O respeito às diferenças precisa entrar na moda

Foto: Zema Ribeiro

 

As areias da paradisíaca praia de Mangue Seco foram o palco escolhido para o lançamento de uma grife de moda íntima, o Ateliê Demodê, que aportuguesa a palavra francesa démodé, usada para qualificar algo que está fora de moda.

O evento aconteceu na manhã de ontem (20) e foi marcante pelo inusitado do lugar e da proposta: “o material dita a forma”, no que se baseou a decisão pela malha utilizada nas peças do Ateliê Demodê, feitas à mão, em São Luís do Maranhão, 100% orgânica, de algodão cultivado na Paraíba e Ceará, com embalagens de papelão reciclável produzidas na Bahia, de acordo com o catálogo também artesanal distribuído aos presentes.

As coleções são batizadas por alusões ao litoral: Areia, Duna, Brisa e Maresia, referindo-se às cores das peças, formas e a beleza.

Consumo é política e é impossível dissociar o desfile a que assisti ontem do atual momento conturbado que o Brasil atravessa. A beleza – e a força – do lançamento das coleções do Demodê reside em entender e colocar a moda como uma possível contraposição aos padrões vigentes: os modelos que desfilaram eram homens e mulheres, altos e baixos, brancos e negros, magros e gordos, “pessoas cinzas normais”, como diria Belchior.

Por falar em música, a trilha sonora do desfile foi pensada criteriosamente, marcada pelo compasso de cocos de Pernambuco e Paraíba e pela força percussiva da música do maranhense Tião Carvalho. Não só a música: tudo ali foi pensado com carinho, nos mínimos detalhes: das acomodações da plateia que foi prestigiar o desfile ao generoso e saudável café da manhã servido – consumo é política, repito.

Se “amar ao próximo é tão démodé”, como cantou Renato Russo, o grande grito dado pelo vai-e-vem de modelos tão diversos, foi justamente a tentativa de superação disso: é justamente a diferença, e saber conviver harmoniosamente com ela, que nos torna humanos.

Mercadoença

Mais uma da máquina de moer gente que é o mundo cada vez mais capitalista (apesar das crises, cujos mais fodidos é que sempre pagam a conta) e cada vez mais selvagem: um interessante artigo de Martha Rosenberg traduzido por Daniela Frabasile revela os bastidores da indústria farmacêutica para fabricar e vender remédios. Ou, melhor dizendo: fabricar doenças e vender remédios.

Sou o tipo do cara que só consulta médicos em última instância e, não fosse a insistência de minha esposa, provavelmente sequer teria plano de saúde. Ignorância? Não sei. O ideal era termos um sistema de saúde público que funcionasse e garantisse atendimento rápido a qualquer um que dele precisasse. Como estamos bem longe disso, melhor garantir, apesar do SUS ser, do ponto de vista da garantia do direito à saúde, um dos sistemas mais avançados do mundo (não do ponto de vista técnico, obviamente).

O que quero dizer com isso? Duas coisas: que pago plano de saúde para não usar, por falta de necessidade ou de vontade: resolvo não frequentes dores de cabeça com dorflex ou neosaldina, compradas em qualquer farmácia ou boteco, embora não recomende aos poucos mas fieis leitores tentarem repetir isso em casa; e que acredito muito que a grande maioria dos problemas de saúde, digamos, mais simples, tem origem psicológica: você está doente, mas acredita que está mais doente do que realmente está e a tendência é piorar; como se parte da cura se devesse à crença de que você é mais forte que o mal que te aflige ou que você acha que te aflige. Placebo?

Sei que meto o bedelho bem fora da minha seara, mas fiquei perturbado com o artigo citado no início deste blá blá blá. Imaginemos uma conversa entre amigos: “o quê? Você não sofre disso? Que demodê!”. “Ah, mas eu sofro daquilo, que me causa isso, isso e isso”. Doença enquanto sinônimo de moda, sacam? Preocupante? Demais! Há gente para sucumbir à mídia farmacêutica, como há quem compre carros, roupas, comida e mesmo livros, discos e jornais apenas por que a propaganda lhes ordena.

“Como a indústria farmacêutica conseguiu que um terço da população dos Estados Unidos tome antidepressivos, estatinas, e estimulantes? Vendendo doenças como depressão, colesterol alto e refluxo gastrointestinal. Marketing impulsionado pela oferta, também conhecido como “existe um medicamento – precisa-se de uma doença e de pacientes”. Não apenas povoa a sociedade de hipocondríacos viciados em remédios, mas desvia os laboratórios do que deveria ser seu pepel essencial: desenvolver remédios reais para problemas médicos reais”, diz o primeiro parágrafo do artigo, cuja íntegra pode ser lida no Outras Palavras.

Teka lança coleção logo mais na Praia Grande

A estilista ladeada por modelos mirins

As encantarias da Mina é o tema deste ano da coleção que Teka Castellano lança, desde 2001, sempre na segunda sexta-feira de dezembro. O desfile de lançamento acontece hoje (9), às 20h, no Beco Catarina Mina (Praia Grande), onde fica localizado o Estúdio Teka Art’s, seu ateliê.

Interessadas em modelitos de moda alternativa já poderão adquirir peças da grife na ocasião. As roupas são inspiradas nas estéticas afrodescendente e indígena e na cultura popular do Maranhão, trabalhadas artesanalmente utilizando retalhos, chita, fibras, sementes e tecido cru.

Carregue seu ídolo no peito

Meu talentosíssimo amigo-irmão Bruno Galvão, mais conhecido nas rodas de samba como Bruno Nagô, iniciou uma série de camisas pintadas à mão: caricaturas de grandes artistas e personalidades outras. Se uma imagem vale mais que mil palavras, saquem o talento do moço:

O gênio Cartola no traço do gênio Bruno Galvão

 As camisas não são feitas em série: o artista pinta uma a uma, o que as torna peças únicas. Não sei ainda o preço, mas deve ficar em torno de R$ 35,00. Encomendas no bruno.nago@yahoo.com.br. Eu, que tenho na sala de casa um Cartola pintado por ele (depois pendurarei acá uma foto da reprodução da capa de Verde que te quero rosa) e em breve andarei com este Cartola aí no peito (como padrinho da iniciativa a primeira tinha que ser minha, né?), já encomendei-lhe um Leminski.

Em breve Bruno Galvão montará um blogue para expor sua produção, que não se restringe a camisas e telas. Ele também desenha, grafita e aceita convites para trampos na área, oficinas e quetais. Tão esperando o quê pra escrever pro hombre?