Da Europa à Ilha

O grupo Quartabê se apresenta pela primeira vez em São Luís hoje (24). O show acontece às 21h30, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental – a programação de hoje na praça tem início às 19h e por ela passarão ainda os maranhenses DJ Pedro Sobrinho e Black & Tal, o paraense Lucas Estrela, além do Instrumental Pixinguinha, às 17h, na Feira da Praia Grande. A programação completa pode ser acessada no site do festival.

 

O Quartabê estreou em disco em 2015, com o ótimo Lição #1 Moacir, dedicado ao repertório de Moacir Santos. Este ano lançaram o EP Depê, também dedicado ao repertório do genial maestro pernambucano, com participações especiais de Juçara Marçal, MC Sofia, Tulipa Ruiz, Tim Bernardes e Arrigo Barnabé.

 

Após uma baixa – a saída da contrabaixista Ana Karina Sebastião –, Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete, clarone e flauta), Maria Beraldo (clarinete, clarone e sax alto), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano, o Chicão (teclados) acabaram de chegar de sua primeira turnê europeia. O agora quarteto passou por Alemanha, Áustria, Espanha, França e Portugal. Foram 10 apresentações em 22 dias.

“Rumamos para o Festival BR135, no Centro Histórico de São Luís do Maranhão! Primeira vez da banda no Estado! Estamos ansiosíssimos para chegar nessa cidade maravilhosa que é São Luís, num Festival lindão, DE GRAÇA, tão cheio de gente bacana tocando. Dia 24 (sexta)”, assim a banda anunciou sua chegada à ilha em um boletim distribuído por e-mail a seu fã clube.

Por e-mail a baterista Mariá Portugal conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O quarteto em foto de José de Holanda

Vocês estiveram recentemente em turnê pela Europa e gravaram um single na Alemanha. Como foi a receptividade do público? Este single aponta algum caminho para um novo disco?
Na verdade gravamos um single na Espanha junto com a banda Forastero, dentro do Projeto SON Estrella Galicia, depois de ter dividido o palco no El Sol, em Madrid. Já participaram deste projeto Anelis Assumpção e Tulipa Ruiz. Este single significou principalmente uma troca de vivência com a banda, o que é uma forma muito interessante de entrar no ambiente musical do lugar, bem mais profundo que apenas fazer um show e ir embora. Passamos um dia inteiro no estúdio e gravamos uma música deles, e eles uma nossa.

No primeiro disco vocês homenagearam Moacir Santos. O próximo disco seguirá a trilha das lições de um mestre? Quem será o homenageado?
Sim, já estamos preparando nossa Lição #2, que será novamente sobre um compositor brasileiro (que não podemos revelar por enquanto, mas quem for ao nosso show consegue adivinhar).

A Quartabê agora é um quarteto. Como é se adaptar à nova formação?
Sim, desde setembro somos um quarteto. Como agora não temos baixista, dividimos a função do baixo entre nós quatro – ora o Chicão faz o baixo com sintetizadores, ora Joana ou Maria no clarone com auxílio de pedais, ora eu faço no MPC. Estamos bem felizes com a sonoridade que conseguimos, que sai do formato tradicional de quinteto de jazz que tínhamos com a Ana Karina Sebastião. Creio que essa mudança abriu uma série de possibilidades estéticas bem interessantes, e que com certeza refletirão no Lição #2.

A ida de Joana para uma residência artística na Argentina ano que vem pode vir a modificar novamente a formação do grupo? Ou ainda não se pensa efetivamente nisso?
A residência da Jojô será de apenas duas semanas, mas a verdade é que já estamos acostumadas com o fato de nós quatro sermos muito ativas profissionalmente e termos projetos paralelos. Isso é uma das coisas que fazem com que a Quartabê seja a banda que é. Todos nós estamos bem empolgadas com as conquistas dos últimos tempos e a fim de fazer acontecer. Ao que tudo indica, 2018 será um ótimo ano para a Quartabê.

Vocês tocam pela primeira vez em São Luís. Quais as expectativas? Musicalmente, o que vem à sua cabeça ao ouvir falar no Maranhão?
Estamos super empolgadas! Sabemos da riqueza musical maranhense e que tem muita gente esperando pela Quartabê por lá. Musicalmente nos vêm muitos nomes como os de Mestre Antonio Vieira, Dona Teté, Papete, a geração de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, todo o mundo do Boi e do Tambor de Croula, toda a cena de reggae maranhense, Tião Carvalho, Lopes Bogéa… tantos outros. Pessoalmente, tenho uma história antiga com São Luís. Quando tinha por volta de 17 anos me hospedei junto com minha mãe na casa do percussionista Arlindo Carvalho. Aprendi muita coisa com ele e conheci vários outros músicos incríveis. Foi uma experiência inesquecível e transformadora.

E para além de musicalmente?
Arroz de cuxá, camarão seco com farinha d’água do Mercado Central e Guaraná Jesus!

Qual a base do repertório que vocês estão preparando para tocar aqui?
Será uma mistura dos nossos dois discos, Lição #1: Moacir e Depê (ambos dedicados à obra de Moacir Santos), com uma palhinha do Lição #2.

Você e Maria gravarão no próximo disco de Elza Soares. Para você, qual o significado de estar no sucessor de A mulher do fim do mundo?
Sem dúvida é um privilégio imenso. Nos dá a sensação de que estamos fazendo parte de um momento histórico. Só temos a agradecer.

Disco de estreia da Quartabê reverencia Moacir Santos

Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução
Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução

 

Nada na Quartabê é convencional. Nem o nome, nem a formação (quatro moças e um rapaz), rara no meio instrumental brasileiro, nem a acertada escolha do repertório do primeiro disco, formado quase completamente por composições do lendário compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista pernambucano Moacir Santos [1926-2006], intitulado justamente Lição #1 Moacir [2015], o que denota modéstia e humildade.

Descontração é fundamental e o nome do grupo surgiu de uma brincadeira entre seus integrantes: “Surgiu como uma gíria, porque nossos ensaios sempre foram muito bagunçados desde o início. Produtivos, mas com pausa pra youtube, piada e fofoca no meio. E a gente sempre dizia “nossa, essa banda é muito quartabê”, no sentido de sala de aula de escola”, revela a baterista Mariá Portugal.

Foi o homenageado o responsável por juntá-los: a Quartabê formou-se especialmente para o Festival Moacir Santos, realizado em 2014 no Rio de Janeiro. “A Quartabê é uma turma um pouco indisciplinada que está aprendendo a lição número 1 do professor Moacir Santos”, anuncia o perfil da banda no site que disponibiliza o disco para audição (gratuita) e download (pago). E não param em Moacir Santos as bênçãos a este quinteto instrumental (que também sabe cantar): Lição #1 Moacir foi gravado (e avalizado) no estúdio Comep por Ricardo Mosca, baterista do grupo Pau Brasil.

Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete e clarone), Maria Beraldo Bastos (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria), Ana Karina Sebastião (contrabaixo elétrico) e Chicão (piano e teclados) reverenciam o mestre sem se contentar em simplesmente executar peças de sua lavra. Tampouco a Quartabê se limita ao repertório mais fácil ou óbvio (se é que isso existe) de Moacir Santos: de suas Coisas, por exemplo, somente as de números 3, 8 e 5, nesta ordem, figuram no disco.

Há no registro espaços para o improviso e para o diálogo da obra “moacirsantosiana” (título de uma das faixas, Moacirsantosiana 10, de Maurício Carrilho) com a de outros nomes, explícita ou implicitamente. No primeiro caso, por exemplo, João de Barro e Antonio Almeida, autores de A saudade mata a gente, gravada na mesma faixa de When it rains [Brad Mehldau]; no segundo, Arrigo Barnabé (cuja banda Claras e Crocodilos é integrada pelas moças da Quartabê) e o Grupo Rumo, expoentes da vanguarda paulistana, no trato instrumental dado pelo quinteto aos 12 temas escolhidos para sua estreia. Com vocais, a vinheta Chamada evoca o clássico Clara Crocodilo [1980].

Difícil (e desnecessário) rotulá-los, pela abordagem inusitada. Não poderia ser diferente em se tratando de uma homenagem, justa e merecida, a um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos – embora menos falado e reconhecido do que deveria, quase praxe por estas plagas. Influência de Tom Jobim e João Gilberto, professor de Baden Powell, Eumir Deodato e João Donato, Moacir Santos certamente aprovaria os resultados obtidos por estes alunos, acima da média.

Aplicados, Mariá revela já estarem pensando na segunda lição: “vamos escolher outro professor, não sabemos qual. Mas ainda este ano pretendemos gravar um EP com mais músicas do Moacir”, adianta.

Ouça a Quartabê em Oduduá (Moacir Santos), faixa que abre Lição #1 Moacir: