Vai ter peitinhos! E muito mais!

França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação

 

A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).

O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.

O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.

Encarnado. Capa. Reprodução
Encarnado. Capa. Reprodução

Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).

Selvática. Capa. Reprodução
Selvática. Capa. Reprodução

Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.

Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!

Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):

Confiram Metá Metá em Trovoa (Maurício Pereira):

Homens, máquinas, amor e música

Sobre noites e dias. Capa. Reprodução
Sobre noites e dias. Capa. Reprodução

 

Sobre noites e dias [Diginóis, 2014, R$ 25,00 na Livraria Poeme-se], novo álbum de Lucas Santtana, é um disco que cai bem em qualquer momento: das ensolaradas Diário de uma bicicleta (Lucas Santtana/ De Leve) e Mariazinha Morena Clara (Lucas Santtana) às noturnas Montanha russa sentimental (Lucas Santtana) e Blind date (Lucas Santtana). Basicamente o trabalho retrata relações: entre seres humanos (entre si) e máquinas. Human time (Lucas Santtana) abre o disco falando, em inglês e francês, em “máquinas e seres complexos”, com adesão da atriz francesa Fanny Ardant (voz e tradução para o francês).

Em seu sexto disco, o artista continua esbanjando talento em várias frentes: é cantor, compositor e instrumentista (pilota harmônio, baixo synth, cavaquinho, violão, digital drums, melotron, guitarra e cordas), joga nas 11 com igual desenvoltura, versando em português, na maioria das faixas, mas também em inglês, francês e espanhol – o poliglotismo justificado pela boa aceitação da obra de Santtana lá fora.

É um disco que atualiza o amor, retratando sua vivência em dias atuais. “Mas se rolar um clima/ ele beija ele/ ela beija ela/ para eles o amor é livre/ ela não é gay/ ele não é viado/ e não são mais classificados”, prega o Funk dos bromânticos (Lucas Santtana), faixa que conta com a presença da atriz Camila Pitanga (beatbox).

“Todo mundo na montanha russa sentimental/ burilando seu smartphone emocionado/ todo mundo quer viver romance como no cinema/ doce ilusão, vida real e seus problemas”, constata Montanha russa sentimental, dedicada a Lulu Santos, autor de O último romântico.

Sobre noites e dias é acentuadamente eletrônico, mas no pop de Lucas Santtana cabem também o violão sete cordas de Luis Filipe de Lima e o contrabaixo de Bi Ribeiro (Paralamas do Sucesso) em Partículas de amor (Lucas Santtana e Gui Amabis), inspirada canção, versando sobre o eterno tema deste universo: “Ao te conhecer, desacreditei/ como pode uma mulher assim?/ Toda solar, me derreteu/ Virei água do mar, evaporei/ Agora eu sou partículas de amor”, começa a letra. Em Alguém assopra ela (Lucas Santtana), o maestro Letieres Leite, baiano como Lucas, assina o arranjo de sopros e regência. Aos sintetizadores predominantes no disco juntam-se clarinete (Pedro Robatto), flauta (André Becker), oboé (Gustavo Seal) e fagote (Jeã Marques).

Músicas de pista – de dança ou de asfalto – Diário de uma bicicleta (Lucas Santtana e De Leve) e Mariazinha Morena Clara (Lucas Santtana) contam com as adesões de De Leve (voz), a primeira, e Kiko Dinucci (guitarra) e Thiago França (sax alto, sax tenor e arranjo de sopro), a segunda. As faixas evocam o sol dos dias do título do álbum. Cantada em português, a primeira tem refrão em inglês, abrindo-a: “You, me, us/ and our friends/ sun, grass, bicycles/ and happens”. Na segunda, evocando a personagem-título, ele passeia por Holanda e Tailândia, preferindo o Brasil: “Vem que até a Guanabara em forma de baia/ quer rir pra ti/ sei que você vive na praia/ mas o sol que abraça só tem no Brasil”. As faixas ainda guardam semelhanças nas citações de craques do futebol: numa o brasileiro Robinho, noutra o holandês Van Persie.

