Reinventando Machado

O filho de Machado de Assis. Capa. Reprodução
O filho de Machado de Assis. Capa. Reprodução

O mineiro Luiz Vilela é “um dos maiores” frasistas da literatura brasileira. Mais uma prova disso são os diálogos de O filho de Machado de Assis [Record, 2016, 127 p.; leia um trecho], novela inteiramente construída a partir de uma conversa entre um professor – Simão, não por acaso nome do protagonista de O alienista (1882) – e um aluno, Telêmaco – na mitologia grega, filho de Ulisses, que cresce na ausência da figura paterna –, apelidado Mac.

A conversa gira em torno da descoberta do professor em uma pesquisa na Biblioteca Nacional: um filho de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), um dos mais geniais escritores brasileiros – o professor refuta o “troféu” de “o maior”, indagando ao aluno se este tem “régua de medir escritor”, vide as aspas do primeiro parágrafo desta resenha. A desconstrução de mitos e unanimidades é uma constante ao longo da novela.

A descoberta contraria o “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, uma das não poucas passagens memoráveis de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), um dos clássicos do bruxo do Cosme Velho.

Com 50 anos de carreira literária, iniciada em 1967 com o volume de contos Tremor de terra, Vilela tem domínio absoluto do ofício. O ritmo da narrativa de O filho de Machado de Assis – o próprio diálogo entre seus protagonistas – é muito bem construído e bem humorado.

Se do autor já se disse que escreve aquilo que gostaríamos de escrever, é impossível ao leitor – mesmo que conheça nada de Machado de Assis – não se identificar com a conversa de professor e aluno, sobretudo pelas piadas infames que a permeiam.

Além do sarro com o politicamente correto – sem soar politicamente incorreto – há passagens em que nos pegamos rindo e pensando: como é que um respeitável professor aposentado confia em aluno aparentemente tão comum? – para não dizer tolo. Ou, antes: como é que um escritor transforma uma besteira dessas em literatura? Quase como alçar ao status de obra prima a piada do pavê.

Não pense o leitor, no entanto, estar diante de algo muito fácil. O filho de Machado de Assis é permeada de referências sutis à obra do fundador da Academia Brasileira de Letras – ao academicismo de qualquer ordem também sobram críticas.

Vilela é um iconoclasta, como seus personagens – o professor duvida até mesmo do enforcamento de Tiradentes. Ao evocar, desde o título, uma personalidade falecida há mais de 100 anos, demonstra, numa época de falência das instituições nacionais, a atualidade e o vigor de sua prosa.

Um blogueiro na biblioteca

Há quase um ano, salvo melhor juízo, tomei conhecimento do Cândido, jornal que a Biblioteca Pública do Paraná estava lançando à época. Fã confesso de Paulo Leminski, não resisti, ao ver uma caricatura sua na capa de estreia, a ligar para a BPP e ser simpaticamente atendido por um homem cujo nome não lembro agora.

Disse-lhe que era de São Luís, Maranhão, e que gostaria de receber o jornal. Ele anotou meu endereço e disse que meu nome não era estranho, que já havia lido meu blogue. Li o primeiro número do Cândido pela internet e este cuja capa é estampada pelo Leminski é o único que não tenho em minha coleção. O 2 demoraria a chegar e cheguei mesmo a pensar que aquela simpatia toda ao telefone havia sido apenas educação. O que não seria pouco.

Enganei-me, ainda bem. Mês após mês tenho recebido em minha casa um dos 5.000 exemplares de sua tiragem. Pode parecer bobagem, mas sinto-me honrado. Um jornal bonito, de capas coloridas e miolo em p&b, com conteúdo de primeira. Dedicado quase exclusivamente à literatura, já passaram por suas páginas nomes como Marçal Aquino, João Paulo Cuenca, Cadão Volpato, Sérgio Sant’Anna, Fernando Morais, André Dahmer, Joca Reiners Terron, Luiz Vilela, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Reinaldo Moraes, entre muitos outros, para citar apenas alguns que me vêm à cabeça imediatamente, sem eu correr ali à bagunça das estantes para relembrar.

Cândido, o nome do jornal, é homenagem a “Cândido Lopes, que hoje dá nome à rua em que está localizada a Biblioteca Pública do Paraná. Lopes fundou o jornal Dezenove de Dezembro, em 1854, o primeiro impresso paranaense”, aspas extraídas de Pelas calçadas da literatura, texto assinado por Guilherme Magalhães no nº. 10 (maio de 2012, p. 13) do citado jornal literário.

19 de dezembro é a data em que nasci, quase século e meio depois, coincidência que eu só viria a descobrir ao ter em mãos aquele número do jornal. Mas não seria a primeira: em maio passado minha esposa viajou à capital paranaense para apresentar um trabalho em um seminário de Direitos Humanos. Dois dias depois, às próprias custas s/a, juntei-me a ela para um turismo na cidade em que, para meu confesso espanto, Leminski é pouco lembrado. Antes da outra coincidência, volto a Guilherme Magalhães, no citado texto: “Por outro lado, figuras de proa da literatura paranaense dos últimos 50 anos também ainda não tiveram a honra de virar logradouro, o que pode denotar o distanciamento do tempo como um critério para as homenagens. Jamil Snege, Paulo Leminski (que virou nome de pedreira e de escola, mas não de rua) e Manoel Carlos Karam (que dá nome a uma casa de leitura) ainda não foram lembrados pelos políticos curitibanos, responsáveis por propor nomes a logradouros” (p. 13). Visitei a belíssima Pedreira Paulo Leminski e sua Ópera de Arame, além de ter comido e bebido na Manoel Carlos Karam, praça de alimentação do encantador Mercado Público Municipal, passeio que recomendo a qualquer turista, com pouca grana como eu ou não.

A outra coincidência conto agora. Chegando em Curitiba, calhou de o ônibus que me levou até o hotel parar justo em frente à BPP – hospedei-me bastante perto dela –; uma visita ao órgão público já estava planejada, ao menos em minha cabeça. Num sábado de maio pela manhã – sim, em Curitiba a Biblioteca Pública funciona aos sábados de manhã – apareci por lá e pedi para falar com alguém responsável pelo Cândido. A recepção me encaminhou a Tatijane Albach, que me dispensou enorme atenção e simpatia, levou-me para conhecer parte das dependências da BPP, que passava por reforma e tinha alguns setores fechados, e ainda me deu alguns presentinhos, além de apresentar-me alguns projetos.

O Um escritor na biblioteca, a plateia conversa com um escritor, com moderação de um jornalista, é uma reedição de projeto da década de 1980; os melhores momentos dos debate-papos têm sido reproduzidos Cândido após Cândido, devendo virar livro em breve; assim como deve ganhar reedição um livro já publicado com os participantes de há 20 e poucos, 30 anos.

Tatijane brindou-me ainda com um exemplar de Helena (ano 1, número zero, junho de 2012), revistão colorido de 114 páginas, anunciada na contracapa como “um pouco de muito da nossa cultura”, o nome, uma homenagem à poeta Helena Kolody. “A gente tem uma tradição de publicações com nome de homens, o Cândido, a Joaquim [revista editada há tempos por Dalton Trevisan]”, ela deve ter citado outros, “agora a Helena, uma mulher”, explicou anunciando a publicação trimestral da BPP.

Voltei ao hotel para guardar o pacote com Helena e alguns exemplares do Cândido antes de prosseguir o passeio com a esposa; Tatijane desceu as escadas e foi comprar pão de queijo para um café com que ajudaria a espantar o frio nem tão rigoroso assim que fazia aquela manhã em Curitiba.

Tatijane e o blogueiro, quando este visitou a BPP