Um retrato do Brasil do futuro

Bacurau. Cartaz. Reprodução
Bacurau. Cartaz. Reprodução

 

Kléber Mendonça Filho realizou dois dos mais importantes filmes brasileiros dos últimos 20 anos: O som ao redor (2012) e Aquarius (2016), obras-primas que discutem, a fundo e no calor da hora, graves problemas sociais brasileiros – segurança pública e especulação imobiliária, entre outros. Pelo segundo, vem sendo deliberadamente perseguido pelos governos instalados a partir do golpe que depôs a presidenta Dilma Rousseff (contra o que protestou em Cannes), num caso clássico de aspirantes a ditadores que jogam contra seu próprio país.

Um recado explícito é exibido em tela: Bacurau gerou mais de 800 empregos, o cinema é a imagem de um país e a cultura também é indústria, questões ainda não percebidas pelo projeto de destruição empreendido pelo atual governo federal, através do desmonte do Ministério da Cultura e das ingerências junto à Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Seu novo filme, escrito e dirigido com o cineasta Juliano Dornelles, embora gestado antes da tragédia que se abate cotidianamente no país, no governo neofascista de Jair Bolsonaro, é uma distopia que profetiza no que o Brasil pode se transformar muito em breve, se o autoritarismo instalado por aqui não for barrado imediatamente.

Batizado por pássaro de hábitos noturnos, arisco, espécie de coruja, Bacurau é um povoado fictício, cravado no oeste pernambucano, um microcosmo brasileiro – quantos são os Bacuraus espalhados pelo país? Ali, além de energia elétrica, não chegam serviços essenciais. A população vive por sua própria conta e risco.

A nova obra cinematográfica de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho, vencedora do prêmio do júri em Cannes este ano, é um misto de policial, faroeste, terror, suspense e ficção científica. Nada muito distante da realidade brasileira sob a égide do bolsonarismo. Há inclusive um político canastrão (Tony Jr., interpretado por Thardelly Lima) que joga contra o lugar. Ele está em campanha pela reeleição e num dos recados sutis (mas nem tanto) do filme, seu número é 150 – outro é a distância, em quilômetros (17), que um caminhão pipa precisa percorrer a partir de determinado ponto até chegar ao povoado.

Bacurau. Frame. Reprodução
Bacurau. Frame. Reprodução

Em meio ao cenário de destruição, com direito a uma gangue de nazistas – o filme se passa no futuro, convém lembrar –, há delicadeza, em homenagens prestadas pelos diretores a grandes artistas em cena: Sônia Braga (protagonista de Aquarius), no papel de Domingas, uma enfermeira alcoólatra, Lia de Itamaracá (no papel da matriarca Carmelita, orgulho do povoado) e Rodger Rogério, nome do Pessoal do Ceará, que interpreta o violeiro Carranca.

Há também uma sutil homenagem a Lampião e seu bando de cangaceiros e seu Lunga (Silvero Pereira) não é um velho mal-humorado de respostas desconcertantes. Num país em que grande parte da população brasileira não costuma frequentar (ou nunca pisou em) cinemas, teatros e museus, outro recado sutil dado pelos diretores é a existência (e a necessidade e o orgulho da população) de um museu histórico no lugar, algo a que parecíamos mais próximos, ao menos em utopia, num passado não muito distante.

Politicamente retrocedemos. Cinematograficamente, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles propõem uma reflexão e ação sobre este retrocesso. Um filme doloroso, bonito, necessário e urgente.

*

Veja o trailer:

As lutas de Clara. E nossas

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

 

Creio ainda não ser possível mensurar se a polêmica envolvendo a equipe de Aquarius [drama, Brasil, 2016, 145 minutos; em exibição no Cine Praia Grande] em Cannes, que protestou contra o golpe que cassou a presidenta Dilma Rousseff, ajudou ou atrapalhou os números da bilheteria do novo filme de Kléber Mendonça Filho. Independentemente disso, trata-se de uma obra-prima do cinema nacional.

Dono de uma voz bastante particular, o cineasta pernambucano soa talvez profético em Aquarius. É a história de Clara (Sônia Braga), jornalista aposentada, que venceu um câncer e agora luta sozinha contra os tubarões da especulação imobiliária na grande Recife. É o prédio em que Clara mora, na praia de Boa Viagem, e do qual não quer sair, que dá título ao filme.

Quem assistiu O som ao redor certamente também o aprovará. Os filmes têm alguns paralelos: ambos têm Recife como cenário, repetem alguns atores da predileção de Kléber Mendonça Filho (Irandhir Santos e Maeve Jinkings, entre outros), são divididos em capítulos, têm mais de duas horas de duração, não possuem uma moral da história explícita – ao fim o espectador crê que a história não acaba ali e se pergunta que rumos tomam os personagens após os créditos.

No microcosmo de seu enredo o cineasta acaba trazendo à tona problemas brasileiros bastante comuns. Clara é quilombola, negra, indígena, ribeirinha, camponesa, quebradeira de coco, presidenta da República apeada do poder. Clara são todos os que significam algum obstáculo ao desenvolvimento, ao progresso, à modernização – mesmo que modernizar seja apenas botar um nome espalhafatoso (e ridículo) em inglês e instalar umas câmeras de segurança.

A protagonista representa todo esse povo sofrido, mas estamos longe de alguém sem instrução ou desprovida. Viúva, possui cinco apartamentos – poderia se mudar para qualquer um ou mesmo comprar outro em qualquer lugar com o dinheiro que lhe é oferecido pela construtora que, afinal de contas, já comprou todos os outros apartamentos do edifício Aquarius.

É uma questão não de birra, mas de resistência e memória. “Esse apartamento é onde vocês foram criados”, diz durante uma visita dos três filhos. Clara passa a sofrer as investidas de quem quer por força despejá-la, numa espécie de guerrilha psicológica – e biológica.

Aquarius critica as elites do país e os reacionários que acham que tudo pode se resolver na base do dinheiro. “A questão não é dinheiro”, diz Clara noutra cena, investindo na contraofensiva.

Drama com ares de suspense e uma trilha sonora também emocionante, que ajuda a contar a história – Clara possui uma invejável coleção de vinis, embora não nutra desprezo por mídias digitais. O tema, afinal, é mote para uma crítica ao jornalismo contemporâneo, quase sempre mais preocupado com manchetes sensacionalistas que com (a veracidade d)o conteúdo publicado – os jogos de poder travados nos bastidores do jornalismo também comparecem à trama.

A luta solitária de Clara não se encerra em si mesma, como nenhum problema brasileiro está isolado e o filme toca em questões sensíveis como a violência (o filho da empregada atropelado enquanto volta do trabalho) e a ausência (ou o desinteresse) de um debate sobre a questão das drogas (o pequeno traficante branco e classe média acima de qualquer suspeita), ingredientes de nossa barbárie cotidiana.

Independentemente de questões extra-cinematográficas – o protesto em Cannes, a classificação indicativa com tons de censura militar e/ou o boicote na indicação do título nacional ao Oscar – boicotar Aquarius, como de resto qualquer obra de arte, é burrice. Ou medo. De o cinema ser espelho e se ver refletido nalgum daqueles papéis. Ou de perceber que está errado e nem sempre quem fala bem ou anda arrumadinho é o melhor para desempenhar determinada função na imensa engrenagem chamada Brasil. Longe de ser panfletário, Aquarius é também um convite à luta pelo que acreditamos.

A pintura da fachada do edifício, autorizada por Clara que, afinal de contas, agora mora ali sozinha, é um novo ponto da guerra travada pela construtora, do qual a personagem precisa se defender, juridicamente inclusive. É também uma alegoria: há tanto para descascar em Aquarius que dificilmente uma resenha dará conta. Sobretudo nestes tristes tempos de Fla x Flu político, em que o filme tem sido injustamente reduzido ao que não é: Aquarius é maior que o protesto de sua equipe em Cannes e outros eventos cinematográficos mundo afora e bem maior que a minha e a sua opinião ou posição político-ideológica neste momento conturbado e sempre.

Veja o trailer: