Um aniversário alegre, outro triste, e uma entrevista

Hoje a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade que tenho a enorme honra e responsabilidade de presidir, completa 36 anos. A data será festejada com a realização do 6º. Baile do Parangolé.

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Há 10 anos tombava Irmã Dorothy Stang, vítima da violência, do latifúndio e dos conflitos agrários no vizinho Pará, um dos campeões brasileiros no assunto, nem tão distante assim, não apenas geograficamente, do Maranhão.

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Fui entrevistado pelo blogueiro Robert Lobato. Na entrevista, concedida por conta da repercussão de nota em que a SMDH critica a MP 185, editada pelo governo Flávio Dino, comento, além da pauta central, questões como a redução da maioridade penal, o discurso senso comum de que “bandido bom é bandido morto” e a democratização da mídia, entre outras temáticas em direitos humanos.

Emoção marca inauguração do Centro de Referência da Agricultura Familiar

[Texto que escrevi pro site da Cáritas Brasileira Regional Maranhão]

Produção de grupos filiados à Rede Mandioca tem endereço certo. Centro de Referência em Comercialização de Produtos da Agricultura Familiar foi inaugurado na última sexta-feira, 6, na sede da Cáritas

POR ZEMA RIBEIRO

Emoção é uma palavra que bem poderia traduzir o que foi a inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar, na sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, na manhã de sexta-feira, 6.

Cerca de 100 pessoas de diversos municípios maranhenses estiveram presentes à solenidade, que inaugurou os três pontos do centro: o Auditório Mané da Conceição, a biblioteca Dom Xavier Gilles e a Quitanda da Rede Mandioca.

A sede da Cáritas no Maranhão passou por uma reforma para abrigar o Centro, financiada pela Fundação Banco do Brasil. O Banco do Nordeste financia o acompanhamento de grupos produtivos e os fundos rotativos solidários, que ajudam a garantir sua sustentabilidade.

Homenageado presente, Dom Xavier Gilles abençoou os presentes após a saudação inicial de Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas. A experiência da entidade no assunto – a Rede Mandioca completará 10 anos de articulação em 2014 – foi apresentada em um documentário que cobriu um intercâmbio com grupos solidários atendidos por diversos regionais da Cáritas no Brasil. Realizado em setembro do ano passado em cidades como Codó, Lago da Pedra e Vargem Grande, o filme focou justamente a experiência da Rede Mandioca.

O ator Domingos Tourinho recitou o poema Latifúndio, de Joãozinho Ribeiro, em performance carregada de dramaticidade, representando a luta de trabalhadores e trabalhadoras rurais no interior do Maranhão – adiante ele dramatizaria ainda Pobreza incalculável, de Ricarte Almeida Santos. Os poemas, em que luta é sinônimo de vida, dialogam diretamente com as origens da Rede Mandioca: um projeto piloto desenvolvido pela Cáritas em Vila Ribeiro e Riacho do Mel, duas comunidades rurais de Vargem Grande. O principal objetivo era evitar o êxodo de trabalhadores rumo ao corte da cana no interior de São Paulo e outras atividades e geografias que se alimentam vorazmente do trabalho escravo.

Joãozinho Ribeiro, poeta, compositor e professor universitário, vinculado a diversos movimentos sociais e culturais do Maranhão, não escondeu a emoção e a honra: “Sei nem se conseguirei cantá-la até o fim”, temeu inicialmente, mas conseguiu empunhar o violão para apresentar Passamento, música composta em 1987 e cedida ao MST. A música homenageia o líder camponês Manoel da Conceição e aborda temas espinhosos enfrentados pelo próprio e por tantos outros trabalhadores maranhenses: grilagem, latifúndio, violência, assassinatos. Ao fim, sob aplausos, Joãozinho dedicou-a a Padre Victor Asselin, estudioso das questões, recentemente falecido.

A mesa solene foi composta com as presenças dos superintendentes João Batista Ayres (estadual) e Alaércio Dutra (regional) e do gerente de negócios de desenvolvimento sustentável Paulo Belarmino, do Banco do Brasil, Edmar Saturnino César, gerente de microfinanças do Banco do Nordeste, José da Luz Costa Filho, da Articulação Estadual da Rede Mandioca, Valtenir Moraes, da Comunidade Piqui da Rampa (Vargem Grande), Jaime Conrado, assessor do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira, e Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

A emoção – sempre ela – foi algo unânime nas falas. E não era para menos: uns emocionaram-se com as apresentações artísticas – “a Rede Mandioca também é cultura”, enfatizou a cantora Lena Machado, assessora da Cáritas, e mestra de cerimônias do evento –, outros por terem participado da construção da rede desde o início, outros por perceber os frutos que começam a ser colhidos por ela, alguns anos depois da semente plantada, outros ainda simplesmente por estar ali.

“Os governos têm muito que aprender com os movimentos sociais. A experiência da Rede Mandioca é riquíssima, há muito que pode ser copiado, é uma honra ter feito parte de seu início, poder reencontrar amigos aqui”, afirmou Jaime Conrado.

“O que queremos é corrigir o processo histórico de exclusão da mandioca para a valorização das coisas de fora, das monoculturas e grandes projetos que têm legado ao Maranhão vergonhosos indicadores sociais. A Rede Mandioca nasce como uma estratégia de enfrentamento ao trabalho escravo e hoje se consolida como uma experiência viável de produção e comercialização justa”, apontou Ricarte Almeida Santos.

João Batista Ayres relembrou o compromisso do Banco do Brasil com o Desenvolvimento Solidário Sustentável. “É necessário cada vez mais o envolvimento [do banco] com o social. Esta iniciativa da Rede Mandioca é um início. Quem sabe num futuro breve não teremos um pão com mais mandioca, mais gostoso?”, provocou. “Agora me sinto realmente chegado ao Maranhão. Entre vocês me sinto em casa”, revelou, ele que já trabalhou em 11 estados brasileiros.

A comunidade de Piqui da Rampa saudou os presentes com uma apresentação de seu tambor de crioula, antes do descerramento da placa que marcou a inauguração do Centro de Referência. Os presentes puderam adquirir produtos diversos, de grupos da Rede Mandioca: mel, azeite de babaçu, mesocarpo, farinhas d’água e seca, tiquira, toalhas, sabões e artesanatos, além de deliciar-se com um café da manhã repleto de iguarias também produzidas por filiados à Rede Mandioca.

A miséria dos turistas trabalhadores

No Maranhão, agências são fachada para exportar operários para obras no Sudeste.

CHICO OTÁVIO

COROATÁ (MA) – Se não havia como vencer a miséria, o motorista Júnior Rachid, de 34 anos, decidiu valer-se dela para sobreviver. Há um ano, comprou um ônibus Scania 112, de 1990, e passou a fazer parte do único negócio que prospera em Coroatá, cidade maranhense a 276 quilômetros de São Luís: o transporte clandestino de trabalhadores para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do país, onde o corte da cana de açúcar e a construção civil os espera. A cada viagem, Rachid leva cerca de 50 pessoas, a maioria homens jovens, que apostam na estrada como a única chance de escapar da vida miserável e sem esperança no interior do Maranhão.

— Levo iludidos e trago arrependidos — diz o motorista.

Ao contrário dos migrantes do passado, que fincavam raízes onde desembarcavam, os passageiros de Rachid cumprem jornadas de trabalho temporário e depois voltam. No Maranhão, a migração sazonal movimenta de 500 mil a 1 milhão de pessoas todo ano. Quem quiser conhecê-la, basta chegar cedo às rodoviárias de Coroatá e das cidades vizinhas de Codó e Timbiras, todas as sextas-feiras, e acompanhar as cenas de famílias humildes despedindo-se do filho que sobe no “ônibus de turismo”.

A região dos Cocais, onde fica Coroatá, entre os vales dos rios Itapecuru e Mearim, no centro do Maranhão, é uma espécie de enclave da mão de obra barata que abastece o país. Uma estrutura fundiária extremamente arcaica, caracterizada pela predominância da grande propriedade, pela agricultura de subsistência e pela produção de óleo de babaçu, processo artesanal que lembra o homem coletor da pré-história — somada à ausência de alternativas de trabalho urbano —, faz da população local presa fácil para a indústria do tráfico de pessoas. Muitos que embarcam mal sabem para onde estão indo:

— Estou esperando um companheiro. Se ele aparecer, vou para as bandas de lá. Não sei exatamente onde, mas sei que é São Paulo — comenta Edmilson Gomes, de 46 anos, enquanto aguarda o embarque em Codó.

Ao pegar a estrada, o ônibus de Edmilson passa em frente à Unidade de Ensino José Sarney, em Timbiras. Prédios como este servem muito mais para homenagear a família que, há quase cinco décadas, domina o Maranhão do que para oferecer às cidades dali condições de romper a estagnação econômica. De acordo com o Censo de 2010, do IBGE, 72,15% dos moradores de Codó, com dez anos ou mais, não têm instrução ou não completaram o ensino fundamental.

Para o professor Marcelo Sampaio Carneiro, do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a onipresença de Sarney nos Cocais vai além de um nome na porta de uma escola. As raízes da estagnação, sustenta Carneiro, teriam crescido nos anos 1960, quando José Sarney, então governador do estado, criou a Lei de Terras, a pretexto de modernizar o Maranhão, e introduziu na região os grandes latifúndios, financiados com recursos da Sudene, e os grileiros:

— Os proprietários usaram a terra para acessar os fartos incentivos fiscais, formaram pastagens de baixa qualidade e compraram gado apenas para justificar o uso desses recursos. Hoje, a pecuária nem sequer é expressiva na região. Não há nenhum argumento que justifique o monopólio da terra.

Sem outras alternativas, essas cidades tiraram da desesperança sua vocação econômica. Na década passada, gente como Beto do Codó, Antônio Grosso, Francinaldo e Suelen começaram a montar uma rede de agenciamento de mão de obra barata nos Cocais. Eles se apresentam como donos de agências de turismo, que estão por toda parte, mas normalmente os ônibus partem cheios e voltam vazios. Uma das agências, em Coroatá, chama-se Clandestur.

O destino do esquema inicial era São Paulo, com suas usinas produtoras de cana de açúcar, mas o crescente processo de mecanização dessa lavoura reduziu as “encomendas” e os obrigou a diversificar o negócio. Na semana passada, por exemplo, a agenciadora Suelen, uma paulista de Pradópolis que não forneceu o sobrenome, embarcou 40 trabalhadores para as obras do programa Minha Casa Minha Vida em Macaé, no norte fluminense. Ela disse que o contrato com o “encarregado da obras”, que identificou apenas como Luís, prevê o envio de um total de 300 homens.

Em Coroatá, segundo a Comissão Pastoral da Terra, mais da metade dos 60 mil moradores são favorecidos com algum tipo de benefício social, principalmente a aposentadoria rural e o programa Bolsa Família. Mas, para os jovens locais, a renda é insuficiente para dar conta de seus sonhos. O maior deles, diz o vereador petista Sebastião Araújo, o Ciba, é a compra de uma motocicleta, ambição de nove entre dez “passageiros” das agências de turismo dos Cocais.

Eles chegam a trazer as motos de São Paulo no bagageiro do ônibus. Por isso, mesmo com todas as mazelas do emprego que os aguarda, eles sempre querem ir — diz Ciba.

Antônio Carlos Gomes Lobo, de 31 anos, é um deles. Analfabeto, casado, dois filhos, trabalha na roça de mandioca, arroz e milho no povoado Nogueira, área rural de Coroatá. Ele viajou duas vezes — em 2006, para Uberaba (MG), e em 2009, para Guaribas (SP). Só não voltou porque ainda não conseguiu os R$ 170 cobrados por uma passagem nos ônibus de turismo.

— Quando eu conseguia cortar 300 metros de cana por dia, chegava ao fim do mês ganhando R$ 1,2 mil. Aqui, não existe emprego que pague a mesma coisa —garante.

Francisco Gilson Gomes Guimarães, de 33 anos, também gostaria de voltar, mas não poderá mais. Em 2008, conseguiu comprar uma moto com o dinheiro que ganhou no corte de cana em São Paulo. Dois anos depois, acidentou-se em Coroatá. Uma perna ficou mais curta e ele perdeu qualquer esperança de renda.

[O Globo, 6/5/2012, grifos do blogue]