Dinastia musical

Caetano Veloso ladeado pelos filhos Tom, Zeca e Moreno. Foto: Marcos Hermes/ Divulgação

 

Quando terminaram as gravações de Tropicália 2, em 1993, Moreno Veloso presenteou o pai com um samba de roda. O detalhe é que a letra era uma frase em inglês, o próprio título da música, que Caetano Veloso só viria a gravar quatro anos depois, em Livro: How beautiful could a being be?

Em Tropicália 2, dividido com Gilberto Gil, Caetano Veloso celebrava os 25 anos da Tropicália, contando com Moreno entre violoncelo e percussão. Ano passado, junto com o parceiro, celebrou os 50 anos de carreira, a dele iniciada em disco dividido com Gal Costa, Domingo, de 1967.

Ofertório. Capa. Reprodução

Este ano, por ocasião do meio século do movimento tropicalista, Caetano Veloso se reuniu com os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso e deu ao público Ofertório, um dos melhores discos lançados no país em 2018.

Outro elo com a Tropicália é o cenário de Hélio Eichbauer, que em 1967 assinou o cenário de O rei da vela, peça de José Celso Martinez Corrêa baseada no livro de Oswald de Andrade, que teve uma imagem utilizada na capa de O estrangeiro, disco que Caetano Veloso lançou em 1989. A mim, particularmente, o círculo na capa remeteu ainda a Todos os olhos (1973), de Tom Zé.

A história do presente recebido de Moreno há 25 anos se justifica: é a relação familiar que conduz o show de atmosfera idem. Estão tão à vontade que Tom se apresenta de chinela e Moreno convida o pai à dança.

Os Veloso são, de longe, uma das famílias mais musicais do Brasil, cuja história se confunde com a própria música do velho baiano, sendo às vezes explicada por ela.

Referências a parentes são explícitas desde as regravações de sucessos do compositor na voz da irmã Maria Bethânia, casos de Reconvexo e Ela e eu. Ou nas citações e homenagens diretas do próprio pai aos filhos, em Força estranha, Oração ao tempo e Boas vindas. Ou de Caetano aos pais, em Genipapo absoluto e, novamente, Reconvexo.

Ou dos filhos aos pais: a citada How beautiful could a being be?, de Moreno, e a inédita Todo homem, de Zeca.

Dignos da linhagem, os filhos de Caetano Veloso esbanjam talento, compondo, cantando e tocando. O pai ao violão vê o trio se revezar entre piano, baixo e violão (Zeca), violão e baixo (Tom) e violão, violoncelo, baixo e percussão (Moreno).

Lançado em cd e dvd, Ofertório tem 28 faixas no segundo formato e apenas a metade em cd – o único problema do lançamento: merecia um cd duplo para caber o áudio completo do show.

2018 foi um ano difícil, mas se há algo a se comemorar, o lançamento deste disco está entre o que valeu a pena. Inclusive pelo fato de parte do repertório ter sido composta e lançada no auge da ditadura de 1964, garantindo a ponte com a sucessão de golpes que temos atravessado: Alegria, alegria e O seu amor, esta de Gilberto Gil, do repertório dos Doces Bárbaros, outro quarteto com que Caetano Veloso gravou disco, a única não composta por um dos quatro cavaleiros de Ofertório.

Arnaldo Antunes não faz mais do mesmo

[sobre Acústico, show que Arnaldo Antunes apresentou sábado passado (9), no Mandamentos Hall, Lagoa, São Luís. Desaviso: isto não é jornalismo!]

Acústico MTV (2012) é o terceiro disco ao vivo de Arnaldo Antunes em cinco anos, mas isso não o coloca no rol daqueles compositores brasileiros que todos os anos lançam o mesmo disco. O ex (ou eterno?) titã está em outro grupo: o dos mais instigantes e interessantes compositores brasileiros na ativa.

O repertório de seu novo disco passeia por várias fases da carreira: solo, com os Titãs, Tribalistas, além do registro em sua própria voz para músicas que fizeram sucesso na voz de outros intérpretes, casos de Alma (parceria com Pepeu Gomes, sucesso na voz de Zélia Duncan), Sem você (parceria com Carlinhos Brown gravada como Busy man pelo baiano com participação especial de Marisa Monte) e De mais ninguém (parceria com Marisa Monte gravada por ela e regravada por Nelson Gonçalves). E ainda há espaço para inéditas.

Arnaldo Antunes não é de se repetir: se em Ao vivo no estúdio (2007), os convidados eram os tribalistas Carlinhos Brown e Marisa Monte e os titãs Branco Melo e Nando Reis, em Ao vivo lá em casa (2011) eram Erasmo Carlos e Jorge Benjor; agora, neste Acústico MTV (2012) são Nina Becker e Moreno Veloso, o que dá ideia das possibilidades da obra de sua obra, tão diversa.

Foi basicamente o repertório de Acústico MTV que Arnaldo Antunes apresentou em São Luís sábado passado (9), no Mandamentos Hall (Lagoa). Um show irretocável. Nem mesmo as quase duas horas e meia de atraso para o início conseguiram diminuir seu brilho, a demora certamente uma estratégia da casa para vender sua bebida cara em seu ambiente climatizado, um som mecânico anos-80-remix criando o clima para quando a banda subisse ao palco.

Quem pagou pelos ingressos – salgados para os padrões ilhéus, pista a 70 reais, no dia – certamente achou bem pago, que valeu cada centavo, caso deste que vos perturba, que assistiu ao show às próprias custas, cantando quase todo o repertório e relevando até mesmo o comportamento da turma que assiste a shows não pelos próprios olhos, mas pelas lentes de máquinas fotográficas e/ou telefones celulares que servem de.

Mesmo a pouco mais de metro e meio do palco, por vezes tive que ver mãos e braços não batendo palmas ou se agitando alegremente ao som de Arnaldo Antunes e banda, mas empunhando o que há de mais moderno em se tratando de tecnologia. O palco da casa, a propósito, deveria ser mais alto, já que o público não-VIP assiste ao show de pé – ou seja, quem está mais distante do palco verá ainda menos artista e mais braços, mãos, máquinas, celulares, flashes.

Vestido de branco, qual um chef, a camisa com aqueles botões não ao centro, Arnaldo Antunes demonstra alegria o tempo inteiro sobre o palco, talvez feliz com sua ótima banda – ou melhor, constelação: Betão Aguiar (contrabaixo), Chico Salém (violão), Edgard Scandurra (violão), Marcelo Aguiar (bateria) e Marcelo Jeneci (sanfona e teclado) –, talvez feliz com a receptividade do público, com o novo disco, ou certamente com tudo isso ao mesmo tempo. É sincero o seu “espero que vocês estejam se divertindo aí tanto quanto nós aqui” dirigido ao público. Nem mesmo algumas falhas no som o irritaram. Ou ao menos ele não demonstrou. Nem mesmo a graça sem graça do despropositado grito de “toca Raul!”, se é que ele ouviu.

Hora e meia de show depois, bis incluso, hora de tentar comprar o disco novo e catar autógrafo. Não consegui. Um simpático Jeneci me informou que a caixa com os discos de Arnaldo Antunes já haviam sido guardadas, pois o músico pegaria em instantes uma van rumo ao aeroporto. Ele não havia trazido seu Feito pra acabar (2010), de que tenho somente cópia, como lhe disse. E Curumin, de quem também esperava comprar os discos solo, acabou não vindo. Já fui uns bons pares de vezes onde ainda se vendem discos em São Luís, em busca do Acústico MTV, hoje inclusive, sem sucesso. Tê-lo e ouvi-lo vez em quando certamente tornará ainda mais viva a lembrança da agradável passagem deste artista multifacetado e sua banda idem pela capital maranhense.

p.s.: agradecimentos do blogue a Bruna Castelo Branco e Polyana Amorim, pelo diálogo, e Samir Aranha Serra, pela fotografia que roubei de seu facebook.