O som político de Dicy

A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos
A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Rosa semba [2016, em CD e LP] é a metáfora perfeita para o canto de Dicy (que não usa o sobrenome Rocha para assinar seu disco de estreia). Semba é tanto a origem do centenário samba, gênero de música popular que é um dos sinônimos de brasilidade, quanto “música e dança de par tradicionais de Angola”, conforme o dicionário. A flor que precede a semba no título tem beleza, perfume e delicadeza inconfundíveis, mas a estes atributos somam-se os espinhos.

A voz bela e doce de Dicy está a serviço da denúncia social, o que extrapola inclusive sua carreira artística – com formação em comunicação e marketing, ela é assessora de comunicação do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), entidade parceira na realização do disco, e da Rede Amiga da Criança –, sem fazer de sua obra mero panfleto ou coisa que o valha.

A negritude fala alto e as 10 faixas de Rosa semba remetem às origens do axé baiano, quando as letras do gênero ainda tinham um forte conteúdo político de acentuada denúncia social, sobretudo sobre a realidade da população negra habitante das periferias de Salvador e da Bahia, mas não só.

Um conjunto de composições de maranhenses reaproxima musicalmente o Maranhão da África ancestral. Voltando à faixa-título, seu subtítulo também ajuda a entender o conjunto, no feliz trocadilho de Beto Ehongue, seu autor: “Menina que Deus crioula”. “O samba que você me convidou estava bom/ não sei sambar mas ando pela rua de Nagô/ saúde no pé e boa da cabeça menina que Deus/ crioula/ Rosa semba”, diz a letra.

Acompanhada por Gerson da Conceição (contrabaixo e guitarra; voz em Jolie e Equinócio), Guillermo Caso (guitarra em Jolie), Isaías Alves (bateria), Javier Sirera (teclados), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Josemar Reis (percussão em Jolie), Luiz Cláudio (percussão) e Marcos Lussaray (guitarra, violão, violão acústico, banjo), Dicy canta as coisas simples de seu lugar, entre lavadeiras na beira do rio (Lavadeira, de Beto Ehongue) e a cheia dos campos naturais da Baixada maranhense e o cotidiano de pescadores (Baixada, dela, em parceria com o marido-produtor Joaquim Zion, e Adeus campo, de Tataqui), além de exaltar a beleza da mulher negra (Neguinha do carrapatal, de João Madson e Gerson da Conceição, e Quem é essa nega, de João Simas).

Rosa semba tem ainda poema do chileno Pablo Neruda (1904-1973) musicado por Dicy (Se cada dia cai, extraído de Últimos poemas – O mar e os sinos, traduzido por Luiz de Miranda), e versão de André Gabeh para Ain’t no Sunshine when she’s gone (Bill Waters), que virou Não há nada em seu lugar, poderoso reggae que abre o disco, cerzido entre sons que irmanam África e Maranhão, ambos negros, nunca é demais frisar.

Equinócio (Eliseu Cardoso) é a síntese do som político de Dicy: música para dançar e pensar, um passeio musical e geográfico por cidades (negras) de Camarões, Costa do Marfim, Togo, Guiné, Níger, Guiné Equatorial, Gana e Tanzânia. Utópica e onírica, a música versa sobre o fim do racismo no mundo: “minha negra, minha preta meu amor/ dançai este tambor/ o continente negro dá o seu perdão/ ao mundo, a escravidão”.

Ouça Rosa semba, o disco:

Eu nem sei quantas vezes reencarnei esse ano*

Faça como eu que vou como estou porque só o que pode acontecer/ é os “pingo” da chuva me molhar (Os “pingo” da chuva, 1974)

Depois de um bem sucedido tributo ao capixaba Sérgio Sampaio, apresentado por duas vezes em São Luís, a cantora Tássia Campos volta aos palcos, desta vez para homenagear Os Novos Baianos. Tanto o primeiro quanto a trupe musical de Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes e Baby à época Consuelo são marcas fundamentais na formação musical de Tássia, cuja estreia em disco deve acontecer em breve.

Casada com o contrabaixista João Paulo, com quem tem um filho, Felipe, ela divide os amores entre eles e a música. O marido toca na banda que a acompanhará em Tássia Campos F. C. – Sorrir e cantar como Novos Baianos, longo título do show que pega emprestado os títulos do disco de 1973 dOs Novos Baianos [Novos Baianos F. C.] e de sua faixa de abertura [Sorrir e cantar como Bahia]. A formação se completa com Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Neto (flauta) e Joel Monteiro (bateria). No palco, a cantora contará ainda com as participações especiais de Alexander Carvalho (ex-Daphne), Djalma Lúcio (ex-Catarina Mina), Lena Machado e Yuri Brito. A abertura fica por conta da sempre competente, pesquisada e animada discotecagem do DJ Franklin, parceiro da cantora já de outras empreitadas.

Com um time desses não deve ser à toa que Tássia carrega o sobrenome Campos: predestinada, como em outros shows/partidas, deve receber muitos aplausos da plateia/torcida a cada música/drible. É gol!

Tássia Campos F. C. – Sorrir e cantar como Novos Baianos acontece nesta quinta-feira (20), às 23h, no Odeon Sabor e Arte (Rua da Palma, 217, Praia Grande). Os ingressos custam R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local. Sobre o show e o futuro, a cantora conversou com este blogue.

ENTREVISTA: TÁSSIA CAMPOS
A ZEMA RIBEIRO

ZEMA RIBEIRO – Para começar com um trocadilho futebolístico, que seleção a plateia pode esperar, em termos de repertório?

TÁSSIA CAMPOS – O repertório faz um passeio pelas minhas predileções na discografia dOs Novos Baianos. O show ‘tá todo feliz, cheio de boas mensagens. Rearranjamos algumas coisas, também tem momentos onde apenas alguns instrumentos tocam…

A banda que vai te acompanhar não tem violão ou cavaquinho na formação, instrumentos fundamentais na musicalidade dOs Novos Baianos. Não é um pouco “arriscoso” recriá-los sem os dois instrumentos ou faz parte do processo de, digamos, desconstrução que pretendes levar ao palco? Todos os meus shows têm um padrão fiel à proposta estética do meu trabalho. Confesso que se eu incorporasse cavaquinho, violão e pandeiro no show deixaria de ser eu. Quando tu me perguntou sobre o set list eu esqueci de dizer que a escolha, além de delicada, se tornava mais difícil, pois eu tinha que escolher algo que funcionasse com o formato que tenho. O show vai ser mais elétrico mesmo. E como te disse: os rearranjos fazem isso pela música. Recriá-las, dar uma cara nova, mas sem que ela perca a essência é o desafio do intérprete. Conto com João e Edinho pra pensarem junto comigo e definirmos os motes. Eles são sensíveis e como nossa linguagem é parecida eles incorporam e executam com maestria. O risco a gente sempre corre, mas também a gente se adapta e faz as coisas com os recursos que temos. Quem for ao show pode esperar um show feito com carinho e cuidado.

Os Novos Baianos significaram um sopro de frescor na música brasileira, sobretudo pela fusão de rock e choro que impregna seus principais discos, sobretudo Acabou Chorare (1972), que completa 40 anos. O que o show trará dessa fusão? E o que há de novidades em meio aos rearranjos? Sempre trouxe comigo o que tem de subjetivo no trabalho dOs Novos Baianos e embora não tenha vivido esse tempo, os discos foram importantes, pois reafirmavam meus ideais de liberdade, a minha queda pela contracultura e, claro, pelo Tropicalismo. No show, as tentativas em rearranjar as melodias “empenadas” de Moraes Moreira, resultaram em algo menos “empenado”. A gente deu uma limpada e sofisticada na sonoridade, por que os trabalhos dos caras, quando não são apenas arranjos de violão, as músicas contêm muita informação… Essa limpada serve pra imprimir minha identidade nas canções, o que é algo que busco sempre quando interpreto um trabalho. Tenho uma predileção pela simplicidade, mas sem perder a sofisticação musical. É uma encrenca, mas rolou naturalmente.

Teu disco de estreia, hoje em fase de gravação, trará uma música de Moraes Moreira, da fase pós-Novos Baianos, elogiada pelo próprio. O que significou pra ti gravá-la e receber este elogio empolgado do autor? Ela entra no show? A música se chama Nesse mar, nessa ilha [a sexta faixa de Moraes Moreira, de 1975, primeiro disco solo dele]. Conheci através de um amigo que disse que queria ouvir a canção na minha voz. Achei de uma delicadeza e poesia tão profunda que decidi gravar. Então conheci o Edu Krieger, um sambista da nova geração carioca. A gente cantou junto e ele se interessou pelo meu trabalho. Daí ele sugeriu uma parceria e eu fiquei de pensar em algo… Quando eu ouvi a gravação do Moraes Moreira, pensei logo no sete cordas do Edu e quando ele veio aqui em São Luis novamente, gravamos a música. Ensaiamos no hotel em que ele ‘tava hospedado e o Edu disse: ‘vamo’ gravar com o axé do compositor? Então ele ligou pro Moraes Moreira e conversamos ali por uns 15 minutos. Ele me perguntou sobre a música e disse: “canta pra eu lembrar?” [risos]. Ele nem se lembrava da música, mas ficou contente com minha escolha e disse que só deixava eu gravar com uma condição: que depois mostrasse pra ele, porque ele ficou curioso. Geralmente os cantores e cantoras que gravam Moraes Moreira gravam as mais conhecidas e essa é praticamente inédita. Depois de gravar, fizemos uma pré e eu mandei, sem mix nem nada. Receber o elogio dele foi emocionante, até por que não foi um elogio vazio. Ele me apontou critérios, prestou atenção em como me apropriei da canção, talvez seja a sensação que tenho sentido de ilha mesmo. Ela não entra no show de quinta, porque ainda quero deixá-la inédita.

Um show com o repertório inteiramente dedicado aOs Novos Baianos é o segundo tributo que tu presta em pouco tempo. Antes, o escolhido foi Sérgio Sampaio, dito “maldito”, pouco conhecido, embora fundamental na formação musical de muitos artistas contemporâneos importantes. Os Novos Baianos são mais festejados, conhecidos, populares, apesar de passados 40 anos do lançamento de seu mais festejado, conhecido e popular disco. O nome do show, aliás, é chupado do título de um disco deles, Novos Baianos F. C., e da primeira música desse disco, Sorrir e cantar como Bahia. Pela fuga da obviedade de que tu já falou, o que a plateia pode esperar, em termos de seleção de repertório? Foi fácil selecionar? Tu escolheste sozinha o set list? Como se deu esse processo? Eu decidi esse ano prestar homenagens a compositores que foram importantes pra feitura da minha fisionomia artística. Sérgio Sampaio é essencial, pois é o cara com que me identifico no que ele quer dizer, a poesia é rica e tem um efeito forte pr’aquilo que acredito na arte, que é a fusão de qualidade e sentimento. O Sérgio Sampaio, embora lado b, fazia melodias, arranjos bonitos, linhas melódicas que fugiam da obviedade e claro, as letras com muitas verdades. Sempre me preocupo com a mensagem das canções. Embora diferentes um do outro, Sérgio Sampaio e os Novos Baianos têm em comum essa fuga dos clichês, essa observação da vida por outros ângulos, um recorte da realidade otimista. Eu venho tentando ser otimista. É uma questão de saúde pra mim acreditar no que canto. Se até meus gritos em silêncio me deixam rouca, que eu grite em alto e bom som o que acredito através das canções, já que vou ficar rouca de qualquer jeito. O título Tássia Campos F. C. foi uma brincadeira, roubando a capa do disco mesmo… [risos] e o subtítulo Sorrir e cantar como Novos Baianos é alusão a Sorrir e cantar como Bahia, uma das minhas músicas preferidas daquele LP. Decidir a set list é sempre delicado, principalmente de compositores com obra vasta e atemporal, como é o caso dos outros compositores que já homenageei. Em meus shows sempre convido participações, colegas de profissão ou mesmo quem eu ache que executaria a canção a contento. Penso sempre em nomes inusitados que geralmente não estão associados ao estilo desenvolvido por mim e pra isso tenho que pensar em músicas que casem com a proposta do show e que eu imagino o artista que vai cantar comigo. É muito mais subjetivo do que prático. É intuitivo e sempre deu certo.

Uma aura mística perpassa toda a história dOs Novos Baianos, a vida em comunidade, o uso de drogas, o encontro com João Gilberto, que lhes apresentou o Brasil Pandeiro de Assis Valente… Você fala em subjetividade e intuição e alia isso ao domínio das técnicas musicais, unindo o saber cantar ao bom gosto. Se é que é possível calcular, quanto cada coisa é importante para você e, na sua opinião, para os artistas da música, em geral? Éguas!!! Os Novos Baianos viveram uma utopia que deu certo por um tempo determinado. Quando vi o [documentário Filhos de João – O] Admirável Mundo Novo Baiano [dirigido por Henrique Dantas], o Tom Zé, em seu depoimento disse que Os Novos Baianos realizaram uma tarefa nunca antes vista, não sei se exatamente nessas palavras, mas foi este o sentido, e eu concordo. Quando te falei em contracultura é exatamente isso da utopia. Deram um upgrade no estilo de vida underground, alternativo. Creio que “libertário” é a palavra. Fazer música libertária e é bem aí que fico fascinada. Pois eles viveram isso como verdade e deu certo. E quanto ao uso de drogas não sei avaliar bem, pois não acredito que as drogas tenham comprometido a qualidade musical deles. Pro meu trabalho e pro que busco pra ele tem sido superpossível aliar intuição e ainda assim manter uma qualidade técnica. No tempo em que artistas “moderninhos” lançam cds audíveis mas fazem um som ao vivo completamente comprometido, quanto à execução de seus trabalhos, seja por falta de experiência, cancha ou estudo mesmo, prefiro me manter à margem disso, procurando ser o melhor que posso ao vivo. Acredito muito que o palco é o solo sagrado do artista e lá ele tem que procurar ser profissional. Por isso, chamo músicos profissionais pra fazerem os shows comigo, a gente se encontrou e todos estamos comprometidos com o trabalho. A banda é como a roupa que me veste e, claro, se ‘tou com uma boa banda ‘tou bem vestida e as coisas acontecem com mais segurança. É meu compromisso com a canção. Não dá pra matar música alheia. Ou faço um show direito, ensaiado, bem tocado e redondo ou não saio de casa. E meu amor pela música é como o amor que sinto pelo meu filho, é imaculado. Mesmo com toda dedicação em fazer um trabalho tecnicamente aceitável, audível e que satisfaça minhas aspirações, o amor prevalece e creio que é isso que me faz buscar o fazer bem feito sempre. Ainda estou engatinhando, mas daqui a um tempo já vai dar pra caminhar.

O que o público pode esperar de Tássia Campos a curto, médio e longo prazo? Esse ano tem sido bom, produtivo. Fiz pelo menos um show por mês desde março. É gratificante poder construir um público e me sentir responsável por ele. As coisas têm acontecido de forma natural e todos os trabalhos que fiz este ano têm servido pra amadurecer e embora eu tenha convites pra fazer shows fora daqui ainda não sentia que o trabalho estava pronto. Mas agora está. Acredito ser importante as coisas acontecerem a seu tempo. Como já tenho interiormente bem definido o que quero, agora é a hora de olhar pra frente. Depois do show do dia 20, ainda tenho apresentações no projeto BR-135, capitaneado por Alê Muniz e Luciana Simões, no Ceprama. Esse show vai ter um formato estranho, pois não pude levar a banda completa. Fiz um novo show pra ocasião, um repertório bem bacana, pra funcionar só com guitarra semiacústica e baixo. E tenho também show na 7ª. Mostra Sesc Guajajara de Artes e é com essa apresentação que já inicio os trabalhos do disco que tá saindo, um show inédito e que pretendo trabalhar por todo 2013, aqui e em outras cidades. O que o público pode esperar de mim? Uma artista mais madura, com uma sonoridade mais firme e coesa. Embora tenha 26 anos apenas, não me considero uma moderninha, eu gosto das coisas bem feitas. Acho que isso é sinal do meu respeito pelo público e o comprometimento em estar levando às pessoas muito mais que diversão. Claro que me divirto estando no palco, mas a música é a minha vida e eu levo tudo isso muito a sério. O que o público pode esperar é alguém que não tá brincando de música. E a médio prazo é viajar mais, ir mostrar meu trabalho em outras cidades. Começaremos por Brasília, depois a gente vai descendo. Em dezembro começam as correrias pra uma turnê de bolso. Pretendo começar a escrever um blog pra falar de cada cidade. Lembrando que esses shows estão em negociação e são de caráter independente. Não tenho financiamento de editais, nem de bancos, nem de empresas. Claro que não fecho as portas pra isso, mas por enquanto vou na raça mesmo, a convite de casas de shows. As expectativas pra este ano e pro próximo são as melhores e conto com o apoio do público, dos blogueiros e dos amigos pra continuar a caminhada numa cadeia produtiva e fortalecer o tecido cultural, levando a música feita aqui pra troar nos ouvidos do país todo! Tenho muito receio de que a sensação insular de São Luis não me deixe sentir o sopro dos ventos do continente. Acho que todo artista tem que subir em outros palcos. Além de talento e coragem o artista, na minha opinião, tem que ser de qualquer lugar. Estou otimista com o futuro! Quero viver dignamente fazendo o que amo.

*o título é surrupiado da carta de Galvão (Joãozinho Trepidação) a Augusto e Aroldo (sic) de Campos, no disco de 1973. O P. S. diz assim: “Eu tinha vontade de mandar tudo isso pra João Gilberto por nada.

Luta longa

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO – Mês sim, mês não, o caso volta ao noticiário: o processo movido há 20 anos por João Gilberto contra a gravadora EMI por esta ter espremido seus três LPs da Odeon num LP duplo (“O Mito”) e num CD simples (“The Legendary João Gilberto”), “apressando” algumas faixas para encurtá-las, adulterando sua sonoridade e alterando a ordem original para caberem naqueles formatos. Músicos foram chamados a ouvir esses discos e deram razão a João Gilberto.

Enquanto o processo não se resolve, os três discos -“Chega de Saudade”, 1959, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, 1960, e “João Gilberto”, 1961- ficam impedidos de sair no Brasil, em CD ou no que for. Com isso, o país da bossa nova é o único proibido de ouvir os discos que formam o seu cânone. Equivale a proibir os meninos brasileiros de ler o Machado de “Dom Casmurro”, “Brás Cubas” e “Quincas Borba”.

Já na Europa qualquer selo se sente à vontade para lançá-los em qualquer suporte. O Él/Cherry, por exemplo, soltou os três LPs em CDs individuais, com as capas originais e enriquecendo-os com gravações raras da época, por outros cantores, todas do acervo da EMI.

É uma edição boa, mas não se compara à da Doxy, que os relançou em LPs mesmo, só que em vinil de 180 gramas (ou seja, virgem). O som é melhor que o dos próprios LPs originais (que a Odeon, na época, certamente prensou em vinil reciclado). E cada LP traz uma cópia-bônus em CD.

Os três discos de João Gilberto estão proibidos no Brasil, mas isso não se aplica ao seu conteúdo. Suas faixas podem ser “baixadas”, avulsas, por quem quiser -tanto as legítimas, que mudaram a história da música brasileira, quanto as adulteradas pela gravadora. Um dia já não se saberá qual é qual, e -isso é que é triste- talvez não faça muita diferença. João Gilberto terá lutado em vão.

[Outra da Folha de S. Paulo de hoje, por que o assunto vale muito a pena, Ruy Castro é autoridade no assunto e Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto ainda ecoa em minha cabeça]