A pulsação do Sangue negro

Pianista que ajudou Lenine a superar trauma com teclas, o jovem recifense Amaro Freitas toca sábado (11) em Barreirinhas, no Lençóis Jazz e Blues Festival

Foto: Jão Vicente

O recifense Amaro Freitas é uma grata revelação da música instrumental brasileira. Estreou como gente grande: em 2016 lançou Sangue negro, em que seu piano é acompanhado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria), além das participações especiais de Eliudo Souza (saxofone) e Fabinho Costa (trompete), todos pernambucanos. A produção ficou a cargo do gaúcho Rafael Vernet, que já trabalhou com nomes como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Wilson das Neves (1936-2017).

É um disco de jazz. Ou se quisermos ir mais longe: é um disco de jazz brasileiro. E dizer isto, ao contrário de afunilar o rótulo, amplia-o: é que Amaro Freitas transita com desenvoltura por diversos gêneros e referências, com especial destaque para o frevo – o disco é aberto por um, Encruzilhada –, samba, afrojazz e balada.

Sangue negro chamou a atenção de Lenine e o pianista participou de Em trânsito (2018), disco novo do conterrâneo – ele toca na faixa Lua candeia (Lenine e Paulo César Pinheiro).

O pianista toca de graça dia 11 de agosto (sábado), às 20h15, na Av. Beira-Rio, em Barreirinhas/MA, na programação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – veja a programação completa. Ele será convidado do guitarrista paraense Delcley Machado. Amaro Freitas conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Jão Vicente

Eu gostaria que você começasse do começo: como foi sua infância e como você chegou ao piano?
Sou pernambucano, recifense, moro na periferia de Recife. Eu comecei na igreja. Meus pais são evangélicos e a igreja tem um papel social muito forte nas periferias. Meu pai quis montar um grupo, ele é o grande responsável por eu ser o que sou hoje. Lá no início, quem plantou tudo isso foi ele. Meu pai quis montar um grupo na igreja, eu era muito novo, tinha 10 anos, 11, e me colocou para tocar bateria, me ensinou um pouquinho de bateria. Ele toca um pouquinho de cada instrumento, não é um profissional, mas ele entende um pouco, toca um pouquinho. Na igreja vários meninos queriam tocar bateria, por conta do instrumento, e ninguém queria tocar o teclado. Aí meu pai: “pô, tu não quer tocar o teclado?” E eu: “não, é muito difícil”. Só que aí ele insistiu e foi me ensinando a tocar teclado e eu fui tomando gosto. Eu tomei goto de uma forma tão grande que eu não queria fazer mais nada, a não ser tocar teclado. Chegava da escola e me trancava no quarto pra tocar teclado, no lugar de estar empinando pipa, brincando, jogando bola, ou fazendo qualquer outra coisa, a minha diversão era tocar teclado. Com 15 anos eu entrei no conservatório pernambucano, só que aí com seis meses eu saí, por conta da condição financeira que a gente se encontrava na época, era uma condição difícil. Nessa idade eu ganhei um dvd de jazz, Chick Corea Acoustic Band. Isso pra mim foi assim importantíssimo, por que até então eu só tinha tido contato com a música da igreja. Escutava uma ou outra coisa assim na rua, mas o contato musical sempre foi com a música da harpa cristã, sacra e dos cantores gospel. Quando eu escutei, eu pensei: “pô, isso é possível fazer na música, velho?”. Aí pirei com a música instrumental, com Chick Corea, depois ganhei um dvd do Oscar Peterson, tocando com Ray Brown. Engraçado, a coisa da música instrumental entrou primeiro na minha vida, antes da cultura pernambucana. Eu só vou ter contato com a música pernambucana lá na frente, que aí eu estudei numa escola chamada Tritones, estava trabalhando de telemarketing e pagando esse curso da Tritones.

Tritones é uma escola de música?
É, o dono dela é Thales Silveira, um contrabaixista daqui, que estudou na Berkeley, abriu essa escola, tem curso de harmonia, arranjo, prática de conjunto, teoria musical, instrumento, enfim, eu estudei lá. E aí, engraçado que depois que eu saí dessa escola eu fiquei naquela coisa de “eu faço uma licenciatura musical na Universidade Federal de Pernambuco ou faço um outro curso?”. Tem um curso aqui chamado Produção Fonográfica, que é um curso mais voltado para esse meio artístico, de como funcionam os editais, de como funciona a divulgação na internet, a história da música eletrônica, e esse curso me cativou muito mais do que fazer licenciatura na Universidade Federal, pela proposta que eu queria dar para minha pessoa.

É um curso de nível superior?
Nível superior, isso. No lugar de ter ido estudar na Federal, eu fiz esse curso, paguei ele. É onde entra o piano na minha vida e essa coisa toda da cultura pernambucana. Eu fui aos restaurantes aqui em Recife e aqui tem uma coisa muito forte de piano bar. Comecei a ver a galera tocar e daqui a pouco eu estava trabalhando com isso. Passei uma temporada no interior, em Gravatá, uma cidade daqui, tocando num restaurante lá, voltei para Recife, comecei a tocar na Pizzaria Atlântico, e era com esse dinheiro da Pizzaria Atlântico que eu pagava o curso, e juntava sempre um dinheiro no banco. Quando eu terminei o curso de Produção Fonográfica, eu já estava conhecendo Chico Science muito bem, o movimento MangueBit, ganhei um livro de Capiba e comecei a estudar a música de Capiba, os frevos, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, tudo isso que é tão rico e importante na nossa cultura. E pensei em gravar o meu primeiro disco.

Sangue negro. Capa. Reprodução

Isso se traduz na sonoridade desse teu primeiro disco, todas essas influências, do jazz, do mangueBit, dessa turma mais ligada ao frevo.
Todas essas influências, sim. Eu te digo que foi aí onde eu conheci também o trabalho do Spok, que é com orquestra, e esse trabalho foi uma motivação pra mim e pra muitos artistas pernambucanos, de ver um cara, que sabe que veio das bandas de baile daqui de Recife, conseguir montar uma orquestra, conseguir ter sucesso com sua orquestra, conseguir levar sua verdade pro mundo. Então todas essas coisas acabaram influenciando minha música. A música de Capiba, obviamente, os choros, as valsas, que eu estudei dele, um pouco também dessa música de fora, aí escancarou, virei fã do Thelonious Monk, do Brad Melhdau, do Herbie Hancock, de todos esses grandes pianistas, de pianistas com uma pegada mais concreta, que veem o piano de uma forma mais rítmica, como é o caso do Craig Taborn. São pianistas que pensam de forma diferente o piano, é muito mais a cabeça de como ele pensa a execução da música e o que ele valoriza como ritmo do que técnica, enfim. Esses pianistas também me influenciaram junto com os pianistas brasileiros, que a gente tem, o Marcos Valle, João Donato. Na minha música eu senti toda essa pressão, e vi que isso é nosso, e comecei a compor as músicas e queria muito gravar o disco. Foi um trabalho, eu posso dizer que, tocando piano bar, eu fui conhecendo os músicos da cena de jazz da cidade e fui tocando com esses músicos, mas a minha vontade sempre foi fazer um trabalho autoral.

Como é que você chega aos músicos que te acompanham em Sangue negro, o baixista e o baterista? É nessa cena do piano bar?
O baixista é nessa cena do piano bar. Eu tocava pra um cara que colocava pianos em restaurantes e um dia ele colocou esse baixista que me acompanha, que é o Jean Elton, pra que a gente tocasse uma gig num restaurante aqui. Quando eu conheci Jean, achei Jean foda, “caramba, esse cara toca muito bem, que respeito à música” e tal. Jean tem certa leveza e respeito, parece um lorde tocando, é muito bonito vê-lo tocar, e o som que ele tira do instrumento também. Comecei a ir ver Jean tocar com um pianista chamado Toni Eucatã, que era um mestre, ele morreu faz dois ou três anos e ele tocava numa casa de jazz aqui chamada Mingus. Quando Toni morreu eu assumi o lugar dele nessa casa e comecei a tocar com Jean e a desenvolver uma amizade e uma linguagem musical também. Quando eu estava querendo um baterista para gravar meu trabalho, um outro amigo disse: “olha, tem o Hugo, que é professor do conservatório, por que você não fala com ele?”. Minha ideia, no início, era gravar standards de jazz, famosos e outros, lado b, que ninguém conhece muito. Quando eu cheguei pra Hugo, pra propor isso, foi muito engraçado, ele disse: “olha, eu gosto muito de trabalhar com música autoral. Se for pra gravar as tuas músicas, eu tou a fim, mas se for pra gravar os mesmos standards de jazz, eu não quero não, velho”. Aí eu disse: “caramba, bicho” [risos].

Então você deve essa guinada a ele, por que você estreia com uma moral danada, o disco recebe críticas elogiosas nos principais veículos, de algum modo você é apontado como uma grata revelação da música instrumental autoral brasileira.
É justamente isso. Por quê? Eu tive o cuidado. Na vida, eu acho o seguinte, a gente tem vários exemplos, a nosso redor, do que deu certo, do que deu errado, de como fazer. Às vezes o músico, ele está muito envolvido com essa coisa romântica do trabalho, mas a burocracia é uma coisa tão necessária e ela precisa ser feita com excelência. Foi aí onde eu acertei. Além da boa qualidade do disco. Por que às vezes a gente vê um disco que tem uma sonoridade legal, mas o disco não tem uma capa legal, o disco é muito longo ou é muito curto, e as pessoas que trabalharam no disco foram de um tamanho muito grande. Hugo e Jean, eles compraram a ideia, a gente teve dois meses ensaiando três dias por semana, pra fazer a pré-produção desse disco, por que até então era um grupo que não tocava junto. A gente se uniu pra formar o repertório e gravar o disco. A gente ganhou a participação de Eliudo Souza, no saxofone, tocando Estudo 0 e Sangue negro, e Fabinho Costa, no trompete, tocando também essas duas músicas. A produção ficou com Rafael Vernet, que é um cara que eu sempre fui fã, eu peguei uma aula com Rafael no Rio de Janeiro, quando eu fui tocar, eu marquei uma hora de aula com ele e a gente ficou três horas e meia. A aula de Rafael, ele tem uma parada que é incrível. Ele consegue verbalizar muito bem a música, ele vem de uma família de filósofos, ele traz toda essa carga filosófica junto com a musicalidade e consegue te fazer entender e até te questionar sobre o que você quer, como você entende a música. Rafael foi muito necessário durante esse processo da pré-produção do disco, ele acompanhou, eu mandava vídeos, tinha um trecho no final da música que, tipo, matava a música, a música vinha num negócio tão lindo e no final eu coloquei um negócio latino, que não tem nada a ver, aí Rafael dizia: “Amaro, por que você fez isso? Tira isso, cara”. No dia da gravação, foi muito legal, ele chegou um dia antes pra ver as músicas ao vivo e a gente começar a gravar no outro dia. Aí ele começou a falar de dedo, de volume da mão esquerda, da quantidade de coda, de improviso, da repetição, foi incrível, eu queria improvisar três coros, só que três coros a gente não conseguia ficar bem, e ele: “você vai improvisar um coro só”. “Mas Rafael…”. “Não, vai ser um coro só”. Então a gente gravou no melhor estúdio da cidade, a mixagem e a masterização foram feitas aqui em Recife com grandes técnicos. O cara que fez a arte, que foi o Thiago Liberdade, também é um cara muito sensível, um cara muito inteligente, Iara Lima, que fez a assessoria de imprensa, de divulgação. Eu sabia que só Amaro Freitas não teria condições de fazer isso tudo. Eu precisava me reunir com profissionais da música que tivessem uma leitura e vissem aquilo que eu não conseguiria ver. Eu só consegui enxergar o que Rafael Vernet enxergava no estúdio seis meses depois [risos]. Eu disse: “caramba, se eu improvisasse três coros ia ficar feio, se a música repetisse mais uma vez ia ficar cansativa, não é que ele tinha razão?”. Eu acho que o trabalho coletivo e colaborativo é o resultado do sucesso do Sangue negro. Também ao mesmo tempo tem uma outra coisa: formar uma banda é uma parada muito difícil. Na banda todo mundo opina e todo mundo decide. E todo mundo tem que dividir os custos. Foi uma das primeiras coisas muito, mas muito importantes. Eu chamei a responsabilidade pra mim, o trabalho é meu, mas quando a gente sobe no palco o Amaro Freitas Trio é como se fosse um triângulo, tem três pontas, mas funciona como um único objeto, não tem Amaro maior que Jean, é tudo a mesma coisa. Só que na responsabilidade dos pagamentos financeiros, na gravação do disco, eu juntei esse dinheiro todo da Pizzaria Atlântico, que eu te falei, junto com os pubs de jazz que eu tocava pra pagar todo esse gasto do disco. Eu gastei 20 mil no disco, tudo isso saiu do meu bolso. A coisa funciona também por conta disso, alguém precisa chamar a responsabilidade. Eu procuro também ser o mais justo por que eu sei da atuação e dedicação dos músicos no meu trabalho. Sangue negro começou por aqui, por Recife, a ser divulgado nos jornais, a gente conseguiu passar no festival Savassi, ganhamos o prêmio Savassi de Novos Talentos, em 2016, a gente foi pra BH, ganhamos o prêmio Mimo, também em 2016, e aí o Sangue negro começou a escorrer.

O título do disco, Sangue negro, foi natural a escolha? Na sonoridade das faixas a gente percebe uma devoção às raízes negras da música, os estilos pelos quais você passeia, afrojazz, frevo etc. Mas existe aí uma espécie de manifesto contra o racismo vigente no Brasil?
Eu te confesso que essa coisa foi ficando mais forte. Quando eu pensei em Sangue negro, a música, eu pensava uma música que representasse o negro na minha visão. E o negro se lascou muito, ainda hoje sofre demais. Tem coisas que você sendo negro você olha pro mundo e você diz: “por que isso é assim?”. Eu não consigo entender por que eu chego nesse lugar e é essa loucura. Então Sangue negro tem essa abertura já no bebop, mas depois vira uma coisa meio experimental, que é a pessoa tentando se encontrar, tentando entender. Traduzindo isso em palavras: “o que é que tá acontecendo?”. Aí vem a dança negra, que é o afrojazz, depois desemboca no improviso de todo mundo, no bebop, que foi desenvolvido também por negros. Volta pra um pedaço experimental e depois a dança de novo, o afrojazz, e acaba a música. Quando a gente acaba de tocar essa música estamos todos pulsando, nosso sangue, até por que a gente toca essa música com muita gana. Tá todo mundo suado. Eu acho que essa música representa também no sentido físico, literal, essa pulsação do sangue negro na execução da própria música. E aí, quando eu fui fazer o disco, a gente pensou em colocar o título do disco Encruzilhada, a gente estava com dificuldade pra chegar ao resultado da arte do disco. Foi quando Iara sugeriu que eu fizesse um ensaio fotográfico com Rafael Medeiros, pra ver se a gente conseguia chegar a um resultado melhor do que tudo que vinha sendo desenvolvido. Aí o Thiago Liberdade escolheu essa foto, que é a foto do disco Sangue negro, e colocou esse filtro. Quando eu vi essa foto eu disse: “caramba, velho, o título tem que ser Sangue negro, não tem como”. Eu acho que mais uma vez o trabalho coletivo chegou nesse lugar. A importância da Iara, a importância do Rafael Medeiros, do Thiago Liberdade, a gente discutiu isso e chegamos juntos nesse resultado. É um disco que representa o negro, que fala da minha realidade como negro também, fala desse protesto, de pianistas negros no país, a gente tem o Moacir Santos, que é um cara daqui de Pernambuco, e nem é conhecido aqui.

Eu ia falar nele por que o Sangue negro me remeteu a Ouro negro, que é título de um disco dele. Eu ia te perguntar se tem alguma influência o trabalho do maestro Moacir Santos, que também é negro, também é pernambucano.
Com certeza! Quando eu escutei Moacir, ele é um cara que trabalha a música brasileira de forma totalmente diferenciada dos outros. Ele vai muito pras claves afro, isso é um negócio assim fora da curva. Só que Moacir é negro, aí tu vai ver que os pianistas mais lembrados do Brasil não são os pianistas negros. A gente tem o Dom Salvador, pianista negro, mas são poucos pianistas negros, são pianistas que a gente escuta muito pouco. A gente vai ouvir falar do César Camargo Mariano, do Luiz Eça, do João Donato, do Tom Jobim, mas esses pianistas negros a gente ouve muito pouco. E eles, na verdade, ganharam uma reverência enorme fora do Brasil, fizeram um nome fora do Brasil, isso é indiscutível. Eu queria reforçar essa coisa do piano negro, do cara negro conseguindo ser pianista, que é um instrumento tão elitista, tão separatista. As pessoas não têm acesso a esse instrumento por sua delicadeza, por seu valor, é um instrumento tão caro, quando tu vai ver a maioria dos pianistas brasileiros são brancos. Eu acho que fazer música autoral, ter uma foto dessa na frente, uma foto com black, o nariz de porrota, achatado, negro, ali, com suas características, fazendo uma coisa que não é muito comum, apesar da gente já ter o Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, o próprio Moacir, mas não é comum você trazer essa música do frevo, maracatu, pro piano. O samba jazz é a coisa que mais se desenvolveu. E se você pensar na cena do sudeste é basicamente isso, o jazz brasileiro é o samba jazz. Então eu poderia dizer que isso já se desenvolveu muito forte no piano. Mas o frevo, o baião, o maracatu, a ciranda, essas coisas não são muito trabalhadas no piano, o maxixe. É uma outra forma de protesto que é trazer os instrumentos acústicos, piano, baixo acústico, bateria, pra tocar essa música nordestina, sem ser nos instrumentos tradicionais, que é a sanfona, os sopros, zabumba, triângulo, e outras coisas.

O selo inglês Far Out te encomendou um disco. Como é que está esse processo?
O disco foi gravado, nove faixas, todo autoral. Eu posso dizer que esse disco vem mais forte que o Sangue negro, no sentido de um trabalho de campo muito mais apurado. Eu fui a Arco Verde, conheci a música de Arco Verde, a gente tem mais de 29 modalidades de coco. Tem um coco de Arco Verde que se chama trupé, a característica desse coco é que ele é tocado com uma sandália de madeira em cima de um tablado, junto com toda a orquestração que há no coco, e as vozes cantando. A célula rítmica que se trabalha com essa sandália de madeira, “tac, tatac, tatac, tac, tatac” [imita o som da sandália de madeira, no ritmo], só que as pessoas fazem isso com o pé. E eu peguei essa célula rítmica e transformei em melodia. Então eu estou dando vez a um ritmo num lugar daquele canto, “ô lerê, ô lerê, ô lalá” [cantarola]. Eu não estou trabalhando esse canto tradicional do coco, eu pego o ritmo, que é a característica do trupé, e transformo esse ritmo em melodia. Então eu começo a distribuir isso pela banda, a gente vai ter [as faixas] Coco Trupé, tem Dona Enir, que é um baião, a gente tem Rasif, que é uma ciranda em homenagem aos arrecifes de Recife. Os arrecifes tinham esse nome antes de se chamar Recife, que é um nome árabe.

Foi título de um livro [Rasif – Mar que arrebenta, Record, 2008] do Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo.
Isso! Meu amigo. Daí é que vem a minha inspiração para colocar o nome dessa ciranda, Rasif, pedra rochosa onde a água bate, tem um significado. Eu queria fazer uma homenagem ao mar de Recife, e peguei esse nome e coloquei nessa ciranda. É uma ciranda que tem uma perninha a mais. Geralmente a ciranda é em quatro, falando em compassos, essa ciranda é em cinco. Só que ela vem com um clima muito balada jazz. É sempre esse contraste, que é uma coisa que eu já trabalhei no Sangue negro, tem um frevo balada, Subindo o morro. O disco ele vem muito temático, mas vem também com um trabalho de pesquisa na cultura pernambucana ainda mais forte, mas com muito improviso, com uma dinâmica diferente. É um pouco diferente do Sangue negro, tem um pouco mais de profundidade. É a primeira vez que eu estou assinando com um selo britânico, com um selo gringo. Esse é um selo britânico, o Far Out, a gente fez um contrato de cinco anos, o disco primeiro será lançado na Europa, pra depois ser lançado no Brasil, já encerramos algumas etapas, o disco está na etapa agora de fazer a arte. Isso é uma coisa muito engraçada, por que a arte que vai ser desenvolvida lá fora, provavelmente não vai ser a arte que vai ser desenvolvida aqui no Brasil, por que eles precisam de um estereótipo diferente do nosso, tipo, eles precisam colocar no disco “Recife”, ou “Brasil”, pra dizer que o trabalho é de um lugar diferente da região deles. Eu acho que a arte do disco pode ser aproveitada, mas a gente vai ter o mesmo disco em dois formatos. Tudo depende do andamento da Far Out, nossa parte já foi feita e a Far Out tem ainda um tempo, pelo prazo do contrato, pra entregar arte e prensagem do disco.

Foi gravado pela mesma turma do Sangue negro?
Foi gravado com meus companheiros e escudeiros fiéis, Jean e Hugo, e teve a participação de um pernambucano também, chamado Henrique Albino, que é um multi-instrumentista daqui, muito bom, ele participa tocando flauta, clarone e sax barítono. Essa coisa de gravar o disco com um trio, com o passar do tempo a gente conseguiu desenvolver uma linguagem ainda mais peculiar, muito mais íntima, entre nós, conhecendo sinais e movimentos muito pequenos, a gente já consegue se conectar de uma forma muito grande. Isso pra mim é valiosíssimo. De início eu pensei em várias participações, depois eu voltei atrás e pensei: “não, o que a gente está fazendo é isso, eu não posso quebrar, de repente não vai funcionar”. Aí a gente chamou Albino, que é um cara muito próximo meu também, um amigo, e decidimos que ele seria a única participação do disco. O disco vem um pouco maior, existe uma espera muito grande por esse segundo disco, isso me deixa muito motivado também por que a maioria dos críticos está esperando esse disco para falar sobre ele. Tem coisa que é coisa de crítico, querer comparar com Sangue negro, enfim. É um disco que está sendo esperado. Eu fico feliz de poder fazer mais um disco de música autoral e de repente estar incentivando várias pessoas a fazerem esse tipo de trabalho. A gente tem que pensar na música da nossa época. 2018, o que é que estava acontecendo no Brasil? Lá na frente o pessoal vai querer saber desse tipo de trabalho. Como a gente hoje conhece Ouro negro, o trabalho de Hermeto, o trabalho de Capiba, por que eles deixaram uma música autoral deles registrada na história. Eu tenho uma preocupação muito grande hoje de dar esse alerta, esse empurrão, essa chamada. Vamos fazer nossa música. É bom tocar standard, é bom demais, eu tenho uma reverência muito grande por todos os grandes mestres e por todos que lutaram pela música instrumental em geral, fora do jazz também, sabe?, mas eles tinham as músicas deles. Uma coisa que vai acontecer nesse meu segundo disco é essa relação com a vida que a gente tem hoje. Hoje a gente tem uma vida corrida, uma vida frenética, a gente quer que chegue logo o fim do dia, a gente não consegue mais namorar o entardecer, ou o amanhecer, hoje a gente quer que chegue logo o fim de semana, o fim do mês, o fim do ano, por conta do décimo terceiro salário, essa agonia.

Quer que chegue o fim do ano pra ver se esse governo ilegítimo deixa o cargo, não é?
Pois é. Essa bagunça que tá, essa safadeza, essa anarquia. O disco vem com uma pitada disso. Ele tem umas músicas que são meio quebradas, meio frenéticas, com aquela vontade de sair correndo. Eu acho que isso é muito valioso, por que a gente registra de uma forma muito particular o que se passa nos dias de hoje.

Como foi a participação em Em trânsito, disco novo de Lenine? Na tua opinião, é mais um endosso a teu trabalho?
Eu te confesso que foi incrível. Eu não esperava. Lenine foi assistir a um show meu na Blue Note, no Rio. Ele é um cara incrível nisso, está em uma de pesquisar o que está acontecendo. Ele viu que ia ter meu show, foi assistir. No fim do show, ele disse: “cara, eu tive um problema com teclas durante um tempo”, por conta daquele movimento todo que aconteceu nos anos 1980, aqueles teclados de plástico, aquela música americana invadindo o Brasil, os pops brasileiros. Lenine fez uns trabalhos naquela época que meio que criaram um trauma, uma trava nele. E ele disse que me ver tocar piano trouxe uma grande alegria por que quebrou esse trauma. Ele disse: “não é um preconceito, mas você olha diferente”. Ele disse uma coisa pra mim que eu fiquei muito feliz: “a tua música é totalmente diferente da minha, mas eu sinto Pernambuco na tua música, de uma forma tão grandiosa, como eu sinto em qualquer um, em Alceu [Valença]”. Eu guardei essa frase e acredito muito nisso e nessa missão de estar lutando por essa música. Aí Lenine disse: “a gente vai fazer alguma coisa, eu não sei o que é ainda, mas a gente vai fazer”. Eu disse: “beleza, vamos nessa!”. Mas não esperava nada. E aí, com o passar do tempo, ele me liga, eu tava almoçando, ele: “ó, aqui é o Lenine”, e eu: “eita!”. E ele: “eu queria te chamar pra fazer uma participação no meu disco, eu nunca sou de chamar as pessoas pelo nome, eu sou de chamar pessoas que me tocam e eu sinto que gostaria muito de trocar com essa pessoa. Eu quero que você participe, você e Carlos Malta”. Ele comprou minha passagem, perguntou qual era o piano que eu queria, a equipe de produção muito cuidadosa, muito gentil, carinhosa. Cheguei, tive apenas dois dias inteiros com Lenine. Cara, eu conversei muito. Eu parecia um jornalista, interrogando. Por que é muita coisa que o cara tem pra dar. Lição de vida, visão de mundo, de como ele conseguiu driblar, vencer. E aí a parte mais difícil pra mim foi quando ele disse: “faz o arranjo e eu já sei que seu arranjo vai ficar bom”. Eu disse: “caramba!”. Olha o tamanho da responsabilidade…

Lançamento digital antecipa homenagens de Hamilton de Holanda a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário

Jacob 10zz. Capa. Reprodução

 

Jacob do Bandolim foi um dos mais controversos nomes da música popular brasileira. Reinventou o instrumento que lhe deu sobrenome artístico, sendo até hoje considerado um de seus maiores nomes. Tinha fama de conservador – musicalmente falando – e, no entanto, foi um dos grandes revolucionários da música instrumental praticada no Brasil. Para comprovar tudo o que afirmo basta ouvirmos sua obra-prima, o disco Vibrações, lançado em 1967, recheado de clássicos do choro, entre composições autorais e de mestres como Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

Em 1979, 10 anos após seu falecimento, a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali – então com o violonista maranhense João Pedro Borges em sua formação –, prestou-lhe  as devidas homenagens em Tributo a Jacob do Bandolim, em que a formação voltava a executar a Suíte Retratos (com seus movimentos, os “retratos”, homenageando Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, pilares do choro). Desde então, homenagens a Jacob, sempre merecidas, não pararam de acontecer.

Hamilton de Holanda, herdeiro musical, por vezes apontado como sucessor, talvez o maior revolucionário do instrumento após o mestre, brasiliense inventor do bandolim de 10 cordas, reverencia-o no ousado Jacob 10zz [Deck, 2018, disponível nas plataformas digitais], disco do Hamilton de Holanda Trio – o bandolinista é acompanhado por Guto Wirtti (contrabaixo acústico) e Pretinho da Serrinha (percussão). O grupo venceu o Grammy Latino de melhor disco de música instrumental por Samba de Chico, dedicado ao repertório de outro craque da música brasileira, o “parente” Chico Buarque de Holanda.

Neste novo trabalho a ousadia começa já no título: o 10 poderia referir-se à nota que o disco merece, mas alude ao número de cordas do bandolim de Hamilton, revelando o flerte com o jazz, exalando uma modernidade sem firulas e sem perder a brasilidade.

O álbum – por enquanto disponível apenas em formato digital, ganhará versão em vinil, em breve – foi lançado mês passado, por ocasião das comemorações do Dia Nacional do Choro, 23 de abril, homenagem a Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha.

Jacob 10zz traz 10 faixas assinadas por Jacob do Bandolim, longe de se limitar ao óbvio ou de se pretender um best of. Para termos ideia, as músicas mais conhecidas do disco são Bole bole e Assanhado. Mas “mais conhecidas” é modo de dizer: Hamilton de Holanda e seus parceiros de empreitada dão uma roupagem completamente nova e inusitada às criações jacobianas que parecemos estar diante de algo completamente novo. E estamos. Entre diversas pérolas, destaque para Forró de gala, peça pouco conhecida.

Além das 10 da lavra do homenageado, comparecem Naquela mesa, composta por seu filho Sérgio Bittencourt quando da morte do pai – e eternizada na gravação de Nelson Gonçalves –, e Serenata Jacarepaguá, do próprio Hamilton de Holanda, alusão ao bairro em que Jacob morou, em cuja casa organizou memoráveis saraus e onde hoje há uma Lona Cultural Municipal com seu nome. Uma curiosidade é que a música foi composta no estúdio, na hora da gravação.

Jacob Pick Bittencourt, nome de batismo do homenageado, completaria 100 anos no próximo dezembro. Jacob 10zz é o lançamento digital antecipado de um dos discos que comporão um box dedicado ao repertório do carioca, com lançamento previsto para este ano.

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Ouça Jacob 10zz:

Estreia solo de Silvério Pontes atesta sua grande qualidade como compositor

Reencontros. Capa. Reprodução
Reencontros. Capa. Reprodução

 

O trompetista Silvério Pontes é nome por demais conhecido no cenário da música instrumental brasileira, particularmente no universo do choro. Já se vão mais de 30 anos que seu nome é imediatamente ligado ao de Zé da Velha, trombonista com que integra o duo que é conhecido pela honrosa alcunha de “a menor big band do mundo”.

Além da longeva parceria, seu trompete e flugelhorn já apareceram também em fichas técnicas de discos e shows de nomes como Beth Carvalho, Cidade Negra, Dona Ivone Lara, Ed Motta, Luiz Melodia, Mário Sève, Pedro Miranda, Tim Maia e Yamandú Costa, para citar apenas alguns.

Silvério Pontes já declarou ter como uma de suas referências Chet Baker, nome fundamental de seu instrumento e do jazz. Reencontro [2016] soa exatamente como se o norte-americano encontrasse os ritmos do Brasil, sobretudo quando o brasileiro faz uso da surdina.

Mas enganam-se os que pensam em encontrar longas improvisações ou o desfile do virtuosismo de Silvério Pontes, que assina todo o repertório, mostrando-se competente em mais esta vertente – a de instrumentista já estava mais que provada, em discos como os dos artistas citados e na parceria consolidada com Zé da Velha, a quem dedica Tema pro Zé da Velha, em parceria com o trombonista Fabiano Segalote. O instrumentista é generoso e há espaço para que todos os músicos, a serviço do conjunto, apareçam, sem transformar qualquer faixa em guerra de egos ou coisa que o valha.

Estão lá, entre outros, Alessandro Cardozo (cavaquinho em Hoje tem marmelada), Bebê Kramer (sanfona em De Niterói à Vacaria, parceria com Kramer), Dudu Oliveira (flauta e flautim), Guto Wirtti (contrabaixo), João Rebouças (piano em Suntuosa, parceria com Leandro Saramago), Marcelo Caldi (sanfona em Piazzolla no choro, parceria com Caldi), Rogério Caetano (violão sete cordas em Polca da praia, que abre o disco, e As três meninas, ambas em parceria com Saramago) e Zé da Velha (trombone em Polca da praia) – ele e Guinga endossam o disco, em textos na embalagem.

Há faixas acentuadamente jazzy, como Amor eterno, que ele dedica a Deus. Mas Reencontro é uma lufada de brasilidade, mesmo em momentos em que ele brinca, por exemplo, com o tango argentino, caso de Piazzolla no choro, que evoca o Libertango do homenageado.

A faixa-título é delicioso bolero. Hoje tem marmelada é uma homenagem ao saudoso Palhaço Carequinha, cujos discos até hoje fazem sucesso entre a criançada (mas não só) e cuja bandinha era liderada por ninguém menos que Altamiro Carrilho, isto é, música infantil de forte acento chorístico.

Verão majestoso fecha Reencontro unindo as pontas. Silvério Pontes confessa a influência de outros trompetistas. “Não só pelo som, mas por sua história de vida, Louis Armstrong com a música de New Orleans ganha destaque. Essa música, composta sob o tapete do verão carioca, é inspiração desta influência americana”, encerra o trompetista em texto no encarte.

Literalmente antológico

Sambantologia. Capa. Reprodução
Sambantologia. Capa. Reprodução

 

A pergunta “letra de música é poesia?” ainda é ouvida aqui e acolá e uma das respostas possíveis é o exercício de separar letra e música e verificar se a primeira tem força para sobreviver sem a segunda. Isto é: há casos e casos.

O exercício contrário, no entanto, quase nunca se faz. Sobrevive a música sem sua poesia, no caso de uma música originalmente com letra ser tornada instrumental? A resposta será parecida à do exercício anterior.

Em Sambantologia [Biscoito Fino, 2016], os bambas do Nó em Pingo d’Água recriam instrumentalmente nove temas de nomes seminais do samba. O único originalmente sem letra é Nanã (Moacir Santos e Mário Telles), que a rigor nem samba é.

Mas esqueçam os rótulos pois é justo o que fazem Celsinho Silva (percussão), Mário Sève (flauta e saxofone), Rodrigo Lessa (bandolim e violão de aço) e Rogério Souza (violão), com a adesão de Romulo Duarte (contrabaixo).

É um disco para celebrar o centenário do samba, cujo marco é a gravação de Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) em 1916 e seu estouro no carnaval do ano seguinte. Não à toa é sua cadência amaxixada que abre o disco.

O título do álbum justapõe três palavras: samba, banto e antologia. Doutor em Musicologia pela Universidade de Tours, França, Carlos Sandroni assina um ótimo texto remontando às origens do samba, o gênero e a palavra, terreiro cheio de incertezas.

O Nó em Pingo d’Água – que tampouco tem este nome à toa – reprocessa outras pérolas das mais variadas vertentes, já que é impossível falar em samba no singular, tantas são as ramificações deste irmão do choro – terreno lembrado nas execuções do grupo, oriundo desta praia.

Obviamente não há pretensão do grupo em fechar a questão: uma antologia de samba poderia ocupar facilmente 10 discos. Ou mais. O exercício é justamente este: como dizer o máximo com o mínimo? São pérolas fundamentais para “a ascensão do gênero à condição de ícone sonoro do país”, como afirma Sandroni em uma passagem do texto do encarte.

Ismael Silva (autor de Se você jurar, em parceria com Nilton Bastos e Francisco Alves) configurou o “samba do Estácio”, qualificativo do samba que leva o nome do bairro carioca em que morava o compositor – Chico Alves, como era moda e seu feitio à época, certamente comprou sua parte na parceria. Ele comparece ao repertório ao lado de nomes como Dorival Caymmi (Samba da minha terra) e João de Barro (Copacabana, em parceria com Alberto Ribeiro).

Re/inventores do samba, Noel Rosa (Último desejo e Conversa de botequim, esta em parceria com Vadico) e Tom Jobim (Samba de uma nota só, em parceria com Newton Mendonça, e O morro não tem vez, com Vinicius de Moraes) são os únicos cujos nomes figuram mais de uma vez nos créditos.

O repertório coeso de Sambantologia é uma demonstração da grandiosidade da música brasileira. O trunfo do Nó em Pingo d’Água é não se acomodar, injetando frescor em um repertório que pode soar “batido” à primeira vista – nunca à primeira audição e às que se sucederem.

Metais em brasa hoje no Sesc Partituras

O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação
O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação

 

O auditório da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, Praia Grande) recebe hoje (29), às 19h, mais uma edição do Concerto Sesc Partituras – o espetáculo integra a programação de aniversário de 70 anos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Daniel Cavalcante (trompete) regerá o sexteto Marabrass, formado, além dele, por Hugo Carafunim (trompete), Jairo Moraes (trompa), Daniel Miranda (trombone), George Campos (tuba) e Marcel Pereira (percussão).

“Quando eu recebi o convite, pensei em fazer uma formação diferente, mas ao me debruçar sobre o banco de partituras do Sesc, optei por tocar com o grupo que já existia, o Quinteto Marabrass, Mara de Maranhão e brass de metais, que já tem 13 anos tocando junto. É grande a responsabilidade”, contou Daniel Cavalcante ao Homem de vícios antigos.

Ele prometeu “mesclar o repertório [do acervo do Sesc Partituras] de forma que a gente possa transitar entre o erudito e o popular”, destacando, entre os compositores que estarão no repertório do Marabrass na noite de hoje, nomes como “Henrique Alves de Mesquita, Marcílio Onofre, Maestro Duda e Bonfiglio de Oliveira, dentre outros”.

A biblioteca virtual de partituras do Sesc tem acesso gratuito a qualquer interessado/a. O concerto de hoje à noite também.

Daqui pra todo ouvido

Daqui. Capa. Reprodução
Daqui. Capa. Reprodução

 

O mundo se encantou com a música brasileira com a explosão da bossa nova, em fins da década de 1950. Uma das mais sofisticadas do planeta, desde então a música popular brasileira, aquela que passa longe de modismos, conquista cada vez mais espaços, sem se importar com barreiras geográficas e linguísticas.

Setas apontam para todos os lados na capa do novo disco do grupo Pau Brasil, uma das mais longevas e destacadas formações instrumentais da música brasileira. Depois da audição de suas 10 faixas, o título pode soar óbvio – o que seria a única obviedade do trabalho: todos os compositores gravados são brasileiros, daí o Daqui [2015] do título.

Metade das faixas é de autoria de integrantes do quinteto. A outra metade reverencia nomes fundamentais para a música brasileira, revelando influências e um fio condutor.

O maestro pernambucano Moacir Santos (Agora eu sei) foi professor do violonista Baden Powell (Pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que abre o disco). Tom Jobim (Saudades do Brasil) é, digamos, herdeiro de Heitor Villa-Lobos (Bachianas brasileiras nº. 1 [Prelúdio/ Modinha] – a cujo repertório já haviam dedicado o disco Villa-Lobos Superstar (2012), com participação especial do quarteto de cordas Ensemble SP e do cantor Renato Braz. E aparecem ainda Ary Barroso e Lamartine Babo, autores de No rancho fundo, de longe a mais popular das citadas.

Junto às demais faixas, autorais – Pingue pongue (Paulo Bellinati), Sarapuindo (Teco Cardoso), Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter/ Paulo Bellinati), Agreste e Caixote (ambas de Nelson Ayres) –, sobressai o espírito de conjunto, com momentos de reafirmação de seus talentos individuais, os nomes dos integrantes do quinteto sempre espalhados em fichas técnicas de discos e shows de uma grande gama de artistas.

O Pau Brasil em foto de Gal Oppido
O Pau Brasil em foto de Gal Oppido

Ricardo Mosca (bateria), Teco Cardoso (saxofones e flautas), Paulo Bellinati (violão), Nelson Ayres (piano) e Rodolfo Stroeter (contrabaixo) – da esquerda para a direita no retrato; o último o único presente desde a formação original – são a atual formação (desde 2005) do Pau Brasil, fundado em 1982, tendo estreado em disco em 1983 num álbum intitulado simplesmente com o nome do grupo.

O nome Pau Brasil remete ao Manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald de Andrade, farol do movimento modernista – não à toa seu disco anterior, com a voz de Monica Salmaso (eram sua banda em Noites de gala, samba na rua, de 2007, inteiramente dedicado ao repertório de Chico Buarque) e a regência de John Neschling, chama-se Concerto antropofágico (2012).

Em Daqui sobram demonstrações de talento, versatilidade e capacidade de improvisação, num álbum que é, com pitadas jazzísticas, uma espécie de síntese da música (instrumental) brasileira. Como no poema de Olavo Bilac reproduzido no encarte: “E em nostalgias e paixões consistes,/ lasciva dor, beijo de três saudades,/ flor amorosa de três raças tristes”.

Veja/ouça o Pau Brasil em Caixote (Nelson Ayres):

São Luís, ilha do jazz

Divulgação
Divulgação

 

Apreciadores do bom e velho jazz ganham mais um espaço para fruição do gênero norte-americano na capital maranhense. “A Casa da Mãe Joana apresenta Jazz & Fusion” é o que anuncia o bonito cartaz que recebi, através de uma rede social, do baterista Isaías Alves, nome de destaque em seu instrumento, vencedor de concursos e capa de revistas especializadas por aí afora.

A seus tambores e sintetizadores se somam guitarra, violão e bandolim de Ronaldo Rodrigues e o contrabaixo de Lionel Almeida. A noite terá ainda discotecagem de Selecta Groove e o repertório deve abarcar música instrumental para além do jazz, passando inclusive por choro. Está prometida uma “anarquia sonora”, foi o que afirmou ao blogue Ronaldo Rodrigues, cuja passagem pela cidade natal é aproveitada com esta jam – “não sei bem o que vamos tocar, um ensaio hoje definirá isso”, contou o músico, radicado no Rio de Janeiro.

No entanto, engana-se quem pensa que, na terra do bumba meu boi e tambor de crioula, o gênero de Miles Davis e John Coltrane seja restrito a um gueto. Há fiéis seguidores, que justificam a teimosia de músicos em tocar jazz – com milhares de pessoas ou alguns poucos “gatos” pingados na plateia. “Cats”, convém lembrar, é uma gíria que designa os aficionados por jazz.

Além de ouvidos e mentes interessados, São Luís tem programa de rádio – o Sexta Jazz, na Universidade FM (106,9MHz), às 21h, apresentado por Augusto Pellegrini –, livros publicados sobre o tema – Jazz: das raízes ao pós-bop, de Pellegrini, e Confesso que ouvi, de Érico Cordeiro – e Barreirinhas sedia anualmente o Lençóis Jazz e Blues Festival, produção do músico Tutuca, cuja programação sempre inclui um fim de semana na capital.

Jazz & Fusion acontece amanhã (25), às 21h, na Casa da Mãe Joana (Rua Godofredo Viana, 16, Centro). Os ingressos custam R$ 10,00.

Chorografia do Maranhão: Chiquinho França

[O Imparcial, 24 de agosto de 2014]

O bandolinista e guitarrista Chiquinho França é o 38º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Francisco Lopes da Costa nasceu em 14 de fevereiro de 1964, num lugarejo, a Fazenda Catanha, entre Santa Inês e Bom Jardim. Filho do agricultor Antonio Costa de Sousa e da doméstica Maria Lopes da Costa, tem 10 irmãos – dois já falecidos –, entre os quais o cantor e compositor Luis Carlos Dias, que lhe ensinou os primeiros acordes.

O França de seu nome artístico é corruptela do nome de batismo: sua mãe o chamava “Franca” e os amigos “França”, sempre diminuindo o Francisco, que acabou virando Chiquinho, um de nossos mais requisitados instrumentistas. “Um guitarrista que toca bandolim”, define-se.

Seus discos estão impregnados de rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. O primeiro, descobriu assim que ouviu o clássico The Wall, do Pink Floyd. O choro e o Maranhão estão fundidos em Santa Morena, clássico de Jacob do Bandolim que incluiu um bumba meu boi no arranjo de sua gravação. Seu registro instrumental para Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, virou prefixo de programa de rádio – Chiquinho França havia se tornado, ele próprio, uma paixão da infância, quando subia em um muro para captar o sinal de uma rádio brasiliense e ouvir as gravações dOs Incríveis para Czardas – que acabou regravando – e O milionário.

Reprovado na banda de Raimundo Soldado, ele não desistiu da música – sorte a nossa! Sobre estes e outros episódios, Chiquinho França deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 38º. da série, no Bar do Jósimo, na esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, no Centro de São Luís – cidade pela qual se apaixonou, de onde nunca mais saiu.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Seu primeiro trabalho foi vendendo bolo? Sim. Mamãe fazia bolos para a gente vender para conseguir a alimentação de casa. Eu comecei a trabalhar com 10 anos de idade. Inclusive nesses trabalhos que eu fazia na rodoviária foi aonde eu me encontrei com o choro. Foi na rodoviária de Santa Inês, ouvindo um ceguinho, chamado Francisco das Chagas, Chaguinhas, que chamavam. Um anão. Ele usava um megafone, esses megafones é que eram a rádio das pequenas cidades. Não tínhamos sinal de televisão nessa época, até os anos 1970. Só pegávamos o sinal da rádio Nacional de Brasília. Era o contato que a gente tinha assim com a música. Na época o choro era um sucesso. É até hoje, mas na época a gente ouvia na programação de rádio.

Como era o ambiente musical em tua casa? O que se ouvia de música lá? Quase nada. Nem rádio a gente tinha. Era tudo no do vizinho. Muita pobreza, pobreza mesmo! Eu me lembro de rádio na minha casa, já fui eu que comprei, um radinho de pilha sem antena, eu tinha que subir no muro do quintal para sintonizar a rádio Nacional para ouvir Czardas [música do violinista e compositor italiano Vittorio Monti] tocada pelos Incríveis [grupo musical da Jovem Guarda] e O milionário [título aportuguesado de The millionaire, música do guitarrista e compositor inglês Mike Maxfield] também pelos Incríveis, eu achava aquele instrumental a coisa mais linda do mundo. Ambas eram prefixo e sufixo de um programa que eu, infelizmente, não recordo mais o nome. Mas eu sabia exatamente o horário em que o programa começava e terminava e eu ia lá para o muro para ouvir. Eu já sabia que eu queria ser músico mesmo, que eu era músico. Eu já tinha certeza disso.

A partir de que momento você teve essa certeza? Desde que eu, criança, ouvia as músicas. Isso me chamava a atenção e me remetia a um êxtase, digamos assim, eu saía dessa vida aqui, me pegava imaginando eu tocando aquele instrumento. Me impressionava muito como eles imprimiam o áudio nos vinis, eu ficava olhando para aquele vinil, tudo isso me causava curiosidade com relação ao áudio, eu tinha muita curiosidade com relação a esse tipo de gravação. Ficava me imaginando ali, sabia comigo que eu tinha que aprender a tocar um instrumento. Até que com 12 anos de idade eu dedilhei um violão que meu irmão Luis Carlos Dias [cantor e compositor] conseguiu emprestado com um amigo e estava lá em cima da cama dele. Foi a primeira vez que eu tive contato com um instrumento. Mas eu já curtia o ceguinho lá na rodoviária.

Ele tocava algum instrumento ou só usava o megafone? Ele tocava cavaquinho numa afinação inventada por ele. Eu não consegui pegar um acorde dele. Ele usava um amplificador delta que era alimentado por umas baterias de carro e um arame amarrado no pescoço [segurando o megafone], que ele cantava, e a esposa dele tocava pandeiro. Não tinha acompanhamento, ele tocava só as melodias, era só ele esse pandeiro. E harmonizava, ele fazia a melodia e dava um acorde, era um som distorcido, a amplificação do som muito ruim. Na rodoviária antiga de Santa Inês, ali na Laranjeira. Quando eu não estava na escola ou vendendo eu estava ali ouvindo-o tocar. Eu jogava a moeda, ele ouvia, eu cansei de ouvi-lo tocar [os choros] Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Brasileirinho [Waldir Azevedo], Vê se gostas [Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga], Delicado [Waldir Azevedo], enfim, essas músicas, Dilermando Reis [violonista], ele tocava algumas coisas, Waldir Azevedo [cavaquinista] e o próprio Jacob do Bandolim [Jacob Pick Bittencourt, bandolinista]. Esses choros todos ele tocava lá, eu já curtia.

Desse teu encontro com o violão emprestado de Luis Carlos Dias, dali já deslanchou? Não, não. Luis Carlos não deixava eu pegar, eu era muito criança, o violão era dum amigo dele. Ele apareceu tocando [cantarola] “hoje é o dia do Santo Reis” [trecho de A festa do Santo Reis, de Márcio Leonardo, sucesso na voz de Tim Maia], eu decorei esses acordes. Quando ele largou o violão eu percebi que tinha facilidade, ritmo, aptidão para a música. Eu comecei a economizar uns trocados, o violão foi o do Luis Carlos, meses depois ele comprou um violão e fui na sombra dele, aprendendo os primeiros acordes com ele.

Então o violão foi teu primeiro instrumento. Hoje você toca vários. A partir de que momento você passou para outros? O Luis Carlos já entrou numa banda, começou a tocar guitarra. Ele foi sempre me influenciando, eu fui seguindo os passos dele. Eu entrei numa banda de baile, a gente chamava de conjunto, era Chica Cão, ela tocava acordeom, tinha uma banda de forró. A gente passava a noite inteira tocando, eu aprendi os primeiros acordes, ela me ensinou aquela harmona [harmonia], e eu viajava com ela para tocar forró naqueles interiores ali, Alto Alegre, a gente andava de lancha, Rio Pindaré, tocando esses bailes a noite toda, começando de nove até cinco da manhã.

Tocando violão? Tocando já guitarra.

Além de você e Luis Carlos há algum outro músico na família? Meu avô tocava acordeom, mas era só para tomar as pinguinhas dele. Trabalhava na roça, chegava, fazia aquelas melodias de Luiz Gonzaga mais fáceis, só pra curtição mesmo, não foi profissional.

Como foi a reação de teus pais quando você e Luis Carlos começaram a enveredar pelo caminho da música? Foi surpreendente e até inusitada. A coisa que eu tinha mais medo era de falar isso para minha mãe. Eu trabalhava de manhã, vendia leite, bolo, doces na rodoviária, e à tarde eu estudava. E aí surgiu uma oportunidade de viajar para Imperatriz. Eu escutei num parque de diversões na cidade um cara requisitando músicos para formar uma banda em Imperatriz. Aí ele me encontrou: “rapaz, ouvi falar que você toca”, eu já tocava nessa bandazinha pequena de forró.

Você tinha que idade? 14 anos. Aí eu digo: “eu não vou, minha mãe não deixa, eu estudo, e aqui eu ajudo a trabalhar”. E ele: “não, eu falo com tua mãe”. E minha mãe deixou. “Meu filho, olha, se isso for bom pra ti, é isso que você quer, eu já percebi, pode ir. Mas lá arranje um jeito de estudar também”. Aí eu fui dessa forma, parti para Imperatriz, pra começar uma carreira musical mesmo, profissional nessa época.

E como foram as coisas em Imperatriz? Como foi sua inserção? Eu fiquei apenas três meses e voltei. O cara que me levou, me levou para tocar numa cidade do Pará, próximo à Marabá, eu não vou recordar o nome agora, para tocar num cabaré. E não falou pra mim. Eu não me adequei, fiquei com medo, e voltei pra Santa Inês. Fui trabalhar com Raimundo Soldado [cantor e compositor maranhense] em Caxias. Eu fui pro Raimundo Soldado substituir um guitarrista chamado Elias, um monstro de harmonia. E eu, fraco, estava começando. Eu só toquei um baile, fui reprovado. Um cara me chamou, “pô, Chiquinho, os músicos acharam que você tem que estudar mais” e não sei o quê. De lá eu fui tocar nos Jovens, uma banda mais pop. O Raimundo Soldado tocava muito forró, apesar de as músicas dele serem brega, as harmonias que o guitarrista fazia eram uma coisa absurda. Ele agradava muito, foi sucesso nacional. Raimundo Soldado ainda hoje toca em rádio em São Paulo. Ele estourou um disco todinho na [gravadora] Copacabana.

E o que te tirou do forró e do pop? Ainda ali pela rodoviária de Santa Inês tinha uma loja de instrumentos. Naquela época quem fazia sucesso era essa rapaziada aí, [os cantores] José Augusto, Fernando Mendes, Wanderley Cardoso, o próprio Roberto Carlos. A gente ouvia essa música, basicamente. E tinha dois álbuns duplos, empoeirados, mais de dois anos lá encalhados, e eu curioso, fui ouvir, tinha uma vitrola para você ouvir o vinil antes de comprar. Era o The Wall, do Pink Floyd, aquele branco, duplo, e o outro era Minha História, um álbum verde, uma coletânea, de Chico Buarque de Holanda. Eu achei aquilo muito diferente. Aí fui trabalhar para comprar, o cara me vendeu num valor barato, um custo assim, já queria se ver livre, me vendeu duas peças maravilhosas, e achando que estava me enrolando, que estava me vendendo um material de péssima qualidade [risos].

E estava mudando tua vida? Estava me dando caminhos, abrindo portas para eu tocar música de qualidade. Me apresentou o melhor do rock progressivo, que é Pink Floyd, e Chico Buarque de Holanda, que é referência de nossa música popular brasileira.

Se você tivesse que nominar quem você considera teus principais mestres, quem você citaria? São muitos. O ceguinho é o primeiro. Depois eu conheci Armandinho [Macedo, bandolinista] tocando bandolim. Antes de conhecer o trabalho de Jacob do Bandolim eu conheci o Armandinho tocando Jacob do Bandolim, aí foi impactante. A Cor do Som, eu comprava tudo dA Cor do Som, e o outro, Pepeu Gomes [guitarrista], que também toca bandolim. Eu lembro de um pot-pourri que ele começa, já fazia com banda, era tudo muito diferente. É o que eu faço hoje nos meus shows, eu gosto de tocar com banda, e não é inventando, é o que os baianos já faziam, Pepeu e Armandinho. Então, Pepeu Gomes, Armandinho, Robertinho de Recife [guitarrista]. Aí vêm os grandes mestres, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, gosto de George Benson [guitarrista], David Gilmour [guitarrista e cantor, vocalista do Pink Floyd]. São meus mestres que me inspiram, minha fonte para a música. Luis Carlos Dias me ensinou os primeiros acordes, mas ele já mudou para Imperatriz e eu fiquei em Santa Inês. Depois eu aprendi, mas ninguém me ensinou: eu aprendi olhando todo mundo tocar.

Depois que você assumiu a música, você trabalhou com outra coisa? É possível viver de música? Só música! Eu sou um operário da música, eu vivo de música. Não é fácil, não. Você tem que ser artista duas vezes. Eu sou produtor, ultimamente meu faturamento é muito mais como produtor que com meus próprios shows, eu faço muito pouco show, toco muito pouco, me apresento pouco por aí.

Mas não por falta de vontade. É por que você vai ficando mais exigente, cada vez mais. Eu dispenso show se não for para fazer com qualidade. Só pelo cachê eu não vou, mesmo às vezes precisando. Por esse respeito, eu tenho muito cuidado com a qualidade, de como eu vou me apresentar. E isso tem imprimido um respeito, eu sinto que eu tenho esse respeito no mercado por conta disso.

São quantos discos gravados até aqui? Cinco cds e um dvd. O primeiro foi um vinil, Novos tempos, o segundo foi o primeiro cd, Em cartaz, o terceiro foi Chiquinho França Instrumental, aquele da capa vermelha que tem os instrumentos na capa, o quarto foi Chiquinho França Instrumental, que eu estou vestido de azul, com uma guitarra branca. Na verdade são quatro cds, os outros dois foram coletâneas, o que tem o dedo assim [faz o gesto de legal, com o polegar erguido] foi o quinto, e o sexto foi o Solos, gravado ao vivo no Teatro [Arthur Azevedo], que é cd e dvd.

E agora saiu esse conjunto bonito. É, agora a gente fez uma nova coletânea [Som do Mará, em cd e dvd]. Eu estava sem disco e fiz aquela coletânea, ficou bem apresentado, gostei do material gráfico.

A partir de quando o bandolim entra na tua vida? Quando eu fui reprovado e dispensado e mandado embora da banda do Raimundo Soldado, quando eu estava saindo com minhas malas, o baterista, que era um cara que ficamos amigos, dormíamos no mesmo quarto, em duas redes, ele conversava comigo e dizia: “rapaz, não desiste, você tem talento, por mim você ficava”. Ele pegou e ligou para seu Cícero, da banda Os Jovens, de Codó, e o cara veio me buscar, eu nem voltei pra Santa Inês, fui direto pra Codó. Lá a recepção foi outra, era uma galera mais jovem, já tocava mais pop, eu já tocava algumas coisas dA Cor do Som. Lá eu me encaixei, fiquei tocando seis meses. E falei pra seu Cícero, que eu gostaria de comprar um bandolim. E ele foi em Teresina e trouxe um bandolim de presente pra mim, um bandolim Trovador. Aí eu não dormi mais, fui estudar bandolim.

Você nasceu em Santa Inês, foi para Imperatriz, depois Codó. Como é que foi até chegar em São Luís? Fui para Imperatriz e formamos a banda Bumbum de Bebê. Era eu, Luis Carlos, eu tocava na Bumbum de Bebê, na parte acústica, bandolim, Luis Carlos, violão, Alfredo Varela, bateria, e Zé Raimundo era o crooner, vocalista. Quando entrava a banda eu tocava contrabaixo e Luis Carlos era guitarrista, ele tinha mais nome, foi o melhor músico, guitarrista e vocalista daquela região na época. Quando nós trocamos o nome para Banda Quatro, aí eu assumi a guitarra e Luis Carlos o contrabaixo. Eu fiz meu primeiro show em Imperatriz, instrumental, e aí percebi a coisa de começar a tocar música instrumental. O primeiro disco, vinil, gravado em Imperatriz, que eu fiz de favor, no estúdio do Carlito Santos, na [rua] Coronel Manoel Bandeira, em Imperatriz, o disco chegou, eu coloquei nas lojas, e eu passava de 30 em 30 dias para pegar a grana, e estavam lá todos os discos [risos]. Rapaz, eu não consegui vender um exemplar nas lojas. Eu já tinha até vergonha, um cara ficava com pena de mim, um dono de loja, “pô, Chiquinho, não vendeu nenhum”. Eu gravei Filhos da precisão, do [cantor e compositor Erasmo] Dibell. Esse vinil veio pra cá pra São Luís e virou tema de abertura do programa MPM, que César Roberto apresenta, ele abria e fechava [o programa Mirante Popular Maranhense] e nas entrevistas tocava Filhos da precisão instrumental.

Foi a primeira gravação de Filhos da precisão? Antes do próprio Dibell? Foi. Foi antes do Dibell gravar. Destacou essa música instrumental, eu fiz um show instrumental, tentei fazer o lançamento desse disco em Imperatriz várias vezes, público nenhum. Eu tentei fazer um show instrumental no Teatro [Ferreira Gullar]. Chico Brasil era gerente do Armazém Paraíba, em Imperatriz. Eu falei “Chico, eu quero fazer um show instrumental no teatro. Tu patrocina?” Ele disse “na hora!”. Ninguém colocava gente naquele teatro, nem Neném Bragança [cantor]. Luís Brasília me deu a mídia na Mirante e aí nós fizemos uma mídia de um concerto instrumental no teatro. Na época a gente cobrava, tipo 10 reais hoje, como se fosse na moeda corrente de hoje, e os shows nacionais lá eram 60. Aí eu puto de raiva cobrei 60 reais, pra ninguém ir mesmo. Meu amigo, venderam todos os ingressos quatro horas da tarde, a 60 reais, e a gente teve que fazer duas sessões. Ganhei dinheiro e fiquei surpreso, uns 30 dias sem entender.

Que ano foi isso? 1983.

Uma coisa que se percebe em teu trabalho é o diálogo permanente entre rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. É intencional? Você se sente mais à vontade nesses gêneros? Há quem até me critique, “pô, teu disco não dá para ouvir, vem num estilo, de repente muda, não tem um estilo”. Mas são os estilos que eu gosto. Como é que eu vou fazer? Só se eu fizer discos diferentes. Eu fico com ciúme de fazer um disco só de guitarra e não colocar meu bandolim. É intencional mesmo, é meu estilo, é minha forma de fazer. Já tem pessoas que curtem isso, é interessante, é complicado você querer agradar todo mundo. É o que eu costumo dizer: eu nunca gravo o que eu não gosto. Agora, dentro do repertório que eu gosto, eu tento conciliar com o que meu público curte. Eu sempre escolho meu repertório no palco. Primeiro eu toco, se eu sentir que não houve empatia, eu fico “essa entra, essa não”, é dessa forma que eu monto meu repertório. Tem dado certo.

Além de bandolim, guitarra, baixo e violão, você toca algum outro instrumento? Na verdade eu toco guitarra e bandolim, são meus instrumentos. Nem violão, eu não acho que sou um violonista. Agora no estúdio eu toco até teclado, emendando, né? Mas eu não diria que eu toco. É guitarra e bandolim mesmo.

Algum projeto de disco pensado para breve? Eu sempre estou. Estou com um projeto agora, um trabalho novo, autoral, com ritmos maranhenses. Eu vou pegar, fazer uns dois sotaques de boi, cacuriá, tambor de crioula, pegar isso e transformar numa pegada universal. Pegar células desses ritmos, estou devendo há muito tempo. Era para esse ano, mas eu vou me ocupar, acabei aprovando um projeto na lei [estadual de incentivo à cultura] e consegui captar junto à Cemar [Companhia Energética do Maranhão] e estou trabalhando esse projeto, que é viajar com esse show Som do Mará, só que está indo com outro nome, não vai ser Som do Mará. Esse projeto foi criado para a Vale. O nome ficou Sons e Trilhos, a gente ia fazer o percurso até Parauapebas. Eu vou ficar ocupado com esse projeto até meados de outubro. Então eu não vou ter tempo de fazer esse meu trabalho esse ano, que seria Francisco 5.1, eu estou completando 51 anos de idade e é a sonoridade de dvd.

Fora os teus, que discos têm teus instrumentos na ficha técnica? São muitos, eu não vou lembrar [longa pausa, pensativo]. O Canta Imperatriz [disco com as finalistas de um festival de música da cidade] é um disco que ficou bom, que eu gosto, o projeto Viva 400 Anos [festival realizado em São Luís por ocasião dos 400 anos de sua fundação] tem o dedo da gente, eu assinei a produção daquele trabalho, aquele disco que Augusto [Bastos] produziu, Louvação a São Luís [disco comemorativo dos 390 anos da capital maranhense]. Aí tem os discos de Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], participei, toquei bandolim, [os cantores e compositores] Zeca Tocantins, Neném Bragança, Wilson Zara. São pequenas produções em disco.

Você tem quantas composições? Muito pouco. Acho que umas 40. Mas nenhum choro. É incrível, eu gosto de choro, mas não consigo fazer. Eu tento, mas nem guardo, não gosto. Eu componho na pressão, eu sou um “jingleiro”. Se tu deixar aqui, pode passar à tarde para pegar, mas sou meio preguiçoso para compor. Mas choro eu não consigo.

Com essa tua dificuldade em compor choro, você se considera um chorão? Não, não me considero. Eu sou meio desconfiado. Por que eu não toco choro, aquele choro tradicional, eu não consigo ficar ali, tocar do jeito que é. Eu pego, boto uma correia no bandolim, faço com batera [bateria], contrabaixo, uma coisa mais pop, e já fiquei sabendo que tem chorão que não gosta. Eu acho que eu sou um guitarrista que toca bandolim.

Pra você, o que é o choro? É a nossa música brasileira, é o nosso jazz. Se duvidar, é o jazz mais bonito, mais complicado, mais rico do mundo, se formos colocá-lo no patamar de jazz. O choro normalmente tem três partes. Tem choros que têm três tons diferentes. Se você realmente não for um músico que conheça o choro você não sai tocando choro. Só se já conhecer as melodias e tiver uma noção do que é choro. Pode ser o músico que for, ele se perde, não acompanha. É complicado! O choro é abrangente, é baião, é frevo, é xote.

Ele pode ser bumba meu boi? Pode ser cacuriá? Pode, desde que se tenha a pegada do choro.

Você fez isso bem em Santa Morena [Jacob do Bandolim]. É, coube ali, ficou legal, né?

Quarteto Belmonte, de graça, amanhã, em São Luís

Edino Krieger, o pai do Edu, é o autor das Telas sonoras acima. Ele, criador das Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, internado por força de complicações cardíacas, não poderá vir à São Luís, como previsto, para participar do Sesc Sonora Brasil, cujo tema, nesta edição é justamente Edino Krieger e as Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, sobre o que o compositor palestraria dentro da programação. Este blogue torce por sua pronta e breve recuperação.

Não é à toa que o Quarteto Belmonte foi escolhido para ilustrar este post: eles tocam amanhã (24), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada gratuita (retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro).

O Belmonte é formado por Márcio Sanchez (violino da Orquestra Municipal do Theatro Municipal do Rio de Janeiro), Ubiratã Rodrigues (violino da Orquestra Sinfônica Brasileira – Ópera & Repertório), Dhyan Toffolo (viola da Orquestra Petrobras Sinfônica) e Janaína Salles (violoncelo da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense). O concerto tem duração aproximada de uma hora.

Josué Costa e a ponte instrumental entre o Maranhão e o Piauí

Talento precoce do violão, músico apresentou-se após João Pedro Borges na Mostra Sesc Amazônia das Artes. Maranhense foi jurado de concurso vencido pelo piauiense aos 17 anos, em 2004

Ponte musical entre o Piauí e o Maranhão, Josué Costa e João Pedro Borges tocaram juntos "Magoado", de Dilermando Reis. Foto: Zema Ribeiro
Ponte musical entre o Piauí e o Maranhão, Josué Costa e João Pedro Borges tocaram juntos “Magoado”, de Dilermando Reis. Foto: Zema Ribeiro

 

João Pedro Borges não exagerou ao não poupar elogios a Josué Costa, talentoso violonista piauiense que sucedeu seu concerto na programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes, ontem (23), no Teatro João do Vale.

O que o maranhense me havia dito em entrevista, reafirmou diante da plateia: o espanto causado pelo jovem, então com 17 anos, quando venceu em 2004 o I Festival de Violão do Piauí, de que eram jurados, além de João Pedro Borges, Turíbio Santos e Guinga, entre outros.

Depois de um repertório criteriosamente selecionado, que passou, entre outros, por Heitor Villa-Lobos, Paulinho da Viola, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth e João Pernambuco, os músicos ergueram uma ponte musical estreitando as relações entre Maranhão e Piauí. O que deveria ser feito mais vezes, a nosso ver, dada a proximidade geográfica entre dois dos estados mais pobres da nação – entretanto fertilíssimos quando o assunto é cultura. Insisto em dizer que pouco conhecemos dos vizinhos desde Torquato Neto e vice-versa.

“Eu não podia perder essa oportunidade. É para colocar no meu currículo”, anunciou João Pedro Borges, ao anunciar a última peça, que dividiu com Josué Costa: Magoado, de Dilermando Reis. Depois, o piauiense seguiu sozinho, em um concerto emocionante e corajoso – pois quase completamente autoral.

Ambos derreteram-se em elogios ao Sesc, destacando o papel fundamental que a instituição cumpre para a fruição da música brasileira, lembrando de suas participações em eventos promovidos por suas unidades em todo o Brasil.

Antes de continuar, Josué Costa devolveu os elogios a João Pedro Borges, destacando sua importância para o instrumento no Brasil. Com talento de sobra, ele desfilou um repertório quase todo de sua autoria, apresentando-se competente compositor e instrumentista. Mostrou músicas de seu disco de estreia, Luando, tema que escreveu em homenagem ao filho Luis Fernando e que também batizava o concerto de ontem. Abriu sua apresentação com um tema de sua autoria, ainda sem título, composto durante a turnê que se encerrava ontem em São Luís.

Bem humorado e supersimples, ia contando as histórias de suas músicas. Samba aranha, que escreveu para o amigo Yamandu Costa, que “hoje está bichado, sofreu um acidente, mas é um patrimônio do violão brasileiro”. O músico gaúcho fraturou a mão direita no início de agosto e cancelou algumas apresentações. Para o pai escreveu Mestre Riba: “ele nunca me disse para procurar outra coisa, nunca disse que música não dá certo, sempre gostou da música que eu faço”, agradeceu.

Ele próprio contando as histórias era engraçado e alguns títulos de suas músicas, idem: Chefe atrapalhado escreveu para um colega violinista de quem é – ou foi – subordinado. Asilado foi escrita após uma noite de conversa e música com Alessandro Penezzi. “O cara conversa, ouve tanto e depois quer fazer alguma coisa sob a influência. Aqui eu não sei como é que chamam, mas lá no Piauí, asilado é doido. Mas esse é um doido do bem, é o cara doido por música”, explicou. Ele dedicou sua apresentação a “um grande músico maranhense, Robertinho Chinês”, que estava na plateia.

Feito em casa foi composta sob encomenda para um programa homônimo da tevê piauiense. Josué Costa passeou ainda por temas de Tom Jobim (Passarim), Carlos Gardel (Por una cabeza, com letra de Alfredo Le Pera, tema do filme Perfume de mulher, de Martin Brest) e Edith Piaf (Sob o céu de Paris, tradução de Sou le ciel de Paris, de Hubert Giraud e Jean Dréjac).

“Estou muito feliz em estar aqui, estou me sentindo em casa, espero voltar mais vezes em breve. Estou há 10 dias na estrada, já começa a bater uma saudade”, anunciou, antes de despedir-se.

Música instrumental no Sesc Amazônia das Artes

João Pedro Borges faz passeio por escolas do violão brasileiro. Josué Costa, vencedor do I Festival de Violão do Piauí, se apresenta na sequência

João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos
João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Violonista e professor de música, João Pedro Borges, 67, é um nome fundamental para o violão brasileiro, que ajudou a divulgar inclusive fora do país. Entre o fim da década de 1970 e boa parte da de 80, Sinhô, como também é conhecido no meio musical, integrou um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali.

A bagagem e as histórias são muitas. Musicalmente, boa parte poderá ser conferida em concerto que o músico apresenta amanhã (23), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca, dentro da programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes.

Sinhô, que recentemente percorreu o Brasil ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, numa série de concertos pelo projeto Sonora Brasil, também do Sesc, apresentou-se na última edição da Mostra Sesc Guajajara de Artes, ao lado da cantora Célia Maria, em outubro do ano passado. Sobre estar mais uma vez escalado para uma programação da instituição, ele comentou: “Desde o Sonora, mantenho excelentes relações com o Sesc e é com grande prazer que participo da sua extraordinária programação. Representar o Maranhão no Sesc Amazônia é uma distinção que muito me honra”.

O concerto do maranhense será seguido pelo de Josué Costa, às 20h, no mesmo palco. O piauiense venceu o I Festival de Violão do Piauí, cujo júri era formado, além de João Pedro Borges, por nomes como Turíbio Santos e Guinga. “É um jovem violonista muito talentoso e que nos deixou impressionados quando venceu aquele concurso. Estou curiosíssimo para ver como está “a Fera” neste momento”, elogia.

Eventos como os citados, de que Sinhô participou, demonstram a valorização da música instrumental pelo Sesc. Pergunto-lhe o que falta para que isto seja mais corriqueiro e pauta dos poderes públicos e da iniciativa privada. “Creio que a excessiva politização da vida brasileira e da maranhense em particular, sempre acaba levando as chamadas políticas públicas para o campo suspeito das disputas pelo poder. O primeiro mundo há muito nos dá o exemplo de como integrar o público e o privado criando um mercado independente onde a música instrumental vive dos seus méritos. O Sesc, preenchendo uma lacuna brasileira, tem desenvolvido projetos que contemplam a música não comercial e de mais difícil acesso, tendo em conta os critérios da indústria cultural”, respondeu.

Como repertório de sua apresentação ele anuncia “um passeio pelo violão brasileiro, juntando patriarcas como [Heitor] Villa Lobos, [Ernesto] Nazareth, Radamés Gnatalli e figuras marcantes como João Pernambuco, Garoto e Paulinho da Viola. O programa mostra as relações de influência entre eles e registra mudanças rítmicas, harmônicas e sociais da vida brasileira”, antecipou.

Após sua participação no Sesc Amazônia das Artes, João Pedro Borges irá ao VI Festival de Violão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O festival acontece de 21 a 25 de setembro e, além do maranhense, terá concertos gratuitos de Marco Pereira, Turíbio Santos e Egberto Gismonti, entre outros.

Chorografia do Maranhão: Zé Carlos

[O Imparcial, 10 de novembro de 2013]

Percussionista do Regional Tira-Teima, Zé Carlos, 19º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, recebeu a chororreportagem no Bar do Léo

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Era uma tarde de sábado, véspera de uma data histórica para o choro no Maranhão. A chororreportagem encontrou Zé Carlos, percussionista do Regional Tira-Teima, no Bar do Léo, que diminuiu o volume do som do ambiente, seu museu particular, encravado no Hortomercado do Vinhais, garantindo a tranquilidade necessária para o papo e o posterior trabalho do responsável pela transcrição da entrevista – em alguns momentos de silêncio, entre perguntas e respostas, é possível ouvir as vozes de Cartola e Paulinho da Viola, que enfeitaram a conversa.

No dia seguinte (27/11), Zé Carlos, com seu grupo, subiria ao palco da Praça Nauro Machado, na Praia Grande, para a Noite do Choro, programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes que reuniu, pela primeira vez, no mesmo palco, tocando simultaneamente, o Regional Tira-Teima e o Instrumental Pixinguinha, mais antigos e tradicionais grupamentos de choro em atividade no Maranhão. A noite teve ainda uma quase reedição do Recital de Música Brasileira, espetáculo em que desfilaram os talentos do violão de João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], o Sinhô, uma lenda viva do instrumento, e da voz de ouro de Célia Maria, diva ainda menos conhecida do que deveria, rima involuntária.

José Carlos Silva estava tranquilo e sereno e a grande responsabilidade parecia não o abalar. Nascido no Centro de São Luís – “numa maternidade que tinha ali na Rua Rio Branco” – em 5 de outubro de 1945, o percussionista é modesto, a ponto de não se considerar um percussionista. Filho de Rufina Silva, “a mãe verdadeira”, criado por Filomena Silva Freitas, “a mãe que criou”, irmã da primeira, e Raimundo Freitas, o Tibinga, comerciante de quem herdou o apelido. “Até hoje, no Monte Castelo, em alguns lugares, sou conhecido assim”, revela, ele que não se zanga com a alcunha.

Zé Carlos não bebeu durante a entrevista. Mas, elegante, dispôs-se a pagar a despesa dos chororrepórteres.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você morava no Centro? No Centro, se você considerar a Vila Passos. Morei em três bairros basicamente: Vila Passos, depois Monte Castelo e estou na Cohama há mais ou menos 20 anos.

Além de músico, você tem outra profissão? Sou funcionário público estadual aposentado. Trabalhei no Departamento de Estradas de Rodagem por muito tempo, mas fui me aposentar na Secretaria de Educação. Lá me aposentei em 1998.

Então hoje você se dedica integralmente à música? Eu me considero um cara que compreendo a música. Eu não sou um músico didático, um músico acadêmico. Sou um músico prático, por que eu sou curioso. Eu com 10 anos de idade, lá na Vila Passos, começava a pegar coisas, fazer minha bateria, lata velha, panela velha, caixa, e ali eu fazia minha festa.

Por falar na tua infância: como era o ambiente musical em tua família? Tinha alguém que gostava de música? Isso aí eu não sei de onde veio, essa veia, por que eu tenho uma veia musical. Eu tenho facilidade pra compreender a música, é um privilégio que eu tenho, não sei de onde veio. Eu sei onde tá a complexidade da música, a coisa bonita. Eu não misturo a beleza com a complexidade da música. Muita gente, principalmente instrumentistas, só gosta daquilo que é complexo. A música que eu gosto é aquela que me toca, não importa quem seja o autor. Eu sou um cara que gosta de Kenny G, o pessoal detesta. Eu gosto, eu choro, a música é bonita.

Você fala que começou a, com 10 anos, fazer uma bateria, uma coisa meio instintiva. Teve algum professor? Tem umas histórias depois disso. Inclusive eu toquei clarinete por algum tempo. Eu quando servi o Exército, eu lá naquele negócio, me mandaram fazer opção entre um curso e frequentar a banda de música. O coração falou mais alto, eu não pretendia fazer carreira, escolhi a banda de música. Inclusive na formatura do ano, desfilei na banda tocando clarinete. Estudei com o pai da [cantora] Alcione, o João Carlos [Nazaré, maestro]. Assim que perceberam a minha vocação pela música, contrataram um professor, me deram um clarinete e eu comecei a estudar. Depois, meu próprio ouvido me traiu. Eu como tenho essa facilidade de ouvir, de interpretar a música logo pela audição, eu abandonei logo a partitura e comecei a tocar tudo de ouvido. Quando chegou aqui o primeiro disco de [o saxofonista soprano] Saraiva, foi uma febre, tocava em todos os lugares. Eu consegui tocar todas aquelas músicas que tinha naquele disco, tudo aquilo eu tocava. Fazendo minhas serenatas por aí, arranjei um amigo que tocava sanfona de oito baixos, outro tocava violão, eu pegava minha clarineta e saíamos por aí por essas ruas da cidade. Nessa época, São Luís era um pouquinho mais atrasada do que hoje, ela não avançou muito, mas havia a possibilidade de você sair por toda a cidade, andava, sem o perigo. A gente pegava a estrada de ferro, do Monte Castelo pro João Paulo, Floresta, Madre Deus, Coroadinho, Fé em Deus, não tinha isso [violência].

Tua família incentivou, na medida em que te deu presentes. Havia alguma restrição? Não tinha restrição, tanto é que facilitaram a minha entrada nesse mundo. Pagando professor, um sargento reformado da polícia. Depois teve um outro professor, Pedro Grombell. Depois cheguei a tocar, eles organizavam ladainhas. Ele foi meu mestre, tocava violino e eu tocava clarinete com ele. Ele é pai de um grande músico, Osmaro, tocava contrabaixo.

Desse grupo que você falou, havia um nome? Não, isso tudo era farra, era festa. Saíamos sexta-feira. Éramos perdidos. Hoje eu sou um cara direito [risos].

Você falou dos brinquedos de bateria, depois do clarinete. Quando é que se dá a volta à percussão? No meio desse caminho começou a minha paixão, eu descobri que gostava de harmonia vocal e comecei a trabalhar isso ainda nessa época em que eu tocava clarinete. Eu cantava com o acordeonista, o violão, o repertório de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. A música era Uirapuru: “Uirapuru, ô, Uirapuru” [cantarola]. Essa música era vocalizada…

Na linha do Tonga Trio? O Tonga Trio começou a partir daí, mas antes de chegar no Tonga Trio, quando eu saí desse grupo, alguma coisa não deu certo, se dispersou. Aí eu conheci algumas pessoas, trabalhavam no departamento [o Departamento de Estradas de Rodagem, de que era funcionário], [o cantor José Leonardo Gonçalves, o Léo] Spirro e Jorge Barros, que vocês não conheceram. Eles fizeram a dupla Ponto e Vírgula, que era Jorge Barros e Othon Santos, e nesse grupo eu entrei, no JB Trio, eu, Othon Santos e Jorge Barros. Nessa época, a gente em época de eleição, a gente ficava no estúdio. Outro dia alguém falando sobre o Sampaio Correia, a gente que gravou o Hino do Sampaio Correia. Eu, Mascote, os filhos de Mascote.

Mascote é muito falado por todo mundo. Através dele, inclusive, é que conheci outros vocalistas aqui. Nós fizemos o Samba Cinco, um grupo vocal instrumental. Os componentes eram os seguintes: eu, Spirro, Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Luiz Sampaio e Marcelo Carvalho, que tocava uma pianola, era bem novo, mas já tocava bem. Luiz Sampaio tocava aquele contrabaixo guarda roupa, Mascote tocava violão, Spirro tocava tarol e timbau, ficava bonito. Fazíamos vocal com quatro vozes.

Essa história do vocal, que vocês fizeram aqui e fizeram sucesso, pelo que nos disseram. Quais eram os grupos referência para vocês no cenário nacional? Eram Os Cariocas, o MPB-4 já existia, era referência também.

Isso era em que ano? Anos 1970, começo de 70. Interessante é que na nossa época, a gente não tinha nada. Hoje em dia eu vejo a preocupação de guardar fotografia, se perdeu, ninguém ligava pra isso. Tinha [o colunista social] Evaldo Melo, onde a gente tocava ele estava fotografando. Hoje não tem nada, se perdeu tudo. Nós éramos um trio que tocava em festas, eu me lembro duma etapa do [concurso] Miss Brasil, a escolha da representante do Maranhão no Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português], não lembro se essa festa era feita aqui por [as colunistas sociais] Maria Inês Saboia ou se era Flor de Lis. O Tonga Trio entrava lá e era atração daquela festa, eu, [o violonista] Hilton Assunção e Spirro.

Além de Tonga Trio, JB, Tira-Teima, teve algum outro grupo? Sim, eu te falei do Samba Cinco, que era um grupo vocal com quatro vozes, difícil. Com três é fácil, com quatro você já tem que usar dissonâncias. Depois disso, que o grupo acabou, já muitos anos depois… [interrompe-se, exclamando:] Ah, rapaz, eu trabalhei também no [hotel] Quatro Rodas, passei uns quatro anos, depois Hotel São Francisco, eu trabalhei em todos os hotéis de São Luís, até com [o multi-instrumentista] Zé Hemetério.

Teve alguma fase em que você viveu de música? A música é pano de fundo da minha vida, em toda a minha trajetória de vida a música sempre esteve presente. Eu tentei tocar cavaquinho, isso eu não aprendi, antes de Zeca Buiú [Zeca do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] – ó, Zeca, tu é Buiú mesmo! [ri, mandando um recado ao colega de grupo] –, mas ele levou a sério a coisa. Tentei tocar contrabaixo, não consegui, também não levei a sério. Depois eu digo que o mais fácil mesmo, tocar tambor. Foi aí que eu comecei a tocar timba. No início do Regional Tira-Teima, na segunda formação, que a primeira formação é a de Ubiratan [Sousa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] e companhia.

Você chegou a tocar na primeira formação? Não, que eu sou muito novo [gargalhadas]. Só Paulo [Trabulsi, cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], que fez uma viagem interplantetária, todo mundo envelheceu e ele continua novo [risos]. No Tira-Teima, eu tocava timba. Essa timba, tinha uma resistência. O cara que adotava, gostava da minha timba, era Gordo Elinaldo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013]. Ele achava que a timba era uma marca da gente. Mas havia uma resistência: “não, rapaz, tu tens que tocar pandeiro”. Eu pra não sair do grupo, pra não ser dispensado, aí eu peguei pandeiro. Nem sabia pra que lado era, mas eu tenho facilidade pra percussão. Não sou percussionista por que não tive oportunidade. Percussionista é um negócio terrível, bateria, é aquela porção de coisa. Se eu fosse músico, levando a sério mesmo, eu tinha que tocar gaita: terminou ali, botou no bolso [risos]. Essa minha percussãozinha já dá um trabalho.

Quem te ensinou a tocar pandeiro? Aprendi sozinho. A princípio pegava um livro, comecei a fazer os movimentos. Eu queria aprender pandeiro, mas aprender corretamente. Depois internet. Hoje eu toco pandeiro por que fui assistindo vídeos, procurando vídeos, grandes pandeiristas, Jorginho do Pandeiro, mas eu tenho outras referências.

Quem são tuas referências? Tem um cara que eu admiro demais, o Léo Ribeiro. São dois Léos, um toca clarinete, o pandeirista é Léo Ribeiro. Marcos Suzano também é muito bom, mas o cara que eu procuro copiar não é ele. Léo Ribeiro é um cara novo ainda.

Você lembra em que ano entrou no Tira-Teima? Como pintou o convite? Não lembro. Eu já tocava, eu conheci o Paulo, músicos se conhecem, tocam num lugar, aquele entrosamento, as pessoas vão se conhecendo. E Paulo me convidou pra tocar com Anna Cláudia [cantora paraense radicada no Maranhão, ex-esposa de Paulo Trabulsi]. Nós tocamos por muitos anos, fazendo principalmente restaurantes. E a partir daí, criamos amizade e resolveram reestruturar o Tira-Teima e eu estava lá.

Eu já te vi tocando algumas vezes com a turma da nova geração. Como é essa relação? É boa. Essa turma está escrevendo [partitura] inclusive. Eu acho o seguinte: eu te falei ainda agora que eu sou um músico prático. É besteira você pensar que só aquele músico que lê partitura ele é capaz, ele é o tal. Às vezes é preciso, facilita. Uma hora seu ouvido manda fazer uma coisa, seu coração manda fazer outra, e como é que fica isso? Eles estão escrevendo com facilidade. Você vê Wendell [Cosme, cavaquinhista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o próprio Robertinho [Chinês, cavaquinhista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014]. Esse pessoal está aí, está estudando.

Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Não. Eu me atrevo a fazer arranjo. Outro dia estávamos tentando organizar um grupo, eu, [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu, Spirro, eu me atrevi a fazer um arranjo para quatro vozes. Eu sou perseverante, quando eu quero fazer uma coisa, eu luto, luto, e consegui.

E o canto? É outra coisa. Antes eu quero dizer o seguinte: atualmente, todo mundo que tem algum sentimento musical pode cantar. Não adianta você dizer “não, eu não consigo cantar”. Atualmente você tem ferramentas que dão condições, a chamada técnica vocal. Qualquer pessoa. Vocês já cantaram alguma vez? Não? Fala a verdade!

Em casa, no banheiro, em farras. Melhora muito, muito, a partir de começar a fazer os exercícios, vocalização. Cantar hoje você aprende. Eu tou vendo esses atores e atrizes globais, de vez em quando partindo pra cantar e cantando bem. “Ah, fulano canta? Canta!”. Eu, pelo fato de ter trabalhado muito, forçando, fazendo vocal sem nenhuma técnica, fumando, bebendo, eu perdi.

Das vezes em que te vi cantando no Clube do Choro [Recebe] gostei do resultado. É algo que você faz pouco. Por que você não canta mais? Por que eu não confio. Olha, eu tenho uma autocrítica. Eu critico a mim mesmo, por que eu não posso falar do meu amigo? Embora algumas pessoas digam “Zé Carlos, tu tem condição de cantar”, eu sei que eu não tenho. Além disso, ainda tem o negócio de decorar letra, como é que eu vou cantar todo tempo com uma coisa na minha frente? Se um vento der, eu perco? Tem isso, e minha voz… agora eu tou fazendo uns exercícios vocais, eu acho que já dá pra sair alguma coisa.

De quantas gravações de discos você já participou? Memórias [Memória – Música no Maranhão, antologia com vários intérpretes registrando a obra de compositores do Maranhão, em que Zé Carlos canta Zuza, de João de Deus, faixa que abre o disco], uma faixa, e o disco de seu Antonio Vieira [compositor]. Acho que não tem outro. No Antoniologia [disco produzido por Adelino Valente, seleção de composições de Antonio Vieira nas vozes de vários intérpretes] eu canto a música Ê saudade.

Você acha que o choro é uma música meramente instrumental ou ela pode ser também cantada? Há uma polêmica sobre isso. Tem o compositor de um tipo de música e tem o compositor de choro. O compositor de um tipo de música, boa música, ele faz a música, ele compõe, pensando em como vai ser o resultado daquele disco, como vai vender, pensa no lado comercial da coisa, pensa em agradar uma camada, pensa em vender milhões. Ele é diferente do compositor do choro: ele não compõe para o público, se você pensar, ele compõe para o outro músico. Quando faz o trabalho dele, seguramente, ele está pensando em levar o trabalho dele para o colega dele. Ele não pensa em vender esse disco. É a minha maneira de ver, o compositor do choro é diferente, ele faz o choro pensando no outro músico. Se outro músico diz, “poxa, tá legal”, ele tá realizado.

Você gosta de choro cantado? Tanto faz. Tem choro cantado bonito.

Quais são as tuas principais referências no campo do choro? Você falou há pouco no campo da percussão. Eu gosto de tudo o que é bom. Gosto de tudo o que me agrada. Encontro coisas que me agradam em todos os segmentos.

Mas quem são os compositores e instrumentistas de choro que te chamam mais a atenção? Quem lida com choro, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Pixinguinha. Jacob do Bandolim. Eu não penso diferente, as minhas referências são essas.

Você tem acompanhado essa nova geração do choro no Brasil? Quem são os nomes dessa nova geração que têm te chamado a atenção? O que eu acho é o seguinte: Brasília tem um movimento muito forte nesse mundo do choro. Eles estão lançando muita gente. Você vê um Hamilton de Holanda [bandolinista], um cara desses. E não é só ele, muita gente igual a ele, Danilo Brito [bandolinista], rapaz, tem uma gente por aí, que tá tocando principalmente bandolim, Pedro Vasconcelos, no cavaco. Estão estudando, levando a sério.

Quais são os meios que você usa para acompanhar essa cena? Internet? Compra de discos? Internet. Não, eu não compro discos. Chorinhos e Chorões [programa dominical dedicado ao choro apresentado por Ricarte Almeida Santos há mais de 20 anos, sempre às 9h, na Rádio Universidade FM] eu ouço toda vez, vocês é que não sabem [risos]. Música é o meu gosto.

Como você está vendo o choro no Maranhão? Essa gurizada que está surgindo. Eu gosto, mas parece que parou. Eu não estou vendo articulação nenhuma. Há um desestímulo, você olha pra um lado, olha pra outro, se sente só, parece que está fazendo as coisas sozinho.

Em que pé está o disco do Tira-Teima? Os arranjos estão prontos, os arranjos encomendados para Ubiratan [Sousa] já foram entregues. Por enquanto quem está entrando em estúdio é Zeca [do Cavaco], pra fazer as bases.

Isso quer dizer que o repertório está definido, obviamente. É todo autoral? Tem três músicas nossas, mas são músicas daqui da região, de compositores daqui.

Entre instrumentais e cantadas? Sim. Está sendo gravado no estúdio de Gordo [Elinaldo].

Você se considera um chorão? A música que eu escuto hoje é só choro. Sim, eu sou um chorão.

Que recado você deixaria para os chorões, os mais novos e os mais velhos? O preço da perfeição é a repetição, o cansaço, você repetir exaustivamente. Se você repetir, você aprende.

Chorografia do Maranhão: Gordo Elinaldo

[O Imparcial, 27 de outubro de 2013]

Nascido, criado e formado no choro entre os bairros da Madre Deus e Monte Castelo, Gordo Elinaldo é o 18º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Gordo Elinaldo já havia sido marcada ao menos duas vezes. Em uma foi reagendada por incompatibilidade entre as agendas do músico e dos chororrepórteres; na segunda, teve que ser suspensa por conta do clima de pânico instaurado na cidade – o que incluiu uma “greve” relâmpago do sistema de transporte público, após uma sangrenta rebelião na Penitenciária de Pedrinhas.

Trabalhador da música, Elinaldo de Oliveira Silva mora na rua 1º. de Maio, no Monte Castelo, subindo a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, mesmo endereço em que mantém seu estúdio, onde recebeu a chororreportagem. “Isto aqui não vai tomar muito tempo”, advertiu o músico a um técnico que chegou por lá durante a conversa. Longe de traduzir qualquer desdém, a fala do músico dá ideia de sua imersão workaholic quando o assunto é música.

Nascido em 28 de agosto de 1966 em São José de Ribamar, Gordo Elinaldo é multi-instrumentista – além do violão sete cordas pelo qual é mais conhecido, toca violão, cavaquinho, banjo e percussão, entre outros –, arranjador, compositor, diretor e produtor.

Filho de Eliezer Adauto Costa Pereira da Silva, ex-vereador de São Luís por várias legislaturas, e de Maria das Dores de Oliveira Silva, Gordo Elinaldo presenteou os chororrepórteres com uma audição em primeira mão de seu disco de estreia, que pretende lançar ainda em 2013, com a ideia de levá-lo a escolas públicas, difundindo a música instrumental produzida no Maranhão. Ele assina as 10 faixas, incluindo Tributo a Zé Hemetério, faixa já gravada em Na palma da mão, disco do grupo Serrinha & Cia, com a participação especial do Regional Tira-Teima. O homenageado foi seu primeiro professor e é um dos nomes lembrados na entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão.

Foto: Rivanio Almeida Santos

Você tem essas lembranças de mais ou menos com que idade [referindo-se ao avô, Joaquim Pessoa de Oliveira, músico de quem Gordo Elinaldo começou a falar antes do início da entrevista e a quem dedica Doce lembrança, valsa gravada em seu disco de estreia, a ser lançado ainda em 2013 Update exclusivo do blogue: o disco não saiu]? Coisa de sete, oito anos de idade. 10 anos. Era o único músico que eu via pegar em instrumento ainda criança. Eu sabia que ali tinha uma alma, uma vida, um sentimento, ele já velhinho, quase sem forças. Eu compreendi o que ele queria fazer com aquele violão, aquela rabeca.

Foi a partir de ver teu avô que você sentiu vontade de se dedicar à música? Foi. Eu tenho um irmão que aprendeu primeiro do que eu, César, e ele é solista. Ele ouvia o disco, tirava, mas não tinha quem ensinasse. Até que uma vez passou o mestre Zé Hemetério aqui na porta. Aí eu disse: “César, esse é o Zé Hemetério, fala com ele, vê se ele ensina a gente alguma coisa”. E ele: “Zé Hemetério toca violino, será que ele conhece esse negócio de chorinho?”. E ele já vinha festejando, era final de semana, já vinha tomando umas brahmas [risos]. Chegamos lá, Zé Hemetério conhecia tudo, sabia tudo, e começou a passar os choros de Waldir Azevedo, de Jacob [do Bandolim], os choros que ele tocava pra César, quando ele disse: “e tu, meu filho? Vai ficar só olhando teu irmão aprender?” Eu disse: “não, minha parte eu já sei, é só a dele que tá faltando”, eu metido [risos]. Conversa fiada! Faltava coisa pra danar. E ele disse: “então me mostra aí”. César tocava, aprendendo, eu ia atrás do jeito que eu tinha ouvido no disco, do meu jeito, e ele disse: “olha, tá quase bom. Não tá bom, mas vai ficar”. Aí a gente começou a frequentar as aulas de Zé Hemetério, às tardes, quando ele podia. Ele botava discos, a gente sentava ali na sala. Depois eu passei a levar a sério o estudo, passei por métodos de música, segui em frente estudando música, sete cordas. Logo depois eu passei a ir pra festas com ele, aniversários, casamentos, ele era muito solicitado na época, as famílias, no Calhau, o grande bairro da época.

Foi teu primeiro professor? Foi o primeiro. Depois eu saí, pra fazer conservatório em Brasília, Recife, andei estudando muito ainda, mas o começo foi lá com ele, toda a base, a história do choro. Depois eu tive que seguir outros caminhos, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência.

Além de teu avô e teu irmão, quem mais na tua família… Não, não tinha mais ninguém. Eu tinha um pai que cantava muito bem. Não deixa de ser música. Era um seresteiro, gostava daquelas histórias ao luar.

Então se ouvia muita música na tua casa. Muita. Eu acordava ouvindo música. Eu achava o maior barato. Aquelas músicas bonitas, Nelson Gonçalves. Hoje eu fico puto quando acordo com forró, fico indignado.

A tua moradia era aqui? Era. Depois, primeiro casamento mais em frente, na mesma rua, segundo casamento Madre Deus, terceiro de volta ao quadrado [Gordo Elinaldo mora na mesma casa que pertenceu a seu pai].

Teve incentivo da família para seguir esse caminho musical? Muito pouco. Eu tinha que fazer uma faculdade de artes, por que eu gostava de desenhar, tinha muito talento. Aquele quadro não fui eu quem pintou, foi meu irmão César, mas a gente era bem parecido na arte [levanta e vai buscar um quadro com temas musicais em cores vibrantes, lembrando um pouco o estilo de Romero Brito]. Esse aqui foi um dos quadros que ele pintou, me deu de presente. Não deu para seguir. Aí foi quando abri o olho, a música entrou muito forte, foi derrubando tudo. E a música requer muito estudo, um tempo exclusivo para você aprender, saber o que é.

Como você se definiu pelo [violão] sete cordas? Foi rápido. Assim que eu comecei a estudar com [] Hemetério, quando eu pegava o violão [de seis cordas] eu já sentia falta de alguma coisa. O cara fazia no disco, eu tentava e não conseguia, “ah, não, tá faltando alguma coisa”. Aí pintou o primeiro sete cordas na Mesbla [extinta loja de departamentos], um Di Giorgio, ô, maravilha! Quando eu peguei aquele violão, que o disco fazia, eu fazia, ô, satisfação! Aí o cara que acompanhava Waldir Azevedo, bêi, ele caía na sétima, eu junto com ele, bêi [imita o som da bordoada com a boca], de ouvido. A gente passou a se reunir, tinha uma reunião muito boa de músicos ali na Raimundo Correia [rua no Monte Castelo], 30 músicos, 40 músicos, todos os domingos, só chorões.

Ainda há pouco você falou em uma faculdade de artes. É, eu ia. Mas não deu. A música veio muito forte, era quase uma cegueira.

Você sempre viveu de música? Nunca teve outra profissão? Não. Olha, meu pai era vereador, eu passei muito tempo, vereador tinha 10 assessorias, eu tinha uma dessas. Vivia também de música, gostava da música, depois ela virou profissão. Eu levei a sério, papai, mamãe começaram a esculhambar, meu irmão, sério, engenheiro, “não tem futuro, vai largar teus estudos”, e eu “quem não tem futuro é tu como engenheiro” [risos]. “Rapaz, será? Pensa bem”.

Hoje você vive de música? Hoje eu vivo de música, não tem dúvida. Vivo muito bem, satisfeito. Hoje eu sou um profissional realizado. Talvez não financeiramente, mas profissionalmente. Já rodei o mundo todo com minha música, já rodei os quatro cantos do mundo, tocando banjo, cavaquinho, violão. Só com o Barrica eu já fiz 18 viagens internacionais, China, Japão, Coreia, a Europa inteira. O que me dá prazer é isso aqui, isso aqui é meu orgasmo [bota novamente faixas de seu disco para tocar]. A minha obra tocada do jeito que eu quero. Arranjos que eu faço pra gravar, pra Barrica, pra Bicho Terra, eu faço pro gosto deles. Aqui não, eu faço pra mim. Como eu pensei, como eu gostaria de ouvir.

Esse é teu primeiro disco solo? Autoral, é. Acho inclusive que é o primeiro do Maranhão. Autoral de um só compositor, né?

Como ele vai se chamar? A princípio, o projeto era chamar A arte de Gordo Elinaldo. Pela diversidade dos instrumentos que eu domino, principalmente do choro. Se eu me colocar pra tocar um pandeiro de choro, eu toco, surdo eu toco, cavaquinho, sete cordas, violão seis cordas. No começo, a primeira ideia, era eu fazer um disco sozinho, eu tocando tudo, Gordo e Gordo. Mas depois eu consegui um apoio da lei de incentivo [Lei Estadual de Incentivo à Cultura], que o disco pegou uma dimensão, cresceu, vieram novas ideias. Digo, pô, por que eu não boto a nata do choro pra tocar comigo, minhas músicas?

Quem está contigo nele? Quem vai estar, por que ainda falta muita gente pra gravar. Quatro cavaquinhos: Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] e Biné [Gomes, vulgo do Cavaco]. Aí vem, de sopro, de palheta, o sax, Zequinha [Gomes, vulgo Zequinha do Sax, irmão de Biné], os flautistas, vem Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] e o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. Bandolim: Adelino [Valente], Wendell [Cosme, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] e o outro, César Jansen. É um time pesado, um time bom.

Uma grande representatividade. Antes do Tira-Teima você integrou algum outro grupo? Eu tinha um grupo com meu irmão, mas não era um grupo de choro. Era um grupo de forró, foi quando eu conheci Paulo Trabulsi em Nina Rodrigues. Nós tocávamos forró. Forrozinho, baiãozinho, pé de serra. Era um violão, um cavaquinho e um pandeiro. Antes de começar a festa, pro pessoal dançar, a gente fazia o chorinho.

Como chamava esse grupo? GMax. A gente tocava aqui e viajava muito, Itapecuru, Nina Rodrigues, Vargem Grande. Era um regional, não era uma banda. Éramos eu, meu irmão, César, outro irmão no atabaque, Belmonte, Marciano da Madre Deus, que tocava bongô e pandeiro, e Renê, que fazia um ganzazinho.

Isso era que ano? Coisa de 1982, 81.

E o Tira-Teima, quando aparece? O Tira-Teima, na primeira versão, de Ubiratan [Sousa, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], eu já ouvia falar. Depois, o Tira-Teima me aparece pela primeira vez depois daquelas rodas na Raimundo Correia. Quando eu cheguei lá, tanto Paulo, como Juca, como Biné, os três tinham seu repertório de choro. O repertório de Hemetério era tão grande, que com ele eu acabei me preparando para os três simultaneamente. O repertório dos três estava debaixo de meus dedos. Não demorou muito eu recebi um convite. Serra tocava no Quatro Rodas [extinto hotel], com [o violonista] Luiz Sampaio e Juca. Paulo me parece que não tocava profissionalmente na noite. Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] já veio de outra turma, da Vila Passos, mais do samba, Solano [Francisco Solano, violão sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], já é do Mascote [o violonista e pandeirista Antonio Sales Sodré], é outra linha. Foi legal. Paulo é o nome que ainda resta daquele time fantástico, [o compositor] Antonio Vieira, Ubiratan Sousa, [o compositor] Cesar Teixeira, Adelino Valente, uma turma pesada.

Fora Tira-Teima, Barrica, Bicho Terra e GMax, algum outro grupo de que você fez parte? Eu fiz, eu fiz um grupo de samba aqui, chamado Zeca Diabo e seus Diabinhos. Era eu, Zeca do Cavaco. Era pagode pra todo lado, mas a gente não queria tocar pagode, a gente queria tocar samba, embora eu ache que samba é pagode e pagode é samba, tudo é dois por quatro. Mas tem gente que “não, isso é samba de raiz”. Nós fizemos um grupo pra tocar esse tipo de samba, que chamavam samba de raiz. Aí não sei quem deu a ideia, “bota Zeca Diabo e seus Diabinhos”, olha os diabinhos: [os percussionistas] Josemar, Caju, Sabujá, só fera. Não deu certo. Como não deu certo, eu fiquei com a banda. Tava no auge o negócio do pagode aqui, [o cantor] Serrinha saiu do [grupo] Magia, e eu não queria ficar com aquele projeto parado. Aí eu chamei Serrinha pra compor comigo o [grupo] Serrinha & Cia.

Qual era a formação do Serrinha & Cia.? Era eu, Serrinha, Josemar, Caju e Sabujá. Quando nós gravamos aquele disco [Na palma da mão], que [o cantor] Jorge Aragão veio participar, ele vinha muito no Maranhão, ele levou a gente pro hotel, eu dei uma força, de carro, leva Jorge aqui, leva acolá, eu era cunhado de [o produtor cultural Antonio Carlos] Tote, foi através dele que chegamos a Jorge Aragão. Ele não tinha essa fama toda, veio a ideia de pedir uma música pra ele, estávamos fazendo o primeiro disco. Ele disse: “rapaz, eu tenho uma, eu fiz pra Beth Carvalho” [cantarola trechos de Uns e Alguns, faixa cujo refrão “na palma da mão” dá nome ao disco]. O movimento do samba em São Luís, eu lembro, A Máquina de Descascar’Alho eram cinco mil pessoas, todo mundo na palma da mão, a música é essa. Ele gravou, Serrinha gravou depois, montamos, fizemos um grande disco, vendeu demais, mas aí a gente não teve cabeça. Nós não tivemos cabeça, capacidade, estrutura, pra lidar com aquele sucesso imediato. Não levamos pra frente. E nem eu conseguia conciliar o Barrica, eu já tinha um sentimento muito forte pelo grupo, com o pagode. O que me fascinava era que era um trabalho autoral. A gente cantava na praia, os pagodes dos outros, depois chegava no Ceprama pra fazer o show com o Bicho Terra, fazendo sua própria música, a multidão delirando com a gente. Éramos os reis, mas descia do palco, ninguém nem te conhecia. Não conseguíamos apoio pra disco, pra nada.

Você tem catalogadas todas as suas músicas? Sabe quantas músicas você já compôs? 40. 41. Gravadas tem umas 15. 10 nesse disco. A maioria choros. Arranjos eu tenho espalhado por aí um monte: Bicho Terra, Barrica, Turma do Quinto, Isaac [Barros], Serrinha & Cia. Feras, bloco tradicional, Vagabundos do Jegue eu fiz todos os discos, praticamente todos os arranjos.

Você pretende com este disco que ele tenha uma vida, no sentido de show de lançamento, temporada, ou é só um registro? Não, é só um registro, inclusive nem tem caráter comercial. O disco vai ser distribuído em escolas, vamos falar sobre o disco em escolas públicas. Vamos ver o que a gente pode fazer para melhorar a vida social desse povo sofrido, que a gente tá vendo o resultado aí na criminalidade.

Ainda faltam coisas pra gravar e a ideia é lançá-lo ainda em 2013, ou seja, ainda está em processo. Mas dado o fato de ter mais de 40 músicas, você já consegue pensar num segundo volume? A ideia é lançar no final de outubro. Com certeza! Isso aí é o que eu mais gosto, é dessas 10. São o xodó. Mas com certeza virão outras, vou fazer outro disco. O próximo eu vou fazer só, o que era o projeto original, eu tocando tudo, do pandeiro ao cavaquinho centro. Isso vai ser muito bom pra cidade, vai estimular os chorões, Serra, por exemplo, vai voltar a tocar. E saber que é um trabalho autoral, e é nosso! Passamos a vida inteira tocando Jacob, não que a gente queira se comparar, mas nós temos uma identidade própria superimportante.

Com essa sua agenda intensa de viagem, Barrica, arranjo, disco, estúdio, parece não estar sobrando tempo para uma vivência que você já teve no passado, das rodas. Dá saudade? Como você lida com isso? Faz falta. Mas eu voltei. Estou me encontrando com Paulo, Serra, Zeca, Solano, [o violonista sete cordas] João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], todos os domingos. Inclusive a gente está se preparando para gravar o disco do Tira-Teima. Vai ser produzido e gravado aqui, sob minha direção, vai ser um disco fantástico, a hora é essa. Chega uma hora, o momento agora é “peraí, cara, agora eu também quero dar uma respirada”. Já corri muita praia, já lutei muito, se chega num ponto, daqui eu não vou passar. Não vou ganhar mais dinheiro do que isso, não vou ficar mais pobre do que isso. Agora eu vou curtir, vou parar, vou viver. Vou tocar aquilo que eu gosto, aquilo que eu quero. Lógico, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência, mas eu também sinto prazer, não é pra me transformar num robô. É botar isso aqui [coloca novamente trechos do disco para tocar], vocês podem achar que o som está muito feio [os chororrepórteres discordam], mas pra mim isso aqui tá lindo, é minha alma que tá aí. Isso é que é importante.

Você tem noção de quantas participações você já fez em discos? Não tenho. São muitos. Assim como já acompanhei muita gente em shows. Eu lamento não poder contar nesse disco com um grande amigo que eu tive em Brasília: [o flautista] Carlos Poyares. Aquele homem quando soprava naquela flauta matava a raiva de qualquer um. Era uma coisa maravilhosa.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música para o Brasil? Antigamente era assim, na minha ótica, na minha leitura, no meu pensamento: o que é o choro? É um instrumentista que domina certo instrumento, que ele transforma todo sentimento dele através daquelas notas dadas uma após a outra, o conceito técnico de melodia. Pra mim é isso, ele consegue passar aquela beleza. Nós temos isso, o Jacob, as músicas não têm uma letra, mas a gente consegue sentir o que está se passando na alma do cara, ler o coração, o pensamento, o que ele está sentindo, o que ele passa pra gente e o que a gente passa a sentir ao ouvi-lo. Não adianta ser um chorão, “ah, eu quero ser o Jacob”, tocar com uma velocidade, tem que ter o sentimento. Eu conheço gente que plim plim plim plim plim [imita um dedilhado veloz com a boca]: aquilo não se sente nada. Mas eu tenho que chegar e dizer “como tu é bom, estudou, evoluiu bastante, tá muito veloz”. Mas eu não tenho coragem de chegar e dizer: “mas eu não senti nada”.

Você se considera um chorão? Eu não. Eu me considero um clínico geral. Eu também sou um amante do bumba boi, do carnaval, eu adoro carnaval, nossos ritmos. E adoro choro. Choro é uma coisa que me arrepia todo.

Quem te chama a atenção na nova geração do choro no Brasil? Eu gosto muito do rapaz do bandolim, o Hamilton de Holanda. Ele tem a velocidade, tem a execução, tem a beleza e tem o sentimento. É impressionante! Fantástico, gosto demais dele. Tem um bandolinista em Brasília, presidente do Clube do Choro, o Reco [do Bandolim], também gosto, mas como Hamilton…

E do violão? Tem um violonista em São Paulo que eu gosto muito dele, na linha do choro, do samba, Edmilson Capelupi. Eu gosto demais, admiro muito.

Como você avalia o choro hoje no Maranhão? Acho que cresceu bastante, acho que o movimento está bem. A gente vai aos lugares, vê a turma tocando. Tem Wendell ali, Robertinho, Juca, Paulo, melhorou bastante. João Eudes, falando dos solistas. Maicko, meu sobrinho, sete cordas, está no samba, mas também curte o choro. Solano, o tempo todo estudando, se dedicando.

Você acha que o choro aqui deve ser tocado com a influência da cultura popular daqui, como o é em Pernambuco? Eu acho que pode. Por exemplo, eu tou botando aí uns agogôs com umas células de bloco tradicional. Eu acho legal. Deixa seguir. Tou botando uma cabaça [imita o som dos instrumentos percussivos com a boca]. Quanto mais maranhense, melhor pra gente.

Chorografia do Maranhão: João Pedro Borges

[O Imparcial, 14 de abril de 2013; aos poucos mas fieis leitores do blogue um bonus track: a versão abaixo traz algumas perguntas e respostas que ficaram de fora da edição do jornal, embora isso ainda esteja longe de ser a íntegra da deliciosa conversa que Ricarte Almeida Santos e este que vos perturba tivemos, fotografados por Rivânio Almeida Santos, com o mestre João Pedro Borges, um papo longo em uma noite de segunda-feira; o violonista fala como professor que é, fazendo questão de deixar tudo bastante explicado para que não restem dúvidas aos alunos; orgulho de ter aprendido essa lição.

Este post é dedicado a Maria Pepê, cunhada de Sinhô]

Quarto entrevistado da série, João Pedro Borges é um dos mais importantes nomes do violão, do choro e da música brasileiros. Seu talento é reconhecido internacionalmente

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

João Pedro da Silva Borges nasceu em uma vacaria, espécie de pequena fazenda, onde hoje fica o edifício Clara Nunes, “olha que grata coincidência”, no Apicum, região central da capital maranhense, em 23 de junho de 1947. O apelido Sinhô ganhou da avó: “Minha avó, mãe do meu pai, eu nascendo numa fazendinha, nasceu o Sinhozinho, nossa herança coronelesca. Era o Sinhô, Sinhozinho. Aí pronto, pra distinguir dos outros irmãos, que eram muitos [onze], era Sinhô e acabou-se”.

Filho de Raimundo Felipe Borges e Marina Silva Borges; a mãe, professora normalista, o pai, técnico em eletrônica, especialista em rádio e televisão, um empreendedor que chegou a ter gráfica, trabalhava com o avô na Livraria Borges, de propriedade da família, a maior da São Luís da época, quando o menino João Pedro nasceu.

Ele é um dos maiores violonistas brasileiros em todos os tempos e participou de um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca do gaúcho Radamés Gnattali, com que o maranhense chegou a gravar discos e fazer diversas apresentações Brasil afora. Seu talento é hoje reconhecido internacionalmente e o disco mais recente, Clássicos Latino-Americanos, foi gravado em 2005, em uma igreja na França.

Wilson Marques concluiu recentemente um perfil seu para uma coleção que pretende publicar em breve. Para a construção do livro, entrevistou o próprio João Pedro Borges além de figuras próximas, como Chico Saldanha, Arlete Nogueira da Cruz e Sérgio Habibe, entre outros. “É ele contando a história dele, não é uma minuciosa biografia, mas sobretudo um registro de sua trajetória e da importância do trabalho dele para a música brasileira”, adiantou o jornalista.

João Pedro Borges conversou com O Imparcial/ Chorografia do Maranhão no Chico Discos, acompanhado, na decoração do ambiente, de diversas personalidades da música: algumas delas ele chegou a conhecer pessoalmente e são citadas por ele ao longo da conversa.

Quando foi que tu percebeste que teu negócio era a música? Eu sempre tive certos indícios de sensibilidade. Por exemplo, eu ganhei, por ocasião de um natal, um violãozinho de plástico, e aquilo era o brinquedo que mais me encantava. Então eu simulava cantar com aquilo, com o passar do tempo eu buscava alguma forma de afinação. Lembro que na minha infância passava um deficiente visual numa carroça puxada por um burro, conduzida por um ajudante que provavelmente era filho dele, e tinha a peculiaridade de que este senhor  tocava cavaquinho. Então, eu guardava dinheiro pra ter o que levar pra ele, por que quando a gente chegava, ele dizia “a pedido é mais caro”. Lembro que quando ganhei esse pequeno violão eu queria imitar um pouco o homem cego que passava lá na minha rua, quase que todos os dias. Mas só mais tarde [consegui], meu padrinho José Silva foi meu primeiro professor de violão. Ele fazia parte da velha guarda das pessoas que lidavam com o choro. Foi ele o meu vínculo com o choro, era violonista, compositor. Ele era irmão adotivo, por afinidade, do famoso professor Custodinho, Custódio Zaqueu Coelho, que eu considero o grande violonista do Maranhão, anterior a[o violonista] Turíbio [Santos], por exemplo, como geração. Era um violonista extraordinário. Cheguei a ter aulas com ele.

A tua escolha por ser músico contou com o apoio da família? De uma parte da família, que me incentivou. Tinham muitos saraus na minha casa. Sistematicamente tinham reuniões de violonistas, de músicos na minha casa, onde o repertório era basicamente choro de violão. Esse meu padrinho era um pintor de paredes, mas era um homem autodidata, de uma intelectualidade muito grande, tinha um conhecimento extraordinário. Ele foi a primeira pessoa que me falou da cultura musical brasileira. Os personagens que ele citava para mim eram Pixinguinha, Ernesto Nazareth, falou de Agustín Barrios quando passou aqui, ele era amigo do pai de Turíbio, que era seresteiro, e frequentava um pouco esse grupo, que a gente chamava os velhos, na época. Nessas reuniões meu padrinho notou meu interesse em ficar ouvindo aquilo. Aí ele perguntou se eu não queria tocar violão e eu disse “quero!” Ele disse “então eu vou te ensinar”, e me ensinou um choro. Eu não comecei por acordes, fazendo assim, ele botou a minha mão e me ensinou um choro chamado Mariazinha [toca trechos ao violão, não sabe dizer a autoria]. Esse choro tem uma peculiaridade formal [fala enquanto continua tocando]: é que ele tem três partes, todas no mesmo tema, ele é uma síntese da forma do choro.

O choro, durante muito tempo, os músicos tocavam por diletantismo. Tinham geralmente outra profissão e tocavam choro nas horas vagas para se divertir e às vezes, como desenvolviam muita capacidade, habilidades, acabam se tornando músicos conhecidos, consagrados, mas não eram profissionais da música. Você é um profissional da música, vive de música, sempre viveu de música?Isso faz diferença? Sim. Faz diferença. Quer dizer, em termos. Se a gente levar em consideração que Jacob do Bandolim era escrivão, César Faria trabalhava numa repartição, há que se levar em consideração aí que há um impulso por detrás desse aparente amadorismo. Quer dizer, eles tinham profissões que lhes davam sustentação, mas grande parte da atividade deles era exercida em torno do choro. A diferença é a seguinte: uma carreira de concertos não é uma carreira convencional, é algo que vive de oportunidades que se inventam, que são criadas. Por exemplo, os concursos de violão são uma forma de atrair a atenção para jovens, têm limite de idade. Eu fui por outro caminho alternativo, me beneficiei da companhia dos meus professores. Depois de um ano que eu estudava com Jodacil Damasceno, ele me tornou assistente dele, eu tive como alunos Dori Caymmi, Guinga, Marlui Miranda, Durval Ferreira, Miltinho do MPB-4. Depois Turíbio me convidou para montar um curso no Rio de Janeiro.

Eu queria que tu contasse um pouco de tua participação em uma banda cover dos Beatles. Tinha a vizinhança próxima com os Saldanha, na Rua de São Pantaleão, Ubiratan Sousa, que gostava muito de choro, foi quem me falou pela primeira vez da bossa nova, me mostrou uns acordes e aprendia comigo a linguagem do choro, aquelas baixarias, que eu era especializado por conta de meu padrinho, que era craque na área. Nessa época surge a televisão por aqui e os irmãos Saldanha, principalmente o mais novo, Nena, falavam bem inglês. E surgiu essa coisa da televisão e todo mundo encantado com a música dos Beatles. Então eles fizeram um conjunto em que eu era apenas o acompanhador. Eu não aparecia no vídeo, e ficava com um violão de cordas de aço poderoso que eu tinha, que parecia uma guitarra, e acompanhava só com esse violão todo mundo. Era Francisco Saldanha, Nena, o Antonio Saldanha, Benedito, que eu não lembro o sobrenome, estudava também no Liceu, Chico Linhares, o Francisco Linhares, que também morava na Rua de São Pantaleão, Edson, também não me lembro o sobrenome e eu acompanhando. Mudou essa formação. Entra Ubiratan nesse conjunto, que muda de nome, de The Five Gems para Os Rebeldes, e ficamos vinculados à televisão, inicialmente através dos programas de Reinaldo Faray. Tava começando a Difusora.

Depois tu ajudaste a fundar a Escola de Música do Estado, que surge no momento em que uma nova geração de artistas começava a produzir com base nas linguagens da cultura popular. E eles tinham a esperança de que a Escola de Música pudesse ser a continuidade de um processo de absorção dessas linguagens, numa escola de identidade mais maranhense? Tinha esse desejo? Como é que era isso na época? A responsável intelectual por todo esse movimento é [a poeta e ex-secretária de Estado da Cultura] Arlete Machado. Foi ela quem concebeu e encomendou o plano da Escola de Música. O que aconteceu foi o seguinte: os primeiros professores, quer dizer, eu vim em 1974, da África, diretamente para cá para São Luís do Maranhão. Criou-se essa escola de música, a primeira diretora é nossa melhor pianista de todos os tempos, Maria José Cassas Gomes, e o resto eram professores que vieram de fora. Era Clemens Hilbert, um alemão que dava cursos de extensão nos seminários de música da ProArte, lá por Teresópolis. Tinha outro professor chamado João Solano, que era um pianista que também estudava relações internacionais, queria ser diplomata. Veio daqui do Ceará um pianista chamado Flávio, não me lembro agora também do sobrenome dele, mas um excelente músico, pianista, e Gilles Lacroix, que chegou a dar aula de música, de teoria musical, tempo em que ele estava se decidindo a largar a batina. Nesse contexto a Escola de Música foi organizada, ali no Apeadouro, e os primeiros candidatos que surgiram, por exemplo, [o compositor] Sérgio Habibe, que trabalhou também um tempo como funcionário lá da escola. Então surgiu [o compositor Giordano] Mochel, Zé Martins, Josias [Sobrinho] e [o compositor] Cesar Teixeira, sempre a gente tendo aquele cuidado de que eu não queria descaracterizar o trabalho deles, mas eles estavam em busca de formação. Eu tinha um discurso de fundamentação. Dizia “até para você fazer bem essas coisas nossas, você precisa de recursos, de técnica”. Sérgio Habibe é um caso flagrante de ter mudado o nível de composição a partir do estudo, ele próprio reconhece isso. Josias Sobrinho foi o meu melhor aluno de harmonia, eu dei um curso pra ele de harmonia aplicada ao violão. Eram alunos dedicados. Eu forneci uma espécie de subsídio pra eles, mas sempre com a recomendação, dizendo “olha, vocês não têm que estudar pra serem músicos eruditos, nem nada, é pra melhorar o que vocês estão querendo fazer”. Naturalmente da parte deles devia haver certas expectativas políticas, por que o movimento pra eles não era só artístico. Pra mim era um movimento artístico, pra eles era político.

Lá no Rio você teve uma convivência com uma nova geração de chorões, com gente da antiga, e você vivenciou o momento de renovação do choro, ali da virada dos anos 70 para os anos 80, convivendo ali com nomes como Paulinho da Viola, com a Luciana [Rabello], com a turma dOs Carioquinhas, Radamés [Gnattali]. Conte um pouco dessa história. Eu passei a ser habitué de todos os saraus que o Jodacil participava. Tinha um amigo nosso chamado Tonzinho, que na realidade é Milton Borges, eu chamava até ele de parente, morava em Niterói, tinha sido amigo pessoal de Jacob, de Six e de Jonas, e através das idas de Six ao Rio de Janeiro nós fomos parar um dia na casa desse Tonzinho e lá ele reunia Abel Ferreira, Copinha, Arthur Moreira Lima passou por ali, Paulinho da Viola, tudo o que era do choro, Ronaldo do Bandolim com os irmãos. O Raphael Rabello, que eu conheci tocando junto com Turíbio, tinha 12 anos, travou logo amizade comigo, tocava, tinha uma formação bem consolidada de música e ele tinha o que eu gostava, tudo em quanto dizia respeito ao choro tava consolidado na cabeça dele, não tinha que aprender nada. Ele era herdeiro de toda a tradição do Dino [Sete Cordas] e do Meira [Jaime Florence], que foi o grande professor dele, professor do Baden [Powell]. O Raphael, um dia assim, disse “olhe, aniversário da Nara Leão, nós vamos lá na casa dela, e eu queria te levar por que eu tenho uma pessoa que eu quero te apresentar”. Aí me apresentou pro Joel [Nascimento], estávamos tocando, quando ele me viu tocar, disse “olha, nós estamos iniciando um trabalho”, não existia esse nome, Camerata [Carioca], isso veio depois, “de tocar uma suíte que o Radamés tá transcrevendo”, acho que nem todos os movimentos ainda estavam transcritos, só tavam os primeiros, “você não gostaria de participar?”, e eu “gostaria”. Marquei um ensaio com eles, acho que na minha casa, e me encantei com o trabalho, aí começamos a montar a Suíte Retratos. A partir dessa nova abordagem com o choro, os saraus começaram a mudar de feição, num determinado momento eles abriam espaço, “vamos ouvir a rapaziada”, e ficavam encantados com aquilo. E aí esse trabalho começou a chamar a atenção, por que a gente começou a montar um espetáculo chamado Tributo a Jacob do Bandolim, foi considerado o melhor espetáculo de 79 no Rio de Janeiro.

Tu tens uma vasta discografia, tocando, integrando a Camerata Carioca, fazendo Valsas e Choros [1979] e Choros do Brasil [1977]… [interrompendo] Com Turíbio eu tenho três discos. Choros do Brasil foi o primeiro, Valsas e Choros, depois tem o Violão Brasil [1980], que a gente fez para um projeto, por que nessa época, disco instrumental dependia também muito desses projetos que eram feitos pra dar brindes de empresas. Por exemplo, eu gravei a obra de Paulinho da Viola [A obra para violão de Paulinho da Viola, 1985], não quisemos nem eu nem Paulinho editar comercialmente, por que sabíamos que os acordos não iam ser bons, apesar de que eu tinha muita consideração com a [gravadora] Kuarup, Mário de Aratanha [idealizador e proprietário da gravadora] praticamente me lançou como produtor, eu ganhei cinco prêmios Sharp como produtor de discos, e editor, fazia aqueles acabamentos todos, tem discos nossos inclusive que ganharam também prêmio na Europa, foram lançados lá pelo Chant du Monde, gravadora que substituiu a Erato francesa. Eu fiz o meu primeiro disco de forma independente em 1977. Logo depois daquela ideia lançada pelo Antonio Adolfo, do disco independente, alguns músicos eruditos descobriram que podiam fazer aquilo. E Jodacil me disse “por quê que tu não faz um disco?” Aí eu decidi fazer também um disco, isso em 1977, concomitante com a ideia do Choros do Brasil, com Turíbio, eu fiz esse disco, sozinho, gravei no estúdio do Museu da Imagem e do Som. O segundo disco [João Pedro Borges Interpreta, 1983] já foi proposta da Kuarup, como eu fiz muitos trabalhos com a Kuarup, Mário disse “olha, a gente tava querendo fazer um disco teu”. Foi um disco dedicado a violonistas espanhóis e clássicos. Depois deste, A obra para violão de Paulinho da Viola, o quarto que eu fiz já foi na França [Clássicos Latino-americanos, 2005]. Eu também nunca me entusiasmei muito com a indústria do disco especificamente, por que eu era muito criterioso, a gente tinha aquele medo de ser explorado, mesmo tendo a compreensão de que um disco não era uma forma de ganhar dinheiro, era uma forma de divulgar o trabalho.

Era o que eu ia perguntar: tem disco com a Camerata, com Paulinho da Viola, com Turíbio, tem disco em que tocas só em uma faixa, casos de Mistura e Manda [de Paulo Moura, 1983] e Shopping Brazil [de Cesar Teixeira, 2004], para citar apenas alguns. O que tu consideraria, ou por razões afetivas ou por razões de importância pra música do Brasil, uma discografia básica de João Pedro Borges? Pro pessoal ir atrás, baixar na internet. Tributo a Jacob do Bandolim [da Camerata Carioca, 1979], sem a menor sombra de dúvida. Por que na realidade eu era um mero componente, eu digo que fui testemunha privilegiada. O Hermínio Bello de Carvalho tinha a seguinte definição: “olha, essa Camerata vai dar certo por que tem o grande arranjador e compositor, tem o grande intérprete e tem o grande ensaiador”, por que eu tinha uma técnica de ensaio que nem Turíbio tem essa técnica, era tudo muito bem organizado, até Radamés eu enquadrava. O [jornalista] Aramis Millarch uma vez, num ensaio, eu discutindo com Radamés, mas discutindo assim numa boa, a gente tinha uma amizade muito grande, mas eu sabia o limite dele, já pela idade, ia até certo ponto, por que ele já queria sair para tomar chopp, comer alguma coisa, ele não tinha muita paciência de ficar ensaiando, como Turíbio também nunca teve, mas o resto do pessoal precisava de ensaio. Aí Radamés dizia “não, agora já tá bom”, e eu dizia, “não senhor, ainda não está bom, ainda tem uma partezinha que nós vamos limpar aqui”. Aí terminava o ensaio e eu dizia, “e aí, Radamés?”, “é, é, ficou melhor”, aí ele dava o braço a torcer.

Soubemos que você anda compondo. Eu fiz arranjos na época, na própria época do Valsas e Choros os arranjos eram assim coletivos, mas sempre prevalecia uma base. Como Turíbio tinha muita confiança em mim, sabia que eu tinha formação, lia música melhor do que todos os outros, eu dava muita colaboração nesse sentido dos nossos discos, assim a parte mais erudita. Agora a parte mais tradicional, mais dentro da linguagem do choro, imagine, com Jonas e Raphael, não dá nem… pelo contrário! Foi uma escola, foram meus mestres, o que aprendi com eles não tá no gibi. Aqui, depois que eu voltei à São Luís do Maranhão, minha amizade com [os poetas José] Chagas e Nauro [Machado], e as reuniões periódicas pra ouvir música, com Arlete [Nogueira da Cruz Machado, poeta, esposa de Nauro], o Chagas começou a me passar umas poesias dele não editadas. Me deu vários cadernos. E olhei aquilo, eu digo “rapaz, isso dá música!”.

Isso é recente? Mais recente, eu sempre tive minha ideia de compor, compor choro, compor valsa, sempre toquei valsas e choros que eu mesmo compus. Tem coisas que eu nem escrevi, que foi embora, Turíbio até brigava comigo por conta disso. Aí comecei a escrever essas canções de Chagas, musiquei dez poesias de Chagas, uma de Nauro e descobri mais recentemente, desse povo novo, que existe por aí, fora dessa geração, pra mim, na minha opinião, a melhor poeta que a gente tem chama-se Aurora da Graça Almeida. Ela me deu um livro, eu preciso dar esse livro pra vocês lerem. Ela me deu um livro e eu descobri coisas assim maravilhosas. Deixa ver se me lembro, sem compromisso [começa a dedilhar o violão]. Chama-se Mágoa. Um homem prevenido vale mais do que dois desprevenidos [abre o case e tira uma folha de papel em que o poema está anotado]. Olha a letra, diz assim [recitando]: “meu coração sem cor e sangue/ maldiz a mágoa renascida do tempo estilhaçado que vivi/ meu coração sem cor e sangue/ esconde a selva oculta do perdão/ esconde as palavras mais belas e fugazes que não disse/ no meu coração de veias seculares/ padece a solidão de antigamente/ maltrata-me a vida retalhada/ maltrata-me não ser o que eu queria/ maltrata-me deixar sem poesia/ os que previram minha dor, minha agonia/ meu coração sem cor e sangue/ repleto de veios de fervor/ resgata a duras penas o sentido/ de ser ao menos navegante nessa vida” [canta, acompanhando-se ao violão; ao final recebe aplausos dos chororrepórteres].

Ficou clara tua percepção sobre o cenário no Brasil, tanto no Rio como em Brasília, que são os dois focos. No Maranhão como é que tu observa a cena choro? Quais os fatos mais importantes, recentes? O choro tá presente desde o século XIX, a própria pesquisa que Maurício [Carrilho] e Luciana fizeram no acervo João Mohana, se identifica, desde quando nasceu no Rio, já existia choro aqui. Mas hoje, o cenário, pra onde aponta? O quê que tá faltando? Olha, o que acontece é o seguinte: eu digo que tem coisas que as brasas podem passar muito tempo só fumegando de leve mas não apaga completamente. Aqui sempre houve esse potencial, que fez surgir os primeiros conjuntos, tipo [o Regional] Tira-Teima, Rabo de Vaca, já com o advento da Escola de Música já surge a ideia do [Instrumental] Pixinguinha, todo mundo sempre com uma estética voltada inicialmente para a inovação. Aqui no Maranhão surgiu a ideia do Clube do Choro, todo mundo aqui foi testemunha do grande impacto que isso causou na sociedade. Eu vejo esse cenário que o choro se diversificou, atraiu o povo da nova geração, a gente vê agora o movimento Madre Deus, o movimento do Clube do Choro. Pra mim o grande impulso foi lá o Chico Canhoto, com o Clube do Choro Recebe, por causa da concepção inteligente, de compreender que o choro é mais do que ele aparenta ser, ele está presente nas coisas todas, está presente na música de Tom Jobim, Caetano Veloso fez choro, Chico Buarque faz choro, Cesar Teixeira. Então essa junção, primeiro da música instrumental com a música cantada, pra quebrar os preconceitos, e segundo, com o componente da música maranhense, foi a boa fórmula. Nós estamos vivendo ainda dos dividendos desse investimento, na minha opinião. Eu acho que está faltando o aspecto didático, ou melhor dizendo, pedagógico da coisa. O choro tem uma vertente de entretenimento, que ele agrada todo mundo, todo mundo vai, tem público sempre, quando a coisa é bem organizada, tem espaço; segundo, isso só não garante a subsistência do choro, os movimentos vão e vêm, as casas comerciais, os estabelecimentos, tem época que é moda aqui, tem época que é moda ali, tem muita oferta na cidade. Por isso que até hoje eu lamento que a ideia da casa lá [uma sede própria] do Clube do Choro não tenha dado certo, por que tinha um projeto social relevante envolvido.

Dessa nova geração tem alguém dos instrumentistas do choro que te enche os olhos, que tu vê como uma boa promessa? Tem. Robertinho [Chinês] eu acho que é um grande talento. Aliás, antes dele se projetar no choro, o pai dele me procurou na época da formação da Escola de Música do Município, quando a gente ainda tava dando aula lá naqueles camarins da [praça] Maria Aragão e o pai dele me procurou, são dois filhos, nem sei o que é feito do irmão. O que eu passei pra ele, na época, foi o seguinte: “olha, você tem que investir em formação. Teus filhos têm talento, mas eles têm que investir na formação, por que o que garante o desenvolvimento do talento, a formação é o adubo do talento, sem formação, sem você correr atrás do fundamento, se fundamentar, desenvolver”. Essa juventude, por exemplo, eles têm uma facilidade técnica pra tocar, mas isso só não garante. Eu vi muito menino prodígio que abandonou a profissão. Por que tem toda uma estruturação que é psicológica, por que na realidade você tá lidando com a própria vida. Às vezes ele pode se desenvolver no instrumento, absorver bem a coisa do choro e ser mais um chorão na cidade, muito bom. Mas é só isso?

Na tua entrevista diversas vezes tu citaste Turíbio. Na tua opinião, quem é Turíbio Santos? Turíbio Santos é o mais importante violonista brasileiro. Pra mim ele é uma espécie também de matriz fundadora. E é facílimo de explicar. Foi o primeiro violonista brasileiro que se destacou internacionalmente, o primeiro que ganhou um concurso que chamou a atenção pra profissão. Se Ronaldinho Gaúcho botou uma porção de meninos pra jogar futebol e querer ser Ronaldinho, Turíbio fez isso com o violão. A importância dele foi pelo seguinte: ele deu o exemplo, ganhou o concurso e projetou uma carreira internacional de respeito; segundo, foi o violonista brasileiro dessa geração mais generoso, montou curso de violão, criou movimentos sociais como ele fez lá com os Villa-Lobinhos, atraindo banqueiros para bancar a carreira de gente, tem gente que tirou a mãe do tráfico, da marginalidade, alugou apartamento, tá vivendo da profissão, toca na noite, estudaram lá graças a ele. O que pode se acrescentar à dimensão de um bom instrumentista é a dimensão social, o que ele faz em benefício dos semelhantes dele. Turíbio criou os dois cursos superiores, tanto na UFRJ como na UniRio. Foi o primeiro camarada que tirou o violonista de seu isolamento, por conta de criar a ideia de Orquestra de Violão, foi o primeiro violonista que pegou João Pernambuco e disse “isso aqui é música de qualidade”. Quer dizer, quem é o camarada que tá por trás de todos esses movimentos? São as ideias que ele gerou.

E a preocupação dele com a memória de Villa-Lobos, também, não é? Com a memória de Villa-Lobos. Que é um reconhecimento, por que Villa-Lobos projetou a carreira dele. A Mindinha Villa-Lobos [viúva de Heitor Villa-Lobos] quando encomendou dele os 12 estudos para violão talvez nem imaginasse a projeção que ia dar, foi o que facilitou a carreira dele lá fora, foi o primeiro violonista a gravar os 12 estudos de violão de Heitor Villa-Lobos.

Você ajudou fundar a Escola de Música, mas ajudou a fundar outras escolas, mostrando uma preocupação sua sempre com o processo de formação pedagógica. Ceuma, depois foi diretor da Escola de Música, fundou a Escola de Música do Município. Fale um pouco dessa tua preocupação com o processo da formação do músico. Eu acho que é uma questão de humanidade. Essa preocupação eu sempre tive. Eu raciocinei a seguinte coisa: se eu não tivesse tido certa ajuda, que me projetasse, que me ajudasse nos momentos em que eu precisei, numa família de 11 filhos, quais seriam as perspectivas que a gente teria aqui? É uma preocupação social, humana, de ver que a música pode ajudar uma pessoa a plantar ideias que podem mudar sua vida. Ela é uma porta de entrada, ela não é a solução pra tudo, mas ela é a porta de entrada. É como se você entrasse num ônibus e esse ônibus começasse a passar por paisagens que você não conhece e você pode nem saltar, mas você diz “olha, se eu quiser ir eu tomo esse ônibus e vou pra ali pra aquele lugar”, eu sempre tive essa preocupação. Quando eu digo que eu vim da África pra ser o primeiro professor, talvez as pessoas não dimensionem o que representou em termos de sacrifício pra mim. O caminho natural era ir pra França, e eu vim pro Maranhão. Uma coisa que eu fiquei consciente ao longo desse tempo: não dá pra fazer agora sacrifícios maiores esperando que as coisas que você constrói sejam mantidas se elas estiverem vinculadas ao processo político. A política é a coisa mais traiçoeira que pode existir na vida, por que uma hora tá, outra hora não tá, outra hora volta, outra hora não volta mais, não tem continuidade, esse é que é o grande problema.

Queria que tu deixasse registrada aquela história gostosa do carrinho de picolé. As lembranças que eu tenho da minha infância, eu vivia muito dentro de casa, por que minha família não me deixava sair muito. Nem pra praça, tinha a Praça da Misericórdia ali, minha mãe dizia que eu tinha que evitar “adjunto”. Antes mesmo de começar a estudar mais seriamente o violão, eu já tava começando, tinha um ouvido assim que apurava, eu gostava de ouvir rádio, meu pai consertava rádios, a gente dormia com aquele barulhinho de rádio, ele ouvia a BBC de Londres, A Voz da América, aquelas coisas, e eu gostava, tinha um rádio em casa, e de tarde, chegava da escola, almoçava, tirava uma sonequinha, e aquele calor danado, ficava esperando a hora do sorvete passar, picolé e sorvete, e tal. Antes era num tipo de carrocinha, que o sujeito abria, aquela coisa toda. E nesse dia, rapaz, um dia quente, eu ligo o rádio e tá tocando essa valsa de Nazareth [Coração que sente], na Rádio Ribamar, que coisa linda, e o cara do sorvete gritou, “sorvete!”, aí eu aumentei o volume pra não perder, e fui correndo, naquele calor, esbaforido, e disse “eu quero um sorvete de baunilha”, e ele disse “você mesmo escolhe, abre aí pra escolher”. Agora, você imagina a sensação de você sair de um calor danado, faz aquele esforço, eu nunca tinha olhado pro lado de dentro [do carrinho de sorvete], que eu abro, vem aquela brisa gelada, com todos os sabores que estavam ali dentro. Ai, que sensação maravilhosa. Peguei o sorvete, volto, continuei ouvindo a música. Passa-se o tempo, cada vez que eu ouço essa música, Coração que sente, Arthur tocando, o quê que vem no meu nariz?, no meu olfato? O cheiro de todos aqueles aromas e pode estar o calor que tiver que vem aquela brisa maravilhosa.

Contradição e vacilos: Pelé e nossos meios de comunicação

“Pelé calado é um poeta”, afirmou há algum tempo o hoje deputado estadual carioca Romário sobre o rei do futebol. Tem razão! O talento que sobrava aos pés do mineiro de Três Corações falta-lhe ao usar a boca. A cabeça só não é de todo desprezada pelos muitos gols que fez usando-a.

“Pelé pede que brasileiros deixem rivalidades de lado e torçam pelo Corinthians”, diz a manchete do ESPN/MSN Esportes. Trecho da matéria, mais à frente: “Para justificar o seu ‘pedido’, Pelé ressaltou a rivalidade entre Brasil e Argentina”.

O “poeta” caiu em contradição.

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PUXANDO A BRASA PRA SEU JACARÉ

O projeto Música e Memória terá mais uma edição realizada amanhã no Teatro Apolônia Pinto, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), a partir das 19h30min, com entrada franca. Quem se apresenta por lá é o Instrumental Pixinguinha.

O release da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado correu redações e a blogosfera. Ontem mesmo este blogue recebeu e-mail da direção do MHAM e quase imediatamente respondeu, perguntando se se trataria de uma apresentação do Instrumental Pixinguinha, único grupo de choro da Ilha com disco gravado, ou uma homenagem coletiva a um dos pais da música brasileira. O texto recebido não deixava clara coisa ou outra e não obtivemos resposta até agora.

Diversos veículos, como de praxe, copiaram e colaram o texto sem se preocupar com nada. Na página da Elo, catei dois vacilos, se é que podemos dizer assim. Vejamos: “Atualmente, músicos como Paulinho da Viola, Paulo Moura e Turíbio Santos, e grupos de música instrumental preservam o choro, renovando constantemente este estilo musical”. Quase nenhum problema, não fosse o “Paulo Moura”: o exímio clarinetista faleceu em 12 de julho de 2010.

E Abraçando Jacaré, homenagem de Pixinguinha ao cavaquinista pernambucano Antônio da Silva Torres (o Jacaré abraçado pelo mestre, que inspirou ainda o nome do grupo carioca homônimo à música); no release copied and pasted, a música virou Abrasando Jacaré. Eu nem vou botar o sic entre parênteses.