A repórter e a cidade

Cidade espanto. Capa. Reprodução

 

Impressiona a maturidade e o pleno domínio da linguagem de Clarissa Carramilo em seu romance de estreia, Cidade espanto [Editora Oito e Meio, 2018, 94 p., R$ 36,00]. A escritora prova já ter nascido pronta, presenteando os leitores com um enredo bem urdido, em que várias tramas se cruzam, sem perder a mão ou exagerar.

O título refere-se ao fato de a cidade de São Luís ser personagem – o parágrafo inicial, por exemplo, dialoga diretamente com o de O mulato (1881), de Aluízio Azevedo.

“Os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção”, adverte a autora, como de praxe, mas ficção e realidade convivem na escrita ousada da autora, que mete o dedo em diversas feridas abertas, bastante conhecidas pelos que habitam a capital maranhense – mas que, no entanto, não tornam a leitura mais difícil ou menos desagradável para gente de outras plagas.

Clarissa Carramilo se vale de suas experiências profissionais para inventar personagens – ou apropriar-se delas –, inclusive a cidade de São Luís.

Antonela Azevedo, a protagonista, um alter ego da autora, é repórter destemida, que deixa claro de que lado está, sem tornar sua literatura algo panfletária: comprometida com a defesa dos direitos humanos, contrária ao golpe político-jurídico-midiático que destituiu do poder a presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff, que ousa peitar os patrões pelas coisas e causas que acredita.

Jornalista de formação, a escritora tira onda com a própria profissão, apontando contradições aparentes que acabaram naturalizadas com o tempo: chefes que conhecem menos o ofício que seus subordinados, a ditadura dos textos curtos (pois leitor de internet só curte textão em treta de rede social), a interferência da ideologia dos patrões (os donos dos veículos) sobre a redação final, jornalistas que não leem, além das relações com a ansiedade e o álcool.

A autora equilibra-se ainda entre o thriller, cada capítulo batizado por uma mulher são os bastidores das pautas em que Antonela Azevedo se envolve, enredando também o leitor, e histórias de amor, contadas ou vividas.

Serviço

Autora e obra em uma das paisagens do romance. Foto: divulgação

Clarissa Carramilo lança Cidade espanto amanhã (5), às 19h, na Livraria Leitura (São Luís Shopping). A noite de autógrafos contará com bate-papo da autora com a escritora Camila Chaves e a jornalista Bruna Castelo Branco. A obra foi selecionada pelo Edital de Apoio a Publicação de Obras Literárias da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

Por dentro do boi, para além do espetáculo

Nas entranhas do bumba meu boi. Capa. Reprodução

 

Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018, 112 p.; R$ 25,00, à venda na Banca do Dácio (Estacionamento da Praia Grande) e na Feira da Tralha (Edifício Colonial, próximo ao Teatro Arthur Azevedo)] é justamente o que o título anuncia: um mergulho visceral nos bastidores de um dos mais tradicionais grupamentos da manifestação cultural: o Boi da Liberdade (ou de Leonardo).

Publicado com apoio da Fapema, o livro é a dissertação de mestrado da autora, Marla Silveira, em Cultura e Sociedade, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Um texto leve, agradável e em certas passagens bem humorado, para ser lido dentro e fora do ambiente acadêmico, por interessados, apaixonados e curiosos em geral.

Além do próprio convívio da pesquisadora com o grupo ao longo de vários anos, Marla se vale de teóricos da cultura popular – destaque para a saudosa Maria Michol Pinho de Carvalho – e da administração para compreender as dificuldades e estratégias para “botar o boi na rua”, suas relações com o sagrado e com instituições públicas e privadas, mantendo-se fiel às tradições, num tempo em que a “modernização”, para inglês ver, é quase uma exigência.

O Boi de Leonardo (ou da Liberdade) foi fundado em 1956, como pagamento de uma promessa de seu fundador a São João. É do sotaque de zabumba ou Guimarães, município litorâneo de origem do mais antigo dos sotaques de bumba meu boi.

A herdeira – e atual ama do boi – Cláudia Regina Avelar, quinta filha de Leonardo Martins dos Santos (1921-2004), acompanhou os passos da manifestação desde a infância, mas de longe. Nunca havia dançado no boi ou no Tambor de Crioula Poderoso Padroeiro (a outra manifestação que integra esta Sociedade Junina).

Com a morte de seu fundador, ela assumiu a direção, num processo cheio de percalços. Não faltou quem a acusasse de “salto alto”, de prever que ela acabaria com o que o pai construiu ou mesmo que estava ali apenas para ganhar dinheiro. Nas entranhas do bumba meu boi é também uma história de empoderamento feminino e superação de preconceitos.

O livro de Marla demonstra também que o Boi de Leonardo é um dos mais organizados do Maranhão, apto a receber e movimentar recursos públicos de qualquer esfera – é Ponto de Cultura, através de convênio firmado com o Ministério da Cultura (MinC) –, servindo de exemplo a outros grupos, sobretudo de um sotaque erroneamente tido como menos importante, já que supostamente menos atrativo a turistas.

Entre uma visão mais “conservadora”, “dos tempos de Leonardo”, quando o boi era mais fechado com base na opinião “dos antigos”, e a atual, que dialoga com ferramentas da modernidade e com a juventude, o reconhecimento do esforço de se manter viva uma tradição, da qual muitas vezes conhecemos apenas uma nesga que descortinamos por entre 40 minutos e uma hora – tempo médio de uma apresentação num arraial.

Serviço

O pré-lançamento de Nas entranhas do bumba meu boi acontece hoje (31, sábado de aleluia), às 22h, no Ponto de Cultura Boi de Leonardo (Rua Alberto de Oliveira, 150, Liberdade).

O lançamento acontece dia 4 de maio, às 19h, durante a reinauguração do Memorial Cristo Rei (Praça Gonçalves Dias, Centro).

O embaixador

Foto: Rose Panet

 

Radicado há mais de três décadas em São Paulo, onde mantém as tradições maranhenses com o Bumba meu boi de Cupuaçu, no Morro do Querosene, o que lhe ensejou o merecido título de cidadão paulistano, outorgado há alguns anos pela Câmara Municipal da capital paulista, Tião Carvalho, maranhense de Cururupu, subiu ao palco do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), ontem (23), para um show em que passeou por repertório autoral e clássicos de autores maranhenses.

“Muito obrigado pela presença de todos vocês”, agradeceu Tião, reafirmando o prazer de cantar no Maranhão, para maranhenses, após abrir sua apresentação com Dona tá reclamando (Domingos Minguinho), gravada pelo Cupuaçu em Toadas de bumba meu boi [Núcleo Contemporâneo, 2000].

Tião estica sua presença na ilha: ele veio participar do desfile do bloco Bota pra moer, na segunda-feira gorda de carnaval (12), capitaneado pelo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, em cujo Radiola em transe, disco mais recente da dupla, sua A menina do salão dialoga com A mulher mais bonita do mundo (Tião Carvalho), lançada por Tião em seu solo de estreia, Quando dorme Alcântara [Por do Som, 2003], também presente ao repertório de ontem. Além de ontem no Buriteco, ele anunciou nova apresentação na próxima sexta (2 de março), às 22h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro).

Quando cantou De Teresina a São Luís (João do Vale e Helena Gonzaga), a flauta de Zezé Alves puxou O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos) como incidental. O flautista deixou seu microfone às pressas para salvar o óculos – que Tião Carvalho carregou mas não usou durante o show –, de ser pisado, enquanto o músico trocava o cavaquinho pelo triângulo.

A banda se completava com João Simas, que tocava sua guitarra com as pernas em posição de lótus na cadeira, a gaúcha Mariele Costa (percussão) e Erivaldo Gomes (percussão) – este o único abrigado ao lado de Tião no pequeno tablado do Buriteco.

Com um disco inteiramente dedicado à obra de João do Vale [Tião Canta João, Por do Som, 2006], o pedreirense foi dos mais presentes ao set list da noite: Baião de viola (João do Vale e Flora Matos) evoca as belezas (e de forma poética as misérias) de sua cidade natal, trazendo em si a típica sabedoria que lhe valeu o epíteto de “poeta do povo”.

Quando cantou a toada Itamirim (Chico Saldanha), Tião lembrou-se que foi ele quem gravou a música no elepê de estreia de Chico Saldanha, de 1988. “Se não me engano é Itamirim o nome do elepê”. O disco leva apenas o nome do compositor, mas o equívoco é compreensível: a última faixa do lado A foi o maior êxito do disco e é, até hoje, um dos maiores da carreira do rosariense.

Tião cantava e contava histórias: o samba Pantanal (Tião Carvalho) alude a um bar que frequentava, e Canção de ninar (Tião Carvalho), que começa como anuncia o título e torna-se um samba, foi feita para sua filha, “quando ainda estava na barriga”.

Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça), com seu refrão envolvente, botou o público para acompanhar nas palmas, um dos grandes momentos do show – não foram poucos. Quando dorme Alcântara (Tião Carvalho) evoca outro bar, em São Luís, onde Tião e uma turma iam tocar e à meia noite viam as luzes da cidade, do outro lado da baía, se apagarem, quando o gerador era desligado, à época. Invariavelmente ouvia-se o comentário: “Alcântara dormiu”. “Com essa música eu participei do último grande festival promovido pela Rede Globo. Estive em três, primeiro acompanhando Giordano Mochel, depois acompanhando Ubiratan Sousa, e por último já com uma música minha”, contou, revelando parte da nobre linhagem artística a que pertence.

Cantou o Fogo de palha de Josias Sobrinho. Quando lembrou que dele havia gravado Dente de ouro em Quando dorme Alcântara – à venda ontem, bem como Tião canta João –, o público pediu o clássico. “Não estava no roteiro, mas nós vamos ter que fazer”, nem Tião nem a banda titubearam e o público cantou junto.

De sua irmã Ana Maria Carvalho, parceira do Boi de Cupuaçu, trouxe Até a lua, que emendou com Lua cheia (Bulcão e Godão), clássico de outro boizinho, o Barrica. O passeio musical de Tião foi até Cajapió (Erivaldo Gomes). Na sequência atacou com um medley de inéditas: Coco da minha sinhá (Tião Carvalho) e Coco das meninas (Graça Reis).

“Vamos fazer a saideira, lembrando essa figura que foi muito importante pra minha carreira, é pra mim uma espécie de madrinha musical. Todas as gravações que ela fez dessa música”, começou, referindo-se a Cássia Eller, que popularizou o samba Nós (Tião Carvalho).

Aos insistentes pedidos de “mais um”, Tião virou-se para a banda, sinalizando que atenderia. A noite foi fechada com um medley de João do Vale: Uricuri (Segredos do sertanejo) e Carcará, ambas em parceria com José Cândido.

Embaixador da cultura popular do Maranhão em São Paulo, onde vive, e por onde andar, ontem Tião Carvalho contrariou o dito popular: santo de casa faz milagre, era o que atestavam os rostos satisfeitos do público, mesmo a parte que ficou em pé, na calçada, do lado de fora do Buriteco.

Rita Benneditto: uma artista em constante reinvenção

Foto: Márcio Vasconcelos

 

O público maranhense tem reencontro marcado com Rita Benneditto na próxima sexta-feira (8), aniversário de São Luís, ocasião em que a artista fará um show dentro da programação do Governo do Maranhão pelos 405 anos da capital. Ela sobe ao palco do Espigão Costeiro da Ponta d’Areia às 21h.

Como seu conterrâneo Zeca Baleiro, Rita também está completando 20 anos de carreira fonográfica em 2017: seu primeiro disco foi lançado em 1997, com produção dele e Mário Manga (ex-Premeditando o Breque), e repertório que incluía Antonio Vieira, Carlos Careqa, Márcio Greyck e Vital Farias, entre outros.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, por telefone, ela comentou o repertório do show, o início da carreira, influências, a importância do Maranhão em seu fazer artístico, as parcerias com Jussara Silveira e Teresa Cristina, novos projetos, a mudança de nome artístico e, assunto inevitável nestes tristes tempos, política.

Foto: Marcos Morteira

Você é uma das artistas maranhenses mais bem sucedidas nacionalmente, ao lado de Alcione e Zeca Baleiro, mas por outro lado faz poucos shows por aqui. A que você acha que se deve essa ausência e qual a sensação de reencontrar o público maranhense numa ocasião como o aniversário da capital do estado?
Eu lamento muito que eu vá muito pouco a São Luís, que é a minha terra. Eu acabo tendo que concordar quando muita gente diz que santo de casa não faz milagre [risos]. Eu gostaria de ir sempre, uma ou duas vezes por ano, no calendário de festas de São Luís. É meu porto seguro, é o lugar onde eu comecei, são minhas referências, onde eu formatei toda minha história. Eu tenho um trabalho de pesquisa muito grande com a cultura popular brasileira, e especialmente a cultura do Maranhão. Eu sempre digo em qualquer lugar onde eu vou, que o Maranhão, junto com Pernambuco e Bahia, é a tríade máxima do Nordeste e da cultura. É o alicerce, por que as tribos africanas, o povo africano, o povo que se deslocou para essas regiões, o povo negro e ameríndio, tem um poder muito grande, concentrou um poder muito grande e estabeleceu uma cultura muito forte. Mas geograficamente o Maranhão se prejudica um pouco, por que não está muito próximo desses eixos aqui onde as coisas normalmente funcionam mais. Eu lamento muito que eu não consiga. Quando eu vou eu tento fazer um show no teatro, as pessoas acabam nem indo, meu ingresso custa 80, 60 reais, elas querem pagar 400 reais num desses caras aí. O Nordeste tem uma cultura popularesca muito grande, um consumo de sofrência e popozão [risos], eu não tenho como questionar, eu tenho um trabalho específico. Eu lamento que eu vá muito pouco a São Luís, eu me ressinto disso, mas tá tudo bem, a gente quando vai, vai feliz. Minha expectativa, sempre que eu vou, é maravilhosa, por que eu vou encontrar o público maranhense, eu vou fazer o melhor de mim cantando coisas minhas, coisas da minha terra, ainda mais quando é uma festa tão especial como o aniversário da cidade, por que concentra um número maior de pessoas, é público, é de graça, de graça entre aspas, por que nós pagamos impostos [risos].

Falando nisso, o que o público pode esperar em termos de repertório? Que banda te acompanha? Fale um pouco do show.
Na verdade eu tou com uma banda agora um pouco reduzida, um trio, power trio mesmo, bateria, baixo e guitarra. É o Ronaldo Silva, que é filho do Robertinho Silva, que é um grande músico, percussionista, baterista, o Pedro Dantas, que é meio maranhense, carioca, foi criado aí no Maranhão, é baixista, toca hoje com a Lucy Alves, com a Vanessa da Mata, garoto novo e muito bom, e o Fred Ferreira, que é guitarrista aqui do Rio de Janeiro, está comigo já há um tempão, faz a direção. Eu reuni na verdade músicas de vários de meus trabalhos, não dá para fazer tudo, é apenas um show, tem outras atrações, o espaço dos shows serão divididos entre as pessoas que vão se apresentar [além dela sobem ao palco Carlos Gomes, Cláudio Fontana, Criolina e Tom Cléber]. Eu reuni canções de meus discos anteriores, Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, Divino, que é meu com Zeca Baleiro, tem De mina, de Josias Sobrinho. Eu quero cantar Ilha bela, tem um tempão que eu tenho vontade de cantar, que é do Carlinhos Veloz e ele faz uma homenagem linda a São Luís do Maranhão, Tambor de crioula, de Oberdan e Cleto Jr., as coisas do Tecnomacumba, que todo mundo curte e gosta, Cavaleiro de aruanda, Moça bonita, Deusa dos orixás, estou pensando em fazer um reggae mais clássico, o Police and thieves, que foi um dos primeiros reggaes que eu ouvi, do Junior Murvin, quando eu morava na Cohab. Eu reuni várias coisas, quero fazer um show dançante, a gente vai estar na rua, na beira da praia, quero fazer uma festa bem legal. Vai ter reggae, vai ter macumba [risos], vai ter balada. Eu espero agradar meu público maranhense, eu não tenho o que dizer, nem reclamar, eu me sinto muito bem recebida pelo público do Maranhão. Mesmo indo pouco aí eu sei que as pessoas gostam de meu trabalho e a gente tem que ir na luta, fazendo, trabalhando, sempre com amor e alegria.

Tua carreira começa colada com Zeca Baleiro, vocês lançam os discos de estreia juntos, o teu primeiro produzido por ele com o Mário Manga, mas passado algum tempo vocês se descolam. Foi um processo natural esse afastamento? Ou é um afastamento só ilusório, vocês não se afastaram? Como é essa relação, hoje?
A gente ficou muitos anos muito juntos, unha e carne. Eu sempre digo que eu sou a voz das canções de Zeca Baleiro [risos], e que ele é meu compositor, por que a gente tem realmente uma afinidade musical muito grande e também afetiva, nós somos do mesmo estado, a gente cresceu em São Luís. Eu acabei indo pra São Paulo, depois acabei convencendo-o a ir a São Paulo para morar, ele foi quem dirigiu meu primeiro show no Maranhão, o Cunhã, depois quando ele foi pra São Paulo ele acabou participando junto com Mário Manga da direção do meu primeiro disco. É uma pessoa extremamente presente no meu trabalho e eu tenho muito orgulho disso. Mas o tempo e o fato de ele ter ficado em São Paulo e eu ter vindo morar no Rio, isso naturalmente afastou a gente, afastou bastante. A gente tem pouco contato, porém, sempre que a gente tem contato é sempre amoroso, é sempre com afeto e boa memória das coisas. Agora mesmo ele me convidou para participar aqui de uma noite de forró que teve na Fundição Progresso. Foi ótimo nosso reencontro, a gente cantou várias músicas juntos. Sempre que a gente pode estar junto, a gente está, mas não mais como era antigamente, aquela coisa bastante presente e constante como era no período em que a gente se conheceu e no período em que eu morei em São Paulo. Acho que é natural, ninguém se perdeu, mas ninguém está mais tão próximo, a vida vai seguindo, a gente com ela, e as coisas vão mudando naturalmente. Mas eu tenho muito amor e muito respeito a Zeca, ao trabalho dele e tudo o que a gente viveu junto.

Ele acabou de lançar um álbum digital de duetos iniciando as comemorações de 20 anos de carreira, que é uma marca que você também atinge agora em 2017, do ponto de vista fonográfico. Vocês já tinham carreiras antes, mas o marco que se considera para efeito de comemoração, como ele me disse em uma entrevista, é o lançamento do primeiro disco. Você está preparando algum trabalho específico para celebrar este marco?

Encanto. Capa. Reprodução

Pra te falar a verdade eu nunca fiquei muito ligada nessa coisa de tempo. Tempo no sentido “ah, 25 disso, 30 daquilo”, acho que o tempo é muito relativo em relação a isso. Eu não gosto de demarcar esse tipo de tempo pro meu trabalho, tudo é tão cíclico, tão permanente e impermanente, que eu prefiro ir fazendo as coisas. Como hoje as mídias mudaram muito, os discos físicos quase não vendem, a gente está tendo que se desdobrar em formas de lançamento. Eu sempre tive como ponto forte de meus trabalhos os meus shows, os meus projetos. Por exemplo o projeto Tecnomacumba começou sem disco nenhum, só depois de três anos lançado que eu fui gravar o primeiro registro dele em estúdio. Ele durou 12 anos em cartaz, muito em consequência dos shows que eu fiz. Eu estou muito mais envolvida com os shows, os projetos de shows, do que necessariamente os registros disso, o disco. A produção é muito alta e acaba não tendo retorno do investimento. Mas a gente tem que estar lançando, sempre. Eu estou optando por lançamentos pequenos, de EPs ou single, não necessariamente um disco de 14 músicas. Estou com dois projetos agora em cartaz, o Zabumba Beat, que eu estreei aqui em São Paulo em agosto, que é uma reverência aos tambores do Brasil, de norte a sul, especialmente a zabumba, que é um instrumento africano que está presente em vários ritmos brasileiros, especialmente os ritmos do xote, forró, que junto com a sanfona e o triângulo formam a trindade máxima das festas juninas do brasil. Zaumba Beat por que de novo eu estou explorando os timbres eletrônicos, as possibilidades todas que a tecnologia pode nos dar, ressaltar o som original dos tambores, os couros verdadeiros, grandes, ancestrais. É um show que deu megacerto, além do Ronaldinho Silva eu chamei o Donatinho, que é o filho do João Donato para fazer toda a parte eletrônica, dos sintetizadores. E paralelo a isso eu também estou com um projeto chamado Suburbano Coração, que é totalmente diferente, sou eu e o maestro Jaime Alem, que foi maestro de Maria Bethânia durante muitos anos. A gente sempre quis estar junto, sempre quis fazer um trabalho nosso, e a gente se juntou em voz e violão, viola, são instrumentos de cordas. A gente estreou no circuito Sesi, agora está indo pra São Paulo, está começando a rodar. São dois projetos que eu estou bastante envolvida no momento. Paralelo a isso eu continuo fazendo o que eu hoje chamo de Tecnomacumba Encantada, por que eu juntei o Tecnomacumba com o Encanto, estou fazendo este show com os dois discos de carreira misturados.

Adorei os nomes dos projetos, Suburbano Coração e principalmente Zabumba Beat.
Eu abro o projeto com Urrou, de Coxinho, uma vinheta, depois engato ele no Mimoso, de Ronald Pinheiro. Eu vou costurando, minha ideia é ressaltar os ritmos. Mesmo que eu escolha músicas tradicionais, como músicas de Luiz Gonzaga, ou João do Vale, Coroné Antonio Bento, a ideia é ressaltar os ritmos brasileiros onde a zabumba é muito presente. Estou tentando com isso destacar mais a ritmia do Maranhão. As pessoas conhecem pouco a ritmia do Maranhão, por que o compasso do Maranhão é diferenciado do resto do país. Enquanto todo mundo trabalha em quatro por quatro, no Maranhão a gente trabalha em três [risos]. Todos os ritmos são ímpares, o tambor de mina, o divino, as pessoas talvez tenham dificuldade em assimilar um pouco isso. Parece besteira mas não é. Tem De mina, que é uma música que eu gravei no Encanto, de Josias Sobrinho, eu quis destacar justamente o ritmo do tambor de mina, mas eu gravei num gênero que é extremamente atemporal, que é o rock. Por que tudo é rock! Destacar isso de uma maneira sem perder o valor do ritmo, sem perder a força da mina, por que é tão rica a nossa ritmia do Maranhão, que eu não sei nem te dizer quanto. Então eu quero nesse Zabumba Beat destacar mais ainda o tambor de crioula, o boi de zabumba, aquele ritmo alucinante do sotaque de zabumba, de Pindaré, de uma maneira que possa chegar a todos os lugares do mundo. Não tou preocupada em ser purista, nem quero destruir o que é original, e o que é a célula mãe. Eu quero apenas destacar a ritmia do nosso estado que é fantástica.

