Para que serve a UFMA?

FLÁVIO SOARES*

O professor Flávio Soares durante o encontro "Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira". Foto: ZR (17/6/2013)
O professor Flávio Soares durante o encontro Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira. Foto: ZR (17/6/2013)

 

“A crítica é a morte do rei”
(R. Koselleck, Crítica e Crise)

“A quem serve a UFMA?” poderia ser indagação mais precisa para título desse texto, nascido numa situação difícil de urgência pessoal.

Mas um infortúnio individual, sobretudo no trabalho, pode revelar ou confirmar aspectos mais amplos da pobreza e cegueira institucional onde se vive.

Às vezes, talvez, seja preciso sofrer o trauma no corpo e vivenciar o absurdo em série para perceber a presença fria dessa besta – em forma de incompreensão e miséria – na Universidade Federal do Maranhão.

Uma coisa é falar da “crise” em sala de aula ou livro; outra é sentir no osso sua crueldade numa UPA do Bacanga, nos corredores velhos de um hospital ou nos labirintos administrativos da sua própria universidade, em São Luís.

Por isso, o acidente também pode abrir brechas para reforçar questionamentos e reagir.

Até se precisar do ambulatório “HUzinho” pode se supor que ali seja uma “unidade de atenção à saúde do estudante e do servidor”. Não está escrito na placa? Até se ir à unidade Presidente Dutra do Hospital Universitário é capaz de se permanecer na incerteza ou ilusão quanto à existência por lá de um centro de referência qualificado. Não se ouve falar assim?

Existem sempre exceções admiráveis, mas absurdos e desacertos são normalidades no estado de emergência.

Aparecem de várias maneiras: na cena do velho cadeirante, dentro do hospital, apressado para ir ao banheiro, mas preso na porta porque a largura desta não lhe deixa entrar; na daquele senhor tentando marcar, sem êxito e há meses, simples consulta de poucos minutos; em outro necessitando e não conseguindo fazer cirurgia reparadora que já devia ter ocorrida há muito tempo; na imagem do rapaz humilde e trabalhador sofrendo num leito à espera da imediata ressonância que nunca acontece porque a máquina está quebrada; nos desencontros (propositais?) entre a direção e suas próprias decisões ou “bilhetes de recomendação”; nas imperícias da perícia; no médico – coronel do sistema – a atender apenas durante uma hora a cada semana.

Ao expor o domínio de práticas arcaicas e a exclusão do incluído, o acidente desvela a propaganda da “inovação e inclusão” pelo seu lado triste de horror e farsa.

Vozes solícitas surgem na urgência para lembrar a força de um “pedido do Reitor”, fazendo sentir o círculo do medo e da servidão voluntária que move as hierarquias em torno da Reitoria. O sinal transmitido é que o Reitor não é lugar do direito e sim do pedido; é mais negócio, portanto, cortejar o poder e seus favores.

Conclusão imediata: não há inteligência substantiva nem independência possíveis dessa forma.

*

Um parêntese sobre a questão da expansão da UFMA.

O problema nunca foi o seu crescimento em si, que mais ou menos sempre houve.

Com 30 anos nesta universidade (como aluno e professor) somos testemunha de que ela sempre cresceu, mesmo nos tempos difíceis do governo FHC, na década de 1990.

Não foram nestes anos a construção do atual CCH?

No período Lula, na última década, qualquer um pôde perceber o crescimento da UFMA, nas suas estruturas físicas e atividades básicas.

Difícil foi observar que essa expansão teve mais a ver com uma conjuntura de “falsa euforia” nacional – quando universidades federais cresceram no país inteiro – do que com méritos e virtudes de qualquer gestão competente e suas figuras iluminadas. Isto poderia até ser o caso se o aporte de recursos oriundos da adesão a programas federais emergenciais, como o REUNI, fosse canalizado para uma virada de página no destino da universidade, e não para a reiteração de um modelo superado (cf. Flávio Reis).

O problema, portanto, sempre foi o da natureza da expansão: autoritária, precária, desorganizada e de qualidade duvidosa.

*

É incrível, mas se partirmos do pressuposto de que deveria haver um mínimo de correspondência entre as situações da universidade e do estado, a observação imediata é de que quanto mais a universidade federal ampliou seu espaço físico e aparato técnico-administrativo e atividades de ensino, pesquisa e extensão, mais os índices sociais do estado foram para baixo.

