O vírus linguagem e a imensidão de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello e Celso Borges, ontem (19) na FeliS. Foto: Zema Ribeiro

 

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal [Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça [Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.

O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

Tente entender o que tento dizer. Capa. Reprodução

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

O gigante Wander Piroli

Foto: Fernando Rabelo

 

Dois poderosos cartões de visita abrem Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito [Conceito Editorial, 2018, 256 p.], perfil biográfico do escritor mineiro assinado pelo jornalista e poeta conterrâneo Fabrício Marques, terceiro volume da coleção Beagá Perfis: o primeiro, uma foto do biografado engraxando os sapatos (esta que abre este post); o segundo, uma coleção de frases que ele deixou organizada em um livro inédito, de entrevistas, Todo amor é marginal – de onde sai, inclusive, o subtítulo do presente volume.

Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

A grandeza desta biografia reside justamente em dar conta da dimensão humana do escritor, para quem a literatura (e o jornalismo) se confundia/m com a própria vida. “Tenho vergonha de ficar triste, porque a vida me ofereceu coisas demais”, diz outra frase, que vem a intitular a orelha, assinada pelo contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão.

Fabrício Marques escreve uma espécie de “Wander Piroli por ele mesmo”, dando voz ao próprio biografado, através de depoimentos deixados, entrevistas e principalmente através de sua atuação, sobretudo no campo jornalístico, em Belo Horizonte, enriquecido e endossado por depoimentos de quem conviveu com o autor de O menino e o pinto do menino, entre redações, botequins e as então incipientes tertúlias literárias Brasil afora. “E lá ia eu com essa cara de cachaceiro falar de literatura infantil”, disse Piroli certa vez, ele, autor diverso, que conversava com os adultos mesmo em suas obras infantis.

O livro é recheado de preciosas lições a jornalistas que, se seguidas à risca, poderiam representar algum novo fôlego ao agonizante ofício no Brasil – sobretudo em tempos de fake news. Piroli foi grande mesmo fazendo jornalismo policial, editoria em geral alçada à segunda categoria: nunca se contentou com o que estava registrado nos famigerados boletins de ocorrência. “Fulano matou? Matou. Por quê? Sempre tem um porquê. Precisamos ir atrás dos porquês”, aconselhava colegas e focas. Foi professor de jornalismo sem nunca ter estudado para exercer a profissão para a qual pareceu ter nascido talhado: as primeiras faculdades de jornalismo estavam começando no Brasil quando ele se iniciava entre as máquinas de escrever, oficinas gráficas e seu discreto garrafão de cinco litros de pinga sob a mesa.

“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”, disse em entrevista ao jornalista Aramis Milarch, em 1979, sobre a matéria-prima de sua obra, literária ou jornalística. Essa busca incessante por histórias e personagens, a ele tão fundamental quanto respirar, beber ou fumar, foi um dos fatores que o tornou um gigante.

Piroli nunca saiu de Minas Gerais – a não ser em viagens curtas para um evento aqui, outro acolá – e a Lagoinha, bairro da capital mineira, é personagem constante em sua obra, mas isto está longe de enquadrá-lo como provinciano: a qualidade de sua obra é indiscutível e não são poucos os depoimentos a colocá-lo ao lado de nomes como Hemingway, Tchecov e Kafka, para ficarmos em uns poucos.

“[Charles] Bukowski e [John] Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, disse o escritor Joca Reiners Terron ao jornalista Jotabê Medeiros, em 2011 – ambos figuram na vasta galeria de depoentes à obra do jornalista, poeta e escritor Fabrício Marques, que equilibra seus ofícios na construção de um texto que deixa transparecer a enormidade (a eternidade e a atualidade) de Piroli – para além da aparência física –, autor infelizmente ainda menos conhecido do que deveria, apesar de sucessivas reedições de sua obra, cujos direitos atualmente pertencem à editora Sesi-SP, que já publicou alguns dos 18 inéditos deixados pelo escritor, falecido em 2006.

Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

Primeira adaptação de A revolução dos bichos aos quadrinhos é brasileira

A revolução dos bichos. Capa. Reprodução

 

A George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903-1950) bastaram duas obras para estabelecer seu nome entre os mais importantes escritores do século XX: “o alegórico A revolução dos bichos influenciou até Chico Buarque (Fazenda modelo), e expressões como Big Brother [Grande Irmão] e Newspeak [Novilíngua], lançadas em 1984, há muito caíram na boca do povo e na cloaca televisiva”, como escreve Sérgio Augusto em “O jornalista exemplar”, prefácio a O que é fascismo? e outros ensaios [Companhia das Letras, 2017, 158 p.].

A recente adaptação em quadrinhos do gaúcho Odyr para A revolução dos bichos [Quadrinhos na Cia., 2018, 175 p.; R$ 70] é uma obra-prima. Mais que isso: não é exagero dizer que cada página, ou cada quadro é uma obra-prima. É daqueles livros que você se demora apreciando as imagens, analisando detalhes. Odyr é dono de um traço único e seus acrílicos dialogam diretamente com o ambiente rural do conto de fadas orwelliano.

Com enredo por demais conhecido, é justamente pelas pinturas de Odyr que vale a pena a revisita à obra, que trata da insurreição dos animais contra os donos de uma granja, numa fábula sobre o poder e suas tentações.

