Patrimônios culturais em debate

Um pertinente debate sobre patrimônio cultural material e imaterial foi travado hoje (9) pela manhã, na mesa redonda que abriu os trabalhos do VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural, na sede do Centro Cultural do Ministério Público do Maranhão (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro). O evento é promovido pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), presidida pelo promotor Fernando Barreto.

O evento é ousado por ir de encontro ao desmonte promovido pelo governo de Jair Bolsonaro, cujos pouco mais de quatro meses são marcados pela destruição de qualquer patrimônio nacional: as instituições, a Educação, a Segurança Pública, o Meio Ambiente – gerando reação de todos os ex-ministros da pasta –, a Cultura (incluindo seu Ministério) e um longo etc. Um debate necessário e urgente.

Conceitos amplos de patrimônio foram trazidos como exemplo pelas promotoras Ana Maria Moreira Marchesan (MP/RS) e Eliane Cristina Pinto Moreira (MP/PA), que dividiram a mesa com Márcio Thadeu Silva Marques (diretor da Escola Superior do MP/MA), que mediou-a, e Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae do Maranhão.

As promotoras deram exemplos significativos, entre brasileiros e estrangeiros, da conjugação de preservação do patrimônio histórico com habitação, de participação popular na definição de bens tombados e de culturas, inicialmente marginalizadas, posteriormente reconhecidas por instituições oficiais. Marchesan revelou ainda o aprendizado e a emoção em ter visitado o Museu do Reggae e outros museus em sua rápida passagem pela ilha.

A fala de Ademar pontuou o que ele chamou de vitória do reggae, outro exemplo de cultura inicialmente marginalizada, ao longo dos anos incorporada como traço da identidade cultural brasileira, sobretudo maranhense, agora reconhecida oficialmente pelo poder público estadual, com a instalação do Museu (o primeiro dedicado ao gênero fora da Jamaica e o primeiro público no mundo), e pela Unesco, que em novembro passado reconheceu o reggae como patrimônio cultural imaterial.

Cabe destacar, aliás, que a instalação do Museu do Reggae e do Centro Cultural do Ministério Público colocam o Maranhão na contramão do Brasil: enquanto uns sucateiam, desmontam e privatizam, o Maranhão reforma, inaugura e mantém, apesar de todas as dificuldades enfrentadas.

O VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural prossegue ao longo de todo o dia de hoje. A programação do evento tem transmissão ao vivo no canal da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão no youtube.

(Re)veja a mesa:

Um museu para a massa

A massa regueira em frente ao Museu do Reggae, durante sua solenidade de inauguração, ontem à noite. Foto: ZR

 

A expressão “massa regueira” parecia fazer mais sentido ainda ontem (18), por ocasião da inauguração do Museu do Reggae do Maranhão, o primeiro sobre o tema fora da Jamaica – há controvérsias, afinal de contas, estamos falando da Jamaica brasileira, São Luís do Maranhão, ilha de tantas alcunhas, esta, provavelmente grafada pela primeira vez em uma matéria da revista Trip, em outubro de 1988, assinada pelo jornalista Otávio Rodrigues: “Descobrimos a Jamaica brasileira”, anunciava o índice.

Desde julho do ano passado a Quinta do Reggae preparava o terreno. A Praça da Criança, na esquina das ruas da Estrela e de Nazaré, na Praia Grande, tornou-se Praça do Reggae, graças à ocupação cultural realizada semanalmente, com bandas, DJs e radiolas revezando-se entre as atrações, numa clara demonstração prática do significado do termo “cultura reggae”.

Ladeado pelo governador Flávio Dino e pelo secretário de Estado da Cultura e Turismo Diego Galdino, o diretor do Museu do Reggae Ademar Danilo fala de igual para igual ao público presente. Foto: ZR

Ao descerramento da placa, o secretário de Estado da Cultura e Turismo Diego Galdino reagiu, brincalhão: “é a décima ou décima primeira placa que eu descerro, acho que isso também é inédito no Maranhão”, referindo-se a inaugurações de equipamentos culturais promovidos pelo governo Flávio Dino, na contramão do retrocesso brasileiro. Ao blogueiro ele anunciou para breve o Memorial João do Vale, em Pedreiras/MA.

“Hoje mesmo eu recebi nas redes sociais, comentários como “o Maranhão não tem com o que gastar dinheiro, vai gastar com reggae”. Vocês acreditam que tem quem pense assim?”, indagou o governador ao público presente.

Ele recebeu das mãos de Guiu Jamaica, histórico militante do movimento reggae, uma echarpe nas cores da bandeira da Jamaica, com a bandeira do Maranhão incrustada ali. O presente simboliza a relação entre as duas Jamaicas e a inauguração do museu é um reconhecimento institucional à força do reggae enquanto elemento da cultura do Maranhão.

“Não é à toa este museu ser instalado aqui. Toda essa beleza que nós estamos vendo, este conjunto arquitetônico, foi erguido ao longo dos séculos pela força do povo negro. Não é coincidência inaugurarmos o museu próximo do centro do poder político do Estado, num reconhecimento de que, hoje, no Maranhão, há espaço para todos”, declarou o governador.

“O reggae pode não ter nascido aqui, mas sua força hoje é inegável. Minha palavra hoje é gratidão: estou muito grato por estar aqui, inaugurar este museu é uma resposta a anos de discriminação, preconceito e racismo”, afirmou o jornalista e DJ Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae do Maranhão.

Ele não citou, mas provavelmente lembrava da invasão, em meados da década de 1980, da Polícia Militar ao Espaço Aberto, clube de reggae bastante movimentado durante anos, localizado no São Francisco. Ademar Danilo era estudante de Comunicação Social da UFMA, apresentava o Reggae Night – pioneiro no dial maranhense – com Fauzi Beydoun, e foi testemunha ocular da violência gratuita praticada pela polícia.

O episódio talvez não tenha sido citado pelo fato de a noite de ontem ser de festa, que não devia ser estragada por tristes memórias – que, esperamos, morem no passado. Presente em bom número, a polícia ontem, aliás, não teve trabalho.

Como de praxe, a Quinta do Reggae agregou diversos artistas do movimento – não me demorei, tendo acompanhado apenas a solenidade de inauguração do Museu do Reggae, enquanto a FM Natty Nayfson botava pra quebrar, literalmente.

O casarão que sedia o museu fica na Rua da Estrela, entre a Praça do Reggae e a sede da Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (Sectur). A disposição de seus espaços internos homenageia antigos e pioneiros clubes de reggae da cidade: PopSom, União do Bairro de Fátima, Espaço Aberto.

A visita guiada nos mostra a reprodução de um clube de reggae, com sua simulação de bar, DJ, paredão de som, casal dançando – “aqui no Maranhão desenvolvemos um jeito diferente na forma de dançar”, já me disse em entrevista o DJ Joaquim Zion, versado no assunto.

Noutro ambiente, discos raros, como um exemplar de The harder they come, de Jimmy Cliff, I can see clearly now, de Johnny Nash, e Eu, você e a cidade, do rosariense Nicéas Drumont. Este último, lançado em 1982 e lembrado entre os 12 discos mais importantes da música popular produzida no Maranhão, em enquete do jornal Vias de Fato, “foi pioneiro ao registrar dois reggaes neste disco: Gavião vadio e Senzalas, com que tomou de assalto as rádios locais”, como escrevi à época.

Por ali se vê também a primeira guitarra usada pela Tribo de Jah, banda de reggae de maior êxito já surgida no Maranhão, liderada pelo citado Fauzi Beydoun, que doou o instrumento para o acervo do museu.

No último ambiente, um pátio do casarão, batizado Espaço Aberto em homenagem ao citado clube, grandes pôsteres reproduzem os rostos de nomes fundamentais para o gênero: Peter Tosh, Bob Marley, Jimmy Cliff e Célia Sampaio, reconhecimento a esta artista, ainda na ativa (hoje mesmo fez show na Praia Grande), levando adiante a bandeira do reggae e a bandeira da mulher negra neste universo.

Tevês na parede reproduzem uma linha do tempo destacando acontecimentos importantes para o reggae nos cenários mundial, brasileiro e maranhense, a exemplo do nascimento (1945) e falecimento (1981) de Bob Marley, primeiro artista do terceiro mundo a se tornar um popstar planetário, responsável pela popularização do reggae e, até hoje, seu maior nome; o pioneirismo de Otávio Rodrigues, não à toa apelidado Doctor Reggae, ao apresentar, em 1982, na Excelsior FM, de São Paulo, o programa Roots, Rock, Reggae, produzido por Maurício Kubrusly, inteiramente dedicado ao gênero jamaicano; e, entre muitos outros acontecimentos, a morte (1996) do DJ Antonio José, o Lobo, que causou comoção generalizada e grandes filas de carros e pessoas acompanhando o féretro até o cemitério – particularmente não lembro de cortejo fúnebre mais frequentado por estas bandas.

As linhas do tempo terminam em 2018, com a inauguração do Museu do Reggae do Maranhão, devendo manter-se em constante atualização. Pode ainda haver quem torça o nariz, mas se passo a passo, literalmente, o reggae perdeu o estigma da violência e saltou das páginas policiais para as páginas de cultura, agora com o seu reconhecimento oficial pelo poder público, quem poderá prever seu futuro?