades, com procissões percorrendo ruas de localidades diversas, unindo o sacro (a missa, por exemplo) e o profano (os bailes, quermesses).

Royal Cinema é uma peça escrita pelo maestro potiguar Tonheca Dantas por encomenda do proprietário do cinema homônimo, que queria um tema para abrir as sessões. Com Cabaçal, maracatu e baião, João Victor Barroso conquistou o segundo lugar no Prêmio Alberto Nepomuceno de música para formação de bandas, do estado do Ceará. A composição é de 2016, a atestar a renovação de grupos e formações e a necessidade de valorização, já que, ao longo dos anos, muitas bandas têm deixado de existir, devido a dificuldades de manutenção.

Um projeto de circulação guarda também encontros inusitados: foi assim com a participação especial do trombonista Feitosa Jr., que já integrou o grupo quando serviu o exército em Santa Catarina. Ele participou da execução de Pelotão cívico 14 BC, de autoria do maestro Jean Gonçalves.

Com uma plateia formada majoritariamente por músicos, a apresentação ao por do sol transformou-se numa grande roda, reunindo os membros da Sociedade Musical União Josefense e alunos do projeto Sesc Musicar, que vem revelando talentos ao longo dos últimos anos em São Luís, entre outros instrumentistas que prestigiavam a apresentação, na meia lua da pequena ágora. “Vamos tocar Dois corações (Pedro Salgado), que é uma música que todo músico de banda conhece, agradecendo a presença do maestro Rogério Francisco, da Corporação Musical Cemadipe [que se apresenta hoje, 26], que veio nos prestigiar, e já pedindo desculpas por dar um pequeno spoiler de sua apresentação, já que essa música está no repertório deles”, anunciou Jean Gonçalves.

“Dois corações” a unir músicos da plateia aos do palco, encerrando a apresentação. Foto: Zema Ribeiro

João Omar: muitos anos de jornada

“Anda, muntemo o mondengo pra nóis í prá lá” é o verso que fecha Na quadrada das águas perdidas, faixa-título do elepê que Elomar lançou pela Discos Marcus Pereira em 1979.

Muntano o mondengo é o nome do concerto que o compositor apresenta, acompanhado do filho João Omar, amanhã (24), em São Luís, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) – os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00 e estão à venda na bilheteria do teatro.

A expressão que batiza o espetáculo significa “tomando a iniciativa” e traduz a forma como um artista outsider – com o perdão do estrangeirismo que ele próprio condenaria – consegue percorrer o país: depois de passagens por Recife e João Pessoa, Elomar chega à São Luís trazido por um fã.

“Um cavaleiro”, “um idealista”, certamente adjetivaria o próprio Elomar, sobre Aidil Filho, o fã transmutado em produtor ocasional. Elomar costuma dizer não ter fãs, mas cúmplices: é a mais pura verdade.

Outra coisa que o título do concerto expressa é a sintaxe sui generis da obra de Elomar Figueira Melo, 80, arquiteto de formação, baiano de Vitória da Conquista, toda construída sobre o que o próprio chama de “linguagem dialetal sertaneza”, objeto de estudos acadêmicos por nomes de peso como Jerusa Pires Ferreira e Ernani Maurílio, para citarmos apenas dois – autores do rico glossário de elepê Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar, lançado pela Kuarup em 1986.

Além dessa espécie de língua própria, que nem de longe torna sua obra hermética, não para além do desinteresse da grande mídia e consequentemente do grande público, há uma geografia particular, que mescla a que circunda o chão em que nasceu e onde vive, e um mundo habitado por cavaleiros, vaqueiros, tropeiros, princesas, donzelas, retirantes, bois “incantados” e muitas referências bíblicas – sobre o que se destaca o livro Tramas do sagrado: a poética do sertão de Elomar [Vento Leste, 2007], de Simone Guerreiro.

Somando-se tudo isto, temos um artista de mitologia própria, para o qual contribuiu também sua fama de recluso. Elomar não dá mais entrevistas – e são raras as que concedeu ao longo da carreira. Quem conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos foi seu filho João Omar, violonista que o acompanha em mais esta passagem por São Luís – a última já conta quatro anos.

Ao longo da entrevista, João Omar sempre se refere a Elomar como “meu pai” ou “o bode”, apelido que ganhou dos animais que cria na fazenda Casa dos Carneiros, paisagem de sua Cantiga de amigo (1973), e que inspiraram o cartunista Henfil (1944-1988) a criar o Bode Francisco Orellana.

João Omar, vocês passam por São Luís trazidos por uma produção não profissional, um fã idealista. Isso traduz a afirmação de Elomar de que não tem fãs, mas cúmplices. Este tipo de iniciativa é uma alternativa para artistas que não estão na programação de rádios e tevês?
Estamos nessa jornada de tropeiros, vamos dizer assim, tropeiros da música. Essa produção de fã, o Aidil, que se propôs a fazer isso, é algo que, de uma certa forma, revive tempos passados, no qual não havia produtores, na realidade havia esses amigos que articulavam apresentações. Um detalhe para o qual eu sempre costumo chamar a atenção, daquela época, é o seguinte: antes havia mais encontros, inclusive, os artistas iam para a casa dos amigos, se encontravam mais uns com os outros e chegavam a produzir coisas interessantes, encontros que mudavam até mesmo o rumo de suas carreiras, ou que influenciavam. Um encontro destes, por exemplo, foi o do meu pai com o Henfil. Depois desse encontro, foi tão impactante para o Henfil, que ele criou o personagem do bode que comia livros etc. Então é isso, é uma produção de fã, de malungo, a gente fez em Recife, em João Pessoa, mas não obstante a isso meu pai tem uma produtora que acompanha ele e também presta esse agenciamento, a Rossane Nascimento.

Qual será a base do repertório em São Luís?
O repertório é de algumas das canções antigas dele, que eu até me impressionei de meu pai retomar, para estudar o violão, por que não é fácil recordar músicas que tocou há muito tempo, como Cavaleiro do São Joaquim, que é do primeiro disco dele [Das barrancas do Rio Gavião, de 1973]. Tem trechos de óperas, como a ópera A carta, a Faviela, que já é uma canção conhecida, mas que faz parte de um quadro de ópera. Eu executo também alguns solos de violão do disco que eu gravei, Ao Sertano [2015], e a gente faz esse passeio, procura evocar essas tropas, essas cantigas de tropeiro nessa apresentação, mas não fica só nesse território. E meu pai, que gosta muito de contar histórias, ele vai falar bastante sobre o que ele tem feito.

O nome do espetáculo, verso de Na quadrada das águas perdidas, significa tomemos a iniciativa, outra tradução de um fazer artístico ímpar. A seu ver, o que é mais interessante e único na obra de Elomar, tão diversa em formatos e temáticas?
Na realidade o que eu acho interessante é meu pai conseguir viver, conviver com o povo do lugar, com vaqueiros, tropeiros, trabalhadores rurais, e conseguir absorver a cultura deles, o linguajar deles, as crenças, toda essa coisa, e transformar em um trabalho autêntico, por que na realidade o trabalho dele é singular, não tem assim alguém parecido aqui no Brasil. Existem sim pessoas que se influenciaram por ele, mas é um trabalho muito único, muito próprio dele, no qual ele também se inspirou nos trovadores medievais, para fazer as cantigas, sofre sim essa influência. Mas ele também bebeu na seresta, nos ritmos nordestinos, no xaxado, no martelo, então o trabalho dele tem essa singularidade de poder conviver e extrair dali e fazer um trabalho único, que não é necessariamente cópia de músicas tradicionais, da música tradicional do sertão.

Sua entrada no meio musical era inevitável sendo filho de Elomar? Você chegou a aprender outros ofícios?
Eu comecei desde cedo a estudar música, estudei junto com meus irmãos, minha irmã e meu irmão, mas eu que segui no estudo com mais dedicação. Eu chegava a ir para a fazenda estudar oito horas de violão e meu pai percebendo isso, na realidade ele não me deu aulas de violão, eu que ficava olhando ele tocar e tentava copiar. Ele pelo menos ensinou onde era o dó no violão e nós saímos lendo métodos de violão. Mas ele me pôs nos palcos, quer dizer, nós três, tocando flauta doce, eu com sete anos de idade, meu irmão com oito e minha irmã com nove. Mas só aos 14 anos que eu me apresentei mesmo com um violão, com ele, lá em [Vitória da] Conquista. A partir de lá venho acompanhando ele nessa jornada, que já faz muitos anos [risos]. E sempre essa parceria, de Dom Quixote e Sancho Pança, por esse Brasil afora, tentando levar essa cultura, essa arte, essa música, sei lá, resgatar culturas, resgatar não, guardá-las, guardar tesouros e fazer com que as pessoas se encontrem com esses tesouros de alguma forma.

Das barrancas do Rio Gavião está completando 45 anos em 2018. Alguma deferência especial a seu repertório durante o concerto?
Sim. Ele vai fazer a música Cavaleiro do São Joaquim, que fala praticamente dele. Ele como o menino do São Joaquim, como nascido nessa região, que na realidade é em [Vitória da] Conquista. É um disco maravilhoso, que fez esse lançamento incrível e teve sim uma repercussão muito importante. Vinicius de Moraes escrevendo [o texto de apresentação do disco] atrás, na capa dele, então meu pai está revivendo essa música assim, nesse concerto. Está no repertório.

Você era bastante jovem quando gravou violões em Xangai canta [cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de] Elomar, em 1986. Foi tua primeira experiências profissional? Relembra um pouco aquele período e os bastidores desta gravação.
A gravação do disco de Xangai nessa quadra foi um momento mágico pra mim. Primeiro que eu comprei meu primeiro violão com meu dinheiro, meu cachê, na época, que meu pai me deu. Comprei o Shigemitsu Sugiyama, que eu toquei, estou tocando com ele. Um amigo meu, [o violonista] Cao Alves, levou em São Paulo, deu uma reajustada no violão, está ótimo. Naquela quadra, os bastidores da gravação, me lembro que estava lá o Mário de Aratanha, que era da Kuarup, meu pai e Xangai, meu pai tocando pra Xangai cantar, ele escrevendo arranjos, acho que foi uma das primeiras vezes que ele escreveu para instrumentos de corda e sopro. Então ele estava naquela dúvida: “será que eu consigo escrever bem para esses instrumentos?”. Então, ele estava no chuveiro e falou: “é, Deus me ensina a escrever pra esses instrumentos”. Meu pai é muito cristão, a fé dele é muito forte, inclusive tem lá a gravação de A meu Deus um canto novo, já com arranjo de Jacques Morelembaum [violoncelista], já a segunda vez que Jacques estava junto com meu pai, primeiro foi no Auto da Catingueira [1983], e depois lá, nessa gravação. Foi um momento muito especial, músicos excelentes, um ambiente muito agradável. E pra mim é um dos discos mais belos que Xangai já gravou, Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar. É um apanhado de gêneros que meu pai faz e que também de certa forma evoca tropeiros e vaqueiros.

Apesar da aversão de Elomar à internet, você acredita que ela traz novos admiradores, sobretudo de novas gerações, à sua obra? A propósito, como vocês lidam com o fato de o consumo de música hoje se dar majoritariamente por via digital?
Traz novos admiradores, eu mesmo encontrei com uma moça, lá em Belo Horizonte, quando nós fomos tocar, que ela disse que encontrou meu pai no youtube, por que estava em reprodução automática, e ela achou curioso e buscou mais músicas, viu que ele estava se apresentando em Belo Horizonte, no Sesc, então ela foi conferir, foi assistir, gostou muito. É muito curioso ter um público jovem indo a concertos de meu pai. Mas quanto à questão de mídias digitais, acho que meu pai preferiria até o vinil. Ele acha que essa reprodutibilidade assim é uma coisa ruim para o artista, por que afinal de contas ele faz o disco, todo mundo copia, todo mundo solta na internet de forma gratuita. Na realidade querem uma gratuidade que é o pão que o artista ganha.

A cantora Titane lançou recentemente um disco [Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, 2018] inteiramente dedicado ao repertório de Elomar. Em entrevista, ela reconheceu a força que vocês deram a ela durante todo o processo. O que vocês acharam do resultado final?
A Titane fez essa gravação desse disco, foi uma inspiração dela, por que ela participaria na gravação do dvd do Auto da Catingueira. Mas como não foi adiante, ela acabou se envolvendo mais de perto com a obra dele e resultou nisso, na gravação de um disco. Ela é muito segura, ela tem o jeito próprio dela de cantar, uma pessoa muito profissional, muito carinhosa, muito carismática. Ela aproximou do bode, foi na fazenda, acho que a produção de um disco foi muito boa, ainda mais com músicos que trabalharam também nas transcrições das canções dele, como o Hudson Lacerda. Nós gostamos muito do cuidado dela, do interesse dela, e meu pai tem, de certa forma, permitido gravações de músicas dele por muitos grupos diferentes. Para o seu susto, ou para o susto do público, dois rappers no Rio de Janeiro gravaram O violeiro, foi uma autorização que meu pai deu. Ele gostou muito de ver como pessoas de um grupo, de uma cultura diferente, escolherem uma música dele, em dialeto, pra fazer o rap. Foi muito interessante, nesse sentido. A Titane não, ela já é da cantoria, dessa música popular, da música popular mineira, ela é uma representante já tradicional, uma pessoa conhecida da gente de muito tempo. Então, é muito mais tranquilo nesse sentido, de absorver o trabalho de meu pai, de traduzi-lo, e de produzir algo, assim, dentro de uma estética, com todo cuidado que ela merece. E na realidade, a apresentação é muito bonita, a apresentação de lançamento que ela fez, toda a parte cênica maravilhosa, ela está de parabéns.

O disco mais recente de Elomar é O menestrel e o sertão mundo [2016], gravado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense. Há quatro anos vocês passaram por São Luís com o concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, supostamente título de um novo disco. Como está este? Há planos de novo disco ou novos discos?
Gravamos esse disco com a orquestra da UFF e foi uma experiência maravilhosa, músicos excelentes, o maestro Tobias [Volkmann], de uma educação e de um acolhimento incríveis. Foram todos muito cuidadosos e foi um momento muito especial. Gostei muito de executar a Antífona [Número 11 Alfa, Ecos de uma Estrofe de Habacuque] para violão e orquestra, foi uma experiência incrível tocar com eles. Apresentamos lá, em Niterói e na [Sala] Cecília Meireles. O Riachão do Gado Brabo está parado, está a metade já gravado, e ainda falta concluir o restante. Meu pai é meio enrolado nesse sentido [risos], confesso. Talvez que ele se preocupe mais em escrever do que em gravar as músicas, por que a escrita perpetua muito mais do que a gravação. Então ainda está em projeto a conclusão deste trabalho. Eu não sei te dar uma data, nem te dar maior segurança quanto a quando ele vai estar pronto. Mas é sim um projeto. Esse seria o que poderia ser considerado como o último disco cancioneiro dele.

Além de músico acompanhante de teu pai há bastante tempo, você desenvolveu uma carreira acadêmica e uma carreira como solista e concertista de violão. Como é administrar estas agendas todas?
Não tem sido nada fácil administrar, por que eu tenho que cuidar de orquestra jovem, eu sou atualmente coordenador do Núcleo Neojiba, lá em Vitória da Conquista. Neojiba são Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Tenho que trabalhar, desenvolver outros trabalhos, arranjos para cd, as composições próprias, que eu também trabalho em composição, sair para concertos, realmente é uma agenda que está bem apertada. Mas eu tenho procurado dar conta dela, ou seja, 24 horas com música. Eu acredito que nós temos um trabalho importante a fazer, registrar, escrever, e a gente tem que buscar mais apoio pra ter um tempo mais específico pra dedicar, e talvez até dizer não para muitas propostas, se não o tempo não dá para produzir tudo. Mas eu tenho me dedicado sim a tocar com meu pai, primeiro por que já tocamos há tanto tempo, é uma parceria, já somos muito malungos na realização das apresentações, ele confia muito em mim, na pegada de meu violão para fazer o apoio junto com ele, nos entendemos imediatamente. Ele está cada vez mais cansado, já está com 80 anos, não é muito fácil sair viajando para tocar. Então, cada vez mais serão menos apresentações, e provavelmente as apresentações tenderão a ser mais lá mesmo, na localidade da gente, em Vitória da Conquista, lá na fazenda Casa dos Carneiros, onde ele construiu uma caixa cênica para realizar óperas, e tem também a sala, que é o Teatro da Lírica Mineira, uma sala menor, bem menor, mas para música de câmara, acústica. Então, não é fácil dar conta disso tudo, mas eu estou grudado, junto com o bode. É uma briga doida a gente, falando a verdade, eu sempre reclamo com ele sobre instrumentação, orquestração, e tal, mas no fundo ele me ouve, a gente acaba se entendendo em relação à produção dessas coisas, por que tem toda uma parte técnica, que a gente tem que passar a limpo partituras, para que esse universo da música sinfônica, esses músicos sinfônicos compreendam de forma melhor, uma música que pra eles ainda é nova ou está distante da própria cultura tradicional europeia. Então, precisa de muitas indicações, meu pai às vezes despreza essas indicações, mas eu sempre repito pra ele que é importante a gente encher de indicações pra que eles entendam e consigam mergulhar cada vez mais na música dele.

