Xangai celebra obra de Elomar

Repertório da apresentação, de mais de duas horas, não se limitou, no entanto, à obra do compositor

Peças de Elomar foram interpretadas por Xangai próximas à concepção. Fotosca: Zema Ribeiro
Peças de Elomar foram interpretadas por Xangai próximas à concepção. Fotosca: Zema Ribeiro

 

Com um set inspirado, João Liberato (flauta) e Ricardo Vieira (violão de sete cordas) abriram o espetáculo Xangai canta Elomar, apresentado ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo. O duo, que acompanhou o baiano na maior parte da apresentação, atacou de Água e vinho (Egberto Gismonti), Santa Morena (Jacob do Bandolim), Livre para chorar (Ricardo Vieira) e Café 1930 (Astor Piazzolla). Esta última precedida de referências ao autor da maior parte do repertório da noite e seu gosto por tango.

O repertório, em mais de duas horas, não se limitou a Elomar, embora bastasse. Eugenio Avelino, o Xangai, ao saudar a plateia citou diversos amigos maranhenses, entre os quais João do Vale, Turíbio Santos e João Pedro Borges, o Sinhô – que estava na plateia –, a quem dedicou o espetáculo. “Esta cantoria é pro senhor, Sinhô!”, trocadilhou.

“Isso aqui não é show. É uma cantoriazinha? Pode ser. Agora quando bota esses dois meninos vira um concerto”, afirmou sorrindo, referindo-se aos músicos. “Vai ser legal por que Elomar pensa sua composição para orquestras reduzidas, vocês não estão ouvindo aqui, estes dois, uma orquestra sinfônica?”

Autêntico show man, Xangai cantou, tocou violão, assobiou (imitando um canário em Qué qui tu tem, canário?, parceria dele com Capinan), recitou, contou causos e ilustrou parte do processo criativo de Elomar, contando a história de algumas letras e trazendo ao público uma espécie de glossário, fundamental para o entendimento de suas peças.

A obra de Elomar – que se apresentará com o filho João Omar (violão) no Arthur Azevedo em outubro – não é simples. Tem uma linguagem toda particular, vocabular e musicalmente falando. Dele Xangai cantou, entre outras, Na estrada das areias de ouro, A pergunta, Puluxia das Sete Portas, A meu Deus um canto novo, Curvas do rio, O violeiro e ainda recitou a letra de Cantiga do Estradar. As quatro primeiras estão em seu ótimo Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup, 1986].

Xangai ainda cantou Estampas Eucalol (Hélio Contreiras), Deusa do asfalto (Adelino Moreira), que começou a dedilhar ao violão imitando a gagueira de Nelson Gonçalves, como se este apresentasse o compositor, Em nome do sol (parceria com o ídolo Jacinto Silva) e Paletó (com Manduka).

Das duas últimas contou as histórias: Jacinto Silva, então hospedado em sua casa, um dia acordou e disse que sonhou e que estava fazendo uma música. Cantarolou: “O sol continua brilhando/ o sol também nasceu pra você”. E emendou: “agora termina!”. Os dois concluíram a parceria, gravada por Silva em Caruaru capital do forró (1996).

A história com Manduka – filho do poeta Thiago de Mello e parceiro de Dominguinhos em Quem me levará sou eu – remete a uma apresentação de Xangai com Elomar no Teatro Arthur Azevedo em 1994: no camarim, após o show, ele entregou-lhe o papel com a letra. Xangai demoraria 17 anos entre perder e achar o papel e musicar a parceria, já depois de Manduka ter “feito a passagem”: “ele me deu a letra vivo e depois voltou para me dar a melodia”, disse.

Apesar de insistentes pedidos, Xangai não cantou o ABC do preguiçoso (Ai deu sodade), tema de domínio público recolhido pelo historiador baiano Fábio Paes, gravada pela primeira vez pelo cantor há 30 anos. É bom que o público comece – já é até tarde – a se acostumar: suas possibilidades são bem maiores e o cantor provou, não apenas ontem, que não é um one hit wonder.

No bis, após uma breve participação especial da esposa do violonista cantando Tico tico no fubá (Zequinha de Abreu), acompanhada por ele, Xangai terminou a apresentação com Arrumação (Elomar). A plateia em coro entoou o refrão “futuca a tuia, pega o catadô/ vamo plantá feijão no pó”, que depois se misturaria aos aplausos de pé sob os quais o trio se retiraria do palco.

Subiu o grande Dominguinhos

Embora o nome artístico fosse um diminutivo, Dominguinhos foi grande. Talentoso e plural, modernizou a música nordestina, que tem ainda em Luiz Gonzaga, nosso primeiro artista pop, seu maior representante, de quem o saudoso sanfoneiro é o maior discípulo.

Dominguinhos é autor de um sem número de clássicos da música brasileira, em parceria com nomes tão diversos quanto Abel Silva, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Nando Cordel, Chico Buarque, Djavan, Fausto Nilo, Manduka, Yamandu Costa, os irmãos Clodo, Climério e Clésio, Guadalupe e, quiçá a mais constante, Anastácia, entre outros.

Sua sanfona passeava pelo forró, xote e baião nordestinos, mas também espraiava-se com igual desenvoltura por choros, sambas, tangos, baladas e o que mais aparecesse – para executar ou inventar. Seu talento de melodista é conhecido de todos nós, que por vezes assobiamos, aqui e ali, músicas suas, muitas vezes desconhecendo sua autoria.

Sabem quando uma música é tão cantada e tocada em todo canto que a noção de autoria fica um pouco perdida? Aquela sensação que nos leva a perguntar: como é que isso sai da cabeça (coração e mãos) de uma pessoa? E a afirmar: gênio! Eis aí um adjetivo perfeitamente cabível a Dominguinhos.

Além de talentoso, Dominguinhos era generoso: teceu merecidos elogios a Rui Mário, em uma apresentação no Rio Grande do Sul, história que ele contou à Chorografia do Maranhão [O Imparcial, 7 de julho de 2013, em breve penduro acá no blogue], e tocou nos dois primeiros discos de Flávia Bittencourt, o segundo, Todo Domingos, inteiramente dedicado ao repertório do sanfoneiro. “Ele foi [participar do disco] numa boa, super atencioso. […] Tem uma coisa de alma, você bate mais com umas pessoas que com outras, foi isso que aconteceu com Dominguinhos. […] Ele me apoiou, me emprestou os discos todos, ajudou na liberação das músicas. […] Vou agradecer sempre a participação dele ativa nesse processo todo”, a cantora me contou em entrevista.

Depois de seis anos de luta contra um câncer de pulmão, o filho mais ilustre de Garanhuns – perdoem-me os lulistas, é apenas uma opinião – partiu ontem para o colo de Santa Luzia, onde certamente já se juntou com Sivuca e o velho Lua Luiz Gonzaga – iluminados pela lua que nos guia com seu sorriso em noite escura.

A festa no céu começou agora, embora alguns apressados já tivessem decretado sua morte, dado o coma em que esteve por sete meses – algo parecido com o que fizeram recentemente com Zé Ramalho, outro artista com quem tocou. Hora de atualizarmos o Choro de pássaros de Ubiratan Sousa, homenagem a Luiz Gonzaga em cuja gravação Dominguinhos desfilou seu talento: “Galo de campina soltou/ sabiá escutou e transmitiu/ que o Dominguinhos/ disse adeus, partiu”.