O nome inevitavelmente me lembrou o Bumba Beat de Otávio Rodrigues, eu não sei se você lembra do programa de rádio.
Sim, eu me lembro. Me lembro muito disso, do Doctor Reggae e o Bumba Beat dele. Eu não podia botar Bumba Beat por que já tinha marca registrada.

Falar em marca registrada, você mudou o nome, há cinco anos, de Rita Ribeiro para Rita Benneditto, com dois n e dois t. Como é que você avalia essa mudança hoje, passados estes anos. Mudou algo na própria Rita ou foi só o nome artístico mesmo?
Menino, eu já assimilei, graças a Deus, muito rápido.

O público também, não?
Muita gente do Brasil, de vários lugares, ainda me conhece por Rita Ribeiro. Eu não entrei em nenhuma paranoia por isso. Eu não fiquei neurótica, nem reclamando. Me chamam de Rita Ribeiro, eu digo “olha, agora mudou”, na boa. Acho que tem tempo para ser assimilado. Acho que o que me deu muita força, me respaldou muito na mudança de nome foi descobrir que eu não tinha um público qualquer, eu tenho um público extremamente fiel a meu trabalho. Não é mais nem fã, é fiel mesmo. As pessoas estavam mais interessadas na minha música, na minha voz, do que necessariamente no fato de eu ter trocado o nome. Tem gente que “ah, eu preferia Ribeiro”, “ah, mas Benneditto tá lindo”. Eu acho maravilhoso, quisera eu há muitos anos já ter pensado nisso, por que é o nome que está dentro da minha história toda, meu pai se chamava Fausto Benedito Ribeiro, eu nasci na cidade de São Benedito do Rio Preto, aí perto dos Lençóis, eu sou devota de São Benedito, o preto velho das almas de angola, que eu reverencio na umbanda brasileira, e Benedito quer dizer abençoado. É um processo realmente lento, eu preciso cada vez mais ir enfatizando, mas já está tão assimilado, muita gente já me chama de Rita Benneditto, muita gente já se identifica, tanto é que meu próximo trabalho, quando eu resolver fazer um disco novo, eu não sei quando, vai ser Benedito seja, o nome.

Você tá ótima de títulos, hein?
[Risos] Ai, que bom! Rita Benneditto, Benedito seja, tem até música. Eu fiz uma brincadeira com um repentezinho com meu nome. Eu sei que é um processo, não foi fácil, construir uma carreira de 20 anos, com Rita Ribeiro e ter que mudar, você tem que ter muita coragem, muita segurança no que faz, e paciência para fazer essa transição. Graças a Deus eu tive tudo isso e depois de cinco anos eu posso dizer que estou cada vez mais Benedito seja.

A gente falou já um pouco de Zeca Baleiro, você citou no repertório que está preparando para o show nomes como Carlinhos Veloz e Erasmo Dibell, e agora nestes novos projetos o Ronald Pinheiro, o Coxinho. Antes de vocês saírem para São Paulo e você migrar para o Rio, aqui você trabalhou com gente como Cesar Teixeira, Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Eu queria que você comentasse um pouco a relação com estes mestres e apontasse outros nomes da música do Maranhão que você admira, respeita, reverencia, enfim, que são importantes para tua formação.
Olha, você já falou tudo. Na verdade esses caras são a minha escola, mesmo. Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira. É uma galera que eu tenho um grande respeito, são grandes mestres mesmo. Sem falar nos outros mestres, que são anteriores a eles, que são Mestre Felipe, Leonardo, Pai Euclides, e tantos outros mestres onde eu bebi na fonte. Eu tenho uma bagagem muito grande de coisas muito boas e ricas do Maranhão. Eu tive que sair da minha terra, infelizmente num período em que a gente não tinha muita opção de viabilização do trabalho local, por que, como eu te falei, geograficamente fica um pouco deslocado e a gente precisa circular. Mesmo o Rio de Janeiro sendo o caos que é, e é realmente um caos, as pessoas têm uma ilusão às vezes que o Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade onde tudo acontece, mas não é tanto assim. O caos impera aqui, é muita gente batalhando por seus espaços, mas é necessário, por que tá tudo muito próximo de tudo. Se você precisa de um contato, de viabilização de alguma coisa, as coisas acontecem, eu não sei te explicar. É uma dinâmica outra, natural, é uma cidade cosmopolita, é uma cidade com uma projeção mundial. Eu trago mesmo comigo, “trago no bolso um colar e uma bola de meia” [cantarola De Cajari pra capital, de Josias Sobrinho], eu trago essa referência muito grande, fica muito claro para o povo daqui o quanto eu sou reverente a estrutura musical da minha terra. A maneira que eu canto, meu canto é muito influenciado por esse compasso que eu te falei. Eu, por exemplo, gravando Encanto, eu gravei Santa Clara clareou, de Jorge Benjor, ela é uma música feita em compasso quatro por quatro, “Santa Clara clareooou” [cantarola], eu transferi pro ritmo da mina, o Benjor pirou, ficou enlouquecido com o arranjo, eu mudei o compasso dela, eu desestruturei para torná-la uma oração dentro do tambor de mina. A mesma coisa eu fiz com Água do Djavan, “água pra encher” [cantarola], que eu trouxe para o universo do divino espírito santo, eu tenho naturalmente uma forma de cantar diferenciada sob influência da ritmia do Maranhão. Por tudo que eu vivi, absorvi, por ter nascido aí, por ter esse negro dentro de mim, o negro maranhense, do Daomé, do Guajajara, por ter essa influência do nosso povo muito naturalmente na minha história. Como disse Itamar Assumpção, que fez uma música pra mim, tá na cara que tá no sangue. Então, esses caras me influenciaram muito, são mestres comprometidos com a palavra, com a poesia, são mestres que têm um compromisso com a história, sem falar nos poetas todos, maranhenses, que são fantásticos. Nossa terra é muito rica. Eu lamento ainda que não tenha havido uma projeção a nível nacional do poder cultural do Maranhão, de uma forma comercial, mercadológica, do nível de Pernambuco e Bahia, só pra dar um exemplo. O Maranhão tem um potencial absurdo, era para ter um calendário de atividades culturais durante o ano, era para ter um carnaval multicultural, um São João multicultural, era para ter um intercâmbio. Isso é só o que eu acho, eu não tenho fórmula para nada. Mas eu acho que a gente já deveria estar num nível, não só eu, Alcione e Zeca Baleiro, mas tantos outros com potencial tão grande quanto o nosso, ou até maior, que possa projetar mais ainda a nossa cultura, tornar o Maranhão mesmo um estado… o norte está se projetando absurdamente, com a referência muito do bumba meu boi do Maranhão, e a guitarrada, o tecnobrega, o norte está bombando no sul do Brasil, não é só o açaí não [risos]. E a gente precisa entender, precisa se unir mais, por que a Bahia funciona? Por que os baianos se juntam para projetar essa história toda pra fora.

Você falou em multiculturalidade e intercâmbio. Em sua carreira você já dividiu discos com Teresa Cristina e Jussara Silveira. Eu queria que você comentasse um pouco as dores e as delícias desses processos.
[risos] Quando a gente começa um projeto a gente tem sempre as expectativas de que ele seja o melhor possível, a gente quer, a gente acredita. As meninas são extremamente talentosas, cada um tem sua carreira. A ideia do projeto é minha, inclusive o nome, Três meninas do Brasil, meu pai tocava muito essa música pra mim, Meninas do Brasil, de Moraes Moreira [e Fausto Nilo], era eu e Teresa, a princípio, a gente acabou chamando a Jussara. Foi feito pela Manaxica Produções, que é meu selo fonográfico, produtora. A gente estava assim, aquela coisa, estávamos a fim de fazer. Ah, vamos fazer um disco de samba? Não, vamos fazer um disco que passe pela história do Brasil, contando coisas, referências minhas, de Jussara e de Teresa. Aí eu chamei o maestro Jaime Alem, foi meu primeiro contato com ele, nessa época ele estava envolvido demais com Maria Bethania, aí eu acabei envolvendo Maria Bethania na história, perguntei se ela não queria lançar o disco pelo selo dela, ela tem um selo chamado Quitanda na Biscoito Fino, o maestro fez a ponte, ela adorou o projeto, acabou que a gente gravou pelo selo dela. Foi um encontro feliz. A gente ficou dois anos só fazendo este projeto, a gente lançou o disco, fez shows, tinha sempre aquela dificuldade de conciliação de agendas, de cada uma ter seus projetos, sua carreira, acabava ficando conflitante, não casavam as datas, aí a gente resolveu encerrar. A gente já fez o disco, fez os shows, não conseguimos percorrer o Brasil todo, temos um disco aí lançado para a eternidade e um encontro nosso também marcado por um tempo. Foi muito bom. Depois eu gravei um outro disco com Jussara, lançado em 2014, chama Som e fúria, nós fomos para a Chapada Diamantina, é um disco surreal, sem comprometimento comercial nenhum, a gente queria fazer uma viagem pelos cantos matriciais brasileiros, onde a voz é o fio condutor, e a gente se meteu num sítio no Capão, na Chapada Diamantina durante 25 dias, produzidas por José Miguel Wisnik e Alê Siqueira, e saiu um disco assim que mais parece uma trilha sonora de um balé, de um filme. Eu particularmente gosto muito, uma viagem bem rica. Foi um desdobramento de meu encontro com Jussara, depois de Três meninas. Com Teresa a gente não realizou mais nada, com Jussara ainda deu esse fruto que é Som e fúria, a gente vai fazer show em novembro em São Paulo.

Além desse show no aniversário de São Luís, tua vinda te permite, dessa vez ou normalmente, passear, fazer coisas que você gosta no Maranhão? Em tua memória, o que você recomenda a turistas e nativos? O que não se pode perder em estando no Maranhão?
Eu sempre dou um jeito de ir e tentar ficar um tempo. Eu vou ficar uma semana, estou louca para ir aos Lençóis, ficar pelo menos dois dias, tomar um axé daquela terra, daquele vento, daquela coisa toda, daquele portal. Pra mim os Lençóis são um portal, é uma riqueza, uma maravilha do mundo. Aquilo é um portal mágico, transcendente, você vai ali você se revê em todos os aspectos, como ser humano, você se redimensiona em todos os aspectos. Isso é uma coisa que eu pretendo fazer, pretendo também matar minha saudade da minha juçara, do meu banho de mar marrom, encontrar meus amigos, eu tenho observado que São Luís está com um movimento cultural bastante intenso, o Samba da Fonte, o reggae lá na Praia Grande, as coisas estão se movimentando, as pessoas estão se mexendo. A gente nunca foi de esperar por governo nenhum, sem desmerecer governo de ninguém, a cultura maranhense sempre foi independente nesse sentido, as pessoas sempre se reinventaram, as festas sempre aconteceram nas suas fontes. Se eu puder ir à Casa Fanti Ashanti eu vou, quero ver minhas amigas que eu amo. Quero ver se eu encontro Joãozinho [Ribeiro], Cesar Teixeira, meus queridos que eu gosto muito de estar junto. Tanta coisa que eu gostaria de fazer, ficar com a família, a família é enorme, sempre tem um evento, sempre a gente quer estar junto. É pouco tempo para fazer tudo que eu quero, mas eu quero usufruir o máximo que eu puder da minha terra e recomendo a quem vá a São Luís conhecer a cidade, a cidade é linda, o Centro Histórico eu não sei como está agora, a última vez que eu vi fiquei muito triste, estava muito detonado, isso me angustiou, mas a cidade continua com sua magia. Todas as pessoas que vão ao Maranhão, a São Luís, que voltam e me falam, ficam extremamente encantadas com o lugar, com a energia do lugar. E olha que a gente sabe dos problemas todos que nossa terra tem, as dificuldades todas. Eu não entendo por que reelegeram esse prefeito, um homem que não tem compromisso nenhum com a cultura, que não se identifica, não estimula, nem tem cuidado com a cidade. São coisas que eu não tenho resposta, só tenho a lamentar quando vou e vejo que a cidade fisicamente está abandonada, um patrimônio histórico desses jogado, sem nenhum cuidado. Também sei que tem muitas coisas boas acontecendo e eu quero só pensar nas coisas boas e nas mudanças. Acho ótimo que a gente esteja com outra administração no governo, por que isso nos tira um pouco daquela aura de poder oligárquico, que a gente vinha há 40 anos, acho que a mudança de poder é importantíssimo, para que a gente possa ter a capacidade de escolha, de avaliação. Então, eu acredito muito na minha terra, no potencial de minha terra e quero poder, na medida do possível, com meu trabalho, com minha voz, levar o Maranhão, para onde eu for.