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Ouça Calundu e Cacoré (Elomar), com João Omar:

Hamilton de Holanda apresenta releitura afro de Jacob do Bandolim em São Luís

Músico falou ao blogue sobre influências, carreira e o show de hoje (18) no 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival

Jacob Black. Capa. Reprodução

Reinventor do bandolim, o brasiliense Hamilton de Holanda traz hoje a São Luís o show Jacob Black, cuja base do repertório é um dos quatro discos que dedica a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário – os outros são Jacob 10zz, Jacob Bossa e Jacob Baby.

No 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival ele sobe ao palco da Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), às 21h20, depois de Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, e antes de Ed Motta – veja a programação completa.

Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) estará acompanhado de Rafael dos Anjos (violão) e Bernardo Aguiar (percussão). Já apontado como o Hendrix do bandolim ele nega a referência em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos: está mais para Armandinho Macedo.

Foto: Felipe Diniz

Você está chegando de uma turnê com três discos. Como é administrar essa diversidade de parceiros e formações?
Isso vem em função do artístico, as coisas, as ideias, os encontros, as composições. O show que eu vou fazer em São Luís está muito ligado ao disco que está sendo lançado hoje, que se chama Jacob Black. É um dos quatro discos que eu estou fazendo em homenagem a Jacob do Bandolim. Este é um disco que tem um lado mais ligado à percussão, a características afro da música, foi gravado com dois percussionistas, o Thiago da Serrinha, o Luiz Augusto e o Rafael dos Anjos no violão. Em São Luís eu vou fazer com o Rafael dos Anjos e o Bernardo Aguiar na percussão. A gente vai fazer um show mais ligado a este repertório, mas vou fazer músicas minhas também, Caprichos, muito ligado também à improvisação, a gente gosta muito de improvisar. É tudo em função do artístico, as coisas que vão acontecendo, os encontros, e no final das contas eu acabo que tenho uma porção de discos, mesmo. Eu tenho 40 anos de idade, mas já tenho mais de 30 discos gravados e não paro. E vou fazendo cada vez mais, não quero parar.

Jacob é até hoje considerado a grande referência do bandolim no Brasil, mas você reinventa o instrumento. Há um passo adiante aí quando você coloca duas cordas a mais. Como é que foi esse processo de invenção, esse estalo? E a aceitação, por que você acaba, a partir disso, influenciando outros bandolinistas.
Na verdade, por incrível que pareça, a ideia veio do violão. Quando eu comecei a estudar violão, o universo da harmonia, dos acordes, isso me encantou de uma maneira definitiva. Eu fui aprendendo, tirava as músicas do João Gilberto, as harmonias do Tom Jobim, umas coisas assim de MPB e começava a tentar passar para o bandolim. E começava a tentar fazer aquilo que a gente chama de polifonia, misturando ritmo, harmonia e melodia. Eu via um violão, às vezes um pianista tocando, um acordeonista, tocando aquela coisa cheia, completa, e queria fazer no bandolim também. Daí tive a ideia, pedi para um amigo fazer um bandolim de 10, com um par de cordas mais graves, por que aí eu teria mais possibilidade de fazer essa polifonia. Foi daí a ideia. Isso foi desenvolvido com tempo. Em 2000 foi o ano que ele fez, o Virgílio Lima. No começo de 2002 eu me mudei pra França, fui morar sozinho, aproveitei, desenvolvi um monte de coisas, arranjos, compus músicas especialmente para o 10 cordas, foi um momento que eu desenvolvi bastante um tipo de linguagem para esse bandolim. Na verdade dentro dele também tem o de oito cordas, é um instrumento que você pode tocar as músicas do bandolim de oito cordas como um bandolim de oito cordas, só que ele tem esse recurso. Realmente, hoje em dia, 18 anos depois, eu vejo que muitos músicos estão tocando o bandolim de 10 cordas, alguns que tocavam o de oito passam para o de 10, alguns já aprendem direto o de 10, alguns guitarristas, já vi um monte de guitarristas que adora o bandolim de 10 cordas, não só no Brasil, como em outros países. Eu fico muito feliz de ter contribuído para o bandolim brasileiro.

Você vem obviamente da escola de Jacob do Bandolim, mas já foi considerado pela crítica como o Hendrix do bandolim. Mas a gente sabe que essa fórmula Jacob mais Hendrix é igual a Hamilton de Holanda não é suficiente para te explicar. Quem mais você colocaria no caldeirão de referências e influências?
O Hendrix eu não colocaria, por que ele não me influenciou em nada. Eu o conheci depois, bem depois. Se tem alguém que me influenciou com esse tipo de pegada foi o Armandinho, a influência que eu tive do Hendrix foi pelo Armandinho. Acho que é mais um apelido por alguma coisa relacionada ao instrumento, não à música em si. Eu colocaria o próprio Armandinho, o Raphael Rabello talvez tenha sido o cara que mais me influenciou, o Hermeto Pascoal, o Baden Powell, as composições de Milton Nascimento, do Tom Jobim, do Chico Buarque, os chorões, as músicas mais antigas, o Ernesto Nazareth, adoro jazz, adoro a música flamenca, o Paco de Lucia, me ligo em músicas da Venezuela, fui muito influenciado pela música da Venezuela. A minha maneira de ver a música é realmente plural. Eu tenho a minha língua, assim como nascido no Brasil, eu falo português, é a minha língua mãe, eu aprendi a falar inglês, francês, espanhol, eu aprendi a tocar jazz, a tocar flamenco, são outras linguagens. Mas a minha linguagem materna é o choro, então eu tenho essa possibilidade de ter a minha raiz, a minha árvore, que é o choro, o samba, o frevo, meus pais são pernambucanos, mas meus braços e meus galhos vão crescendo pra lados que eu gosto de conhecer. Eu gosto de música, sou curioso, gosto de conhecer. Por isso minha música tem essa cara, como um Brasil que vai pro mundo.

Você está vindo a São Luís com o show de um disco em homenagem a Jacob do Bandolim, que é um grande nome do choro. São Luís acabou se configurando como uma importante praça de choro, ao lado de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. O que você conhece de música do Maranhão em geral e de choro particularmente?
De choro particularmente eu conheço o Robertinho Chinês, e outro dia eu vi um vídeo do Wendell Cosme, quebrando tudo, muito bom, muito bom, adorei. Eu sei que aí tem uma cena forte, meu amigo das antigas João Pedro Borges, violonista. Ontem mesmo eu estive com a Marrom [a cantora Alcione], no Prêmio da Música [Brasileira], minha amiga. Hoje eu quero conhecer mais gente aí.

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Ouça A ginga do Mané (Jacob do Bandolim), com Hamilton de Holanda:

João Donato: “São Luís pra mim é o presente”

Pianista completa 84 anos hoje (17), quando se apresenta na cidade. Por telefone, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Foto: Clever Barbosa

“São Luís pra mim é o presente”, me diz um simpático e sorridente João Donato, ao telefone, quando lembro-lhe a feliz coincidência: hoje (17), data em que completa 84 anos, ele se apresenta no Circuito São Luís do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen).

O show do pianista acriano radicado no Rio de Janeiro, um dos inventores da bossa nova, acontece às 21h20, entre os de Gabriel Grossi e Taryn Szpilman – toda a programação do festival é gratuita. João Donato (piano) se apresenta acompanhado por Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo) e Ricardo Pontes (saxofone), um timaço que o acompanha “há 30, 40 anos”.