Pois há décadas essa universidade diploma educadores, médicos, advogados, engenheiros, administradores, etc., e há décadas são sempre piores os índices estaduais da saúde, justiça, infraestrutura, serviços públicos, educação.

Há anos desenvolve programa de pós-graduação em políticas públicas, por exemplo, mas alguém se lembra de alguma política “pública” oriunda da UFMA – tocada mesma numa simples prefeitura?

Não é possível que só a UFMA melhore e o Maranhão não.

*

A emergência reitera a miséria e alienação universitárias.

Revolve a ferida de uma existência submissa, sem autonomia e, assim, sem movimento e pensamento próprios.

Certifica um fato: a Universidade Federal do Maranhão, principal lugar do ensino superior no estado, é incapaz de se pensar e, assim, olhar o Maranhão e o país.

Lembro José Ribamar Caldeira como exemplo significativo de um mestre inquieto com as dificuldades para a vida do pensamento, da crítica sem amarras e da inovação real, e pergunto: a professora Maria de Lourdes, da mesma geração, poderia escrever São Luís do Maranhão: corpo e alma (2012) dentro da cidade universitária?

*

No campo das ciências humanas, nas últimas décadas, apenas três estudos conseguiram fecundar alguma coisa para além de si, quebrando o círculo negativo da inveja e do silêncio. A Ideologia da Decadência, de Alfredo Wagner, esforço de repensar a tradição dos antigos estudos maranhenses, elaborado fora da UFMA, inspirador de várias pesquisas, inclusive na universidade; Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão, dissertação de mestrado de Flávio Reis feita pela Unicamp reavaliando a formação política do estado, cujo impacto, além de acadêmico, foi político (“oligarquia” virou mantra na guerra político-partidária); A fundação francesa de São Luís e seus mitos, elaborado pela professora Lourdes Lacroix quando aposentada da UFMA, questionando a construção da memória histórica da cidade e ferindo a fundo os nervos do sistema intelectual local. Academia Maranhense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e Sistema Mirante que o digam.

Tais obras fizeram figura de exceção especialmente quanto à amplitude do impacto interno gerado.

Outros livros, pela qualidade, poderiam ter tido efeito semelhante, mas não tiveram e não sabemos exatamente por que.

Apesar da divulgação, das festas de lançamento, do tamanho, dos prêmios e honrarias, não produziram discussão pública alguma. E nem adiantou apadrinhá-los com nomes de fora ou de dentro mais conhecidos, injetar valor antecipado pela invenção curricular de autoridade, copiar sem pejo as obras citadas invertendo os sinais, ou se fazer aparecer em algum periódico ou programa televisivo nacional (ou, agora, apelar pra rede “social”.). No máximo são discutidos entre pares e compadres; ou em situações de orientação de pesquisa e ensino, quando o orientador ou professor-doutor pressiona o aluno a ler suas obras ou então o próprio autor busca se promover, falando de si, pondo-se na bibliografia da sua disciplina e coisas do tipo.

20 anos de acúmulo de profissionalização, pós-graduação, grupos de pesquisas, etc., não foi bastante para fazer sair do Centro de Ciências Humanas sequer um estudo que se aproximasse (atualizando criticamente), por exemplo, da História do Comércio do Maranhão, não o título de uma coletânea, mas de um clássico local, escrito por Jerônimo de Viveiros na década de 1950; ou O Sertão, de Carlota Carvalho, escrito em condições mais difíceis ainda.

Mencionando tais obras queremos dizer o seguinte. Pode se concordar ou não sobre livros como História do Maranhão, de Mário Meireles, inclusive quanto ao seu baixo teor crítico, mas toda sua produção historiográfica foi representativa, a seu jeito, de uma ordem maior de problemas e ideias acerca da sua realidade.

Desgraçadamente, o Maranhão nunca foi prolífico em obras como estas (no sentido indicado da representatividade de uma ordem maior de problemas), que, no entanto, praticamente desapareceram desde que a UFMA surgiu, na aurora do regime militar e do Maranhão Novo (para não esquecer a hora macabra em que ela nasceu).

O ganho, quando há, é quase sempre quantitativo, apesar da estratégia midiática do poder universitário de vender gato por lebre – como se, por exemplo, a publicação de “x” artigos na revista “y” significasse em si avanço real do saber.

A questão, porém, está longe de ser simplesmente numérica. Se fosse já teria sido equacionada. Comparar, não a quantidade, mas a qualidade da produção anterior do conhecimento (reconhecida como tradição) à da universidade é brincadeira.

Fora qualquer juízo, a produção dos “antigos” inventou o Maranhão conhecido. A dos “novos”, especializada e técnica, consegue apenas ser miseravelmente medíocre.

É triste, mas perto de fazer 50 anos a Universidade Federal do Maranhão não vale uma frase do velho João Lisboa.

Fábrica de espíritos pequenos, servis e vaidosos, a universidade jamais reconhecerá isso.

A UFMA nunca foi fonte de qualquer campanha e debate realmente engrandecedor, formador da opinião pública no estado, em qualquer área (saúde, tecnologia, educação, etc.).

Poderia ter desempenhado papel direcionador em questões como a do desenvolvimento regional, da educação, do meio ambiente, da violência, ou até mesmo na elaboração de um ponto de vista original sobre o Brasil, mas isso nunca aconteceu.

*

É que o modo como na prática ela funciona é algo muito distante da vontade coletiva de superação dos problemas de sua trágica realidade por meio das artes, ciências e tecnologias.

Presa entre imitação pobre de modelos teóricos estrangeiros e idiossincrasias locais, a UFMA nunca passou duma aberração burocrática “colonizada”, dependente, cada vez mais reduzida à meio de transformar verbas federais em giro eterno dos recursos num balcão de negócios e troca de favores de todo tipo.

A combinação de burocratismo e orçamento não explica tudo, mas, em grande parte, ajuda a entender a situação.

Onde impera o toma-lá-dá-cá como estilo de gestão, aliado ao espírito do negócio, não há possibilidade para a vida do pensamento, da criação e da crítica.

*

Talvez as bases sociais e propósitos da UFMA possam ser realçados se pensarmos na história da principal universidade do país.

Todos sabem que no século XX, a partir da década de 1930, em São Paulo chegou a se criar uma verdadeira universidade – a USP – e um centro de ciência humanas (FFCL) que mudou o padrão nacional do conhecimento. Fruto da combinação entre influência estrangeira, sentido de engajamento social e tradição local viva (Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e outros), formou-se nova massa crítica, num contexto de transformações sociais profundas daquela região do país (cf. Antônio Candido, O mundo coberto de moços). Tal processo resultou numa instituição de saber efetiva, que fez escola no Brasil, embora hoje se assemelhe mais a uma organização empresarial (cf. Paulo Arantes).

Longe de ser fruto de uma história de superação crítica, onde se retoma, repensa e atualiza a herança cultural e intelectual recebida, a UFMA foi produto de um tipo de “renovação” baseada na justaposição de faculdades com histórias distintas, espécie de agregação de alhos e bugalhos, dada em consonância com a corrente política-ideológica estabelecida com o Golpe de 1964, fundamento de um organismo hoje cada vez mais indeterminado, caótico.

Por quê?

Porque a UFMA, na sua constituição, nunca deixou de ser fiel a velha conjunção entre igreja e sua teologia reacionária, estado oligárquico e sua burocracia patrimonialista, e tradição mental conservadora arraigada, bacharelesca, avessa ao espírito crítico; conjunção fortalecida, agora mais como simulacro de representação, com o progresso-catastrófico de uma sociedade senhorial e bárbara na etapa final do nacional-desenvolvimentismo brasileiro.

Medicina, direito e letras indicam bem a sua natureza.

Na área de humanas (principalmente nos departamentos de economia e sociologia), numa atmosfera de direita, surgiram reflexões de esquerda, sobretudo marxistas, mas frágeis, confusas, pouco criativas e sem expressão política dentro da universidade.

Até hoje é comum, no centro de ciências humanas, o fenômeno esquizofrênico dos professores bifrontes, vários oriundos das classes baixas, oscilando entre o público e o privado, entre a lei e a malandragem, entre discursos de esquerda em sala de aula e projetos de pesquisa para alunos, e a prática político-administrativa diária de direita para a reitoria da vez.

O atual governador – ex-aluno e professor de direito da UFMA -, fruto da queda do sarneismo e das lutas entre facções, talvez seja exemplo sugestivo de que não haverá o que esperar ou temer da parte dessa universidade, gestada dentro do mundo daquela oligarquia, quanto a qualquer capacidade de aproveitamento do momento para ajudar o Maranhão a se perceber e superar criticamente seus dilemas seculares.

Apresentando-se sob a graça de deus como expoente do primeiro governo comunista do Brasil, almeja chegar à terra prometida do “Maranhão de todos” através da fundação da república, da “revolução burguesa” e do capitalismo. Indicando a amplitude geral do atual pântano mental, onde tudo é possível, tal projeto-zumbi – repita-se: a criação divino-comunista de uma república burguesa capitalista no Maranhão – foi defendido a sério em jornais da província e do sudeste, sem provocar espanto algum. Nem lá e nem cá.

Se a construção de uma capacidade crítica própria tivesse vingado no Campus da UFMA – salvo ilusão retrospectiva, possibilidade talvez existente na virada da década de 1970 para a de 1980 -, não há dúvida de que a ideia de Maranhão hoje poderia não ser a mesma e os seus desdobramentos nas artes, ciências e na política seriam outros.

A palavra “crítica”, aliás, é impossível de ser compreendida nesse ambiente. Como se gosta de dizer, crítica só “construtiva”, o resto é “falar mal”.

Mas, quem sabe, ela não esteja se refazendo agora em outros lugares?

*Flávio Soares é professor do departamento de História da UFMA

[texto roubado do perfil do professor no facebook, onde o mesmo é anunciado como “ruminado e escrito no primeiro semestre de 2015, num momento pessoalmente muito difícil, mas que queríamos transformar numa forma de reflexão mais ampla, forma de registro e de luta. Saiu como um desabafo depois esquecido. Um amigo do facebook lembrou que hoje é aniversário da UFMA, dando um click”]

Cantos da jornada

O Ilumiara em apresentação no Sesc/DF. Foto: Rafael Carmona/ Sistema Fecomércio/DF
O Ilumiara em apresentação no Sesc/DF. Da esquerda para a direita: Leandro Cesar, Marcela Bertelli, Alexandre Gloor, Letícia Bertelli e Carlinhos Ferreira. Foto: Rafael Carmona/ Sistema Fecomércio/DF

 

Com mais ou menos um ano e meio de existência e um recém-lançado disco de estreia, o grupo Ilumiara abre a temporada maranhense do circuito Sesc Sonora Brasil 2015 em São Luís, hoje (12), às 19h, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita. O grupo se apresenta ainda em Caxias, dia 16 (quarta-feira), no mesmo horário, na Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc), também com entrada gratuita (veja programação completa ao final).

O grupo é formado por Alexandre Gloor (rabecas), Carlinhos Ferreira (percussão), Leandro Cesar (violão e marimba), Letícia Bertelli (voz) e Marcela Bertelli (voz), que conversou com o blogue.

“O Ilumiara surgiu como um grupo de pesquisa em música. Somos músicos, mas temos uma paixão muito grande pelas culturas populares, pela pesquisa. Já tínhamos, inclusive individualmente, um acervo grande de composições pesquisadas e a gente partiu desse trabalho, dessa pesquisa previamente realizada por cada um de nós”, revelou Marcela, sobre o processo de feitura de Ilumiara, o disco de estreia, e a participação no Sonora Brasil, cujo tema este ano é “Sonoros ofícios – cantos de trabalho”.

Ilumiara tem 12 faixas, que podem ser ouvidas no soundcloud do grupo. Entre os temas o Auto do fim de capina, Lavadeira, Toadas de remeiros, Canto do tropeiro, Machadeiros, Fiandeiras e Vissungo, com participação especial de Sérgio Pererê.

Além das pesquisas in loco dos próprios membros do grupo, seus integrantes levaram em conta o trabalho de importantes “desbravadores”, como Mário de Andrade [poeta, romancista, crítico literário e musicólogo], Oswaldo de Souza [compositor de obra fortemente influenciada por temas folclóricos] e Aires da Mata Machado Filho [filólogo pioneiro no registro de um dialeto crioulo falado por descendentes de escravos em Minas Gerais e vissungos – canto de trabalho exclusivamente utilizado por escravos mineradores de Diamantina].

Marcela também revelou a felicidade em integrar o projeto. “Participar do Sonora Brasil tem sido, desde o início, desde o convite, quando ele chegou, e até agora, mesmo circulando, de uma gratidão muito grande, de uma alegria imensa. Imagina, para um músico, poder circular o Brasil todo, 130 cidades, todo o território nacional, todos os estados do país. Isso para qualquer músico, apaixonado pelo Brasil, ligado à questão das culturas tradicionais do Brasil é de uma alegria gigante, uma alegria imensa”.

Com 18 anos, o Sonora Brasil é o maior projeto de circulação musical do país, tendo sido ampliado ao longo dos anos – quando o maranhense João Pedro Borges participou, ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, em 2009, por exemplo, eram “apenas” 80 cidades. Aos poucos a ideia foi sendo abraçada pelas regionais do Sesc no Brasil. A cantora elogia a preocupação do Sesc com os temas eleitos a cada edição: “o Sonora não está preocupado com a divulgação do trabalho dos artistas. É uma proposta de divulgação de um repertório, de certo tipo de música, de certo repertório para formação de público, de ouvintes. O que eu acho mais interessante é que não é uma formação localizada, é uma formação cultural, mais ampla. Por isso que o Sonora sempre busca essa relação com os temas, a música informada. Isso, para nós, tem um valor imenso. Não estamos circulando com o objetivo de divulgar o Ilumiara, mas de contribuir com essa formação de plateia, essa formação de ouvintes. Por isso é um concerto muito conversado, a gente conversa com a plateia, o repertório não partiu de uma necessidade de divulgar especificamente os nossos instrumentos, a nossa voz, mas foi todo pensado com esse objetivo também de contribuir para a formação do público”, disse.

O nome do grupo é uma palavra forjada, lapidada por Ariano Suassuna, saudoso autor de O auto da compadecida, entre outros. “Já tem um tempo que ele fala essa palavra, “ilumiara”, a gente tomou emprestada dele, pedimos autorização dele para usar essa palavra como trabalho. Iara é altar, é lugar sagrado, ligado também à questão das águas, dos rios, Iara como altar de beira de rio”, revelou Marcela.

“A proposta do Ilumiara é muito lançar luz, ilumiar, iluminar uma expressão da música brasileira, uma expressão da cultura brasileira na música especificamente. A gente percebe que tem uma função de lançar luz sobre um universo que a gente entende como sagrado, que está num espaço que expressa uma condição humana, que tem uma amplitude maior que a música em si. Os cantos de trabalho expressam uma vasta cultura do homem. Ele canta para dar sentido a algo muito maior, a uma necessidade, a um desejo muito mais amplo do que simplesmente projetar a voz em canto. A função dos cantos é determinada por outros fatores muito mais amplos. Então ilumiar, essa expressão, revelar aquilo de sagrado que ela contem, por isso Ilumiara”, continua.

O Ilumiara se distingue dos outros três grupos que percorrem o país nesta edição do Sonora Brasil, “por sermos músicos, artistas que fazem uma interpretação a partir de arranjos mais elaborados, uma instrumentação específica”, explicou Marcela. O grupo também trabalha a construção dos instrumentos, com as marimbas de Leandro César, além de uma ronda, instrumento inventado por ele, e quase todos os instrumentos de percussão feitos por Carlinhos Ferreira.

Ela não poupou elogios às formações que completam o circuito com o Ilumiara. “É importante destacar o Sonora Brasil como mostra de um repertório. A gente está abrindo a mostra aqui em São Luís, mas logo depois de nós vêm os outros três grupos de tradição: As Quebradeiras de Coco Babaçu, aqui do Maranhão mesmo, inclusive, que fazem parte de um grupo muito mais amplo, mobilizado nos estados do Pará, do Piauí e do Tocantins, as trabalhadoras da cultura extrativista; também as Destaladeiras de Fumo de Arapiraca, com o Mestre Nelson Rosa [mestre de coco de roda, patrimônio vivo do estado de Alagoas], um grupo maravilhoso, muito, muito bonito, muito criador do próprio canto; e As Cantadeiras do Sisal e mais dois aboiadores de Valente, na Bahia [Ailton Aboiador e Ailton Jr., pai e filho]. Eles carregam uma força, acho que muito maior que nós, pelo fato de serem grupos de tradição, serem grupos que realizam no cotidiano, a tarefa, o ato de cantar ligado àqueles ofícios que são expressos no canto deles”, revelou.

Sesc Sonora Brasil no Maranhão – Programação (sempre às 19h, entrada franca)

São Luís/MA, Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)

Grupo Ilumiara/MG, 12 de setembro
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 15
Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 17
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 19

Caxias/MA, Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc)

Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 15 de setembro
Grupo Ilumiara/MG, 16
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 17
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 19

Agenda Ilumiara

Setembro

14 Teresina/PI
18 São Lourenço da Mata/PE
19 Goiana/PE
21 Jaboatão do Guararapes/PE
22 Limoeiro/PE
23 Surubim/PE
25 Caruaru/PE
26 Belo Jardim/PE
27 Arco Verde/PE
28 Buíque/PE
29 Serra Talhada/PE

Outubro

1º Triunfo/PE
2 Araripina/PE
3 Carnaíba/PE
4 Bodocó/PE
5 Petrolina/PE
7 Fortaleza/CE
8 Sobral/CE
10 Iguatu/CE
11 Crato/CE
13 Juazeiro do Norte/CE
30 Gurupi/TO
31 Palmas/TO

Novembro

2 Barreiras/BA
4 Vitória da Conquista/BA
5 Jequié/BA
6 Santo Antônio de Jesus/BA
7 Feira de Santana/BA
9 Paulo Afonso/BA
11 Rio Branco/AC
13 Castanhal/PA
14 Belém/PA

Cesar Teixeira transborda poesia no vazio do Ceprama

[Sobre apresentação de Cesar Teixeira, ontem (3), no Ceprama]

“E o carnaval?” é pergunta que costumo ouvir e que tenho respondido com um “ainda não estou no clima do bumbumpaticumbumprugurundum”.

Depois de convidado para ir verouvir o Monobloco na Praça Deodoro, declinei. O grupo me interessa, tenho discos em casa, mas fujo de multidões.

Preferi ir verouvir Cesar Teixeira no Ceprama (ontem, 22h). Minha primeira saída “carnavalesca” em 2013. Ele o artista de quem seguramente mais vi shows na vida.

Ele que ontem fez uma apresentação quase perfeita. Mas o que não tirou nota dez foi o som, algo que lhe foge ao controle, impossível culparmos o artista naquele entra e sai do palco, as apresentações em sequência (grade), entram músicos (bandas) saem músicos, tudo tem que ser trocado muito rapidamente.

Este, aliás, outro aspecto do carnaval que precisa ser repensado, explico. Cesar Teixeira é exceção: fez uma apresentação de cerca de 50 minutos, com repertório completamente autoral, inédito e carnavalesco. Resgatou a nau catarineta (auto nordestino, catalogado por Mário de Andrade), do toré (ritmo indígena) e do baralho, além de frevos, marchas, marchas-rancho, sambas e até salsa, entre o bom humor, as homenagens (a Faustina e Rosa Papagaio) e a política (o congresso nacional sempre merecedor de críticas, piadas e avacalhação).

Os poucos que estavam no Ceprama puderam deliciar-se com um repertório original e diferente. Ou seja: em geral, o modelo sequencial das apresentações patrocinadas pelo governo em praças e quaisquer outros espaços públicos, acaba dando ao folião que se demorar por mais que um show por ali mais do mesmo: vários artistas cantarão e tocarão os mesmos clássicos carnavalescos que incluem aí de Moraes Moreira ao Bicho Terra, passando por Carmen Miranda e Chico Buarque, entre outros.

O Monobloco de graça na praça Deodoro, fazia o “carnaval da mistura” em horário próximo ao em que Cesar Teixeira fazia seu ótimo show para um Ceprama esvaziado, certamente não pela qualidade de seu espetáculo, em que ele se mostrava em plena forma artística, com repertório inédito, adequado ao período. Lá, no panteão sem bustos, o grupo carioca era escoltado pelos apadrinhados de sempre, cujos nomes mais se repetem nas programações oficiais. Perto da continência espúria o que significam qualidade e relevância artística?