Hamilton de Holanda apresenta releitura afro de Jacob do Bandolim em São Luís

Músico falou ao blogue sobre influências, carreira e o show de hoje (18) no 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival

Jacob Black. Capa. Reprodução

Reinventor do bandolim, o brasiliense Hamilton de Holanda traz hoje a São Luís o show Jacob Black, cuja base do repertório é um dos quatro discos que dedica a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário – os outros são Jacob 10zz, Jacob Bossa e Jacob Baby.

No 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival ele sobe ao palco da Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), às 21h20, depois de Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, e antes de Ed Motta – veja a programação completa.

Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) estará acompanhado de Rafael dos Anjos (violão) e Bernardo Aguiar (percussão). Já apontado como o Hendrix do bandolim ele nega a referência em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos: está mais para Armandinho Macedo.

Foto: Felipe Diniz

Você está chegando de uma turnê com três discos. Como é administrar essa diversidade de parceiros e formações?
Isso vem em função do artístico, as coisas, as ideias, os encontros, as composições. O show que eu vou fazer em São Luís está muito ligado ao disco que está sendo lançado hoje, que se chama Jacob Black. É um dos quatro discos que eu estou fazendo em homenagem a Jacob do Bandolim. Este é um disco que tem um lado mais ligado à percussão, a características afro da música, foi gravado com dois percussionistas, o Thiago da Serrinha, o Luiz Augusto e o Rafael dos Anjos no violão. Em São Luís eu vou fazer com o Rafael dos Anjos e o Bernardo Aguiar na percussão. A gente vai fazer um show mais ligado a este repertório, mas vou fazer músicas minhas também, Caprichos, muito ligado também à improvisação, a gente gosta muito de improvisar. É tudo em função do artístico, as coisas que vão acontecendo, os encontros, e no final das contas eu acabo que tenho uma porção de discos, mesmo. Eu tenho 40 anos de idade, mas já tenho mais de 30 discos gravados e não paro. E vou fazendo cada vez mais, não quero parar.

Jacob é até hoje considerado a grande referência do bandolim no Brasil, mas você reinventa o instrumento. Há um passo adiante aí quando você coloca duas cordas a mais. Como é que foi esse processo de invenção, esse estalo? E a aceitação, por que você acaba, a partir disso, influenciando outros bandolinistas.
Na verdade, por incrível que pareça, a ideia veio do violão. Quando eu comecei a estudar violão, o universo da harmonia, dos acordes, isso me encantou de uma maneira definitiva. Eu fui aprendendo, tirava as músicas do João Gilberto, as harmonias do Tom Jobim, umas coisas assim de MPB e começava a tentar passar para o bandolim. E começava a tentar fazer aquilo que a gente chama de polifonia, misturando ritmo, harmonia e melodia. Eu via um violão, às vezes um pianista tocando, um acordeonista, tocando aquela coisa cheia, completa, e queria fazer no bandolim também. Daí tive a ideia, pedi para um amigo fazer um bandolim de 10, com um par de cordas mais graves, por que aí eu teria mais possibilidade de fazer essa polifonia. Foi daí a ideia. Isso foi desenvolvido com tempo. Em 2000 foi o ano que ele fez, o Virgílio Lima. No começo de 2002 eu me mudei pra França, fui morar sozinho, aproveitei, desenvolvi um monte de coisas, arranjos, compus músicas especialmente para o 10 cordas, foi um momento que eu desenvolvi bastante um tipo de linguagem para esse bandolim. Na verdade dentro dele também tem o de oito cordas, é um instrumento que você pode tocar as músicas do bandolim de oito cordas como um bandolim de oito cordas, só que ele tem esse recurso. Realmente, hoje em dia, 18 anos depois, eu vejo que muitos músicos estão tocando o bandolim de 10 cordas, alguns que tocavam o de oito passam para o de 10, alguns já aprendem direto o de 10, alguns guitarristas, já vi um monte de guitarristas que adora o bandolim de 10 cordas, não só no Brasil, como em outros países. Eu fico muito feliz de ter contribuído para o bandolim brasileiro.

Você vem obviamente da escola de Jacob do Bandolim, mas já foi considerado pela crítica como o Hendrix do bandolim. Mas a gente sabe que essa fórmula Jacob mais Hendrix é igual a Hamilton de Holanda não é suficiente para te explicar. Quem mais você colocaria no caldeirão de referências e influências?
O Hendrix eu não colocaria, por que ele não me influenciou em nada. Eu o conheci depois, bem depois. Se tem alguém que me influenciou com esse tipo de pegada foi o Armandinho, a influência que eu tive do Hendrix foi pelo Armandinho. Acho que é mais um apelido por alguma coisa relacionada ao instrumento, não à música em si. Eu colocaria o próprio Armandinho, o Raphael Rabello talvez tenha sido o cara que mais me influenciou, o Hermeto Pascoal, o Baden Powell, as composições de Milton Nascimento, do Tom Jobim, do Chico Buarque, os chorões, as músicas mais antigas, o Ernesto Nazareth, adoro jazz, adoro a música flamenca, o Paco de Lucia, me ligo em músicas da Venezuela, fui muito influenciado pela música da Venezuela. A minha maneira de ver a música é realmente plural. Eu tenho a minha língua, assim como nascido no Brasil, eu falo português, é a minha língua mãe, eu aprendi a falar inglês, francês, espanhol, eu aprendi a tocar jazz, a tocar flamenco, são outras linguagens. Mas a minha linguagem materna é o choro, então eu tenho essa possibilidade de ter a minha raiz, a minha árvore, que é o choro, o samba, o frevo, meus pais são pernambucanos, mas meus braços e meus galhos vão crescendo pra lados que eu gosto de conhecer. Eu gosto de música, sou curioso, gosto de conhecer. Por isso minha música tem essa cara, como um Brasil que vai pro mundo.

Você está vindo a São Luís com o show de um disco em homenagem a Jacob do Bandolim, que é um grande nome do choro. São Luís acabou se configurando como uma importante praça de choro, ao lado de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. O que você conhece de música do Maranhão em geral e de choro particularmente?
De choro particularmente eu conheço o Robertinho Chinês, e outro dia eu vi um vídeo do Wendell Cosme, quebrando tudo, muito bom, muito bom, adorei. Eu sei que aí tem uma cena forte, meu amigo das antigas João Pedro Borges, violonista. Ontem mesmo eu estive com a Marrom [a cantora Alcione], no Prêmio da Música [Brasileira], minha amiga. Hoje eu quero conhecer mais gente aí.

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Ouça A ginga do Mané (Jacob do Bandolim), com Hamilton de Holanda:

João Donato: “São Luís pra mim é o presente”

Pianista completa 84 anos hoje (17), quando se apresenta na cidade. Por telefone, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Foto: Clever Barbosa

“São Luís pra mim é o presente”, me diz um simpático e sorridente João Donato, ao telefone, quando lembro-lhe a feliz coincidência: hoje (17), data em que completa 84 anos, ele se apresenta no Circuito São Luís do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen).

O show do pianista acriano radicado no Rio de Janeiro, um dos inventores da bossa nova, acontece às 21h20, entre os de Gabriel Grossi e Taryn Szpilman – toda a programação do festival é gratuita. João Donato (piano) se apresenta acompanhado por Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo) e Ricardo Pontes (saxofone), um timaço que o acompanha “há 30, 40 anos”.

 

Outro presente que João Donato acaba de receber é o troféu de melhor disco na categoria música eletrônica do 29º. Prêmio da Música Brasileira, realizado na noite da última quarta-feira (15), no Theatro Municipal do Rio. O disco em questão é Sintetizamor, dividido com o filho Donatinho.

Sintetizamor. Capa. Reprodução

Sintetizamor é um trabalho que eu fiz com meu filho Donatinho, aliás, é mais trabalho dele do que meu”, comenta, modesto.

E continua, com a naturalidade de quem está acostumado, ao comparar a sensação de ganhar mais um prêmio a vencer um torneio de tênis: “É como ganhar um torneio de tênis, sei lá o quê. A sensação é a de que o que a gente está fazendo está dando certo, está sendo compreendido”, afirmou.

Na conversa rápida por telefone, Donato riu quando lembrei-lhe seu encontro com Marc Fischer, jornalista alemão que se suicidou antes de ver publicado Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011]. Ao recebê-lo fumando, é interpelado pelo repórter: “você deve ser o último brasileiro que ainda fuma”, no que o pianista retruca: “e provavelmente o último brasileiro vivo”, cito de memória.

A Mad Donato. Capa. Reprodução

Vivíssimo, acaba de lançar A Mad Donato [Discobertas, 2018], box com quatro cds – os inéditos Gozando a existência (1978), Naquela base (1988) e Janela da Urca (1989), além de um cd de raridades, incluindo encontros com Alaíde Costa, Djavan e Nara Leão.

“São músicas que não entraram nos meus outros discos anteriores por falta de espaço, ou por que não combinavam com o repertório. Pegaram o que sobrou, fizeram um apanhado, o Marcelo Fróes, e chamaram de Raridades. Músicas que não foram lançadas nos discos, mas que eram para ter sido lançadas quando foram gravadas. Tem uma gravação minha com a Nara Leão, mas nunca saiu”, comenta sobre o quarto disco da caixa.

E completa, sobre o conjunto: “Sobra sempre muita coisa nas gravações. Ou falta. Quando falta eles inventam qualquer coisa pra completar. E quando sobra fica pra trás e se perde no tempo, a não ser que venha alguém colecionando essas coisas antigas, como aconteceu agora, essa caixa com quatro discos”.

João Donato segue fazendo história, tendo e nos dando vários motivos para celebrar, inclusive o show de hoje à noite. “Vai ser animado, as músicas que a gente gosta de tocar e que as pessoas gostam de ouvir”, promete.

Servicinhos

Três releases de três eventos assessorados pela parceira Vanessa Serra com este que vos perturba. Para você que acha que nada acontece em São Luís ou que reclama que quando fica sabendo já aconteceu ou que acha que o blogueiro anda distante deste terreninho, onde já é possível ver o capim verdejar. Como dizemos este que vos perturba e a companheira de bancada Gisa Franco, na Agenda Cultural do Balaio Cultural, na Rádio Timbira (que completou 77 anos ontem, 15): “para você não ficar perdido”.

SABOR DE BIS

Após sucesso do Circuito Barreirinhas, é grande a expectativa para a continuação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival em São Luís, este fim de semana

O sucesso de público do circuito Barreirinhas – mais de 6 mil pessoas ao longo dos três dias de programação (tenha uma ideia de como foi aqui, aqui e aqui) – celebrou à altura a marca de 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival. Quem esteve na Avenida Beira-Rio, onde o palco foi armado, pode presenciar um desfile de talentos e shows emocionantes, além da exposição fotográfica comemorativa (vista por mais de 600 pessoas), que traça um rico painel dos artistas que já passaram pelo palco do festival – e que também poderá ser conferida em São Luís, este fim de semana (dias 17 e 18 de agosto).

É quando acontece o Circuito São Luís, que terá como palco a Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), além do Palco Mundo, montado na área externa da concha. Uma vasta programação promete agitar a sexta (17) e o sábado (18) da capital maranhense. Não faltam motivos para comemorar.

Atrações – Além das 10 edições do festival idealizado e produzido por Tutuca Viana, por exemplo, o público poderá cantar o “parabéns a você” a João Donato, um dos papas da bossa-nova. O acriano radicado no Rio de Janeiro completa 84 anos de idade exatamente no dia em que toca no Lençóis Jazz e Blues Festival: o pianista é uma das atrações da primeira noite, na sexta-feira (17), ocasião em que se apresentam ainda o gaitista brasiliense Gabriel Grossi e a cantora carioca Taryn Szpilman.

As apresentações do palco principal começam às 20h15. O Palco Mundo antecede-o, com início às 18h. Na sexta-feira (17), quem abre a programação é o bandolinista e cavaquinhista maranhense Wendell Cosme, que apresentará seu projeto “Ritmos e Sons”. Na sequência, também no Palco Mundo, se apresenta o grupo Norjazztinos, formado por Henrique Duailibe (teclado), Nataniel Assunção (bateria), Edinho Bastos (guitarra) e Davi Oliveira (contrabaixo). A programação deste palco paralelo volta após o encerramento dos shows do palco principal, às 23h30, com o blues de Dário Ribeiro, seguido do projeto Movimento Cidade, com os djs Neiva e Félix.