 

Outro presente que João Donato acaba de receber é o troféu de melhor disco na categoria música eletrônica do 29º. Prêmio da Música Brasileira, realizado na noite da última quarta-feira (15), no Theatro Municipal do Rio. O disco em questão é Sintetizamor, dividido com o filho Donatinho.

Sintetizamor. Capa. Reprodução

Sintetizamor é um trabalho que eu fiz com meu filho Donatinho, aliás, é mais trabalho dele do que meu”, comenta, modesto.

E continua, com a naturalidade de quem está acostumado, ao comparar a sensação de ganhar mais um prêmio a vencer um torneio de tênis: “É como ganhar um torneio de tênis, sei lá o quê. A sensação é a de que o que a gente está fazendo está dando certo, está sendo compreendido”, afirmou.

Na conversa rápida por telefone, Donato riu quando lembrei-lhe seu encontro com Marc Fischer, jornalista alemão que se suicidou antes de ver publicado Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011]. Ao recebê-lo fumando, é interpelado pelo repórter: “você deve ser o último brasileiro que ainda fuma”, no que o pianista retruca: “e provavelmente o último brasileiro vivo”, cito de memória.

A Mad Donato. Capa. Reprodução

Vivíssimo, acaba de lançar A Mad Donato [Discobertas, 2018], box com quatro cds – os inéditos Gozando a existência (1978), Naquela base (1988) e Janela da Urca (1989), além de um cd de raridades, incluindo encontros com Alaíde Costa, Djavan e Nara Leão.

“São músicas que não entraram nos meus outros discos anteriores por falta de espaço, ou por que não combinavam com o repertório. Pegaram o que sobrou, fizeram um apanhado, o Marcelo Fróes, e chamaram de Raridades. Músicas que não foram lançadas nos discos, mas que eram para ter sido lançadas quando foram gravadas. Tem uma gravação minha com a Nara Leão, mas nunca saiu”, comenta sobre o quarto disco da caixa.

E completa, sobre o conjunto: “Sobra sempre muita coisa nas gravações. Ou falta. Quando falta eles inventam qualquer coisa pra completar. E quando sobra fica pra trás e se perde no tempo, a não ser que venha alguém colecionando essas coisas antigas, como aconteceu agora, essa caixa com quatro discos”.

João Donato segue fazendo história, tendo e nos dando vários motivos para celebrar, inclusive o show de hoje à noite. “Vai ser animado, as músicas que a gente gosta de tocar e que as pessoas gostam de ouvir”, promete.

Servicinhos

Três releases de três eventos assessorados pela parceira Vanessa Serra com este que vos perturba. Para você que acha que nada acontece em São Luís ou que reclama que quando fica sabendo já aconteceu ou que acha que o blogueiro anda distante deste terreninho, onde já é possível ver o capim verdejar. Como dizemos este que vos perturba e a companheira de bancada Gisa Franco, na Agenda Cultural do Balaio Cultural, na Rádio Timbira (que completou 77 anos ontem, 15): “para você não ficar perdido”.

SABOR DE BIS

Após sucesso do Circuito Barreirinhas, é grande a expectativa para a continuação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival em São Luís, este fim de semana

O sucesso de público do circuito Barreirinhas – mais de 6 mil pessoas ao longo dos três dias de programação (tenha uma ideia de como foi aqui, aqui e aqui) – celebrou à altura a marca de 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival. Quem esteve na Avenida Beira-Rio, onde o palco foi armado, pode presenciar um desfile de talentos e shows emocionantes, além da exposição fotográfica comemorativa (vista por mais de 600 pessoas), que traça um rico painel dos artistas que já passaram pelo palco do festival – e que também poderá ser conferida em São Luís, este fim de semana (dias 17 e 18 de agosto).

É quando acontece o Circuito São Luís, que terá como palco a Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), além do Palco Mundo, montado na área externa da concha. Uma vasta programação promete agitar a sexta (17) e o sábado (18) da capital maranhense. Não faltam motivos para comemorar.

Atrações – Além das 10 edições do festival idealizado e produzido por Tutuca Viana, por exemplo, o público poderá cantar o “parabéns a você” a João Donato, um dos papas da bossa-nova. O acriano radicado no Rio de Janeiro completa 84 anos de idade exatamente no dia em que toca no Lençóis Jazz e Blues Festival: o pianista é uma das atrações da primeira noite, na sexta-feira (17), ocasião em que se apresentam ainda o gaitista brasiliense Gabriel Grossi e a cantora carioca Taryn Szpilman.

As apresentações do palco principal começam às 20h15. O Palco Mundo antecede-o, com início às 18h. Na sexta-feira (17), quem abre a programação é o bandolinista e cavaquinhista maranhense Wendell Cosme, que apresentará seu projeto “Ritmos e Sons”. Na sequência, também no Palco Mundo, se apresenta o grupo Norjazztinos, formado por Henrique Duailibe (teclado), Nataniel Assunção (bateria), Edinho Bastos (guitarra) e Davi Oliveira (contrabaixo). A programação deste palco paralelo volta após o encerramento dos shows do palco principal, às 23h30, com o blues de Dário Ribeiro, seguido do projeto Movimento Cidade, com os djs Neiva e Félix.

Entorno – Além do Palco Mundo, o entorno da praça também movimentará a exposição fotográfica comemorativa dos 10 anos do Lençóis Jazz e Blues Festival, a Feira da Lagoa, com exposição e comercialização de artesanato produzido no Maranhão, e a Feira Gourmet, com a presença de várias lanchonetes da capital maranhense, colocando um cardápio variado à disposição do público.

O Quarteto Crivador. Foto: divulgação

Sábado – A segunda noite ludovicense do festival terá como atrações, no Palco Mundo, antes dos shows do palco principal, a partir das 18h, o Quarteto Crivador – formado por Marquinhos Carcará (percussão), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (ex-Luiz Jr., violão sete cordas) – e o violonista piauiense Josué Costa. E fechando a noite, o blues de Daniel Lobo, seguido, novamente, dos djs do projeto Movimento Cidade.

Em meio a tudo isso, o palco principal apresenta, a partir das 20h15, os gaúchos Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, seguidos por Hamilton de Holanda e o “Baile do Flashback”, de Ed Motta.

Formação – Marca dos 10 anos de Lençóis Jazz e Blues Festival é a preocupação com o caráter formativo do evento. 140 pessoas passaram, nesta edição, pelas oficinas oferecidas em Barreirinhas. Em São Luís serão realizadas duas oficinas e uma palestra. Na sexta-feira (17), das 9h às 12h, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o acordeonista Samuca do Acordeon ministra a oficina “GPS da Roda de Choro”; também na sexta-feira, das 15h às 18h, no mesmo local, é a vez do flautista e saxofonista Pedro Figueiredo ministrar a oficina “’Tecniquês’ para músicos – técnicas de sonorização e gravação de instrumentos e voz”. As inscrições podem ser realizadas pelo site do festival – endereço em que também pode ser acessada sua programação completa, inteiramente gratuita – recomenda-se a quem quiser, a doação de alimentos não perecíveis, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair.

Extra – No dia 23 (quinta-feira), às 16h, acontecerá a palestra “Música e deficiência visual: dificuldades e superações”, ministrada pelo pianista, arranjador, compositor, cantor e publicitário Henrique Duailibe. A palestra será realizada no auditório da Uemanet, no Campus da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Realização de Tutuca Viana Produções, o 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e do Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e apoio de Sesc, Prefeituras de São Luís e Barreirinhas, Fiema/Sesi, Sebrae, FotoSombra, Tory Brindes e Clara Comunicação.

Serviço

O quê: 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís
Quem: várias atrações, no Palco Principal e Palco Mundo
Quando: dias 17 e 18 de agosto (sexta e sábado), às 18h
Onde: Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen) e área do entorno
Quanto: grátis
Patrocínio: Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)

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JUVENTUDE E “ESTÉTICA DIFERENTE” MARCAM PRÓXIMA EDIÇÃO DE RICOCHORO COMVIDA NA PRAÇA

Segunda edição da temporada 2018 acontece dia 25 de agosto (sábado), às 19h, na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico), com o dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote

Após o sucesso da edição inaugural, são grandes as expectativas para a segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que acontece dia 25 de agosto (sábado), na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico).

O que já é bonito vai ficar ainda mais. Estamos falando, é claro, do cartão postal da secular igreja, que ganhará por uma noite, além da moldura de paralelepípedos e azulejos, a moldura musical de um verdadeiro desfile de talentos, uma constelação de craques das notas musicais.

O dj Joaquim Zion. Foto: divulgação

A noite começa com o dj Joaquim Zion, nome quase sempre vinculado à cena reggae, mas também profundo conhecedor de música brasileira, sobretudo das raízes negras que ajudaram a fundar e consolidar a riqueza da tradição de nossa música popular. Esta vertente é parte do que ele pretende mostrar, a partir de sua coleção de vinis, durante sua apresentação.

O Mano’s Trio. Foto: StudioA (Taciano Brito e Carolina Jordão)

O grupo anfitrião da noite é o Mano’s Trio, formado pelos jovens Wesley Sousa (teclado), Mano Lopes (violão sete cordas e voz) e Fofo Black (bateria), cujos talentos são inversamente proporcionais à média de idade do trio.

O grupo promete um passeio pelo Choro e pelo cancioneiro popular brasileiro, com destaque, no repertório, para nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, com espaço também para composições autorais – temas instrumentais de autoria de Mano Lopes. Quem também comparecerá ao repertório é o jovem compositor amazonense Stênio Marcius, de quem Mano Lopes cantará o samba-choro Máscaras no chão.

Lopes antecipa que “o grupo vai fazer show de choro tradicional, mas com uma estética diferente, com teclado, bateria e violão sete cordas”, em perfeita sintonia com os propósitos do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de estimular diálogos e atritos.

O Mano’s Trio terá como convidado o clarinetista baiano Ivan Sacerdote, um dos grandes nomes de seu instrumento no Brasil. Clarinetista, compositor e arranjador, Sacerdote é bacharel em clarinete pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre em Música (Criação e Interpretação) pela mesma instituição, e já tocou com nomes como Armandinho Macedo, Gabriel Grossi, Hermeto Pascoal, Nailor Proveta, Paulinho da Viola, Rosa Passos e Seu Jorge, entre outros.

O clarinetista baiano promete um passeio pelo Choro em diálogo com outros estilos musicais, “uma outra roupagem para um repertório mais clássico”, além de “uma homenagem a João do Vale”.

Sacerdote foi premiado no II Concurso “Devon & Burgani” Jovens Clarinetistas Brasileiros, em 2015, desde quando a marca o patrocina. Seu disco solo de estreia, Aroeira, completamente autoral, sai este ano – durante sua apresentação o público ludovicense poderá conferir uma das músicas do cd.

Fórum – Em sua passagem por São Luís, Ivan Sacerdote participa ainda, na véspera de sua apresentação no projeto RicoChoro ComVida, do “1º. Fórum Interinstitucional de Música: Produção Cultural em Música no Maranhão”, realizado em parceria pelas Universidades Estadual (UEMA) e Federal do Maranhão (UFMA).

O projeto RicoChoro ComVida na Praça é parceiro do evento. Ivan Sacerdote ministrará oficina de clarinete, dia 24, às 18h. Entre os palestrantes do evento estão o professor mestre Ricarte Almeida Santos (IEMA), produtor de RicoChoro ComVida na Praça, o professor mestre Wanderson Silva (do Conselho Estadual de Cultura) e o produtor cultural Tutuca Viana, que participarão de uma mesa redonda mediada pelo professor mestre Daniel Lemos (UFMA/ UEMA/ Unirio/ Fapema), também no dia 24, às 15h. O Fórum acontece no Auditório da Uemanet, no Campus Universitário Paulo VI.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto itinerante conta com banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

RicoChoro ComVida na Praça é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Serviço

O quê: segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça
Quem: dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 19h
Onde: Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão

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“TOCA RAUL!”

Contra o sistema e a crise, cantor Wilson Zara mantém tradição e realiza show anual em homenagem a Raul Seixas

Divulgação

Com uma carreira relativamente curta, precocemente encerrada pela morte aos 44 anos, em 1989, Raul Seixas mantém a fidelidade e preferência do público. “Toca Raul!”, dos gritos mais ouvidos pelos bares e bailes da vida, além da devoção que revela, já virou piada e meme e segue mostrando a força e a atualidade do roqueiro baiano.

“Raul, sempre vivo na luta contra o sistema” é o título escolhido pelo cantor Wilson Zara para o Tributo a Raul Seixas deste ano. O nome do show alude ao conturbado momento político por que passa o Brasil e à dificuldade em realizar o espetáculo diante da conjuntura de crise – há alguns anos o show era realizado em praça pública, de graça, e este ano teve que voltar aos moldes iniciais, com a cobrança de ingresso para cobrir os custos de sua realização.

Wilson Zara e Raul Seixas têm uma forte ligação desde que o primeiro ouviu o segundo pela primeira vez. A verdade contida nas letras de Raul e a força com que estas verdades eram ditas foram cruciais para que Zara tomasse a decisão de abandonar o estável emprego de bancário e ir viver de música.

“Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, bradava o baiano em Ouro de tolo, petardo de 1973 que, de tão forte e atual, parece ter sido escrita ontem.

Desde 1992 Wilson Zara realiza, anualmente, um show em homenagem ao ídolo baiano, que era fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, e cuja música dialoga diretamente com os universos do rock’n roll – pelo que acabou se tornando mais conhecido – e do baião. O primeiro Tributo a Raul Seixas teve como título A hora do trem passar, de um dos clássicos do repertório do artista, e foi apresentado em Imperatriz, cidade em que Zara então morava.

Este ano o Tributo a Raul Seixas será apresentado no Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Wilson Zara (voz e violão) será acompanhado por Moisés Ferreira (guitarra e efeitos), Marjone (bateria), Mauro Izzy (contrabaixo) e Dicy (vocal).

No repertório, clássicos do repertório do Maluco Beleza, como Eu nasci há 10 mil anos atrás, Gitâ, Rockixe, As minas do Rei Salomão, Eu também vou reclamar, Sociedade Alternativa, How could I know?, Sessão das 10 e SOS, entre muitas outras. Quem gritar “Toca Raul!” certamente terá seu pedido atendido.

Serviço

O quê: Tributo a Raul Seixas – 2018
Quem: Wilson Zara e banda
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 21h
Onde: Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro)
Quanto: R$ 20,00 (à venda no local)

A pulsação do Sangue negro

Pianista que ajudou Lenine a superar trauma com teclas, o jovem recifense Amaro Freitas toca sábado (11) em Barreirinhas, no Lençóis Jazz e Blues Festival

Foto: Jão Vicente

O recifense Amaro Freitas é uma grata revelação da música instrumental brasileira. Estreou como gente grande: em 2016 lançou Sangue negro, em que seu piano é acompanhado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria), além das participações especiais de Eliudo Souza (saxofone) e Fabinho Costa (trompete), todos pernambucanos. A produção ficou a cargo do gaúcho Rafael Vernet, que já trabalhou com nomes como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Wilson das Neves (1936-2017).

É um disco de jazz. Ou se quisermos ir mais longe: é um disco de jazz brasileiro. E dizer isto, ao contrário de afunilar o rótulo, amplia-o: é que Amaro Freitas transita com desenvoltura por diversos gêneros e referências, com especial destaque para o frevo – o disco é aberto por um, Encruzilhada –, samba, afrojazz e balada.

Sangue negro chamou a atenção de Lenine e o pianista participou de Em trânsito (2018), disco novo do conterrâneo – ele toca na faixa Lua candeia (Lenine e Paulo César Pinheiro).

