Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Rock de Balsas na ilha

A cantora Amanda Soulthier. Foto: divulgação
A cantora Amanda Southier. Foto: divulgação

 

Em 2014, quando completou 40 anos de carreira, o paulista Edvaldo Santana meteu o pé na estrada. Com o case do violão às costas percorreu, de ônibus, todas as capitais nordestinas, apresentando em cada uma delas um show de voz e violão. Em São Luís, cantou para pouco mais de 30 pessoas, no Teatro da Cidade de São Luís, o antigo Cine Roxy. Quem estava lá, até hoje lembra do show, memorável.

Mês passado, em Teresina, cobrindo a Balada Literária e vendo, por exemplo, o show do parnaibano Teófilo Lima, antes de Rita Benneditto, na última noite do evento, tornei a me perguntar: por que é que o Maranhão não consegue, ou o faz raramente, dialogar com seus vizinhos Pará e Piauí? Por que não vemos com mais frequência artistas paraenses e piauienses se apresentando em São Luís e vice-versa?

Todo artista tem de ir aonde o povo está, já cantou o poeta, e às vezes ir aonde o povo está é uma questão de cara e coragem, glamour zero, artista igual pedreiro, como no título do álbum do Macaco Bong.

Digo tudo isto para dizer que quem está na ilha é Amanda Southier, cantora brasiliense radicada em Balsas, no sul do Maranhão. Ela se apresenta hoje (20), às 21h, no Talkin Blues (Cohajap), e amanhã (21), no mesmo horário, no Velho John Music Pub (Holandeses, Calhau). Em ambos os shows ela será acompanhada por Joabi Nalvi (contrabaixo), Marcio Glam (guitarra) e Bruno Montechese (bateria).

A vinda de Amanda à ilha tem a ver com um sentimento de gratidão de Wilson Zara, que abre o show de hoje. “A gente percorre o Maranhão e é sempre tão bem recebido por onde passa, mas é raro conseguir trazer artistas de outras cidades para tocar em São Luís e dar a recíproca do mesmo tamanho. Começa que trazer muita gente é caro, a coisa já esbarra no preço das passagens de ônibus. Mas conseguimos firmar algumas parcerias e realizar essa microturnê”, afirma. A pequena turnê ilhéu de Amanda Southier tem apoio da JR 4000, empresa de ônibus de Balsas que faz a linha até a capital, churrascaria Barriga Verde e Adventure Hotel.

A cantora já é um nome reconhecido da cena pop, tendo aberto shows de Biquini Cavadão e Detonautas, com quem dividiu o palco em julho passado, em Balsas, no encerramento do Festival de Verão da cidade.

O repertório de Amanda Southier passeia por clássicos do pop nacional e internacional e músicas autorais – Raul Seixas, Adele, Bruno Mars, Black Sabbath, Iron Maiden, Led Zeppelin, Nirvana, Rolling Stones. Vã realidade, seu ep de estreia, lançado em 2017, tem seis faixas, sendo quatro autorais, além de Se você fosse do mal, de Nosly, e um cover de Dream on, do Aerosmith.

O público de São Luís tem duas oportunidades de conhecer ou prestigiar ao vivo a música de Amanda Southier. Torço para que a vereda aberta por ela faça chegar à capital mais artistas do interior e que mais artistas da capital consigam se apresentar em municípios do interior.

Rumos, Maranhão na Tela e Ilha do Amor têm inscrições abertas

Caminhada Rumos acontece hoje em São Luís

A Caminhada Rumos Itaú Cultural encosta hoje (12) em São Luís. O encontro, que tem por objetivo divulgar o edital do programa e tirar dúvidas de artistas e produtores culturais, acontece das 18h30 às 20h30, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença II), com entrada franca. Estarão presentes Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação, e Valéria Toloi, de Educação e Relacionamento do Itaú Cultural.

As inscrições para o Rumos Itaú Cultural estão abertas desde o dia 3, exclusivamente no site do programa, e a Caminhada percorrerá as 27 capitais brasileiras, já tendo chegado a Cuiabá/MT, Porto Velho/RO, São Paulo/SP e Teresina/PI.

Sobre o assunto, Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com Ana de Fátima Sousa.

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade
Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade

Zema Ribeiro – A Caminhada Rumos tem o objetivo de desburocratizar o acesso do artista ao edital e programa? Por que às vezes um artista que se preocupa menos com a burocracia acaba perdendo espaço para um artista que tem produção por trás. O que o Itaú Cultural tem feito no sentido de corrigir essa distorção?
Ana de Fátima Sousa – A Caminhada é uma oportunidade de aprendermos juntos. Nós como instituição buscamos estar presentes e abertos para entender as demandas de cada lugar e melhorar o programa a partir dessas trocas. E para o artista é uma chance, sim, de tirar dúvidas sobre o edital e sobre políticas culturais e também melhorar suas práticas. Acreditamos muito no poder desses encontros.

Nos últimos anos tem sido mais difícil manter um programa da envergadura do Rumos? Quais as principais dificuldades?
O Itaú Cultural tem no Rumos um de seus principais programas estruturantes. E, por isso, tem caráter de perenidade. Nosso desafio é sempre manter neste programa um processo de escuta ativa em relação aos diferentes territórios do país, às necessidades da arte e da produção contemporâneas.

Como se dá o financiamento do programa Rumos Itaú Cultural?
O programa Rumos conta com verba direta. Não faz uso de leis de incentivo.

Como tem sido a participação, a presença do Nordeste no programa Rumos? Há uma preocupação do programa em regionalizar a seleção de projetos apoiados?
O Nordeste tem excelente participação no programa Rumos tanto em quantidade quanto em qualidade dos projetos artísticos e de pesquisa. No ano passado tivemos dois maravilhosos projetos selecionados vindos do Maranhão. O que queremos é tornar esta presença ainda mais potente.

O jornalismo brasileiro passa por uma crise. O Rumos apoia projetos na área, sobretudo o jornalismo cultural, mais afeito às pautas do Rumos?
Sim, o Rumos acolhe, apoia e aposta em projetos de jornalismo cultural. Acreditamos na relevância de nossos jornalistas e críticos na produção de conteúdo e de reflexão sobre nossas artes e nossa cultura.

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MARANHÃO NA TELA ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Colagem de Silvana Mendes. Reprodução
Colagem de Silvana Mendes. Reprodução

Estão abertas desde o último dia 10 as inscrições para a mostra competitiva e as rodadas de negócios do Festival Maranhão na Tela, que este ano será realizado entre os dias 5 e 14 de dezembro.

As inscrições para a mostra competitiva são gratuitas e para as rodadas de negócios variam de R$ 100,00 a R$ 120,00. O Maranhão na Tela foi idealizado pela cineasta e produtora Mavi Simão em 2006 e este ano chega a sua 12ª. edição, realização da Mil Ciclos Filmes. A artista visual Silvana Mendes venceu o concurso e assina a identidade visual do festival em 2019.

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FESTIVAL ILHA DO AMOR RECEBE INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 20

Até o próximo dia 20 de setembro artistas nascidos ou radicados há pelo menos três anos no Maranhão podem se inscrever para o I Festival Ilha do Amor, que acontecerá no dia 23 de novembro na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen.

As inscrições são gratuitas, pelo site do festival. As 12 músicas selecionadas para a final serão gravadas em um cd. O resultado da seleção será anunciado pela coordenação do festival no próximo dia 30 de setembro. Haverá premiações para o primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

Older than time celebra 10 anos da Canyon

Completamente autoral e cantado em inglês, álbum é recheado de referências

Older than time. Capa. Reprodução
Older than time. Capa. Reprodução

Inteiramente cantado em inglês Older than time (2019), disco de estreia da banda maranhense Canyon, tem ecos de hard rock setentista e progressivo, suas grandes influências – o lançamento do álbum celebra os 10 anos da banda.

Jobson Machado (guitarra, voz e teclado), Léo Vieira (contrabaixo), Ramon Silva (voz, guitarra, teclado e synth) e Ítalo Silva (bateria) realizaram um disco vigoroso, que será lançado neste sábado (7), em show na Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro), a partir das 20h – na noite se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu.

“Não há montanha alta o suficiente para mim”, manda a positividade de Fight them, que abre o disco. Todas as músicas são assinadas pela banda, com letras de Ramon Silva, que assina também o projeto gráfico de Older than time.

A quilométrica Hard life é realista: “bem vindo à vida difícil: lute ou caia/ bem vindo à vida difícil: sua dor é minha dor”, diz o refrão, de recado solidário, tão necessário nestes tristes tempos.

Sorceress trata de uma mulher misteriosa, “ela é o diabo/ não chame seu nome”, nas mãos de quem um homem é apenas um peão no xadrez da vida. Sleeping lady retrata uma desilusão amorosa, como se Lupicínio Rodrigues fizesse rock – ou a Canyon abolerasse. Seus mais de oito minutos são divididos em sete partes.

Iron giant debate a robotização do homem, transformado em máquina, despido de sentimentos e pensamentos. “Obsoleto, o futuro é meu passado”, diz um verso, situando o som e a poesia da banda no triste e desesperançoso Brasil de 2019.

O tema instrumental Lunar eclipse antecede a faixa-título, que parece deslocar o som da banda a uma espécie de limbo no espaço-tempo: “o futuro não guia meus passos”, diz verso que dialoga com o Millôr Fernandes de “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. “Eu estou aqui desde antes de todos os deuses”, diz verso que conversa com o Raul Seixas de Eu nasci há 10 mil anos atrás.

Questions no answers fecha o disco com um convite que evoca o Paulo Leminski de Distraídos venceremos: “por favor, feche seus olhos/ liberte sua mente/ momento de distração”, começa a letra, que tem trecho cantado em falsete, de uma delicadeza comovente.

Um disco à altura da merecida festa pela década de existência da banda. Merece celebração.

Serviço

Show de lançamento de Older than time, da banda Canyon. No Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro). Dia 7 de setembro (sábado), às 20h. Na ocasião se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu. Ingressos – R$ 20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) – à venda nas lojas Over All (Tropical Shopping) e no Bar Beco 129 (Praia Grande).

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Ouça Older than time:

Alexandra Nicolas trouxe troféu Gonzagão ao Maranhão

A cantora maranhense Alexandra Nicolas foi agraciada com o Troféu Gonzagão, considerado o Oscar do Forró. A artista levou o prêmio na categoria Revelação da Música Nordestina.

Alexandra atualmente integra o Fórum Nacional do Forró, lançou ano passado seu segundo disco de carreira, Feita na pimenta, inteiramente dedicado aos gêneros abrigados sob o guarda-chuva do forró: coco, baião, xote, xaxado, chamego, entre outros.

A premiação aconteceu no último dia 21 de agosto, em Campina Grande/PB. Sobre o feito, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação
Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação

Alexandra, ano passado você esteve no Troféu Gonzagão, considerado o Oscar da Música Nordestina Este ano volta na condição de homenageada. Como você recebeu o convite e qual a sensação?
Na hora que eu recebi o convite eu chorei muito e a sensação era que acima de tudo isso havia um amor muito maior e uma convicção de estar no caminho certo, uma sensação de gratidão e de certeza diante da verdade que eu acredito.

Sua entrada no universo do forró se deu de forma avassaladora. Você dedicou o segundo disco ao gênero e vem colhendo o merecido reconhecimento, de algum modo coroado com a premiação desta quarta-feira [21], em Campina Grande. O que você pretende para o futuro?
Agora mais do que nunca continuar trilhando o mesmo caminho. Quando se tem reconhecimento, o trabalho é dobrado e a responsabilidade com a causa só aumenta. Também compreendi que alinhar o que eu faço com as crianças é uma missão que me toma com um amor profundo e reitero que pra mim, não basta só cantar, é preciso fazer a nova geração ter orgulho de ser nordestino, uma região rica, musical, colorida e multicultural e com criança é assim, eles são os mais puros e apaixonados que podemos ter, e plantar essa semente cedo só reforça as grandes possibilidade de termos mais nordestinos extraordinários.

Neste ano celebra-se o centenário de Jackson do Pandeiro e você trabalhou em projetos para homenageá-lo. Qual a importância dele para sua trajetória?
Toda! Quando ouvi Jackson pela primeira vez eu fui ao delírio, principalmente pela habilidade sagaz na divisão no seu canto, pela irreverência e astúcia de cantar a rima, a malemolência e a brejeirice me tomaram quando o vi na televisão pela primeira vez. A partir daquele momento ele se tornou um desafio, queria saber fazer o que ele fazia, queria cantar como ele cantava, virou uma referência e um objeto de estudo. Mergulhei nas suas canções e nos seus vídeos e mais na sua biografia e visitei a cidade onde ele nasceu e a cidade onde ele cresceu. Achei tão interessante sua história de vida que fiz um projeto para as escolas e foi aceito e quando vi mais de cem crianças cantando a Cantiga do sapo [de Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro] em uníssono, tinha a certeza que tinha feito um belíssimo trabalho.

Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas
Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas

Também em 2019 completam-se os 30 anos do falecimento de Luiz Gonzaga, outro pilar da música nordestina, o primeiro artista pop desta região do país. Qual a importância de Gonzagão e que outros nomes da música nordestina você poderia destacar entre suas principais referências?
Gonzaga me ensinou a louvar o Nordeste, a agradecer e contemplar tudo que ele tem. A comemorar as coisas simples e as mais belas. A chorar de alegria e a fazer das tristezas aprendizado. Outras referências que eu tenho são a Marinês, pela força do seu canto, a Elba Ramalho, pelo bailado e alegria com a qual interpreta os grandes compositores. E minha maior inspiração de força é o nosso João do Vale. Meu próximo trabalho irei dedicar todo a sua obra, que já ganhei material de sobra pra continuar os estudos

Outra coincidência: outro nordestino que completa 30 anos de falecido, justamente neste 21 de agosto em que você recebe a homenagem, é Raul Seixas, em cuja obra fica demonstrada a fusão do rock de Elvis Presley com o baião de Luiz Gonzaga, seus maiores ídolos. Você tem alguma proximidade com a obra de Raul?
Claro, qualquer cantora que se preze se não ouviu Raul ainda não pode se considerar cantora. Raul é a maior referência de irreverência nesse país, alguém que foi pra além das fronteiras do baião, se é que isso existe, mais ele foi além.

Você integra o Fórum Nacional do Forró, que está buscando a titulação do forró como patrimônio cultural imaterial brasileiro. A quantas está o processo? Você acredita que essa premiação colabora para o avanço desse reconhecimento?
Estamos no início da pesquisa e temos até 2020 pra fazer o forró virar patrimônio. Temos ainda muito chão pela frente, diversos estados envolvidos e catalogar tudo será um desafio grande. O Troféu Gonzagão é a maior premiação da música nordestina e com certeza vem a coroar nossa música com toda nobreza que ela carrega. E o Maranhão está presente nesta premiação só reforça que aqui também tem música nordestina de qualidade.

Fale um pouco mais sobre a noite do Troféu Gonzagão.
Mais de 175 artistas que fazem a música nordestina registrados no evento. Essa premiação faz parte de um amor muito maior, o prazer de fazer o que se ama, a entrega ao gênero, assumir e reverenciar minhas origens. Cantar o Hino Nacional com arranjo de forró é avassalador, o coração transborda. Essa festa é puro reconhecimento disso, a gente se encontra, se afina, se entrega e se recicla, troca música, se admira e se refaz. Agradeci o prêmio cantando João do Vale. E fiz no palco o que eu fiz com as crianças, coloquei quase mil adultos pra cantar o refrão da Cantiga do sapo comigo.

Antenado, afiado e político

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução
Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução

 

O veterano Odair José foi desde sempre associado à dita música brega, ou antes, cafona. Poucos sabem que foi um dos compositores mais censurados pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964, tema de Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), de Paulo César de Araújo.

Poucos conhecem também a porção roqueira de Odair, cuja ópera rock O filho de José e Maria (1977), hoje cult, foi censurada pelos generais de plantão e pela Igreja Católica.

Em Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, de repertório completamente autoral, ele volta ao front. É disco roqueiro e político, o título a junção dos títulos das três primeiras faixas.

Em Hibernar, se propõe uma fuga da realidade, da realidade fabricada destes tristes tempos, em que “o mundo está de ponta-cabeça”. “Tem conspiração na terra do sol”, diz a letra, que continua: “é pão e circo com marmelada/ tem mais um atrito trazendo perigo/ não dá pra saber quem é o inimigo”. E arremata: “tem um falso profeta anunciando/ que pra semana Deus está chegando”.

No blues Na casa das moças, emoldurado pela gaita de Lucas Martini, Odair volta a falar de prostituição, tema que lhe rendeu o hit Vou tirar você desse lugar. A letra fala que “tem uma casa no bairro/ onde moram umas moças”, um lugar em que os homens que ajudam a lavar a louça ganham recompensas. Um jeito bem Odair José de pautar a divisão das tarefas domésticas.

Ouvindo rádio é sobre o universo mágico a que este meio de comunicação, de morte tantas vezes anunciada, ainda nos conduz. O disco é cerzido por vinhetas, a simular uma transmissão radiofônica (com textos e locução de Thunderbird), e esta faixa traz “a música dos Beatles, os dribles do Mané/ nos campos pelo mundo Pelé”.

É um disco que não se furta aos debates atuais. Em Rapaz caipira, por exemplo, a crítica tem endereço certo, as mentiras que elegeram Jair Bolsonaro e pautam seu modo desastroso de governar: “aquilo que era mentira/ passou ser verdade”. E continua: “está vivendo no centro/ de um furacão/ onde a realidade/ é mera ilusão”. O tema volta à pauta em Fora da tela: “quanto mais eu olho/ menos posso ver/ a verdade insiste/ em se esconder”.

“Incrível liquidação de armas de fogo! Você pediu, agora chupa!”, manda Thunderbird na abertura de Chumbo grosso, outro petardo certeiro no discurso beligerante do neofascista que ocupa a presidência da república: “o assunto agora é a cultura da bala/ na falta de argumento a solução é uma vala”. A faixa tem participação especial de Raquel Virginia e Assucena Assucena, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira.

Imigrante mochileiro é outra a trazer um tema quente, o drama mundial da imigração, para o centro do debate promovido pelo som de Odair José. A faixa tem participação do Nação Zumbi Jorge du Peixe (voz e órgão).

Amor e sexo comparecem a Fetiche, Gang bang e Liberado, as três que encerram o disco de 11 faixas. Na última ele canta: “hoje tudo está liberado/ em nome do amor” – assim seja, contra o fascismo reinante.

A vinheta que encerra Pirata urbano sintetiza: “este disco é indicado para estupidez coletiva. Se persistirem os sintomas, procure um psiquiatra”.

Canto é dança é reza

O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá - Guarani. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani. Foto: Francisco Colombo

 

Um bom público compareceu ontem (26) ao Anfiteatro Beto Bittencourt, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), para prestigiar o penúltimo dia de apresentações do circuito Sesc Sonora Brasil, que em 2019 tem como tema “A música dos povos originários do Brasil” – a programação se encerra hoje, com a apresentação do Grupo Wiyae, “que significa canto na língua Tikuna” e “foi criado especialmente para o projeto”, conforme o material de divulgação do Sonora Brasil.

O formato semicircular da chamada “ágora do Odylo” favorece a interação entre os artistas indígenas e o público, lembrando que a grande maioria das aldeias dispõe suas ocas em círculo, garantindo a existência de uma espécie de praça pública para o convívio comunitário e as celebrações.

Ontem, primeiro se apresentou o grupo Nóg Gã do Povo Kaingang, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Eram cinco homens, de cocares e saias, empunhando lanças e maracás, e uma pintura corporal que não obedece padrões, mas que, segundo um deles explicou, serve para evitar o casamento entre parentes e, consequentemente, o incesto.

O canto e a dança do Nóg Gã têm características ritualísticas: cantam e dançam como quem reza, sacudindo maracás e empunhando suas lanças, transformadas em instrumentos de percussão, batidas no chão. Depois são depositadas em círculo, com as pontas convergindo para o centro, em gesto diametralmente oposto a qualquer incitação a violência – apesar de o repertório trazer temas como a Dança da guerra e 500 anos de resistência.

“Somos todos irmãos, independente de raça, se cor, somos todos seres humanos”, afirmou um dos integrantes, numa sutil referência à violência perpetrada contra o povo Wajãpi, cujo cacique Emyra foi assassinado no oeste do Amapá, no último dia 22 – e ao pouco caso do presidente da república Jair Bolsonaro e seu primeiro escalão mentalmente indigente.

“A mídia só sabe discriminar os povos indígenas, só fala daqueles políticos corruptos que vivem lá em Brasília, ninguém lembra dos povos indígenas”, continuou, mais explícito.

Na sequência foi a vez do grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani, também gaúchos, de Lomba do Pinheiro, na capital Porto Alegre. São 10 pessoas, sendo seis mulheres, incluindo uma criança. O cacique é o único a usar cocar – e também o único calçado, usando tênis; os demais trajam roupas brancas com motivos indígenas e se apresentam descalços – e faz as vezes de mestre de cerimônias: não toca nem canta. Homens tocam violão (por eles chamado de “mbá’epú”, com cinco cordas, cada qual representando “uma divindade Mbyá: Tupã, Kuarany, Karaí, Jakairá e Tupã Mirim”), violino (“ravé”, com três cordas) e chocalho (“mbaraká miri”, revezado com um tambor, “angu’á pú”), as mulheres fazem coro.

O violonista usa a mão esquerda para rasquear as cordas do instrumento sem armar qualquer acorde, a mão direita apenas segurando o braço do violão. O violino é tocado da mesma forma, o arco indo e vindo, o instrumento apoiado nas costelas do violonista.

Algumas divindades são saudadas no repertório do grupo, formado por músicas tradicionais do povo Guarani: Ñe’ë í (Pequeno espírito) e Ñamandu mirim (Pequeno sol).

A certa altura o cacique revela, aos 46 anos, nunca ter ficado doente. “Não conheço hospital”, diz. A apresentação se encerra com os dois grupos se encontrando em Tangará (Brincadeira em roda), diante de uma plateia emocionada.

O Grupo Wiyae, que se apresenta hoje, reúne músicos de diversas procedências: a cantora amazonense Djuena Tikuna, a paulista Magda Pucci (cantora, arranjadora, compositora, educadora musical e pesquisadora das músicas de vários povos há 23 anos), o maranhense Diego Janatã e o acordeonista paulista Gabriel Levy. A apresentação acontece às 18h, no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é gratuita.

Tássia Campos e Ana Marques reverenciam Adriana Calcanhotto e Marisa Monte em “Onde andarás”

[release]

O show no Clube do Chico passeará por diversas fases das obras de duas das mais importantes cantoras e compositoras surgidas no Brasil nos últimos 30 anos

Desde o final da década de 1980, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto consolidaram-se como duas das mais talentosas cantoras e compositoras surgidas no Brasil em todos os tempos. A carioca estreou em disco em 1988, com a explosão do hit Bem que se quis, versão de Nelson Mota para E po’ che fa’ (Pino Daniele); a gaúcha, dois anos depois, com Enguiço, disco do hit Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos), a que compareciam ainda regravações de nomes tão diversos como o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, além de Eduardo Dussek e Roberto Carlos.

Não é exagero dizer que influenciaram todo mundo que veio depois, como o fizeram Gal Costa e Maria Bethânia mais de 20 anos antes. Versáteis, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte seguiram trilhas distintas, mas com obras com traços em comum: a permanente qualidade de seus discos e shows, as carreiras paralelas (Marisa com os Tribalistas e Adriana com o Partimpim, voltado ao público infantil, mas também encantando adultos), a constante presença na programação do rádio e o permanente diálogo com a poesia – Marisa trouxe Eça de Queiroz para sua Amor, I love you (parceria com Carlinhos Brown), Adriana musicou Ferreira Gullar e Mário de Sá-Carneiro e é parceira de Antônio Cícero.

Adriana Calcanhotto e Marisa Monte serão lembradas em um show dedicado a seus repertórios. As talentosas Tássia Campos e Ana Marques irão passear por várias fases de suas carreiras, entre grandes sucessos e músicas menos conhecidas. Na ocasião serão acompanhadas por Jhoie Araújo (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona e teclado) e Richard (bateria).

Tássia Campos tem seu nome reconhecido como uma das cantoras mais requisitadas da cena MPB de São Luís. Tem no currículo, entre outros, os troféus “Revelação” e “Show do ano” (com o Trio 123), do extinto Prêmio Universidade FM, então a maior honraria da música produzida no Maranhão. Ana Marques, sócia-proprietária do Clube do Chico, reservava seus dotes artísticos apenas para amigos, em jam sessions após os shows da casa, mas resolveu, agora, colocar seu talento a serviço do público em geral. Já não era sem tempo.

Onde andarás, que dá título ao show, é parceria de Caetano Veloso com o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). A música já foi gravada por ambas, além de pelo próprio Caetano e pela irmã Maria Bethânia. Outros números do repertório da homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são Clandestino (Mano Chao), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Inverno (Adriana Calcanhotto) – gravadas por Adriana Calcanhotto –, Balança pema (Jorge Benjor), Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Na estrada (Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Nando Reis) – gravadas por Marisa Monte. No fim das contas, o show, além de uma homenagem a elas, é também um tributo a seus parceiros e a compositores eternizados em suas vozes.

Serviço

Divulgação
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O show Onde andarás – Homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte acontece no Clube do Chico (R. Uirapuru, 17, Parque Shalon), dia 2 de agosto (sexta), às 21h. Os ingressos custam R$ 20,00 (antecipados; R$ 25,00 na hora). Reservas pelo telefone: (98) 98113-5547.

Em nome dos mineiros

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

O mineiro Toninho Horta subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo com um papel na mão, que colocou sobre a mesa onde já repousava um copo d’água, com as bordas cobertas por um guardanapo.

Sentou-se, empunhou o violão e agradeceu por estar ali, “em nome dos mineiros, Lô Borges, Beto Guedes, Bituca, é muito bom estar aqui, abrindo a 11ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, num tempo em que é grande a representatividade da música instrumental brasileira lá fora”, apontou.

Revezando-se entre temas cantados e instrumentais, começou o show com Durango Kid (parceria dele com Fernando Brant), gravada por Milton Nascimento na década de 1970. Em Aqui ó (da mesma dupla) citou o tambor de crioula, elogiando a grandeza da cultura popular do Maranhão.

Seguiram-se Igreja do Pilar, dedicada a Ouro Preto, e Meu amor infindo,  homenagem a mãe, falecida em 2013. “Ela foi a primeira a reconhecer meu talento, tocava bandolim na banda ​​de meu avô”, lembrou.

Ainda sozinho ao violão tocou Ville kids friends, que compôs durante um curso que ele ministrou na Escandinávia. Em seguida convidou Marcelo Carvalho para assumir um dos dois teclados dispostos no palco. Com ele tocou Waiting for Angela.

Na sequência, somam-se ao duo Israel Costa (violão), anunciado como guitarrista, e Renato Serra (teclado). O quarteto toca Diana (outra parceria com Fernando Brant), sucesso do Boca Livre. “Se tiver alguma Diana na plateia, peço desculpa, mas essa música foi feita para uma cachorrinha. Já que Manuel era um jipe”, lembrou, fazendo a plateia rir, antecipando outro hit que não faltaria ao set list.

Leonel Almeida (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria) acabaram de completar o grupo enquanto Toninho Horta troca o violão pela guitarra. Atacam de Voo dos urubus, com Horta a princípio tocando de costas para a plateia, a reger o grupo. Depois é a vez de Summertime (Ira e George Gershwin), “já que a gente está num festival de jazz e blues”.

A banda sai e Horta torna ao violão. Presta uma homenagem a João Gilberto. Lembra que influenciado pelo baiano fez uma música aos 13 anos, O barquinho vem, “embora mineiro não tenha mar”, brincou. Canta Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), acompanhado pelo coral da plateia.

Ao elogiar novamente o Teatro Arthur Azevedo, lembra-se do dia em que foi ao Carnegie hall ver a Filarmônica de Viena regida por Leonard Bernstein. “Eu fiquei no sétimo ou oitavo andar, vendo os músicos lá embaixo. Esse Teatro Arthur Azevedo não brinca em serviço”, afirmou, antes de tocar um tema de Henry Mancini.

A banda volta e Toninho Horta troca o violão pela guitarra no meio da música, enquanto cita Josias Sobrinho, Nosly e Papete. Lembrou-se de Leandro Gomes, “meu primeiro produtor em São Luís na década de 1980, há quase 40 anos. Essa eu dedico aos grandes talentos do Maranhão”, oferece antes de tocar Beijo partido.

Já em clima de bis, mandou Manuel, o audaz (mais uma parceria com Fernando Brant), para delírio da plateia. E agradeceu: “Quero saudar o Tutuca”, o produtor já havia tentado trazê-lo em outras edições do festival. “Minas agradece vocês pelo bom gosto. Esse estado é um país”, finalizou.

Serviço

O 11º. Lençóis Jazz e Blues Festival acontece dias 16 e 17 de agosto (Circuito São Luís, Concha Acústica Reinaldo Faray, Lago da Jansen); e dias 23, 24 e 25 de agosto (Circuito Barreirinhas, Av. Beira-Rio). Entre os destaques da programação – acesse completa – estão Paula Santoro, Trio Corrente, Bebê Kramer, Zé Paulo Becker (com participação especial de Roberta Sá), Blues Etílicos, Afrôs, Mahmundi, Gildomar Marinho, Elizeu Cardoso, Quarteto Buriti (com participações especiais de Gabriela Marques, Célia Maria e Milena Mendonça), Dani Black, Rita Benneditto e Wilson Zara (que encerra a programação com seu tradicional Tributo a Raul Seixas).

O rei da guitarrada

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

​Mestre Solano tem o acentuado sotaque paraense que coloca Hs depois de Ls (diz “elhe” em vez de “ele”, por exemplo) e que troca Ss por Xs. Ele visitou a sala de ensaios da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, ontem (19), num bate-papo mediado por Ricarte Almeida Santos, idealizador e produtor do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que traz o guitarrista à ilha. Usando chapéu, um enorme relógio dourado e grossos anéis idem, ele falou para uma plateia pequena, mas interessada.

Ainda criança, Mestre Solano aprendeu sozinho a tocar banjo. “Eu podia estar brincando do que fosse, com quem quer que fosse, quando papai pegava no banjo, e ele só pegava aos sábados e era coisa rápida, eu ia pra perto, fingia que estava brincando, e ficava olhando, prestando atenção na posição dos dedos”, lembra.

Quando o pai saía, ele pegava o banjo escondido. “A mamãe pedia para ele me ensinar, mas ele dizia que não, que música não dava futuro”. Um dia o pai voltou e achou-o tocando o instrumento. “A casa era grande, ele deu a volta e entrou por trás. Eu estava no quarto, a porta trancada. Quando eu vi a porta abrir, eu larguei o banjo. “Ah, és tu que está aí?”, ele me perguntou. E mandou eu continuar. Eu toquei mais um pouco, ele perguntou: “quem te ensinou?”. Aí mamãe gritou lá de fora: “quem ensinou ele foi Deus, eu pedi pra você ensinar, você não quis, Deus ensinou”.

Incentivado pela mãe, prestou concurso para o Corpo de Bombeiros, para sargento músico. “Você fazia o concurso, passava três meses num curso e já virava sargento. Eu não queria fazer, achava que não ia passar, aí mamãe disse: “ou você faz ou vai levar uma surra””, lembra da ocasião em que se mudou da Abaetetuba natal para a capital Belém e conheceu Pinduca, conterrâneo ilustre.

“Ele tocava bumbo e eu tocava caixa. Depois eu o ajudei a fundar a primeira banda dele”, relembra. “Foi nessa época do quartel que eu comprei minha primeira guitarra. Havia um presidiário que fabricava objetos e um dia o diretor do presídio me chamou e perguntou se eu estava precisando de algo e eu disse, uma guitarra. Dei todas as características, quero isso, isso, assim, assado. Ele deu lá o prazo e no dia marcado a guitarra estava pronta, exatamente como a descrevi. Até hoje me arrependo de ter vendido aquela guitarra, ela é vinho, parecida com a outra”, disse, referindo-se não a Ibanez que repousava em seu colo, mas à guitarra que deixou no hotel.

Mestre Solano lembrou-se de sua paixão por rádio, de como, em Abaetetuba, não conseguia sintonizar as rádios de Belém, mas conseguia captar as ondas vindas do Caribe. Daí ter se apaixonado por ritmos como a salsa, a cumbia e o merengue, todos, afinal, ao lado do carimbó, também nas origens da guitarrada, a qual demonstrou, na prática, do que se tratava, com exemplos diversos tocados em seu instrumento.

Elogiou o violonista Sebastião Tapajós, “talvez o músico brasileiro que mais tenha viajado para a Europa”. Tocou um choro de sua autoria, não revelou o título, mas a inspiração: “fiz para minha netinha, ela não ouve nem fala”. A mim parecia algo como se João Pernambuco compusesse tocando guitarra.

Aos 65 anos de carreira, Mestre Solano se apresenta em instantes, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande), acompanhado pelo Regional Caçoeira, no palco de RicoChoro ComVida na Praça, na noite que inaugura a temporada 2019, que terá ainda o DJ Franklin e performance poética com o mímico Gilson César. A programação é gratuita e tem início às 19h. Ao repertório de Mestre Solano não faltará o clássico Americana, regravado por, entre outros, Arnaldo Antunes.

Samba de segunda

[dedico este post aos amigos Victor Hugo, o dj que me deu a dica, e Nielsen Furtado, pelo reencontro e companhia; e a Zé Pivó, imortal]

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

​É segunda-feira, passa das 21h, e no canteiro central da Av. Dep. Mauro Bezerra, vulgo Canal do Caratatiua, uma roda de samba segue a toda. São nove instrumentistas, entre os quais três banjos, únicos instrumentos harmônicos em meio ao naipe de percussão formado por tantã, repique, pandeiro e reco-reco, entre outros. Sem amplificação, tudo direto do gogó, a plenos pulmões. Ao longo da noite os músicos se revezam em um ambiente em que despontam majoritariamente camisas do Sampaio Corrêa (um dos banjos é ornado​​ com as cores do tricolor), mas onde se veem também camisas do Flamengo e do Fluminense. O proprietário do bar traja uma do Grêmio.

Estamos no Samba do Peixe, que acontece semanalmente, tocado pelo mesmo grupo que religiosamente inicia a roda de samba pontualmente às 14h30 na Feira da Praia Grande, aos sábados.

O céu escuro anunciava chuva, o que não diminuiu a disposição do bom público presente. O repertório passeava por temas de Zeca Pagodinho, João Nogueira, Alcides Malandro Histórico da Portela, Monarco, Martinho da Vila e Dona Ivone Lara, entre outros bambas.

O endereço da sede do samba fica em frente à tenda armada no canteiro central: o Bar do Joka, cujo nome está estampado em uma placa de publicidade de cerveja, onde abaixo se lê num toldo: Samba do Peixe. Chama-me a atenção a inscrição em letras miúdas, ao lado: “Pivó eterno”, aludindo ao saudoso Zé Pivó, integrante da ala de compositores de agremiações carnavalescas como a escola de samba Turma de Mangueira, do bairro do João Paulo, ali próximo, onde morava, e do bloco Fuzileiros da Fuzarca, da Madre Deus.

É ele o autor do clássico samba-enredo que festejou o cinquentenário da verde e rosa da ilha: “50 anos faz que a primeira escola desfilou”. Sobre o transitar com desenvoltura entre o João Paulo e a Madre Deus, diz a letra de Sandália de prata, um de seus maiores sucessos: “mas se quiser ficar em casa/ o problema é seu/ eu sou joão-paulino/ mas vou brincar na Madre Deus”.

A foto da foto, por Zema Ribeiro
A foto da foto, por Zema Ribeiro

Entre uma cerveja e outra e um delicioso tira-gosto de tambaqui assado na brasa (por honestíssimos 12 reais) e após ter ido pegar mais uma no balcão (apesar de o local dispor de garçons, inclusive o proprietário), avisto um painel à esquerda da entrada, onde se veem vários retratos de Zé Pivó. O primeiro, em especial, me fisga, impedindo-me até de examinar melhor os outros: o sambista está de pé, num palco, ladeado por Joãozinho Ribeiro (foi num show dele no João Paulo, no começo dos anos 2000, que vi Zé Pivó ao vivo pela primeira vez), Josias Sobrinho (que completou 66 anos ontem) e Lena Machado (a cujo show Divino Espírito Samba o convidado Zé Pivó faltou há alguns anos).

Indago a Joka se ele tem algum parentesco com Pivó. Ele ri e me aponta na parede o retrato de um casal e para abaixo dele. “Veja a semelhança”, diz, e só então me espanto: Joka é a cara do pai. Em seguida me aponta o retrato que tinha prendido minha atenção, de um réveillon do Governo do Maranhão: “essa foto aqui é do último show dele, ele morreu uns dois meses depois”.

Seu legado permanece vivo, a julgar pela disposição de músicos e plateia que dividem o calçadão nas noites de samba no Bar do Joka, segunda após segunda.

RicoChoro ComVida na Praça estreia nova temporada com choro e guitarrada

[release]

Mestre Solano é o convidado da primeira edição do projeto este ano; apresentações acontecem até novembro em diversas praças de São Luís

A estreia da quarta temporada de RicoChoro ComVida na Praça acontecerá dia 20 de julho (sábado), às 19h, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande). O projeto, idealizado e produzido por Ricarte Almeida Santos, segue firme no propósito de estimular o encontro entre diversas linguagens musicais brasileiras, entre o instrumental e o cantado. Este ano abre espaço também para a poesia.

O projeto é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Em 2019 RicoChoro ComVida na Praça terá cinco edições e acontece até novembro. Toda a programação (veja completa ao fim do post) é gratuita.

Outra novidade nesta temporada de RicoChoro ComVida na Praça é a parceria com a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo. Às vésperas das apresentações de convidados nacionais, haverá rodas de conversa com os artistas, que serão realizadas nas dependências da Emem. “Para nós é uma alegria estabelecer essa parceria. A Emem é um símbolo de qualidade na formação sólida de diversos talentos nossos. Por exemplo, os integrantes do Caçoeira, todos foram alunos da Escola de Música”, celebra Ricarte.

Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro
Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro

Ano Joãozinho – A partir deste ano, RicoChoro ComVida na Praça passa também a homenagear uma personalidade do Choro no Maranhão. Em 2019 o escolhido é o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que celebra 40 anos de carreira. Samba e choro são dois gêneros de destaque no repertório do artista, que, nos moldes do projeto, percorreu diversas comunidades da ilha de São Luís entre os anos de 2002 e 2003 com o projeto “Samba da Minha Terra”.

O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação

A primeira edição terá como convidados o DJ Franklin, desde sempre um dos mais requisitados da Ilha, e performance poética com o mímico Gilson César. “Eles ajudam a criar uma ambiência, um clima, mas são parte do espetáculo. Queremos que as pessoas curtam música, poesia, num exercício de vivência comum, ocupando espaços públicos, dando nossa modesta contribuição para os esforços de revitalização da cidade que têm sido anunciados”, comenta Ricarte.

O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação
O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação

O grupo anfitrião da noite será o Regional Caçoeira, formado por João Eudes (violão sete cordas), Lee Fan (flauta e saxofone), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), jovens virtuoses que há algum tempo ganharam notoriedade na cena musical da cidade, figuras fáceis em fichas técnicas de shows e discos de diversos artistas maranhenses.

A rede de pesca que empresta nome ao grupo alude ao passeio por diversos gêneros que o quarteto faz a cada apresentação, sobretudo mesclando o Choro a ritmos da cultura popular do Maranhão. Um balanço – para novamente lembrar do mar, do Maranhão – inigualável.

Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação
Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação

Choro e guitarrada – O grande convidado do sarau de estreia é Mestre Solano, o rei da guitarrada, direto do Pará. Ele lançou em setembro passado o cd “As guitarradas de um mestre”, em que, além do gênero que lhe dá título, passeia por cumbia, merengue, calipso, carimbó e bolero, entre outros. Aos 63 anos de carreira, com 17 álbuns lançados, o artista promete uma noite dançante.

“Americana” (Frank Carlos), também já gravada por nomes como Alípio Martins e Arnaldo Antunes, é seu maior hit, gravado por ele na década de 1980, na formação Solano e Seu Conjunto, e regravado no novo disco.

Mestre Solano nasceu em Abaetetuba – “terra morena de garotas de valor”, como canta o conterrâneo Pinduca –, onde ainda na infância começou a “arranhar” um banjo. Depois mudou-se para a capital Belém, onde ingressou no Corpo de Bombeiros, tendo sido músico da corporação militar.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto garante banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

Serviço

Sarau

O quê: estreia da temporada 2019 de RicoChoro ComVida na Praça
Quando: dia 20 de julho (sábado), às 19h
Onde: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Quem: Gilson César, DJ Franklin, Regional Caçoeira e Mestre Solano (Pará)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Roda de conversa

O quê: Roda de conversa
Quando: dia 19 de julho (sexta-feira), às 16h
Onde: Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Rua da Estrela, 363, Praia Grande)
Quem: Mestre Solano e Ricarte Almeida Santos
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Programação completa (sempre às 19h)

20 de julho

Local: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Grupo anfitrião: Regional Caçoeira
Artista convidado: Mestre Solano (Pará)
Dj: Franklin
Poesia: Gilson César

24 de agosto

Local: Praça do Letrado (Vinhais)
Grupo anfitrião: Mano’s Trio
Artista convidado: Chiquinho França
Dj: Pedro Dread Lock
Poesia: Mano Magrão

21 de setembro

Local: Praça Carlos de Lima (Lagoa da Jansen)
Grupo anfitrião: Quarteto Buriti
Artistas convidados: Paulão e Mila Camões
Dj: Victor Hugo
Poesia: Áurea Maria

19 de outubro

Local: Largo da Igreja do Desterro
Grupo anfitrião: Trítono Trio
Artistas convidados: Cláudio Lima e Célia Maria
Dj: Vanessa Serra
Poesia: Rosa Ewerton

9 de novembro

Local: Praça Gonçalves Dias (Centro)
Grupo anfitrião: Quarteto Crivador
Artista convidado: Messias Britto (Bahia)
Participação especial: Joãozinho Ribeiro (homenageado da temporada)
Dj: Joaquim Zion
Poesia: Celso Borges

Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

Sobras

Em fevereiro passado estreei com Suzana Santos o Radioletra, programa semanal de 15 minutos dedicado à literatura. O entrevistado inaugural foi Zeca Baleiro, que, na ocasião, desejou “bons ventos e vida longa!” à empreitada.

Mais conhecido como cantor e compositor, Zeca Baleiro tem publicados os livros A rede idiota [Reformatório], Bala na agulha – Reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras [Ponto de Bala], ambos volumes de crônicas, e Quem tem medo de curupira [Companhia das Letras], peça teatral escrita quando ainda morava em São Luís. Além do box A vida é um soulvenir made in Hong Kong [Ed. UFG], precioso mimo, item de colecionador, um raro e delicado conjunto de artefatos poéticos.

Isso era o bastante para justificar a presença de Baleiro num programa de literatura. No final de janeiro, nos estúdios da Rádio Timbira AM, conversamos com ele por cerca de uma hora – depois selecionamos os trechos mais afeitos à área. Você pode ouvir o primeiro Radioletra aqui.

O programa está temporariamente fora do ar, passando por reformulações e negociações. Em breve anunciaremos novidades, aguardem. Enquanto isso, você pode ler, a seguir, as sobras completas do papo com Zeca Baleiro.

Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo
Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo

Zema Ribeiro – Quais as suas lembranças do ambiente literário e musical de sua infância?
Zeca Baleiro – Nosso pai era muito zeloso por essa coisa, a literatura era uma coisa muito presente. Ele era muito exigente com isso, que a gente lesse e tal. Eu comecei lá com 10 anos a fazer poemas infantis, verdes, imaturos, e aos 14 eu comecei a aprender violão, que já era uma presença familiar, meus irmãos já tocavam, estava sempre ali o violão, era uma coisa que eu ia lá, mexia, pegava a palheta deles, brincava um pouco. Mas aos 14 eu fui aprender de fato. Meu pai chamou um professor, um velho boêmio, da época, tocou com [o compositor Antonio] Vieira, o professor Osvaldo. Ele me deu três aulas e eu falei: “não quero mais professor”. Aí fui aprender sozinho, com os amigos. E assim que eu aprendi um pouquinho eu já quis compor. Então eu vi que não seria um músico instrumentista, que domina o instrumento. A minha intenção com aquilo era compor canções e assim se deu. A música prevaleceu como uma coisa importante, por que é meio difícil você ser músico e alguma coisa. Algumas pessoas conseguem, o cara é bancário, advogado e é músico também, mas é difícil, é uma coisa que te toma um tempo quase integral. Então eu avancei ali na música, aquela seara, aquela estrada pareceu promissora. Tempos depois que eu fui redescobrir certos desejos, certos anseios que estavam guardados, o de escrever literatura, ter uma coisa, um tipo de pensamento que às vezes não cabe na canção, que foi o que me fez escrever esses dois livros de crônicas. Tenho a ambição de escrever contos um dia. São coisas que ficaram guardadas, depois que eu, de certa maneira me coloquei no mundo da música, ganhei certa visibilidade, eu tive um pouco de calma para dar vazão a esses talentos ou inclinações, por que eu não sei se o talento existe, mas a inclinação sim [risos]. O teatro é uma paixão antiga. Eu comecei aqui em São Luís no Grupo Ganzola, do querido Lio Ribeiro, que foi muito importante pra mim. A gente tinha um grupo exclusivamente dedicado a peças infantis, a gente fez Flicts, do Ziraldo, que é um texto clássico, depois O reizinho mandão, da Ruth Rocha, e a essa altura, eu fiquei lá entre os 18 e 21 anos, eu escrevi esse texto aí [aponta o exemplar de Quem tem medo de Curupira?]. Eu tinha 21 anos quando escrevi esse texto, ele ficou guardado, datilografado, numa pasta rosa, até que em 2008, uma amiga diretora, com quem eu já tinha trabalhado lá em São Paulo, a Débora Dubois, perguntou “não tem nada pra criança?”. Eu falei: “olha, tem um texto que eu escrevi há 20 anos, mas está antigo, desatualizado”. “Tu tens ele?”. Eu não tinha nem salvo em computador, era um texto datilografado, transcrevi todo, revisão, ela falou: “ah, vamos dar uma atualizada, esse texto tem futuro”. Acabou que a gente encenou, com chancela do Teatro Sesi, lá em São Paulo, ficou seis meses, depois prorrogou, foi tão bem sucedida que prorrogou mais três meses a temporada, de graça. Muita gente viu, teve gente que viu 20 vezes. Dizia assim: “pô, se algum ator faltar, pode me chamar que eu vou”. Tem esse encantamento, essa coisa bonita e lúdica, das criaturas da mata, que é uma coisa muito vivida na infância, esse medo do saci, do curupira, da mãe d’água. Eu lembro que lá no Rio Mearim dava uma hora, todo mundo vazava, por que a mãe d’água, era a hora que ela aparecia [risos]. Então todo mundo saía voado pra casa. Eu fui espalhando meus tentáculos, eu sempre tive muita curiosidade, mas fora a música, todo o resto é experimentação. Eu não me considero um escritor, eu não me considero um dramaturgo, são experiências, felizmente deram certo, foram bem sucedidas, mas não é uma coisa que eu pretendo [se interrompe]. Meu trabalho, eu sou um compositor, se alguém perguntar minha profissão, músico, compositor, é isso que eu faço.

ZR – É assim que você preenche a ficha do hotel.
ZB – Do hotel, é [risos].

ZR – Você falou do zelo de teu pai na infância com a leitura e das aulas poucas de violão. Quais são as tuas primeiras lembranças de leitura e música que você ouviu?
ZB – Música é o rádio. Era muito presente, ficava ligado o dia inteiro na casa. Tinha o programa do Zé Branco de manhã, tinha depois ao meio dia o programa do [locutor e comentarista esportivo Herberth] Fontenele, a gente ouvia, saudoso Fontenele, de esporte, depois vinha o noticiário, à tarde tinha um programa de música nordestina, acho que era o Jairzinho que apresentava. Eu tou falando assim, não sei as estações, mas era meio assim o itinerário da rádio no dia a dia da gente. Às cinco da tarde tinha um programa que o César Roberto apresentava, que era de música jovem, já música pop. Então você passava o dia ouvindo de Luiz Gonzaga a Elton John, de Martinho da Vila a Trio Nordestino, essa informação foi muito rica, não só na minha vida. Dos meus irmãos também, inclusive os que não são artistas, é uma memória muito rica. Essa é a primeira grande informação. A outra é da rua, as brincadeiras de rua eram todas muito musicais, cantigas de roda, eu tenho um acervo na memória de mais de 100 canções, estou até querendo publicar, acho que é um legado. Minhas irmãs também lembram, toda vez que eu venho aqui eu recolho, ontem mesmo a gente estava cantando várias canções. São lindas, vêm de linhagem portuguesa, uma coisa bem lírica. A música sempre esteve presente. Depois as outras coisas, terecô, que ia dançar na praça da cidade, os terreiros de macumba, que chegavam do outro lado do rio, na Trizidela, os cânticos de igreja, procissão, tudo era permeado por música. Então eu acho que o despertar foi na infância mesmo.

ZR – E leituras?
ZB – Leituras, a leitura básica, lembro de alguns livros, O menino do dedo verde, daquele francês, Maurice Druon, muita coisa de José de Alencar, Lucíola, Diva, essa literatura básica. E aqui e ali uma coisa mais estranha. Eu lembro que tinha um livro do Mário Quintana, um livro de sonetos que eu li muito cedo. A ilha do tesouro [de Robert Louis Stevenson], esses clássicos assim. Alguma coisa de Monteiro Lobato, acho que Urupês, tinha uma pequena biblioteca e a gente passeava por ela.

Suzana Santos – Além dessas referências de infância, hoje, tanto entre os clássicos, quanto novidades, quais as referências de hoje, nomes de tua preferência?
ZB – Me perguntam nomes e eu fico numa saia justa, por que é muito difícil. No começo da carreira eu dizia Frank Zappa e Jackson do Pandeiro, pra provocar, ou Bob Dylan e Luiz Gonzaga, querendo criar um arco que descrevesse um pouco a abrangência do que eu ouvi, o que eu tinha de repertório, vocabulário musical, que ia desde essa vertente mais pop, meus pais ouviam muito samba, papai adorava Jair Rodrigues, adorava Cauby [Peixoto], Nelson Gonçalves, comprava disco, minha mãe tem uma memória, tinha uma memória incrível de músicas do repertório popular brasileiro, marchinhas de Braguinha, sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira, punha a gente pra dormir cantando Ismael Silva, uma informação muito rica. Eu me alimentei disso tudo. Depois tinha a própria cena local, que foi importante, quando a gente conheceu Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, e aquele disco do Papete foi um acontecimento, o Bandeira de aço fez a gente despertar um pouco para a produção local, a gente não tinha olhos e ouvidos para isso, a gente estava mais plugado, conectado com uma produção nacional. A gente descobriu, aquilo foi um pequeno alumbramento, tinha uma estranheza na produção da música do Maranhão, que eu só me dei conta completamente quando eu saí daqui para morar fora. Eu falei: “rapaz, aquilo lá é muito específico”. A gente é muito específico. Acho que o Maranhão um dia vai se separar do Brasil.

SS – Tomara!
ZR – Eu acho que já começou.
ZB – E vai fazer uma república à parte [gargalhada].

ZR – Pela primeira vez o Maranhão está na contramão do Brasil por uma coisa positiva.
ZB – É verdade. Depois de 100 anos de tenentismo.

SS –Você falou de nomes da música. E nomes da literatura? Algum nome em especial, alguma referência que seja mais marcante?
ZB – Olha, falando dessa literatura básica, infantil, infanto-juvenil, Meu pé de laranja lima [de José Mauro de Vasconcelos], essas coisas que a gente lia, que toda criança lia. Com 14 anos, eu estudava no Colégio Batista, e eu tive um professor chamado Furtado, que é um mestre mesmo, um cara incrível, e ele deu pra gente, 14 anos era primeiro ano científico na época, primeiro ano do segundo grau, e ele deu como trabalho de literatura ler Memórias póstumas de Brás Cubas, que é o livro mais ácido do Machado de Assis, e O estrangeiro, de Albert Camus. Aquilo foi uma porrada, foi um despertar, eu nunca mais fui o mesmo [risos]. Nunca mais fui o mesmo. São dois livros que permanecem como dois dos livros mais interessantes e instigantes que eu já li. Aquilo ali mudou, eu mudei de patamar na compreensão das coisas, na busca de um tipo de arte mais adulta e mais questionadora. Voltando ao  gancho do violão, quando eu entrei no mundo do instrumento eu me afastei um pouco dessa literatura em prosa e fui mergulhar mais na poesia, por que era uma coisa que me parecia mais próxima daquele universo ao qual eu queria pertencer, ainda não pertencia. Então eu fui descobrindo muito instintivamente poetas, poetas brasileiros, comecei a ler Jorge de Lima, Murilo Mendes, comecei a descobrir poesia beatnik, os grandes poetas essenciais, os franceses Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, essa coisa toda. Só depois que eu fui retomar esse gosto pela prosa, pelo romance, pelo conto. Acho que a gente deve muito, a minha geração, de maneira geral, deve muito à literatura. A canção brasileira ela foi muito influenciada pela literatura, de um modo ou de outro. Não é à toa que a canção brasileira alcançou esse status de uma quase obra literária, Chico Buarque, Luiz Melodia, Noel Rosa, esses grandes poetas todos que a gente tem.

ZR – Tua obra passa também por musicar poemas de poetas como e. e. cummings, Paulo Leminski, Fernando Abreu, Celso Borges. Vou fazer uma pergunta de estagiário.
ZB – Faça!

ZR – Letra de música é poesia?
ZB – Rapaz, essa é uma discussão antiga, até no meu primeiro livro eu abordo isso, mas não chego a nenhuma conclusão. Eu acho que é. São dois tipos de linguagem diferentes, a poesia literária tem outro ritmo, outra respiração, ela não é escrava da rima, pelo menos a poesia moderna, não é escrava do ritmo, é outro tipo de pulsação. E na canção, eu vi uma vez acho que o Edu Lobo falando, eu não concordo, contesto, mas é interessante a reflexão dele, que disse que qualquer texto é musicável. Eu não acho, não. Mas é bacana isso, você se desafiar, pegar um texto qualquer, antimusical às vezes, sem uma sonoridade, um ritmo evidente e se dispor. Eu tive essa experiência, por exemplo, quando eu musiquei os poemas da Hilda Hilst para fazer aquele disco, Ode descontínua e remota [para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio, 2006], não tinha uma métrica, não tinha um ritmo, não tinha uma cadência, nem rimas muito óbvias. Não eram canção. Mas não era também um texto super livre, tinha uma fluência qualquer que eu tentei descobrir. Foi desafiador aquilo lá. Mas eu acho que é poesia sim. Por isso que talvez, no caso da canção brasileira, que é muito alto esse grau de lirismo, é muito rico, não deve nada a ninguém. Chico Buarque é tão grande quanto Drummond e Sérgio Sampaio é tão grande quanto João Cabral de Melo Neto, só que são de territórios distintos. A canção tem uns apelos, facilidades, a própria emoção é passada com mais facilidade, tem o encantamento, o apelo da dança, do ritmo, de fazer dançar.

ZR – Chega a um público maior.
ZB – É mais acessível.

ZR – Leminski com a coisa da música foi o maior best seller de poesia no Brasil até hoje.
ZB – Exatamente.

ZR – Por conta de gravações de Caetano Veloso, A Cor do Som, Moraes Moreira, enfim.
ZB – E vários poetas que migraram pra canção. Salgado Maranhão, nosso conterrâneo, Fausto Nilo, meu parceiro, Geraldo Carneiro, grandes poetas, Cacaso, um poetaço, foram migrando pra canção, por que sentiram, pô, esse mundo é bacana, a comunicação é mais direta. A música é onipresente. Você está em qualquer lugar e pode ouvir, no aeroporto, num táxi, num ônibus, num trem. A literatura é outro tipo de público, de impulso, você precisa de certo silêncio, de recolhimento. A música é mais mundana nesse sentido. Mas é maravilhosa a combinação. Uma vez eu ouvi o Wado, num programa que eu fiz do Baile do Baleiro, para o Canal Brasil, o Wado que é um parceiro querido, um compositor que eu adoro, ele falou: “imagina se um alienígena vem aqui e descobre que a gente se comunica através de uma coisa chamada canção”, por que é uma coisa muito subversiva, pode ser muito transgressora, pode ser muito transformadora, você ouvir aquilo ali, aquela combinação de melodia, ritmo e poesia, o poder que aquilo tem. Às vezes a gente acha, mesmo a gente que faz, que chegou a um certo limite, parece que se esgotou. O próprio Chico Buarque há um tempo falou no fim da canção, eu acho que ele quis falar outra coisa, as pessoas achavam que era um fim derradeiro, um fim terminal, acho que ele quis falar numa transformação de linguagem, de era, de sensibilidade. Mas ela não acaba, você vê aí cada vez mais forte. Hoje eu já estou com 52 anos, já tenho 21 anos de carreira, eu vejo agora pessoas, antigamente eram jovens, de 19, 20 anos, agora é gente de 35, 1,80 metro, chega assim: “pô, bicho, te ouço desde a infância”.

ZR – É estranho?
ZB – Gente casada, com filho, “você embalou nosso namoro”. Hoje mesmo encontrei um cara na padaria. É estranho. Mas é bom [risos].

ZR – Eu te ouço desde a adolescência [risos].
ZB – Eu já ouvi, “pô, Stephen Fry [título da música; abrevia o título do disco, Por onde andará Stephen Fry?, de 1997] é o disco da minha infância”. Realmente, faz 21 anos, se o cara tinha 10 anos, hoje ele tem 31. Faz parte, é história. Imagino que outros compositores ouvem coisas parecidas. É estranho por causa dessa consciência do tempo passando, mas também é muito, vou usar uma palavra que é chata, mas não tem outra, é muito gratificante, é muito recompensador você ouvir. Às vezes tem uns depoimentos emocionados, gente que se curou de depressão, de doença, parou num câncer e ficou ouvindo um disco meu. Uma vez um garoto em Natal, um garoto cinematográfico, aquela cara de desadaptado, umas espinhas no rosto, uma coisa deprimida, assim meio Renato Russo, ele chegou, ficou hesitante, se aproximou e falou: “eu só queria dizer uma coisa”. Eu: “diga”. “Aquele disco, Pet shop mundo cão, salvou a minha vida”. Eu falei: “tá tudo certo, não precisa dizer mais nada”. Não foi feito com essa intenção, mas a música tem várias serventias, ela se presta a tudo. Tem gente que se suicida ouvindo música, tem um caso clássico…

ZR – O Ian Curtis
ZB – É, o Ian Curtis, tem um cara que se matou com a música Fracasso, do Fagner, tem o Judas Priest, lá, Beyond the Realms of Death, o cara se matou ouvindo. Serve pra tudo, serve pra morrer, serve pra viver, serve pra se encantar. Música ainda tem um poder muito grande.

ZR – Quando eu nasci estava tocando Aparências, com Márcio Greyck, no radinho de pilha das enfermeiras.
ZB – É mesmo? Porra! Que é música de um compositor maranhense, o Cury.

ZR – Essa coisa de ouvir desde a infância. Você tem um leque muito amplo de parceiros, que vai de Wado, que você já citou, Kléber Albuquerque, Lúcia Santos, e acabou se tornando parceiro de Fagner, que é um cara que você deve ter ouvido desde a infância. Como é que se dão essas parcerias, como é lidar com tanta gente diferente? Talvez hoje você faça música recebendo letra por whatsapp.
ZB – Sim, bastante. É meio inusitado, por que às vezes é difícil de acreditar que aquele cara, que eu também ouvia com 10 anos [risos].

SS – Os papéis invertidos.
ZB – Os papéis invertidos. Eu lembro que quando eu ouvi a primeira música que tocou no rádio lá em São Paulo do nosso disco, Palavras e silêncios, tocava no rádio do carro, eu levando as crianças na escola, eu parava o carro e ficava: “puta que pariu!”. A minha voz e a voz do Fagner na mesma canção, uma música que a gente fez. Aquilo era muito estranho, diferente, fui fã do cara e agora a gente está aqui lado a lado, eu ficava meio deslumbrado com aquela sensação. Aconteceu que eu acabei me tornando parceiro de muita gente que eu admirava. Frejat, o disco novo tem outra parceria nossa [Te amei ali]. Chico César, que é contemporâneo, é diferente a relação mas eu também sou fã do cara, tenho uma relação de fã-ídolo, além de amigo. Zé Ramalho, com quem já compus. Muita gente. Eu sou muito promíscuo, tenho mais de 100 parceiros. Eu até tava tentando listar outro dia, é muita gente, não é só gente conhecida, é gente também que às vezes está num estágio de carreira diferente, mais inicial, mas eu tenho muitas parcerias bacanas. E tem essa coisa de alcançar um cara que estava em outra. O próprio Márcio Greyck, tenho duas canções lindas com ele, eu não sei tocar, perdi um pouco o contato com ele, mas preciso recuperar. E também essa coisa de poder se movimentar em vários territórios. Gravei agora recentemente no disco do Fernando Mendes, um artista que eu adoro, acho um puta compositor, um puta cronista suburbano. E ao mesmo tempo eu ambiciono, sei lá, fazer música com o Erasmo Carlos, se houver possibilidade de um dia abordá-lo, vou querer fazer [risos]. Então poder transitar, o universo da música brasileira é muito abrangente, da música popular de maneira geral. Às vezes a gente se perde em pequenezas de pertencer a uma tribo. Eu nunca tive isso de antemão. Eu sou colocado em prateleiras específicas, às vezes mpb, às vezes pop rock, às vezes alternativo, por que hoje a música dita mpb virou marginal. O mainstream é Wesley Safadão, é Thiaguinho, é Mano Walter, e a música brasileira virou meio marginal, voltou a ser marginal, voltou à origem, de certa maneira. Eu gosto de estar nesse lugar. Mas me relaciono com pessoas do rock, do brega, do samba, eu tou preparando um disco de sambas, com produção de Swami Jr., faz cinco anos que a gente produz, eu vou finalizar agora. Poder transitar, isso pra mim é fundamental, não ficar acomodado num certo nicho, num certo rótulo.

ZR – Acho que foi isso que acabou te levando…
ZB – A essas parcerias. Sem dúvida.

SS – Isso de estar nas prateleiras. Hoje você não lança mais discos físicos, só streaming. Isso é um caminho sem volta? Vai lançar de novo discos físicos?
ZB – Eu estou agora gravando esse disco, se chama O amor no caos, que a gente fez um caminho inverso, fizemos uma temporada de cinco shows, BH, São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, testamos o repertório ao vivo e agora a gente está em estúdio. Quero lançar em março, eu vou fazer vinil, cd, uma tiragem pequena, por que realmente hoje vende pouco, e jogar nas plataformas, é um caminho inevitável. Essa coisa que envolve tecnologia é sempre um caminho sem volta, o avanço tecnológico vai ser cada vez maior. Eu não sou muito nostálgico no sentido de “ah, como era bom no tempo”… Eu adoro vinil, por exemplo, mas eu sei que é impossível hoje que as pessoas tenham disponibilidade de ouvir um vinil, de virar o lado, isso é para quem quer fazer um ritual, como de vez em quando eu faço na minha casa, boto pras crianças ouvirem coisas que eles nunca ouviram, mas é fantástico essa ferramenta, eu fui um pouco resistente, eu estou há um ano e sou viciado no spotify, por que descobri que é um dos melhores lugares, talvez depois do youtube, pra fazer pesquisa, pra ouvir coisa que você não ouve. Outro dia eu fiquei ouvindo a discografia do Chico Anysio e do Arnauld Rodrigues, que eu adoro, inclusive as masters são bem ruins, o som é bem ruim, mas tá tudo lá. Coisas incríveis, um repertório perdido, meio esquecido, mas que é fantástico.

SS – E não estraga, o físico às vezes vai deteriorando com o tempo. E lá fica para a posteridade.
ZB – Para a eternidade. Deteriora mas eu gosto de ter o objeto [risos]. Sou meio fetichista. Eu acho que tem um público aí entre 30 e 40 anos que reclama. Eu sou mais velho mas estou na fila.

ZR – O spotify não te dá informação de quem compôs, quem toca.
ZB – Agora já tem o intérprete, já tem um espaço lá que você põe, mas ainda é falho nesse sentido. Um vinil, por exemplo, apalpar aquilo, ler as letras com gosto, é muito bacana. Acho que tem que conciliar as mídias todas que estão disponíveis. O k7 tá tendo uma volta, que eu acho que é uma coisa de moda, por que é um som ruim, diferente do vinil que é um som bom, tem grave, é cheio, o k7 é mais uma modinha, o pessoal da eletrônica está fazendo muita master em k7, no Canadá, e tal. Eu acho que tem que jogar com todas as ferramentas. Em termos profissionais, financeiros, as plataformas são um terror para o autor. A arrecadação ainda é muito precária, o que se ganha é migalha perto do que se ganhava com a venda de cd físico ou do lp. Mas a praticidade, eu fiz esses dois singles, terminei hoje, duas semanas depois estava na plataforma, sem aquela espera da fabricação do cd, tem uma agilidade também pro artista, principalmente para quem está começando, é muito bacana, é maravilhoso você poder produzir hoje e daqui a uma semana estar na plataforma.

SS – Falando em rentabilidade ainda é maior a receita do disco físico?
ZB – Sim. Comparativamente sim. Mas como expansão, como forma de propagação, as plataformas são maravilhosas.

ZR – Quando a gente pensa no Quem tem medo de curupira?, no Zoró e no Zureta, que são trabalhos feitos para crianças, embora adultos também se interessem, gostem, ouçam, leiam. Tem alguma diferença entre quando você vai criar para criança e para adulto? Algum cuidado?
ZB – Eu acho que tem um despojamento que toma você quando você está criando para criança. Tem que ser mais direto, criança é um público muito honesto, não tem duas conversas, é gostei, não gostei, é feio, é bonito, então você tem que ser muito habilidoso nessa hora. Acho que eu ganhei uma certa cancha fazendo música para teatro aqui no Maranhão. Depois que eu fui para São Paulo também fiz umas trilhas para teatro, infantil, sempre. Quando meus filhos nasceram, há 20 anos, eu tive muita matéria prima. Todo dia um insight. Lembro uma vez viajando com meu filho no avião, ele olhou, bem pequeno, e disse: “pai, olha lá! É uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele disse de uma forma poética à maneira dele. Cada vez que falava uma coisinha eu ia pro violão. Compus mais de 60 canções. Desovei algumas nesses dois volumes, Zoró e Zureta, e tenho material para mais um disco.

ZR – José Antonio, meu filho, tem três anos, e adora teus videoclipes.
ZB – São bonitinhos, né? A maioria ali é feita pelo Marcos Faria, que é um animador de mão cheia.

SS – Isso de produzir muita coisa, de produzir em forma de música, em forma de poesia. Tem algum fator determinante, o livro de crônicas, essas composições, o que vira disco e o que vira livro?
ZR – O que vai pro livro ou pro disco e o que fica no cofo em casa.
ZB – Eu não sei explicar muito bem por que esse critério é muito subjetivo. Por exemplo, esse livro aí não seria livro. Ele foi uma peça, mas aí teve uma coleção da Companhia das Letrinhas, a curadora quis incluir o livro, me entrevistou, tem um bate-bola no final, eu achei ótimo. Eu fui recentemente visitar a escola onde estuda a filha de uma amiga e eles estavam trabalhando, todos os meninos da sala tinham um exemplar, a escola comprou. Foi muito bacana, depois a gente foi conversar, foi muito rico. Eu tenho feito visitas a escolas, tanto de periferia quanto das zonas mais abastadas de São Paulo para saber as impressões. Geralmente eu recebo convites, mas esse ano eu quero fazer por minha própria iniciativa, fazer um tour pelas escolas, se for possível eu quero fazer aqui também, e conversar sobre a vida, sobre tudo, mas sobre a criação artística também, por que essa resposta da criança é muito valiosa. No caso do disco era específico, era um projeto, um sonho. Eu compus muito, botava pra dormir cantando, quando eles estavam dormindo eu já tinha uma, duas ideias de música, no dia seguinte desenvolvia. Foi assim que esse repertório foi acumulado. Já era um projeto específico, um dia eu vou fazer um disco pra criança. Demorei muito. Eu queria que eles fossem ainda crianças, quando eu fiz eles estavam com vergonha de fazer vocal, já estavam quase adultos, agora eu chamei eles para finalizar cantando uma vinheta que eu fiz, chama Vidinha, para os homenageados participarem, estarem presentes no disco. Essas canções que eu fiz recentemente eu senti que era hora de fazer um novo disco, embora às vezes a gente fique desanimado com o destino do disco hoje, a gente trabalha pra caramba e a repercussão é tão pouca. Mas a gente precisa continuar fazendo, pelo público e por nós mesmos, por nossa sobrevivência artística. Então eu reuni aí um magote de canções, estou até pensando em fazer um duplo, o volume um agora, isso eu vou resolver na próxima semana, eu gravei mais de 15 canções, vou gravar mais umas cinco e dá para fazer dois volumes, lanço um agora e outro no segundo semestre. E quero usar telas de autores maranhenses nas capas.

ZR – Você falou das crianças, seus filhos, que já estão com 20, 20 e poucos anos, e uma coisa que é muito bacana para quem acompanha tua carreira como eu acompanho particularmente desde o Por onde andará Stephen Fry? é a preservação, não sei como é que tu operacionaliza isso, a gente nunca viu uma foto de um filho teu numa revista de fofoca, numa Caras. Como é que você lida com isso nesse tempo de superexposição?
ZB – Eu não vejo muita necessidade. Eu também não sou o tipo de artista que interessa ao Nelson Rubens [risos]. Eu já recebi convites pra ilha de Caras, mas eu tenho mais o que fazer [risos]. Não tenho muito o que fazer [], não é meu mundo, as pessoas acham que artista é tudo uma coisa só, mas a gente vive em mundos muito diferentes. Não tem por que eu abrir minha casa pra um revista, sabe? Não faz sentido. É meio vazio isso aí. Se for uma coisa que me traga muita vantagem [gargalhadas], de alguma maneira, a gente faz. Eu acho que preservar os filhos é importante, eles lidam bem com isso, de o pai ser artista, de ter uma profissão um pouco estranha. A filha contou recentemente um diálogo que ela teve no passado com um colega. Ele perguntou: “você é classe alta?”. Ela falou: “não, sou classe média”. Isso ela era pequena. O garoto falou: “eu sou classe média alta, meu pai tem isso, tem aquilo. Mas você é filha de artista, não é? Teu pai não tem avião?” [gargalhadas]. Isso é uma bobagem, associar o artista com esse mundo de opulência. O glamour é 0,01 por cento, quando você lança um disco e bebe um champanhe, um uísque com os amigos. No mais das vezes é um trabalho operário, tem que dormir cedo, dormir bem, o suficiente para descansar a voz, para estar inteiro, passar som, começo de carreira então tem que se dividir em mil, pra dar entrevista, ir na rádio, ir não sei aonde, no mesmo dia passar som, fazer o show e receber o público depois. Tanto que tem gente que se prepara mesmo, não é o meu caso, eu prefiro jogar futebol, tem gente que vai, malha, fica horas. Pra mim é uma atividade atlética, aeróbica, no começo de carreira a gente fazia shows de terça a domingo, só tinha a segunda para passar em casa. É duro, aeroporto, avião… É bacana, não está viajando de fusca pelas estradas do interior da Bahia, mas é uma vida de dureza, não tem jatinho na história. Não é como nos Estados Unidos, que os caras fazem turnê em ônibus, as estradas são maravilhosas, o país é grande, mas as estradas são maravilhosas. Eu adoraria, por que detesto avião. Eu gosto mesmo de tirar o velho carro, parar, tomar um café, comer um doce, fumar um cigarro, o melhor da vida, tomar uma cerveja no meio do caminho [risos], mas aqui é impossível, com as estradas que a gente tem, com a dimensão do país. É uma vida de dureza. Tem uma coisa, que eu acho que artistas como eu, Chico César, especialmente, talvez pelo fato de a gente ser do Nordeste, de ter essa vivência de cidade do interior, a gente vai aonde chamar. Por exemplo, Macapá, eu fui quatro vezes a Macapá tocar. Tenho grandes amigos lá, inclusive um parceiro, poeta paraense, Joãozinho Gomes, é um poetaço, mora lá. Tenho certeza que nem Roberto Carlos foi tanto, é longe, é uma viagem internacional, seis horas e meia para chegar lá. Tem artistas que não vão, uma garota classe média de São Paulo não vai. Eu já dormi em motel, no Ceará, a cidade estava cheia, demoraram a fazer a reserva, e foi lindo, foi um show incrível. Tenho que escrever um livro, “Glamour zero”. Mas é lindo! Acaba também você tendo umas respostas de público, carinho, o cara se sente prestigiado de você ir na cidade dele, lá no grotão, lá no meio do sertão, umas coisas muito bonitas. Como diz a canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant [Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)], “o Brasil não é só zona sul, é muito mais, é muito mais”. É muito grande, esse Brasil profundo eu adoro tocar. Hoje tá difícil, por que as bandas de forró eletrônico meio que dominaram o pedaço. Num passado recente, 10 anos, essas bandas abriam pros shows da gente. Agora eles tomaram de conta.

ZR – Então vocês são os culpados [risos].
ZB – Não, cara, não [risos]. A gente fez a nossa parte, mas o mercado é cruel, é voraz.

ZR – Você deu a pista para Jotabê Medeiros, na biografia do Belchior, mas aconteceu que o irmão dele faleceu na semana em que ele estava de passagem comprada para encontrar o Belchior em Santa Cruz do Sul. Jotabê foi ao velório do irmão e Belchior faleceu em sequência. Você chegou a ler a biografia?
ZB – Li. Li logo que saiu. Gostei. Ficou um pouco triste, a questão é um pouco triste. Ninguém imaginava que fosse acontecer tão cedo. É uma situação delicada. Eu fiquei muito honrado quando eu cheguei na cidade e Adriana [Bueno, assessora de comunicação], que faz assessoria pra mim, ligou dizendo: “Zeca, uma bomba, uma história. Belchior tá aí na cidade e quer te encontrar”. Eu fiquei naquela, orgulhoso, envaidecido e ao mesmo tempo preocupado [risos], o que é que eu vou falar com o cara? Era fã dele, a gente já tinha se encontrado, inclusive uma vez, curiosamente, à saída de um show de Bob Dylan, do qual somos fãs, lá em São Paulo. Sempre muito afável, “vamos nos encontrar, vamos tomar um vinho, a gente mora na mesma cidade”, eu falei “vamos”, trocamos contato e logo depois ele sumiu. A gente foi, uma coisa de segredo, motorista me levou, levei um vinho, achei ele muito abatido, mas muito lúcido, normal. Dei todas as pistas para dizer que eu queria apoiá-lo se ele quisesse voltar a produzir. Inclusive pus à disposição dele um estúdio que eu tenho com um amigo, lá no Butantã, “olha, se quiser, tem um estúdio lá, com piano”, ele ficou assim, meio, “piano? Poxa!”, falei “se quiser você vai direto de Congonhas pra lá, ninguém te vê”, rapidinho, fui dando pistas. Ele se animou um pouquinho, tinha a mulher, junto com ele, que meio que ditava o ritmo do jogo. “Não, ele ainda não tá pronto pra voltar a gravar”, uma situação um pouco estranha. Eu saí de lá meio mortificado, com aquela sensação, de “pô, eu podia” [interrompe-se]. Quando eu li o livro e vi toda a descrição, a narração da história, aquela culpa que a gente sente, impotente. Eu fiz tudo que podia, falei pra ele de um produtor amigo nosso, de Fortaleza, que falou que se Belchior aparecesse e quisesse tocar, ele enriqueceria o Belchior e a ele, faria uns 10 shows arrasadores pelo Brasil e seria mesmo um evento. Mas ele parece que não estava mesmo mais disposto. Havia um desencanto qualquer, uma coisa muito amarga. Mas também uma tragédia talvez anunciada pelas próprias letras de música. Ele era um niilista, era um cara que não acreditava em muita coisa, apesar de ter um histórico de seminarista, um cara muito culto, muito profundo, leitor de muita filosofia. Enfim, uma pena, fiquei meio penalizado. Mas a vida é isso daí. Essa sensação de impotência me acompanhou por muito tempo: “e se eu tivesse acenado? E se eu tivesse feito isso e aquilo?”.

ZR – Você foi colunista da revista IstoÉ, algumas das crônicas publicadas lá estão nestes livros. Você acha que essa coisa da regularidade de colaborar com um veículo ajuda ou atrapalha? A coisa da obrigação, da disciplina? Você aceitaria o convite de um veículo para colaborar permanente hoje?
ZB – Rapaz, só se fosse o Jornal Pequeno [gargalhadas gerais]. Estou brincando. Eu saí na hora certa, uma intuição qualquer. Uma por que eu estava exausto, não conseguia mais dar conta de tantos projetos. Parece fácil escrever um texto de 60 linhas, mas às vezes eu esquecia. Eu estava indo para Alagoas, tocar em Maceió, e Adriana me ligando, “Zeca, é hoje. Você tem que mandar o texto até”, aí eu tinha que sacar um coelho da cartola em 40 minutos, sabe? É uma loucura! Isso começou a me exaurir, essa responsabilidade. Agora, durante um tempo foi importantíssimo pra mim. Eu sentia que o texto ia ficando mais fluente, era mais fácil começar e finalizar um texto. É igual um músico que toca, um atleta que treina à exaustão, vai ficando mais fácil. Foram cinco anos, foi intensíssimo, foi bacana, falei de tudo que eu podia falar, por que eu pedi permissão total, só escrevo se eu tiver liberdade de falar sobre tudo, política, dar minha opinião, e eles “não, tranquilo, porta aberta, a gente quer mesmo é… criar polêmica então, ótimo!”.

ZR – Foi hostilizado por Roseana Sarney.
ZB – Que bom!

ZR – Eu me lembro de uma campanha de Roseana em que aparecia na propaganda um recorte da IstoÉ com tua coluna, uma página de meu blogue, “o pessoal que só fala mal do Maranhão”.
ZB – Que bom estar nesse lugar.

SS – Falando em política, como você está vendo esse cenário em 2019.
ZB – Como toda pessoa de bom senso eu lamentei a eleição do Jair Bolsonaro. Hoje eu penso de uma forma diferente. Eu acho que é uma provação pela qual o povo brasileiro tem que passar. Eu até diria uma purgação, quando você tem que ir até o fundo do poço para poder voltar, acordar. Eu acho que vai ser bom, a gente está mais vigilante, mais atento. Fazer uma analogia: quando você tem uma casa onde tem muito conforto, empregada fazendo isso, motorista, jardineiro, as pessoas se acomodam. Quando você mesmo tem que ir à luta, lavar a louça, dar a comida do cachorro, você fica mais esperto. Eu acho que é exatamente isso, a gente está saindo de uma zona de conforto, de um tempo, a gente teve governos bons aí, Fernando Henrique Cardoso, Lula e mesmo o primeiro mandato da Dilma, foi um tempo de uma certa bonança no Brasil, depois veio esse redemoinho político e econômico, e a gente entrou nesse lugar. A gente estava surfando nesses ventos e agora a gente vai ter que ficar com os olhos mais arregalados, numa certa vigília do que vai acontecer para que a democracia não degringole. Então, acho que vai fazer bem pra gente. Vai ser uma reeducação política, cidadã do povo brasileiro. Esse governo é tão frágil, tão artificial, que ele vai se desfigurar em pouco tempo. Não vai precisar muita coisa não, eles vão…

SS – Se matar sozinhos.
ZB – Sozinhos, igual desenho animado, vão se autodestruir em cinco segundos.

ZR – A serpente se comendo pelo rabo.
ZB – Pelo rabo. E eu acho que isso vai acabar sendo também o anúncio de outro tempo, a gente vai virar esse jogo, o Brasil tem um destino bonito e a gente não pode ficar assim.

ZR – Você está sempre envolvido em mil coisas ao mesmo tempo, é o viciado em trabalho que além de carreira, de disco, de show, teu mesmo, você está sempre ajudando um amigo, produzindo alguém, fazendo participação especial, compondo, enfim. Você já falou do Amor no caos, para daqui a alguns meses. Projetos para 2019, o que o fã clube pode esperar de Zeca Baleiro?
ZB – Não é meu projeto mas estou envolvido, o segundo disco da Patativa, a gente está finalizando, direção artística minha, produção do Luiz Jr., breve aí, em março ou abril a gente deve estar lançando. Esses dois discos eu quero fazer. Estou com uns projetos interrompidos que eu quero finalizar esse ano, que é o disco de sambas, se chama O samba não é de ninguém, só samba autoral. Tem um disco de bregas, bregas psicodélicos que eu chamo, o disco se chama Churrascaria psicodélica, é só brega autoral também, com guitarras distorcidas, estética anos 1970, o Érico Teobaldo está produzindo, quero ver se eu finalizo. Se possível eu quero lançar uns cinco, seis discos esse ano.

ZR – Ô coisa boa!
ZB – É. E aí correr com a aposentadoria, que eu estou cansado. Daqui a uns três anos eu quero ir para meu sítio na Maioba ou no sul de Minas e ficar lá compondo. Eu gosto muito de estúdio, estúdio é um negócio que não me cansa. Gosto de tocar ao vivo também, é um tipo de energia muito particular, muito única, não se consegue aquilo em outro lugar a não ser ali, no palco, naquela relação direta com o público, com a energia, a emoção do público. Mas a rotina, todo artista depois de certa idade fala isso, não tem como. É como um jogador de futebol que pudesse perdurar até os 50, 60 anos, por que a carreira é mais rápida, morreria de exaustão. Por isso que o cara quando acaba a carreira ele fica logo pançudo [risos], por que ele vai tirar todo atraso dos churrascos e dos chopes que deixou de tomar ao longo do tempo. No nosso caso não tem essa proibição, a gente pode beber nossa biritinha enquanto passa o som. Mas é muito exaustivo, você deixa muita coisa pra trás, deixa de presenciar muita coisa importante na vida dos filhos, dos familiares, dos amigos. É uma coisa que faz falta. Outro dia eu vi um depoimento do Zico, que é um workaholic também, trabalha o tempo todo, e ele falando, “pô, perdi muita festa de aniversário dos meus filhos quando era jogador, e agora não quero perder a dos netos”, então eu estou preparando minha aposentadoria para poder [interrompe-se]. Isso faz falta, é uma coisa aparentemente tola, mas faz falta na vida da gente. O estúdio não, o estúdio é um parque de diversões, você pode fazer de tudo. Eu passaria o tempo todo criando. Mas isso não enche barriga [risos], a principal receita do artista da música ainda é o palco, os shows. Mas eu sinto muito prazer. Eu não faria isso só por dinheiro, só para sobreviver, eu usaria de outros expedientes. É muito bom também.

SS – E livro novo? Previsão?
ZB – Olha, eu tenho umas ideias. Estou querendo esse ano também me dedicar um pouco a isso, tirar um tempo pra escrever. Quero fazer um livro sobre a produção feminina no Brasil, até já comecei, chamei uns dois amigos para me ajudarem na pesquisa, enumerar todas as autoras femininas, todas ou quase todas, desde o começo do século passado, é um trabalho que me interessa, esse de escavação, essa arqueologia. Estou exercitando umas coisas, uns contos, não sei. É preciso muita coragem para lançar um livro de literatura, com pretensão literária num país de tantos bons escritores. Mas quem sabe? [risos]. Quem sabe um dia, depois dos 60?