Ainda falando um pouco das paisagens, dos pontos turísticos. Não sei se vai dar tempo ou se você vai passar por lá, faltou um que você cantou, com Edvaldo Santana, em seu último disco, você fez uma participação especial, em Ando livre.
Ah, no [Bar do] Léo! Ah, eu quero ir. Você viu que música linda que ele fez? Linda aquela música, boleraço, maravilhoso. Eu falei: “cara, você fez essa música para eu cantar”. E ele disse: “foi”. E me botou pra cantar num tom altíssimo. Mas eu adorei, falei: “oh, que maravilha”. Mas eu vou lá sim, quero ir lá, inclusive para ouvir essa música com ele. Olha aí que lugar, que maravilha que São Luís tem, um lugar como esse. Aquele menino do Centro, também, como é?

O Chico Discos?
Chico Discos também, que figura! Como é que essa figura construiu esse espacinho tão especial? Por isso que eu digo que o maranhense se reinventa. As coisas não param, as pessoas estão em movimento, precisam estar em movimento para que as coisas aconteçam. Aí é que o governo, as pessoas percebem que o movimento aconteceu. Mas eu acho o seguinte: mesmo vendo a dificuldade que todos os grupos culturais estão tendo no Maranhão, eu vi isso num São João em que eu fui, acho que ano passado, eu ainda vejo que os mestres estão ali na luta, na guerra, na batalha, para manter suas tradições vivas, por que não pode morrer, não tem como morrer. A gente tem que manter isso vivo na memória e no corpo dos jovens de hoje, para fazer a coisa continuar. É um trabalho bonito, e ficar pra história. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão” [lembra o título da toada de Humberto de Maracanã].

Uma pergunta inevitável nestes tempos: você mora no Rio de Janeiro, onde a gente tem percebido de modo mais acentuado essa crise política e econômica, professores com salários atrasados, universidades correndo o risco de fechamento. Com que sensação você tem acompanhado ao longo do último ano e meio o noticiário político brasileiro?
Cara, eu acho que nós estamos vivendo uma era do cão. Caótica e, sei lá, extremamente negativa e trevosa. Eu não sei por que tanto retrocesso, eu não sei como é que a gente pode avançar e a gente avançou, e depois retrocedeu de uma forma tão bruta. Ficou tão evidente que nós fizemos realmente uma situação ainda de escravidão, de subserviência, de ditadura, e na verdade estava assim um pouco camuflado por alguma teia que a gente não conseguia ver, mas que na verdade está enraizada demais na estrutura política e social brasileira. Realmente o pequeno grupo de empresários, gente que domina, a corte, pode-se dizer assim, ela não quer abrir mão de nada pelo povo, ninguém está interessado no povo, ninguém está interessado na melhora do país. Você vê, um cara desses ainda estar no poder, diante de tantas acusações, diante de tantas evidências, é por que ele não está sozinho, ele está com uma corja de abutres do mesmo nível dele, sustentando o processo que está lá. O Rio de Janeiro foi o estopim da história, a cidade está caótica, a violência voltou como uma onda imensa, assustadora, um tsunami, a gente dorme com rojões, tiros, parece assim que a gente está num desses países tipo Iraque, ou coisa parecida. A gente não sabe o que está acontecendo. Eu, graças a Deus, nunca sofri, nenhum tipo de violência, eu vivo realmente, posso dizer, até um mundo à parte dentro do universo carioca, mas eu vejo como é que a cidade está depredada, no sentido da insegurança das pessoas, do medo, do desespero, da revolta, da impaciência, da intolerância. Ninguém tem tolerância com nada, as pessoas estão se agredindo no meio da rua umas às outras. Isso está acontecendo num nível nacional e universal, mundial. Nós estamos vivendo momentos de grandes tensões mundiais, o planeta está realmente num processo de transmutação, é doloroso. A gente é uma transição, estamos passando por este processo de mudança, que a gente não sabe onde vai dar. Eu, como sou uma figura muito espiritualizada, eu sempre penso no melhor, eu sempre penso que todo caos gera mudança e é uma mudança sempre positiva, mas o processo está sendo muito doloroso, pra nós artistas, então, a gente tem sofrido baque assim brutal, sabe? De viabilização dos projetos, verbas despencando, até o sistema Sesc, que é um dos maiores sistemas culturais do Brasil, despencou nos orçamentos, os empresários locais não têm mais estrutura para levar os shows, os cachês caíram horrores, o Ministério da Cultura é uma coisa que a gente não sabe pra que serve nem o que é. Sucatearam a cultura brasileira. Em nível de criatividade, nós também estamos um pouco perdidos, o que está predominando hoje no Brasil, eu não estou aqui condenando nada, mas é o funk, o sertanejo e o brega, é só isso que a gente vê. Isso está sufocando a outra parte criativa da música, especificamente da música, tem muita gente fazendo coisa legal, mas tem oportunidade nenhuma, condição nenhuma de levar adiante, sem estrutura. Realmente é um momento extremamente delicado, não sei o que vai dar, não sei como é que a gente não consegue tirar esse cara, eu não vejo solução de ocupação. Ocupação pra mim é entrar naquele congresso e tocar uma bomba.

Concordo.
É preciso inverter aqueles polos daquelas duas bacias, nada se justifica mais, a gente está se repetindo nas redes sociais, todo mundo “fora, Temer!, fora, Temer!, Temer, fora!”, e nada acontece, eles estão cagando e andando pra gente: “fodam-se vocês, nós vamos fazer o que a gente quiser, nós vamos aprovar leis que a gente quiser, nós vamos fazer e acontecer aqui e vocês não vão dizer nada”, e a gente não está dizendo nada, a passividade do povo brasileiro está num nível que a gente diz assim: “vamos pra onde, gente?” Eu não sei o que fazer, sinceramente eu não sei o que fazer. Tem horas que eu me sinto tão impotente. A minha maneira de protestar é através da minha arte, é através do meu canto, chamando a atenção das pessoas para o que a gente pode fazer juntos, o que a gente pode mudar, o que a gente não pode desistir, mas é pouco, é muito pouco diante da situação que a gente está vivendo, é nada. Eu sempre digo assim: “o palco é um palanque, o artista, um militante”. A gente tem que continuar resistindo, mas tá danado, tá puxado, tá difícil. E essa mudança estrutural da política, uma democracia em que você é obrigado a votar, eu não entendo isso, nunca entendi por que você é obrigado a votar em uma democracia, que gera esse bando de candidatos que na verdade são um bando de gente que vem pendurada em outros, só pra ocupar espaço, esses salários exorbitantes desses caras. Nem partidos de esquerda, que a gente já nem tem mais, se dignam a diminuir esse valor desses salários. Isso aí é um gasto absurdo para o povo brasileiro manter esses caras lá, no nível que eles vivem e usufruem. Cara, tudo errado! Universidades sucateadas, saúde sucateada, a dignidade do povo sucateada. Olha, eu realmente não estou com palavras muito boas para te dizer em relação a isso.

*

Veja Rita Benneditto em De mina (Josias Sobrinho):

Lula cá

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Luis Jorge Gonçalves dos Santos, 62 anos, responde minhas perguntas, nem vejo sua boca se mexer, oculta por uma enorme barba grisalha. É dessa semelhança física com o Lula roots candidato à presidência pela primeira vez em 1989, que ele ganhou o apelido que batiza a Barraca do Lula, há oito anos na Praça Deodoro – logradouro em que o maior líder político da América latina fez comício naquela campanha, com direito a show da banda punk Amnésia, que tinha Marcos Magah no vocal, mas isto é outra história.

Lula foi garçom, maitre de restaurante, camelô e feirante, “sempre na dificuldade”, qual o xará e sósia famoso. Quando pergunto se ele topa me dar uma entrevista rápida ele aperta minha mão e diz para deixar para uma próxima oportunidade. Espero-o atender uma moça de vestido azul que pede uma água de coco e insisto, tendo por mote a visita do presidente metalúrgico à Ilha amanhã. Ele topa e ligo o gravador por menos de 10 minutos.

“Meu pai morreu eu tinha nove anos de idade, fui criado por padrasto e caí na vida, estou aqui até hoje, graças a Deus. Minha vida é essa. Lula e Lula mesmo. Sempre votei nele e vou votar para sempre. Com muita emoção”, revela o evangélico hoje afastado da igreja, fanático pelo líder petista.

Lula é casado, tem cinco filhos, quatro netos e retira o sustento da barraca, ornamentada por frases como “se a sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”. Ele não tem cadastro em nenhum programa social.

Por que Lula? “Pela capacidade, trabalho, honestidade, é um homem direito, trabalhou para o pobre. Não existe outro presidente sem ser ele. Em primeiro lugar, Deus, depois ele. Lula é Lula. É indo e voltando Lula. Pode viver 10 anos, 20 anos, ele pode estar preso eu voto nele”.

Pergunto se ele participará do ato amanhã (5), às 17h, na Praça Pedro II, Centro. “Estou com uma esperança louca de ir lá. Vou falar com meu filho para ficar aqui amanhã. Nem que eu feche eu vou lá amanhã”.

Sobre o governo da sucessora, comenta: “A Dilma foi uma ótima mulher, o negócio é que se entregou pro Temer. A confiança foi tão grande nele que ele traiu ela, uma mulher guerreira”. Um homem aparece pedindo para trocar 50 reais. “Não tenho”, avia Lula, que já havia tido dificuldade para tirar o coco de 20 reais. “A esperança é essa, é que Lula volte e ela volte também”, continua. “Eu espero que Lula volte, em nome de Jesus. Ninguém vai tirar ele, não tem aquele tal de Moro. Por que ele não prende Temer, que é o chefe da quadrilha? Foi tudo descoberto, mas ninguém tem coragem de prender. O que Lula fez? Dar trabalho pra pobre, colocar negro na universidade, ter casa, ter seu carro, ter sua moto, tudo. Deficiente empregado, com seus direitos”, enumera.

E como Lula avalia o governo do ilegítimo? “Péssimo, daí pra pior. Não tem pra onde correr. Um homem desses já era para estar preso. Aqui no Brasil não tem lei. Por que Lula está hoje sofrendo? Por que é guerreiro, não se entrega, e não se entrega por que não deve. Isso é um meio de tirar o homem do poder”.

Golpe após golpe, desde o que apeou Dilma Rousseff do poder, comento a possibilidade de não haver eleições em 2018. O Lula da Deodoro vaticina: “Não tem pra onde correr. Tem eleição direta, já. E o homem é Lula. Não tem ninguém para botar frente a Lula”.

Pergunto se ele já foi filiado ao Partido dos Trabalhadores e Lula revela uma árvore genealógica petista: “Meu tio era do PT, foi vereador, mas já faleceu. Era um camelô, Pilão”. No entanto não sabe precisar quando foi sua legislatura. “Faz mais de 20 anos, já”, arrisca.

“Outro que é guerreiro também, o [hoje no PcdoB e prefeito de Paço do Lumiar Domingos] Dutra. Lutou, foi perseguido por que trabalha certo. Quando se trabalha certo os maiores perseguem para tomar o poder, para fazer merda, avacalhar. Mas Deus não vai deixar”, lista colocando Dutra ao lado de Lula.

Sobre perseguidos e perseguidores, indago-lhe sobre a aliança de Lula com Sarney. “Sinceramente o Lula fez uma grande besteira ao se unir com Sarney. Podia ter sido melhor ainda, sem Sarney. Todo político é obra de Sarney”. Espanto-me: todo? “É, a maioria é, o único que não é, é Lula. O único que não foi obra de Sarney, mataram, que foi o doutor Jackson Lago”.

E o governador Flávio Dino? “Ele tá trabalhando, com toda dificuldade, sem dinheiro, está trabalhando. Para trabalhar aqui no Maranhão tem que ter dinheiro, ele está sem dinheiro, mas está trabalhando”.

Observo o entorno, a Praça Deodoro tomada por barracas. Lembro de episódios envolvendo a Blitz Urbana, derrubando até mesmo construções de alvenaria em alguns pontos da cidade. Indago-lhe se não teme o futuro. Ele afirma, convicto, logo voltando à pauta de nossa conversa: “Camelô não é invasor. Tem sindicato, associação. Se Lula ganhar, melhor ainda. Com o apoio de Lula, o apoio de Flávio Dino, nós vamos ficar para sempre aqui. Até Deus mandar ele [Lula] embora. A perseguição a Lula foi grande, ainda é, matou a Marisa, mas Deus é maior”.

Agradeço a gentileza do papo e peço uma água. Ao sacar a grana para pagar ele abre um sorriso e manda: “cortesia do Lula!”.

Touchê em turnê: uma divertida aventura literária

O autor cercado por atrizes da Xama Teatro e estudantes de uma escola pública em Santa Inês/MA. Foto: Sheury Neves

 

Com a Caravana Passeios pela História e Cultura do Maranhão o escritor Wilson Marques está circulando diversas cidades maranhenses, acompanhado da trupe da Xama Teatro e de Touchê, seu personagem infantil que angaria leitores por onde passa.

Na última quinta-feira (1º.), foi a vez de Pedreiras, terra de João do Vale, já biografado pelo autor – e recentemente tema de biografia-mirim lançada recentemente pela jornalista Andrea Oliveira. O município encerrou a primeira etapa do projeto, que, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, já passou, além de Pedreiras, por Imperatriz, Açailândia, Timon, Caxias, Pinheiro, Viana e Santa Inês.

O kit Touchê. Reprodução

“Para quem escreve, o contato com seu público é quase tão importante quanto publicar livros. É bom para o pequeno leitor, que ao final desmistifica a ideia de que o escritor é uma figura distante, inacessível. E, para o autor, uma oportunidade de se retroalimentar, se energizar”, comenta o escritor. Em suas viagens, os lançamentos têm sido realizados em escolas públicas ou espaços culturais, com distribuição dos kits de Touchê, com seis livros, ilustrados por Kirlley Veloso: Touchê em a invasão francesa e a fundação de São Luís, Touchê em uma aventura pela “Cidade dos Azulejos”, Touchê em a revolta de Beckman e nos tempos de Pombal, Touchê em uma aventura em noite de São João, Touchê em o mistério da serpente e Touchê em Balaiada, a revolta.

Indago se estreitar este convívio com os pequenos leitores é uma tentativa de virar o jogo: livros perdem cada vez mais espaço na disputa de preferência com tablets e celulares, entre outros. “Com relação aos eletrônicos, acho que o mal uso deles pode ser bastante daninho principalmente para mentes em construção. Por outro lado, acredito que não devemos demonizá-los, ou criar cabos de guerra tendo de um lado livros e do outro tablets, etc. Acho sim que podemos tirar partido deles a fim de difundir cada vez mais os bons conteúdos, pois ao final é isso que realmente importa”, opina.

A rota de Wilson, Touchê e do Xama Teatro, que faz apresentações baseadas nos enredos das obras, após um descanso, será retomada em agosto, quando visita São José de Ribamar (dia 2), Paço do Lumiar (14) e São Luís (23), encerrando o passeio.

“Em todas as cidades em que passamos a receptividade superou minhas expectativas, tanto por parte de alunos como professoras, diretoras e gestores de educação municipais. Isso tem sido muito legal porque demonstra que existe em todos um interesse, uma necessidade inata por arte, por histórias, por teatro, por livros. Por outro lado, revela um aspecto que me entristece um pouco: o fato de a Caravana despertar ainda mais interesse na medida em que muitas escolas se encontram em estado de carência no que diz respeito à oferta desse tipo de ação. De qualquer maneira o projeto tem ajudado a reacender essa chama, e isso a gente pode constatar pelo entusiasmo e alegria com que somos recebidos”, comenta.

Jornalista de formação, Wilson Marques, além de João do Vale, já biografou o violonista João Pedro Borges. Seu personagem de maior sucesso, no entanto, é mesmo Touchê, através do qual ele aborda aspectos da história e da cultura do Maranhão. Pergunto se o incomoda o fato de a faceta infantil de sua obra ser mais conhecida que o trabalho, digamos, adulto.

“Nunca tinha pensado nisso e acho que vou continuar sem me preocupar com esse aspecto do meu trabalho. Mesmo porque esse raciocínio pode levar à ideia de que um tipo de fazer literário é mais nobre que o outro. Tipo, escrever para adultos é mais nobre do que escrever para crianças. E não me parece que seja assim. Uma coisa, entanto, posso afirmar: pra mim, escrever para crianças é muito mais divertido do que escrever para adultos. E, no final das contas, o que vale é a gente se divertir”, finaliza.

Delícias do Mar(anhão)

O Fideuá Casa d'Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR
O Fideuá Casa d’Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR

 

Nem só de língua de boi vive o homem – e a mulher (grávida) –, dona Catirina! Ao menos é o que demonstra o II Festival Gastronômico, promovido pelo Sebrae/MA, que agrega 47 restaurantes em nove municípios maranhenses, com pratos à base de frutos do mar – Delícias do mar é o tema desta edição, que também contempla sobremesas à base de frutas regionais – lista completa de municípios, restaurantes, pratos e sobremesas no site do festival.

Lançado hoje (5), em evento para convidados no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, o festival acontece até o próximo dia 23. Além da lista no site e em material impresso de divulgação, os restaurantes terão banners identificando sua presença no circuito. Os presentes puderam degustar as delícias dos 18 restaurantes de Raposa, São José de Ribamar e São Luís que participam.

A iniciativa é importante: quem souber do festival, procurará conhecer os restaurantes participantes e, por sua vez, os pratos preparados especialmente para a ocasião – vendidos a preços mais baratos.

O aumento da participação é visível: na primeira edição, em 2015, eram 21 restaurantes. Gosto de pensar também na contribuição para o turismo e a superação de preconceitos: muita gente, ao ver o número de restaurantes em determinado município já não pensará naquela localidade como algo inferior, indigno de atenção, mas como um polo gastronômico, boa oportunidade de conhecer este ou aquele lugar – e seus respectivos pratos.

Percorrendo os stands – que eu prefiro chamar de barracas – degustando os diversos pratos, se percebe também a heterogeneidade dos participantes: da franquia China in Box, passando por casas, digamos, mais chiques, como o Feijão de Corda, Thai e a Pizzaria Vignoli, até estabelecimentos, digamos, mais roots, como o Por do Sol, em Raposa, para ficarmos em exemplos apenas entre os que estavam neste lançamento – outros eventos acontecerão em outros municípios.

Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR
Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR

Gastronomia é cultura e os que já estávamos provando de tudo um pouco antes e durante as falas das autoridades presentes, continuamos ao longo do pocket show do Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões acompanhados de João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado e sanfona) –, que, não à toa, começou por Catirina (Josias Sobrinho), a quem aconselhamos no início deste breve e pantagruélico relato.

Entre o que experimentei hoje destaco o Fideuá da Casa d’Arte, o Canelone de caranguejo da Casa Rossini e a Mariscada do Léo da Tia Mundoca (em que a tarioba se sobressai deliciosamente) – o primeiro e o último, em Raposa.

Certamente vale a pena (tentar) conhecer todos os restaurantes e (tentar) provar todos os pratos. O Delícias do Mar é um festival de muito bom gosto. Literalmente.

Gerô duplamente lembrado nos 10 anos de seu martírio

Foto: Ronald Almeida Silva
Foto: Ronald Almeida Silva

 

Há exatos 10 anos o artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, foi torturado até a morte por policiais militares. A partir de 2008, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy, o dia 22 de março foi instituído como Dia Estadual de Combate à Tortura.

No fim da tarde de 22 de março de 2007, Gerô foi supostamente confundido com um assaltante nas imediações da cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade. Ali começou seu calvário, que duraria algumas horas até o óbito. Gerô era negro. Escrevi um texto na ocasião, indignado com o acontecimento.

No ano seguinte, o Bloco Tradicional Pau Brasil, do bairro do Anjo da Guarda, homenageou o artista. O samba-tema Salve Gerô! (ouça aqui) tem música de Gigi Moreira e letra de Gigi Moreira, Jeovah França, Josias Sobrinho e deste blogueiro.

O episódio cujo desfecho trágico foi seu assassinato não era o primeiro nem o único em que Gerô foi vítima de racismo. Lembro-me de uma vez em que estávamos em um bar, na Praia Grande, e o artista foi arrancado à rua com seu violão. Supostamente buscando alguma droga, Gerô foi revistado de forma vexatória, ao tempo em que tirava onda dos policiais: “eu carrego é na mente”, gritava com sua voz peculiar, lutando contra as injustiças sem perder o bom humor.

Gerô publicou diversos cordéis com o pseudônimo Linguafiada. Nunca se furtou a denunciar a violência, opressão, racismo, desigualdade social. Sempre teve lado: o dos oprimidos.

Após sua morte, a então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) lançou A peleja de Gerô, disco compilando gravações que havia deixado, entre as quais Canto de passarinho, parceria com o violonista Domingos Santos que, defendida por Fátima Almeida no Festival Viva de Música Popular de 1985, acabou por dar nome artístico a uma de nossas mais populares cantoras: Fátima Passarinho.

O martírio de Gerô e seu legado serão lembrados hoje (22), às 17h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), por iniciativa do cordelista Moisés Nobre, seu parceiro. O evento contará com exposição de objetos pessoais de Gerô, debate sobre direitos humanos, igualdade racial e combate à tortura, além de sarau poético-musical.

Entre os nomes confirmados estão os secretários de Estado Francisco Gonçalves (Direitos Humanos e Participação Popular), Gerson Pinheiro (Igualdade Racial), além de artistas como Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Fátima Passarinho, Arlindo Carvalho, Gigi Moreira e Rosa Reis, entre outros.

Na próxima sexta-feira (24), às 18h30, Gerô será homenageado também na Faculdade Estácio, por iniciativa do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, professor da instituição, no evento As várias mortes de Gerô.

O debate contará com a presença de diversos docentes da Estácio, além de Moisés Nobre, Carlos Antonio (advogado do caso Gerô, que garantiu a indenização paga recentemente à família), o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, além deste que vos perturba. Ambos os eventos são abertos ao público e têm entrada gratuita.

Denis Carlos lança documentário em sessão gratuita hoje (27)

 

Penetrar o desconhecido e mágico território do sagrado. É o que faz o documentarista Denis Carlos em Iemanjá pela última vez [Brasil, 2016, 31 min.], que conta a história de Allana Karoline, que durante alguns anos vestiu-se para celebrar Iemanjá, nas festas devotadas à divindade no Terreiro da Fé em Deus, conduzido por Mãe Elzita – fotografada por Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns.

A pequena e febril Karol teve uma visão. Era um chamado e logo o mal-estar foi embora. A partir de então, uma demonstração prática e bonita de sincretismo cultural e religioso: a procissão de Nossa Senhora da Conceição, além de anjos, tinha agora a rainha do mar.

Denis Carlos faz valer a máxima que se tornou um clichê – e seu filme passa longe de qualquer clichê –, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, para acompanhar o último ano de Karol como Iemanjá, como entrega o título. Não é um salto no escuro, o documentarista tem domínio da situação, deixa suas personagens à vontade – inclusive um gato que encara a câmera para depois se afastar como se nada tivesse acontecido –, num filme bonito em sua simplicidade, como o terreno pelo qual se aventura.

O toque de mina, o cântico católico, o samba “profano”, a banjo, saxofone e trombone, e a prova de que é possível o convívio harmônico entre os diferentes, num tempo em que o ódio é uma espécie de vírus propagado pelo ar e pelas ondas.

Há solenidade e emoção quando outra garota assume o papel de Iemanjá. Onde às vezes tudo o que se exige é respeito, Denis Carlos vai além e dá uma importante contribuição para o cinema do Maranhão, as religiões de matriz africana e a superação de preconceitos, sem ser panfletário, com a beleza e leveza que queremos ver quando vamos ao cinema.

Serviço

Iemanjá pela última vez será lançado em sessão hoje (27), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada gratuita.

Maria Aragão em tempos de golpe: atual e necessária

Uma subversiva no fio da história. Capa. Reprodução

 

O jornalista Emilio Azevedo lança na próxima quarta-feira (14), às 19h, o livro Uma subversiva no fio da história [2016, Ed. do autor; revisado por este blogueiro], um conjunto de nove reportagens sobre a vida e o legado de Maria Aragão, uma das mais importantes personagens da política no Maranhão no século XX.

Embora tenha elementos, o livro não se configura uma biografia. Foi escrito entre 2007 e 2009 e repousou numa gaveta até ser retomado pelo autor, este ano. Ele confessa: tinha críticas quanto à obra, para o qual os nove textos foram escritos. Depois de mais cinco meses de trabalho, uma espécie de reconciliação entre criador e criatura permite que a segunda chegue ao público agora.

A noite de autógrafos será movimentada: o Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande) receberá show da cantora Tássia Campos – com o mesmo título do livro –, além de esquetes do Gamar – grupo de teatro amador formado nas dependências de uma escola que leva o nome da médica comunista – e de Maria Ethel, cuja “encarnação” de Maria Aragão em A besta-fera é um hit do teatro local.

Emilio Azevedo parte de um exercício difícil: humanizar Maria Aragão, relendo-a e recontando-a para além da execração – os que a detestavam e tratavam-na por puta, besta-fera e que tais – ou da beatificação – os que a adoravam e consideravam-na uma espécie de santa. É a essência humana que move o jornalista através de suas nove reportagens, embora ele mesmo confesse tratar-se de um livro de fã.

Tendo Maria Aragão como personagem central e fio condutor, Emilio refaz um pequeno pedaço da história do Brasil e do Maranhão, ao abordar a época e a conjuntura em que a “médica comunista” – longe do clichê – realizou sua militância, sua ação subversiva. Estão lá Luiz Carlos Prestes, o PCB, a ditadura militar, a Igreja Católica, as oligarquias. É um livro ousado de um autor que não teme assumir-se de esquerda, num tempo em que há quem ouse dizer não existir mais esquerda ou direita – estes, sabemos de que lado estão.

A antropóloga Maristela de Paula Andrade, no prefácio de Uma subversiva no fio da história, defende a adoção do livro por escolas. “Esses heróis fabricados, artefatos políticos, ganharam bustos em praça pública e lugar certo, inquestionável, na formação escolar das crianças e da juventude. Foram heróis da classe dominante, dos que detiveram o poder em cada conjuntura histórica, mas inventados e cultuados como defensores de todos. Por que não contar aos jovens brasileiros a história de pessoas como Maria Aragão, que lutaram por igualdade, justiça, liberdade, por um mundo melhor para os explorados e oprimidos?”, indaga a professora da UFMA.

O questionamento é pertinente em tempos de golpe, quando tantos outros saem às ruas reivindicando uma intervenção militar. Emilio Azevedo mostra a atualidade do legado de Maria Aragão, mais que médica ou comunista, uma mulher que educava pelo exemplo. Sempre é tempo de aprender.

Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato
O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato

Uma subversiva no fio da história é seu terceiro livro, todos com uma posição à esquerda, o que é uma dificuldade do jornalismo, hoje. Qual a importância do jornalista assumir que tem lado?
Tem toda importância. É uma questão de honestidade com o leitor. Recentemente vi uma palestra do Caco Barcellos [na 10ª. Feira do Livro de São Luís], onde ele falava do jornalismo declaratório e de um outro jornalismo que eu não lembro agora como ele definia, um jornalismo imparcial, neutro, um jornalismo essencialmente informativo. Não sei como ela define o jornalismo feito por William Bonner, Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. A verdade é que acho impossível você trabalhar com jornalismo e dissociar de uma posição política. A pauta já é ideológica, o veículo em que você trabalha é ideológico. O aspecto ideológico de uma reportagem nasce a partir da pauta, do lugar onde ela é publicada, veiculada. Se você faz um bom jornalismo dentro da Rede Globo, no geral você está referenciando, legitimando o mau jornalismo que a Globo faz. As coisas estão associadas. Eu não acredito em imparcialidade, sempre disse isso, escrevendo ou em mesas de debate. O jornalismo pode ser honesto e desonesto, mas será sempre essencialmente ideológico, político. Você pode ser honesto no seu fazer jornalístico, deixando clara sua posição. O leitor não é idiota, ele sabe filtrar os excessos porventura cometidos.

Quando você diz que alguém como Caco Barcellos, dentro da Globo, em vez de ser uma exceção, referenda o mau jornalismo praticado pela emissora, você não acredita em reserva moral ou que outro nome se queira dar para isso? Uma exceção, o fato de ele estar lá significando poder fazer o jornalismo que ele pratica chegar a mais gente?
Eu não vou dizer que ele está certo ou errado em trabalhar na Globo. Todo profissional tem que trabalhar e pagar suas contas. Não entro nesse tipo de patrulhamento. O problema é vestir a camisa do patrão. É tirar onda de bom moço e sair em defesa dos interesses da família Marinho. A merda tá bem aí. Nessa palestra, especificamente, Caco Barcellos pisou na bola ao dizer o seguinte: “pra todo mundo que fala mal de mim ou do veículo em que eu trabalho”, no caso, a Globo, “eu digo: “faça melhor!””. Encaro esse papo como uma piada de mau gosto. É certo querer tirar da sociedade a possibilidade de criticar um veículo que é uma concessão pública? É um ponto de vista completamente equivocado. Tem que ter muita crítica a todos os veículos, aos que são concessão pública, no caso das emissoras de TV e rádio, e também aos que não são. Uma coisa é a crítica, outra coisa é a agressão, a violência, a estupidez. A crítica é saudável. No caso dessa palestra específica, ele pediu que não criticasse a Globo, que fizesse melhor. A Globo tem rios de dinheiro. E de onde vem esse dinheiro, quem patrocina? Se ele tem estrutura pra chegar às três da manhã, na frente de todo mundo, com 10 carros, alguém está pagando essa conta. Isso não sai do bolso do Caco Barcellos, isso sai do bolso da empresa que tem patrocinadores x, y e z. Tudo isso tem que ser levado em conta. Qual o interesse do patrocinador? É só de vender seu produto?

Às vezes não fazer melhor que a Globo não é falta de vontade, há muita gente aí disposta.
Essencialmente é: quem paga a conta? Quem financia a Globo? A Record? A Veja? Todas as empresas têm interesses políticos.

Este é um ponto essencial: se as pessoas assumissem os patrocinadores, às vezes seria mais rápido e fácil descobrir de que lado os veículos estão, ideologicamente.
Isso é pouco debatido. Pouco se interessa por quem paga a conta.

Você está à frente, há sete anos, do Vias de Fato, que tem uma postura de independência, com seus parcos financiamentos, mas com uma postura ideológica clara. De algum modo isso dialoga com a experiência de Maria Aragão na Tribuna do Povo. A Tribuna do Povo de Maria Aragão, de algum modo foi ou é inspiração para o Vias de Fato?
São momentos distintos, projetos distintos. E uma coisa, essencialmente, os distingue: o projeto da Maria era ligado a um partido. Com toda dificuldade financeira, com todo isolamento, um isolamento à esquerda, mas tinha uma relação com o comitê central do partido, tinha esse tutor, que ficava no Rio de Janeiro. No caso do Vias, ele não é ligado a nenhum partido, nem é centralizado por ninguém. Trata-se de outro momento histórico, completamente diferente no que se refere à organização do campo progressista. A utopia hoje parte de um desejo de pluralidade e horizontalidade, onde todo mundo é passível de crítica, inclusive a própria esquerda. Agora, em relação às dificuldades operacionais, os dois são parecidos.

A Tribuna do Povo era um jornal de uma mulher só.
O Vias de Fato tem mais mulheres, tem mais gente [risos].

O Vias de Fato talvez tenha mais gente, mas ainda é uma equipe pequena. Nesse sentido, que outras semelhanças e diferenças você apontaria?
Semelhança é essa coisa do gueto, eu digo isso no livro, que a Tribuna do Povo é um jornal de gueto. Algumas pessoas fazem questão de dizer que o jornal de Maria não tinha nenhuma influência, mas o antropólogo Alfredo Wagner [Berno de Almeida] coloca a importância dele como uma fonte única naquele tempo. Aí acho que existe uma semelhança. O Vias está no gueto, assumidamente no gueto, mas também é, às vezes, fonte única para determinados assuntos, o que ninguém vai dizer, você vai encontrar lá, no Vias de Fato, o “panfleto” de esquerda. Aí tem um compromisso com a história, compromisso com o processo histórico. Os comunistas têm essa noção do processo histórico. O Vias, apesar de não ser marxista, também tem essa noção.

Emilio, você tem uma formação comunista, inclusive tem a mesma filiação partidária de Maria Aragão.
Desde 2009 estou afastado do partido. Sobre o assunto, vejo muita gente que não é comunista, se dizendo comunista no Brasil. Eu sou o contrário: sou tachado de comunista, mas não me considero marxista-leninista. Acabei me filiando, há quase 15 anos, talvez um pouco menos, ao PCB, por uma questão tática. Diferente de hoje, na época eu tinha interesse em atuar em um partido e pelo fato de ser de esquerda, queria um partido à esquerda. A conjuntura me empurrou para o PCB. Me filiei circunstancialmente, fui ficando. Tenho muito respeito pelo partido, muitos amigos por lá, aprendi muitas coisas, mas essencialmente não sou marxista-leninista. Não gosto de me rotular. Tenho influências cristãs, de esquerda, marxistas, mais recentemente até anarquistas, mas isso não me rotula. Não estudei o suficiente para carregar rótulos. O mínimo que se espera de um marxista é que ele tenha lido toda a obra de Marx, mesmo que não tenha sido em alemão [risos]. Eu fui católico, hoje sou agnóstico. Quando deixei de ser católico, rompi com dogmas. Me parece que todos esses ismos têm dogmas. Então, você fica preso a um determinado dogma e a partir disso cria uma determinada camisa de força, acho ruim. É ruim mesmo entre os intelectuais, o que não é o meu caso. O sujeito passa a pensa a partir de ideias pré-estabelecidas. Acho melhor transitar, pegar uma coisa aqui, outra ali e raciocinar por contra própria. A generosidade não é exclusividade de um só filosofo ou profeta.

Por falar em comunista, acabamos de perder um ex-comunista, o Ferreira Gullar.
Acho que Ferreira Gullar é ótimo como poeta e péssimo como político. Como poeta foi genial, como político se comportou como um oportunista qualquer. Fico à vontade para falar por que em 2001 fiz um artigo chamado A política suja de Ferreira Gullar. Este texto foi panfletado dentro de uma exposição que ele fez aqui em São Luís. A iniciativa da panfletagem não foi minha e eu não participei dela. Ele, um sujeito inteligente, não passou recibo. Não era o caso.

E Maria Aragão como personagem? Você tem uma abordagem que foge das duas mais comuns: os que não gostam, para quem ela era a puta, a besta-fera, ou os que gostavam e a colocam num altar, Santa Maria Aragão. Você tira Maria Aragão destes dois lugares, digamos, mais fáceis, tratando-a como uma pessoa comum, que fez o que fez. Você acha que faltam Marias Aragões no mundo?
Não sei se consegui humanizar Maria Aragão. Tentei. Mas acho que, no fundo, o livro tem algo de exaltação. É um livro de fã. Tentei, já na última etapa do trabalho, retirar essa carga toda. Talvez o último capítulo, de alguma forma, critique o próprio livro. Meu amigo Wagner Cabral, que é historiador, não gosta de biografias. Meu livro não é uma biografia, são nove reportagens, mas sem dúvida é um recorte biográfico. Então, você acaba se apaixonando pela personagem, é uma coisa natural. Fiz um esforço de humanizar, não sei se consegui. Não digo isso no livro, mas acho que existem muitas anônimas iguais a Maria Aragão. Sem querer idealizar uma classe, te digo que nas camadas populares encontram-se muitas mulheres lutadoras, corajosas, generosas e solidárias. Na periferia de São Luís vi de perto o que exaltamos em Maria Aragão. Vi mulher apanhando e outra indo lá e se metendo no meio do casal, para defender a agredida. Vi isso mais de uma vez. Tem muita gente assim. E o grande desafio, no caso de Maria, é não beatificar, é não transformar em santa, é mostrar que é possível fazer como ela fez. Foi uma grande mulher, mas é possível ser como ela, fazer o justo, fazer o correto, cometer erros e acertar algumas vezes. Não aceitar injustiças. Saber escutar. Não desistir. Foi o que ela fez.

O nome que você pensou originalmente para este livro foi Maria Aragão no fio da história. Por que a troca para Uma subversiva no fio da história?
Ao tratar de “uma subversiva” estou falando da própria Maria Aragão – que foi subversiva –, da ação política dela e do processo em que ela estava inserida. É também uma forma de estimular o debate em torno da subversão. Estamos precisando disso. São pessoas e ações subversivas, transgressoras, que andam a margem ou na contramão, que têm o poder de mudar o curso da história e melhorar as coisas. Normalmente o desejo de liberdade e a subversão caminham juntos.

Se não de mais Marias Aragões, você acha que hoje o Brasil precisa de subversão?
Nos últimos anos, quando nosso país viveu sob o comando do PT e do lulismo, ficaram expostos conflitos que historicamente estiveram presentes na sociedade brasileira. Conflitos de valores, conflitos de origem política. Uns ligados às classes sociais e outros relacionado à moral e aos costumes. Neste contexto atuam setores elitistas e conservadores, acrescidos de fariseus e fascistas. Atuam também os que defendem direitos e/ou vivenciam discriminações seculares, neste caso os pobres, negros, mulheres, indígenas e homoafetivos. Isso vai além da disputa entre partidos ou desse maniqueísmo que reduz tudo a “coxinhas” e “petralhas”.

E o subversivo nesse contexto?
Está presente em várias situações. Veja a atual ocupação das escolas e das universidades. É desobediência civil. É algo que subverte a ordem estabelecida. É uma desobediência saudável e necessária, diante dos abusos e da violência cometida pelo atual governo federal e pela maioria do Congresso Nacional. E essas ocupações estão sendo protagonizadas por jovens que vivem esses problemas históricos. São exatamente pobres, negros, mulheres e homoafetivos. Até onde vi, são eles que compõem a maioria desse movimento.

Você poderia dar outro exemplo?
Hoje, no Maranhão, acho emblemática a ação dos indígenas da etnia Gamela, na região de Viana. Em meados do século XX eles foram considerados extintos. Agora, através de uma teia de povos e comunidades tradicionais, que reúne também quilombolas, eles se rearticularam e ocuparam três fazendas. Os Gamela entraram numa terra que é deles. E fizeram isso sem esperar pelo Estado, pela Justiça, por cartório, por burocratas ou pela Funai. Enfim, sem esperar por instituições que hoje, notoriamente, enfrentam sérios problemas de credibilidade. A questão envolvendo recentemente Renan Calheiros e o Supremo mostra bem isso.

Você falou também dos costumes…
Este ano, no Rio de Janeiro, um garoto foi barrado na escola por que estava vestindo saia. No outro dia, todos os meninos da turma dele foram de saia e a escola teve que ceder. O caso repercutiu no país. Ouvi conservadores dizendo que estamos no “final dos tempos”. É interessante perceber que entre essas pessoas, muitos não se preocupam com a devastação ambiental ou com a miséria absoluta de parte da humanidade. É o modo de vestir de alguns que, para eles, indica “o final dos tempos”. Bem, mas diante do mesmo caso, os mais arejados disseram que trata-se apenas de uma roupa, de uma questão de liberdade individual e que cada um deve ter a possibilidade de se vestir como quiser. Diante de um tema tão simples, isso gera conflito e acirrados debates. Em São Luís, numa escola particular do Renascença, soube que uma menina foi impedida de entrar porque estava com um turbante. Houve repercussão nas redes sociais. O racismo, a misoginia e homofobia estão aí, mas a reação a essas antigas formas de violência, de alguma forma, tem crescido.

Emilio, você fez esse livro mais ou menos na época em que Jackson Lago foi governador.
Foram dois períodos: 2007 a 2009 é o primeiro período. Em 2016 eu trabalhei ainda cinco meses nele.

Mas aí já foi uma fase mais de ajustes, revisão. A pesquisa em si foi lá atrás.
Sim, 90 e tantos por cento da pesquisa foi feita nesse período.

Por que demorar tanto a finalizar e publicar?
Em parte o projeto Vias de Fato me tomou muito tempo. Talvez este seja o motivo maior, mas eu também tinha algumas críticas ao livro e hoje eu tenho menos, graças ao trabalho que fiz este ano.

Todas aquelas reportagens são inéditas?
Todas são inéditas. No capítulo das oligarquias, deve ter 10 a 12 laudas o capítulo todo, eu aproveito umas quatro de um artigo que saiu no Jornal Pequeno, em 2006.

Então quando você escreveu essas reportagens já estava pensando em livro.
Sempre! Foram todas feitas para o livro. À exceção dessa introdução das oligarquias. Neste livro acabo juntando a fome com a vontade de comer. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e respeito por Maria Aragão, mas é uma forma também de contar um pouco a história recente do Maranhão, a história recente do Brasil, falar de assuntos que eu adoro discutir e que eu acho que são importantes para essa geração saber, minimamente. Eu não sou historiador, sou jornalista, mas acho que um compromisso que o jornalista tem é de deixar registros para a história. Eu estou falando de uma história muito recente, uma coisa que não é história de historiador, é história de jornalista, que é de 40, 50 anos pra cá. As fontes estavam todas vivas ainda, são 51 entrevistas.

Mais que médica, mais que militante partidária, comunista, Maria Aragão foi uma educadora. Uma educadora que educava pelo exemplo.
Essa coisa da educadora eu peguei no processo do livro, eu construí o último capítulo pensando no legado. Essa reportagem não estava prevista, acabou servindo como uma conclusão, esse legado da educação popular, como a esquerda chama, de formação, de educar pelo exemplo. Na minha avaliação está tudo relacionado. Maria Aragão teve uma vida ligada aos pobres e miseráveis, as periferias urbanas e também aos camponeses. Quando foi dirigente da CUT, no Maranhão, a hegemonia era de trabalhadores rurais. Antes do golpe de 1964, principalmente na década de 1950, ela também atuou junto à organização de lavradores. No plano moral, Maria Aragão foi vítima da violência de farisaicos e fascistas, que lhe chamavam pejorativamente de puta, pelo fato dela ter tido uma filha sem estar casada e por ter vivido com um homem sem passar pela igreja. E Maria foi pra cima dos hipócritas. Enfrentou. Ela não abaixou a cabeça diante das violências que sofreu.

No entanto, como você afirma no livro, ela não era feminista.
Como me disse a professora Mary Ferreira, em entrevista para este livro, a vida de Maria Aragão representou, na prática, aquilo que as feministas defendem. E ela se aliou às feministas em várias ocasiões. Maria, a comunista, foi uma mulher livre, que não se submeteu a opressores. Agora em dezembro, num evento ocorrido em São Luís, promovido pelo Fórum Maranhense de Mulheres e que denunciou e debateu a violência contra a mulher, foi colocada uma polarização entre transgressoras e recatadas. Nesse debate, a vida de Maria Aragão, a subversiva maranhense, tem um grande valor pedagógico. Maria foi, de várias maneiras, transgressora. Subversão e transgressão normalmente caminham juntas.

Maristela no prefácio defende que teu livro seja adotado em escolas. Você tem essa pretensão, esse desejo?
Não tenho nem pretensão nem canais [risos]. Quem sabe depois de morto [risos]. Uma coisa que eu quero fazer é debater esse tema, esse tempo, a partir de uma ação subversiva. Discutir hoje o que é subversivo à luz de Maria.

Deixa eu tentar fazer um exercício de presentologia, já que, como Maria já faleceu, não dá para fazer de futurologia: pelo teu mergulho na vida e no legado de Maria Aragão para a feitura do livro, como você acha que seria seu comportamento em relação ao momento político que o Brasil atravessa?
É até um atrevimento. Certamente ela estaria contra o governo Temer, isto é uma obviedade. Seria contra os tucanos, isso é outra obviedade. Acho que ela teria críticas ao PT. Dizer mais do que isso eu não me atrevo. Não seria correto da minha parte.

Tua ideia de lançar o livro com o show de mesmo nome, Uma subversiva no fio da história, retoma uma tradição importante. Lembro O Pasquim, que era uma experiência de esquerda no jornalismo brasileiro e esta, com certeza, influencia o Vias de Fato, em uma determinada época encartava discos. O livro vai trazer encartado um show de Tássia Campos, cantando um repertório de revolucionários ou que Maria Aragão ouvia em casa. Tássia é uma das cantoras dessa “nova” geração da música do Maranhão muito competente, muito interessante, com uma postura ideológica alinhada a Maria Aragão. Como foi costurar essa noite de autógrafos?
A ideia do show começa com o trabalho da Carabina Filmes. Começa no vídeo que eles fizeram para anunciar o lançamento de Uma subversiva no fio da história, a partir da visita que Tássia fez ao memorial Maria Aragão. O trabalho de [os cineastas] Leide [Ana Caldas] e Inácio [Araújo], somado à interpretação da Tássia, foi o primeiro ato, antes mesmo de chegar ao palco do teatro. No Brasil, livro impresso é coisa de elite. É um objeto caro e consumido por poucos. Ao misturar o livro com diferentes linguagens artísticas temos a possibilidade de popularizar o trabalho, ampliando a mensagem e sua função social. E é uma relação de mão dupla, pois livro também pode provocar. Em 2006, quando lancei O caso do Convento das Mercês, esse livro inspirou o Vale Protestar, movimento que juntou teatro e música e que projetou a personagem “Rosengana”, a partir de uma reunião de vários artistas, entre eles Cesar Teixeira, Kátia Dias, Moizés Nobre, Rejane Galeno, Nadnamara Rocha, Valberlúcio Pereira, Claudia Santos e Raimunda Lopez. Hoje, com Uma subversiva no fio da história, espero, junto com os artistas, fazer algo diferente de uma tradicional noite de autógrafos. O protagonismo deles amplia a proposta do livro, aumenta a provocação, aumenta o diálogo com a sociedade. Repito: livro, no Brasil, é uma coisa pra elite, uma coisa cara, pra uma elite intelectual, econômica. Não fiz livro pra intelectual, apenas. Eu respeito os intelectuais, mas não quero meu livro limitado a eles. Quero um livro que possa, minimamente, interagir com a sociedade, provocar a sociedade de alguma forma, conseguir cumprir uma função social mais ampla. Aí eu acho que música, cinema, teatro, tudo isso facilita a possibilidade de ampliar a função social do livro.

O Vias de Fato já produziu outros shows, por exemplo, o Tarja Preta, ano passado.
Pois é, no ano passado, para comemorar os seis anos do Vias de Fato, o jornal organizou o Baile Tarja Preta, num processo que juntou pessoas da música, do teatro e do cinema. Naquele baile, por exemplo, o ator Lauande Aires fez uma leitura dramática junto com Rejane, tratando de temas comuns ao Vias. Hoje, o show inspirado no livro sobre Maria Aragão é consequência dessa mistura, que passa pelo Tarja Preta e já vem desde 2006. Agora, no dia do lançamento desse livro, teremos a apresentação de duas esquetes teatrais, antes da apresentação de Tássia. Uma com estudantes da Unidade Integrada Maria José Aragão, da Cidade Operária, e outra com a atriz Maria Ethel, com um trecho do espetáculo A besta-fera. E no show de Tássia haverá uma participação do cantor Claudio Lima, que vai interpretar composições de Marcos Magah.

Voltando um pouquinho, como Tássia entrou na história?
Por uma questão de identidade. Os shows que ela montou a partir de Nara Leão, Sergio Sampaio, Belchior, algumas músicas que ela canta no show que faz junto com Camila Boueri e Milla Camões expressam essa identidade. Além do talento evidente, Tássia me remete a sensibilidade, inquietação, insubordinação. Uma subversiva no fio da história tem relação com isso. Eu e ela também nos tornamos amigos, mas a escolha para este projeto vai além disso.

A partir dessa constatação, de que forma você pensa em tornar o livro mais acessível, do ponto de vista do preço, da distribuição.
Em termos de circulação a maioria dos livros hoje vai ter dificuldade. Principalmente em tempos de microcomputador travestido de celular.

Você pensa em disponibilizar o livro para download?
Num segundo momento, sim. Nesta primeira etapa, preciso pagar o projeto, então preciso circular com o livro em 2017, dentro e fora do Maranhão. Em São Luís vou botar em bancas, livrarias, em alguns pontos da cidade, e circular, debater a questão da ação subversiva nesse tempo de hoje. Acho que publicar um livro hoje já é, por si só, um ato subversivo.

Catirina e Pai Francisco em quadrinhos – para além do auto do bumba meu boi

Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução
Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução

 

O quadrinhista Beto Nicácio volta ao universo da cultura popular do Maranhão em Catirina e Pai Francisco [Dupla Criação, 2016, 40 p.], nova hq que lança hoje, às 19h, na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Em preto e branco, optando pela limpeza típica do cartum (também uma linguagem pela qual o autor se aventura), a revista vai além do auto do bumba meu boi, remontando ao ciclo do gado, quando Pai Francisco ainda era criança e seu pai deu a vida para salvar o dono da fazenda, seu patrão.

O que Beto Nicácio faz é uma livre adaptação da lenda, talvez a enriquecendo. Não concentra-se apenas no enredo em que Catirina, grávida, deseja a língua do mimoso, o boi predileto do patrão. Embora não fuja dele.

Caminho natural da publicação seria adentrar o ambiente de escolas públicas e privadas, contribuindo para a difusão da cultura popular do Maranhão, em linguagem acessível para todas as idades. A revista tem a preocupação didática de, ao final, explicar detalhes, propor atividades e o consequente aprofundamento dos leitores em temas abordados na história em quadrinhos.

Autor, entre outros, de A lenda da carruagem encantada de Ana Jansen, sobre outra conhecida lenda destas plagas, o autor já tem outros projetos mixando as tradições do Maranhão e a nona arte. Mas cada coisa a seu tempo e agora é tempo de São João.

A noite de autógrafos será regada a mingau de milho e na ocasião, uma arte original da hq será sorteada entre os presentes. A revista custa R$ 20,00.

Obituário: Papete

Papete em clique de Marcio Vasconcelos
Papete em clique de Marcio Vasconcelos

A despeito das controvérsias, da aura mítica e das diversas lendas em torno do LP Bandeira de aço [1978], desde sua feitura, iniciativa do desbravador Marcus Pereira, até os dias atuais, e já lá se vão quase 40 anos, Papete (8/11/1947-26/5/2016), falecido ontem, após meses de batalha contra um câncer de próstata, acabou por tornar-se uma das vozes mais importantes da cultura popular do Maranhão.

Bandeira de aço foi o disco mais lembrado da música popular produzida no Maranhão desde 1972 em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Papete contribuiu para tornar nacionalmente conhecidos ritmos como o bumba meu boi, o tambor de crioula e o tambor de mina, entre outros. Será para sempre lembrado como um grande intérprete de clássicos do cancioneiro do Maranhão, particularmente o do período junino.

Como percussionista acompanhou artistas de outras searas, entre os quais Almir Sater, Chico Buarque, Diana Pequeno, Dominguinhos, Erasmo Dibell, Jane Duboc, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a apresentadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Veronica Ferriani.

Não à toa muita gente costuma se referir a clássicos de nomes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota, Sérgio Habibe – os quatro gravados por ele em Bandeira de aço –, Chico Maranhão, Donato, Humberto de Maracanã, Manequinho e Ronald Pinheiro, entre muitos outros, como “aquela música de Papete”. O que pouca gente sabe é que Papete compunha muito raramente, embora tenha sido parceiro de nomes como Celso Borges e Chico Saldanha.

Há um ano lançou o livro Os senhores cantadores, amos e poetas do Bumba meu boi do Maranhão, com CDs e dvd revelando o pesquisador que ele já era antes mesmo da obra, que conta com músicas, depoimentos e fotografias – realizadas por Marcio Vasconcelos.

Seu último disco de carreira foi o duplo Sr. José de Ribamar e outras praias [2013], cujo título aludia ao nome de batismo do bacabalense, José de Ribamar Viana, e à sua versatilidade, registrando um leque amplo de compositores – mas voltando às origens: o segundo disco era uma regravação de Bandeira de aço, com a ordem das faixas alteradas.

Coleção de delicadezas

Bons ventos. Capa. Reprodução
Bons ventos. Capa. Reprodução

 

Quase 20 anos após sua estreia no mercado fonográfico, Bons ventos [Na Music, 2015] é nome apropriado para o segundo disco da cantora Anna Claudia, paraense radicada no Maranhão há mais que isso.

Também radicado há muito por aqui, o percussionista Luiz Claudio, irmão de Anna, além de tocar no disco, estreia como produtor, dividindo os arranjos com Israel Dantas (violões de seis e sete cordas), Márcio Glam (violão aço e guitarras em Vai), Norlam Lima (guitarra em Presente) e Nosly (violão em Guetos da Ilha, Vou dançar meu afoxé, parcerias com Gerude, Teu lugar e Noves fora).

Comparecem ainda a Bons ventos Carol Cunha (ukulele em Canção em alfa), Mauro Sérgio (contrabaixo), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo em Teu lugar), Jamilson Denys (guitarra em Presente), Djalma Chaves (violão em Paixão e razão), Wendell Cosme (bandolim em Guetos da Ilha) e Sávio Araújo (sopros em Vou dançar meu afoxé).

Bons ventos é uma coleção de delicadezas e uma ponte entre o Pará natal e o Maranhão adotivo de Anna Claudia. O disco é “um belo tributo à rica tradição da canção brasileira”, atesta Zeca Baleiro em texto no encarte do disco, que abre com o reggae Canção em alfa (Ronald Pinheiro), hit local oitentista.

Outra regravação é Teu lugar (Nosly), mas embora revisite o passado, Bons ventos é um disco do Presente (Zeca Baleiro e José Reinaldo), como diz a letra de uma das faixas, talvez a explicar a demora entre um disco e outro: “você me trouxe mais/ do que eu esperava/ você trouxe a palavra/ que faltava em minha boca”, com sutil citação de Libertango (Astor Piazzolla). Outra presença sorrateira é a de Flores em você, sucesso dos roqueiros paulistas do Ira! que encerra Vai (Allan Carvalho). A releitura de Noves fora (Zeca Baleiro e Nosly) ganha ares de mina. O paraense Allan Carvalho comparece ao repertório com mais duas composições: Sete cordas (parceria com Paulinho Moura), tributo ao instrumento imortalizado por Dino, Raphael Rabello e Yamandu Costa, e o bucólico Choro fulô (parceria com Ronaldo Silva), ornado apenas por violão e percussão.

Os afoxés que encerram o disco, Guetos da Ilha e Vou dançar meu afoxé, representam a negritude ludovicense, maranhense, paraense, brasileira, homenageando deuses, casas e blocos afro.

“Quando o amor campeia/ não há redenção/ é a voz da sereia/ teia e arpão/ que pega na veia/ vai ao coração/ que é cego e tateia/ outra ilusão”, diz a letra de Paixão e razão (Djalma Chaves e Lupe Albano), que também ajuda a explicar a urdidura de Bons ventos. Evidentemente há alguma razão na seleção de repertório, assinada pelos irmãos Anna e Luiz com Suzana Fernandes (esposa deste); mas reside ali muito de paixão: primeiro da cantora (e dos que a cercam neste trabalho), depois de quem a ouve.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.

Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.