O pianista toca de graça dia 11 de agosto (sábado), às 20h15, na Av. Beira-Rio, em Barreirinhas/MA, na programação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – veja a programação completa. Ele será convidado do guitarrista paraense Delcley Machado. Amaro Freitas conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Jão Vicente

Eu gostaria que você começasse do começo: como foi sua infância e como você chegou ao piano?
Sou pernambucano, recifense, moro na periferia de Recife. Eu comecei na igreja. Meus pais são evangélicos e a igreja tem um papel social muito forte nas periferias. Meu pai quis montar um grupo, ele é o grande responsável por eu ser o que sou hoje. Lá no início, quem plantou tudo isso foi ele. Meu pai quis montar um grupo na igreja, eu era muito novo, tinha 10 anos, 11, e me colocou para tocar bateria, me ensinou um pouquinho de bateria. Ele toca um pouquinho de cada instrumento, não é um profissional, mas ele entende um pouco, toca um pouquinho. Na igreja vários meninos queriam tocar bateria, por conta do instrumento, e ninguém queria tocar o teclado. Aí meu pai: “pô, tu não quer tocar o teclado?” E eu: “não, é muito difícil”. Só que aí ele insistiu e foi me ensinando a tocar teclado e eu fui tomando gosto. Eu tomei goto de uma forma tão grande que eu não queria fazer mais nada, a não ser tocar teclado. Chegava da escola e me trancava no quarto pra tocar teclado, no lugar de estar empinando pipa, brincando, jogando bola, ou fazendo qualquer outra coisa, a minha diversão era tocar teclado. Com 15 anos eu entrei no conservatório pernambucano, só que aí com seis meses eu saí, por conta da condição financeira que a gente se encontrava na época, era uma condição difícil. Nessa idade eu ganhei um dvd de jazz, Chick Corea Acoustic Band. Isso pra mim foi assim importantíssimo, por que até então eu só tinha tido contato com a música da igreja. Escutava uma ou outra coisa assim na rua, mas o contato musical sempre foi com a música da harpa cristã, sacra e dos cantores gospel. Quando eu escutei, eu pensei: “pô, isso é possível fazer na música, velho?”. Aí pirei com a música instrumental, com Chick Corea, depois ganhei um dvd do Oscar Peterson, tocando com Ray Brown. Engraçado, a coisa da música instrumental entrou primeiro na minha vida, antes da cultura pernambucana. Eu só vou ter contato com a música pernambucana lá na frente, que aí eu estudei numa escola chamada Tritones, estava trabalhando de telemarketing e pagando esse curso da Tritones.

Tritones é uma escola de música?
É, o dono dela é Thales Silveira, um contrabaixista daqui, que estudou na Berkeley, abriu essa escola, tem curso de harmonia, arranjo, prática de conjunto, teoria musical, instrumento, enfim, eu estudei lá. E aí, engraçado que depois que eu saí dessa escola eu fiquei naquela coisa de “eu faço uma licenciatura musical na Universidade Federal de Pernambuco ou faço um outro curso?”. Tem um curso aqui chamado Produção Fonográfica, que é um curso mais voltado para esse meio artístico, de como funcionam os editais, de como funciona a divulgação na internet, a história da música eletrônica, e esse curso me cativou muito mais do que fazer licenciatura na Universidade Federal, pela proposta que eu queria dar para minha pessoa.

É um curso de nível superior?
Nível superior, isso. No lugar de ter ido estudar na Federal, eu fiz esse curso, paguei ele. É onde entra o piano na minha vida e essa coisa toda da cultura pernambucana. Eu fui aos restaurantes aqui em Recife e aqui tem uma coisa muito forte de piano bar. Comecei a ver a galera tocar e daqui a pouco eu estava trabalhando com isso. Passei uma temporada no interior, em Gravatá, uma cidade daqui, tocando num restaurante lá, voltei para Recife, comecei a tocar na Pizzaria Atlântico, e era com esse dinheiro da Pizzaria Atlântico que eu pagava o curso, e juntava sempre um dinheiro no banco. Quando eu terminei o curso de Produção Fonográfica, eu já estava conhecendo Chico Science muito bem, o movimento MangueBit, ganhei um livro de Capiba e comecei a estudar a música de Capiba, os frevos, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, tudo isso que é tão rico e importante na nossa cultura. E pensei em gravar o meu primeiro disco.

Sangue negro. Capa. Reprodução

Isso se traduz na sonoridade desse teu primeiro disco, todas essas influências, do jazz, do mangueBit, dessa turma mais ligada ao frevo.
Todas essas influências, sim. Eu te digo que foi aí onde eu conheci também o trabalho do Spok, que é com orquestra, e esse trabalho foi uma motivação pra mim e pra muitos artistas pernambucanos, de ver um cara, que sabe que veio das bandas de baile daqui de Recife, conseguir montar uma orquestra, conseguir ter sucesso com sua orquestra, conseguir levar sua verdade pro mundo. Então todas essas coisas acabaram influenciando minha música. A música de Capiba, obviamente, os choros, as valsas, que eu estudei dele, um pouco também dessa música de fora, aí escancarou, virei fã do Thelonious Monk, do Brad Melhdau, do Herbie Hancock, de todos esses grandes pianistas, de pianistas com uma pegada mais concreta, que veem o piano de uma forma mais rítmica, como é o caso do Craig Taborn. São pianistas que pensam de forma diferente o piano, é muito mais a cabeça de como ele pensa a execução da música e o que ele valoriza como ritmo do que técnica, enfim. Esses pianistas também me influenciaram junto com os pianistas brasileiros, que a gente tem, o Marcos Valle, João Donato. Na minha música eu senti toda essa pressão, e vi que isso é nosso, e comecei a compor as músicas e queria muito gravar o disco. Foi um trabalho, eu posso dizer que, tocando piano bar, eu fui conhecendo os músicos da cena de jazz da cidade e fui tocando com esses músicos, mas a minha vontade sempre foi fazer um trabalho autoral.

Como é que você chega aos músicos que te acompanham em Sangue negro, o baixista e o baterista? É nessa cena do piano bar?
O baixista é nessa cena do piano bar. Eu tocava pra um cara que colocava pianos em restaurantes e um dia ele colocou esse baixista que me acompanha, que é o Jean Elton, pra que a gente tocasse uma gig num restaurante aqui. Quando eu conheci Jean, achei Jean foda, “caramba, esse cara toca muito bem, que respeito à música” e tal. Jean tem certa leveza e respeito, parece um lorde tocando, é muito bonito vê-lo tocar, e o som que ele tira do instrumento também. Comecei a ir ver Jean tocar com um pianista chamado Toni Eucatã, que era um mestre, ele morreu faz dois ou três anos e ele tocava numa casa de jazz aqui chamada Mingus. Quando Toni morreu eu assumi o lugar dele nessa casa e comecei a tocar com Jean e a desenvolver uma amizade e uma linguagem musical também. Quando eu estava querendo um baterista para gravar meu trabalho, um outro amigo disse: “olha, tem o Hugo, que é professor do conservatório, por que você não fala com ele?”. Minha ideia, no início, era gravar standards de jazz, famosos e outros, lado b, que ninguém conhece muito. Quando eu cheguei pra Hugo, pra propor isso, foi muito engraçado, ele disse: “olha, eu gosto muito de trabalhar com música autoral. Se for pra gravar as tuas músicas, eu tou a fim, mas se for pra gravar os mesmos standards de jazz, eu não quero não, velho”. Aí eu disse: “caramba, bicho” [risos].

