Nem mortos!

Biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Belchior, Chacrinha, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio imaginam quais seriam os votos de seus biografados no Brasil de hoje

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de Doutor Sócrates: Futebolista, Filósofo e Lenda [Simon & Schuster, 400 p., ainda sem tradução no Brasil], declarou hoje (19) ao jornal Folha de S. Paulo: “Esses caras hoje em dia são o contrário do Sócrates. Ganham muito mais e se importam muito menos com o lugar de onde eles vêm. Sócrates era imprevisível e não posso falar por ele, mas creio que ele estaria chocado em ouvir jogadores do Corinthians ou de qualquer time grande, como Palmeiras ou Tottenham, falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”.

Downie se referia ao apoio de nomes como Felipe Melo (Palmeiras), Lucas Moura (Tottenham, da Inglaterra), Jadson e Roger (Corinthians) ao candidato de extrema-direita à presidência da república Jair Bolsonaro (PSL). O contraponto proposto pelo biógrafo se ancora, por exemplo, na atuação de Sócrates em movimentos como a Democracia Corintiana e a campanha Diretas Já!, ambas na década de 1980.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Chacrinha, Belchior, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio, que, baseados no profundo conhecimento que têm de suas personagens, imaginaram quais seriam seus votos no Brasil de hoje.

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Capa. Reprodução

Também biógrafo de Sócrates [Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Objetiva, 2014, 264 p.], o jornalista Tom Cardoso, ao mesmo tempo em que acredita que o ex-jogador poderia estar ainda mais à esquerda, reconhece sua postura libertária. “Acho que ele jamais concordaria com um clube tutelar, ele diria que o jogador é livre para se posicionar politicamente, seja ele eleitor do PT ou do Bolsonaro”, disse. “O Sócrates não ficaria surpreendido com o voto de algum jogador no Bolsonaro. Talvez ele discordasse, claro, como um homem progressista, de esquerda, de um eleitor do Bolsonaro. Mas ele não ficaria assustado com isso, ele sabia, deu várias declarações dizendo que o futebol brasileiro era muito conservador, era um espelho da sociedade”, continua.

“Ele achava que o PT, de quem ele acabou se tornando um crítico, tinha feito essa guinada ao pragmatismo político, através da Carta ao Povo Brasileiro, então eu tenho dúvidas se ele não estaria mais à esquerda do [Fernando] Haddad [candidato do PT] e não estaria mais entusiasmado pelo PSol, por exemplo”, imagina. Cardoso lembrou ainda que Sócrates chegou a ser secretário municipal de Esportes em Ribeirão Preto/SP numa das gestões de Antonio Palocci, tendo permanecido apenas seis meses no cargo, “ele meio que se desiludiu um pouco com aquela coisa preguiçosa da máquina do estado”. O camisa 8 também teria recusado diversos convites do PT para assumir o ministério dos Esportes na gestão de Lula. “Hoje, eu acho que ele votaria no Haddad, mas também poderia votar no Ciro [Gomes, candidato do PDT] ou no próprio [Guilherme] Boulos [candidato do PSol]”, opina.

75 kg de músculos e fúria. Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

Indago sobre Tarso de Castro [75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 2005, 280 p.], outro biografado de Tom Cardoso. “O Tarso é mais difícil. Eu acho que ele pregaria um voto útil contra o Bolsonaro. Tem o Ciro, que é do PDT do [Leonel] Brizola, mas não tem nada de brizolista, o Tarso era brizolista, antes de tudo, mas tinha simpatia pelo Lula, fez uma grande entrevista com o Lula, acho que em 1982, para a [revista] Careta. Acho que ele estaria inclinado pelo voto a quem tivesse mais chance para ganhar do Bolsonaro”, especula sobre a posição do jornalista, da patota do Pasquim.

Belchior. Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

O biógrafo Jotabê Medeiros foi direto sobre que opinião teria Belchior [Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, Todavia, 2017, 237 p.] sobre o capitão reformado do exército: “Belchior era antifascista. Foi combatente da liberdade até a morte – embora afastado da vida social, angustiava a ele o mergulho que o Brasil deu na via antidemocrática nos últimos anos. Sua defesa da liberdade o posta como um claro adversário de tudo o que Bolsonaro representa”, diz.

O jornalista aposta no voto do compositor cearense: “Belchior é Lula. Lula é Belchior. Ele estaria com o maior líder popular do País em todos os tempos. Caminharia ao lado de Haddad, não tenho a menor dúvida”, coloca as fichas.

“Um compositor que escreveu “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, identificando os alvos prioritários dos ataques de racismo, exclusão e misoginia, sempre demonstrou saber perfeitamente quem são os inimigos a serem combatidos”, arremata.

Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

Mais comedido é Fabrício Marques, biógrafo de Wander Piroli [Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito, Coleção Beagá Perfis, Conceito Editorial, 2018, 256 p.]. “Seria leviano de minha parte tentar adivinhar as posições políticas do Wander Piroli. O que posso pressupor, com base nas opiniões dele, é que ficava indignado especialmente com a desigualdade social de nosso país e com as injustiças contra minorias. Como afirmou o jornalista João Paulo Cunha, a principal característica do jornalista e escritor mineiro foi o compromisso humano. Acho que essa postura dá pistas sobre as inclinações dele”, comenta.

Chacrinha. A biografia. Capa. Reprodução

Biógrafo do pernambucano Abelardo Barbosa, que fez fama como Chacrinha [Chacrinha: a biografia, Casa da Palavra/Leya, 2014, 328 p.], Denilson Monteiro segue a linha de Marques: “Seria muito arrogante da minha parte determinar qual seria o pensamento do Chacrinha se estivesse vivo hoje. Mas analisando tudo o que ele sofreu durante a ditadura civil-militar, tendo até sido preso, acredito que ele jamais apoiaria um candidato simpático a esse período tão perverso da história do país”, lembra.

Mas arrisca-se a opinar sobre o “não-voto” do velho Guerreiro em um possível segundo turno: “Partindo do que eu respondi anteriormente, o que  acredito é que num segundo turno, Chacrinha, que participou da campanha das Diretas, jamais votaria em um candidato como Jair Bolsonaro”, afirma.

Clarice,. Capa. Reprodução

Opiniões parecidas têm os biógrafos de Clarice Lispector e Sérgio Sampaio. O americano Benjamin Moser, autor de Clarice, [Companhia das Letras, 2017, 576 p.], afirma: “Clarice teria compartilhado o mesmo nojo que todos sentimos quanto a este senhor. Creio que estaria apoiando Fernando Haddad, mas é impossível saber ao certo”.

Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! [Muiraquitã, 3ª. edição, 2017, 288 p.], biografia do cantor e compositor capixaba, opina: “Como não cheguei a conhecer Sérgio, não sei precisar qual era sua orientação política, mas decerto seria de esquerda ou centro-esquerda. Sendo assim, acho improvável que uma candidatura como a de Bolsonaro o seduzisse. Arrisco dizer que ele votaria no Haddad ou no Ciro”.

Eu quero é botar meu bloco na rua. Capa. Reprodução

O capitão não conseguiu capitalizar o lamentável atentado à faca que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora/MG, no último dia 6 de setembro e, internado desde então, enfrenta, para usarmos metáforas do campo que abre este texto, o futebol, trombadas de gente que veste o mesmo uniforme: sua rejeição, que já era grande, cresce a cada declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), e de seu principal conselheiro na área econômica, Paulo Guedes, a quem o candidato apelidou “posto Ipiranga”. Nas últimas pesquisas, o candidato tem oscilado dentro da margem de erro.

Pelo visto, a rejeição ao ideário autoritário do deputado é grande também entre personalidades que permanecem vivas através de suas obras. Não é mesmo estranho ouvir de alguém, quando perguntado se votaria em Bolsonaro: “nem morto!”.

Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Coleção de perdas

O peso do pássaro morto. Capa. Reprodução

 

Romance de formação, O peso do pássaro morto [Editora Nós, 2017, 168 p.; R$ 30] acompanha a vida de sua protagonista dos oito aos 52 anos de idade. A paulista Aline Bei estreia com uma prosa vigorosa, impregnada de poesia – sobretudo ecos de Manoel de Barros, mas também elementos de poesia visual, a disposição das palavras nas páginas por vezes reforçando ideias e tons, além do enorme talento da escritora em fazer grande literatura – seu livro é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura – se valendo da oralidade.

Se ao longo das páginas acompanhamos o amadurecer da personagem, a escritora Aline Bei desponta madura, num livro quase completamente narrado em primeira pessoa, a expor com delicadeza a dureza de uma vida que é uma coleção de perdas.

Secretária da burocracia de um escritório como tantos outros, a mulher que um dia sonhou ser aeromoça conhece a morte ainda na infância, aos oito anos – as idades intitulam os capítulos –, quando perde Carla, sua melhor amiga, colega de escola. Sua vida é um suceder de acontecimentos trágicos, narrados elegante e poeticamente pela autora.

A redação escolar que um dia ela acha em uma caixa, revirando as tralhas quando se muda de endereço, parece ser a chave dO peso do pássaro morto – “A cura não existe” é o título do trabalho escolar –, como nos alerta a poeta Micheliny Verunschk, na orelha, sobre a ideia central do romance: “a vida se resolve mesmo é vivendo, as dobras de acontecimentos se sobrepondo umas às outras”.

Da protagonista, poderíamos dizer tratar-se de uma mulher comum, como tantas outras. Mas a sucessão de tragédias particulares torna-a uma mulher forte, única. Do encanto infantil com seu Luís, um “benze Dor” – Aline Bei domina também os jogos de palavras –, à conturbada relação com o próprio filho e a afeição por um cachorro de rua, a narrativa densa nos emociona, tornando-nos cúmplices, ansiosos pelos desdobramentos – e por vezes voltando para reler esta ou aquela frase, tão bem construída, dizendo tanto, por vezes lições de vida.

Autora e protagonista mulheres equilibram O peso do pássaro morto entre essa dor e delícia, fazendo do romance um livro de raras força e beleza.

A repórter e a cidade

Cidade espanto. Capa. Reprodução

 

Impressiona a maturidade e o pleno domínio da linguagem de Clarissa Carramilo em seu romance de estreia, Cidade espanto [Editora Oito e Meio, 2018, 94 p., R$ 36,00]. A escritora prova já ter nascido pronta, presenteando os leitores com um enredo bem urdido, em que várias tramas se cruzam, sem perder a mão ou exagerar.

O título refere-se ao fato de a cidade de São Luís ser personagem – o parágrafo inicial, por exemplo, dialoga diretamente com o de O mulato (1881), de Aluízio Azevedo.

“Os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção”, adverte a autora, como de praxe, mas ficção e realidade convivem na escrita ousada da autora, que mete o dedo em diversas feridas abertas, bastante conhecidas pelos que habitam a capital maranhense – mas que, no entanto, não tornam a leitura mais difícil ou menos desagradável para gente de outras plagas.

Clarissa Carramilo se vale de suas experiências profissionais para inventar personagens – ou apropriar-se delas –, inclusive a cidade de São Luís.

Antonela Azevedo, a protagonista, um alter ego da autora, é repórter destemida, que deixa claro de que lado está, sem tornar sua literatura algo panfletária: comprometida com a defesa dos direitos humanos, contrária ao golpe político-jurídico-midiático que destituiu do poder a presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff, que ousa peitar os patrões pelas coisas e causas que acredita.

Jornalista de formação, a escritora tira onda com a própria profissão, apontando contradições aparentes que acabaram naturalizadas com o tempo: chefes que conhecem menos o ofício que seus subordinados, a ditadura dos textos curtos (pois leitor de internet só curte textão em treta de rede social), a interferência da ideologia dos patrões (os donos dos veículos) sobre a redação final, jornalistas que não leem, além das relações com a ansiedade e o álcool.

A autora equilibra-se ainda entre o thriller, cada capítulo batizado por uma mulher são os bastidores das pautas em que Antonela Azevedo se envolve, enredando também o leitor, e histórias de amor, contadas ou vividas.

Serviço

Autora e obra em uma das paisagens do romance. Foto: divulgação

Clarissa Carramilo lança Cidade espanto amanhã (5), às 19h, na Livraria Leitura (São Luís Shopping). A noite de autógrafos contará com bate-papo da autora com a escritora Camila Chaves e a jornalista Bruna Castelo Branco. A obra foi selecionada pelo Edital de Apoio a Publicação de Obras Literárias da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

O menino é o pai do cineasta

O editor Felipe Melhado exibe orgulhoso o singelo Novos Contos. Foto: divulgação

 

Rogério Sganzerla (1946-2004) “é um dos cineastas mais radicais e inventivos que o Brasil já teve”, nos lembra o editor Felipe Melhado, da Grafatório Edições (de Londrina/PR). Em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos, ele reconhece a importância de Sganzerla para sua formação em vários sentidos. Em parceria com a Míriade Edições (de Florianópolis/SC), de Gabi Bresola, acaba de ser publicado uma edição fac-similar de Novos Contos [2018], livro que Sganzerla publicou em 1954, aos sete anos de idade.

Você não leu errado: aos sete anos de idade. Um primor editorial, a caprichada edição vem num singelo envelope, com o livro (quatro contos de aspecto fabular, mas sem moral da história), selos aludindo a filmes e cineastas importantes como O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla, de 1968), A chinesa (de Jean-Luc Godard, que também completa 50 anos em 2018), Orson Welles e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da cidade catarinense de Joaçaba – onde nasceu Sganzerla. E Gabi Bresola.

O cineasta Rogério Sganzerla em ação, durante as filmagens de O signo do caos (2003), seu último filme. Foto: Marcos Bonisson

O livro foi descoberto pela conterrânea. “A Gabi conseguiu uma cópia do livro em xerox, conversou com a Helena Ignez [cineasta, viúva do diretor] e com as filhas do Rogério, a Djin e a Sinai [Sganzerla, atrizes], e elas toparam a brincadeira”, conta Melhado. “Desde o começo a Gabi tinha imaginado um livro fac-similar, impresso em tipografia, como na edição original. Nós da Grafatório já tínhamos feito algumas publicações tipográficas, e foi por isso que ela convidou a gente pra trabalhar juntos! É claro que eu fiquei entusiasmado, já que sempre admirei o Sganzerla”, continua.

Melhado comenta também as opções estéticas em torno dessa (re)edição: “Graficamente, tentamos nos aproximar o máximo possível da edição original. Utilizamos os tipos móveis e ornamentos tipográficos mais parecidos que encontramos, e também os papéis mais próximos. No texto mantivemos inclusive a grafia da época e alguns cacoetes da escrita, que talvez sejam do Rogério ou, talvez, do tipógrafo que montou o livro. Mas a edição também traz alguns elementos extras: uma recontextualização gráfica que faz referência às criações posteriores do Sganzerla (os selos, os carimbos no envelope…), e também um texto-depoimento da Dona Zenaide Sganzerla, mãe do Rogério, que hoje está com 99 anos de idade”.

“Junto no envelope vai um livro do Rogério. Esse faz anos. Foi no tempo que ele era o meu mais novo, com sete anos, em Joaçaba. Ele escrevia tudo o que era coisa”, começa. A carta, escrita à mão, e os contos nos dão ideia de como o menino Sganzerla já continha o cineasta, inclusive quanto à precocidade, basta lembrarmos que O bandido da luz vermelha, considerado sua obra-prima, foi filmado quando ele tinha apenas 22 anos.

“O Rogério sempre foi de todos eles [os filhos] o mais fora do sério. […] O Rogério saiu cedo de casa porque parecia que sempre estava ansioso, inquieto, não parava, não parava de inventar coisa. Quando ele foi estudar em São Paulo com dezoito anos, fazer filmes, aí também escreveu outros livros. Mas o Novos Contos foi o primeiro de todos. O dos papeizinhos, o das coisas que ele inventava”, finaliza a missiva materna.

“Pra mim, pelo menos, a decisão de publicá-lo tem a ver com revelar uma passagem desconhecida da vida do cara. Acho que reabilitá-lo nunca é demais. Precisamos sempre botar em cena, de todas as formas, pessoas com a atitude, o pensamento e a criatividade anárquica como a dele. Precisamos tornar esse tipo de potência sempre acessível, sempre à mão, inclusive na contemporaneidade problemática em que a gente vive”, alfineta Melhado.

“Além do mais, o próprio Sganzerla tinha bastante estima por essa criação super precoce que foi o livreto Novos Contos. Ele sempre mencionou o livro em diversas entrevistas, em muitos momentos. O Sganzerla tinha um interesse pela infância que é bastante estimulante. Ele considerava a criança como um criador por excelência, um ser livre, assim como os loucos e os poetas. Ele dizia que se alguém quiser investigar sobre o processo criativo, essa pessoa precisa levar em conta a infância. Porque a criança é um ser em permanente estado de criação, e isso parecia fascinar o Rogério. E me parece que esse era um estado que ele procurava cultivar permanentemente, durante toda a sua vida”, prossegue.

O envelope de Novos Contos contém ainda uma fotografia do menino Sganzerla, a reprodução de um autógrafo em que ele oferece o opúsculo, uma espécie de lembrança – no retrato ele aparece batendo palmas diante de um bolo onde se lê “Edifício Sganzerla” –, e os contos, curtíssimos, A rainha das flôres (mantendo a grafia da época), A bola do mágico, Paulo e seu carro e Os dois patos.

Certamente alvo de curiosidade, a obra deve agradar, pelo conteúdo e singeleza, admiradores do cineasta. “A família foi muito receptiva à ideia. A Helena Ignez e as filhas do casal, Sinai e Djin Sganzerla, gostaram bastante do resultado, nos disseram que ficaram emocionadas ao ver o livro. É lógico que isso nos deixou muito contentes também”, revela Melhado.

Novos Contos é o terceiro livro publicado pela Grafatório Edições – em parceria com a Miríade Edições –, que estreou com A hora da lâmina, de Paulo Leminski (esgotado), também marcada pelo capricho editorial. “A criação gráfica serve para intensificar a potência do pensamento e vida dos autores”, explica Melhado. E anuncia: “muita coisa já está no prelo”.

“Porque precisava responder tua dedicatória”

Gabriela,. Reprodução

 

Saudosistas dirão que no tempo das cartas era melhor, e haja carteiro gastar sola de bota e a flecha do cupido voar em slow motion. Antigamente era melhor, dirão, contrariando os adeptos dos aplicativos de relacionamento, tudo fácil, ao alcance de um clique, tudo efêmero, tempos modernos, tempos líquidos.

Uma das obsessões do escritor Bruno Azevêdo tem sido fotografar gente, sabe quem o acompanha pelas redes sociais. Desde Ostreiros, livro que dividiu com a fotógrafa Ana Mendes, o escritor vem contando histórias de gente simples, essas que supostamente não dariam uma biografia ou, uma vez escritas, estas biografias não despertariam interesse do público e encalhariam nas livrarias, ledo engano.

Gabriela, [Pitomba, 2018, 24 p., R$ 35,00] reúne em belo volume, embalado em envelope (ou não seria uma carta), diversos temas de interesse do autor: a foto-missiva tem uma pegada etnográfica, a emular Pierre Verger – todas as fotografias foram feitas em Salvador, Bahia –, passeando com leveza pela típica conversa entre amantes, que falam de seus objetos, símbolos e afinidades, não necessariamente nessa ordem.

No texto, aparecem outras obsessões de Bruno Azevêdo, como ficção científica, cinema e tipografia – este último, atestado pelo capricho editorial de sua casa, responsável por colocar definitivamente o Maranhão no mapa dos circuitos literários brasileiros, sobretudo os alternativos.

Estão lá ainda citações a valter hugo mãe, José Eduardo Agualusa, Geraldo Figueiredo (fotografado segurando o próprio poema), a vírgula do título dialogando com Clarice,, de Benjamin Moser, e um Belchior de raspão. A enchente do rio Paraguassu, na Bahia, em 1990, me liga diretamente à do Beberibe, década e meia antes, responsável por tornar raríssimo o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Cortes (1975).

O texto não legendando as fotos, as imagens em preto e branco dialogando com o colorido das páginas, cada qual de uma cor, enfeitada, não poderia ser diferente, qual uma carta de amor, “todas as cartas de amor são ridículas”. Uma beleza, uma beleza!

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As obsessões em Mutarelli

O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV. Capa. Reprodução

 

Há pouco mais de 10 anos o projeto Amores Expressos, da RT Features, enviou diversos escritores brasileiros para cidades estrangeiras. Eles passariam um mês em seus destinos, desenvolvendo uma história (de amor), a ser publicada em livro pela Companhia das Letras.

Vários títulos foram publicados. Entre outros, Ithaca Road (2013), de Paulo Scott (que foi a Sidney), O livro de Praga (2011), de Sérgio Sant’Anna, O único final feliz para uma história de amor é um acidente (2010), de João Paulo Cuenca (que foi a Tóquio), Do fundo do poço se vê a lua (2010), de Joca Reiners Terron (que foi ao Cairo), Estive em Lisboa e lembrei de você (2009), de Luiz Ruffato, e Cordilheira (2008), de Daniel Galera (que foi a Buenos Aires).

O 11º. título da coleção acaba de sair: O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV [Companhia das Letras, 2018, 328 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Lourenço Mutarelli – que o Amores Expressos levou a Nova York. O quadrinhista que escreve romances e atua em filmes baseados em seus livros apresenta uma obra que confirma algumas de suas obsessões, a começar por sua devoção a Kurt Vonnegut – a quem o livro é dedicado, junto a Antonio Prata – e William S. Burroughs – cujo nome é citado uma única vez, após ter sido um dos motes do anterior O grifo de Abdera [Companhia das Letras, 2015].

O romance é habitado por homônimos de criminosos – sobretudo serial killers – e extraterrestres, com generosas doses de demonologia, que Mutarelli, senhor da ação, vai descortinando aos poucos, fisgando o leitor. O protagonista, um pobre-diabo alcoólatra, muda de nome e vida ao ir morar em Nova York, após ingressar em um programa de proteção a testemunhas controlado por uma estranha seita.

Se por um lado Mutarelli repete uma fórmula que marca sua obra literária – protagonista homem de meia idade de vida comum até um acontecimento extraordinário mudar o curso de sua vida –, os desdobramentos são sempre surpreendentes, fornecendo ao leitor uma espécie de exercício de aprofundamento em determinados temas, obsessões das personagens – e, portanto, do escritor.

Dividido em três partes, ou três livros (a quarta, que dá o título alternativo ao livro, é a soma daquelas), cada capítulo com dois títulos, Mutarelli joga habilmente com informações que poderiam soar excessivas ou desnecessárias nas mãos de alguém menos talentoso, caso, por exemplo, dos verbos usados para dar nome aos barulhos emitidos por diversos animais.

Albert Arthur Jones ou George Henry Lamson passa 10 anos em Nova York, fundindo sua paranoia particular à da cidade após o episódio das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Sua principal obsessão, no entanto, reside num passado – e numa vida – da qual teima e não se libertar.

A moeda poesia na renegociação das dívidas com a música

Barítono. Capa. Reprodução

 

“Já fui salvo pela música tantas vezes, que, diante dela, sou um amontoado de dívidas constrangidas”. O verso que serve de orelha a Barítono [Editora Terreno Estranho, 2018, 78 p.] dá a pista do que vem ser o livro de poemas de Rodrigo Carneiro, jornalista, “cantor e letrista da banda Mickey Junkies e integrante dos grupos literários Trovadores do Miocárdio e Black Poetry”, como nos informa a outra orelha. O título dá outra pista. O próprio autor aparece na capa, empunhando um microfone e esvoaçando seus dreadlocks – o que dá mais uma pista. A palavra “pista”, aliás, é outra.

Os poemas de Rodrigo Carneiro têm ritmo. Em alguma medida o escritor paga suas dívidas. Ou começa. Ou intenta fazê-lo. “Se liga num poeta capaz de juntar, no mesmo imbatível poema, “a regata do Kiss” e “o sol d’O estrangeiro” de Albert Camus”, Xico Sá nos chama atenção no prefácio, cujo título é Um livro para levar para toda a vida.

A música permeia a obra do autor, edificada de modo a reparar, no céu, o sexo dos astros, entre os vãos dos prédios de São Paulo. Viagens e cenas do cotidiano também estão lá, em diálogo com as ilustrações de Diego Gerlach – autor do zine Pirarucu, encartado na Baiacu de Angeli e Laerte, faço questão de citar para acentuar a relação (também em sua poesia) de Rodrigo Carneiro com a cultura pop.

Em Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?, um poema em prosa a traduzir com graça, uma cena banal que poucos considerariam poesia – faço questão de transcrever a íntegra: “Acompanhado da mãe, um garotinho, de uns seis, sete anos, passa por mim e, finalizando o discurso que faz aos quatro ventos, solta um “rock’n’roll”. A mãe, que o traz pela mão e atravessa o calçamento a passos firmes, para, de súbito. “Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?”, indaga ela, surpresa e grave, ao menino. Como o ângulo de visão de nossos trajetos já tinha sido comprometido – àquela altura eu estava de costas para eles –, e a algazarra da região central da cidade inundava o ar, foi impossível ouvir a resposta do moleque. O que, curioso e dado a obsessões que sou, lamento profundamente. Desde o ocorrido, não consigo parar de pensar no que teria dito a criança a respeito da expressão proferida. Ou ainda: qual a bronca da jovem mãe com o gênero musical criado pela negrada americana. Eis mais uma das dúvidas que se acumulam na minha lista de incertezas. Mais uma das sentenças sem resposta que levarei comigo até o último dos dias”.

É comovente sua homenagem ao punk em Espírito de 1977: “O conheci ainda/ menino, e há/ entre nós tanta/ intimidade, que/ nos permitimos/ silêncios, crises,/ distanciamentos e/ reaproximações/ contínuas”, diz um trecho. Ou à banda de Tom Verlaine em Nós e o  Television: “Sem rede,/ que acolhe impactos,/ eis-nos aqui/ seguros/ nos braços/ da Vênus de Milo”.

Poesia é justamente este salto.

Romance de jornalista revê governo Médici a demonstrar a atualidade da tragédia brasileira

Tempos de cigarro sem filtro. Capa. Reprodução

A prosa de José Maschio, seca, mas com ginga, de frases curtas, a incorporar o espírito das ruas e dos botecos, encontra pares em autores como João Antonio (1937-1996) e Marcelino Freire.

Autor experimentado em redações e salas de aula, praticando e ensinando o jornalismo em que se formou na Universidade Estadual de Londrina/PR e com o qual percorreu o país inteiro como repórter de jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo.

Paulista de Echaporã, em seu Tempos de cigarro sem filtro [Kan Editora, 2017, 150 p.] entrecruzam-se diversas histórias de vida, em um Brasil sob a égide do golpe militar de 1964, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, apelidado Carrascoazul por um personagem.

Maschio é elegante e tem domínio absoluto da linguagem ao abdicar de travessões ou aspas para marcar as falas de suas personagens, que acabam fundidas às do narrador, sem fundir a cuca do leitor, que ligeiro se vê fisgado pelo enredo, seus vários núcleos e suas mazelas particulares.

Ficção alicerçada em fatos e personagens reais – de cujo destino Maschio é também senhor –, trama política e policial com cheiro de povo: toda a sorte de relações mediada por afetos, traições, dinheiro miúdo, o equilíbrio na corda bamba da sobrevivência, falso moralismo, hipocrisia, politicagem, corrupção, a crueldade da ditadura militar, com torturas, desaparecimentos e assassinatos, e tudo o que acabou virando sinônimo de Brasil para o bem e para o mal, parte disso a reverberar ainda nos tristes tempos atuais, em que o país vive sob a égide de outro golpe.

Nem na ficção ditadura é solução, como se percebe em Tempos de cigarro sem filtro, o título a fazer trocadilho com o que se propõe: revelar um Brasil brasileiro, sem filtro, desde a coloquialidade da prosa até a escolha dos protagonistas, trabalhadores, gente simples que poucos se dispõem a enxergar, quanto mais a retratar.

O Brasil golpeado de hoje é resultado de uma redemocratização frágil, que nunca puniu sequer um agente da repressão. O problema é que os que pedem intervenção militar não leem sequer ficção.

O homem que virou livro

 

Na noite do último dia 5 de julho, os poetas Celso Borges e Fernando Abreu organizaram, em São Luís, a Noite Lula Livre, no Chico Discos, em que venderam pôsteres com os poemas Now, do primeiro, e Ainda assim um poema, do segundo. Parte do dinheiro arrecadado foi destinada ao acampamento Marisa Letícia, nas imediações da sede da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-presidente da República e líder nas intenções de voto em qualquer pesquisa eleitoral para o próximo pleito está preso há mais de 100 dias.

Lula Livre Lula Livro. Capa. Reprodução

Com estes poemas, os poetas maranhenses participam do livro Lula Livre Lula Livro [2018, 184 p.], organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire, reunindo 86 autores, entre escritores e desenhistas. A lista é longa e gabaritada: Ademir Assunção, Ademir Demarchi, Adriane Garcia, Afonso Henriques Neto, Alberto Lins Caldas, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Andréa Del Fuego, Antonio Thadeu Wojciechowski, Artur Gomes, Augusto de Campos, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Beatriz Azevedo, Bernardo Vilhena, Binho, Caco Galhardo, Carlos Moreira, Carlos Rennó, Celso Borges, Chacal, Chico Buarque, Chico César, Claudio Daniel, Diana Junkes, Douglas Diegues, Edmilson de Almeida Pereira, Edvaldo Santana, Eltânia André, Eric Nepomuceno, Evandro Affonso Ferreira, Fabio Giorgio, Fabrício Marques, Fernando Abreu, Ferréz, Frei Betto, Gero Camilo, Gil Jorge, Glauco Mattoso, Jessé Andarilho, Jorge Ialanji Filholini, Josely Vianna Baptista, Jotabê Medeiros, Juvenal Pereira, Karen Debértolis, Laerte, Lau Siqueira, Linaldo Guedes, Lucas Afonso, Luciana Hidalgo, Luiz Roberto Guedes, Manoel Herzog, Marcelino Freire, Márcia Barbieri, Márcia Denser, Maurício Arruda Mendonça, Noemi Jaffe, Patrícia Valim, Paulinho Assunção, Paulo César de Carvalho, Paulo de Toledo, Paulo Lins, Paulo Moreira, Paulo Stocker, Pedro Carrano, Raduan Nassar, Raimundo Carrero, Ricardo Aleixo, Ricardo Silvestrin, Roberta Estrela d’alva, Rodrigo Garcia Lopes, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim, Sandro Saraiva, Sebastião Nunes, Seraphim Pietroforte, Sérgio Fantini, Sérgio Vaz, Sidney Rocha, Susanna Busato, Tarso de Melo, Teo Adorno, Vanderley Mendonça, Waldo Motta, Wellington Soares, Wilson Alves Bezerra e Xico Sá.

Ao final do volume, um recado direto e corajoso: “impresso em julho de 2018 em São Paulo, pela liberdade do ex-presidente Lula e contra o golpe de 2016”.

Há textos escritos especialmente para o volume; outros, surgidos no calor e emoção dos acontecimentos, juntaram-se àqueles; e há ainda textos (mais ou menos) conhecidos do brasileiro médio interessado por política e cultura, para além dos boatos e do ódio disseminados na velocidade da luz sobretudo em grupos de família no whatsapp.

Foto de Juvenal Pereira. 1989

Entre estes, que reaparecem ali, o discurso de Raduan Nassar, lido em 17 de fevereiro de 2017, por ocasião da entrega do Prêmio Camões 2016. O então ministro da Cultura Roberto Freire (quem lembra?) chegou a insinuar, à época, que o autor de Lavoura arcaica deveria abdicar do prêmio, já que considera o governo que fazia sua entrega – junto ao governo português – ilegítimo. “O escritor paulista fez questão de participar desta antologia com a publicação deste texto histórico, inédito em livro”, adverte nota antes do discurso.

Também aparecem nas páginas de Lula Livre Lula Livro o requerimento de Frei Betto à juíza Carolina Moura Lebbos, datado de 8 de maio deste ano, em que o frade dominicano solicita à autoridade “permissão de visitar periodicamente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir do próximo mês de julho, segundo data, horário e critérios estabelecidos pela senhora”.

Lula angariou mundo afora incontáveis títulos de Doutor Honoris Causa, em universidades de diversas partes do mundo. O ex-torneiro mecânico nascido em Garanhuns, interior de Pernambuco, contrariou qualquer lógica e acabou por tornar-se presidente da República e maior líder político da América Latina destes tempos. Aqueles que são incapazes de reconhecer sua grandeza, continuam desdenhando, de forma grosseira e desqualificada, tratando Lula por analfabeto e cachaceiro.

Uma estatística divulgada à larga na imprensa após certo período de Lula na prisão, dava conta dos livros lidos por ele no cárcere, declinando os títulos lidos e a média – absurda, para os reacionários que julgam-no por si próprios no quesito leitura – de 55 páginas lidas por dia. Entre os vários títulos lidos por Lula está a biografia Belchior: apenas um rapaz latino-americano, do jornalista Jotabê Medeiros. O escritor comparece ao volume com a Carta a Lula leitor, missiva aberta que publicou em seu blogue.

“Certamente não me parece sensato imaginar que os escritores escrevam também pensando num leitor gigante. Um leitor maior que sua imaginação, capaz de colocar milhares de crianças em ônibus novos no interior do Maranhão, da Paraíba e do Piauí indo pra escola pela primeira vez; capaz de dar fim a um ciclo centenário de mortalidade infantil; capaz de dar oportunidades para bisnetos e trinetos de escravos de se bater igualmente na mesma academia dos bisnetos e trinetos de seus algozes; capaz de nocautear um destino histórico de submissão, de autopiedade”, enumera Jotabê, apontando mazelas às quais o Brasil foi, infelizmente, devolvido, após Dilma Rousseff, sucessora e correligionária do petista, ter sido arrancada do cargo ao qual foi legitimamente eleita, pelo golpe de 2016.

Laerte. 2018

A saga de Lula tem ares kafkianos e não à toa Joseph K., protagonista de O processo, é citado no texto de apresentação da obra. Há tempos não se via no Brasil reunião de escritores tão volumosa e vigorosa. Para os organizadores, a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, como afirmam no texto de introdução do volume.

“O propósito do livro é criar mais um fato de repercussão, a partir da tomada de posição dos escritores, poetas e cartunistas, para engrossar os movimentos nacionais e internacionais contra a farsa da prisão do ex-presidente – e o golpe antidemocrático que representa a sua exclusão do processo eleitoral de 2018”, continuam.

E voltando a Kafka: “O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis”.

“Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória”.

Além da versão impressa, a íntegra do livro será disponibilizada em um site na internet. Organizadores e autores seguem em busca de parcerias com movimentos sociais e interessados em geral para a impressão e distribuição de mais exemplares. A causa é nobre.

O livro é também uma demonstração de carinho e força: mais que um homem ou um político, Lula é uma ideia. E ideias não se aprisionam. Em paz com sua consciência, ainda preso ou já em liberdade, é mais um livro que ele vai ler. Terão seus algozes a curiosidade, coragem, disposição e grandeza de fazer o mesmo?

Um olhar privilegiado sobre o maio de 1968

Um ano depois. Capa. Reprodução

 

O trunfo da prosa de Anne Wiazemsky (1947-2017) é nos tornar cúmplices dela e do então marido Jean-Luc Godard em suas perambulações pelos acontecimentos do maio de 1968.

À época com apenas 20 anos, a atriz conduz os leitores por um ângulo sui generis, tornando-nos íntimos, espectadores privilegiados, como a conviver com tantos personagens interessantes que aparecem ao longo das páginas de Um ano depois [Um na après; tradução: Julia da Rosa Simões; Todavia, 2018, 172 p.; R$ 50,00] – o livro foi adaptado ao cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard.

Godard era um ícone da esquerda francesa e de algum modo havia profetizado o mítico mês em que os estudantes tomaram Paris em seu filme A chinesa, lançado em 1967, com Anne Wiazemsky como protagonista.

A autora escancara sua intimidade com o cineasta, de modo poético, entre preferências gastronômicas, o mau humor quase infantil provocado por motivos prosaicos, o trabalho e o ciúme – o homem comum por detrás do gênio do cinema –, longe de soar fútil.

O cineasta se irrita, por exemplo, com a mulher indo à praia em plena greve. Ou com os donos da casa em que se hospedam durante determinada passagem, enquanto Paris literalmente pega fogo. Anne reconta também episódios marcantes como o boicote – liderado por Godard e François Truffaut, de quem se afastaria, posteriormente – ao Festival de Cannes, além do convívio com figuras como o filósofo Gilles Deleuze e o cineasta Bernardo Bertolucci, entre outros.

Em uma reunião em que se discute a gravação de um filme de Godard com os Beatles, o projeto acaba inviabilizado pelo humor de John Lennon. Anne e Paul McCartney enfiam-se debaixo da mesa para tomar chá e comer bolachas – para desespero de Godard, que não acredita muito na versão da própria esposa, ao menos não de cara.

Na sequência, o casal viaja para Londres, onde acaba gravando os Rolling Stones em Simpathy for the devil – as gravações foram interrompidas por um incêndio no prédio do estúdio e a escritora não retoma o assunto.

Anne Wiazemsky também aborda as insatisfações e desilusões de Godard com o cinema e sua ameaça em deixar de praticar a sétima arte – em determinada passagem chama a si mesmo de “Jean-Luc ex-Godard” – e seu quase suicídio motivado por… ciúmes.

A história é contada com rigor e sentimento, sem romantização, em uma prosa delicada, por quem esteve literalmente no olho do furacão. É um olhar inédito e instigante sobre os acontecimentos de maio de 1968, seus desdobramentos e, sobretudo, seus personagens, fundamentais para a vida cultural e política do planeta nos últimos 50 anos, homens e mulheres com seus defeitos e contradições, tão humanos quanto nós, meros leitores e admiradores de seu legado.

“Momentos que roubamos do mundo”*

Forte apache. Capa. Reprodução

 

Certa vez em uma rede social o poeta Marcelo Montenegro relatou um encontro com um amigo. Passaram horas conversando sobre tudo e, ao se despedir, o interlocutor observou: “nem falamos de poesia”. Ao que o poeta retrucou: “como assim? Falamos o tempo inteiro”.

Marcelo Montenegro é poeta em tempo integral: seja dando aulas de História (sua formação acadêmica), seja escrevendo roteiros (ocupação de que tira o sustento), fazendo a luz de espetáculos de teatro (função lembrada no poema Memórias de um operador de luz), escrevendo prosa (deve-nos um livro) ou poesia.

Sua poesia esbanja musicalidade, não à toa ele apresenta há mais de década o espetáculo Tranqueiras líricas, que virou disco no fim do ano passado, além de ser parceiro de nomes fundamentais da atual cena que vale a pena, entre os quais a banda Fábrica de Animais e a cantora e compositora Vanessa Bumagny.

Forte apache [Companhia das Letras, 2018, 115 p.; R$ 40; leia Três pensatos, poema que abre o livro] é um feito raro, ao reunir três livros de Marcelo Montenegro: além da seção de inéditos que dá título ao livro, o volume traz reedições de Garagem lírica (2012) e Orfanato portátil (2003) – este último coloca o poeta em condição de talvez único poeta brasileiro vivo com um livro de poesia já em sua terceira edição.

Sua poesia é coalhada de referências da cultura pop, do universo do cinema, da música, da literatura, entre citações, colagens e epígrafes (Tom Waits, Elizabeth Bishop e Murilo Mendes), que ele costura como um ás. Como no poema-título, que cita, entre outros, Noel Rosa, Elvis Costello, Laura Riding, François Truffaut e Ferreira Gullar.

Espécie de “Manoel de Barros da cidade grande”, como anota o ídolo Chacal na orelha de Forte apache, Montenegro é dono de uma sensibilidade aguda capaz de eternizar aquilo que geralmente tomamos como banal. Como em Spoiler: “Lembro que você me contou/ uma história incrível./ Embora não lembre a história,/ sou capaz de soletrar,/ inclusive, a brisa que,/ por um microssegundo,/ inflou a cortina da sala.”.

Tudo é matéria-prima para a poesia de Marcelo Montenegro. A desprezada “ponta do pão Pullman”, “o baque da privada gelada” e “os ingredientes do Toddy” (em Velhas variações sobre a produção contemporânea), “Um gosto/ de obturação na boca”, “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato” “E aquela música linda/ que nunca toca no rádio” (em Buquê de presságios) – dois dos poemas mais bonitos já escritos neste século.

Volto ao poema-título e uma de suas citações: “Elvis Costello disse que o rock’n’roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu”. Podemos dizer o mesmo em relação à poesia. Quantas vezes o leitor, mesmo aquele que não arrisca versos, não se pegará pensando, ao longo da leitura de Forte apache, parafraseando Itamar Assumpção (outra referência, citado no poema Bildungsroman): “por que é que eu não pensei nisso antes?”.

Os poemas de Marcelo Montenegro são sofisticados em sua aparente simplicidade. Dão a falsa impressão de que poderiam ter sido escritos por qualquer um, mas, como alertou Leminski, “um bom poema/ leva anos”.

Poetas moram dentro de seus poemas e “Cantar é roubar/ uns minutos da morte” (Literatura comparada). Uma singela e rara cumplicidade se estabelece entre autor e leitor: seus versos nos tornam íntimos do poeta, transformando-nos em seus companheiros de aventuras, Estabanados aprendizes dos feiticeiros: “Contemporâneos de cada estilhaço./ Furtando taças de vernissages./ Bebendo vinho em copos de plástico.”.

&

*verso de Eu costumava grifar meus livros.

(Para) Sempre Drummond

Autorretrato e outras crônicas. Capa. Reprodução

 

Conhecedor ou não de poesia, a quem quer que se pergunte quem foi Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) certamente se seguirá a resposta: poeta. Poucos lembrarão que ele foi também contista, cronista, funcionário público e efígie na cédula de 50 cruzados novos, entre o fim da década de 1980 e início da de 90.

Quem se lembrar do mineiro apenas como poeta não está cometendo erro, crime ou pecado: é que mesmo escrevendo em prosa, o que Drummond fazia era poesia, como atesta o oportunamente recém-relançado Autorretrato e outras crônicas [Record, 2018, 255 p.; R$ 40], cuja primeira edição – póstuma – data de 1989. Quando lançado, o livro inaugurava um parque gráfico da editora; agora, celebra outra efeméride: os 75 anos (completados em 2017) da casa editorial. Organizado por Fernando Py, a folha de rosto do volume alerta: “edição única comemorativa”. Correi às livrarias, pois, os fãs do poeta – mesmo enquanto cronista.

O livro revela uma prosa delicada, colhida em jornais e revistas, apresentadas cronologicamente, a partir da que dá título ao volume, entre 1943 e 1970, versando por temas diversos: de flores, frutas e estrelas aos feitos da ciência, passando por futebol, recenseamento, a mineirice, o hippie “faça amor, não faça guerra”, escritores e escritoras obscuros/as à época – alguns ainda hoje. Ou mais ainda hoje.

Difícil escolher melhores momentos em um livro composto inteiramente deles. Seu obituário do pintor e compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966) é simplesmente comovente, bem como o perfil do poeta Mário Quintana (1906-1994). Em Obrigado, Bahia, gaba-se (na falta de termo melhor) – “Jogando fora minha extraordinária modéstia”, começa o texto –, do dia em que seu poema Quadrilha foi lido por um deputado estadual na Assembleia Legislativa da terra de Caetano e Gil – citados na crônica.

Em A banda, crônica de outubro de 1966, publicada no Correio da Manhã, saúda Chico Buarque de Holanda, “um rapaz de pouco mais de vinte anos”: “que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente”, arremata, esperançoso (e certeiro), quando alguns críticos torceram o nariz ao compositor, apostando num modismo passageiro.

O que faz um livro como Autorretrato é, através de um grande autor, demonstrar a grandeza da crônica, gênero literário – e jornalístico – genuinamente brasileiro, infelizmente por vezes tido como menor. Em geral é o que se salva na memória dos leitores ao embrulhar de peixes na feira do amanhã.

Deixo-lhes com uma crônica de Autorretrato, livro cujo texto mais novo já conta quase 50 anos, provando que feliz ou infelizmente, Drummond segue atual.

QUANDO

Quando o poder, que emana do povo, deixa de ser exercido, ou contra o povo se exerce, alegando servi-lo;

quando a autoridade carece de autoridade, e o legítimo se declara ilegítimo;

quando a lei é uma palavra batida e pisada, que se refugia nas catacumbas do direito;

quando os ferros da paz se convertem em ferros de insegurança;

quando a intimidação faz ouvir suas árias enervantes, e até o silêncio palpita de ameaças;

quando faltam a confiança e o arroz, a prudência e o feijão, o leite e a tranquilidade das vacas;

quando a fome é industrializada em slogans, e mais fome se acumula quanto mais se promete ou se finge combater a fome;

quando o cruzeiro desaparece no sonho de uma noite de papel, por trás de um cortejo de alegrias especuladoras e de lágrimas assalariadas;

quando o mar de pronunciamentos frenéticos não deixa fluir uma gota sequer de verdade;

quando a gorda impostura das terras dadas enche a boca dos terratenentes;

quando a altos brados se exigem reformas, para evitar que elas se implantem, e assim continuem a ser reclamadas como dividendo político;

quando os reformadores devem ser reformados;

quando a incompetência acusa o espelho que a revela dizendo que a culpa é do espelho;

quando o direito constitucional é uma subdisciplina militar e substitui a disciplina pura e simples;

quando plebiscito é palavra mágica para resolver aquilo que a imaginação e a vontade dos que a pronunciam não souberam resolver até hoje;

quando se dá ao proletariado a ilusão de decidir o que já foi decidido à sua revelia, e a ilusão maior de que é em seu benefício;

quando os piores homens reservam para si o pregão das melhores ideias, falsificando-as;

quando é preciso ter mais medo do governo do que dos males que ao governo compete conjurar;

quando o homem sem culpa, à hora de dormir, indaga de si mesmo se amanhã acordará de sentinela à porta;

quando os generais falam grosso em nome de seus exércitos, que não podem falar para desmenti-los;

quando tudo anda ruim, e a candeia da esperança se apaga e o If de Kipling na parede não resolve;

então é hora de recomeçar tudo outra vez, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no terremoto.

Correio da Manhã, 14 de setembro de 1962 (p. 87-89)

Poesia, faça chuva ou faça sol

Mural de nuvens para dias de chuva. Capa. Reprodução

 

“A utilidade é a prisão dos arrogantes”, sentencia a poeta Adriana Gama de Araújo em Poema para o fracasso, um dos de Mural de nuvens para dias de chuva [Penalux, 2018, 62 p., R$ 30,00], sua estreia em livro.

É tapa na cara dos caretas, os que querem justificativa para tudo e insistem na pergunta “para que serve a poesia?”. No DNA poético da autora, mestra em História e professora da rede pública, está Manoel de Barros, com sentença conhecida: “tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, afirmou o poeta pantaneiro.

A poesia de Adriana se constitui de pequenos espantos, como Ferreira Gullar disse de sua própria poesia. “Fazer poesia/ é diferente de escrever versos/ passarinho faz poesia na cumeeira da casa/ que nem cachorro abanando o rabo/ quando brinca no quintal com o menino/ ou a lavadeira fabricando arco-íris/ com sol e sabão na beirada do rio/ eu só olho e copio no papel” (Poesia de cada dia).

Adriana escreve sem se perguntar o porquê: necessidade vital. Grande leitora, o que explica em parte a qualidade dos poemas de sua coletânea de estreia, em caprichada edição. Referências diversas, não apenas no campo literário, poético, espraiam-se pelos poemas de Mural de nuvens para dias de chuva – para ser lido também em dias de sol ou a qualquer tempo.

Ela escreve desde os 15 anos, a princípio confinando seus poemas a um círculo restrito de amizades, a quem os dava de presente – e que honra deve ser receber de presente um poema de Adriana Gama de Araújo! Depois inaugurou o blogue Pólen Radioativo – inspirada em Roberto Piva –, onde até hoje publica com regularidade. O livro era um caminho natural, apesar da apregoada falácia de sua eterna agonia (ou morte, teimam alguns).

O empurrão definitivo veio com uma espécie de chancela do poeta Fernando Abreu: reconhecendo a qualidade da poesia de Adriana Gama de Araújo, ele, além de incentivá-la a publicar, ajudou-a a selecionar os poemas do livro e escreveu seu prefácio. Em retribuição ganhou Poesia, poema que ela lhe dedica, em diálogo direto com a ancestralidade poética do bicho-homem e, consequentemente, com o Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p.], mais recente volume de poemas do “pária”.

“Por mim, sinto vontade de rir alto disso tudo quando leio os poemas desse Mural de nuvens para dias de chuva. Rir com a alegria que é poder celebrar a estreia em livro de uma poesia de tanta potência e poder de comunicação. Grifo “estreia” porque chego a considerar a palavra inapropriada para uma artista que demonstra plena consciência do que faz, das forças estética, emocionais, linguística e espirituais que mobiliza na costura de seus poemas”, atesta Fernando Abreu no texto A poesia morreu, viva a poesia.

Endosso sua opinião, embora isso nada acrescente. Adriana estreia madura. Fecho com ela própria, a demonstrar a verdade do que afirmamos: “não me venha com esse olhar técnico/ construindo paredes entre os meus versos/ e nem tente aparar o exagero das arestas/ se os sentimentos coubessem numa régua/ o poema seria só mais uma forma/ de morrer com precisão geométrica” (Poema não é projeto).

Serviço

Adriana Gama de Araújo lança Mural de nuvens para dias de chuva em noite de autógrafos amanhã (30), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, altos, Praia Grande – sobre o restaurante Cafofo da Tia Dica).

Revelando Louzeiro

José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte

 

A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.

Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.

A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.

Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.

O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.

Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.

Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.

Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.

A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).

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Veja o trailer de José Louzeiro – Depois da Luta: