Touchê encaixotado

Passeios pela História e Cultura do Maranhão. Capa. Reprodução
Passeios pela História e Cultura do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Hoje (12), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, o escritor Wilson Marques lança uma caixa de livros reunindo sua produção infantil. O projeto, Passeios pela História e Cultura do Maranhão, reúne os livros Touchê: uma aventura pela cidade dos azulejos, Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada, Touchê e a Rafa em A revolta de Beckman e Touchê e a Rafa em A invasão francesa e a fundação de São Luís.

Cinco mil exemplares da caixa serão doados a faróis da educação e escolas comunitárias de São Luís, mas quem chegar ao lançamento, hoje, poderá comprá-la ao preço promocional de R$ 20,00 – isso mesmo. O autor cita a importância da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – a caixa tem patrocínio da Cemar, através do mecanismo público – ao possibilitar a doação e a venda a preço de custo das obras.

Sucesso de público, adotadas em várias escolas particulares de São Luís e em escolas públicas em São Paulo, as novas edições das obras de Wilson, embaladas na caixa que ele lança hoje, são ilustradas por Kirlley Veloso, egresso do mercado publicitário que montou seu próprio estúdio, hoje atendendo diversas empresas.

A noite de lançamento de hoje contará com apresentação do grupo Xama Teatro, encenando Histórias da Ilha, peça baseada nos livros Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada.

É também o início de uma comemoração de 10 anos de parceria entre o autor e o grupo. Eles realizarão 24 caravanas literárias lançando a caixa, sempre com a encenação da peça, bate-papo literário e a entrega das obras a bibliotecas, incluindo o BiblioSesc, uma biblioteca móvel do Sesc/MA – parceiro do projeto – instalada em um caminhão.

O lugar dos livros

“Na minha biblioteca tem os livros que estão comigo desde a adolescência e os chamados livros do coração, aqueles que li e tenho a esperança de reler, e ainda aqueles que comprei a partir de desejo muito forte de ler, mas que ainda não tive oportunidade de começar. Acredito que existe um tipo de livro que você precisa em determinada época. Essa obra exige uma adequação, um momento e uma hora exata para a leitura. Às vezes, você pega um livro, abre, lê duas ou três páginas e não prossegue. Depois de cinco ou seis anos, você abre aquele mesmo livro e se apaixona, lê até o final. Isso aconteceu comigo diversas vezes. Então, hesito em me livrar dos livros.”

“Sou leitor profissional, faço crítica para jornal e, por esse motivo, entrei na lista de envios das editoras. Sem pedir, recebo até 25 livros por semana em casa. E isso acaba virando um problema porque não é a toda hora que você consegue encontrar tempo para organizar e mesmo fazer uma triagem de tantos volumes.”

“Três prateleiras da minha estante quebraram por excesso de peso, e os livros estão espalhados por diversos pontos do apartamento. Comecei a fantasiar que, uma hora ou outra, o piso também vai ceder e serei responsável pela morte da família do andar de baixo, onde, inclusive, tem uma adolescente que berra o dia inteiro. Mas, apesar disso, tenho tudo bem organizado na cabeça. Se alguém precisar de um livro da minha biblioteca, é só perguntar que eu encontro. A minha organização é totalmente afetiva, não tem lógica. Na sala, devo ter uns cinco mil livros. Meu criado-mudo está uma calamidade. Outra fantasia que tenho é de morrer soterrado pelos livros do meu criado-mudo, onde deve ter uns 200 livros.”

“Traduzi para a Cosac Naify, o livro Paris não tem fim (2007), do Enrique Vila-Matas, mas eu não conhecia o autor. Depois disso, ele veio ao Brasil para participar de um evento literário, circulou e concedeu entrevistas. É comum perguntarem a um autor estrangeiro se ele conhece a literatura brasileira e, para a revista Época, ele respondeu o seguinte: “Conheço a Clarice Lispector, o Dalton Trevisan e o grande Joca Terron”. Fui o único que mereceu um adjetivo. Peguei o exemplar da revista e procurei o expediente para ver se não tinha algum amigo meu fazendo piada. Não tinha. Meses depois, recebi uma ligação telefônica de uma repórter da revista Época, a mesma que tinha entrevistado o Vila-Matas, para falar sobre um outro assunto. Perguntei a ela se o escritor catalão tinha dito aquilo mesmo. Estava em dúvida. Afinal, ele poderia ter dito “o grande Dalton Trevisan, Joca Terron” e, na edição, por descuido, o “grande” teria se aproximado de meu nome. Mas a repórter garantiu que a frase era aquela mesma e, confesso, fiquei muito feliz porque o Vila-Matas é um autor que admiro.”

