Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].

Sebos unidos

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando a Editora Autêntica começou a republicar a obra do monumental Campos de Carvalho (não confundir com o outro Carvalho, ideólogo de revisionistas), brincávamos, um grupo de amigos: éramos uma espécie de seita, descobrindo ou reencontrando a literatura do autor de Vaca de nariz sutil.

Íamos além, numa matemática maluca: se somos três leitores apaixonados por Campos de Carvalho em São Luís, isso faz da ilha a cidade brasileira com mais leitores do autor de A chuva imóvel. A equação é simples: a tiragem média de um livro no Brasil é de algo em torno de 3 mil exemplares, o que dá menos de um livro por cidade, pouco mais de meio.

E ríamos também de nossa própria falta de talento, já que talvez essa matemática tivesse alguma graça se proposta literariamente pelo próprio escritor de A lua vem da Ásia – ou Macedónio Fernandez (autor do Museu do romance da eterna).

Lembro da devoção ao mineiro Campos de Carvalho, de saudosa memória, por ocasião da inauguração, ontem (10), da 1ª. Feira do Livro Usado (vascaíno que sou, é melhor não inventar sigla), evento que acontece até amanhã (12), na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) – para quem não sabe, aliás, Valdelino e Odylo dois importantes escritores.

O acontecimento congrega diversos sebos que vêm configurando um corredor literário no centro da capital maranhense: estive na abertura, ontem, e por lá encontrei Natan Máximo, Riba da Feira da Tralha, Silvia do Paço Prosa e Arteiro – Riba do Poeme-se se somaria, me disseram.

Enquanto jogava conversa fora, tomava café cubano e amealhava exemplares, rato de sebo que sou, me deparei com a diversidade dos frequentadores, motivados pela paixão pelos livros, curiosidade e, às vezes, circulando por ali como quem não quer nada.

Certamente muitos dos passantes, quando acabar a Feira, voltarão a estes espaços em seus endereços fixos e eventos: sem periodicidade no Sebo do Arteiro e no Paço Prosa, às últimas quintas-feiras do mês no Poeme-se, e todo domingo na Feira da Tralha, um com discotecagem de vinil, outro com roda de choro ao vivo, alternadamente – a propósito, amanhã, na noite de encerramento da iniciativa, João Eudes (violão sete cordas) e Ronaldo Rodrigues (bandolim) se apresentarão.

Cumprimentei conhecidos, vi uma desconhecida catar um exemplar de bolso do On the road de Jack Kerouac, topei com um exemplar do Hemóstase de Bruno Azevêdo, volume de contos de que até então eu só ouvira falar, a primeira edição de O desatino da rapaziada de Humberto Werneck, uma conferência proferida por Josué Montello sobre o Arthur Azevedo contista e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, entre outros volumes de seus consagrados romances.

Eis uma das graças de sebos – e livrarias, em geral: entrar procurando uma coisa (ou nem procurando nada especificamente) e sair com várias coisas completamente diferentes e tudo bem, tudo certo. Aliás, ainda prefiro comprar livros e discos presencialmente, mais ainda conversando com alguém que entenda daquilo que está vendendo.

Em um tempo em que o desmonte da educação e da cultura é uma política pública do governo federal, não faltam motivos para visitar a 1ª. Feira do Livro Usado, ainda que São Pedro não colabore. É praticamente um ato de resistência.

Senti saudade de Moema de Castro Alvim, em cujo Papiros do Egito iniciei essa perambulação que espero que nunca termine.

Melhores de 2018

Pelo terceiro ano consecutivo tenho a alegria de figurar entre os votantes dos melhores do ano do site Scream&Yell, capitaneado pelo querido Marcelo Costa.

É sempre uma dificuldade. Um exercício e tanto. Minhas listas, por exemplo, raramente têm obras incluídas na lista final, após a tabulação do site. Entre os melhores de 2018, por exemplo, só uma música nacional na qual votei figurou no top 7 final.

Uma curiosidade que percebo em meus votos, comparando-os à lista final, é certa observação da cena regional, indicando não um bairrismo ou coisa que o valha, mas a necessidade de os artistas maranhenses irem a outras praças.

A lista completa dos melhores de 2018, com todos os detalhes (e votantes) pode ser conferida no Scream&Yell. A seguir, apresento minha modesta (e falha) contribuição.

MELHOR DISCO NACIONAL

  1. Camapu, Cesar Teixeira
  1. Feita na pimenta, Alexandra Nicolas
  1. Batalhão de rosas, Lena Machado
  1. Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, Titane
  1. Viola perfumosa, Viola perfumosa (Lui Coimbra, Ceumar e Paulo Freire)

MELHOR SHOW NACIONAL

  1. João Donato, 10º. Lençóis Jazz & Blues Festival, São Luís/MA
    2. Hamilton de Holanda, 10º. Lençóis Jazz & Blues Festival, São Luís/MA
    3. Cesar Teixeira, lançamento do cd Camapu, Teatro Arthur Azevedo, São Luís/MA
    4. Elomar e João Omar, Muntano o mondengo, Teatro Arthur Azevedo, São Luís/MA
    5. Cláudio Lima, Luiz Cláudio e Rubens Salles, Cada mesa é um palco, Buriteco Café, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  1. O outro lado do vento, Orson Welles
    2. Serei amado quando morrer, Morgan Neville
    3. Severina, Felipe Hirsch
    4. Me chame pelo seu nome, Luca Guadagnino

MELHOR FILME NACIONAL

  1. Tungstênio, Heitor Dhalia
    2. O beijo no asfalto, Murilo Benício
    3. Paraíso perdido, Monique Gardenberg
    4. A vida extra-ordinária de Tarso de Castro, Léo Garcia e Zeca Brito
    5. Guriatã, Renata Amaral

MELHOR LIVRO

  1. A cobrança, Mário Rodrigues (Record)
    2. Forte apache, Marcelo Montenegro (Companhia das Letras)
    3. Raphael Rabello: o violão em erupção, Lucas Nobile (34)
    4. A revolução dos bichos, George Orwell (adaptação em quadrinhos: Odyr) (Companhia das Letras)
    5. Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito, Fabrício Marques (Conceito)

O MELHOR DA TV

  1. Cultura Livre, Roberta Martinelli, TV Cultura
    2. Brasil toca choro, TV Cultura
    3. Elis: viver é melhor que sonhar, Rede Globo

MELHOR MÚSICA NACIONAL

  1. Juçara (Cesar Teixeira), com Cesar Teixeira
    2. Preta Chica (Paulo César Pinheiro/ Roque Ferreira), com Alexandra Nicolas
  1. Exu nas escolas (Kiko Dinucci/ Edgar), com Elza Soares feat. Edgar
  1. Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols (Tatá Aeroplano/ Malu Maria), com Tatá Aeroplano e Malu Maria
  1. Dos dois (Juliano Gauche), com Juliano Gauche

Alma e sentimentos

Uma irmã. Capa. Reprodução

 

Uma irmã [Une soeur; tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 212 p.; R$ 55,00; leia um trecho] é uma metáfora para falar de amizade e das descobertas da adolescência. O francês Bastien Vivès conta a história de Antoine e Hélène, que se encontram durante um período de férias e passam a fazer tudo juntos – apesar de Titi, irmão mais novo dele.

É um período de grandes curiosidades e descobertas, em que álcool e fumos (no plural) se juntam ao desejo de desobediência aos pais, aventuras em que o par de protagonistas mergulha junto, com mais ou menos experiência.

Antoine e Hélène são, um para o outro, o grande achado daqueles dias, iniciados com uma tragédia e encerrados com outra. Entre os dois adolescentes, lições de companheirismo, confiança e cumplicidade.

Belo e delicado, o traço de Vivès tem um quê de abstrato, como se o autor quisesse captar e passar aos leitores a alma e as sensações de seus personagens – no que atinge seu objetivo. É uma graphic novel bastante sensual, nunca vulgar.

Os sentimentos que povoam os personagens de Vivès são absorvidos por seus leitores, comovidos cúmplices.

Das escritas do Choro

Chorografia do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Quando José Antonio deixou a maternidade, aos 18 dias, a primeira música que ele ouviu foi a Suíte Retratos, na execução da Camerata Carioca em Tributo a Jacob do Bandolim, de 1979. Não a ouviu completa, pois o percurso da maternidade até em casa, de carro, era menor que o tempo de duração dos quatro movimentos (os “retratos”), que homenageiam Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Não foi por acaso: a homenagem é uma espécie de síntese do Choro, ou pelo menos de suas origens e entre os bambas que tocam no disco está o maranhense João Pedro Borges, o que me enche de orgulho. O disco foi escolhido intencionalmente, redundo.

Sábado que vem (15), às 19h, na Praça Gonçalves Dias, durante o último sarau de RicoChoro ComVida na Praça em 2018, Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e este que vos perturba lançaremos – finalmente! – o livro Chorografia do Maranhão, que reúne as 52 entrevistas com 54 instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão que publicamos como uma série no jornal O Imparcial, entre março de 2013 e maio de 2015.

O lançamento acontecerá em noite especial, não apenas por se tratar da despedida do projeto este ano de seus fiéis seguidores e frequentadores eventuais, mas por que teremos o fino do Choro, a começar pelo DJ Franklin, mais o encontro do Regional Tira-Teima com a cavaquinhista carioca Luciana Rabello – e a participação especial da cantora Alexandra Nicolas.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, nos ensina Mallarmé. Sorte ou acaso, esta celebração é também fruto de bastante trabalho: do trio de autores e do editor Bruno Azevêdo – o livro sai pela Pitomba!, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), com a chancela do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mas voltemos a alguns acasos, chamemos assim. Domingo passado, em conversa no Chorinhos e Chorões, patrimônio do Maranhão e programa bastante citado pelos entrevistados – que os chororrepórteres chamamos chorografados –, o último antes do lançamento, Ricarte Almeida Santos levou dois discos de Luciana Rabello para tocar enquanto conversávamos sobre a Chorografia do Maranhão. Um deles era o lendário Os Carioquinhas no Choro [1977], do grupo homônimo que tinha entre os integrantes a cavaquinhista e seu saudoso irmão Raphael Rabello, ambos então adolescentes. O grupo era uma espécie de embrião do que viria a ser a Camerata Carioca, sob o comando do gaúcho Radamés Gnattali. Quando Serra de Almeida (flautista do Tira-Teima) concedeu a primeira entrevista da série (publicada em março de 2013, mas realizada bem antes, o que dá ainda mais tempo de trabalho, melhor deixar essa conta pra lá), no extinto Kumidinha de Buteko, a capa do elepê decorava a parede e apareceu em uma das fotografias publicadas no jornal.

As pontas se ligam: Luciana Rabello assina a produção musical de Festejos [Acari Records, 2013], estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico, ela que fará uma participação especial durante a apresentação da amiga, um reencontro que promete arrepiar quem conhece o disco e se arrepender quem porventura ainda não (ou correr atrás do tempo perdido, nunca é tarde!).

As pontas se ligam: se, de meu lado, dedico o livro a José Antonio, afinal de contas para quem escrevo tudo o que escrevo, por outro, os irmãos Almeida Santos o dedicam a Raimundo Juruca, seu pai, que lhes ensinou a mais que gostar, a amar o Choro – o que tento fazer com José Antonio, que frequentou sua primeira roda aos nove meses de idade, com as presenças de ninguém menos que Zé da Velha e Silvério Pontes, na edição inaugural de RicoChoro ComVida na Praça, em agosto de 2016, na mesma Gonçalves Dias em que agora o Chorografia do Maranhão será lançado.

Ligam-se as pontas deste emaranhado, com texto de Chico Saldanha nas orelhas, apresentação de Luciana Rabello e posfácio de Cesar Teixeira. São muitas histórias, inclusive as nossas, já que o editor Bruno Azevêdo e o poeta Celso Borges, “testemunha de muito do que o livro diz”, nos entrevistaram para o volume.

Chorografia do Maranhão cumpre uma importante tarefa de mapear e contar as histórias dos personagens que desfilam por suas páginas, mas não só: também de toda uma geografia e afetividade que permeiam o Choro no estado.

Seu lançamento é, ao mesmo tempo, sinônimo de alegria e emoção, de um lado, e, de outro, a sensação de tirar um enorme peso das costas. Foram mais de cinco anos de trabalho entre a entrevista inicial e o livro. Que, convenhamos, com o constante interesse de jovens músicos e a consequente renovação da cena Choro, o que não é privilégio apenas do Maranhão, ainda bem, já nasce defasado: diante do surgimento de novos talentos, um volume dois já se insinua necessário, embora os chororrepórteres não prometam nada, ao menos por enquanto.

Grande parte das entrevistas do livro foi realizada em bares, redutos chorísticos por excelência. É hora de passar a régua, mas insistimos em pedir mais uma e mais um choro, por favor!

Em São Luís, Mário Rodrigues antecipa novo romance

Foto: Windisley Thiago. Ascom/Secult

 

Há diversas maneiras e razões pelas quais alguém se torna escritor. Inclusive, de uns tempos pra cá, após cursos de escrita criativa, laboratórios, oficinas, cursos superiores de Letras e que tais.

Há quem acredite em dom ou talento inato. Ou destino. Ou acaso.

Na tarde de ontem (21), no Espaço Juventude da 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o bem-humorado escritor garanhuense Mário Rodrigues conversou com a jornalista e escritora Talita Guimarães em mais uma edição do Literatura Mútua.

Ele contou uma história bonita, que me deixou, como diria Paulo Mendes Campos, “comovido como o diabo”, que tento reproduzir aqui.

O pai do menino Mário foi demitido e o patrão não tinha como lhe pagar indenização. Entre o prejuízo completo, o ex-empregador resolveu dar-lhe, em compensação, cinco máquinas de escrever. Ao então desempregado de nada serviriam, mas era melhor que nada. Tinha quatro filhos, deu uma máquina de escrever a cada um.

A Mário restou uma Olivetti vermelha, daquelas que ao serem fechadas se transformam em uma maletinha. Diante da máquina, o menino colocou uma folha de papel a4 no cilindro e começou a batucar um conto, nada original, nada inspirado, segundo o relato do autor de A cobrança [Record, 2018], relatando a situação: um menino que ganha uma máquina de escrever do pai.

“Meu pai era aquele homem de pedra, nordestino autêntico, daqueles que nunca se viu rir ou chorar”, lembrou. “O macho-jurubeba no dizer de Xico Sá”, pensei na plateia, mas não quis interromper a história. “Mas eu gosto de imaginar que ao ler, na minha frente, aquele conto que lhe entreguei, vi seus olhos marejarem”, continuou. Anos depois, quando da morte do pai, descobriu que ele havia guardado o texto pelo resto da vida.

Os anos se passaram e Mário se tornou professor de português, literatura e redação e autor merecidamente festejado: com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record, 2016] venceu o prêmio Sesc de Literatura e foi finalista do Jabuti.