Entorno – Além do Palco Mundo, o entorno da praça também movimentará a exposição fotográfica comemorativa dos 10 anos do Lençóis Jazz e Blues Festival, a Feira da Lagoa, com exposição e comercialização de artesanato produzido no Maranhão, e a Feira Gourmet, com a presença de várias lanchonetes da capital maranhense, colocando um cardápio variado à disposição do público.

O Quarteto Crivador. Foto: divulgação

Sábado – A segunda noite ludovicense do festival terá como atrações, no Palco Mundo, antes dos shows do palco principal, a partir das 18h, o Quarteto Crivador – formado por Marquinhos Carcará (percussão), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (ex-Luiz Jr., violão sete cordas) – e o violonista piauiense Josué Costa. E fechando a noite, o blues de Daniel Lobo, seguido, novamente, dos djs do projeto Movimento Cidade.

Em meio a tudo isso, o palco principal apresenta, a partir das 20h15, os gaúchos Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, seguidos por Hamilton de Holanda e o “Baile do Flashback”, de Ed Motta.

Formação – Marca dos 10 anos de Lençóis Jazz e Blues Festival é a preocupação com o caráter formativo do evento. 140 pessoas passaram, nesta edição, pelas oficinas oferecidas em Barreirinhas. Em São Luís serão realizadas duas oficinas e uma palestra. Na sexta-feira (17), das 9h às 12h, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o acordeonista Samuca do Acordeon ministra a oficina “GPS da Roda de Choro”; também na sexta-feira, das 15h às 18h, no mesmo local, é a vez do flautista e saxofonista Pedro Figueiredo ministrar a oficina “’Tecniquês’ para músicos – técnicas de sonorização e gravação de instrumentos e voz”. As inscrições podem ser realizadas pelo site do festival – endereço em que também pode ser acessada sua programação completa, inteiramente gratuita – recomenda-se a quem quiser, a doação de alimentos não perecíveis, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair.

Extra – No dia 23 (quinta-feira), às 16h, acontecerá a palestra “Música e deficiência visual: dificuldades e superações”, ministrada pelo pianista, arranjador, compositor, cantor e publicitário Henrique Duailibe. A palestra será realizada no auditório da Uemanet, no Campus da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Realização de Tutuca Viana Produções, o 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e do Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e apoio de Sesc, Prefeituras de São Luís e Barreirinhas, Fiema/Sesi, Sebrae, FotoSombra, Tory Brindes e Clara Comunicação.

Serviço

O quê: 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís
Quem: várias atrações, no Palco Principal e Palco Mundo
Quando: dias 17 e 18 de agosto (sexta e sábado), às 18h
Onde: Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen) e área do entorno
Quanto: grátis
Patrocínio: Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)

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JUVENTUDE E “ESTÉTICA DIFERENTE” MARCAM PRÓXIMA EDIÇÃO DE RICOCHORO COMVIDA NA PRAÇA

Segunda edição da temporada 2018 acontece dia 25 de agosto (sábado), às 19h, na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico), com o dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote

Após o sucesso da edição inaugural, são grandes as expectativas para a segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que acontece dia 25 de agosto (sábado), na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico).

O que já é bonito vai ficar ainda mais. Estamos falando, é claro, do cartão postal da secular igreja, que ganhará por uma noite, além da moldura de paralelepípedos e azulejos, a moldura musical de um verdadeiro desfile de talentos, uma constelação de craques das notas musicais.

O dj Joaquim Zion. Foto: divulgação

A noite começa com o dj Joaquim Zion, nome quase sempre vinculado à cena reggae, mas também profundo conhecedor de música brasileira, sobretudo das raízes negras que ajudaram a fundar e consolidar a riqueza da tradição de nossa música popular. Esta vertente é parte do que ele pretende mostrar, a partir de sua coleção de vinis, durante sua apresentação.

O Mano’s Trio. Foto: StudioA (Taciano Brito e Carolina Jordão)

O grupo anfitrião da noite é o Mano’s Trio, formado pelos jovens Wesley Sousa (teclado), Mano Lopes (violão sete cordas e voz) e Fofo Black (bateria), cujos talentos são inversamente proporcionais à média de idade do trio.

O grupo promete um passeio pelo Choro e pelo cancioneiro popular brasileiro, com destaque, no repertório, para nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, com espaço também para composições autorais – temas instrumentais de autoria de Mano Lopes. Quem também comparecerá ao repertório é o jovem compositor amazonense Stênio Marcius, de quem Mano Lopes cantará o samba-choro Máscaras no chão.

Lopes antecipa que “o grupo vai fazer show de choro tradicional, mas com uma estética diferente, com teclado, bateria e violão sete cordas”, em perfeita sintonia com os propósitos do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de estimular diálogos e atritos.

O Mano’s Trio terá como convidado o clarinetista baiano Ivan Sacerdote, um dos grandes nomes de seu instrumento no Brasil. Clarinetista, compositor e arranjador, Sacerdote é bacharel em clarinete pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre em Música (Criação e Interpretação) pela mesma instituição, e já tocou com nomes como Armandinho Macedo, Gabriel Grossi, Hermeto Pascoal, Nailor Proveta, Paulinho da Viola, Rosa Passos e Seu Jorge, entre outros.

O clarinetista baiano promete um passeio pelo Choro em diálogo com outros estilos musicais, “uma outra roupagem para um repertório mais clássico”, além de “uma homenagem a João do Vale”.

Sacerdote foi premiado no II Concurso “Devon & Burgani” Jovens Clarinetistas Brasileiros, em 2015, desde quando a marca o patrocina. Seu disco solo de estreia, Aroeira, completamente autoral, sai este ano – durante sua apresentação o público ludovicense poderá conferir uma das músicas do cd.

Fórum – Em sua passagem por São Luís, Ivan Sacerdote participa ainda, na véspera de sua apresentação no projeto RicoChoro ComVida, do “1º. Fórum Interinstitucional de Música: Produção Cultural em Música no Maranhão”, realizado em parceria pelas Universidades Estadual (UEMA) e Federal do Maranhão (UFMA).

O projeto RicoChoro ComVida na Praça é parceiro do evento. Ivan Sacerdote ministrará oficina de clarinete, dia 24, às 18h. Entre os palestrantes do evento estão o professor mestre Ricarte Almeida Santos (IEMA), produtor de RicoChoro ComVida na Praça, o professor mestre Wanderson Silva (do Conselho Estadual de Cultura) e o produtor cultural Tutuca Viana, que participarão de uma mesa redonda mediada pelo professor mestre Daniel Lemos (UFMA/ UEMA/ Unirio/ Fapema), também no dia 24, às 15h. O Fórum acontece no Auditório da Uemanet, no Campus Universitário Paulo VI.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto itinerante conta com banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

RicoChoro ComVida na Praça é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Serviço

O quê: segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça
Quem: dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 19h
Onde: Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão

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“TOCA RAUL!”

Contra o sistema e a crise, cantor Wilson Zara mantém tradição e realiza show anual em homenagem a Raul Seixas

Divulgação

Com uma carreira relativamente curta, precocemente encerrada pela morte aos 44 anos, em 1989, Raul Seixas mantém a fidelidade e preferência do público. “Toca Raul!”, dos gritos mais ouvidos pelos bares e bailes da vida, além da devoção que revela, já virou piada e meme e segue mostrando a força e a atualidade do roqueiro baiano.

“Raul, sempre vivo na luta contra o sistema” é o título escolhido pelo cantor Wilson Zara para o Tributo a Raul Seixas deste ano. O nome do show alude ao conturbado momento político por que passa o Brasil e à dificuldade em realizar o espetáculo diante da conjuntura de crise – há alguns anos o show era realizado em praça pública, de graça, e este ano teve que voltar aos moldes iniciais, com a cobrança de ingresso para cobrir os custos de sua realização.

Wilson Zara e Raul Seixas têm uma forte ligação desde que o primeiro ouviu o segundo pela primeira vez. A verdade contida nas letras de Raul e a força com que estas verdades eram ditas foram cruciais para que Zara tomasse a decisão de abandonar o estável emprego de bancário e ir viver de música.

“Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, bradava o baiano em Ouro de tolo, petardo de 1973 que, de tão forte e atual, parece ter sido escrita ontem.

Desde 1992 Wilson Zara realiza, anualmente, um show em homenagem ao ídolo baiano, que era fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, e cuja música dialoga diretamente com os universos do rock’n roll – pelo que acabou se tornando mais conhecido – e do baião. O primeiro Tributo a Raul Seixas teve como título A hora do trem passar, de um dos clássicos do repertório do artista, e foi apresentado em Imperatriz, cidade em que Zara então morava.

Este ano o Tributo a Raul Seixas será apresentado no Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Wilson Zara (voz e violão) será acompanhado por Moisés Ferreira (guitarra e efeitos), Marjone (bateria), Mauro Izzy (contrabaixo) e Dicy (vocal).

No repertório, clássicos do repertório do Maluco Beleza, como Eu nasci há 10 mil anos atrás, Gitâ, Rockixe, As minas do Rei Salomão, Eu também vou reclamar, Sociedade Alternativa, How could I know?, Sessão das 10 e SOS, entre muitas outras. Quem gritar “Toca Raul!” certamente terá seu pedido atendido.

Serviço

O quê: Tributo a Raul Seixas – 2018
Quem: Wilson Zara e banda
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 21h
Onde: Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro)
Quanto: R$ 20,00 (à venda no local)

A pulsação do Sangue negro

Pianista que ajudou Lenine a superar trauma com teclas, o jovem recifense Amaro Freitas toca sábado (11) em Barreirinhas, no Lençóis Jazz e Blues Festival

Foto: Jão Vicente

O recifense Amaro Freitas é uma grata revelação da música instrumental brasileira. Estreou como gente grande: em 2016 lançou Sangue negro, em que seu piano é acompanhado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria), além das participações especiais de Eliudo Souza (saxofone) e Fabinho Costa (trompete), todos pernambucanos. A produção ficou a cargo do gaúcho Rafael Vernet, que já trabalhou com nomes como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Wilson das Neves (1936-2017).

É um disco de jazz. Ou se quisermos ir mais longe: é um disco de jazz brasileiro. E dizer isto, ao contrário de afunilar o rótulo, amplia-o: é que Amaro Freitas transita com desenvoltura por diversos gêneros e referências, com especial destaque para o frevo – o disco é aberto por um, Encruzilhada –, samba, afrojazz e balada.

Sangue negro chamou a atenção de Lenine e o pianista participou de Em trânsito (2018), disco novo do conterrâneo – ele toca na faixa Lua candeia (Lenine e Paulo César Pinheiro).

O pianista toca de graça dia 11 de agosto (sábado), às 20h15, na Av. Beira-Rio, em Barreirinhas/MA, na programação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – veja a programação completa. Ele será convidado do guitarrista paraense Delcley Machado. Amaro Freitas conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Jão Vicente

Eu gostaria que você começasse do começo: como foi sua infância e como você chegou ao piano?
Sou pernambucano, recifense, moro na periferia de Recife. Eu comecei na igreja. Meus pais são evangélicos e a igreja tem um papel social muito forte nas periferias. Meu pai quis montar um grupo, ele é o grande responsável por eu ser o que sou hoje. Lá no início, quem plantou tudo isso foi ele. Meu pai quis montar um grupo na igreja, eu era muito novo, tinha 10 anos, 11, e me colocou para tocar bateria, me ensinou um pouquinho de bateria. Ele toca um pouquinho de cada instrumento, não é um profissional, mas ele entende um pouco, toca um pouquinho. Na igreja vários meninos queriam tocar bateria, por conta do instrumento, e ninguém queria tocar o teclado. Aí meu pai: “pô, tu não quer tocar o teclado?” E eu: “não, é muito difícil”. Só que aí ele insistiu e foi me ensinando a tocar teclado e eu fui tomando gosto. Eu tomei goto de uma forma tão grande que eu não queria fazer mais nada, a não ser tocar teclado. Chegava da escola e me trancava no quarto pra tocar teclado, no lugar de estar empinando pipa, brincando, jogando bola, ou fazendo qualquer outra coisa, a minha diversão era tocar teclado. Com 15 anos eu entrei no conservatório pernambucano, só que aí com seis meses eu saí, por conta da condição financeira que a gente se encontrava na época, era uma condição difícil. Nessa idade eu ganhei um dvd de jazz, Chick Corea Acoustic Band. Isso pra mim foi assim importantíssimo, por que até então eu só tinha tido contato com a música da igreja. Escutava uma ou outra coisa assim na rua, mas o contato musical sempre foi com a música da harpa cristã, sacra e dos cantores gospel. Quando eu escutei, eu pensei: “pô, isso é possível fazer na música, velho?”. Aí pirei com a música instrumental, com Chick Corea, depois ganhei um dvd do Oscar Peterson, tocando com Ray Brown. Engraçado, a coisa da música instrumental entrou primeiro na minha vida, antes da cultura pernambucana. Eu só vou ter contato com a música pernambucana lá na frente, que aí eu estudei numa escola chamada Tritones, estava trabalhando de telemarketing e pagando esse curso da Tritones.

Tritones é uma escola de música?
É, o dono dela é Thales Silveira, um contrabaixista daqui, que estudou na Berkeley, abriu essa escola, tem curso de harmonia, arranjo, prática de conjunto, teoria musical, instrumento, enfim, eu estudei lá. E aí, engraçado que depois que eu saí dessa escola eu fiquei naquela coisa de “eu faço uma licenciatura musical na Universidade Federal de Pernambuco ou faço um outro curso?”. Tem um curso aqui chamado Produção Fonográfica, que é um curso mais voltado para esse meio artístico, de como funcionam os editais, de como funciona a divulgação na internet, a história da música eletrônica, e esse curso me cativou muito mais do que fazer licenciatura na Universidade Federal, pela proposta que eu queria dar para minha pessoa.

É um curso de nível superior?
Nível superior, isso. No lugar de ter ido estudar na Federal, eu fiz esse curso, paguei ele. É onde entra o piano na minha vida e essa coisa toda da cultura pernambucana. Eu fui aos restaurantes aqui em Recife e aqui tem uma coisa muito forte de piano bar. Comecei a ver a galera tocar e daqui a pouco eu estava trabalhando com isso. Passei uma temporada no interior, em Gravatá, uma cidade daqui, tocando num restaurante lá, voltei para Recife, comecei a tocar na Pizzaria Atlântico, e era com esse dinheiro da Pizzaria Atlântico que eu pagava o curso, e juntava sempre um dinheiro no banco. Quando eu terminei o curso de Produção Fonográfica, eu já estava conhecendo Chico Science muito bem, o movimento MangueBit, ganhei um livro de Capiba e comecei a estudar a música de Capiba, os frevos, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, tudo isso que é tão rico e importante na nossa cultura. E pensei em gravar o meu primeiro disco.

Sangue negro. Capa. Reprodução

Isso se traduz na sonoridade desse teu primeiro disco, todas essas influências, do jazz, do mangueBit, dessa turma mais ligada ao frevo.
Todas essas influências, sim. Eu te digo que foi aí onde eu conheci também o trabalho do Spok, que é com orquestra, e esse trabalho foi uma motivação pra mim e pra muitos artistas pernambucanos, de ver um cara, que sabe que veio das bandas de baile daqui de Recife, conseguir montar uma orquestra, conseguir ter sucesso com sua orquestra, conseguir levar sua verdade pro mundo. Então todas essas coisas acabaram influenciando minha música. A música de Capiba, obviamente, os choros, as valsas, que eu estudei dele, um pouco também dessa música de fora, aí escancarou, virei fã do Thelonious Monk, do Brad Melhdau, do Herbie Hancock, de todos esses grandes pianistas, de pianistas com uma pegada mais concreta, que veem o piano de uma forma mais rítmica, como é o caso do Craig Taborn. São pianistas que pensam de forma diferente o piano, é muito mais a cabeça de como ele pensa a execução da música e o que ele valoriza como ritmo do que técnica, enfim. Esses pianistas também me influenciaram junto com os pianistas brasileiros, que a gente tem, o Marcos Valle, João Donato. Na minha música eu senti toda essa pressão, e vi que isso é nosso, e comecei a compor as músicas e queria muito gravar o disco. Foi um trabalho, eu posso dizer que, tocando piano bar, eu fui conhecendo os músicos da cena de jazz da cidade e fui tocando com esses músicos, mas a minha vontade sempre foi fazer um trabalho autoral.

Como é que você chega aos músicos que te acompanham em Sangue negro, o baixista e o baterista? É nessa cena do piano bar?
O baixista é nessa cena do piano bar. Eu tocava pra um cara que colocava pianos em restaurantes e um dia ele colocou esse baixista que me acompanha, que é o Jean Elton, pra que a gente tocasse uma gig num restaurante aqui. Quando eu conheci Jean, achei Jean foda, “caramba, esse cara toca muito bem, que respeito à música” e tal. Jean tem certa leveza e respeito, parece um lorde tocando, é muito bonito vê-lo tocar, e o som que ele tira do instrumento também. Comecei a ir ver Jean tocar com um pianista chamado Toni Eucatã, que era um mestre, ele morreu faz dois ou três anos e ele tocava numa casa de jazz aqui chamada Mingus. Quando Toni morreu eu assumi o lugar dele nessa casa e comecei a tocar com Jean e a desenvolver uma amizade e uma linguagem musical também. Quando eu estava querendo um baterista para gravar meu trabalho, um outro amigo disse: “olha, tem o Hugo, que é professor do conservatório, por que você não fala com ele?”. Minha ideia, no início, era gravar standards de jazz, famosos e outros, lado b, que ninguém conhece muito. Quando eu cheguei pra Hugo, pra propor isso, foi muito engraçado, ele disse: “olha, eu gosto muito de trabalhar com música autoral. Se for pra gravar as tuas músicas, eu tou a fim, mas se for pra gravar os mesmos standards de jazz, eu não quero não, velho”. Aí eu disse: “caramba, bicho” [risos].

Então você deve essa guinada a ele, por que você estreia com uma moral danada, o disco recebe críticas elogiosas nos principais veículos, de algum modo você é apontado como uma grata revelação da música instrumental autoral brasileira.
É justamente isso. Por quê? Eu tive o cuidado. Na vida, eu acho o seguinte, a gente tem vários exemplos, a nosso redor, do que deu certo, do que deu errado, de como fazer. Às vezes o músico, ele está muito envolvido com essa coisa romântica do trabalho, mas a burocracia é uma coisa tão necessária e ela precisa ser feita com excelência. Foi aí onde eu acertei. Além da boa qualidade do disco. Por que às vezes a gente vê um disco que tem uma sonoridade legal, mas o disco não tem uma capa legal, o disco é muito longo ou é muito curto, e as pessoas que trabalharam no disco foram de um tamanho muito grande. Hugo e Jean, eles compraram a ideia, a gente teve dois meses ensaiando três dias por semana, pra fazer a pré-produção desse disco, por que até então era um grupo que não tocava junto. A gente se uniu pra formar o repertório e gravar o disco. A gente ganhou a participação de Eliudo Souza, no saxofone, tocando Estudo 0 e Sangue negro, e Fabinho Costa, no trompete, tocando também essas duas músicas. A produção ficou com Rafael Vernet, que é um cara que eu sempre fui fã, eu peguei uma aula com Rafael no Rio de Janeiro, quando eu fui tocar, eu marquei uma hora de aula com ele e a gente ficou três horas e meia. A aula de Rafael, ele tem uma parada que é incrível. Ele consegue verbalizar muito bem a música, ele vem de uma família de filósofos, ele traz toda essa carga filosófica junto com a musicalidade e consegue te fazer entender e até te questionar sobre o que você quer, como você entende a música. Rafael foi muito necessário durante esse processo da pré-produção do disco, ele acompanhou, eu mandava vídeos, tinha um trecho no final da música que, tipo, matava a música, a música vinha num negócio tão lindo e no final eu coloquei um negócio latino, que não tem nada a ver, aí Rafael dizia: “Amaro, por que você fez isso? Tira isso, cara”. No dia da gravação, foi muito legal, ele chegou um dia antes pra ver as músicas ao vivo e a gente começar a gravar no outro dia. Aí ele começou a falar de dedo, de volume da mão esquerda, da quantidade de coda, de improviso, da repetição, foi incrível, eu queria improvisar três coros, só que três coros a gente não conseguia ficar bem, e ele: “você vai improvisar um coro só”. “Mas Rafael…”. “Não, vai ser um coro só”. Então a gente gravou no melhor estúdio da cidade, a mixagem e a masterização foram feitas aqui em Recife com grandes técnicos. O cara que fez a arte, que foi o Thiago Liberdade, também é um cara muito sensível, um cara muito inteligente, Iara Lima, que fez a assessoria de imprensa, de divulgação. Eu sabia que só Amaro Freitas não teria condições de fazer isso tudo. Eu precisava me reunir com profissionais da música que tivessem uma leitura e vissem aquilo que eu não conseguiria ver. Eu só consegui enxergar o que Rafael Vernet enxergava no estúdio seis meses depois [risos]. Eu disse: “caramba, se eu improvisasse três coros ia ficar feio, se a música repetisse mais uma vez ia ficar cansativa, não é que ele tinha razão?”. Eu acho que o trabalho coletivo e colaborativo é o resultado do sucesso do Sangue negro. Também ao mesmo tempo tem uma outra coisa: formar uma banda é uma parada muito difícil. Na banda todo mundo opina e todo mundo decide. E todo mundo tem que dividir os custos. Foi uma das primeiras coisas muito, mas muito importantes. Eu chamei a responsabilidade pra mim, o trabalho é meu, mas quando a gente sobe no palco o Amaro Freitas Trio é como se fosse um triângulo, tem três pontas, mas funciona como um único objeto, não tem Amaro maior que Jean, é tudo a mesma coisa. Só que na responsabilidade dos pagamentos financeiros, na gravação do disco, eu juntei esse dinheiro todo da Pizzaria Atlântico, que eu te falei, junto com os pubs de jazz que eu tocava pra pagar todo esse gasto do disco. Eu gastei 20 mil no disco, tudo isso saiu do meu bolso. A coisa funciona também por conta disso, alguém precisa chamar a responsabilidade. Eu procuro também ser o mais justo por que eu sei da atuação e dedicação dos músicos no meu trabalho. Sangue negro começou por aqui, por Recife, a ser divulgado nos jornais, a gente conseguiu passar no festival Savassi, ganhamos o prêmio Savassi de Novos Talentos, em 2016, a gente foi pra BH, ganhamos o prêmio Mimo, também em 2016, e aí o Sangue negro começou a escorrer.

O título do disco, Sangue negro, foi natural a escolha? Na sonoridade das faixas a gente percebe uma devoção às raízes negras da música, os estilos pelos quais você passeia, afrojazz, frevo etc. Mas existe aí uma espécie de manifesto contra o racismo vigente no Brasil?
Eu te confesso que essa coisa foi ficando mais forte. Quando eu pensei em Sangue negro, a música, eu pensava uma música que representasse o negro na minha visão. E o negro se lascou muito, ainda hoje sofre demais. Tem coisas que você sendo negro você olha pro mundo e você diz: “por que isso é assim?”. Eu não consigo entender por que eu chego nesse lugar e é essa loucura. Então Sangue negro tem essa abertura já no bebop, mas depois vira uma coisa meio experimental, que é a pessoa tentando se encontrar, tentando entender. Traduzindo isso em palavras: “o que é que tá acontecendo?”. Aí vem a dança negra, que é o afrojazz, depois desemboca no improviso de todo mundo, no bebop, que foi desenvolvido também por negros. Volta pra um pedaço experimental e depois a dança de novo, o afrojazz, e acaba a música. Quando a gente acaba de tocar essa música estamos todos pulsando, nosso sangue, até por que a gente toca essa música com muita gana. Tá todo mundo suado. Eu acho que essa música representa também no sentido físico, literal, essa pulsação do sangue negro na execução da própria música. E aí, quando eu fui fazer o disco, a gente pensou em colocar o título do disco Encruzilhada, a gente estava com dificuldade pra chegar ao resultado da arte do disco. Foi quando Iara sugeriu que eu fizesse um ensaio fotográfico com Rafael Medeiros, pra ver se a gente conseguia chegar a um resultado melhor do que tudo que vinha sendo desenvolvido. Aí o Thiago Liberdade escolheu essa foto, que é a foto do disco Sangue negro, e colocou esse filtro. Quando eu vi essa foto eu disse: “caramba, velho, o título tem que ser Sangue negro, não tem como”. Eu acho que mais uma vez o trabalho coletivo chegou nesse lugar. A importância da Iara, a importância do Rafael Medeiros, do Thiago Liberdade, a gente discutiu isso e chegamos juntos nesse resultado. É um disco que representa o negro, que fala da minha realidade como negro também, fala desse protesto, de pianistas negros no país, a gente tem o Moacir Santos, que é um cara daqui de Pernambuco, e nem é conhecido aqui.

Eu ia falar nele por que o Sangue negro me remeteu a Ouro negro, que é título de um disco dele. Eu ia te perguntar se tem alguma influência o trabalho do maestro Moacir Santos, que também é negro, também é pernambucano.
Com certeza! Quando eu escutei Moacir, ele é um cara que trabalha a música brasileira de forma totalmente diferenciada dos outros. Ele vai muito pras claves afro, isso é um negócio assim fora da curva. Só que Moacir é negro, aí tu vai ver que os pianistas mais lembrados do Brasil não são os pianistas negros. A gente tem o Dom Salvador, pianista negro, mas são poucos pianistas negros, são pianistas que a gente escuta muito pouco. A gente vai ouvir falar do César Camargo Mariano, do Luiz Eça, do João Donato, do Tom Jobim, mas esses pianistas negros a gente ouve muito pouco. E eles, na verdade, ganharam uma reverência enorme fora do Brasil, fizeram um nome fora do Brasil, isso é indiscutível. Eu queria reforçar essa coisa do piano negro, do cara negro conseguindo ser pianista, que é um instrumento tão elitista, tão separatista. As pessoas não têm acesso a esse instrumento por sua delicadeza, por seu valor, é um instrumento tão caro, quando tu vai ver a maioria dos pianistas brasileiros são brancos. Eu acho que fazer música autoral, ter uma foto dessa na frente, uma foto com black, o nariz de porrota, achatado, negro, ali, com suas características, fazendo uma coisa que não é muito comum, apesar da gente já ter o Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, o próprio Moacir, mas não é comum você trazer essa música do frevo, maracatu, pro piano. O samba jazz é a coisa que mais se desenvolveu. E se você pensar na cena do sudeste é basicamente isso, o jazz brasileiro é o samba jazz. Então eu poderia dizer que isso já se desenvolveu muito forte no piano. Mas o frevo, o baião, o maracatu, a ciranda, essas coisas não são muito trabalhadas no piano, o maxixe. É uma outra forma de protesto que é trazer os instrumentos acústicos, piano, baixo acústico, bateria, pra tocar essa música nordestina, sem ser nos instrumentos tradicionais, que é a sanfona, os sopros, zabumba, triângulo, e outras coisas.

O selo inglês Far Out te encomendou um disco. Como é que está esse processo?
O disco foi gravado, nove faixas, todo autoral. Eu posso dizer que esse disco vem mais forte que o Sangue negro, no sentido de um trabalho de campo muito mais apurado. Eu fui a Arco Verde, conheci a música de Arco Verde, a gente tem mais de 29 modalidades de coco. Tem um coco de Arco Verde que se chama trupé, a característica desse coco é que ele é tocado com uma sandália de madeira em cima de um tablado, junto com toda a orquestração que há no coco, e as vozes cantando. A célula rítmica que se trabalha com essa sandália de madeira, “tac, tatac, tatac, tac, tatac” [imita o som da sandália de madeira, no ritmo], só que as pessoas fazem isso com o pé. E eu peguei essa célula rítmica e transformei em melodia. Então eu estou dando vez a um ritmo num lugar daquele canto, “ô lerê, ô lerê, ô lalá” [cantarola]. Eu não estou trabalhando esse canto tradicional do coco, eu pego o ritmo, que é a característica do trupé, e transformo esse ritmo em melodia. Então eu começo a distribuir isso pela banda, a gente vai ter [as faixas] Coco Trupé, tem Dona Enir, que é um baião, a gente tem Rasif, que é uma ciranda em homenagem aos arrecifes de Recife. Os arrecifes tinham esse nome antes de se chamar Recife, que é um nome árabe.

Foi título de um livro [Rasif – Mar que arrebenta, Record, 2008] do Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo.
Isso! Meu amigo. Daí é que vem a minha inspiração para colocar o nome dessa ciranda, Rasif, pedra rochosa onde a água bate, tem um significado. Eu queria fazer uma homenagem ao mar de Recife, e peguei esse nome e coloquei nessa ciranda. É uma ciranda que tem uma perninha a mais. Geralmente a ciranda é em quatro, falando em compassos, essa ciranda é em cinco. Só que ela vem com um clima muito balada jazz. É sempre esse contraste, que é uma coisa que eu já trabalhei no Sangue negro, tem um frevo balada, Subindo o morro. O disco ele vem muito temático, mas vem também com um trabalho de pesquisa na cultura pernambucana ainda mais forte, mas com muito improviso, com uma dinâmica diferente. É um pouco diferente do Sangue negro, tem um pouco mais de profundidade. É a primeira vez que eu estou assinando com um selo britânico, com um selo gringo. Esse é um selo britânico, o Far Out, a gente fez um contrato de cinco anos, o disco primeiro será lançado na Europa, pra depois ser lançado no Brasil, já encerramos algumas etapas, o disco está na etapa agora de fazer a arte. Isso é uma coisa muito engraçada, por que a arte que vai ser desenvolvida lá fora, provavelmente não vai ser a arte que vai ser desenvolvida aqui no Brasil, por que eles precisam de um estereótipo diferente do nosso, tipo, eles precisam colocar no disco “Recife”, ou “Brasil”, pra dizer que o trabalho é de um lugar diferente da região deles. Eu acho que a arte do disco pode ser aproveitada, mas a gente vai ter o mesmo disco em dois formatos. Tudo depende do andamento da Far Out, nossa parte já foi feita e a Far Out tem ainda um tempo, pelo prazo do contrato, pra entregar arte e prensagem do disco.

Foi gravado pela mesma turma do Sangue negro?
Foi gravado com meus companheiros e escudeiros fiéis, Jean e Hugo, e teve a participação de um pernambucano também, chamado Henrique Albino, que é um multi-instrumentista daqui, muito bom, ele participa tocando flauta, clarone e sax barítono. Essa coisa de gravar o disco com um trio, com o passar do tempo a gente conseguiu desenvolver uma linguagem ainda mais peculiar, muito mais íntima, entre nós, conhecendo sinais e movimentos muito pequenos, a gente já consegue se conectar de uma forma muito grande. Isso pra mim é valiosíssimo. De início eu pensei em várias participações, depois eu voltei atrás e pensei: “não, o que a gente está fazendo é isso, eu não posso quebrar, de repente não vai funcionar”. Aí a gente chamou Albino, que é um cara muito próximo meu também, um amigo, e decidimos que ele seria a única participação do disco. O disco vem um pouco maior, existe uma espera muito grande por esse segundo disco, isso me deixa muito motivado também por que a maioria dos críticos está esperando esse disco para falar sobre ele. Tem coisa que é coisa de crítico, querer comparar com Sangue negro, enfim. É um disco que está sendo esperado. Eu fico feliz de poder fazer mais um disco de música autoral e de repente estar incentivando várias pessoas a fazerem esse tipo de trabalho. A gente tem que pensar na música da nossa época. 2018, o que é que estava acontecendo no Brasil? Lá na frente o pessoal vai querer saber desse tipo de trabalho. Como a gente hoje conhece Ouro negro, o trabalho de Hermeto, o trabalho de Capiba, por que eles deixaram uma música autoral deles registrada na história. Eu tenho uma preocupação muito grande hoje de dar esse alerta, esse empurrão, essa chamada. Vamos fazer nossa música. É bom tocar standard, é bom demais, eu tenho uma reverência muito grande por todos os grandes mestres e por todos que lutaram pela música instrumental em geral, fora do jazz também, sabe?, mas eles tinham as músicas deles. Uma coisa que vai acontecer nesse meu segundo disco é essa relação com a vida que a gente tem hoje. Hoje a gente tem uma vida corrida, uma vida frenética, a gente quer que chegue logo o fim do dia, a gente não consegue mais namorar o entardecer, ou o amanhecer, hoje a gente quer que chegue logo o fim de semana, o fim do mês, o fim do ano, por conta do décimo terceiro salário, essa agonia.

Quer que chegue o fim do ano pra ver se esse governo ilegítimo deixa o cargo, não é?
Pois é. Essa bagunça que tá, essa safadeza, essa anarquia. O disco vem com uma pitada disso. Ele tem umas músicas que são meio quebradas, meio frenéticas, com aquela vontade de sair correndo. Eu acho que isso é muito valioso, por que a gente registra de uma forma muito particular o que se passa nos dias de hoje.

Como foi a participação em Em trânsito, disco novo de Lenine? Na tua opinião, é mais um endosso a teu trabalho?
Eu te confesso que foi incrível. Eu não esperava. Lenine foi assistir a um show meu na Blue Note, no Rio. Ele é um cara incrível nisso, está em uma de pesquisar o que está acontecendo. Ele viu que ia ter meu show, foi assistir. No fim do show, ele disse: “cara, eu tive um problema com teclas durante um tempo”, por conta daquele movimento todo que aconteceu nos anos 1980, aqueles teclados de plástico, aquela música americana invadindo o Brasil, os pops brasileiros. Lenine fez uns trabalhos naquela época que meio que criaram um trauma, uma trava nele. E ele disse que me ver tocar piano trouxe uma grande alegria por que quebrou esse trauma. Ele disse: “não é um preconceito, mas você olha diferente”. Ele disse uma coisa pra mim que eu fiquei muito feliz: “a tua música é totalmente diferente da minha, mas eu sinto Pernambuco na tua música, de uma forma tão grandiosa, como eu sinto em qualquer um, em Alceu [Valença]”. Eu guardei essa frase e acredito muito nisso e nessa missão de estar lutando por essa música. Aí Lenine disse: “a gente vai fazer alguma coisa, eu não sei o que é ainda, mas a gente vai fazer”. Eu disse: “beleza, vamos nessa!”. Mas não esperava nada. E aí, com o passar do tempo, ele me liga, eu tava almoçando, ele: “ó, aqui é o Lenine”, e eu: “eita!”. E ele: “eu queria te chamar pra fazer uma participação no meu disco, eu nunca sou de chamar as pessoas pelo nome, eu sou de chamar pessoas que me tocam e eu sinto que gostaria muito de trocar com essa pessoa. Eu quero que você participe, você e Carlos Malta”. Ele comprou minha passagem, perguntou qual era o piano que eu queria, a equipe de produção muito cuidadosa, muito gentil, carinhosa. Cheguei, tive apenas dois dias inteiros com Lenine. Cara, eu conversei muito. Eu parecia um jornalista, interrogando. Por que é muita coisa que o cara tem pra dar. Lição de vida, visão de mundo, de como ele conseguiu driblar, vencer. E aí a parte mais difícil pra mim foi quando ele disse: “faz o arranjo e eu já sei que seu arranjo vai ficar bom”. Eu disse: “caramba!”. Olha o tamanho da responsabilidade…

As ruas do mundo como escola

Retrato: Zema Ribeiro

 

Vini de Vici literalmente corre o chapéu. Ele está se apresentando semanalmente às quartas-feiras, entre 18h30 e 20h, no calçadão em frente ao Cafofo da Tia Dica, no Beco da Alfândega, Praia Grande. Seu cachê é o que consegue catar no chapéu defronte a si e o dinheiro que consegue vendendo seu primeiro cd, de que desenhou capa, contracapa e selo.

A arte que ilustra a capa de seu primeiro disco. Reprodução

Conheci-o por acaso: estava sentado na calçada oposta à em que ele se preparava para ocupar, quando seus acordes ao violão chamaram minha atenção e de Tião Carvalho, que eu entrevistava na ocasião. O repertório era fino e brasileiríssimo: peças de Baden Powell, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes.

Comprei o disco para puxar conversa e conseguir o contato. Americano de Minnesota, Vincent James DeRasmi tem 37 anos, é filho de músico e roda o mundo tocando na rua. “Eu não vou tocar na rua para sempre”, diz como que para si mesmo durante a entrevista, embora considere a rua uma escola.

Trabalhou em restaurantes, bares, construção, sindicato, “construindo palcos, em teatros, fiz qualquer coisa para apoiar minha música”, revela.

O artista é um incansável e obstinado pesquisador, procurando sempre beber da fonte. É literalmente uma enciclopédia ambulante das sonoridades do mundo, um viciado em descobrir o novo. Uma semana depois de nosso primeiro encontro, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Zema Ribeiro

Teu nome tem origem italiana?
Na verdade meu nome é Vincent. Esse nome vem de um dito em latim, “veni, vidi, vici”, que significa “vim, vi e venci”. É um jogo de palavras, por que o apelido de Vincent é Vini. Eu tentei pegar Vini Vidi Vici, mas alguém já pegou, então Vini de Vici.

Você é natural dos Estados Unidos. De onde, de que região?
O meio oeste. Tipo, Minnesota, um estado bem ao norte, fronteira com o Canadá. O Rio Mississipi começa lá.

Então você tem um sangue meio blueseiro?
Meu pai toca trompete, ele viajou pela Europa e todos os Estados Unidos, fazendo blues, jazz, folk, Joseph DeRasmi. Ele começou a obter um nível de sucesso e eu vi que era possível viajar o mundo com música. Ele não é como famoso, mas por um momento viveu de música. Por isso eu comecei a seguir meu caminho, a dedicar minha vida à música.

Você já passou por outros países? Pergunto por que teu disco tem 12 faixas e tem muito essa temática de viagem. Fala um pouco dos lugares por onde você já passou e se foi sempre a música que te levou a esses lugares.
Sim. A primeira viagem eu fiz em 2010 e fui à Espanha. Eu sou roqueiro e tive grupo de heavy metal por muitos anos. Rock, heavy metal, funk, groove. Cansei. Ter uma banda é como estar casado com quatro outras pessoas, é complicado. Tenho saudades, mas enfim, cansei de tudo isso. Fui à Espanha para estudar flamenco, pegar as técnicas do violão. Essa foi a minha primeira viagem e abriu minha mente. Para verdadeiramente aprender uma música você tem que ir à fonte. Qualquer país, qualquer região onde tem qualquer ritmo que você queira aprender. Depois disso minha mente começou a virar, fui à Costa Rica, conheci algumas pessoas viajando por muito tempo e abriu ainda mais minha mente sobre viajar, tocando na rua, nos restaurantes. Em qualquer lugar que eu tocar, a gente apoia [as pessoas apoiam]. Aprendi isso com outros amigos que conheci no Peru, tenho muitos amigos no Peru. Eu aprendi a trabalhar com a música, como artista da rua. Depois do Peru eu fui ao Equador, Colômbia, toda América Central, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, El Salvador, Belize, México. Então voltei a meu país e vendi tudo o que tinha para pagar dívidas e voltei ao Peru para seguir ao sul. Passei por Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Uruguai, voltei à Argentina e estou aqui. Mas todo tempo estudando os ritmos do lugar. Quando estava na Bolívia, eu toquei música boliviana nos mercados. Para pegar o ritmo do povo da terra onde estava no momento.

Dá para dizer que musicalmente você procura se adaptar à cultura local? Por exemplo, você nunca fez música americana fora dos Estados Unidos, música espanhola fora da Espanha?
Sim, eu fiz. Muita gente fala, como aqui no Brasil, “você poderia ganhar muita grana tocando música americana”. Pode ser assim, mas eu não viajei tão longe para tocar a música que já toquei lá. Pode ser um caminho um pouco mais difícil, mas eu quero tocar, como agora estou no Maranhão, tentei pegar alguns bois, Papete, eu não posso aprender tudo, mas eu creio no repertório, na viagem do som. Se tem uma hora e posso tocar música do México até aqui, essa é a minha ideia, por isso eu fiz a arte [do cd] com o mapa do mundo.

O que me chamou a atenção te ouvindo tocar semana passada foi justamente o repertório. Eu ouvi cerca de meia hora em que você passeou por Zequinha de Abreu, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Ernesto Nazareth. E agora, você já até antecipou uma pergunta que eu tinha, que era se você já conhecia os compositores do Maranhão e você falou de Papete, que tinha algumas composições, mas era mais intérprete e percussionista. Você conhece o trabalho de outros artistas daqui?
Eu vim aqui para encontrar um amigo que conheci no Rio de Janeiro, tocamos juntos, ele toca um pandeiro na linha rap, se chama Pensativo do Pandeiro, é o nome artístico dele. Tocamos bastante aqui também, temos uma química muito boa quando tocamos, nem sempre dá. Através dele conheci [a obra de] Papete, alguns bois, como “se não existisse o sol” [cantarola]. Eu fiz a minha própria versão, por que em boi não há violão. Vários ritmos, como o coco em Pernambuco, não há violão, a salsa, na Colômbia, não há violão. Vários ritmos eu tenho que criar uma versão no violão, por que esse é meu instrumento, para adaptar a melodia.

No disco você toca vários instrumentos, mas o violão é teu instrumento principal.
[Além de violão] Eu toco berimbau no disco e um pouco de pandeiro na faixa oito [Renew]. Meu mestre de capoeira, que conheci no Rio de Janeiro, mestre do samba também, ele falou que se eu precisasse de ajuda com a percussão… Ele se chama Mestre Duda Pirata.

Esse é teu primeiro disco?
Sim, é o volume um. Está disponível no spotify, é possível fazer o download em todas as plataformas digitais. O volume dois já está pronto, mas vou divulgar apenas em novembro.

Está gravado? Vai prensar e distribuir como um cd físico ou só digital?
Desse disco eu fiz mil cópias, é mais barato se você imprime mais. Cd ainda faz parte da indústria musical, mas a maior parte das pessoas, eu incluído, nem tem máquina de [tocar] cd mais. Notebook nem tem mais entrada pra cd. Volume dois, por enquanto, não tenho tanta grana, faz seis anos que estou viajando, vou divulgar primeiro digital, só na internet.

São Luís é mais uma parada, já tem uma pretensão de outro ponto?
O Brasil tem muita riqueza, é enorme, é incrível como muda o som em qualquer lugar. Eu vi tambor de crioula uma vez e chega aqui tem quase todo dia, se procurar, vai encontrar, pelo menos em junho, no São João. Para mim foi uma bomba cultural. Tenho vontade de ir ao Pará, terra do carimbó, quero conhecer mais o Norte, o Amazonas, os ritmos indígenas. Quando estive em Pernambuco fiquei numa tribo, os Xucuru, no sertão, lá eles só tocam maracá, cantam, batem palmas. Maracá está atrás, não sei todo o ritmo, mas coco, capoeira, boi, o maracá é um instrumento muito forte. Estou procurando as raízes da música, do folclore. Meu interesse vem dos indígenas e da África.

Se a gente tentasse definir esse teu interesse, essa tua busca permanente por um som novo, pelas raízes, a gente poderia dizer que você está sempre em busca de um aprendizado, uma busca eterna por um aprendizado?
É quase um vício, aprender algo novo, como a alimentação, minha alma, minha mente, minha arte também. Eu tenho um som que vem de dentro, componho, você viu no meu cd, e não penso “eu vou compor uma música como baião, vou compor um samba”. Sai. Aprendendo vários ritmos assim, o som que sai de mim fica mais eclético, por causa das coisas que estou absorvendo em meu caminho. Eu gosto.

No teu disco a gente percebe uma inclinação para a música instrumental, mas há faixas cantadas e em vários idiomas. É um pouco também uma maneira de demonstrar esse acúmulo, essas passagens por várias regiões do mundo?
No Volume um eu fiz um grande trilogia, The trip, El viaje, A viagem, essas três últimas músicas do cd são a primeira trilogia que eu compus para violão. Eu coloquei a maioria das minhas músicas como instrumental, mas às vezes nem precisa letra, às vezes a melodia tocada fala sem precisar cantar alguma coisa.

No volume um você gravou o Odeon, de Ernesto Nazareth. Por que essa escolha?
Eu lembro a primeira vez que ouvi essa música, era uma festa, o Mimo, um festival que passa por Olinda, Rio, cidade patrimonial de Paraty, eu estava lá por um tempo e uma banda tocou isso. Eu fiquei cativado. De repente eu saí do Brasil, voltei, conheci vários amigos, estudei numa escola de chorinho no Rio, chama Escola Portátil, voltei ao Brasil para ir lá para pegar um semestre para aprender a tocar chorinho, aprender a estrutura e tudo isso. Estudei Odeon. Para mim Odeon é como o Brasil. Eu sinto, é uma música bem complexa, harmonia, melodia descomunal. Essa música para mim tem muito sentido, por isso a escolha e nunca cansei dela.

Você falou em um ponto da conversa que cada lugar que você chega você procura se aprofundar na música daquele lugar, nas raízes. Você falou dos indígenas aqui, na porção africana da música brasileira. Como é que surge o teu interesse por música brasileira?
A bossa nova, o Brasil está mais conhecido por bossa nova. Eu canto chorinho, eu canto jazz. Chorinho, para mim, é quase tipo o jazz brasileiro, tem outra estrutura. Por isso eu viajo. Se não há muitas músicas que você nunca vai conhecer. Eu estava para aprender, pegar o suingue do samba não é tão fácil para o gringo, para aprender, conheci [a obra de] Baden Powell na Argentina, um amigo tinha o disco, e pensei: eu tenho que estudá-lo. Peguei partituras, eu não gosto muito de partituras, mas é uma boa maneira para tocar exatamente o que ele está tocando. Ouvindo, lendo a partitura, para entrar na cabeça dele. Baden Powell foi o primeiro violonista brasileiro em que tentei entrar na cabeça. De qualquer músico eu pretendo entrar na cabeça, pegar o jeito que ele está pensando.

Além destes nomes que a gente já citou e que eu te ouvi tocando semana passada, que outros nomes da música brasileira te chamam a atenção?
Caramba! Aqui no Nordeste Luiz Gonzaga, Dominguinhos, ainda não toco tanto, tipo forró, baião. Jackson do Pandeiro eu gosto da cadência. Ele é tipo hip hop, antes do rap ele já estava fazendo isso, como ele canta. Gosto como ele toca baião, forró, mas ele também toca samba, é quase uma ponte entre os dois ritmos. Ele é um grande nome para mim, uma grande figura. Mas também, por exemplo, em Pernambuco há tantos mestres de coco, maracatu. Eu tenho muita vontade de voltar por Pernambuco. Só estive lá dois meses.

Você está há quanto tempo em São Luís?
Só um mês. Pouco tempo.

A rua é uma escola?
Sim. Faço cinco anos tocando na rua. Uma bomba pode explodir a meu lado [enquanto eu estiver] tocando e vou seguir tocando. Sempre há distração, crianças, gente gritando. É uma escola.

Você falou há pouco, particularmente do samba, e da dificuldade da ginga do samba para o gringo, mas semana passada eu percebi a desenvoltura com que você faz o repertório brasileiro. Você consegue se adaptar, na minha avaliação. Como você se sente, um gringo fazendo música brasileira, mas fazendo como um nativo?
Tenho sorte, conheci muitos mestres, ainda estudo muito. Fico muitas horas praticando. É uma das melhores coisas que me ajudam, foi meu mestre Duda Pirata, lá no Rio. É um mestre do samba, sempre toca em rodas de samba, me deu um grande braço, “vai pra roda, pra brincar com a gente”. Comecei a tocar com a galera, duas vezes por semana. Às vezes o violonista não chegou, eles só falam o tom, “dó maior” e “tchec, tchec, tchec” [imita o som da batida do violão]. É uma galera sambista que viaja o mundo tocando samba.

A língua foi uma barreira, é uma barreira?
Ainda é um pouco, no início foi bem complicado. Não tanto. As pessoas querem ajudar você. Tem que estudar também, eu estudei muito. Com a tecnologia há várias maneiras para melhorar seu idioma. Música eu estudo muito, a música brasileira ajuda a pegar o sotaque, embora eu ainda tenha o sotaque forte, está melhorando.

Você falou que não vai tocar na rua para sempre. Onde é que o Vini quer chegar?
No palco. Teatros, mas quero seguir fazendo o que estou fazendo, viajando, estudando e aprendendo, como tocar na rua, na América Latina, em todos os países, do México até aqui. Não sei se esse estilo de vida vai dar certo do outro lado do mundo. Mesmo aqui é uma luta, eu não ganho muito dinheiro. Mas quero chegar ao palco. Tem que escolher o caminho do coração e este é meu caminho do coração. Não vou voltar a minha vida como era antes no meu país. Sou músico agora e vou fazer qualquer coisa para seguir esse caminho.

Sua voz ecoará para sempre

Blues for Lady Day. A história de Billie Holiday. Capa. Reprodução

 

O traço de Paolo Parisi engana o leitor mais apressado: parece econômico, mas o que o quadrinhista quer é que o leitor capte a alma de seus personagens. Ainda mais personagens tão intensos quanto John Coltrane (1926-1967) – biografado em Coltrane [Veneta, 2016] – e Billie Holiday (Eleanora Fagan Gough, 1915-1959), protagonista do recém-lançado Blues for Lady Day – A história de Billie Holiday [Blues for Lady Day; tradução: Rosane Pavam; Veneta, 2018, 112 p.; R$ 55,00].

Autor de traço e texto, Parisi, graduado em História da Arquitetura Contemporânea pela Universidade de Bologna, Itália, se vale de tudo ao refazer a trajetória da cantora, entre diários, discos, canções, livros (citados em bibliografia e discografia essenciais, ao final do volume), o noticiário da época, depoimentos de personagens que orbitaram em seu redor – Count Basie, Artie Shaw, Tony Scott e Louis Armstrong, para citar apenas alguns –, a relação conturbada com o pai Clarence Holiday, também músico, numa narrativa que foge do convencional e da linearidade.

Não deixa de abordar nenhum aspecto da vida trágica, sem pender ao sensacionalismo ou à indulgência: sua graphic novel equilibra-se entre a vida difícil de garota de origem suburbana, a prostituição, problemas com drogas e a polícia, e a estrela fundamental para a música americana – que ganhou o mundo.

Em Breve nota à margem, texto ao final do volume, Parisi explica suas escolhas, algumas bastante pessoais, como nomear os capítulos com títulos de algumas de suas canções preferidas entre as de Billie Holiday. Neste texto, lemos, em alturas diferentes: “O blues é entretenimento e história. O blues é voz política”, e depois: “Nós nos entretemos para não morrer”, entre outros pontos destacáveis.

Reside justo no equilíbrio entre entretenimento e história o grande trunfo dessa hq, como terá nisso residido a qualidade da obra de Billie Holiday, “ao mesmo tempo íntima e política”.

O reconhecimento do desenhista à grandeza de Billie Holiday é mais uma justa e merecida contribuição à preservação do legado de Lady Day. Oxalá sirva também para lhe angariar novos ouvintes.

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Ouça Strange fruit (Lewis Allan), com Billie Holiday:

Uma força da natureza

Foto: Fernanda Torres

 

Leila Maria não é apenas uma cantora: é uma força da natureza.

Força é palavra que bem a define, justamente por nunca ter vestido a camisa de, que quase sempre predestina as cantoras brasileiras e negras ao samba. Se rebolar, então…

Por falar em rebolado, Leila Maria dança o jazz.

O jazz pelo qual se apaixonou quando, criança, ouviu Night and day, de Cole Porter, na interpretação de Frank Sinatra.

“Eu achava que era música de velho. Eu era criança. Meu pai viajava muito, trazia discos, botava para ouvir, minha mãe dançava. Eu já estudava inglês, sou professora de inglês. Um dia eu prestei atenção na letra e foi uma paixão que eu carrego até hoje”, revelou.

A música foi um dos números do repertório de altíssimo nível apresentado pela cantora, ontem (27), no Teatro Arthur Azevedo, durante a cerimônia de lançamento da 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival.

Falar em altíssimo nível em se tratando de Leila Maria é fácil: é capaz de ela arrepiar o público cantando até um simples parabéns a você.

Não é para qualquer uma ser chamada de “a voz brasileira de Billie Holiday”, como a crítica especializada costuma se referir a ela, que dedicou um disco, vencedor do Prêmio da Música Brasileira, ao repertório da americana.

A noite foi a grande escola de Leila Maria, os pianos-bares cariocas: o luxuoso Hotel Novo Mundo, a Modern Sound, entre outros palcos privilegiados. Na verdade, privilegiado é o público que a prestigia. “Vocês precisam saber: vocês também são parte do show. Se a gente saísse de casa e vocês não estivessem aqui, não era show, era ensaio”, disse, simpática e sincera.

Quando cantou Cry me a river (Arthur Hamilton), tirou onda: “alguém aí lembra da Kelly Key? Ela dizia “baba, baby, baby, baba”. Essa música é a mesma coisa. Quando eu cantava na Modern Sound, cantei três anos lá, as pessoas puxavam as giletes para cortar os pulsos. Tem uma coisa de vingança muito forte nessa letra. Você pisa e depois quer de volta? Nããããão…”. De música em música e história em história, conquistou e encantou o público.

Acompanhada por Fernando Costa (piano e vocais), Ricardo Costa (bateria) e César Dias (contrabaixo acústico), Leila Maria desfilou um repertório predominantemente cantado em inglês. Senhora do palco, deixou margem para o trio exibir seus talentos individuais, sobretudo em A night in Tunisia (Dizzy Gilesppie), tema originalmente instrumental que ganharia letra a pedido de Ella Fitzgerald.

Em português, com divisão diferenciada, cantou Desafinado (Tom Jobim/ Newton Mendonça), que dá título – Off key, em inglês – ao disco que ela dedicou a temas da bossa nova que se transformaram em standards de jazz lá fora.

“Agora eu vou cantar um samba. Mas eu vou cantar em inglês, que é para a discrepância ser maior”, gracejou, antes de mandar So nice, versão para o Samba de verão, dos irmãos Vale, Marcos e Paulo Sérgio.

Por falar em irmãos, os irmãos Gershwin, George e Ira, também compareceram ao repertório: The man I love abriu a apresentação da cantora e Summertime encerrou a noite.

“Apesar de ter conhecido pouco, eu adorei a cidade de vocês. Espero voltar mais vezes”, derramou-se. Com certeza o público que a viu ontem também espera. A julgar pelo show de lançamento e pela programação anunciada vai ser bonita a grande festa de comemoração pelas 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival.

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10 ANOS DE UM FESTIVAL NOTA 10!

[textinho que tive a honra de escrever para a programação do evento, distribuída desde ontem]

Uma década de existência ininterrupta consolida qualquer festival no calendário cultural de qualquer lugar. É o que celebramos nesta 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, que em 2018 segue firme em seus propósitos: a diversidade de linguagens, a formação de plateia, o intercâmbio, a qualificação de integrantes da cadeia produtiva da música, através das oficinas, e, é claro, muita diversão.

O êxito do festival, ao longo desse tempo em que é realizado, deve-se a uma conjugação de fatores: a qualidade dos artistas convidados e, consequentemente, de suas apresentações, as belezas dos cartões postais em que se insere – diversos pontos das cidades de Barrerinhas, “capital” dos Lençóis Maranhenses que batizam o evento, e São Luís, capital do Maranhão, tão diverso culturalmente.

Por falar neste aspecto, importante ressaltar a troca sempre promovida, não apenas entre músicos, ao juntar atrações nacionais a atrações locais, valorizando a estrada percorrida por artistas em sua missão de “ir aonde o povo está”, como cantou o poeta, mas também, antenas ligadas, como é dever de qualquer festival que se preze, apontando para o futuro, descobrindo novidades, antecipando tendências.

10 edições é um marco por si só histórico. Mas “um mais um é sempre mais que dois”, como cantou outro, e há coisas que a matemática pura e simples não explica, ao menos não completamente. Não são 10 edições quaisquer: em 2018 completam-se 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival, a que se deseja vida longa, pois muito ainda há por fazer e mostrar ao público do Maranhão – e que vem de outros lugares para prestigiar. Você, aí: junte-se a eles! Junte-se a nós!

Lançamento do Lençóis Jazz e Blues Festival terá show de Leila Maria, hoje

A cantora Leila Maria. Foto: divulgação

 

“Em minha gestão o Tutuca não ganhará nada, está fora. A briga com o Ronald [Pinheiro, compositor] mostrou o quanto ele estava engajado politicamente com o grupo que faz oposição ao nosso”, desferiu o então secretário de Estado da Cultura Luiz Bulcão, em entrevista, cerca de um mês após a consolidação do golpe que tirou Jackson Lago (1934-2011) do Palácio dos Leões e devolveu a cadeira de governadora a Roseana Sarney.

Ainda não sabíamos, mas em 2009 aconteceria a primeira edição do maior feito de Tutuca como produtor: o hoje longevo Lençóis Jazz e Blues Festival, que colocou o Maranhão definitivamente no mapa das grandes produções do gênero – aquela primeira edição contou com o patrocínio da Cemar, ainda sem a chancela da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com que a empresa continuou a parceria, até hoje.

Hoje (27), logo mais às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece o lançamento da comemorativa 10ª. edição do festival, que em 2018 terá, como de praxe, duas etapas: a primeira em Barreirinhas, entre os dias 10 a 12 de agosto, e a segunda em São Luís, no fim de semana seguinte (17 e 18).

No lançamento do festival quem canta é a carioca Leila Maria, que a crítica especializada costuma dizer tratar-se da voz brasileira de Billie Holiday. Os ingressos para o evento podem ser trocados na bilheteria do teatro por um quilo de alimento não perecível, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair (São José de Ribamar/MA).

Entre as atrações confirmadas para a edição de 2018, o cantor e compositor mineiro Lô Borges, que presta homenagem aos 75 anos do parceiro Milton Nascimento; o gaitista Jefferson Gonçalves, bluesman talvez de presença mais constante nestes 10 anos de festival; o pianista pernambucano Amaro Freitas, grata revelação da música instrumental brasileira; Fauzi Beydoun, artista à frente do fenômeno reggae Tribo de Jah, desta feita mostrando sua porção bluesman; o pianista acriano João Donato, um dos inventores da bossa nova (se apresenta em São Luís dia 17 de agosto, data em que completa 84 anos de idade); o gaitista brasiliense Gabriel Grossi; a cantora carioca Taryn Szpilman; o reinventor do bandolim Hamilton de Holanda; e o violonista piauiense Josué Costa, outra jovem e grata revelação da música instrumental brasileira – programação completa no site do festival.

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Ouça Leila Maria em Swing, brother, swing (Clarence Williams/ Walter Bishop/ Lewis Raymond):

Rufar dos Tambores homenageia Papete

O percussionista maranhense Papete. Foto: Bruno Mendonça

 

“Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás”.

O depoimento do percussionista Luiz Cláudio, paraense radicado no Maranhão desde o início da década de 1980, a Ricarte Almeida Santos e este repórter, para a série Chorografia do Maranhão, relembra o impacto que foi, ver e ouvir pela primeira vez o genuinamente maranhense tambor de crioula.

Com base em São Luís, Luiz Cláudio fez escola, com saídas pontuais. Tocou com meio mundo de gente. Para citar apenas alguns artistas em cuja ficha técnica de discos seu nome aparece: Cesar Teixeira, Ceumar, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro.

Nesta sexta-feira (27), das 15h às 22h, com programação inteiramente gratuita, entre oficinas (todas as vagas preenchidas com bastante antecedência) e shows, acontece o Rufar dos Tambores – Festival de Percussão de São Luís, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

“De algum modo isso está atrasado”, comentou o músico em entrevista a Gisa Franco e este escriba, sábado passado (21), no Balaio Cultural, programa que dividimos na Rádio Timbira AM (1290KHz). Longe de se lamentar, o que Luiz Cláudio disse é que, diante de sua devoção e reverência a grandes mestres da percussão maranhense, um evento desse naipe já deveria contar com várias edições realizadas, sob sua idealização e produção.

Esta primeira, em um único dia, é um passo inaugural. O percussionista revelou a intenção de consolidar o Rufar dos Tambores no calendário cultural da cidade, sem negar a influência do baiano Panorama Percussivo Mundial, o famosíssimo Percpan, que já teve o gigante Naná Vasconcelos (1944-2016) na direção musical.

A edição inaugural do festival homenageia Papete (1947-2016), talvez mais reconhecido como cantor, graças a álbuns antológicos como Bandeira de aço (1978), divisor de águas da música popular produzida no Maranhão, mas, antes de qualquer coisa, percussionista reconhecido internacionalmente.

“Nenhum artista simboliza os batuques afro-indígenas da nossa cultura popular como este percussionista (…) que dedicou sua vida a divulgar os ritmos e as toadas de nossos cantadores. Papete foi o primeiro músico brasileiro a fazer um show exclusivamente voltado para a percussão nacional”, o caprichado material de divulgação justifica a escolha.

Entre as atrações – programação completa na página do evento no facebook – destaques para o Batuque de São Benedito, “realizado anualmente dia 6 de janeiro no município de Carutapera por ocasião do festejo da igreja de São Benedito”, o Boi Brilho da Sociedade, “um dos mais tradicionais grupos do bumba-meu-boi maranhense, (…) um dos seis grupos do sotaque Costa de Mão que ainda estão em atividade”, o Terecô de Igaraú, “brincadeira de cordão realizada sempre no dia 25 de janeiro, em homenagem a Nossa Senhora de Belém, (…) tradição de mais de 200 anos, em que três tambores são batidos por mulheres” e o grupo Divina Batucada, que, inspirado “nas antigas turmas de samba, como Fuzileiros da Fuzarca, Turma do Quinto e Vira-Latas, homenageia os grandes nomes da velha guarda do samba tradicional maranhense, cantando, principalmente, canções que marcaram a história dos antigos carnavais” – aspas pescadas do material de divulgação.

A programação do primeiro Rufar dos Tambores será encerrada com o show Encantarias, título do EP que Luiz Cláudio lançou no fim do ano passado, com participações especiais de Chico César e Zeca Baleiro.

Vinil duplo celebra 20 anos de Carnaval na obra

Carnaval na obra. Capa. Reprodução

 

Terceiro disco da mundo livre s.a. (grafado assim mesmo, em minúsculas), Carnaval na obra (1998) foi um dos álbuns que me apresentou ao movimento MangueBit (grafia conforme Paula Lira, em seu A grande serpente) – foi o disco inaugural da Abril Music, num tempo em que a MTV Brasil apontava as antenas para boas novidades da música brasileira.

Antes do disco em si, lembro de uma coletânea encartada na revista Trip, dedicada ao movimento pernambucano, com nomes como mundo livre s.a. (Alice Williams, faixa que abre Carnaval na obra), Nação Zumbi e Matalanamão, entre outros.

Depois daquele aperitivo da revista (tenho o cd até hoje), descobri o terceiro disco inteiro e, no rastro, toda a discografia da mundo livre s.a. até então: Samba esquema noise, a estreia de 1994, de título e sonoridade de inspiração jorgebeniana, e Guentando a oia (1996).

Então formada pelo jornalista Fred Zeroquatro (voz, cavaquinho, guitarra, violão, banjo e surdo), Tony (bateria, caixa de ferramentas, programação de bateria eletrônica e backing vocal), Fábio (baixo), Bactéria (teclados, guitarra e backing vocal) e Marcelo Pianinho (percussão), a banda teve, nas 14 faixas de Carnaval na obra, quatro produtores que dizem muito do som brasileiro para ouvidos atentos lançado à época: Apollo 9, Bid, Carlos Eduardo Miranda e Edu K.

Além de Alice Williams, amor à primeira audição do duelo-diálogo de cavaquinho e bateria, Carnaval na obra traz faixas como A expressão exata, Quem tem bit tem tudo, O africano e o ariano, Novos eldorados e Compromisso de morte, entre outras, nas quais o componente político das letras de Zeroquatro já dava o tom.

Destaco ainda Bolo de ameixa, parceria com o jornalista Xico Sá, e Édipo, o homem que virou veículo, composta a partir de uma notícia de jornal: uma secretária municipal do Recife, ao ver catadores de materiais recicláveis em ação, exclamou que eles eram “mal-educados, pois não usavam luvas” para fazer seu trabalho. O Brasil é surreal faz tempo.

Outra curiosidade de Carnaval na obra, movida pelo preconceito contra o qual também se insurgiram desde sempre, é o título do disco. Estavam almoçando em um restaurante em São Paulo, próximo do estúdio onde o disco era gravado, quando um garçom indagou-lhes, ao ouvir o sotaque fortemente nordestino da trupe: “em que obra vocês estão trabalhando?”. Foi o suficiente para batizar o terceiro álbum de sua fusão de maracatu, rock e samba.

Celebrando os 20 anos de seu lançamento, Carnaval na obra acaba de ganhar edição comemorativa em vinil duplo de 180 gramas na coleção “Clássicos em vinil”, da Polysom.

 

Um homem plural

Tião Carvalho conversou com exclusividade com o JP Turismo, aproveitando sua passagem por São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina.

TEXTO E RETRATO: ZEMA RIBEIRO

O maranhense Tião Carvalho não cursou faculdade, mas hoje em dia entra em universidades para dar aula. Com quase 40 anos em São Paulo e mais de 30 de Grupo Cupuaçu, o artista nascido em Cururupu José Antonio Pires de Carvalho consolidou-se como um embaixador da cultura maranhense em outros cantos do país e da cultura brasileira em outros cantos do mundo.

Ele ganhou o apelido Tião nas peladas da infância, jogadas na Praça Odorico Mendes, no centro de São Luís, pela semelhança física com um jogador do Atlético Mineiro da década de 1970.

Tião Carvalho esteve em São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina. Aproveitando sua passagem, conversou com exclusividade com o JP Turismo.

JP Turismo – Qual o teu balanço do São João? E qual o sentimento de voltar à terra natal, reencontrar os conterrâneos?
Tião Carvalho – Eu venho, moro em São Paulo, fora do Maranhão, se a gente quiser arredondar, fala em 40 anos. Eu saí daqui no ano de 1979. Eu sou vidrado nisso aqui, eu venho para o Maranhão por vários motivos e esse período eu dou graças a Deus que eu posso vir ao Maranhão, eu vejo outros amigos, a gente fica muito distante. Essa questão joanina tem muito a ver com minha família, eu sou filho de cantador de boi, essa tradição está na pele, no espírito. Eu vindo trabalhar, encontrar pessoas, poder trazer minha mensagem para esse público maranhense é muito legal.

A Renata Amaral, baixista que já tocou com você, acabou de lançar um documentário sobre o mestre Humberto [Guriatã]. Você viu o filme?
Ainda não. Conheço a ideia do projeto, a relação de Renata com Mestre Humberto, como era também com Pai Euclides, foi interessante esse tempo de ela focar nessas duas fontes, dois grandes mestres, grandes sensibilidades dela, isso também faz parte desse intercâmbio. Ela veio para cá várias vezes tocar comigo, a gente ainda toca em São Paulo, hoje menos. Hoje a minha baixista é a Thamires, que está morando em São Paulo. Eu gosto muito dessa energia feminina em minha banda, dessa mistura em minha banda, ter homens, mulheres, negros, brancos, isso é pensado, não é por acaso. Eu gosto disso, dessa miscigenação, essa força.

E o Cupuaçu? Segue firme e forte? Como é conciliar o grupo com tua carreira solo? De algum modo é o grupo que te deu reconhecimento.
Agora ele vai ficando mais tranquilo, o que acontece: nesses 30 anos você vai formando outros mestres, outros cantadores, o Henrique Menezes, que é daqui da família Menezes, da Casa Fanti Ashanti, chegou em São Paulo garoto, colou comigo graças a Deus, hoje em dia assume a brincadeira quando eu estou viajando, a Graça Reis é uma pessoa que a gente divide essa liderança hoje em dia, ela também com essa força da energia feminina que a gente respeita muito, minha irmã Ana Maria Carvalho, cantadeira, cantora de bumba meu boi, compõe, meu filho Yuri já canta, Alfredo Ramos. Tem toda uma turma que foi do Maranhão e se consolida em São Paulo. Claro que enquanto eu tiver vida e saúde eles vão querer minha presença, mas o Cupuaçu é uma escola, hoje em dia eu viajo mais tranquilo, tanto no Brasil, quanto no exterior, sabendo que o grupo vai continuar.

E o festival de que você vai participar em Goiás?
O show no 18º. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros [de 13 a 28 de julho] é dia 25, uma quarta-feira. Eu vou dar oficina de dança, já estive lá este ano. É um festival de São Jorge, a cidade, é um festival tradicional na Chapada dos Veadeiros. É a segunda vez que estou indo para o festival, eu fui há 10 anos. De lá eu vou para Pirinópolis, depois vou para Goiânia fazer show, depois volto para São Paulo. Segunda-feira agora, dia 16, estou indo fazer um show num congresso de antropologia, convidado por minha comadre, professora, Paola Gebran, pianista e tecladista, que toca comigo na minha banda. Minha vida é isso aí, uma árvore com muitos galhos e que dá frutos diferentes.

Uma árvore sui generis. Quase 40 anos de São Paulo, só voltando aqui a passeio. O que te levou até lá? Quando você foi, você já tinha se descoberto artista ou se descobriu lá?
Já. Lá eu só vi acentuar essa questão. Eu já nasci com essa sina viajeira, quando eu era criança eu já tinha esse espírito. Eu jogando futebol, os técnicos já me davam a braçadeira. Meus mestres de bumba meu boi, tambor de crioula, capoeira, já apostavam em mim como líder desde criança. Isso eu já tinha. Vir aqui não é bem passeio, eu tenho obrigações de vir aqui, religiosas, sociais, culturais, políticas. Eu sinto que preciso vir e o Maranhão também precisa que eu venha.

Isso com certeza! Por falar em questão política, como você observa o cenário brasileiro após a retirada de Dilma do poder e da assunção de Temer?
[Pensativo] Eu vejo que tem algo aí temeroso nesse sentido. Mas o nosso Brasil vem de muito longe, e a gente, cada momento, tem algo que está em evidência. É muito complicado. Ao mesmo tempo a gente tem a memória curta. É complicado de falar, muitas das vezes existem gêneros, classes sociais, povos, raças do Brasil que são mais perseguidas que os outros. Muitas pessoas podem falar o que quiser e elas passam batido. Eu, corre o risco de abrir a boca e passar a ser um dos perseguidos, e aproveitarem a mim para poder amedrontar outros, como no caso de Marielle [Franco, vereadora carioca assassinada há quatro meses].

Você está falando isso particularmente por ser negro?
Claro! Eu sou negro. Se acontecer alguma coisa comigo, em um mês já esqueceram. Quem que fala aqui do Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, assassinado por policiais militares em 2007]? De Mãe Mukumby, minha mãe de santo lá de Londrina, que foi morta no terreiro dela, a facadas. Ninguém fala, sai uma notícia no Brasil e ninguém falou mais, entendeu? Que bom que você está registrando. Eu estou com 63 anos, eu poderia dizer, bem vividos, jogo futebol, jogo capoeira, canto, ando a pé, entro e saio de todos os lugares do Brasil, tanto os mais simples aos mais sofisticados. Eu tenho que ter muito cuidado ao falar. Eu sinto isso. Tem 10 pessoas falando, aí de repente: “escolhe aquele”, pra poder amedrontar os outros.

Você considera que a gente vive uma ditadura, um estado de exceção, hoje, no Brasil? Isso justificaria teu temor em falar.
Eu coloquei para você exemplos. Quando é alguém de família tradicional que fala, ficam com mais medo de mexer. Eu lembro que estava assistindo ao filme Eles não usam black-tie [dirigido por Leon Hirszman, baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri], os caras estão reunidos e o cara fala fazendo aquele movimento: “o negrão, o negrão”, e o cara, “pá!” [imita o som de um tiro, com a mão imitando um revólver], entendeu? É um pouco isso. Quem calça o sapato sabe onde aperta, quem mora em casa sabe onde chove, minha avó já falava isso pra nós.

Como você avalia o governo Flávio Dino?
O que chega para nós lá em São Paulo é que nas pesquisas ele é o governador número um. A gente vem aqui pra ver, eu torço pra que isso cresça. O que ele precisar de minha ajuda, ele terá. A primeira questão é o Maranhão em si, nosso estado, nosso povo. Que Deus abençoe a gestão dele, eu torço para que a gente continue levando o Maranhão em frente.

Projetos de novos discos?
40 anos de carreira. Muitas vezes a gente faz aniversário na segunda e comemora no sábado, então tem um pouco isso. Os 40 anos de carreira eu já fiz, mas muitas vezes é preciso lidar mais com sentimento que com números. Eu fecho o ciclo de outra forma. Ainda não está definido o repertório, mas já estou trabalhando com alguns parceiros.

E o Cupuaçu?
A gente acabou de recopiar os dois cds [Toadas de bumba meu boi e Todo canto dança], estamos vendendo, e nos preparando, organizando para fazer um outro trabalho. Mas isso não é pra agora.

O Criolina [Alê Muniz e Luciana Simões] usou A mulher mais bonita do mundo [música de Tião Carvalho] como incidental em A menina do salão [faixa de Radiola em transe]. O que você achou?
Muito bom! Adoro eles. Fiz o carnaval com eles, vi começarem, são meus parceiros há muito tempo, tenho o maior carinho e respeito por eles.

[publicada originalmente no JP Turismo, Jornal Pequeno, hoje]

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.

Um terreiro apimentado

Foto: Zema Ribeiro

 

Entre os muitos presentes à Praça Maria Aragão nesta noite de São João – como de resto por outros arraiais por onde a maranhense Alexandra Nícolas passou com seu show Feita na pimenta –, poucos devem ter percebido estar diante de um show nacional, embora a artista tenha recebido o mesmo cachê de um/a artista local.

Longe de pretender aqui determinar uma hierarquia, sobretudo em detrimento do artista local. Digo isto tão somente para apontar que a artista trouxe a São Luís parte do grupo com que gravou seu segundo disco no Rio de Janeiro e frisar o profissionalismo com que encara qualquer compromisso, numa preocupação que inclui repertório, arranjos, figurino e, sobretudo, conquistar a aprovação do público.

O show de hoje começou atrasado, por conta da apresentação de uma dança country que não consta na programação do arraial. Como Alexandra Nícolas tinha outra apresentação agendada também para hoje, no Arraial do Sesc, precisou deixar o palco cantando menos do que o previsto. Mesmo com uma apresentação menor, ao longo dela a cantora conseguiu interagir com o público, botando o povo pra cantar e dançar junto.

“Quem aí troca um chamego por um like? Eu não troco”, perguntou e respondeu antes de mandar Chamego encantado (João Lyra/ Zeh Rocha): “ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, é um chumbrego só/ tô ficando assanhadinha/ vem dançar, me dá um nó”.

O repertório privilegiou faixas de Feita na pimenta – o locutor ao chamá-la ao palco cravou um “feito na pimenta”, que ela corrigiu com elegância, ao cantar a faixa-título (Marco Duailibe), cujo compositor estava na plateia. Antes, ensinou o refrão: “feita na pimenta/ feita na pimenta/ vê se não me atenta/ que eu sou feita na pimenta”, que o público imediatamente repetiu. Tá pegando fogo e Forrobodó, ambas de Betto Pereira, também não deixaram ninguém parado.

“Vamos conversar mais um pouquinho enquanto eles se resolvem”, ganhou tempo enquanto os técnicos ajustavam o som. “Maestro, me avisa quando for a hora”, pediu a João Lyra. “É hora de olhar pra quem está do seu lado”, provocou, antes de cantar Teu (Zeca Baleiro/ Anastácia). “Essa eu ganhei de Zeca Baleiro e ele cantou comigo no meu disco”, contou, emocionada.

Discípula de Jackson do Pandeiro, ela incluiu em seu roteiro De Teresina a São Luís (João do Vale/ Helena Gonzaga), O canto da ema (João do Vale/ Ayres Viana/ Alventino Cavalcante) e Na base da chinela (Rosil Cavalcanti/ Jackson do Pandeiro), esta com a letra incompleta, mas traduzindo bem o espírito da noite.

“Eu agora vou me despedir de vocês, mas pergunto: alguém aqui, nas próximas eleições, pretende votar em fuleiro?”, perguntou, para um “não” em uníssono. E mandou o Coco fulero (João Lyra/ Zé Rocha), delicioso trava-língua de cunho político, durante o qual apresentou a banda, um luxo só: Bebê Krammer (sanfona), Rui Alvim (saxofone) – impressionante o diálogo entre seus instrumentos –, João Lyra (guitarra, arranjos e direção musical), Arlindo Carvalho (percussão), Fleming Bastos (bateria), Regina Oliveira, Natália Coelho e Suassuna (vocais).

O povo queria mais, não sei se pelo costume do “mais um” ou se pelo show ter sido menor. Mas não há show menor quando se tem Alexandra Nícolas no palco.

O tempo do Tira-Teima

Foto: Zema Ribeiro

 

O Tira-Teima tem um tempo todo particular. Grupamento de choro formado em meados da década de 1970 em São Luís do Maranhão, somente em 2016 gravou o primeiro disco, Gente do Choro, cujo show de lançamento aconteceu somente ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo.

O septeto que subiu ao palco ontem já difere do que gravou o disco, numa demonstração inequívoca de que o Tira-Teima é uma verdadeira escola, por onde passam grandes instrumentistas, do qual Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), único remanescente da formação original, acabou, por isso, firmando-se como uma espécie de líder natural.

Após um texto lido em off pelo jazzófilo Augusto Pellegrini, a poeta Vanda Cunha recitou uma espécie de currículo artístico do Tira-Teima enumerando qualidades e grandezas e  pedindo à plateia uma salva de palmas para o grupo – a cortina ainda estava fechada e ela atrapalhou-se para encontrar a fresta e tornar aos bastidores.

A noite foi aberta por Gente do Choro (Paulo Trabulsi), choro cantado interpretado por Zé Carlos (pandeiro e voz), cuja letra versa sobre o ofício do chorão, por ruas e bares, entre a música como profissão e diversão.

O Tira-Teima tocou durante cerca de hora e meia, desfilando repertório inteiramente autoral, entre faixas de Gente do Choro e inéditas, algo raro de se ver e ouvir em rodas de choro, em que quase sempre se pescam peças mais populares do vasto repertório chorístico brasileiro. Seguiram-se Companheiro (Francisco Solano e Paulo Trabulsi) e Meiguice (Paulo Trabulsi).

“É uma alegria, uma satisfação muito grande estar aqui, realizando este show de lançamento de nosso cd. A felicidade é maior ainda por sabermos que estamos entre amigos. Todos aqui são amigos e parceiros”, afirmou Paulo Trabulsi, agradecendo a presença de todos, com o público presente ao teatro comprovando o que já é sabido: o choro não é música de multidões, tampouco modismo, com fiéis ouvintes dispostos a boas doses de boa música em qualquer tempo, em qualquer templo – como Luiz Jr. se referiu ao Arthur Azevedo, merecidamente.

Em Imbolada (Serra de Almeida), um casal entrou dançando, a demonstrar que o choro também é música para tanto. Ainda mais quando em diálogo com o maxixe e puxada à embolada nordestina, com destaque para a flauta do autor.

Serra de Almeida puxou do cofo de inéditas Os degraus da matriz, lembrando a escadaria da igreja em que brincou na infância, em sua São Bernardo natal, no interior do Maranhão.

O potiguar Wendell de la Salles, sempre saudado como uma espécie de integrante honorário do Tira-Teima, com seu bandolim, substituiu o cavaquinho de Paulo Trabulsi em Dom Chiquin (Serra de Almeida), formação mantida para Anjo meu (Wendell de la Salles), que ele compôs em homenagem à sua filha, e Aguenta seu Florêncio (Wendell de la Salles), homenagem ao avô, que um dia vacilou com a porta do guarda-roupa aberta e o menino Wendell descobriu um cavaquinho e consequentemente a música. Para sempre!

O grupo voltou a ter a formação do início do show – na foto, em sentido horário, Zé Carlos (pandeiro e voz), Henrique Brasil (percussão), Sadi Ericeira (cavaquinho centro), Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Francisco Solano (violão sete cordas) e Luiz Jr. (violão sete cordas) – para executar Choro nobre (Serra de Almeida) e Expressivo (Paulo Trabulsi). Na sequência, músicos e plateia assistiram ao belo duo de sete cordas dialogando em Teimosinho (Luiz Jr.), momento em que o flautista aproveitou para dar uma conferida no whatsapp.

Luiz Jr. anunciou o próximo convidado: “meu professor”, disse, referindo-se ao violonista João Pedro Borges. “Vou aproveitar para fazer logo a propaganda: nós estamos trabalhando no Festival Internacional de Violão, que trará grandes instrumentistas à São Luís e terá direção do grande Turíbio Santos”, anunciou sem dar maiores detalhes.

Na sequência, todos os músicos deixaram o palco, exceto Serra. Flauta e seis cordas dialogaram em Simples como Serra (João Pedro Borges), faixa que fecha Gente do Choro. “É um enorme prazer estar entre amigos, com este grupo que vi nascer. Faço minhas as palavras de Tom Jobim: eu só faço música por encomenda. Mas antes que se pense em algo mercantilista, algumas encomendas vêm do coração e meu coração me encomendou essa homenagem a este grande amigo”, declarou o convidado especial.

Com a volta do grupo ao palco, Carlinhos da Cuíca cantou Pra ser feliz, música que o cearense Léo Capiba (1947-2014), outro ex-integrante do Tira-Teima, compôs em homenagem à sua esposa Sandra, registrada com a voz do autor em Gente do Choro. Depois Zeca do Cavaco emprestou a voz à futebolística Zona do agrião (Léo Capiba) e a Apelo, registrada no disco como de autor desconhecido, mas ontem corretamente creditada a Nhozinho Santos, pianista da Rádio Timbira, homônimo ao industrial que “inventou” o futebol por aqui e acabou dando nome ao estádio municipal.

Ricarte Almeida Santos, “embaixador do Choro no Maranhão”, comenda conferida pelo Instrumental Pixinguinha, leu um texto em que passeou pela trajetória e importância do grupo, destacando os talentos individuais de seus integrantes atuais e destacando nomes de outrora, como Adelino Valente, Antonio Vieira, Arlindo Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Fernando Cafeteira, Sérgio Habibe e, entre outros, Ubiratan Sousa, autor do choro que dá nome ao grupo, infelizmente não registrado em Gente do Choro nem lembrada no repertório de ontem.

Por vezes o som tentou atrapalhar, mas a noite seria memorável acontecesse o que acontecesse.

No bis o grupo, com o reforço de Wendell de la Salles, acompanhou em Gente do Choro o coro de vozes de ​Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos Cuíca, Fátima Passarinho, Gabriela Flor, Quirino, Zeca do Cavaco e até a jornalista Edivânia Kátia (assessora e produtora do grupo e do show de ontem).

Disco lançado, missão cumprida. Votos de vida ainda mais longa ao Tira-Teima, que ontem, mais uma vez, botou essa gente do choro para sorrir de alegria e êxtase.

Um legítimo 12 anos

Foto: Zema Ribeiro

 

A resignação católica nos ensina que para tudo tem seu tempo.

Ontem o cantor Cláudio Lima entrou para a história, poderíamos dizer de forma brincalhona: é provavelmente o primeiro artista a lançar o segundo disco (Cada mesa é um palco) depois de ter lançado o terceiro (Rosa dos ventos). Não como Hermeto Pascoal, que recentemente soltou um disco gravado em 1999. Ou John Coltrane, que recentemente teve descoberto um disco inédito gravado em 1963.

Cada mesa é um palco, disco de voz e piano, que Cláudio Lima dividiu com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles, chegou ao mercado em 2006, mas nunca teve um show de lançamento, por uma soma de circunstâncias. Tudo tem seu tempo, ontem foi o dia – ou melhor, a noite. A eles juntou-se o percussionista paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio.

Falar em show de lançamento daquele disco talvez não dê conta da dimensão da noite, pelo fato de o repertório ter extrapolado o que foi gravado no disco do copo sujo de batom. Se os uísques 12 anos são os melhores, que dizer então de um disco, cujo bolero-título diz: “cada mesa é um palco/ e afogada no álcool/ tu finges me amar”?

O palco não poderia ser outro: o Buriteco Café, na Praia Grande, vem se configurando como uma casa que acredita em propostas artísticas diferenciadas, para além daquilo que se convencionou chamar de música de barzinho.

Há uma comunhão entre artistas e plateia – que compreende estar diante de um espetáculo grandioso, e não (apenas) para comer, beber e conversar.

Cláudio Lima se agiganta ao subir ao palco, parece entrar em transe. Durante o show de ontem, por duas vezes chegou a dispensar o microfone, sua voz entre um cantor de ópera e um vaqueiro aboiando, por exemplo, em Lamento sertanejo (Dominguinhos/ Gilberto Gil).

Na inédita Toc toc (Rubens Salles), “ou Knock knock, em inglês”, brincou o pianista, o espaço para o improviso do trio, entre teclas, tambores e voz. Os três tocam e cantam como quem brinca, status adquirido com muito esforço.

Entre os destaques da noite, as releituras arrebatadoras de Guardanapos de papel (Leo Masliah), de letra longa e delicada, versão pouco conhecida de Milton Nascimento, e Tropicana (Alceu Valença).

Estabelecido nos Estados Unidos, o piano de Rubens Salles está para muito além da bossa nova para gringo ouvir (o que já não seria pouco) e após acompanhar Cláudio Lima em músicas como Garota de Ipanema (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), Lígia (Tom Jobim) e Insensatez (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), não se fez de rogado e acompanhou a pulsação frenética do bumba meu boi de zabumba, na toada Adeus (Mestre Zió), gravada por Luiz Cláudio em um EP indicado ao Grammy, música que encerrou a apresentação de ontem.

Aos gritos de “mais um”, Cláudio Lima retrucou: “eu já estava pensando que vocês não iam pedir”. Cada mesa é um palco estava finalmente lançado, com direito a exemplares do disco à venda: “ainda existe cd, gente!”, o cantor tornou a brincar. No bis, Bis (Cesar Teixeira), que contém o verso-título do disco e show.

Serviço: hoje (10), a partir das 16h, o trio reprisa Cada mesa é um palco no projeto Quintal Cultural, na Casa d’Arte (Rua do Farol do Araçagy, 9, Raposa – em frente à clínica Ruy Palhano), com cachê colaborativo, no velho esquema Silvio Santos (leiam este parêntese lembrando a voz do Lombardi: “deixa o Oficina em paz, Silvio!”): “quanto vale o show?”.