Então você deve essa guinada a ele, por que você estreia com uma moral danada, o disco recebe críticas elogiosas nos principais veículos, de algum modo você é apontado como uma grata revelação da música instrumental autoral brasileira.
É justamente isso. Por quê? Eu tive o cuidado. Na vida, eu acho o seguinte, a gente tem vários exemplos, a nosso redor, do que deu certo, do que deu errado, de como fazer. Às vezes o músico, ele está muito envolvido com essa coisa romântica do trabalho, mas a burocracia é uma coisa tão necessária e ela precisa ser feita com excelência. Foi aí onde eu acertei. Além da boa qualidade do disco. Por que às vezes a gente vê um disco que tem uma sonoridade legal, mas o disco não tem uma capa legal, o disco é muito longo ou é muito curto, e as pessoas que trabalharam no disco foram de um tamanho muito grande. Hugo e Jean, eles compraram a ideia, a gente teve dois meses ensaiando três dias por semana, pra fazer a pré-produção desse disco, por que até então era um grupo que não tocava junto. A gente se uniu pra formar o repertório e gravar o disco. A gente ganhou a participação de Eliudo Souza, no saxofone, tocando Estudo 0 e Sangue negro, e Fabinho Costa, no trompete, tocando também essas duas músicas. A produção ficou com Rafael Vernet, que é um cara que eu sempre fui fã, eu peguei uma aula com Rafael no Rio de Janeiro, quando eu fui tocar, eu marquei uma hora de aula com ele e a gente ficou três horas e meia. A aula de Rafael, ele tem uma parada que é incrível. Ele consegue verbalizar muito bem a música, ele vem de uma família de filósofos, ele traz toda essa carga filosófica junto com a musicalidade e consegue te fazer entender e até te questionar sobre o que você quer, como você entende a música. Rafael foi muito necessário durante esse processo da pré-produção do disco, ele acompanhou, eu mandava vídeos, tinha um trecho no final da música que, tipo, matava a música, a música vinha num negócio tão lindo e no final eu coloquei um negócio latino, que não tem nada a ver, aí Rafael dizia: “Amaro, por que você fez isso? Tira isso, cara”. No dia da gravação, foi muito legal, ele chegou um dia antes pra ver as músicas ao vivo e a gente começar a gravar no outro dia. Aí ele começou a falar de dedo, de volume da mão esquerda, da quantidade de coda, de improviso, da repetição, foi incrível, eu queria improvisar três coros, só que três coros a gente não conseguia ficar bem, e ele: “você vai improvisar um coro só”. “Mas Rafael…”. “Não, vai ser um coro só”. Então a gente gravou no melhor estúdio da cidade, a mixagem e a masterização foram feitas aqui em Recife com grandes técnicos. O cara que fez a arte, que foi o Thiago Liberdade, também é um cara muito sensível, um cara muito inteligente, Iara Lima, que fez a assessoria de imprensa, de divulgação. Eu sabia que só Amaro Freitas não teria condições de fazer isso tudo. Eu precisava me reunir com profissionais da música que tivessem uma leitura e vissem aquilo que eu não conseguiria ver. Eu só consegui enxergar o que Rafael Vernet enxergava no estúdio seis meses depois [risos]. Eu disse: “caramba, se eu improvisasse três coros ia ficar feio, se a música repetisse mais uma vez ia ficar cansativa, não é que ele tinha razão?”. Eu acho que o trabalho coletivo e colaborativo é o resultado do sucesso do Sangue negro. Também ao mesmo tempo tem uma outra coisa: formar uma banda é uma parada muito difícil. Na banda todo mundo opina e todo mundo decide. E todo mundo tem que dividir os custos. Foi uma das primeiras coisas muito, mas muito importantes. Eu chamei a responsabilidade pra mim, o trabalho é meu, mas quando a gente sobe no palco o Amaro Freitas Trio é como se fosse um triângulo, tem três pontas, mas funciona como um único objeto, não tem Amaro maior que Jean, é tudo a mesma coisa. Só que na responsabilidade dos pagamentos financeiros, na gravação do disco, eu juntei esse dinheiro todo da Pizzaria Atlântico, que eu te falei, junto com os pubs de jazz que eu tocava pra pagar todo esse gasto do disco. Eu gastei 20 mil no disco, tudo isso saiu do meu bolso. A coisa funciona também por conta disso, alguém precisa chamar a responsabilidade. Eu procuro também ser o mais justo por que eu sei da atuação e dedicação dos músicos no meu trabalho. Sangue negro começou por aqui, por Recife, a ser divulgado nos jornais, a gente conseguiu passar no festival Savassi, ganhamos o prêmio Savassi de Novos Talentos, em 2016, a gente foi pra BH, ganhamos o prêmio Mimo, também em 2016, e aí o Sangue negro começou a escorrer.

O título do disco, Sangue negro, foi natural a escolha? Na sonoridade das faixas a gente percebe uma devoção às raízes negras da música, os estilos pelos quais você passeia, afrojazz, frevo etc. Mas existe aí uma espécie de manifesto contra o racismo vigente no Brasil?
Eu te confesso que essa coisa foi ficando mais forte. Quando eu pensei em Sangue negro, a música, eu pensava uma música que representasse o negro na minha visão. E o negro se lascou muito, ainda hoje sofre demais. Tem coisas que você sendo negro você olha pro mundo e você diz: “por que isso é assim?”. Eu não consigo entender por que eu chego nesse lugar e é essa loucura. Então Sangue negro tem essa abertura já no bebop, mas depois vira uma coisa meio experimental, que é a pessoa tentando se encontrar, tentando entender. Traduzindo isso em palavras: “o que é que tá acontecendo?”. Aí vem a dança negra, que é o afrojazz, depois desemboca no improviso de todo mundo, no bebop, que foi desenvolvido também por negros. Volta pra um pedaço experimental e depois a dança de novo, o afrojazz, e acaba a música. Quando a gente acaba de tocar essa música estamos todos pulsando, nosso sangue, até por que a gente toca essa música com muita gana. Tá todo mundo suado. Eu acho que essa música representa também no sentido físico, literal, essa pulsação do sangue negro na execução da própria música. E aí, quando eu fui fazer o disco, a gente pensou em colocar o título do disco Encruzilhada, a gente estava com dificuldade pra chegar ao resultado da arte do disco. Foi quando Iara sugeriu que eu fizesse um ensaio fotográfico com Rafael Medeiros, pra ver se a gente conseguia chegar a um resultado melhor do que tudo que vinha sendo desenvolvido. Aí o Thiago Liberdade escolheu essa foto, que é a foto do disco Sangue negro, e colocou esse filtro. Quando eu vi essa foto eu disse: “caramba, velho, o título tem que ser Sangue negro, não tem como”. Eu acho que mais uma vez o trabalho coletivo chegou nesse lugar. A importância da Iara, a importância do Rafael Medeiros, do Thiago Liberdade, a gente discutiu isso e chegamos juntos nesse resultado. É um disco que representa o negro, que fala da minha realidade como negro também, fala desse protesto, de pianistas negros no país, a gente tem o Moacir Santos, que é um cara daqui de Pernambuco, e nem é conhecido aqui.

Eu ia falar nele por que o Sangue negro me remeteu a Ouro negro, que é título de um disco dele. Eu ia te perguntar se tem alguma influência o trabalho do maestro Moacir Santos, que também é negro, também é pernambucano.
Com certeza! Quando eu escutei Moacir, ele é um cara que trabalha a música brasileira de forma totalmente diferenciada dos outros. Ele vai muito pras claves afro, isso é um negócio assim fora da curva. Só que Moacir é negro, aí tu vai ver que os pianistas mais lembrados do Brasil não são os pianistas negros. A gente tem o Dom Salvador, pianista negro, mas são poucos pianistas negros, são pianistas que a gente escuta muito pouco. A gente vai ouvir falar do César Camargo Mariano, do Luiz Eça, do João Donato, do Tom Jobim, mas esses pianistas negros a gente ouve muito pouco. E eles, na verdade, ganharam uma reverência enorme fora do Brasil, fizeram um nome fora do Brasil, isso é indiscutível. Eu queria reforçar essa coisa do piano negro, do cara negro conseguindo ser pianista, que é um instrumento tão elitista, tão separatista. As pessoas não têm acesso a esse instrumento por sua delicadeza, por seu valor, é um instrumento tão caro, quando tu vai ver a maioria dos pianistas brasileiros são brancos. Eu acho que fazer música autoral, ter uma foto dessa na frente, uma foto com black, o nariz de porrota, achatado, negro, ali, com suas características, fazendo uma coisa que não é muito comum, apesar da gente já ter o Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, o próprio Moacir, mas não é comum você trazer essa música do frevo, maracatu, pro piano. O samba jazz é a coisa que mais se desenvolveu. E se você pensar na cena do sudeste é basicamente isso, o jazz brasileiro é o samba jazz. Então eu poderia dizer que isso já se desenvolveu muito forte no piano. Mas o frevo, o baião, o maracatu, a ciranda, essas coisas não são muito trabalhadas no piano, o maxixe. É uma outra forma de protesto que é trazer os instrumentos acústicos, piano, baixo acústico, bateria, pra tocar essa música nordestina, sem ser nos instrumentos tradicionais, que é a sanfona, os sopros, zabumba, triângulo, e outras coisas.