O autor continua morando na Garanhuns natal, tida como Suíça brasileira, pelo frio que faz à noite, terra que também deu ao Brasil Luís Inácio Lula da Silva. Fui vê-lo à tarde numa espécie de preparação para a mesa que eu mediaria à noite, com o tema “A taça do mundo não foi nossa”.

Mário Rodrigues discorreu sobre influências – Cormac McCarthy, Raymond Carver, Rubem Fonseca e principalmente Graciliano Ramos, com quem mais se identifica graças à dicção. Lembrou-se do zumbido dos minutos iniciais da adaptação cinematográfica de Vidas secas, por Nelson Pereira dos Santos, a dizer que é o tipo de detalhe que persegue ao fazer literatura.

Ao comentar seu processo criativo, revelou primeiro eleger um assunto. Depois mergulhar em uma meticulosa pesquisa sobre. E só depois colocar tudo no papel. No intervalo entre uma mesa e outra conversamos um pouco. E o que ele me revelou, me deixou curioso e ansioso de tal modo, que não pude evitar pedir-lhe que compartilhasse aquela novidade com o público presente.

Mário Rodrigues era, para mim, um autor recém-descoberto, ainda estou sob o impacto da leitura de A cobrança, assunto do post anterior deste blogue. Não li (ainda) Receita para se fazer um monstro, que é um livro de contos que versa sobre a formação de um ser humano repugnante – o monstro do título.

A mesa da noite também transcorreu em clima descontraído, entre aspectos do futebol e (da história) do Brasil abordados por sua ficção ancorada na realidade. As semelhanças nos messianismos de Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018, a vingança coletiva, contra o país que tudo lhe negou, tramada pelo protagonista de A cobrança, seu gracejo ao responder uma curiosidade da plateia: seria, necessariamente, um escritor que escreve tão bem sobre futebol, um bom jogador de futebol? “Há uma característica raríssima em jogadores de futebol que os diferenciam de todos os outros: escanear o campo. O jogador sabe exatamente onde estão seus companheiros e seus adversários. Eu só conheço quatro, com essa capacidade: Pelé, Tostão, Lionel Messi e eu”, revelou, esbanjando bom humor, para gargalhada geral dos presentes.

E discorreu em detalhes sobre o futebol-arte, lembrando partidas antológicas de diversas seleções brasileiras, de 1930, ano da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, até o Brasil inventar sua própria maneira de jogar bola, em 1950. “Depois, em 1958, o Brasil vence sua primeira Copa do Mundo. Era o Brasil sendo o melhor no que todo mundo queria ser. É fácil o Brasil ser bom em samba: só tem samba no Brasil”, comparou.

Lembrou os campeonatos mundiais conquistados em 1962 e 1970. Descreveu à perfeição lances antológicos, como o drible que Pelé dá, sem tocar na bola, em Mazurkiewicz, goleiro uruguaio, na semifinal da Copa de 1970. “Após o passe de Tostão, na medida, Pelé surge do nada, feito um raio, e após tirar o goleiro com o corpo, por milímetros a bola vai pra fora”, relembrou o não-gol mais bonito da história do futebol.

Depois algumas seleções memoráveis, sobretudo a de 1982, “com o melhor meio-campo de todos os tempos: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Vejam a diferença, Zico do Flamengo, Sócrates do Corinthians, Falcão do Internacional, e Cerezo do Atlético Mineiro. Não apenas clubes brasileiros estavam representados, mas estados”, comentou, antes de discorrer sobre a derrocada do futebol brasileiro, tema também de A cobrança. “Nos perdemos querendo imitar os europeus, graças à nossa síndrome de vira-latas, como diria o grande Nelson Rodrigues”.

Já havíamos falado do presente (A cobrança, publicado este ano) e do passado (Receita para se fazer um monstro, de 2016). Eu não podia, diante do impacto, perder a oportunidade. Repeti-lhe, diante do público, a pergunta-clichê, inevitável, que já havia feito em off, instantes antes da mesa: e o livro novo?

O argumento incrível e o inusitado de como a história lhe caiu no colo, até agora ribombando em minha cachola, me fez novamente pensar no que faz de alguém um escritor – acaso? Sorte?

Sem firulas, Mário Rodrigues não se fez de rogado e revelou o mote e parte do enredo: “eu estava, no carnaval, almoçando com umas tias setentonas, que comentavam sobre um tio, já falecido, que trabalhava no serviço secreto. Era um tio sensível, escrevia versos, tocava acordeom, me ensinou a dirigir, era aquele a quem todos da família recorriam quando tinham problemas. Quando eu era mais jovem e ouvia falar nesse serviço secreto, imaginava algo meio James Bond; fui pesquisar e descobri que ele era um agente da repressão, um torturador que trabalhou no Doi-Codi, sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, nos anos mais pesados da ditadura militar. Ou do regime militar, como queiram. Era no governo Médici, tido como o mais duro do período. Meu tio cresceu tanto na hierarquia do exército que quando Médici ia até São Paulo, ele era escalado para ser seu motorista particular. O livro vai se chamar O motorista de Médici”, antecipou.

Cá estou, ansioso por ler, a esperar este seu novo livro, certamente uma das grandes obras da literatura brasileira em 2019.

Gol de letra!

A cobrança. Capa. Reprodução

 

Antes da resenha propriamente dita, uma confissão de dois arrependimentos: o primeiro, não ter lido A cobrança [Record, 2018, 207 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Mário Rodrigues, antes da Copa do Mundo e das eleições; o segundo, não ter escrito sobre, idem.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2016, com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record], finalista do Jabuti ano passado, o pernambucano de Garanhuns lançou este ano seu romance de estreia.

Ficção alicerçada na realidade, o livro cuja capa evoca o patriotismo à guisa de “os corações nas pontas das chuteiras”, tem enredo construído em um bem trabalhado jogo de flashbacks, entre tragédias pessoais e coletivas.

A ação se dá entre o exato instante em que seu protagonista se dirige para cobrar um pênalti, o último da série inicial de cinco, na final da Copa do Mundo da Rússia, contra a Alemanha – cabe lembrar que o romance foi publicado antes da Copa do Mundo de 2018 –, enquanto um filme inteiro se passa em sua cabeça enquanto se dirige à marca de cal.

Professor de literatura, português e redação e crítico literário, Mário Rodrigues tem domínio absoluto da linguagem, equilibrando-se entre a vida trágica de seu personagem, citações bíblicas e da Constituição Federal de 1988 – cujo artigo 5º. desdobra-se nas epígrafes ao longo do livro –, promulgada em 5 de outubro daquele ano, mesma data de nascimento do protagonista.

No “país do futebol” não faltam livros sobre o esporte: de À sombra das chuteiras imortais [Companhia das Letras, 1993], do cronista Nelson Rodrigues, passando pelo belo tributo A pátria em sandálias da humildade [Realejo, 2016], do também cronista Xico Sá, passando por Veneno remédio [Companhia das Letras, 2008], ensaio sociológico de José Miguel Wisnik, e Páginas sem glória [Companhia das Letras, 2012], de Sérgio Sant’Anna.

A maioria está ancorada nas alegrias e tristezas de vitórias e derrotas reais, entre grandes clássicos e partidas sem importância (o que chamaríamos cumprir tabela). Apesar da derrocada do futebol ao longo dos anos, com a profissionalização, a publicidade tomando conta de tudo, os apelidos em desuso, dando lugar aos nomes compostos, estádios transformando-se em arenas, frequentadas não mais por quem ama o futebol acima de tudo, mas por quem, acima de tudo (e de todos) tem dinheiro para comprar os ingressos, entre uma série de outros aspectos também abordados pela prosa de Mário Rodrigues.

Sua ficção também se baseia em fatos reais: a humilhação do 7×1, diversos lances que poderiam ter mudado o rumo de partidas e, consequentemente, de campeonatos, a não efetivação na vida prática do conjunto da população de diversos direitos constitucionalmente garantidos, escândalos e tragédias da arena política.

Ao conduzir seu protagonista a um acerto de contas com sua própria história, seu passado, e o Brasil que tanto lhe subtraiu, a ficção de Mário Rodrigues conduz seu leitor a um acerto de contas com o passado (d)e um país em um momento decisivo de nossa história.

Serviço

O escritor Mário Rodrigues participa de duas mesas hoje (21) na 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). Às 16h, com mediação da jornalista e escritora Talita Guimarães, no projeto Literatura Mútua, no Espaço Juventude. Às 19h30, com este que vos perturba, no Auditório Graça Aranha, em mesa com o tema “A taça não foi nossa”. A FeliS acontece no Multicenter Sebrae (Cohafuma), com entrada franca.

O vírus linguagem e a imensidão de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello e Celso Borges, ontem (19) na FeliS. Foto: Zema Ribeiro

 

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal [Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça [Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.

O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

Tente entender o que tento dizer. Capa. Reprodução

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

O gigante Wander Piroli

Foto: Fernando Rabelo

 

Dois poderosos cartões de visita abrem Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito [Conceito Editorial, 2018, 256 p.], perfil biográfico do escritor mineiro assinado pelo jornalista e poeta conterrâneo Fabrício Marques, terceiro volume da coleção Beagá Perfis: o primeiro, uma foto do biografado engraxando os sapatos (esta que abre este post); o segundo, uma coleção de frases que ele deixou organizada em um livro inédito, de entrevistas, Todo amor é marginal – de onde sai, inclusive, o subtítulo do presente volume.

Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

A grandeza desta biografia reside justamente em dar conta da dimensão humana do escritor, para quem a literatura (e o jornalismo) se confundia/m com a própria vida. “Tenho vergonha de ficar triste, porque a vida me ofereceu coisas demais”, diz outra frase, que vem a intitular a orelha, assinada pelo contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão.

Fabrício Marques escreve uma espécie de “Wander Piroli por ele mesmo”, dando voz ao próprio biografado, através de depoimentos deixados, entrevistas e principalmente através de sua atuação, sobretudo no campo jornalístico, em Belo Horizonte, enriquecido e endossado por depoimentos de quem conviveu com o autor de O menino e o pinto do menino, entre redações, botequins e as então incipientes tertúlias literárias Brasil afora. “E lá ia eu com essa cara de cachaceiro falar de literatura infantil”, disse Piroli certa vez, ele, autor diverso, que conversava com os adultos mesmo em suas obras infantis.