Sobre noites e dias foi financiado através de crowdfunding – a arrecadação superou as expectativas. Aos que investiram na iniciativa, Santtana agradece no encarte, “a todos que colocaram sua fé nesse disco mesmo antes de ouvi-lo”. Após cinco discos e tornando este sexto seu melhor álbum até aqui, o investimento e a crença são mais que merecidos.

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

Para ouvidos, mentes e corações abertos

[Sobre Hein?, show de Bruno Batista e Claudio Lima, Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy), 27/11]

Foto: Aparecida Batista
Foto: Djalma Raposo

 

Hein? não é para surdos. É para ouvidos atentos, ávidos. Não é para quem está acostumado a mesmice. Ou é, se se quiser sair desta zona de conforto.

É um show em que Bruno Batista e Claudio Lima divertem-se no palco e nós nos embevecemos na plateia. Em determinada altura, ao agradecer carinhosamente a presença de todo mundo, o segundo comenta a importância do público: “sem vocês nós não estaríamos aqui cantando, fazendo música. Estaríamos em casa, estudando”.

Parece simples a ideia de reunir um amontoado de canções, subir no palco e cantar. Pode até parecer, mas está longe disso. Há uma preocupação em reinventar, em recriar, em recompor.

Claudio Lima está cantando cada vez melhor, no palco sua entrega é total, seus elegantes suspensórios não contêm o talento que lhe cabe. Bruno Batista, a despeito de ainda bastante jovem, já é um senhor compositor, sua boina deve ser a primeira a saber das ideias musicais originais que estão sempre a fervilhar sua cabeça.

A poesia forte de Gonzaguinha é recitada ao final de Comportamento geral, que abre o show. Uma música forte, que parece dizer que, apesar de estarem se/nos divertindo e deliciando, a dupla não está para brincadeira.

Noturno (Graco/ Caio Silvio), sucesso de Fagner, ganha clima jazzy na interpretação límpida de Claudio Lima. Sozinho, acompanhando-se com um maracá, canta Kaô (Gilberto Gil/ Rodolfo Stroeter), o risco e a experimentação marcas deste inspirado artista.

Zanza (Carlinhos Brown) ganha grand finale de boi de zabumba, no arranjo inspirado acompanhado pela banda, enxuta e competente: Rui Mário (teclado e sanfona), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas e viola) e João Simas (guitarras).

Antes de cantarem Guaraná Jesus (versão de Carlos Careqa para Chocolate Jesus, de Tom Waits) Bruno Batista contou a história de como chegou à música, de como chapou com À espera de Tom, o disco em que Carlos Careqa canta apenas versões de Tom Waits, ele “fãzaço” declarado de ambos.

Claudio Lima brinca com a voz e torna sublime o fecho de Menina amanhã de manhã (Tom Zé), cantada por ambos e acompanhada por Bruno Batista ao violão – o que ele faz em boa parte do show.

Vê se me esquece (Itamar Assumpção/ Alice Ruiz) é uma música que Bruno Batista escolheu para chamar de sua. Ciranda para Janaína (Kiko Dinucci/ Jonathan Silva) demonstra sua inserção na cena paulistana, onde reside.

“A culpa é dele”, Claudio Lima acusa Bruno Batista ao interpretar Teu corpo (parceria de Bruno com Paulo Monarco e Dandara Modesto), uma das inéditas da ótima safra recente do compositor. Também foram reveladas Madrigal (também parceria de Bruno com Monarco e Dandara) Senhora da alegria – cantada como se rezassem, linda oração que a música é –, O queixo, um tango engraçado, e Caixa preta. Coisas lindas que eu espero que eles gravem logo nos discos prometidos em entrevista, pois não é justo ficarmos reféns de apresentações que não acontecem com tanta regularidade – infelizmente.

O show foi fechado com Hein? (Tom Zé/ Vicente Barreto), que batiza o show. Bruno Batista e Claudio Lima apresentaram a banda e agradeceram novamente aos patrocinadores e apoiadores e a presença do público. Voltaram para o bis: Rosa dos ventos, com que venceram um festival há dois anos, em São Luís, se juntou a Tarantino, meu amor, únicas autorais já gravadas pelo compositor.

Esqueceram-se de comentar o belo cenário, assinado por Claudio Lima: formado por espelhos, um ponto de interrogação em forma de orelha – ou vice-versa –, espécie de logomarca de Hein?, usada também na divulgação do espetáculo desde sua primeira edição, em 2008.

Que venham temporada e turnê, como também prometido em entrevista. Mais gente precisa ouvir e conhecer Bruno Batista e Claudio Lima, dentro e fora do Maranhão.

p.s. (como na música de Itamar e Alice): houve certo exagero no uso de gelo seco, às vezes mais de um jato por música. A máquina faz muito barulho.

Mais três grandes discos de 2011 para você baixar em 2012

Mas não espere tanto e baixe agora!, os três disponíveis nos sites de seus autores; ao longo do post há outros, não (só) do ano passado

Passo TortoRômulo Fróes é um pensador da música contemporânea. Cantor e compositor de indiscutível talento, com excelentes discos no currículo – Calado (2004), Cão (2006), o duplo No chão sem o chão (2009) e Um labirinto em cada pé (2011) –, é, além de tudo, das poucas figuras que se dispõem a pensar a música contemporânea. Digo, entre os que estão produzindo música contemporânea.

Mas Passo Torto não é um disco de Rômulo Fróes, que tem o talento somado aos de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos (do ótimo São Mateus não é um lugar assim tão longe, de 2009) e Marcelo Cabral. O último é contrabaixista e produtor, os outros três, compositores. O grande lance da experiência é que aqui eles compõem juntos. É uma tradução de experiências anteriores, em que uns tocam no disco do outro, outros participam do show de um etc. Referência comum aos trabalhos-solo dos moços: o samba. Mas dizer que se trata de um disco de samba seria diminuí-lo. É samba, do bom, mas é bem mais que isso.

Serafim – Conheci o mineiro Sérgio Pererê, cantor, compositor e multiinstrumentista, através de sua conterrânea Ceumar, sua Onde qué, gravada em Sempreviva! (2003). Depois ele participaria de Meu nome (2009), disco dela, todo autoral, gravado ao vivo, antes de mudar-se para a Holanda: Pererê canta em Gira de meninos, parceria dos dois, já gravada por Rubi (Paisagem humana, 2008).

De seu disco novo, a primeira música que ouvi foi o samba Brilho perfeito: “Creio em seu amor e é por isso/ que conheço as curvas da estrada/ nunca me atirei num precipício/ e nem me perdi na encruzilhada”, entre as 16 a minha predileta.

Em seu site, o ouvinte pode escolher quanto quer – se quer – pagar pelo disco e ainda como quer – se quer – o encarte, se colorido ou p&b.

SetembroJunio Barreto demorou sete anos entre o bom disco de estreia e este ainda melhor. Nesse meio tempo, o “Caymmi de Caruaru”, como é chamado, foi gravado por nomes como Gal Costa, Lenine, Maria Rita, Roberta Sá e Rubi, entre outros, embora seja ainda um quase completo desconhecido, para muitos.

Muitos que certamente lembram de versos como “vim, vim, vim/ eu vim, oi/ atendi teu pedido e vim”, de O pedido (Junio Barreto e Jam Silva), que abre o belo Que belo estranho dia pra se ter alegria (2009), de Roberta Sá. Ou de Santana, gravada por Junio Barreto em sua estreia (2004) e regravada por Gal Costa (Ao vivo, 2006), Lenine (Acústico MTV, 2007), Rubi (Paisagem humana, 2008) e Maria Rita (Elo, 2011): “A santa de Santana chorou sangue/ chorou sangue/ chorou sangue e era tinta vermelha/ a nossa santa padroeira chorou sangue”.

Ao contrário da personagem de sua música mais gravada, você, como o blogueiro, certamente vai rir de alegria ao ouvir Setembro. Mas não espere o mês-título chegar: como os outros recomendados neste post, é disco pra se ouvir o ano inteiro, começando por agora.