O selo inglês Far Out te encomendou um disco. Como é que está esse processo?
O disco foi gravado, nove faixas, todo autoral. Eu posso dizer que esse disco vem mais forte que o Sangue negro, no sentido de um trabalho de campo muito mais apurado. Eu fui a Arco Verde, conheci a música de Arco Verde, a gente tem mais de 29 modalidades de coco. Tem um coco de Arco Verde que se chama trupé, a característica desse coco é que ele é tocado com uma sandália de madeira em cima de um tablado, junto com toda a orquestração que há no coco, e as vozes cantando. A célula rítmica que se trabalha com essa sandália de madeira, “tac, tatac, tatac, tac, tatac” [imita o som da sandália de madeira, no ritmo], só que as pessoas fazem isso com o pé. E eu peguei essa célula rítmica e transformei em melodia. Então eu estou dando vez a um ritmo num lugar daquele canto, “ô lerê, ô lerê, ô lalá” [cantarola]. Eu não estou trabalhando esse canto tradicional do coco, eu pego o ritmo, que é a característica do trupé, e transformo esse ritmo em melodia. Então eu começo a distribuir isso pela banda, a gente vai ter [as faixas] Coco Trupé, tem Dona Enir, que é um baião, a gente tem Rasif, que é uma ciranda em homenagem aos arrecifes de Recife. Os arrecifes tinham esse nome antes de se chamar Recife, que é um nome árabe.

Foi título de um livro [Rasif – Mar que arrebenta, Record, 2008] do Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo.
Isso! Meu amigo. Daí é que vem a minha inspiração para colocar o nome dessa ciranda, Rasif, pedra rochosa onde a água bate, tem um significado. Eu queria fazer uma homenagem ao mar de Recife, e peguei esse nome e coloquei nessa ciranda. É uma ciranda que tem uma perninha a mais. Geralmente a ciranda é em quatro, falando em compassos, essa ciranda é em cinco. Só que ela vem com um clima muito balada jazz. É sempre esse contraste, que é uma coisa que eu já trabalhei no Sangue negro, tem um frevo balada, Subindo o morro. O disco ele vem muito temático, mas vem também com um trabalho de pesquisa na cultura pernambucana ainda mais forte, mas com muito improviso, com uma dinâmica diferente. É um pouco diferente do Sangue negro, tem um pouco mais de profundidade. É a primeira vez que eu estou assinando com um selo britânico, com um selo gringo. Esse é um selo britânico, o Far Out, a gente fez um contrato de cinco anos, o disco primeiro será lançado na Europa, pra depois ser lançado no Brasil, já encerramos algumas etapas, o disco está na etapa agora de fazer a arte. Isso é uma coisa muito engraçada, por que a arte que vai ser desenvolvida lá fora, provavelmente não vai ser a arte que vai ser desenvolvida aqui no Brasil, por que eles precisam de um estereótipo diferente do nosso, tipo, eles precisam colocar no disco “Recife”, ou “Brasil”, pra dizer que o trabalho é de um lugar diferente da região deles. Eu acho que a arte do disco pode ser aproveitada, mas a gente vai ter o mesmo disco em dois formatos. Tudo depende do andamento da Far Out, nossa parte já foi feita e a Far Out tem ainda um tempo, pelo prazo do contrato, pra entregar arte e prensagem do disco.

Foi gravado pela mesma turma do Sangue negro?
Foi gravado com meus companheiros e escudeiros fiéis, Jean e Hugo, e teve a participação de um pernambucano também, chamado Henrique Albino, que é um multi-instrumentista daqui, muito bom, ele participa tocando flauta, clarone e sax barítono. Essa coisa de gravar o disco com um trio, com o passar do tempo a gente conseguiu desenvolver uma linguagem ainda mais peculiar, muito mais íntima, entre nós, conhecendo sinais e movimentos muito pequenos, a gente já consegue se conectar de uma forma muito grande. Isso pra mim é valiosíssimo. De início eu pensei em várias participações, depois eu voltei atrás e pensei: “não, o que a gente está fazendo é isso, eu não posso quebrar, de repente não vai funcionar”. Aí a gente chamou Albino, que é um cara muito próximo meu também, um amigo, e decidimos que ele seria a única participação do disco. O disco vem um pouco maior, existe uma espera muito grande por esse segundo disco, isso me deixa muito motivado também por que a maioria dos críticos está esperando esse disco para falar sobre ele. Tem coisa que é coisa de crítico, querer comparar com Sangue negro, enfim. É um disco que está sendo esperado. Eu fico feliz de poder fazer mais um disco de música autoral e de repente estar incentivando várias pessoas a fazerem esse tipo de trabalho. A gente tem que pensar na música da nossa época. 2018, o que é que estava acontecendo no Brasil? Lá na frente o pessoal vai querer saber desse tipo de trabalho. Como a gente hoje conhece Ouro negro, o trabalho de Hermeto, o trabalho de Capiba, por que eles deixaram uma música autoral deles registrada na história. Eu tenho uma preocupação muito grande hoje de dar esse alerta, esse empurrão, essa chamada. Vamos fazer nossa música. É bom tocar standard, é bom demais, eu tenho uma reverência muito grande por todos os grandes mestres e por todos que lutaram pela música instrumental em geral, fora do jazz também, sabe?, mas eles tinham as músicas deles. Uma coisa que vai acontecer nesse meu segundo disco é essa relação com a vida que a gente tem hoje. Hoje a gente tem uma vida corrida, uma vida frenética, a gente quer que chegue logo o fim do dia, a gente não consegue mais namorar o entardecer, ou o amanhecer, hoje a gente quer que chegue logo o fim de semana, o fim do mês, o fim do ano, por conta do décimo terceiro salário, essa agonia.

Quer que chegue o fim do ano pra ver se esse governo ilegítimo deixa o cargo, não é?
Pois é. Essa bagunça que tá, essa safadeza, essa anarquia. O disco vem com uma pitada disso. Ele tem umas músicas que são meio quebradas, meio frenéticas, com aquela vontade de sair correndo. Eu acho que isso é muito valioso, por que a gente registra de uma forma muito particular o que se passa nos dias de hoje.

Como foi a participação em Em trânsito, disco novo de Lenine? Na tua opinião, é mais um endosso a teu trabalho?
Eu te confesso que foi incrível. Eu não esperava. Lenine foi assistir a um show meu na Blue Note, no Rio. Ele é um cara incrível nisso, está em uma de pesquisar o que está acontecendo. Ele viu que ia ter meu show, foi assistir. No fim do show, ele disse: “cara, eu tive um problema com teclas durante um tempo”, por conta daquele movimento todo que aconteceu nos anos 1980, aqueles teclados de plástico, aquela música americana invadindo o Brasil, os pops brasileiros. Lenine fez uns trabalhos naquela época que meio que criaram um trauma, uma trava nele. E ele disse que me ver tocar piano trouxe uma grande alegria por que quebrou esse trauma. Ele disse: “não é um preconceito, mas você olha diferente”. Ele disse uma coisa pra mim que eu fiquei muito feliz: “a tua música é totalmente diferente da minha, mas eu sinto Pernambuco na tua música, de uma forma tão grandiosa, como eu sinto em qualquer um, em Alceu [Valença]”. Eu guardei essa frase e acredito muito nisso e nessa missão de estar lutando por essa música. Aí Lenine disse: “a gente vai fazer alguma coisa, eu não sei o que é ainda, mas a gente vai fazer”. Eu disse: “beleza, vamos nessa!”. Mas não esperava nada. E aí, com o passar do tempo, ele me liga, eu tava almoçando, ele: “ó, aqui é o Lenine”, e eu: “eita!”. E ele: “eu queria te chamar pra fazer uma participação no meu disco, eu nunca sou de chamar as pessoas pelo nome, eu sou de chamar pessoas que me tocam e eu sinto que gostaria muito de trocar com essa pessoa. Eu quero que você participe, você e Carlos Malta”. Ele comprou minha passagem, perguntou qual era o piano que eu queria, a equipe de produção muito cuidadosa, muito gentil, carinhosa. Cheguei, tive apenas dois dias inteiros com Lenine. Cara, eu conversei muito. Eu parecia um jornalista, interrogando. Por que é muita coisa que o cara tem pra dar. Lição de vida, visão de mundo, de como ele conseguiu driblar, vencer. E aí a parte mais difícil pra mim foi quando ele disse: “faz o arranjo e eu já sei que seu arranjo vai ficar bom”. Eu disse: “caramba!”. Olha o tamanho da responsabilidade…