O livro é recheado de preciosas lições a jornalistas que, se seguidas à risca, poderiam representar algum novo fôlego ao agonizante ofício no Brasil – sobretudo em tempos de fake news. Piroli foi grande mesmo fazendo jornalismo policial, editoria em geral alçada à segunda categoria: nunca se contentou com o que estava registrado nos famigerados boletins de ocorrência. “Fulano matou? Matou. Por quê? Sempre tem um porquê. Precisamos ir atrás dos porquês”, aconselhava colegas e focas. Foi professor de jornalismo sem nunca ter estudado para exercer a profissão para a qual pareceu ter nascido talhado: as primeiras faculdades de jornalismo estavam começando no Brasil quando ele se iniciava entre as máquinas de escrever, oficinas gráficas e seu discreto garrafão de cinco litros de pinga sob a mesa.

“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”, disse em entrevista ao jornalista Aramis Milarch, em 1979, sobre a matéria-prima de sua obra, literária ou jornalística. Essa busca incessante por histórias e personagens, a ele tão fundamental quanto respirar, beber ou fumar, foi um dos fatores que o tornou um gigante.

Piroli nunca saiu de Minas Gerais – a não ser em viagens curtas para um evento aqui, outro acolá – e a Lagoinha, bairro da capital mineira, é personagem constante em sua obra, mas isto está longe de enquadrá-lo como provinciano: a qualidade de sua obra é indiscutível e não são poucos os depoimentos a colocá-lo ao lado de nomes como Hemingway, Tchecov e Kafka, para ficarmos em uns poucos.

“[Charles] Bukowski e [John] Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, disse o escritor Joca Reiners Terron ao jornalista Jotabê Medeiros, em 2011 – ambos figuram na vasta galeria de depoentes à obra do jornalista, poeta e escritor Fabrício Marques, que equilibra seus ofícios na construção de um texto que deixa transparecer a enormidade (a eternidade e a atualidade) de Piroli – para além da aparência física –, autor infelizmente ainda menos conhecido do que deveria, apesar de sucessivas reedições de sua obra, cujos direitos atualmente pertencem à editora Sesi-SP, que já publicou alguns dos 18 inéditos deixados pelo escritor, falecido em 2006.

A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

Primeira adaptação de A revolução dos bichos aos quadrinhos é brasileira

A revolução dos bichos. Capa. Reprodução

 

A George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903-1950) bastaram duas obras para estabelecer seu nome entre os mais importantes escritores do século XX: “o alegórico A revolução dos bichos influenciou até Chico Buarque (Fazenda modelo), e expressões como Big Brother [Grande Irmão] e Newspeak [Novilíngua], lançadas em 1984, há muito caíram na boca do povo e na cloaca televisiva”, como escreve Sérgio Augusto em “O jornalista exemplar”, prefácio a O que é fascismo? e outros ensaios [Companhia das Letras, 2017, 158 p.].

A recente adaptação em quadrinhos do gaúcho Odyr para A revolução dos bichos [Quadrinhos na Cia., 2018, 175 p.; R$ 70] é uma obra-prima. Mais que isso: não é exagero dizer que cada página, ou cada quadro é uma obra-prima. É daqueles livros que você se demora apreciando as imagens, analisando detalhes. Odyr é dono de um traço único e seus acrílicos dialogam diretamente com o ambiente rural do conto de fadas orwelliano.

Com enredo por demais conhecido, é justamente pelas pinturas de Odyr que vale a pena a revisita à obra, que trata da insurreição dos animais contra os donos de uma granja, numa fábula sobre o poder e suas tentações.

O livro chega em momento apropriado e é impossível não fazer analogias ao acirrado momento político por que passa o Brasil, embora Orwell não fosse dado a profecias, como também o afirma Sérgio Augusto no texto citado. “Intrépido e pertinaz defensor de causas em geral perdidas, estava sempre alerta em defesa da liberdade, sobretudo a de expressão, que definia como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, e, por tabela, contra o totalitarismo de qualquer matriz”, escreve.

“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”, a frase do jornalista, escritor e crítico literário Christopher Hitchens, epígrafe-orelha, também diz muito para além da época em que A revolução dos bichos foi escrito – durante a Segunda Guerra Mundial, publicado em 1945.

A revolução dos bichos já tinha sido adaptado ao cinema, mas esta é a sua primeira adaptação aos quadrinhos. O autor se definia como um socialista democrático, não poupando críticas sequer aos que com ele dividiam o mesmo espectro ideológico. A quem porventura (ainda) acha tratar-se de obra para crianças – sobretudo num tempo em que a ignorância se torna motivo de orgulho, ostentada e bradada aos quatro ventos e inúmeras mensagens de whatsapp –, Odyr desenhou.

João do Vale, infância e resistência

Divulgação

 

Ontem (11) o compositor João do Vale completaria 85 anos. Hoje (12) é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, a santa negra padroeira do Brasil. Amanhã (13), a jornalista e escritora Andréa Oliveira participa de programação voltada ao público infantil na Livraria da Associação Maranhense dos Escritores Independentes (Amei), no São Luís Shopping.

A programação da Amei marca as comemorações do mês da criança e a escritora participa da roda de conversa “Arte e infância em João do Vale”, às 15h, com entrada franca. Na sequência, ela autografará livros aos interessados.

Andréa Oliveira é autora de dois livros sobre o artista negro eleito maranhense do século XX, em 2000, através do voto popular: o esgotadíssimo João do Vale: mais coragem do que homem [Edufma, 1998] e o infantil João, o menino cantador [Pitomba!, 2017], ilustrado por Fernando Mendonça, além de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba-meu-boi do Maranhão [Clara, 2003].

Ela começou a acalentar a ideia do livro quando contava as histórias do pedreirense para Pedro e Clarisse, seus dois filhos, quando se equilibrava entre realidade e fantasia, recurso que levou às páginas de João, o menino cantador. Ela foi a primeira jornalista brasileira a noticiar o falecimento de João do Vale, em 6 de dezembro de 1996.

Andréa Oliveira conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

João, o menino cantador foi lançado há um ano e meio. Como tem sido a receptividade do público, não só o infantil, ao livro?
Esse livro vem me dando muitas alegrias, embora a maioria das pessoas não tenha o hábito de dar retorno ao autor. As manifestações que mais me marcaram foram as de algumas professoras que me enviaram fotos e relatos sobre atividades que realizaram em sala de aula com as crianças. Há algumas semanas fiquei surpresa quando uma amiga de infância enviou uma foto de uma livraria em Caxias onde encontrou o João menino [como ela se refere carinhosamente à própria obra] e recebi uma encomenda de Alcântara, de alguém que se interessou pelo livro. Gosto muito de ser encontrada por causa do livro, isso me alimenta. Mas nada se compara ao contato com as crianças, as perguntas que fazem, a troca. Isso me renova como mãe e ao mesmo tempo volto a ser criança.

Escritores tendem a, depois de lançado um livro, ficar observando o que gostariam de mudar. Nesse sentido, se teu livro fosse lançado hoje, no que ele seria diferente?
Tenho muito isso desde os tempos em que trabalhei em jornal impresso. Era ver a matéria publicada e achar muita coisa pra mudar. Até hoje sou assim, mas com o João menino, talvez porque tenha levado muito tempo entre escrever e publicar, todas as edições foram feitas até ele sair. Mas teve uma coisa interessante que aconteceu há bem pouco tempo. Foi quando me dei conta de que nada na capa do livro informa o que de fato ele é: a biografia do compositor João do Vale para crianças. João, o menino cantador pode ser a história real ou inventada de qualquer João. E olha que antes de sair o livro passou pelo meu crivo, do Celso [Borges, poeta e marido da autora], do Bruno Azevêdo [escritor e editor], que como editor que trouxe inúmeras contribuições. E aí, só muito tempo depois é que percebi isso e falei com o Claudio Lima [cantor, escritor e designer, autor do projeto gráfico do livro] para bolar um selo. Agora, nas livrarias, o livro tem um selo vermelho onde se lê: Biografia de João do Vale para crianças de todas as idades.

João do Vale completaria aniversário ontem, hoje é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, e amanhã você participa de um evento voltado ao público infantil, na Amei. Como está pensado este momento e o que você oferecerá ao público e espera dele?
Nossa Senhora Aparecida é um símbolo do Brasil no campo da fé como João do Vale é um símbolo da música popular de resistência. Nunca precisamos tanto dessas duas forças! Eu pensei nesse encontro para marcar o aniversário do João e oferecer a história de sua vida como presente para as crianças. Acredito que toda criança brasileira – especialmente as que nasceram no Maranhão – têm direito de conhecer a história dele. Pensei em um encontro bem simples, de leitura, conversa e audição de algumas canções. Eu espero exatamente isso, compartilhar a história e conversar sobre João do Vale. Se eu soubesse cantar, cantaria com todo o coração, mas vou levar discos. E ainda neste mês, dia 20, tenho um novo encontro em torno do livro durante a Festa do Livro de Itapecuru-Mirim [Flim], integrando a caravana do Sesc no evento, ao lado do Claudio Lima [autor de Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho, Oca Maranhão, 2017]. Vamos falar de literatura infantil e celebrar o prazer de ler.

O Brasil vive um momento de tensão, em uma acirrada disputa política. João do Vale, através de sua obra, particularmente sua presença no elenco do show Opinião, foi um oponente à ditadura militar brasileira. Recentemente indaguei os biógrafos de Belchior, Clarice Lispector, Chacrinha, Sérgio Sampaio, Sócrates, Tarso de Castro e Wander Piroli sobre quais seriam suas prováveis posições em relação às eleições no Brasil. Como você acredita que seria o comportamento do maranhense do século XX nesta altura do século XXI?
O João do Vale felizmente seguiu na vida como um menino, no que isso tem de incrivelmente criador e também tem de ingênuo. No entanto, intuitivamente ele sempre caminhou ao lado do povo e não por acaso foi aclamado O Poeta do Povo. Poetas são faróis ao longo da história da humanidade e com João não poderia ser diferente. Ontem mesmo em conversa com os amigos, imaginando hipoteticamente a possibilidade de voltarem às trevas, lembrei que no período da ditadura, quando Caetano Veloso e Chico Buarque foram exilados em países da Europa, João do Vale se escondeu em Pedreiras. Quem criou os versos de Carcará não seria um deles. João era flor e coragem, arte e pé no chão. Era, não. É.

Questão de valores

O valor de cada um. Capa. Reprodução

 

Infantojuvenil é uma das suas estantes possíveis para O valor de cada um [Autografia, 2018, 52 p.], livro de Márcia Montenegro, obra de várias camadas.

A narrativa fabular mistura diferentes épocas, chamando a atenção do leitor para valores em desuso, infelizmente fora de moda.

A cidade da matemática é governada pelo tirano Nove IX, imperador que não aceita ser questionado sobre suas decisões.

O governante isola os números, com regulamentos esdrúxulos, porém inquestionáveis. Márcia Montenegro joga bem com a matemática, fazendo-nos revisitar lições da infância, sem vacilar com o português, disciplinas de destaque em grade da qual se pretende tirar a filosofia, que aparece aqui e acolá nas reflexões de alguns números, digo, personagens.

Há um eco orwelliano, embora a revolução dos números tenha sido praticamente obra do acaso, e não algo tão elaborado quanto a dos bichos.

Aprendem-se (ou relembram-se) os valores do amor, da amizade, da fraternidade, da igualdade e da liberdade. É freireano ao evocar a Pedagogia do Oprimido.

Sinal dos tempos, a dependência humana de dispositivos móveis é alegorizada no livro: qual nós, atualmente, os números enfiam as cabeças nas telas dos reluzentes aparelhinhos, esquecendo-se do tempo e da vida, essa arte do encontro, retardando até mesmo a revolução que os conduzirá ao infinito, com todas as suas possibilidades.

Ilustrado por Xande Pimenta, O valor de cada um guarda lições para além da matemática, e não apenas para crianças. Necessário, sobretudo nestes tristes​​ tempos vividos no Brasil.

Serviço

Márcia Montenegro autografa O valor de cada um hoje (10), às 19h, na Livraria Tempo de Ler (Golden Shopping, Calhau).

Um comovente acerto de contas com a própria história

Fun home. Capa. Reprodução

 

O subtítulo Uma tragicomédia em família não é estraga-prazeres em Fun home [título original: Fun home: a family tragicomic; tradução: André Conti; Todavia, 2018, 233 p.; R$ 55], título-trocadilho da nova graphic novel de Alison Bechdel: antes de traduzirmos por casa divertida ou algo que o valha, é preciso ter em mente que se trata de uma abreviatura de casa funerária, um negócio de família em cujos fundos, por assim dizer, a autora foi criada.

Nascida na Pensilvânia em 1960, Bechdel teve lançado no Brasil seu Você é minha mãe? [Companhia das Letras, 2013]. Fun home foi eleito livro do ano pela revista Time em 2006. A obra conta a conflituosa história de sua relação com seu pai, tendo por pano de fundo a estrutura familiar e as ocupações, obsessões e mistérios de Bruce Allen Bechdel.

Administrador da funerária que herdou, Bruce era professor de inglês, leitor compulsivo, restaurador por hobby, obcecado por decoração e um pai distante, frio e opressor, que enxergava nos filhos mão barata e sempre disponível a comandos que variavam de acordo com seu humor.

Pai e filha são homossexuais, mas ela só descobrirá este fato da vida do pai, após a morte dele, em situação que leva a crer em suicídio, quando ela própria decide revelar-se. Peças se encaixam, mas o pai distante segue misterioso para a filha.

O traço de união entre eles é o amor à literatura, com seus jogos, suas coincidências e citações que vão de F. Scott Fitzgerald a Marcel Proust e Albert Camus, passando por Kate Millet, Colette e James Joyce, longe de tornar seus quadrinhos herméticos para quem não os tenha lido.

Os tons esverdeados de Fun home são um marco das narrativas autobiográficas, sem restringir aqui meramente ao universo dos quadrinhos: Alison Bechdel é impiedosa consigo mesmo e com os que a rodeiam – ou rodearam –, sem tornar sua história sui generis piegas ou irreverente, vide os agradecimentos que faz aos familiares, de uma sinceridade comovente, como o enredo.

Bechdel traça com as tintas da delicadeza as incertezas e as descobertas da puberdade e da sexualidade, entre desenhos animados do Papa-Léguas e o escândalo do Watergate, no governo de Richard Nixon, símbolos, para o bem e para o mal, de uma época em que a homossexualidade era considerada doença.

Fun home é um acerto de contas com o passado, entre dolorido e hilariante, uma lição da qual não se pode fugir.

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Assista ao trailer do livro: