“Vai-se o homem do baixo”

Facebook. Reprodução

 

Faleceu ontem (22) em São Paulo, vítima de um infarto fulminante, o músico Gerson da Conceição. Tinha 52 anos e deixa uma folha extensa de relevantes serviços prestados à música brasileira, em especial o reggae – entre muitos outros feitos fundou a banda Manu Bantu, referência no gênero.

Tocou em discos de, entre outros, Banda Black Rio, César Nascimento, Marquinhos Mendonça, Rita Benneditto e Zeca Baleiro, além de ter deixado parcerias com o duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões) e os poetas Celso Borges e Fernando Abreu.

Assim se manifestou o último em uma rede social: “Tenho muita alegria de todas as minhas parcerias musicais. Todas elas me fizeram ir um pouco mais longe, me deram e me dão um pouco mais de gás. Entre elas, um cara que era pura energia chamado Gerson da Conceição. Agora ele se vai, de repente. Está acima de minha compreensão como a vida pode abrir mão de alguém como Gerson. Ele que transpirava vida, a pura vibe que emanava dos seus dreads antenados. Fica a alegria de tê-lo conhecido, construído algo com ele mas, acima de tudo, de saber que seu contrabaixo poderoso continuará eternamente açoitando a Babilônia. Gerson Vive!”.

“Faz tempo que não convivo com Gerson diretamente, desde que ele mudou pra Sampa. Mas meu carinho, admiração e respeito por ele permanecem intactos até hoje. Adoro a voz, as canções, a energia positiva, a paixão pela música e todo amor que ele sempre me passava. A morte é inevitável a todos nós, mas ela sempre nos surpreende e nos deixa assim, quase sem vida também, por que dói demais”, declarou a cantora Rita Benneditto, de quem o contrabaixista foi um dos primeiros Cavaleiros de Aruanda [banda que acompanhou a cantora].

Foram inúmeras manifestações de pesar e, ante a vitalidade e juventude, reações de surpresa com a notícia, nas redes sociais. O compositor Josias Sobrinho lembrou-se de um episódio pouco conhecido, de quando Gerson estava iniciando a carreira. “Era um cara super do bem. Conheço desde os tempos do [bar] Risco de Vida. Quando ele saía do trabalho no Banco Real passava por lá para dar uma canja com as primeiras levadas que fazia”, rememorou.

Ao receber a notícia em um grupo de whatsapp desconfiei: há alguns anos Gerson havia sofrido um AVC do qual escapou sem sequelas. Minha reação automática foi tentar contato com pessoas próximas a ele, na esperança de que me dissessem se tratar de alarme falso, boato, fake news, qualquer coisa… Infelizmente não era. Confirmada a notícia, pedi um depoimento ao jornalista e dj Otávio Rodrigues, amigo comum. No áudio enviado é possível perceber a voz embargada, o esforço em conter as lágrimas. A última vez em que eles se apresentaram juntos foi em São Luís, em 2015, no palco do projeto BR-135, no show Poesia Dub, que tem como frontman o poeta Celso Borges. A dose seria repetida na próxima Virada Cultural, em São Paulo, mês que vem. Infelizmente não deu tempo.

“Quando a gente se conheceu eu morava em São Luís, tinha acabado de chegar, e logo percebi esse músico, ele chamava atenção. Logo ele montou a banda Conexão Rasta, e eu tinha uma esperança de ver no reggae do Maranhão uma inclinação mais jamaicana, mais radioleira, e o baixo no reggae é uma coisa especial, um item essencial, e há modos de se tocar. O reggae engana muitas vezes, muitos músicos acham que é fácil, que são poucas notas etc., mas o baixo especialmente mostra que não e o Gerson logo chamou minha atenção nesse aspecto. Ficamos amigos, quis o destino que eu voltasse de São Luís para São Paulo, depois ele também, o que só fortaleceu nossa relação, a presença do Celso Borges aqui também. Eu e CB começamos o Poesia Dub, esse nosso projeto, e logo na primeira apresentação ao vivo a gente sentiu falta de uma coisa mais forte, um live p.a., uma coisa que funcionasse mais visualmente, tivesse mais peso, e o chamamos para participar, o que ele vinha fazendo desde sempre. Assim foi no Itaú Cultural, depois no Tim Festival. Trocamos mensagens semana passada, por conta dessa gig mês que vem, ele me veio com planos de inovação, que tinha umas bases novas para me mostrar, coisas que a gente podia desenvolver juntos até essa apresentação… “sim, sim, vamos, vamos”, me chamando no estúdio. Em suma vão ficar as incontáveis lembranças, das nossas baladas por aí, em São Luís, aqui em São Paulo, entre shows juntos – a gente sempre se contatava, “vamos lá juntos!”, um chamava o outro –, e as tardes e noites imensas e sem fim, que passamos juntos, eu, ele, ou eu, ele e CB, ensaiando, bebendo pinga, catuaba, música, alegria, risada e fumaça. Um músico espetacular e um bom gosto musical absurdo. Era sempre uma delícia sentar e ouvir música com ele. Fica aí o curso da vida pra nós que ficamos, essa saudade sem fim. Vai-se o homem do baixo e deixa a gente aqui chorando baixinho”, declarou o não à toa alcunhado Doctor Reggae.

O corpo de Gerson da Conceição será velado e sepultado em São Paulo.

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Relembre Down down, com a Manu Bantu: