Um cordel de Wilson Marques

O escritor Wilson Marques é uma espécie de pop star das letras locais: suas palestras em escolas sobre sua obra são sempre concorridas pelos pequenos leitores. Que, dependendo de estímulos como esse, poderão vir a ser os grandes leitores. É um caso raro por estas bandas, embora ele não viva da literatura que se produz. Mas ele é reconhecido nas ruas como o “pai” de Touché, seu personagem mais famoso, que estrelou vários de seus livros.

O que fez o jornalista barbudo (é a publicidade quem paga suas contas) foi adaptar ao universo infantil diversas lendas já bastante ouvidas por nós, maranhenses já saídos da infância. Com ilustrações de Dedê Paiva, que já havia desenhado em seu O Tambor do Mestre Zizinho (e estará no lançamento), ele lança amanhã (24), A Lenda do Rei Sebastião e o Touro Encantado, em versos de literatura de cordel, sua mais nova aventura (mais na imagem abaixo, clica para ampliar).

Pitomba! e Resistência Cultural

Minha primeira reação é catar numa estante o segundo volume dos Ensaios reunidos [Topbooks, 2005] de Otto Maria Carpeaux, que há tempos comprei usado no sebo Papiros do Egito. Lá está a assinatura indicando-lhe o antigo dono: Lorêdo Filho, a quem não conheço pessoalmente mas aprendi a respeitar como grande leitor, já que além da obra citada, comprei vários outros usados seus, a preços quase sempre salgados, porém, em perfeito estado de conservação.

Amigo de Moema, a proprietária do Papiros, desde meus dez ou onze anos, quando fui morar na Rua de Santaninha e seu sebo se localizava na Rua dos Afogados (hoje fica na da Cruz, depois de herdar o nome do tempo em que funcionou na do Egito), uma ida até sua loja nunca é apenas o vasculhar de algum título e/ou sua compra: é sempre uma visita, quase sempre com longas conversas sobre os mais variados temas – das últimas vezes conversamos bastante sobre os usos úteis do facebook e ela, blogueira “novata”, contava-me de sua vontade de recontar a história de Pinheiro, sua cidade natal, sobre o que tem lido bastante e publicado, vez por outra.

Nessas visitas, sempre vi a indefectível assinatura de Lorêdo, acompanhada da data, nos livros usados que ele ali deixava – ou ainda deixa? – para que Moema os revenda. Minha curiosidade era despertada sobretudo pelo fato de os livros serem novíssimos, o que me fazia deduzir que ele, grande leitor, repito, não sofria do “acervismo” que me acomete – e agora olho para pilhas de livros, jornais e revistas espalhados no quarto enquanto escrevo, a ansiedade de minha esposa para que eu dê-lhes logo o destino e a plena arrumação do cômodo que chamo pretensiosamente de biblioteca.

Moema me dizia também que Lorêdo abriria uma livraria, o que me entusiasmava, já que São Luís padece da quase inexistência desses espaços – e não vi ninguém chorar o fechamento (espero que temporário) da Athenas. Alô, Arteiro! Caso tu leias isso, dá um alô que eu tou querendo falar contigo. Mas estou, como diria Luiz Gonzaga quando achava de contar causos em shows, entre as músicas, levando vocês na conversa. Soube, da pior maneira possível, que a livraria de Lorêdo, a Resistência Cultural, já está aberta e funcionando: num texto dele sobre a revista Pitomba!.

Embora se justifique, afirmando de cara que não defende um retorno a práticas medievais – de tortura, inclusive – Lorêdo evoca um “ordonnance” (decreto) de Carlos VI, rei da França, para comentar a revista Pitomba!, em que deu “uma breve folheada”.

Católico fervoroso, Lorêdo julga o todo pela parte e, a seu ver, a revista editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha é simplesmente torpe, execrável, repugnante e depravada – para usar adjetivos colhidos ao longo de seu texto. O livreiro-editor, ao se reportar apenas aos quadrinhos Cuidado! Jesus vai voltar, esquece o trabalho de todos os envolvidos – ops! – na feitura do segundo número da publicação: as fotografias de Marilia de Laroche, os textos de Celso Borges e Flávio Reis, os poemas de Dyl Pires, os quadrinhos de Bruno Azevêdo, as traduções de Reuben da Cunha Rocha – o Sensacionalista certamente não hesitaria em dizer que os editores da Pitomba! temem a excomunhão.

A ação do trio Pitomba! despertou a ira – sei que é pecado capital, mas na falta de palavra melhor – de Lorêdo, que chega a sugerir que um conhecido mostre a revista ao arcebispo de São Luís, D. José Belisário, que a meu ver tem mais com o que se ocupar.

A reação de Lorêdo foi a pior possível: uma reação reacionária, com o perdão do trocadilho infame, com argumentos vazios – qual teria, aliás, sido sua reação se, em vez de com o catolicismo, o autor dos quadrinhos e os editores tivessem feito piada com, por exemplo, a umbanda ou o budismo? Desqualificar a revista, pura e simplesmente, não a mantendo nas prateleiras de sua livraria é agir como algumas igrejas: não ouvir música e/ou não ler literatura “do mundo”, como eles dizem, é apenas garantir um nicho de mercado.

Sou católico, vou à missa uma vez por semana e creio mesmo que meu trabalho ajude – ou tente ajudar – a construir mundo e sociedade mais justos, um dos propósitos, aliás, de Nosso Senhor Jesus Cristo, com quem nem de longe quero me comparar, mas cujos ensinamentos procuro seguir.

Como leio Cuidado! Jesus vai voltar? Como uma piada, livre de patrulhamentos, quiçá uma crítica à fé cega que permite que o povo “se deixe enganar por falsos líderes”, contrariando a letra de Zé Geraldo. Talvez a piada-crítica seja direta demais – algo a que não estamos (tão) acostumados – e choque. Nada que ainda assuste a quem já tenha assistido a um episódio de South Park, por exempo.

O tiro de Lorêdo vai terminar saindo pela culatra: seja pelo título equivocado de seu post, Pitomba neles! – afinal de contas, ele ‘tá vendendo a revista ou queimando-a em praça pública? – seja pela reprodução das três páginas da revista ocupadas pelos quadrinhos de Rafael Rosa, a mente criativa de Cuidado! Jesus vai voltar.

Lorêdo erra ainda ao dizer que o trio de editores quer apenas “lavar a burra”, sinônimo de “encher os bolsos”: quem ganha alguma coisa vendando 500 exemplares de Pitomba!? Prazer e sensação de missão cumprida são as moedas de seus salários. Ao menos em uma coisa Lorêdo acerta: quando afirma que eles “bem ou mal, estão criando numa terra onde as ideias em geral jamais vicejam” (aqui em grafia já atualizada de acordo com o novo acordo ortográfico).

Assim, resta-nos desejar vida longa à Pitomba! e à livraria-editora Resistência Cultural, de preferência com Pitomba!s em suas prateleiras.

Ficção e realidade em corda bamba sobre o oceano

Em março do ano passado o escritor Luís Cardoso esteve no Brasil para lançar o romance Requiem para o navegador solitário [Língua Geral, Coleção Ponta de Lança, 303 p.], seu primeiro livro publicado no Brasil – de 2007, aportou por aqui em 2009. Noites de autógrafos no Rio de Janeiro e em São Paulo com aquele que é considerado o mais importante escritor de Timor Leste – país-ilha onde também se fala o português –, cujas obras já foram traduzidas para o alemão, francês e inglês, entre outras.

Prosa de alta voltagem poética, personagens fortes marcam as páginas do Requiem: a própria ilha natal de Cardoso e a doce e inocente Catirina, que cresce com seus dramas, como o povo timorense querendo apenas recuperar o que é seu.

Aproveitando a passagem do escritor pelo Brasil, Zema Ribeiro entrevistou-o, ainda em março de 2010, por e-mail. Talvez os mistérios dos mares das páginas de Cardoso possam explicar o porquê de a entrevista ter permanecido inédita por mais de ano e meio. Vias de Fato recupera-a e presenteia seus leitores (optamos por manter a grafia com que o autor respondeu ao e-mail com o bloco de perguntas enviado).

Cardoso esteve no Brasil ano passado. "Requiem para o navegador solitário" é seu primeiro título publicado aqui
ENTREVISTA: LUIS CARDOSO
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Para começar, gostaria que você falasse de sua infância. Nasceu em Timor Leste, mudou-se para Portugal com que idade? Com quantos anos a literatura entra na tua vida, seja como leitor e/ou escritor? Luís Cardoso – Nasci em Timor-Leste, no dia 8 de Dezembro de 1958, numa localidade chamada Cailaco. O meu pai era enfermeiro e tinha que se deslocar de uma localidade para outra, pelo que pude contactar com vários idiomas e vários povos no território que hoje se chama Timor-Leste. Mas, o local com que mais me afeiçoei foi a ilha de Ataúro. Para onde as autoridades mandavam os presos políticos. Assim o fizeram os portugueses, os japoneses e os indonésios durante as ocupações. Em 1975 fui para Portugal para continuar os estudos. Uma vez terminado o liceu ingressei no curso de medicina. Contudo, esta opção não se revelou a mais acertada: consigo aguentar melhor as minhas dores do que as dores de outros. Desta forma, depois de um ano a estudar medicina optei pela Silvicultura. A invasão de Timor pela Indonésia deu-se na altura em que estava em Portugal. Comecei a fazer parte da Resistência Timorense e mais tarde da sua Frente Diplomática. A literatura entrou muito tarde na minha vida. Só quando cheguei a Portugal tive oportunidade de ler as obras literárias de vários escritores portugueses e estrangeiros. Mas a escrita aconteceu muito cedo, desde os tempos da escola primária, quando tinha que fazer as minhas redacções e as de um colega, filho de um desterrado português que tinha uma padaria. Normalmente fazia duas versões do mesmo tema, uma para ele e outra para mim, e recebia como recompensa um pão com manteiga. Um bem apenas acessível aos endinheirados. Posso dizer que foi a escrita que, pela primeira vez, me deu a ganhar o pão.

Quais as suas principais referências literárias, livros a que você sempre volta para novas leituras? Infelizmente não pude ler os livros dos grandes mestres da literatura na altura em que toda a gente o fazia. Simplesmente porque não chegavam a Timor. As autoridades coloniais portuguesas não o permitiam. Na infância o único livro que me deram a ler foi a Bíblia. Releio muitas vezes.

Você é tido como o primeiro romancista de Timor, última colônia portuguesa a deixar essa condição. Você citaria algum outro escritor timorense de destaque? Cito o poeta Borja Costa, a quem eu chamo de Pablo Neruda timorense. Foi morto pelos indonésios no dia da invasão em 7 de dezembro de 1975. Também faço referência a um outro poeta desconhecido que se chama Jorge Lautém.

Como é morar em Portugal e ter sido um dos ativos militantes pró-independência do Timor? Morar em Portugal foi uma opção. Libertada a Pátria, libertei-me da Pátria. Sou um homem livre, sem que contudo tenha abdicado da minha identidade timorense. Timor hoje é um país independente, onde há democracia e os cidadãos são livres de escolherem o que pretendem fazer das suas vidas. Alguns dos meus colegas dos anos da Resistência elegeram a política como actividade principal das suas vidas. Eu escolhi a literatura e viver fora do meu país foi uma opção, como a de muitos brasileiros que vivem na Europa, nos Estados Unidos ou na África. Ser cidadão de um país não quer dizer que se tenha de viver amarrado a um território.

Como ocorreram as negociações para o lançamento de seu livro no Brasil, pela Língua Geral? É o primeiro livro publicado no Brasil. O contacto foi feito pelo meu colega e amigo José Eduardo Agualusa [romancista e contista angolano, contemporâneo de Cardoso, autor de Estação das chuvas e As mulheres do meu pai, entre outros].

Há no romance certa tendência ao poético, seja na construção dos parágrafos, por vezes deixando, no bom sentido, confuso o leitor, se a fala é a continuação da fala de determinado personagem ou da narradora, seja nos nomes dados aos gatos e mesmo no imaginário de navegantes que permeia o enredo. Você escreve poesia? Não, não escrevo poesia. Mas gosto e adoro poesia. Leio mais poesia que romances. Os meus escritores preferidos são mais poetas que romancistas. Cito os portugueses António Lobo Antunes, que embora escrevendo prosa é um grande poeta, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti, os timorenses Borja Costa e Jorge Lautém, os brasileiros Manuel Bandeira e Drummond de Andrade.

Quanto há no livro de ficção e de realidade? Há personagens reais que povoaram sua infância e adolescência? Em Timor a ficção e a realidade confundem-se. Muitos desses personagens povoaram a minha infância. Navegadores solitários, aventureiros, presos políticos, antropólogos que um dia aportaram em Timor. Mas também outros seres fantásticos que povoam o fabuloso imaginário timorense.

Você já visitava o Brasil, vez por outra, e agora volta como escritor, para lançar um livro. Que novas impressões leva do país? O Brasil é tão grande e tão pujante que se renova com uma velocidade estonteante. Para o conhecer é preciso ter tempo. Das outras vezes que estive no Brasil também não tive oportunidade para o conhecer bem, uma vez que a minha prioridade era tentar convencer o Itamaraty que a independência de Timor não era uma utopia, fora dos parâmetros do pragmatismo económico.

Em Requiem, cada gato, além de um nome, substantivo, recebe um adjetivo. Que adjetivo definiria melhor Luis Cardoso? Talvez amigo. Deve ser por isso que adoro ouvir a Canção da América do Milton Nascimento.

[Vias de Fato, agosto/2011]

Olha a Pitomba! Leia a Pitomba!!!

Os bróders Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha editam a revista Pitomba, cujo segundo número será lançado hoje, às 19h, no Bar do Porto (Praia Grande), com entrada franca (a revista será vendida por R$ 5,00).

Aos editores (os dois primeiros estarão no lançamento, Reuben está em SP), que assinam quadrinhos, poemas, traduções e manifestos, juntam-se bons nomes como Marilia de la Roche (fotos), Rafael Rosa (quadrinhos), Flávio Reis (artigo), Luís Inácio, Micheliny Verunschk, Carlos Loria, Tazio Zambi e Dyl Pires (poemas), entre outros.

Este blogue fica bastante contente com a chegada do segundo número da Pitomba às paradas e lhe deseja vida longa!

Há tempos com a revista em mãos, eu já devia ter escrito algo sobre. Voltaremos a ela, que motivos não faltam. Por enquanto, deixo vocês com o material de divulgação que recebi por e-mail. Roam!:

Mais no Overmundo.

Tudo vai ficar da cor que você quiser

O poeta e jornalista Ramon Mello está à frente de uma campanha para arrecadar fundos para a montagem de uma exposição com telas do artista plástico, poeta, romancista etc. Rodrigo de Souza Leão, subido em 2009.

Mello é curador da obra de Leão, que vem sendo (re)lançada pela editora Record. “A cada mergulho em seu universo – seja nos livros, na peça que estou em cartaz, nos vídeos e em tantas outras coisas que ele deixou – reafirmo a minha vontade de tornar a sua criação mais conhecida. Foi com grande surpresa que me dei conta de que em poucos meses de EAV ( Escola de Artes Visuais do Parque Lage), Rodrigo produziu mais de 40 telas, algumas chegando a medir 3 metros, numa impressionante imersão em seu universo de inúmeras vozes e imagens”, conta-nos por e-mail.

O Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro se interessou em expor as telas e poemas de Leão, já tendo agendado a exposição que batiza este post para entre 12 de novembro de 2011 e 15 de janeiro de 2012. Sem patrocínio, Mello está correndo atrás de viabilizar a grana para o projeto, na raça, na cara e na coragem.

No vídeo abaixo ele conta um pouco mais da empreitada:

Para colaborar e saber mais, aqui.

Sarney quer se dedicar à Literatura

Com o título acima, o colunista social miranteano Pergentino Holanda, mais conhecido como PH, cravou hoje (21) no cabeçalho de sua coluna de página inteira no caderno Alternativo em O Estado do Maranhão (p. 3), o jornal de Sarney: “Ganhou enorme destaque nos principais jornais do país a declaração do presidente José Sarney de que não pretende concorrer a cargos eletivos após a conclusão de seu mandato, em 2014. Ao se “aposentar” da vida política, o ex-presidente da República, hoje com 81 anos, pretende se dedicar à família e à literatura”.

Que repercutiu, repercutiu, sabemos. Como soubemos do lançamento da bigodegrafia, digo, biografia do político por estas plagas. Aliás, que coberturazinha horrível e bajulatória a dos meios de comunicação em geral por aqui, hein? A que, aliás, se soma o colunista duas letras, cometendo inclusive ato falho, chamando o chefe simplesmente de “presidente”, quando deveria escrever “presidente do Senado”. Terá o colunista lido o texto de Xico Sá sobre o assunto? Ou a notassarro de Tutty Vasques? Não creio.

A propósito, dialogando com o primeiro, lembro da máxima de Millôr Fernandes: “a literatura de Sarney é tão ruim, mas tão ruim, que quando você larga um livro dele, não consegue mais pegar”. Daí o encalhe de volumes e volumes, inclusive autografados, nos sebos, não só da Ilha: quase mil volumes, numa busca simples na Estante Virtual. O ex-Pasquim, aliás, com seu tratado sobre Brejal dos Guajás (1985), me economiza a tarefa árdua e inglória de lê-lo (de Paulo Coelho ainda li um livro entre o fim da infância e o início da adolescência para dizer que sua literatura não presta; de Sarney, nem disso precisei, ave, Millôr!).

Quem ler a “análise crítica” de Millôr, aliás, verá ali um pouco de Sarney, digo, um quê de autobiografia na obra. Terá Regina Echeverria começado a tomar o rumo da biografia autorizada a partir dali? Aliás, será o livro da jornalista a versão de Sarney para os fatos de Honoráveis bandidos, de Palmério Dória? Que, aliás, já havia escrito A candidata que virou picolé, sobre a ascenção e queda da filha Roseana Sarney em seu desejo de tornar-se a primeira presidenta da República, sim, ela o teve um dia. E, bem, eu prefiro “presidente” a como chamam a Dilma.

Outro quê autobiográfico em obra do presidente do Senado é encontrado no início de Norte das águas, como bem lembra por e-mail o professor Chico Gonçalves, trechos abaixo, em itálico:

“Neste mares, Mestre João?”

“Sim, cá e code.”

“Por amor de quê?”

“Para sofrer menos.”

“Sofrer de menos ou sofrer de mais?”

“Tanto faz.”

“Andando que rumos donde?”

“Caminhos do Norte.”

“Do Norte ou da morte?”

“Tanto faz.”

“Norte de quê?”

“Das águas, compadre.”

“Das águas de mais ou das águas de menos?”

“Tanto faz.”

“Águas ou éguas?”

“Tanto faz.”

José Sarney é o homem do “tanto faz” (com todo respeito, mestre Reinaldo Moraes): Com a ditadura ou a democracia? Tanto faz. Com FHC ou Lula? Tanto faz. Com fraude ou sem fraude? Tanto faz. Tanto faz, o negócio é manter o poder, a qualquer custo.

Na literatura ou na política? Tanto faz.

Aliás, aí é um tanto faz com ressalvas: em tese, o autor de O dono do mar é menos nocivo na literatura, já que o leria quem quisesse. Mas as coisas não são bem assim. Enquanto mandava mais uma cerva pra dentro, ontem, comentava tudo isso com a esposa. Ela já havia lido essa última obra que cito, por obrigação, para um vestibular (já pensou se a moda pega?): “uma costura mal feita de um monte de histórias mal contadas de pescadores e fantasmas”, foi mais ou menos o que me disse. “Deve ser cine trash então”, mandou ainda quando informei que o livro havia virado filme.

Minha esposa tem razão: trash total, saca só o trailer:

Os Sarney José e Roseana anunciaram pendurar as chuteiras em 2014. Dois bons motivos para comemorarem brasileiros e brasileiras.

Esse cara é massa!

CELSO BORGES*
ESPECIAL PARA ESTE HUMILDE BLOGUE

Xico Sá (foto) tá em São Luís. E isso não é pouco. É difícil a gente encontrar um profissional do nível dele, que combina bom texto + humanismo + ironia + 1 dose de pinga + Waldick Soriano na vitrola + Dom Quixote no coração. Esse cabra do Crato (CE) é um craque da palavra. Desses raros que a gente anda atrás pra saber o que anda escrevendo. E não é pouco. Em 26 anos de jornalismo espalhou seu estilo muito pessoal prum mundaréu de jornais e revistas e ganhou os prêmios Esso e Abril. Na TV faz parte da equipe do programa Cartão Verde, da TV Cultura/SP, ao lado do ex-jogador Sócrates.

Além disso, tem parcerias musicais com o grupo Mundo Livre S/A, é coautor de roteiros de longa-metragem, fez pontas como ator em Crime delicado e O cheiro do ralo. Mas quem disse que é só isso? Xico é também um grande escritor. Nem vou citar todos os títulos. Eu já li dois e adorei: Chabadabadá e Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente. A mim resta incitá-los a procurar nas casas do ramo. É provável que não se ache aqui em São Luís. Grande novidade. Alô livreiros, pelo amor à literatura, peçam os títulos de Xico Sá!

Nunca é demais repetir: Xico é um craque da palavra. Só que ao invés de vesti-la com paletó e gravata, vai buscar excelência de linguagem na poeira das ruas. Em lugar de cátedras, mesas de bar. Cita do suicida da esquina que acabou de tomar formicida e se matou por amor ao valente e essencial Nietzsche. Sabe que no balde da vida a sabedoria tá num e noutro. Em lugar de Mahler, Magal, ou melhor, Mahler e Magal. É antológica sua apresentação ao lado de Sidney Magal.

Diferente de intelectuais e jornalistas formados (alguns deformados) dos anos 50 e 100 (sim, eles continuam vivos), Xico também bebe com prazer do lixo pop. No seu caldeirão de referências coloca o que seria incabível para os letrados de araque. Sou fã da coluna que ele escreve sobre futebol na Folha de S. Paulo. Depois de À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues, eu pensei que nada fosse me comover tanto.

Eu encontrei Xico umas três, quatro vezes, duas delas em lançamentos de livro, mas é como se fôssemos velhos conhecidos. Tasco-lhe sempre um abraço enorme, que é uma forma de expressar a alegria por tê-lo perto dividindo espantos. Dessa vez não será diferente. Pena que não vai dar tempo de levar esse cara pruma rodada dupla do campeonato maranhense no Nhozinho Santos. Logo ele torcedor do Ibis (PE) e do Santos (SP), amante e devoto de peladas homéricas. Salve, irmão! Seja bem-vindo!

*Celso Borges é jornalista e poeta. Seus títulos mais recentes são Belle epoque (2010), Música (2006) e XXI (2000).