“A maior probabilidade é que um livro não seja escrito. As exigências da sobrevivência, o cotidiano, tudo, absolutamente tudo, atuam contrariamente ao seu desejo de escrever. Sobrevivo da minha imagem como escritor, atuando no jornalismo, com crítica, no mercado editorial, por meio de traduções e palestras. Há todo um sistema relacionado ao universo do livro. Mas não sobrevivo diretamente da minha ficção.”

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Recebo em casa a 12ª. edição do Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná que, ao completar um ano, salta de 32 para 40 páginas dedicadas à literatura. O título deste post “trocadilha” O lugar da poesia, manchete de capa do mensal.

Leio as sete páginas com os melhores momentos de Joca Reiners Terron no Um escritor na biblioteca, e faço isso em voz alta nos trechos acima, para minha esposa, ao lado. Guardadas as devidas proporções, há um quê de Joca no blogueiro: minha modesta biblioteca, embora menor, faz minha esposa, exagero!, pensar no dia em que não poderemos entrar em casa de tantos livros (e discos e dvds), vivo da fama de blogueiro sem ganhar por isso, tendo que me virar entre assessorias e frilas, e minha citação, pelo admirado Jotabê Medeiros, em O Estado de São Paulo, em matéria sobre a subida de Nelson Jacobina, me fez sentir algo parecido com o que o autor de Sonho interrompido por guilhotina sentiu no episódio Vila-Matas.

Minha esposa vira e retruca, entre a ironia e a compreensão: “não vai te inspirar nesse cara!”

A história de joelhos

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO – Biógrafos, editores, juristas e demais interessados na liberdade de expressão reuniram-se ontem na Biblioteca Nacional para apoiar o projeto de lei do deputado federal Newton Lima Neto (PT-SP) propondo-se a corrigir os artigos 20 e 21 do Código Civil, que agridem justamente essa liberdade garantida na Constituição. Pelos ditos artigos, que pretendiam proteger as pessoas simples de exposições indevidas, as figuras públicas, inclusive as mortas, ganharam poder de autorizar ou não os livros que contam suas histórias.

Conheço bem essas “autorizações”. Uma semana antes da publicação de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, em 1995, o advogado das herdeiras do jogador -sem ter lido o livro- telefonou para ameaçar a Companhia das Letras com um processo por danos morais e falta de autorização. “Mas”, acrescentou, “tem acordo…”. Que consistia no pagamento de US$ 1 milhão, na época, R$ 1 milhão.

Significa que, com uma “autorização” desse valor, podiam-se praticar quantos danos morais se quisessem e, no caso, o biografado fosse lamber sabão. Para não abrir um precedente fatal, a editora preferiu o processo, o qual resultou na proibição do livro por um ano, arrastou-se por outros 11 e foi danoso para todos, inclusive para as pobres filhas de Garrincha. Pela ferocidade do processo, que assustou muita gente, o craque deixou de inspirar muitos subprodutos que poderiam beneficiá-las.

Uma biografia se compõe do protagonista, de uns 20 personagens secundários e de 200 ou 300 terciários. Com a interpretação que a Justiça dá hoje aos artigos 20 e 21, qualquer um desses, por mais insignificante, pode alegar que “não autorizou” sua participação ou a de seu pai ou avô no livro, e partir para a extorsão.

A cada “autorização” pedida por um biógrafo, é a história do Brasil que rasteja e se humilha.

[Folha de S. Paulo, Opinião, hoje]

Sexto Piso publica O livro uruguaio dos mortos, de Mario Bellatin

RANA GUSTAVO
TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O livro uruguaio dos mortos [Sexto Piso, 280 p., 2012] talvez seja a obra mais importante já escrita por Mario Bellatin. Sua sobrecarregada imaginação perturba a fronteira entre realidade e ficção, tendo como resultado uma originalidade sem limites, girando em torno de certas perguntas sem resposta, como a que em algum momento inesperado faz o narrador do relato: “Tua imagem no espelho te reflete?”

Mario Bellatin escreve para um alguém misterioso que só viu uma vez, com quem desde então dialoga sobre os mistérios da ressurreição da carne. Conta em detalhes eventos que habitam seu mundo particular, onde o tempo nem avança nem retrocede, como o espaço também não está em um lugar específico. O livro uruguaio dos mortos é uma espécie de espiral que ao mesmo tempo dá voltas sobre certos eixos recorrentes dispara em todas as direções alcançadas pela prodigiosa capacidade de observação do autor.

Sobre o autor | Mario Bellatin nasceu no México, estudou Teologia e Cinema e pratica sufismo. Tem mais de 40 livros publicados [a Cosacnaify lançou, no Brasil, Flores e Cães heróis] e já foi traduzido para 15 idiomas. Venceu os prêmios Xavier Villaurrutia, Mazatlán, Barbara Gittings Literature Award e o Premio de Narrativa Antonin Artaud por Disecado [Sexto Piso]. Atualmente é curador honorário do Documenta 12. Entre seus projetos mais importantes, fora a literatura, está a Escola Dinâmica de Escritores e Os Cem Mil Livros de Bellatin.

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Arrisquei-me a traduzir o pequeno texto acima para compartilhar mais um lançamento deste escritor que tanto me fascinou desde que o descobri em Flores e Cães heróis, cuja leitura recomendo. Bom saber que já publicou mais de 40 livros, ficando, de já, na torcida para que mais obras suas cheguem ao português, ao Brasil. Colombo, parceiro de devoção bellatinesca, este post é pra ti, com o perdão de qualquer deslize en la traducción. Ao Joca Reiners Terron, que escreveu o posfácio de Flores, agradecimentos pelo link e paciência no tuiter.

Autógrafos de professores. Em caneta azul, por favor!

O convite é feião (como parece “ter” que ser qualquer coisa que tenha alguma oficialidade) e traz erros nos títulos das obras publicadas pelo Centro de Ciências Sociais (CCSo) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o que, a meu ver, pega muito mal. Desejo aos livros melhor sorte, em ambos os aspectos (revisão & projeto gráfico).

Há títulos interessantes e certamente os conteúdos o são e eu destaco os dos queridos professores amigos: Rádios comunitárias no Maranhão: histórias, avanços e contradições na luta pela democratização da comunicação, de Ed Wilson Ferreira Araújo, Diluindo fronteiras: hibridizações entre o real e o ficcional na narrativa da telenovela, este sim o título correto do livro de Larissa Leda Fonseca Rocha (destes dois já fui aluno), Pobreza, resistência e enfrentamento no Estado do Maranhão, este sim o título correto do livro de Lília Penha Viana Silva, presidente licenciada do Conselho Regional de Serviço Social – 2ª. Região/Maranhão (CRESS/MA), para quem “compus” o jingle-brinquedo de (nunca usado na) campanha: “para o CRESS ser feliz, qual é a senha?/ Lília Penha!/ Lília Penha!”, tremenda molecagem, voltemos aos livros, Jovens, imaginários de paz e televisão, de Vera Lúcia Rolim Salles, com quem tive a honra de trabalhar durante o Laboratório Internacional de Mídias Livres em São Luís (2009), que, infelizmente, ficou em edição única, e Discurso jornalístico, política e liderança no Brasil (1985-1990), de Joanita Mota de Ataíde, responsável por minha mais recente ida à UFMA (já faz um tempinho, é verdade) para parlar com estudantes sobre jornalismo cultural.

Mais infos na imagem que abre o post, cliquem para ampliar, tudo que tenho sobre a noite coletiva de autógrafos.

Velhas variações sobre a produção contemporânea

Gerúndio Jazz

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele texto
enquanto lota o Especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – Alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma das mãos
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro – Agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que nem deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém, no quinto sono,
deve estar virando para o outro lado;
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

Poema do querido Marcelo Montenegro, que, grande notícia!, lança em novembro que vem Garagem Lírica e relança no mesmo mês o esgotado e ótimo Orfanato Portátil. Do livro novo e do inédito, alguns poemas compõem Matinê (título de outro belo poema que está lá), coletânea distribuída gratuitamente em SP e que pode ser baixada em pdf, a exemplo de outros títulos da coleção Poesia Viva.

Malditos, mas sem perder a ternura

DIOGO GUEDES

Comparada com o passado, a época atual lida melhor com o choque e as quebras de convenção. Tanto que a ideia de algo maldito, renegado, uma constante na história da literatura, hoje parece bem mais rara – mesmo as obras que rompem com a moral, com as convenções estéticas e com os paradigmas do tempo atual são facilmente aceitas, concorrem a prêmios disputadíssimos e recebem críticas elogiosas até mesmo de acadêmicos respeitados. Apesar disso, a Companhia das Letras decidiu agora lançar uma coleção, a Má Companhia, apenas com livros polêmicos, politicamente incorretos e “malditos”. Algo estranho, quando o controverso parece cada vez mais aceito.

Não que o “maldito” não exista mais. Na verdade, escolher o que merece o adjetivo parece ser algo como tachar algum autor de “poeta marginal”. Nos dois casos, é claro que existem traços que levam leitores, crítica ou mercado a fazerem a relação entre os vagos conceitos e a obra. O problema é que o termo acaba funcionando como uma prisão tautológica, uma definição e um limite que o escritor vai passar a carreira tentando superar. Uns parecem conformados e até satisfeitos com a alcunha, mas, mesmo para esses, ela normalmente não passa mais do que um recurso preguiçoso para estabelecer a imagem contracultural de sua produção.

Joca Reiners Terron, Reinaldo Moraes e Marçal Aquino: seus livros são boa companhia

Até agora, o selo da editora paulista possui três títulos lançados, além da confirmação de lançamentos futuros. A coleção começou com Tanto faz e Abacaxi, obras de Reinaldo Moraes da década de 1980 reunidas em um único volume, e O invasor, de Marçal Aquino, que completou dez anos de sua primeira publicação. Os dois livros, como propõe a coleção, saíram em formato pocket, com um belo projeto gráfico do Estúdio Retina 78.

Em julho, mais um título: Sonetos Luxuriosos, de Pietro Aretino, com tradução e apresentação do falecido poeta José Paulo Paes. A obra, escrita originalmente no século 19, mostra bem o movimento da coleção de referir-se a livros que se marcam como polêmicos e malditos em relação a um contexto específico, mas que conseguem carregar essa fama até os dias atuais.

Isso parece evidente mesmo nos lançamentos mais recentes, como O invasor e Não há nada lá (2001), de Joca Reiners Terron, que deve sair neste último semestre do ano. Eles se reportam sempre ao seu momento histórico e à reação da crítica e do público daquele instante, ao que se convencionava como status quo literário da época.

Segundo Joca Reiners, a ideia da coleção da Companhia das Letras veio de um jantar com o fundador da editora, Luiz Schwarcz, e Marçal Aquino. “Eu vinha fazendo a piada de que criaria uma nova editora chamada de Má Companhia das Letras desde uma conversa que tive com o escritor Paulo Sandrini no Encontros de Interrogação, evento no Itaú Cultural em 2004”, lembra Joca Reiners. A brincadeira incluía imaginar versões “maléficas” dos elegantes logos da casa, com aviões explodindo e carros colidindo. “No jantar, depois de uns goles, arrisquei contar a piada ao Luiz. Para minha surpresa, ele a levou a sério”.

Maldições Literárias – Em entrevista ao Pernambuco de fevereiro, Reinaldo Moraes comentou parte do processo de releitura e re-edição de suas duas obras. Ambas contam com o mesmo personagem, o jornalista Ricardo de Melo, narrando suas vivências com mulheres, porres e escatologias – como o próprio autor descreve, “um Ulisses avacalhado que vive atrás de umas nereidas”. “Só dei umas garibadas pontuais no texto, sem mexer na estrutura das frases nem nos coloquialismos ‘de épóca’. Mexi onde achei legal mexer pro texto fluir e ‘dizer’ melhor. Como dizia o Murilo Mendes, outro grande mexedor de obras relançadas, posso mexer à vontade, pois não sou meu sobrevivente, sou meu contemporâneo”, revelou o escritor na ocasião.

Já o primeiro lançamento de O invasor, de Marçal Aquino, se deu simultaneamente à finalização do filme do seu parceiro Beto Brant. Com a edição anterior esgotada, o livro volta às prateleiras acompanhado do roteiro da película e de fotos da filmagem. A obra é descrita pelo escritor como um “policial puro-sangue”, tratando, com um ponto de vista pessoal, dos planos de dois engenheiros paulistas para matar seu sócio.

Não há nada lá, de Joca Reiners, traz em seu próprio enredo as marcas do adjetivo “maldito”. William Burroughs, Rimbaud, Raymond Roussel, Aleister Crowley e Torquato Neto são alguns dos interlocutores da obra, marcada por uma prosa ousada e experimental . “O livro trata de preocupações muito em pauta na virada do século, como a do fim do mundo, a da extinção do livro etc. Foi escrito sob essas condições”, descreve. Segundo ele, a obra ainda faz a defesa de uma literatura imaginativa, em detrimentos dos valores jornalísticos e naturalistas – para a nova versão, recebeu uma apresentação bastante elogiosa assinada pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas.

Como é de se imaginar, republicar o texto finalizado há dez anos trouxe alguns incômodos. “É muito difícil. Sinto grande dificuldade em reler coisas antigas. É como se ver numa foto na qual você não se reconhece mais”, revela Joca Reiners. O livro, segundo ele, traz as marcas de uma época em que ele levava sua “tendência à pompa” a sério, o que levou ao corte de alguns excessos e à revisão de frases, buscando uma maior clareza.

Sobre o selo que ajudou involuntariamente a criar, o escritor diz não conseguir enxergar o que há de exatamente em comum entre sua obra e os demais títulos da coleção. Para ele, na verdade, há pouco em comum em quaisquer dos livros seus. “No Não há nada lá eu ainda tinha cabelos, e talvez por isso o texto fosse mais barroco e as ideias mais complicadas. Hoje sou completamente careca e busco ser mais direto”, reflete bem-humorado.

Incluído no rótulo, Joca Reiners se reporta às origens do adjetivo para aceitar a alcunha. “Existe aquela literatura designada ‘maldita’ por Paul Verlaine, que organizou uma antologia de poetas do século 19 com esse título. Na época, esses poetas (Rimbaud e Corbiére entre eles) não tinham recebido a atenção que mereciam”, conta. “Nos dias de hoje, creio que quase toda a ficção literária é maldita, pois merece pouca atenção do público leitor, cada vez mais adepto da não-ficção. A única maldição a ser evitada é aquela que o escritor cria para si próprio”.

Assim, para ele, além da temática, a restrita primeira edição de Não há nada lá, com apenas 500 exemplares, que saiu pela Ciência do Acidente, é o seu próprio atestado de marginalidade e maldição. Já Reinaldo Moraes, um dos autores no Brasil que mais recebe a adjetivação de “maldito”, conta que se vê, por meio de resenhas de jornalistas, acadêmicos e blogueiros, “perigosamente próximo ao mainstream literário, não mais estacionado na margem”. Mas se diz ciente do perigo: “Sei que isso é momentâneo e pode mudar a qualquer momento”.

Como amigo de André Conti, responsável pelo selo, Joca Reiners promete, depois de ter um papel importante no surgimento da coleção, continuar participando dela, ao menos como opinante. “Fico enchendo o saco do André Conti, o editor, com sugestões”, confessa. A atitude é completamente compreensível. Afinal, no fundo, os leitores parecem saber que a literatura que marca verdadeiramente a vida pessoal é aquela suja, sem amarras, tanto comprada como lida de forma escondida e obscura. Talvez só através dos malditos é possível ser contaminado pela maldição da literatura.

Estou re-devorando os dois primeiros volumes lançados pelo Má Companhia. Pesquei o texto acima, do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº. 66, páginas 8 e 9 (leia e/ou baixe a íntegra), do tuiter do Joca Reiners Terron, onde soube também que está sendo lançado em Curitiba/PR o jornal literário Cândido, que eu adoraria receber.