Vereda afetiva

Caipira. Capa. Reprodução

Em um vídeo de divulgação de seu novo disco, Mônica Salmaso afirma não se tratar de uma dissertação de mestrado sobre a música caipira ou coisa que o valha. “Sou tabaréu, sou capiau, sou caipira”, anuncia o verso inicial da faixa-título (Breno Ruiz/ Paulo César Pinheiro), que abre Caipira [Biscoito Fino, 2017, R$ 33,90] – com citação de A lenda do caboclo (Heitor Villa-Lobos), mas engana-se quem pensa que o tema é tratado ali como o é em geral: como sinônimo de atrasado ou subdesenvolvido.

Graças à tecnologia as barreiras entre urbano e rural estão cada vez mais diluídas. É claro que o chapéu de palha que a cantora usa na capa do disco, o jarro com flores em uma bancada na capa do encarte e bordados em suas páginas evocam um Brasil interiorano, remetendo a certo bucolismo, ou, como ela canta em Minha vida (Vieira/ Carreirinho): “eu trago na lembrança quando era criança/ morava na roça e gostava da troça/ do munjolo d’água, da casa de tábua” – a música é cerzida apenas pela sanfona de Toninho Ferragutti e pela viola caipira de Neymar Dias, craque do instrumento, com ele capaz de mais lances geniais que seu xará em campo.

O repertório de Caipira é afetivo. Estão lá grandes mestres da música caipira, a exemplo de Marco Antonio Vilalba, o Passoca (de quem ela regrava Sonora garoa, que encerra o disco, acompanhada apenas pelo piano de André Mehmari) e Zezinho da Viola (A velha), mas seu trunfo está em justamente não se prender a rótulos. É sublime, por exemplo, sua regravação para Bom dia, rara parceria de Nana Caymmi e Gilberto Gil. Ou para Água da minha sede (Dudu Nobre/ Roque Ferreira), em que Mônica Salmaso (voz, tambor, caxixi, palmas) é escoltada por Teco Cardoso (flautas e palmas), Nailor Proveta (clarinete), Neymar Dias (viola caipira) e Robertinho Silva (djembe, caxixi, ganzá, pandeiro e palmas).

A arregimentação é de uma sofisticação ímpar. Em Saíra (Sérgio Santos), a voz de Mônica Salmaso é emoldurada apenas pelo violão do compositor, em participação especial, e pelo piano de André Mehmari. Outra grata surpresa do disco é a regravação da trágica toada Feriado na roça, do sambista Cartola. Açude verde (Sérgio Santos/ Paulo César Pinheiro) é outro ponto alto do disco, inspirada declaração de amor: “O meu peito era o nordeste/ era de seca e peste/ era do coisa ruim/ mas o céu mudou de brilho/ chuva em pé de milho/ foi teu olho em mim/ engordurou o capim/ deu broto de alecrim”, começa a letra.

O sucessor do ótimo Corpo de baile (2014), com repertório inteiramente dedicado à parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro, reaproxima Mônica Salmaso do Maranhão. Se a capa e encarte de Noites de gala, samba na rua (2007), seu disco dedicado ao cancioneiro de Chico Buarque, eram enfeitados por fotos da capital São Luís, neste novo disco aparece Alvoradinha, música da tradição oral das caixeiras do Divino do Maranhão.

Caipira é também o título de um álbum antológico de Rolando Boldrin, lançado em 1981, com diversos clássicos da música caipira. Apresentador de tevê e exímio contador de causos, ele é saudado no encarte como “convidado especialíssimo” em Saracura três potes (Candido Canela/ Téo Azevedo), que canta com Mônica Salmaso. Papa no assunto, abençoa seu enveredar pelo terreno. A música fala de uma ave comum em áreas alagadas do Brasil, mas se bem pensarmos, poderia mesmo estar falando da cantora: “seu canto tem a mistura/ de alegria e tristeza/ é flauta que Deus lhe deu/ pelas mãos da natureza/ à tardinha nos comove/ qual canto da Ave-maria/ muitas vezes nos encanta/ quando vem rompendo o dia”, diz trecho da letra.

*

Veja a cantora em Água da minha sede (Dudu Nobre/ Roque Ferreira):

Daqui pra todo ouvido

Daqui. Capa. Reprodução
Daqui. Capa. Reprodução

 

O mundo se encantou com a música brasileira com a explosão da bossa nova, em fins da década de 1950. Uma das mais sofisticadas do planeta, desde então a música popular brasileira, aquela que passa longe de modismos, conquista cada vez mais espaços, sem se importar com barreiras geográficas e linguísticas.

Setas apontam para todos os lados na capa do novo disco do grupo Pau Brasil, uma das mais longevas e destacadas formações instrumentais da música brasileira. Depois da audição de suas 10 faixas, o título pode soar óbvio – o que seria a única obviedade do trabalho: todos os compositores gravados são brasileiros, daí o Daqui [2015] do título.

Metade das faixas é de autoria de integrantes do quinteto. A outra metade reverencia nomes fundamentais para a música brasileira, revelando influências e um fio condutor.

O maestro pernambucano Moacir Santos (Agora eu sei) foi professor do violonista Baden Powell (Pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que abre o disco). Tom Jobim (Saudades do Brasil) é, digamos, herdeiro de Heitor Villa-Lobos (Bachianas brasileiras nº. 1 [Prelúdio/ Modinha] – a cujo repertório já haviam dedicado o disco Villa-Lobos Superstar (2012), com participação especial do quarteto de cordas Ensemble SP e do cantor Renato Braz. E aparecem ainda Ary Barroso e Lamartine Babo, autores de No rancho fundo, de longe a mais popular das citadas.

Junto às demais faixas, autorais – Pingue pongue (Paulo Bellinati), Sarapuindo (Teco Cardoso), Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter/ Paulo Bellinati), Agreste e Caixote (ambas de Nelson Ayres) –, sobressai o espírito de conjunto, com momentos de reafirmação de seus talentos individuais, os nomes dos integrantes do quinteto sempre espalhados em fichas técnicas de discos e shows de uma grande gama de artistas.

O Pau Brasil em foto de Gal Oppido
O Pau Brasil em foto de Gal Oppido

Ricardo Mosca (bateria), Teco Cardoso (saxofones e flautas), Paulo Bellinati (violão), Nelson Ayres (piano) e Rodolfo Stroeter (contrabaixo) – da esquerda para a direita no retrato; o último o único presente desde a formação original – são a atual formação (desde 2005) do Pau Brasil, fundado em 1982, tendo estreado em disco em 1983 num álbum intitulado simplesmente com o nome do grupo.

O nome Pau Brasil remete ao Manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald de Andrade, farol do movimento modernista – não à toa seu disco anterior, com a voz de Monica Salmaso (eram sua banda em Noites de gala, samba na rua, de 2007, inteiramente dedicado ao repertório de Chico Buarque) e a regência de John Neschling, chama-se Concerto antropofágico (2012).

Em Daqui sobram demonstrações de talento, versatilidade e capacidade de improvisação, num álbum que é, com pitadas jazzísticas, uma espécie de síntese da música (instrumental) brasileira. Como no poema de Olavo Bilac reproduzido no encarte: “E em nostalgias e paixões consistes,/ lasciva dor, beijo de três saudades,/ flor amorosa de três raças tristes”.

Veja/ouça o Pau Brasil em Caixote (Nelson Ayres):

Um show impecável

Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro
Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro

 

Há quem não entenda o fato de eu gostar de assistir a shows “repetidos”. Como se todo show fosse igual. Todo show é diferente, cada show é um show. Mesmo discos, há aqueles tão bons que não se consegue ouvir duas vezes, com novas nuances percebidas a cada audição. Mas deixemos de abobrinhas.

Antes de adentrar o Teatro Arthur Azevedo na última quarta-feira (10) eu já sabia que encontraria um Pau Brasil diferente do que eu havia visto e ouvido há mais ou menos sete anos. Por diversas razões, entre as quais destaco duas: o repertório diferente e o próprio amadurecimento musical de seus integrantes.

Se naquela ocasião eles acompanhavam Monica Salmaso nas músicas de Noites de gala, samba na rua, disco dedicado à obra de Chico Buarque, agora, sem o ornamento da voz da cantora, dedicavam-se a um repertório instrumental rico e variado. Tocaram temas autorais (Pingue-pongue, de Paulo Bellinati, Caixote de Nelson Ayres, entre outros), Heitor Villa-Lobos (Bachianas Brasileiras nº. 4 – Ária e Cantiga, com que abriram o espetáculo), Moacir Santos (Agora eu sei e Coisa nº. 10), Tom Jobim (Saudade do Brasil) e Baden Powell (Pai, com que encerraram o espetáculo, sem direito a bis).

O concerto do Pau Brasil encerrava um ciclo: a comemoração de seus 30 anos de carreira, cuja turnê percorreu cidades em Minas Gerais, Mato Grosso, Pará e Maranhão. Bem humorados, disseram da felicidade de voltar ao palco “dessa maravilha que vocês têm aqui”, o Arthur Azevedo, e anunciaram a viagem que farão em sequência, para a Noruega, onde gravarão disco novo.

O bom público presente ao teatro pode ouvir em primeira mão algumas músicas que estarão neste novo trabalho, entre elas Caixote, xote de Nelson Ayres cujo título confunde-se com o Caixote que reúne sua obra completa – sobre o que brincou o baixista –, exceto o mais recente Villa-Lobos Superstar, ótimo disco dedicado à obra de Heitor Villa-Lobos com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do sempre inspirado cantor Renato Braz.

Nelson Ayres (piano), Teco Cardoso (flauta e saxofones), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Ricardo Mosca (bateria) e Paulo Bellinati (violão) – da esquerda para direita na foto que ilustra este post – tanto na escolha quanto na execução das peças, mostraram ao público ludovicense por que são um dos grupos instrumentais mais interessantes do país que lhes empresta meio batismo.

Música Popular Pau Brasil

A música popular brasileira tornou-se uma sigla importante após os grandes festivais, tidos como sua era de ouro, nas décadas de 1960 e 1970. Nenhum país tem uma música popular tão interessante quanto o Brasil, justo pela sofisticação que carrega.

O que parece contraditório é o trunfo do longevo Pau Brasil, grupo que chega aos 30 anos neste 2014, cuja turnê comemorativa passa por São Luís nesta quarta (10), às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo.

O quinteto formado por Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão), Ricardo Mosca (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo) e Teco Cardoso (flauta e saxofones) é a perfeita tradução da ponte entre erudito e popular sem linhas de segregação que acabam por fazer da música o que temos de melhor.

Não é à toa que este grupo se chama Pau Brasil. A sequência é lógica e pode soar óbvia: desta árvore nativa extraiu-se o nome do país, da madeira vem a maioria dos instrumentos, deles a música, obtida a partir do virtuosismo destes gênios, de relevantes serviços prestados, em grupo ou sozinhos, aos ouvidos mais exigentes, ao longo destes agora devidamente celebrados 30 anos de carreira.

Noites de gala, samba na rua, de Monica Salmaso, é um destes casos, um bom exemplo: no disco da cantora, cujo repertório é inteiramente de Chico Buarque, o grupo fez a cama para que a cantora reinventasse o compositor, trazendo novidade e rara beleza ao que já parecia definitivo, as gravações já conhecidas de músicas que ela regravou. Particularmente lembro-me do show, no mesmo Arthur Azevedo, em que, num determinado momento, a cantora beijava Teco Cardoso, seu marido, celebrando o amor pela música, contaminando a plateia apaixonada – impossível manter-se impassível.

Quem não conhece o Pau Brasil certamente há de se apaixonar. O repertório longe do óbvio, além de composições dos membros do grupo, passeia por nomes como Ary Barroso, Baden Powell e, entre outros, Heitor Villa-Lobos, a cujo repertório é dedicado Villa-Lobos Superstar, seu mais recente disco, que lhe garantiu os troféus de melhor disco e melhor grupo instrumental no 24º. Prêmio da Música Brasileira. O disco conta com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do cantor Renato Braz. O show traz um breve panorama da história da música e dos ritmos brasileiros.

Também amanhã, às 18h, o Pau Brasil dialogará com o público interessado sobre a concepção musical e de arranjos, em interação com os presentes – músicos, professores e estudantes de música e público em geral. Tanto para a oficina quanto para o espetáculo as entradas são gratuitas, devendo ser retiradas na bilheteria do teatro a partir das 14h.

Fito bem podia ser sigla de Fábrica de Invenção de Tom Zé

[antes, dois avisos: um: isso não é jornalismo; e outro: o blogueiro viajou às próprias expensas]

A plateia cantou junto o show inteiro. No repertório, várias fases da carreira

Há coisa de 10 anos, eu, menino recém-entrado na boemia, assisti a um maravilhoso show de Tom Zé no Circo da Cidade, em São Luís. A abertura ficou por conta de Cesar Teixeira e na plateia, lotada, estava o saudoso Mestre Antonio Vieira, cuja obra o baiano elogiaria durante o show.

Passei o espetáculo inteiro entre assisti-lo e conversar com dona Neusa Santana Martins, esposa e memória do gênio de Irará. Lembro que, ao saber de sua apresentação na Ilha, fiz contato com o escritório do tropicalista em São Paulo e consegui comprar alguns discos que me faltavam na coleção.

Eufórico, furei a fila dos autógrafos, levado por dona Neusa: apertei a mão da banda inteira, abracei Tom Zé, lembrei de Caetano Veloso, em seu Verdade Tropical, escrevendo algo sobre o brilho dos olhos daquele homem miúdo na estatura, gigante no que faz – pude comprová-lo pessoalmente. Peguei autógrafo em Jogos de armar – Faça você mesmo, então seu disco mais novo, cuja turnê chegava ali por 2002 ou 3 em São Luís. Algum fotógrafo, no camarim, fez um retrato nosso, eu, o fã, e Tom Zé, o ídolo – jornalismo era algo em que eu apenas engatinhava ainda e, como não ia resenhar o show, não primei pelo “distanciamento”. Na ocasião eu era tiete mesmo. O fotógrafo pegou meu telefone. Deveria me cobrar no trabalho, dias depois, e entregar a foto. Nunca cobrou. Nunca vi a foto (se ela existir e o fotógrafo por acaso estiver lendo isto aqui, ainda estou disposto a pagar).

10 anos depois ou quase isso, estou a passeio em Curitiba e, conhecendo a urbe num ônibus de turismo, próprio para tal, descemos, eu e minha esposa, no Museu Oscar Niemeyer, também conhecido como Museu do Olho, por causa de uma das formas extravagantes da arquitetura do gênio centenário e damos de cara com a programação do Fito, o Festival Internacional de Teatro de Objetos, invenção do Sesi.

O público era enorme em uma área montada ao lado do museu, com várias salas onde aconteciam os espetáculos, em que, pelos anúncios que vimos espalhados pela cidade, um saca-rolhas se transformava em uma bailarina, uma chaleira vermelha virava uma senhora irada e assim sucessivamente. Éramos turistas, minha esposa já havia concluído as obrigações de trabalho que a haviam levado à capital paranaense e agora curtíamos a cidade. Adentrando o recinto do Fito, Naná Vasconcelos encerrava um show e um locutor anunciava outras atrações. A última do dia (sábado, 26) seria Tom Zé. Em meio ao “teatro de objetos”, ele era anunciado como “música/contramúsica”, eu leria depois, no programa. “Vamos terminar o passeio e voltar para cá”, decidi sozinho pelo casal. A jardineira, um ônibus aberto que de meia em meia hora circula por nem lembro quantos pontos turísticos curitibanos, ainda nos levaria à Ópera de Arame e Pedreira Paulo Leminski – o poeta mereceria um capítulo à parte, que talvez eu escreva por aqui em breve – e em Santa Felicidade, onde degustamos lasanha e vinho artesanal deliciosos. Antes, já havíamos passado pelo Passeio Público.

Niemeyer sempre me interessa, mas, qual “os barzinhos do Largo da Ordem”, o Museu Oscar Niemeyer estava entre as dicas do amigo Ademir Assunção. “Grande Ademir!”, eu repetia enquanto passeávamos, por lá, na noite anterior, entre bonitos botecos como o Bar do Alemão e o Sal Grosso. Ali ainda voltaríamos no domingo, para comprar lembranças para as sobrinhas e uns poucos parentes, a grana era curta. “Só nós mesmo para fazermos turismo assim”, eu dizia. Felisos. Lisos, mas felizes.

Tom Zé apresentou um show bastante interessante, passeando por diversas fases da carreira: músicas compostas no período da ditadura militar, como Todos os olhos (primeiro verso: “de vez em quando todos os olhos se voltam pra mim”; último verso: “eu sou inocente”) e Augusta, Angélica e Consolação aos estudos de samba, Hein?, e pagode, O amor é um rock e ElaEu – esta, abriu o show e foi repetida no meio, a pedido de uma fã mais próxima ao palco. Em Menina, amanhã de manhã, ele lembrou, generoso mas não modesto, da gravação de Mônica Salmaso, talvez definitiva, para a canção. “Eu sou a Mônica, ele é o Salmaso”, disse apontando para Jarbas Mariz, com quem dividiu os vocais, “uma dupla caipira”, prosseguiu, “menina amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens”.

O baiano ri e faz rir, conta histórias, diverte-se divertindo. Tira sons percussivos de agogôs e esmeris – com as luzes apagadas, as faíscas-estilhaços iluminam aquela espécie de galpão, completamente lotado. Em O jingle do disco, faixa pouco conhecida de The hips of tradition, do período de sua redescoberta a partir do interesse de David Byrne por sua música na década de 1990, ele exibe réplicas de vinis, cujos cds eram vendidos por dona Neusa, além de esposa e memória, assistente, secretária, produtora, empresária e quantos ofícios ela puder dar conta, sempre simpática.

Cumprimentei-a, antes do show, comprei dois discos que ainda não tinha. Depois acompanhei, cantando, grande parte do show, gratuito. Em Xique-xique foi até possível arriscar uns passinhos de dança, ou balançar o corpo cansado, algo próximo de, o que o espaço permitia, talvez nem dois pra lá, dois pra cá, no galpão entupido de adultos e crianças, remanescentes da programação que teve início à tarde. No bis, 2001, “parceria com Rita Lee”, com a plateia cantando junto, Jimmy renda-se e Moeda falsa: Tom Zé, que já havia tirado onda com os curitibanos, mudou a letra, lembrando-se das colônias germânicas e europeias em geral que ajudaram a formar e ainda habitam a cidade. O show não terminaria com o “eles vão tomar no fiofó”, verso final de Moeda falsa. Educado, “Mister Tom Zí” – a pronúncia de seu nome pelos americanos que o (re)descobririam há algum tempo – agradeceria o carinho dos paranaenses que tão atentamente prestaram atenção em sua música e performance. Aliás, que fique o registro: não é qualquer um que faz aquilo aos quase 80. Muito pulo e jogo de perna que eu, aos 30, não arrisco.

Do Maranhão, estando ali por mera sorte, senti-me contemplado nos agradecimentos. Depois de mais ou menos hora e meia de show preferi não enfrentar a fila do camarim e arriscar finalmente ter minha foto com Tom Zé, embora tenha anunciado a vontade à dona Neusa, antes dele subir ao palco. Mas era preciso acordar cedo no domingo, data em que estava marcado nosso retorno à São Luís: no espaço de tempo que ainda sobrava, ainda havia turismo a fazer.

A batucada de Mila

Carioca radicada há tempos no Maranhão, Mila Camões esbanja talento, passeando com desenvoltura pelo repertório de nomes como Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Antonio Vieira, entre outros – e aqui falo do que lembrei, de cabeça, imediatamente, ao tentar referendá-la.

Seu nome nunca sei se se grafa com um ou dois “l”: a imagem que colo aí em cima o traz com um, o release da produção, que recebi por e-mail, com dois. Seu disco de estreia, aguardo ansiosamente há tempos. É tanto tempo de gestação que sua gravidez foi mais curta. Digo: já faz bem mais que nove meses que Mila grava, ensaia, regrava, refaz, com carinho de mãe coruja. Um disco que me desperta curiosidade, por não saber mais que do talento dela como elemento, sob direção musical de Celson Mendes – o que quero dizer é: não sei, por exemplo, do repertório, mas certamente vem coisa boa por aí.

Aperitivo: Mila Camões apresenta o show Na batucada da vida nesta sexta (2), às 21h, no Cumidinha de Buteko (Cohajap). A formação do trio que a acompanhará é inusitada para um repertório de samba: o citado Celson Mendes (violão), Fleming (bateria) e Jeff Soares (contrabaixo). Conceito: homenagear a mulher no contexto do samba, passeando por obras de compositores e intérpretes como Arlindo Cruz, Assis Valente, Chico Buarque, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Janet de Almeida, Jovelina Pérola Negra, Mônica Salmaso, Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves, entre outros e outras.

Maiores informações no blogue do produtor, Celijon Ramos.

Cidade lagoa

Música de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, composta entre o fim da década de 1930 e o início da de 40, sacada genial acerca do caos urbano do Rio de Janeiro da época, atualíssima e aplicável a qualquer cidade com tais problemas. O blogue traz duas gravações distintas e belíssimas, acima a de Moreira da Silva, o Kid Morengueira (a faixa não integra o disco O último malandro, de 1958, que ilustra o “vídeo”: encontrei-a em Moreira da Silva fotografa o Rio, coletânea com data de lançamento incerta).

Olha a letra, transcrita do encarte de Iaiá [Biscoito Fino, 2004], de Mônica Salmaso, cuja gravação se ouvê ao final do post:

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo pára
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai

Então, poucos-mas-fieis leitores, lembrem da chuva que castigou São Luís na manhã de hoje (20) e adaptem a letra a seu gosto: “É uma enorme cachoeira a ilha onde moro/ que da praça Deodoro/ vou de lancha ao Araçagy”. Ou “Que maravilha nossa linda São Luís/ ainda querendo ser Paris/ sem ter uma luz acesa”. Fiquem à vontade para o exercício.

Da minha casa até o trabalho de minha esposa pego exatos 10 semáforos (nem conto o resto do trajeto, que faço do trabalho dela ao meu): com aquela chuva apenas dois funcionavam. Na avenida Camboa, no bairro homônimo, os três por que passamos estavam apagados. Em São Luís acontece de tudo: água empoça até mesmo sobre a ponte (aconteceu na do São Francisco).

São Luís, cidade lagoa. Abaixo a belíssima gravação de Mônica Salmaso para a música-epíteto da capital maranhense, com o luxuoso acompanhamento do Quinteto Sujeito a Guincho (feliz coincidência, aliás: carros estacionados em áreas alagáveis, e estas não são poucas, com a chuva estão o nome do quinteto):

Outra gravação para Cidade lagoa que merece atenção é a de Jards Macalé em O q eu faço é música [Atração, 1998]. O blogue agradece a Ricarte Almeida Santos, pela memória e hipertexto.