Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”