O livro chega em momento apropriado e é impossível não fazer analogias ao acirrado momento político por que passa o Brasil, embora Orwell não fosse dado a profecias, como também o afirma Sérgio Augusto no texto citado. “Intrépido e pertinaz defensor de causas em geral perdidas, estava sempre alerta em defesa da liberdade, sobretudo a de expressão, que definia como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, e, por tabela, contra o totalitarismo de qualquer matriz”, escreve.

“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”, a frase do jornalista, escritor e crítico literário Christopher Hitchens, epígrafe-orelha, também diz muito para além da época em que A revolução dos bichos foi escrito – durante a Segunda Guerra Mundial, publicado em 1945.

A revolução dos bichos já tinha sido adaptado ao cinema, mas esta é a sua primeira adaptação aos quadrinhos. O autor se definia como um socialista democrático, não poupando críticas sequer aos que com ele dividiam o mesmo espectro ideológico. A quem porventura (ainda) acha tratar-se de obra para crianças – sobretudo num tempo em que a ignorância se torna motivo de orgulho, ostentada e bradada aos quatro ventos e inúmeras mensagens de whatsapp –, Odyr desenhou.

João do Vale, infância e resistência

Divulgação

 

Ontem (11) o compositor João do Vale completaria 85 anos. Hoje (12) é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, a santa negra padroeira do Brasil. Amanhã (13), a jornalista e escritora Andréa Oliveira participa de programação voltada ao público infantil na Livraria da Associação Maranhense dos Escritores Independentes (Amei), no São Luís Shopping.

A programação da Amei marca as comemorações do mês da criança e a escritora participa da roda de conversa “Arte e infância em João do Vale”, às 15h, com entrada franca. Na sequência, ela autografará livros aos interessados.

Andréa Oliveira é autora de dois livros sobre o artista negro eleito maranhense do século XX, em 2000, através do voto popular: o esgotadíssimo João do Vale: mais coragem do que homem [Edufma, 1998] e o infantil João, o menino cantador [Pitomba!, 2017], ilustrado por Fernando Mendonça, além de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba-meu-boi do Maranhão [Clara, 2003].

Ela começou a acalentar a ideia do livro quando contava as histórias do pedreirense para Pedro e Clarisse, seus dois filhos, quando se equilibrava entre realidade e fantasia, recurso que levou às páginas de João, o menino cantador. Ela foi a primeira jornalista brasileira a noticiar o falecimento de João do Vale, em 6 de dezembro de 1996.

Andréa Oliveira conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

João, o menino cantador foi lançado há um ano e meio. Como tem sido a receptividade do público, não só o infantil, ao livro?
Esse livro vem me dando muitas alegrias, embora a maioria das pessoas não tenha o hábito de dar retorno ao autor. As manifestações que mais me marcaram foram as de algumas professoras que me enviaram fotos e relatos sobre atividades que realizaram em sala de aula com as crianças. Há algumas semanas fiquei surpresa quando uma amiga de infância enviou uma foto de uma livraria em Caxias onde encontrou o João menino [como ela se refere carinhosamente à própria obra] e recebi uma encomenda de Alcântara, de alguém que se interessou pelo livro. Gosto muito de ser encontrada por causa do livro, isso me alimenta. Mas nada se compara ao contato com as crianças, as perguntas que fazem, a troca. Isso me renova como mãe e ao mesmo tempo volto a ser criança.

Escritores tendem a, depois de lançado um livro, ficar observando o que gostariam de mudar. Nesse sentido, se teu livro fosse lançado hoje, no que ele seria diferente?
Tenho muito isso desde os tempos em que trabalhei em jornal impresso. Era ver a matéria publicada e achar muita coisa pra mudar. Até hoje sou assim, mas com o João menino, talvez porque tenha levado muito tempo entre escrever e publicar, todas as edições foram feitas até ele sair. Mas teve uma coisa interessante que aconteceu há bem pouco tempo. Foi quando me dei conta de que nada na capa do livro informa o que de fato ele é: a biografia do compositor João do Vale para crianças. João, o menino cantador pode ser a história real ou inventada de qualquer João. E olha que antes de sair o livro passou pelo meu crivo, do Celso [Borges, poeta e marido da autora], do Bruno Azevêdo [escritor e editor], que como editor que trouxe inúmeras contribuições. E aí, só muito tempo depois é que percebi isso e falei com o Claudio Lima [cantor, escritor e designer, autor do projeto gráfico do livro] para bolar um selo. Agora, nas livrarias, o livro tem um selo vermelho onde se lê: Biografia de João do Vale para crianças de todas as idades.

João do Vale completaria aniversário ontem, hoje é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, e amanhã você participa de um evento voltado ao público infantil, na Amei. Como está pensado este momento e o que você oferecerá ao público e espera dele?
Nossa Senhora Aparecida é um símbolo do Brasil no campo da fé como João do Vale é um símbolo da música popular de resistência. Nunca precisamos tanto dessas duas forças! Eu pensei nesse encontro para marcar o aniversário do João e oferecer a história de sua vida como presente para as crianças. Acredito que toda criança brasileira – especialmente as que nasceram no Maranhão – têm direito de conhecer a história dele. Pensei em um encontro bem simples, de leitura, conversa e audição de algumas canções. Eu espero exatamente isso, compartilhar a história e conversar sobre João do Vale. Se eu soubesse cantar, cantaria com todo o coração, mas vou levar discos. E ainda neste mês, dia 20, tenho um novo encontro em torno do livro durante a Festa do Livro de Itapecuru-Mirim [Flim], integrando a caravana do Sesc no evento, ao lado do Claudio Lima [autor de Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho, Oca Maranhão, 2017]. Vamos falar de literatura infantil e celebrar o prazer de ler.

O Brasil vive um momento de tensão, em uma acirrada disputa política. João do Vale, através de sua obra, particularmente sua presença no elenco do show Opinião, foi um oponente à ditadura militar brasileira. Recentemente indaguei os biógrafos de Belchior, Clarice Lispector, Chacrinha, Sérgio Sampaio, Sócrates, Tarso de Castro e Wander Piroli sobre quais seriam suas prováveis posições em relação às eleições no Brasil. Como você acredita que seria o comportamento do maranhense do século XX nesta altura do século XXI?
O João do Vale felizmente seguiu na vida como um menino, no que isso tem de incrivelmente criador e também tem de ingênuo. No entanto, intuitivamente ele sempre caminhou ao lado do povo e não por acaso foi aclamado O Poeta do Povo. Poetas são faróis ao longo da história da humanidade e com João não poderia ser diferente. Ontem mesmo em conversa com os amigos, imaginando hipoteticamente a possibilidade de voltarem às trevas, lembrei que no período da ditadura, quando Caetano Veloso e Chico Buarque foram exilados em países da Europa, João do Vale se escondeu em Pedreiras. Quem criou os versos de Carcará não seria um deles. João era flor e coragem, arte e pé no chão. Era, não. É.

Questão de valores

O valor de cada um. Capa. Reprodução

 

Infantojuvenil é uma das suas estantes possíveis para O valor de cada um [Autografia, 2018, 52 p.], livro de Márcia Montenegro, obra de várias camadas.

A narrativa fabular mistura diferentes épocas, chamando a atenção do leitor para valores em desuso, infelizmente fora de moda.

A cidade da matemática é governada pelo tirano Nove IX, imperador que não aceita ser questionado sobre suas decisões.

O governante isola os números, com regulamentos esdrúxulos, porém inquestionáveis. Márcia Montenegro joga bem com a matemática, fazendo-nos revisitar lições da infância, sem vacilar com o português, disciplinas de destaque em grade da qual se pretende tirar a filosofia, que aparece aqui e acolá nas reflexões de alguns números, digo, personagens.

Há um eco orwelliano, embora a revolução dos números tenha sido praticamente obra do acaso, e não algo tão elaborado quanto a dos bichos.

Aprendem-se (ou relembram-se) os valores do amor, da amizade, da fraternidade, da igualdade e da liberdade. É freireano ao evocar a Pedagogia do Oprimido.

Sinal dos tempos, a dependência humana de dispositivos móveis é alegorizada no livro: qual nós, atualmente, os números enfiam as cabeças nas telas dos reluzentes aparelhinhos, esquecendo-se do tempo e da vida, essa arte do encontro, retardando até mesmo a revolução que os conduzirá ao infinito, com todas as suas possibilidades.

Ilustrado por Xande Pimenta, O valor de cada um guarda lições para além da matemática, e não apenas para crianças. Necessário, sobretudo nestes tristes​​ tempos vividos no Brasil.

Serviço

Márcia Montenegro autografa O valor de cada um hoje (10), às 19h, na Livraria Tempo de Ler (Golden Shopping, Calhau).

Nem mortos!

Biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Belchior, Chacrinha, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio imaginam quais seriam os votos de seus biografados no Brasil de hoje

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de Doutor Sócrates: Futebolista, Filósofo e Lenda [Simon & Schuster, 400 p., ainda sem tradução no Brasil], declarou hoje (19) ao jornal Folha de S. Paulo: “Esses caras hoje em dia são o contrário do Sócrates. Ganham muito mais e se importam muito menos com o lugar de onde eles vêm. Sócrates era imprevisível e não posso falar por ele, mas creio que ele estaria chocado em ouvir jogadores do Corinthians ou de qualquer time grande, como Palmeiras ou Tottenham, falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”.

Downie se referia ao apoio de nomes como Felipe Melo (Palmeiras), Lucas Moura (Tottenham, da Inglaterra), Jadson e Roger (Corinthians) ao candidato de extrema-direita à presidência da república Jair Bolsonaro (PSL). O contraponto proposto pelo biógrafo se ancora, por exemplo, na atuação de Sócrates em movimentos como a Democracia Corintiana e a campanha Diretas Já!, ambas na década de 1980.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Chacrinha, Belchior, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio, que, baseados no profundo conhecimento que têm de suas personagens, imaginaram quais seriam seus votos no Brasil de hoje.

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Capa. Reprodução

Também biógrafo de Sócrates [Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Objetiva, 2014, 264 p.], o jornalista Tom Cardoso, ao mesmo tempo em que acredita que o ex-jogador poderia estar ainda mais à esquerda, reconhece sua postura libertária. “Acho que ele jamais concordaria com um clube tutelar, ele diria que o jogador é livre para se posicionar politicamente, seja ele eleitor do PT ou do Bolsonaro”, disse. “O Sócrates não ficaria surpreendido com o voto de algum jogador no Bolsonaro. Talvez ele discordasse, claro, como um homem progressista, de esquerda, de um eleitor do Bolsonaro. Mas ele não ficaria assustado com isso, ele sabia, deu várias declarações dizendo que o futebol brasileiro era muito conservador, era um espelho da sociedade”, continua.

“Ele achava que o PT, de quem ele acabou se tornando um crítico, tinha feito essa guinada ao pragmatismo político, através da Carta ao Povo Brasileiro, então eu tenho dúvidas se ele não estaria mais à esquerda do [Fernando] Haddad [candidato do PT] e não estaria mais entusiasmado pelo PSol, por exemplo”, imagina. Cardoso lembrou ainda que Sócrates chegou a ser secretário municipal de Esportes em Ribeirão Preto/SP numa das gestões de Antonio Palocci, tendo permanecido apenas seis meses no cargo, “ele meio que se desiludiu um pouco com aquela coisa preguiçosa da máquina do estado”. O camisa 8 também teria recusado diversos convites do PT para assumir o ministério dos Esportes na gestão de Lula. “Hoje, eu acho que ele votaria no Haddad, mas também poderia votar no Ciro [Gomes, candidato do PDT] ou no próprio [Guilherme] Boulos [candidato do PSol]”, opina.

75 kg de músculos e fúria. Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

Indago sobre Tarso de Castro [75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 2005, 280 p.], outro biografado de Tom Cardoso. “O Tarso é mais difícil. Eu acho que ele pregaria um voto útil contra o Bolsonaro. Tem o Ciro, que é do PDT do [Leonel] Brizola, mas não tem nada de brizolista, o Tarso era brizolista, antes de tudo, mas tinha simpatia pelo Lula, fez uma grande entrevista com o Lula, acho que em 1982, para a [revista] Careta. Acho que ele estaria inclinado pelo voto a quem tivesse mais chance para ganhar do Bolsonaro”, especula sobre a posição do jornalista, da patota do Pasquim.

Belchior. Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

O biógrafo Jotabê Medeiros foi direto sobre que opinião teria Belchior [Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, Todavia, 2017, 237 p.] sobre o capitão reformado do exército: “Belchior era antifascista. Foi combatente da liberdade até a morte – embora afastado da vida social, angustiava a ele o mergulho que o Brasil deu na via antidemocrática nos últimos anos. Sua defesa da liberdade o posta como um claro adversário de tudo o que Bolsonaro representa”, diz.

O jornalista aposta no voto do compositor cearense: “Belchior é Lula. Lula é Belchior. Ele estaria com o maior líder popular do País em todos os tempos. Caminharia ao lado de Haddad, não tenho a menor dúvida”, coloca as fichas.

“Um compositor que escreveu “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, identificando os alvos prioritários dos ataques de racismo, exclusão e misoginia, sempre demonstrou saber perfeitamente quem são os inimigos a serem combatidos”, arremata.

Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

Mais comedido é Fabrício Marques, biógrafo de Wander Piroli [Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito, Coleção Beagá Perfis, Conceito Editorial, 2018, 256 p.]. “Seria leviano de minha parte tentar adivinhar as posições políticas do Wander Piroli. O que posso pressupor, com base nas opiniões dele, é que ficava indignado especialmente com a desigualdade social de nosso país e com as injustiças contra minorias. Como afirmou o jornalista João Paulo Cunha, a principal característica do jornalista e escritor mineiro foi o compromisso humano. Acho que essa postura dá pistas sobre as inclinações dele”, comenta.

Chacrinha. A biografia. Capa. Reprodução

Biógrafo do pernambucano Abelardo Barbosa, que fez fama como Chacrinha [Chacrinha: a biografia, Casa da Palavra/Leya, 2014, 328 p.], Denilson Monteiro segue a linha de Marques: “Seria muito arrogante da minha parte determinar qual seria o pensamento do Chacrinha se estivesse vivo hoje. Mas analisando tudo o que ele sofreu durante a ditadura civil-militar, tendo até sido preso, acredito que ele jamais apoiaria um candidato simpático a esse período tão perverso da história do país”, lembra.

Mas arrisca-se a opinar sobre o “não-voto” do velho Guerreiro em um possível segundo turno: “Partindo do que eu respondi anteriormente, o que  acredito é que num segundo turno, Chacrinha, que participou da campanha das Diretas, jamais votaria em um candidato como Jair Bolsonaro”, afirma.

Clarice,. Capa. Reprodução

Opiniões parecidas têm os biógrafos de Clarice Lispector e Sérgio Sampaio. O americano Benjamin Moser, autor de Clarice, [Companhia das Letras, 2017, 576 p.], afirma: “Clarice teria compartilhado o mesmo nojo que todos sentimos quanto a este senhor. Creio que estaria apoiando Fernando Haddad, mas é impossível saber ao certo”.

Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! [Muiraquitã, 3ª. edição, 2017, 288 p.], biografia do cantor e compositor capixaba, opina: “Como não cheguei a conhecer Sérgio, não sei precisar qual era sua orientação política, mas decerto seria de esquerda ou centro-esquerda. Sendo assim, acho improvável que uma candidatura como a de Bolsonaro o seduzisse. Arrisco dizer que ele votaria no Haddad ou no Ciro”.

Eu quero é botar meu bloco na rua. Capa. Reprodução

O capitão não conseguiu capitalizar o lamentável atentado à faca que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora/MG, no último dia 6 de setembro e, internado desde então, enfrenta, para usarmos metáforas do campo que abre este texto, o futebol, trombadas de gente que veste o mesmo uniforme: sua rejeição, que já era grande, cresce a cada declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), e de seu principal conselheiro na área econômica, Paulo Guedes, a quem o candidato apelidou “posto Ipiranga”. Nas últimas pesquisas, o candidato tem oscilado dentro da margem de erro.

Pelo visto, a rejeição ao ideário autoritário do deputado é grande também entre personalidades que permanecem vivas através de suas obras. Não é mesmo estranho ouvir de alguém, quando perguntado se votaria em Bolsonaro: “nem morto!”.

Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Coleção de perdas

O peso do pássaro morto. Capa. Reprodução

 

Romance de formação, O peso do pássaro morto [Editora Nós, 2017, 168 p.; R$ 30] acompanha a vida de sua protagonista dos oito aos 52 anos de idade. A paulista Aline Bei estreia com uma prosa vigorosa, impregnada de poesia – sobretudo ecos de Manoel de Barros, mas também elementos de poesia visual, a disposição das palavras nas páginas por vezes reforçando ideias e tons, além do enorme talento da escritora em fazer grande literatura – seu livro é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura – se valendo da oralidade.

Se ao longo das páginas acompanhamos o amadurecer da personagem, a escritora Aline Bei desponta madura, num livro quase completamente narrado em primeira pessoa, a expor com delicadeza a dureza de uma vida que é uma coleção de perdas.

Secretária da burocracia de um escritório como tantos outros, a mulher que um dia sonhou ser aeromoça conhece a morte ainda na infância, aos oito anos – as idades intitulam os capítulos –, quando perde Carla, sua melhor amiga, colega de escola. Sua vida é um suceder de acontecimentos trágicos, narrados elegante e poeticamente pela autora.

A redação escolar que um dia ela acha em uma caixa, revirando as tralhas quando se muda de endereço, parece ser a chave dO peso do pássaro morto – “A cura não existe” é o título do trabalho escolar –, como nos alerta a poeta Micheliny Verunschk, na orelha, sobre a ideia central do romance: “a vida se resolve mesmo é vivendo, as dobras de acontecimentos se sobrepondo umas às outras”.

Da protagonista, poderíamos dizer tratar-se de uma mulher comum, como tantas outras. Mas a sucessão de tragédias particulares torna-a uma mulher forte, única. Do encanto infantil com seu Luís, um “benze Dor” – Aline Bei domina também os jogos de palavras –, à conturbada relação com o próprio filho e a afeição por um cachorro de rua, a narrativa densa nos emociona, tornando-nos cúmplices, ansiosos pelos desdobramentos – e por vezes voltando para reler esta ou aquela frase, tão bem construída, dizendo tanto, por vezes lições de vida.

Autora e protagonista mulheres equilibram O peso do pássaro morto entre essa dor e delícia, fazendo do romance um livro de raras força e beleza.

A repórter e a cidade

Cidade espanto. Capa. Reprodução

 

Impressiona a maturidade e o pleno domínio da linguagem de Clarissa Carramilo em seu romance de estreia, Cidade espanto [Editora Oito e Meio, 2018, 94 p., R$ 36,00]. A escritora prova já ter nascido pronta, presenteando os leitores com um enredo bem urdido, em que várias tramas se cruzam, sem perder a mão ou exagerar.

O título refere-se ao fato de a cidade de São Luís ser personagem – o parágrafo inicial, por exemplo, dialoga diretamente com o de O mulato (1881), de Aluízio Azevedo.

“Os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção”, adverte a autora, como de praxe, mas ficção e realidade convivem na escrita ousada da autora, que mete o dedo em diversas feridas abertas, bastante conhecidas pelos que habitam a capital maranhense – mas que, no entanto, não tornam a leitura mais difícil ou menos desagradável para gente de outras plagas.

Clarissa Carramilo se vale de suas experiências profissionais para inventar personagens – ou apropriar-se delas –, inclusive a cidade de São Luís.

Antonela Azevedo, a protagonista, um alter ego da autora, é repórter destemida, que deixa claro de que lado está, sem tornar sua literatura algo panfletária: comprometida com a defesa dos direitos humanos, contrária ao golpe político-jurídico-midiático que destituiu do poder a presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff, que ousa peitar os patrões pelas coisas e causas que acredita.

Jornalista de formação, a escritora tira onda com a própria profissão, apontando contradições aparentes que acabaram naturalizadas com o tempo: chefes que conhecem menos o ofício que seus subordinados, a ditadura dos textos curtos (pois leitor de internet só curte textão em treta de rede social), a interferência da ideologia dos patrões (os donos dos veículos) sobre a redação final, jornalistas que não leem, além das relações com a ansiedade e o álcool.

A autora equilibra-se ainda entre o thriller, cada capítulo batizado por uma mulher são os bastidores das pautas em que Antonela Azevedo se envolve, enredando também o leitor, e histórias de amor, contadas ou vividas.

Serviço

Autora e obra em uma das paisagens do romance. Foto: divulgação

Clarissa Carramilo lança Cidade espanto amanhã (5), às 19h, na Livraria Leitura (São Luís Shopping). A noite de autógrafos contará com bate-papo da autora com a escritora Camila Chaves e a jornalista Bruna Castelo Branco. A obra foi selecionada pelo Edital de Apoio a Publicação de Obras Literárias da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

O menino é o pai do cineasta

O editor Felipe Melhado exibe orgulhoso o singelo Novos Contos. Foto: divulgação

 

Rogério Sganzerla (1946-2004) “é um dos cineastas mais radicais e inventivos que o Brasil já teve”, nos lembra o editor Felipe Melhado, da Grafatório Edições (de Londrina/PR). Em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos, ele reconhece a importância de Sganzerla para sua formação em vários sentidos. Em parceria com a Míriade Edições (de Florianópolis/SC), de Gabi Bresola, acaba de ser publicado uma edição fac-similar de Novos Contos [2018], livro que Sganzerla publicou em 1954, aos sete anos de idade.

Você não leu errado: aos sete anos de idade. Um primor editorial, a caprichada edição vem num singelo envelope, com o livro (quatro contos de aspecto fabular, mas sem moral da história), selos aludindo a filmes e cineastas importantes como O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla, de 1968), A chinesa (de Jean-Luc Godard, que também completa 50 anos em 2018), Orson Welles e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da cidade catarinense de Joaçaba – onde nasceu Sganzerla. E Gabi Bresola.

O cineasta Rogério Sganzerla em ação, durante as filmagens de O signo do caos (2003), seu último filme. Foto: Marcos Bonisson

O livro foi descoberto pela conterrânea. “A Gabi conseguiu uma cópia do livro em xerox, conversou com a Helena Ignez [cineasta, viúva do diretor] e com as filhas do Rogério, a Djin e a Sinai [Sganzerla, atrizes], e elas toparam a brincadeira”, conta Melhado. “Desde o começo a Gabi tinha imaginado um livro fac-similar, impresso em tipografia, como na edição original. Nós da Grafatório já tínhamos feito algumas publicações tipográficas, e foi por isso que ela convidou a gente pra trabalhar juntos! É claro que eu fiquei entusiasmado, já que sempre admirei o Sganzerla”, continua.

Melhado comenta também as opções estéticas em torno dessa (re)edição: “Graficamente, tentamos nos aproximar o máximo possível da edição original. Utilizamos os tipos móveis e ornamentos tipográficos mais parecidos que encontramos, e também os papéis mais próximos. No texto mantivemos inclusive a grafia da época e alguns cacoetes da escrita, que talvez sejam do Rogério ou, talvez, do tipógrafo que montou o livro. Mas a edição também traz alguns elementos extras: uma recontextualização gráfica que faz referência às criações posteriores do Sganzerla (os selos, os carimbos no envelope…), e também um texto-depoimento da Dona Zenaide Sganzerla, mãe do Rogério, que hoje está com 99 anos de idade”.

“Junto no envelope vai um livro do Rogério. Esse faz anos. Foi no tempo que ele era o meu mais novo, com sete anos, em Joaçaba. Ele escrevia tudo o que era coisa”, começa. A carta, escrita à mão, e os contos nos dão ideia de como o menino Sganzerla já continha o cineasta, inclusive quanto à precocidade, basta lembrarmos que O bandido da luz vermelha, considerado sua obra-prima, foi filmado quando ele tinha apenas 22 anos.

“O Rogério sempre foi de todos eles [os filhos] o mais fora do sério. […] O Rogério saiu cedo de casa porque parecia que sempre estava ansioso, inquieto, não parava, não parava de inventar coisa. Quando ele foi estudar em São Paulo com dezoito anos, fazer filmes, aí também escreveu outros livros. Mas o Novos Contos foi o primeiro de todos. O dos papeizinhos, o das coisas que ele inventava”, finaliza a missiva materna.

“Pra mim, pelo menos, a decisão de publicá-lo tem a ver com revelar uma passagem desconhecida da vida do cara. Acho que reabilitá-lo nunca é demais. Precisamos sempre botar em cena, de todas as formas, pessoas com a atitude, o pensamento e a criatividade anárquica como a dele. Precisamos tornar esse tipo de potência sempre acessível, sempre à mão, inclusive na contemporaneidade problemática em que a gente vive”, alfineta Melhado.

“Além do mais, o próprio Sganzerla tinha bastante estima por essa criação super precoce que foi o livreto Novos Contos. Ele sempre mencionou o livro em diversas entrevistas, em muitos momentos. O Sganzerla tinha um interesse pela infância que é bastante estimulante. Ele considerava a criança como um criador por excelência, um ser livre, assim como os loucos e os poetas. Ele dizia que se alguém quiser investigar sobre o processo criativo, essa pessoa precisa levar em conta a infância. Porque a criança é um ser em permanente estado de criação, e isso parecia fascinar o Rogério. E me parece que esse era um estado que ele procurava cultivar permanentemente, durante toda a sua vida”, prossegue.

O envelope de Novos Contos contém ainda uma fotografia do menino Sganzerla, a reprodução de um autógrafo em que ele oferece o opúsculo, uma espécie de lembrança – no retrato ele aparece batendo palmas diante de um bolo onde se lê “Edifício Sganzerla” –, e os contos, curtíssimos, A rainha das flôres (mantendo a grafia da época), A bola do mágico, Paulo e seu carro e Os dois patos.

Certamente alvo de curiosidade, a obra deve agradar, pelo conteúdo e singeleza, admiradores do cineasta. “A família foi muito receptiva à ideia. A Helena Ignez e as filhas do casal, Sinai e Djin Sganzerla, gostaram bastante do resultado, nos disseram que ficaram emocionadas ao ver o livro. É lógico que isso nos deixou muito contentes também”, revela Melhado.

Novos Contos é o terceiro livro publicado pela Grafatório Edições – em parceria com a Miríade Edições –, que estreou com A hora da lâmina, de Paulo Leminski (esgotado), também marcada pelo capricho editorial. “A criação gráfica serve para intensificar a potência do pensamento e vida dos autores”, explica Melhado. E anuncia: “muita coisa já está no prelo”.

“Porque precisava responder tua dedicatória”

Gabriela,. Reprodução

 

Saudosistas dirão que no tempo das cartas era melhor, e haja carteiro gastar sola de bota e a flecha do cupido voar em slow motion. Antigamente era melhor, dirão, contrariando os adeptos dos aplicativos de relacionamento, tudo fácil, ao alcance de um clique, tudo efêmero, tempos modernos, tempos líquidos.

Uma das obsessões do escritor Bruno Azevêdo tem sido fotografar gente, sabe quem o acompanha pelas redes sociais. Desde Ostreiros, livro que dividiu com a fotógrafa Ana Mendes, o escritor vem contando histórias de gente simples, essas que supostamente não dariam uma biografia ou, uma vez escritas, estas biografias não despertariam interesse do público e encalhariam nas livrarias, ledo engano.

Gabriela, [Pitomba, 2018, 24 p., R$ 35,00] reúne em belo volume, embalado em envelope (ou não seria uma carta), diversos temas de interesse do autor: a foto-missiva tem uma pegada etnográfica, a emular Pierre Verger – todas as fotografias foram feitas em Salvador, Bahia –, passeando com leveza pela típica conversa entre amantes, que falam de seus objetos, símbolos e afinidades, não necessariamente nessa ordem.

No texto, aparecem outras obsessões de Bruno Azevêdo, como ficção científica, cinema e tipografia – este último, atestado pelo capricho editorial de sua casa, responsável por colocar definitivamente o Maranhão no mapa dos circuitos literários brasileiros, sobretudo os alternativos.

Estão lá ainda citações a valter hugo mãe, José Eduardo Agualusa, Geraldo Figueiredo (fotografado segurando o próprio poema), a vírgula do título dialogando com Clarice,, de Benjamin Moser, e um Belchior de raspão. A enchente do rio Paraguassu, na Bahia, em 1990, me liga diretamente à do Beberibe, década e meia antes, responsável por tornar raríssimo o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Cortes (1975).

O texto não legendando as fotos, as imagens em preto e branco dialogando com o colorido das páginas, cada qual de uma cor, enfeitada, não poderia ser diferente, qual uma carta de amor, “todas as cartas de amor são ridículas”. Uma beleza, uma beleza!

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As obsessões em Mutarelli

O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV. Capa. Reprodução

 

Há pouco mais de 10 anos o projeto Amores Expressos, da RT Features, enviou diversos escritores brasileiros para cidades estrangeiras. Eles passariam um mês em seus destinos, desenvolvendo uma história (de amor), a ser publicada em livro pela Companhia das Letras.

Vários títulos foram publicados. Entre outros, Ithaca Road (2013), de Paulo Scott (que foi a Sidney), O livro de Praga (2011), de Sérgio Sant’Anna, O único final feliz para uma história de amor é um acidente (2010), de João Paulo Cuenca (que foi a Tóquio), Do fundo do poço se vê a lua (2010), de Joca Reiners Terron (que foi ao Cairo), Estive em Lisboa e lembrei de você (2009), de Luiz Ruffato, e Cordilheira (2008), de Daniel Galera (que foi a Buenos Aires).

O 11º. título da coleção acaba de sair: O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV [Companhia das Letras, 2018, 328 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Lourenço Mutarelli – que o Amores Expressos levou a Nova York. O quadrinhista que escreve romances e atua em filmes baseados em seus livros apresenta uma obra que confirma algumas de suas obsessões, a começar por sua devoção a Kurt Vonnegut – a quem o livro é dedicado, junto a Antonio Prata – e William S. Burroughs – cujo nome é citado uma única vez, após ter sido um dos motes do anterior O grifo de Abdera [Companhia das Letras, 2015].

O romance é habitado por homônimos de criminosos – sobretudo serial killers – e extraterrestres, com generosas doses de demonologia, que Mutarelli, senhor da ação, vai descortinando aos poucos, fisgando o leitor. O protagonista, um pobre-diabo alcoólatra, muda de nome e vida ao ir morar em Nova York, após ingressar em um programa de proteção a testemunhas controlado por uma estranha seita.

Se por um lado Mutarelli repete uma fórmula que marca sua obra literária – protagonista homem de meia idade de vida comum até um acontecimento extraordinário mudar o curso de sua vida –, os desdobramentos são sempre surpreendentes, fornecendo ao leitor uma espécie de exercício de aprofundamento em determinados temas, obsessões das personagens – e, portanto, do escritor.

Dividido em três partes, ou três livros (a quarta, que dá o título alternativo ao livro, é a soma daquelas), cada capítulo com dois títulos, Mutarelli joga habilmente com informações que poderiam soar excessivas ou desnecessárias nas mãos de alguém menos talentoso, caso, por exemplo, dos verbos usados para dar nome aos barulhos emitidos por diversos animais.

Albert Arthur Jones ou George Henry Lamson passa 10 anos em Nova York, fundindo sua paranoia particular à da cidade após o episódio das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Sua principal obsessão, no entanto, reside num passado – e numa vida – da qual teima e não se libertar.

A moeda poesia na renegociação das dívidas com a música

Barítono. Capa. Reprodução

 

“Já fui salvo pela música tantas vezes, que, diante dela, sou um amontoado de dívidas constrangidas”. O verso que serve de orelha a Barítono [Editora Terreno Estranho, 2018, 78 p.] dá a pista do que vem ser o livro de poemas de Rodrigo Carneiro, jornalista, “cantor e letrista da banda Mickey Junkies e integrante dos grupos literários Trovadores do Miocárdio e Black Poetry”, como nos informa a outra orelha. O título dá outra pista. O próprio autor aparece na capa, empunhando um microfone e esvoaçando seus dreadlocks – o que dá mais uma pista. A palavra “pista”, aliás, é outra.

Os poemas de Rodrigo Carneiro têm ritmo. Em alguma medida o escritor paga suas dívidas. Ou começa. Ou intenta fazê-lo. “Se liga num poeta capaz de juntar, no mesmo imbatível poema, “a regata do Kiss” e “o sol d’O estrangeiro” de Albert Camus”, Xico Sá nos chama atenção no prefácio, cujo título é Um livro para levar para toda a vida.

A música permeia a obra do autor, edificada de modo a reparar, no céu, o sexo dos astros, entre os vãos dos prédios de São Paulo. Viagens e cenas do cotidiano também estão lá, em diálogo com as ilustrações de Diego Gerlach – autor do zine Pirarucu, encartado na Baiacu de Angeli e Laerte, faço questão de citar para acentuar a relação (também em sua poesia) de Rodrigo Carneiro com a cultura pop.

Em Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?, um poema em prosa a traduzir com graça, uma cena banal que poucos considerariam poesia – faço questão de transcrever a íntegra: “Acompanhado da mãe, um garotinho, de uns seis, sete anos, passa por mim e, finalizando o discurso que faz aos quatro ventos, solta um “rock’n’roll”. A mãe, que o traz pela mão e atravessa o calçamento a passos firmes, para, de súbito. “Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?”, indaga ela, surpresa e grave, ao menino. Como o ângulo de visão de nossos trajetos já tinha sido comprometido – àquela altura eu estava de costas para eles –, e a algazarra da região central da cidade inundava o ar, foi impossível ouvir a resposta do moleque. O que, curioso e dado a obsessões que sou, lamento profundamente. Desde o ocorrido, não consigo parar de pensar no que teria dito a criança a respeito da expressão proferida. Ou ainda: qual a bronca da jovem mãe com o gênero musical criado pela negrada americana. Eis mais uma das dúvidas que se acumulam na minha lista de incertezas. Mais uma das sentenças sem resposta que levarei comigo até o último dos dias”.

É comovente sua homenagem ao punk em Espírito de 1977: “O conheci ainda/ menino, e há/ entre nós tanta/ intimidade, que/ nos permitimos/ silêncios, crises,/ distanciamentos e/ reaproximações/ contínuas”, diz um trecho. Ou à banda de Tom Verlaine em Nós e o  Television: “Sem rede,/ que acolhe impactos,/ eis-nos aqui/ seguros/ nos braços/ da Vênus de Milo”.

Poesia é justamente este salto.

Romance de jornalista revê governo Médici a demonstrar a atualidade da tragédia brasileira

Tempos de cigarro sem filtro. Capa. Reprodução

A prosa de José Maschio, seca, mas com ginga, de frases curtas, a incorporar o espírito das ruas e dos botecos, encontra pares em autores como João Antonio (1937-1996) e Marcelino Freire.

Autor experimentado em redações e salas de aula, praticando e ensinando o jornalismo em que se formou na Universidade Estadual de Londrina/PR e com o qual percorreu o país inteiro como repórter de jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo.

Paulista de Echaporã, em seu Tempos de cigarro sem filtro [Kan Editora, 2017, 150 p.] entrecruzam-se diversas histórias de vida, em um Brasil sob a égide do golpe militar de 1964, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, apelidado Carrascoazul por um personagem.

Maschio é elegante e tem domínio absoluto da linguagem ao abdicar de travessões ou aspas para marcar as falas de suas personagens, que acabam fundidas às do narrador, sem fundir a cuca do leitor, que ligeiro se vê fisgado pelo enredo, seus vários núcleos e suas mazelas particulares.

Ficção alicerçada em fatos e personagens reais – de cujo destino Maschio é também senhor –, trama política e policial com cheiro de povo: toda a sorte de relações mediada por afetos, traições, dinheiro miúdo, o equilíbrio na corda bamba da sobrevivência, falso moralismo, hipocrisia, politicagem, corrupção, a crueldade da ditadura militar, com torturas, desaparecimentos e assassinatos, e tudo o que acabou virando sinônimo de Brasil para o bem e para o mal, parte disso a reverberar ainda nos tristes tempos atuais, em que o país vive sob a égide de outro golpe.

Nem na ficção ditadura é solução, como se percebe em Tempos de cigarro sem filtro, o título a fazer trocadilho com o que se propõe: revelar um Brasil brasileiro, sem filtro, desde a coloquialidade da prosa até a escolha dos protagonistas, trabalhadores, gente simples que poucos se dispõem a enxergar, quanto mais a retratar.

O Brasil golpeado de hoje é resultado de uma redemocratização frágil, que nunca puniu sequer um agente da repressão. O problema é que os que pedem intervenção militar não leem sequer ficção.