O rei da guitarrada

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

​Mestre Solano tem o acentuado sotaque paraense que coloca Hs depois de Ls (diz “elhe” em vez de “ele”, por exemplo) e que troca Ss por Xs. Ele visitou a sala de ensaios da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, ontem (19), num bate-papo mediado por Ricarte Almeida Santos, idealizador e produtor do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que traz o guitarrista à ilha. Usando chapéu, um enorme relógio dourado e grossos anéis idem, ele falou para uma plateia pequena, mas interessada.

Ainda criança, Mestre Solano aprendeu sozinho a tocar banjo. “Eu podia estar brincando do que fosse, com quem quer que fosse, quando papai pegava no banjo, e ele só pegava aos sábados e era coisa rápida, eu ia pra perto, fingia que estava brincando, e ficava olhando, prestando atenção na posição dos dedos”, lembra.

Quando o pai saía, ele pegava o banjo escondido. “A mamãe pedia para ele me ensinar, mas ele dizia que não, que música não dava futuro”. Um dia o pai voltou e achou-o tocando o instrumento. “A casa era grande, ele deu a volta e entrou por trás. Eu estava no quarto, a porta trancada. Quando eu vi a porta abrir, eu larguei o banjo. “Ah, és tu que está aí?”, ele me perguntou. E mandou eu continuar. Eu toquei mais um pouco, ele perguntou: “quem te ensinou?”. Aí mamãe gritou lá de fora: “quem ensinou ele foi Deus, eu pedi pra você ensinar, você não quis, Deus ensinou”.

Incentivado pela mãe, prestou concurso para o Corpo de Bombeiros, para sargento músico. “Você fazia o concurso, passava três meses num curso e já virava sargento. Eu não queria fazer, achava que não ia passar, aí mamãe disse: “ou você faz ou vai levar uma surra””, lembra da ocasião em que se mudou da Abaetetuba natal para a capital Belém e conheceu Pinduca, conterrâneo ilustre.

“Ele tocava bumbo e eu tocava caixa. Depois eu o ajudei a fundar a primeira banda dele”, relembra. “Foi nessa época do quartel que eu comprei minha primeira guitarra. Havia um presidiário que fabricava objetos e um dia o diretor do presídio me chamou e perguntou se eu estava precisando de algo e eu disse, uma guitarra. Dei todas as características, quero isso, isso, assim, assado. Ele deu lá o prazo e no dia marcado a guitarra estava pronta, exatamente como a descrevi. Até hoje me arrependo de ter vendido aquela guitarra, ela é vinho, parecida com a outra”, disse, referindo-se não a Ibanez que repousava em seu colo, mas à guitarra que deixou no hotel.

Mestre Solano lembrou-se de sua paixão por rádio, de como, em Abaetetuba, não conseguia sintonizar as rádios de Belém, mas conseguia captar as ondas vindas do Caribe. Daí ter se apaixonado por ritmos como a salsa, a cumbia e o merengue, todos, afinal, ao lado do carimbó, também nas origens da guitarrada, a qual demonstrou, na prática, do que se tratava, com exemplos diversos tocados em seu instrumento.

Elogiou o violonista Sebastião Tapajós, “talvez o músico brasileiro que mais tenha viajado para a Europa”. Tocou um choro de sua autoria, não revelou o título, mas a inspiração: “fiz para minha netinha, ela não ouve nem fala”. A mim parecia algo como se João Pernambuco compusesse tocando guitarra.

Aos 65 anos de carreira, Mestre Solano se apresenta em instantes, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande), acompanhado pelo Regional Caçoeira, no palco de RicoChoro ComVida na Praça, na noite que inaugura a temporada 2019, que terá ainda o DJ Franklin e performance poética com o mímico Gilson César. A programação é gratuita e tem início às 19h. Ao repertório de Mestre Solano não faltará o clássico Americana, regravado por, entre outros, Arnaldo Antunes.

RicoChoro ComVida na Praça estreia nova temporada com choro e guitarrada

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Mestre Solano é o convidado da primeira edição do projeto este ano; apresentações acontecem até novembro em diversas praças de São Luís

A estreia da quarta temporada de RicoChoro ComVida na Praça acontecerá dia 20 de julho (sábado), às 19h, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande). O projeto, idealizado e produzido por Ricarte Almeida Santos, segue firme no propósito de estimular o encontro entre diversas linguagens musicais brasileiras, entre o instrumental e o cantado. Este ano abre espaço também para a poesia.

O projeto é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Em 2019 RicoChoro ComVida na Praça terá cinco edições e acontece até novembro. Toda a programação (veja completa ao fim do post) é gratuita.

Outra novidade nesta temporada de RicoChoro ComVida na Praça é a parceria com a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo. Às vésperas das apresentações de convidados nacionais, haverá rodas de conversa com os artistas, que serão realizadas nas dependências da Emem. “Para nós é uma alegria estabelecer essa parceria. A Emem é um símbolo de qualidade na formação sólida de diversos talentos nossos. Por exemplo, os integrantes do Caçoeira, todos foram alunos da Escola de Música”, celebra Ricarte.

Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro
Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro

Ano Joãozinho – A partir deste ano, RicoChoro ComVida na Praça passa também a homenagear uma personalidade do Choro no Maranhão. Em 2019 o escolhido é o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que celebra 40 anos de carreira. Samba e choro são dois gêneros de destaque no repertório do artista, que, nos moldes do projeto, percorreu diversas comunidades da ilha de São Luís entre os anos de 2002 e 2003 com o projeto “Samba da Minha Terra”.

O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação

A primeira edição terá como convidados o DJ Franklin, desde sempre um dos mais requisitados da Ilha, e performance poética com o mímico Gilson César. “Eles ajudam a criar uma ambiência, um clima, mas são parte do espetáculo. Queremos que as pessoas curtam música, poesia, num exercício de vivência comum, ocupando espaços públicos, dando nossa modesta contribuição para os esforços de revitalização da cidade que têm sido anunciados”, comenta Ricarte.

O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação
O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação

O grupo anfitrião da noite será o Regional Caçoeira, formado por João Eudes (violão sete cordas), Lee Fan (flauta e saxofone), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), jovens virtuoses que há algum tempo ganharam notoriedade na cena musical da cidade, figuras fáceis em fichas técnicas de shows e discos de diversos artistas maranhenses.

A rede de pesca que empresta nome ao grupo alude ao passeio por diversos gêneros que o quarteto faz a cada apresentação, sobretudo mesclando o Choro a ritmos da cultura popular do Maranhão. Um balanço – para novamente lembrar do mar, do Maranhão – inigualável.

Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação
Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação

Choro e guitarrada – O grande convidado do sarau de estreia é Mestre Solano, o rei da guitarrada, direto do Pará. Ele lançou em setembro passado o cd “As guitarradas de um mestre”, em que, além do gênero que lhe dá título, passeia por cumbia, merengue, calipso, carimbó e bolero, entre outros. Aos 63 anos de carreira, com 17 álbuns lançados, o artista promete uma noite dançante.

“Americana” (Frank Carlos), também já gravada por nomes como Alípio Martins e Arnaldo Antunes, é seu maior hit, gravado por ele na década de 1980, na formação Solano e Seu Conjunto, e regravado no novo disco.

Mestre Solano nasceu em Abaetetuba – “terra morena de garotas de valor”, como canta o conterrâneo Pinduca –, onde ainda na infância começou a “arranhar” um banjo. Depois mudou-se para a capital Belém, onde ingressou no Corpo de Bombeiros, tendo sido músico da corporação militar.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto garante banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

Serviço

Sarau

O quê: estreia da temporada 2019 de RicoChoro ComVida na Praça
Quando: dia 20 de julho (sábado), às 19h
Onde: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Quem: Gilson César, DJ Franklin, Regional Caçoeira e Mestre Solano (Pará)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Roda de conversa

O quê: Roda de conversa
Quando: dia 19 de julho (sexta-feira), às 16h
Onde: Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Rua da Estrela, 363, Praia Grande)
Quem: Mestre Solano e Ricarte Almeida Santos
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Programação completa (sempre às 19h)

20 de julho

Local: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Grupo anfitrião: Regional Caçoeira
Artista convidado: Mestre Solano (Pará)
Dj: Franklin
Poesia: Gilson César

24 de agosto

Local: Praça do Letrado (Vinhais)
Grupo anfitrião: Mano’s Trio
Artista convidado: Chiquinho França
Dj: Pedro Dread Lock
Poesia: Mano Magrão

21 de setembro

Local: Praça Carlos de Lima (Lagoa da Jansen)
Grupo anfitrião: Quarteto Buriti
Artistas convidados: Paulão e Mila Camões
Dj: Victor Hugo
Poesia: Áurea Maria

19 de outubro

Local: Largo da Igreja do Desterro
Grupo anfitrião: Trítono Trio
Artistas convidados: Cláudio Lima e Célia Maria
Dj: Vanessa Serra
Poesia: Rosa Ewerton

9 de novembro

Local: Praça Gonçalves Dias (Centro)
Grupo anfitrião: Quarteto Crivador
Artista convidado: Messias Britto (Bahia)
Participação especial: Joãozinho Ribeiro (homenageado da temporada)
Dj: Joaquim Zion
Poesia: Celso Borges