Resistência e/m Liberdade

Resistência. Capa. Reprodução

Resistência é um título impactante: assim se chama o novo disco do Bumba Meu Boi de Leonardo, sotaque de zabumba, do bairro da Liberdade, como também é conhecido o grupo, um dos mais representativos e longevos – foi fundado em 1956 – da cultura popular do Maranhão.

O título pode ter várias leituras. A primeira é a própria manutenção do grupo do sotaque que tem origens no município de Guimarães – como também é conhecido o sotaque de zabumba –, após o falecimento de seu fundador, Leonardo Martins Santos, em 2004, aos 82 anos.

Mestre Leonardo. Foto: Márcio Vasconcelos

A segunda, a persistência em atravessar o atual momento político por que passa o país, em que o governo militar/izado elegeu artistas e produtores culturais como inimigos, com a extinção do Ministério da Cultura e a consequente diminuição dos recursos investidos na área – o Bumba Meu Boi de Leonardo é Ponto de Cultura desde 2010.

A terceira, o registro em si (após 12 anos sem um lançamento em disco): num tempo em que se alardeia a morte do cd físico, o grupo bota na rua seu quinto disco, produzido pelo percussionista paraense Luiz Cláudio, radicado no Maranhão desde o fim da década de 1970 – uma das razões de sua permanência foi a paixão despertada nele pelo grupo de Leonardo (que mantinha também um tambor de crioula), quando de sua chegada. O álbum físico vem embalado em belas fotografias de Márcio Vasconcelos, craque no registro de manifestações da cultura popular, Raileen Martins e João Maria Bezerra, e projeto gráfico de Ná Figueiredo. Cabe ressaltar que Resistência está disponível também em todas as plataformas digitais.

O Boi de Leonardo, pela qualidade, sempre despertou paixões, o que contribuiu para o engrandecimento do grupo, com raízes fincadas no bairro da Liberdade, muitas vezes estigmatizado como um bairro violento, mas um dos mais ricos e diversos culturalmente da ilha capital. O primeiro disco do grupo foi lançado em 1988, produzido pelo compositor Chico Maranhão.

Regina de Leonardo. Foto: divulgação

Ano passado a pesquisadora Marla Silveira, produtora executiva de Resistência, lançou Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018], resultado de sua dissertação no mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão. A obra aborda as estratégias para botar o boi na rua e o protagonismo feminino na manifestação: Regina de Leonardo, filha do mestre fundador, assumiu o comando do grupo após o falecimento do pai.

“O Boi de Leonardo tem uma tradição representada simbolicamente, pelo nome de um importante mestre da cultura popular brasileira, Leonardo, e, ritualisticamente, assegurada por todos os seus integrantes, que por meio dos rituais e dos movimentos, fazem deste Boi uma manifestação cultural de resistência e fé”, aponta Marla em texto no encarte do disco.

A gravação captou uma apresentação ao vivo na sede do grupo. A parceria entre o estúdio Deu na Telha Audio Lab (do guitarrista João Simas e do baterista Thierry Castelo Branco), com a gravadora paraense Ná Music (onde o disco foi masterizado) e o selo Zabumba Records, inventado por Luiz Cláudio (que assina produção e direção artística de Resistência) para resgatar e registrar manifestações da cultura popular, garante aos ouvintes uma experiência próxima de estar em uma apresentação ao vivo do bumba meu boi.

As 16 faixas registram, na ordem, as etapas da apresentação do boi: começa com as ladainhas rezadas pelo senhor Raimundo Monteiro, passando pela “reunida, quando os batuqueiros se reúnem na fogueira para afinar o couro dos tambores”; o “guarnicê, quando o grupo se prepara para iniciar a dança”; o “lá vai, aviso aos espectadores (assistência) que o Boi vai começar a dançar”; o “chegou, quando é anunciada a presença do boi no cordão (roda/terreiro); a partir daí são cantadas várias toadas livres; depois canta-se urrou, quando se festeja a ressurreição do boi; e a última toada é a despedida, quando o boi encerra a apresentação”, como ensina o texto de Marla no encarte.

Bumba meu boi raiz, o de Leonardo registrou o trabalho com músicos da comunidade, sem recorrer a contratação de músicos de estúdio, garantindo autenticidade ao material. As zabumbas são tocadas por Natan, Bruno, Nenem e Luiz Cláudio; pandeirinhos por Benilton, Zé, Paulinho, Joca, Manguera, Luiz Cláudio e Coelho; maracás por Luiz Cláudio e vocais de Regina de Leonardo, Ana de Burgé, Lilia e Wanderley (não é comum mulheres em vocais de grupos de bumba meu boi).

As toadas fazem um apanhado da trajetória do grupo, incluindo registros preciosos, resgatados de discos anteriores e remasterizados, das vozes do próprio Mestre Leonardo e Chico Coimbra, este na ufanista Terra de poetas, de sua autoria: “Por isso me sinto feliz/ vem gente de todo país/ pra olhar de perto/ o boi de São Luís/ olha, turista, o luxo desse guerreiro/ não paga nada pra ver/ nós temos o melhor folclore brasileiro”, diz a letra. Erros de concordância e prosódia entram na conta da licença poética e da autenticidade, tornando ainda mais verdadeiro o que ouvimos ali.

Regina de Leonardo faz um emocionante dueto com seu falecido pai em Chegou (Assistência que está na bancada): “o terreiro estava triste/ nesse momento se alegrou/ por que recebi uma mensagem/ lá de cima que Jesus mandou”, cantam.

Entre compositores e cantores também comparecem Zé Pretinho, autor de Chegou 2 (“São João já escreveu no livro/ que esse ano somos campeão”), e Carlinho Silva de Carutapera, autor de Mestre é mestre, comovente homenagem ao Boi de Leonardo, composta quando o batalhão completou 60 anos: “Mestre é mestre/ esse é o boi que Leonardo deixou/ infelizmente foi lá pro degrau de cima/ que Jesus Cristo levou”, diz a letra. E continua: “hoje ele brilha no bairro da Liberdade/ aonde é carinho e amor/ essa notícia se espalhou na ilha inteira/ dessa beleza que Regina cultivou”.

Mestre Zió. Foto: divulgação

Merece destaque ainda a presença, em composição e canto, de Mestre Zió (João Vieira), espécie de sucessor natural de Leonardo. Ele assina e canta em sete faixas do disco, incluindo a Despedida (Adeus), que se tornou hit por aqui quando Luiz Cláudio gravou-a em seu ep Encantarias [2017], com a participação especial de Zeca Baleiro. Ao final da faixa, um bônus instrumental demonstra a interessados a formação da polirritmia que marca o sotaque de zabumba.

Também é da lavra de Zió Batuque forte (Guarnecê), que bem traduzirá nos ouvintes a sensação de ter o Boi de Leonardo em casa, com o disco: “eu quero um batuque forte/ como o conjunto merece/ se é para ouvir de longe/ na hora que Liberdade guarnece”.

Serviço

O lançamento de Resistência acontece hoje, no primeiro ensaio aberto do grupo, na sede do Boi de Leonardo (Rua Alberto Oliveira, 150, Liberdade), com entrada franca, a partir das 22h.

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Ouça Resistência:

Tássia Campos: da periferia ao universo

Sobre Trilha sonora do universo, show de Tássia Campos, ontem (27), no Cine Roxy, na programação da 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes

Numa época em que só se ouve falar em política, Tássia Campos aponta a poesia na nossa cara

Tássia Campos sobe ao palco acompanhada apenas do DJ Franklin e sob uma base posta por ele manda ver num reggae em inglês. O músico – sim, em seu caso DJ é músico! – havia tocado antes de Trilha sonora do universo, o show da cantora na 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes, em cartaz pela cidade até o próximo 1º. de novembro.

O espetáculo aconteceu ontem, no Cine Roxy. Antes de entrar, comentávamos, minha esposa, eu e o amigo Celso Serrão – que há tempos não via – que este era um daqueles espaços cujo novo nome – Teatro da Cidade de São Luís – não vai pegar. A cidade está cheia de exemplos: a Escola Técnica (hoje IFMA, depois de ser CEFET), a RFFSA (Plantão Central da Beira Mar), o Circo da Cidade (Circo Cultural Nelson Brito) – esse não pega mais nem o velho nem o novo.

O público era bom, embora o Roxy não estivesse completamente lotado, mesmo com toda a programação da mostra sendo gratuita. Após o duo com o DJ, a banda atacou. E que banda!: Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Paulo (contrabaixo) e Moisés Mota (bateria).

Aos incautos, Trilha sonora do universo, o título do show, pode soar pretensioso. Não é: tem a medida exata de quem conhece o talento que tem sem soar arrogante, sua trilha sonora e seu universo particulares.

O repertório vai de Novos Baianos (A menina dança), Bob Marley (Is this Love?) e Sérgio Sampaio (Que loucura! e Cada lugar na sua coisa), artistas que ela homenageou este ano com tributos, em shows diferentes, a André Lucap (Intervalo), Celso Borges (Persona non grata, poema dele musicado por ela, que o apresentou acompanhada de Edinho Bastos ao teclado), Kléber Albuquerque (Logradouro, primeira gravação dela que tocou no rádio e lhe valeu o troféu de artista revelação no Prêmio Universidade FM ano passado), João Donato (A rã) e George Gershwin (Summertime, no bis), entre outros.

Nada óbvio, portanto. Nem na escolha, nem nos arranjos, que Tássia e banda se preocupam em mostrar cada música, mais ou menos conhecida, com uma nova cara, um novo som, um novo coração. Como disse quando, ao avistar um de seus compositores na plateia, ao cantar sua música: “Desculpa, Lucap, mas essa música é minha!”. É isso: Tássia é uma recompositora.

Nela, tudo é sinceridade. Ela que faz poucos shows por preferir se manter afastada do esquema “pires na mão” praticado por nossos órgãos de cultura, agradeceu ao SESC a oportunidade de estar ali e elogiou o alto nível de profissionalismo de toda a equipe envolvida para que a Mostra aconteça – apesar de este blogue ter ficado sabendo do show pelo Facebook da própria cantora, a assessoria de comunicação (do SESC? Da Mostra?) ou não está funcionando ou nos ignora.

“Eu tenho até camarim. Eu perguntei a um dos músicos: “será que isso tudo é pra mim mesmo?”. Um camarim com flores, frutas… a gente é tão acostumado a ser maltratado, que até estranha, se espanta quando é bem tratado”, revelou, entre a sinceridade e a ironia, sempre apertando o dedo em nossas feridas. “E eu ainda tou recebendo pra fazer isso aqui; geralmente eu pago [para fazer shows]”, riu.

Emocionada chegou a chorar ao lembrar o saudoso mestre Leonardo, uma das maiores personalidades do bumba meu boi do Maranhão, oriundo da Liberdade natal da cantora, bairro sempre mais lembrado pelo estigma e pelas estatísticas da violência que por sua riqueza cultural. “É um bairro pobre, mas é tão rico. Só na rua em que nasci, tem um boi, um cacuriá, um tambor de crioula, uma quadrilha”, enumerou. “Leonardo para mim era [como] meu avô. Eu era uma das poucas pessoas de que ele lembrava, já acometido pelo Alzheimer [lágrimas interrompem a fala]. Depois de 26 anos eu deixei a Liberdade, mas por causa dele [Leonardo] é que eu vou ser sempre periferia!”, anunciou antes de mandar os “ó aqui pra vocês!” no Punk da periferia de Gilberto Gil.

Sobrou até para a tal da lei seca: “Eles fazem merda e roubam quatro anos e nós é quem temos que ficar sem beber?”, perguntou, anunciando que iria, dali, caçar canto para infringi-la. Se os que já saíram de lá embriagados de tanto talento, beleza e poesia mereciam, imagina ela, que nos proporcionou aquela hora e pouco de muita magia.

p.s.: obrigado, Celijon, pela info do batera. Hora dessas quito minha ausência com a Satchmo.

p.s.2.: obrigado, Fafá, pela foto do Gleydson Nepomuceno que ilustra o post, roubada de teu facebook. 

p.s.3.: CB, depois que o Souza inchou no bucho não rolou estica, foi mal aê! Terça ‘tou no Odeon pra te ver/ouvir, o que ainda direi por aqui.

Começa amanhã

e vai até domingo que vem:

Programação completa (grátis, sempre a partir das 17h, exceto onde se indica horário diferente): dia 4 (domingo): ritual da morte do Boi, com participação do grupo de pagode Toque Maneiro > dia 5 (segunda-feira): derrubada do mourão, com morte dos bichos e apresentações culturais de grupos da comunidade > dia 6 (terça): feijoada, a partir das 14h, e apresentações de grupos culturais, a partir das 20h > dia 7 (quarta): som mecânico na sede do Boi e apresentações de grupos da comunidade > dia 9 (sexta): seresta com o grupo Os Manos > dia 10 (sábado): apresentação do Boi Brilho da Terra e Tambor que Amanhece, a partir das 23h > dia 11 (domingo): Festa das Torcedoras com seresta ao vivo com o grupo Os Manos.