Nem mortos!

Biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Belchior, Chacrinha, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio imaginam quais seriam os votos de seus biografados no Brasil de hoje

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de Doutor Sócrates: Futebolista, Filósofo e Lenda [Simon & Schuster, 400 p., ainda sem tradução no Brasil], declarou hoje (19) ao jornal Folha de S. Paulo: “Esses caras hoje em dia são o contrário do Sócrates. Ganham muito mais e se importam muito menos com o lugar de onde eles vêm. Sócrates era imprevisível e não posso falar por ele, mas creio que ele estaria chocado em ouvir jogadores do Corinthians ou de qualquer time grande, como Palmeiras ou Tottenham, falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”.

Downie se referia ao apoio de nomes como Felipe Melo (Palmeiras), Lucas Moura (Tottenham, da Inglaterra), Jadson e Roger (Corinthians) ao candidato de extrema-direita à presidência da república Jair Bolsonaro (PSL). O contraponto proposto pelo biógrafo se ancora, por exemplo, na atuação de Sócrates em movimentos como a Democracia Corintiana e a campanha Diretas Já!, ambas na década de 1980.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Chacrinha, Belchior, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio, que, baseados no profundo conhecimento que têm de suas personagens, imaginaram quais seriam seus votos no Brasil de hoje.

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Capa. Reprodução

Também biógrafo de Sócrates [Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Objetiva, 2014, 264 p.], o jornalista Tom Cardoso, ao mesmo tempo em que acredita que o ex-jogador poderia estar ainda mais à esquerda, reconhece sua postura libertária. “Acho que ele jamais concordaria com um clube tutelar, ele diria que o jogador é livre para se posicionar politicamente, seja ele eleitor do PT ou do Bolsonaro”, disse. “O Sócrates não ficaria surpreendido com o voto de algum jogador no Bolsonaro. Talvez ele discordasse, claro, como um homem progressista, de esquerda, de um eleitor do Bolsonaro. Mas ele não ficaria assustado com isso, ele sabia, deu várias declarações dizendo que o futebol brasileiro era muito conservador, era um espelho da sociedade”, continua.

“Ele achava que o PT, de quem ele acabou se tornando um crítico, tinha feito essa guinada ao pragmatismo político, através da Carta ao Povo Brasileiro, então eu tenho dúvidas se ele não estaria mais à esquerda do [Fernando] Haddad [candidato do PT] e não estaria mais entusiasmado pelo PSol, por exemplo”, imagina. Cardoso lembrou ainda que Sócrates chegou a ser secretário municipal de Esportes em Ribeirão Preto/SP numa das gestões de Antonio Palocci, tendo permanecido apenas seis meses no cargo, “ele meio que se desiludiu um pouco com aquela coisa preguiçosa da máquina do estado”. O camisa 8 também teria recusado diversos convites do PT para assumir o ministério dos Esportes na gestão de Lula. “Hoje, eu acho que ele votaria no Haddad, mas também poderia votar no Ciro [Gomes, candidato do PDT] ou no próprio [Guilherme] Boulos [candidato do PSol]”, opina.

75 kg de músculos e fúria. Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

Indago sobre Tarso de Castro [75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 2005, 280 p.], outro biografado de Tom Cardoso. “O Tarso é mais difícil. Eu acho que ele pregaria um voto útil contra o Bolsonaro. Tem o Ciro, que é do PDT do [Leonel] Brizola, mas não tem nada de brizolista, o Tarso era brizolista, antes de tudo, mas tinha simpatia pelo Lula, fez uma grande entrevista com o Lula, acho que em 1982, para a [revista] Careta. Acho que ele estaria inclinado pelo voto a quem tivesse mais chance para ganhar do Bolsonaro”, especula sobre a posição do jornalista, da patota do Pasquim.

Belchior. Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

O biógrafo Jotabê Medeiros foi direto sobre que opinião teria Belchior [Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, Todavia, 2017, 237 p.] sobre o capitão reformado do exército: “Belchior era antifascista. Foi combatente da liberdade até a morte – embora afastado da vida social, angustiava a ele o mergulho que o Brasil deu na via antidemocrática nos últimos anos. Sua defesa da liberdade o posta como um claro adversário de tudo o que Bolsonaro representa”, diz.

O jornalista aposta no voto do compositor cearense: “Belchior é Lula. Lula é Belchior. Ele estaria com o maior líder popular do País em todos os tempos. Caminharia ao lado de Haddad, não tenho a menor dúvida”, coloca as fichas.

“Um compositor que escreveu “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, identificando os alvos prioritários dos ataques de racismo, exclusão e misoginia, sempre demonstrou saber perfeitamente quem são os inimigos a serem combatidos”, arremata.

Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

Mais comedido é Fabrício Marques, biógrafo de Wander Piroli [Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito, Coleção Beagá Perfis, Conceito Editorial, 2018, 256 p.]. “Seria leviano de minha parte tentar adivinhar as posições políticas do Wander Piroli. O que posso pressupor, com base nas opiniões dele, é que ficava indignado especialmente com a desigualdade social de nosso país e com as injustiças contra minorias. Como afirmou o jornalista João Paulo Cunha, a principal característica do jornalista e escritor mineiro foi o compromisso humano. Acho que essa postura dá pistas sobre as inclinações dele”, comenta.

Chacrinha. A biografia. Capa. Reprodução

Biógrafo do pernambucano Abelardo Barbosa, que fez fama como Chacrinha [Chacrinha: a biografia, Casa da Palavra/Leya, 2014, 328 p.], Denilson Monteiro segue a linha de Marques: “Seria muito arrogante da minha parte determinar qual seria o pensamento do Chacrinha se estivesse vivo hoje. Mas analisando tudo o que ele sofreu durante a ditadura civil-militar, tendo até sido preso, acredito que ele jamais apoiaria um candidato simpático a esse período tão perverso da história do país”, lembra.

Mas arrisca-se a opinar sobre o “não-voto” do velho Guerreiro em um possível segundo turno: “Partindo do que eu respondi anteriormente, o que  acredito é que num segundo turno, Chacrinha, que participou da campanha das Diretas, jamais votaria em um candidato como Jair Bolsonaro”, afirma.

Clarice,. Capa. Reprodução

Opiniões parecidas têm os biógrafos de Clarice Lispector e Sérgio Sampaio. O americano Benjamin Moser, autor de Clarice, [Companhia das Letras, 2017, 576 p.], afirma: “Clarice teria compartilhado o mesmo nojo que todos sentimos quanto a este senhor. Creio que estaria apoiando Fernando Haddad, mas é impossível saber ao certo”.

Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! [Muiraquitã, 3ª. edição, 2017, 288 p.], biografia do cantor e compositor capixaba, opina: “Como não cheguei a conhecer Sérgio, não sei precisar qual era sua orientação política, mas decerto seria de esquerda ou centro-esquerda. Sendo assim, acho improvável que uma candidatura como a de Bolsonaro o seduzisse. Arrisco dizer que ele votaria no Haddad ou no Ciro”.

Eu quero é botar meu bloco na rua. Capa. Reprodução

O capitão não conseguiu capitalizar o lamentável atentado à faca que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora/MG, no último dia 6 de setembro e, internado desde então, enfrenta, para usarmos metáforas do campo que abre este texto, o futebol, trombadas de gente que veste o mesmo uniforme: sua rejeição, que já era grande, cresce a cada declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), e de seu principal conselheiro na área econômica, Paulo Guedes, a quem o candidato apelidou “posto Ipiranga”. Nas últimas pesquisas, o candidato tem oscilado dentro da margem de erro.

Pelo visto, a rejeição ao ideário autoritário do deputado é grande também entre personalidades que permanecem vivas através de suas obras. Não é mesmo estranho ouvir de alguém, quando perguntado se votaria em Bolsonaro: “nem morto!”.

Jotabê Medeiros sobre Belchior: “creio que ele é único no mundo inteiro”

Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

 

Lembrado em listas de melhores do ano e de mais vendidos, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017, 237 p.; R$ 49,90] foi sucesso absoluto de público e crítica em 2017. Um livro lido e discutido, debatido para o bem e para o mal – não demorou para uma irmã do biografado falar em tirar a obra, pioneira, de circulação.

O autor, Jotabê Medeiros, paraibano formado em Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e radicado em São Paulo há cerca de 30 anos, sempre lembra, em entrevistas, os tempos de estudante, quando três discos lhe faziam a cabeça: Desire (1976), de Bob Dylan, A peleja do diabo com o dono do céu (1979), de Zé Ramalho, e Alucinação (1976), de Belchior.

Até que um dia, com a ousadia e o faro que lhe tornariam um dos maiores jornalistas culturais do Brasil, escreveu um texto sobre o clássico The wall (1979), do Pink Floyd, e enviou à revista SomTrês, de que Maurício Kubrusly era editor-chefe. Foi contratado e passou a receber uma caixa de discos por mês, para resenhar, sendo pago para isso. Unia o útil ao agradável, a fome à vontade de comer.

Da SomTrês passaria por diversas redações, com destaque para Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, onde passou mais de duas décadas, e CartaCapital, de que é editor de cultura, além do site de jornalismo musical Farofafá, ancorado no da revista fundada por Mino Carta, homem-escola. Já colaborou com revistas como Globo Rural e Helena, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná. Antes de chegar às livrarias, Jotabê Medeiros publicou trechos de Belchior na Playboy e Piauí.

Começou a escrever a biografia de Belchior um ano e meio antes do falecimento do compositor cearense, ano passado, aos 70 anos, que pegou o país inteiro de surpresa. Jotabê estava na pista para localizar o artista, desaparecido há anos, mas uma surpresa desagradável, o falecimento de um irmão, adiou seus planos em uma semana e o tirou da jogada para sempre. A Jack, o irmão falecido, é dedicado o livro: “nosso Dean Moriarty, aquele que nunca cedeu à tentação de viver outra vida senão aquela que escolheu para si mesmo”, oferece.

Repórter incansável – por essas e outras é que encontrou Bob Dylan de casaco e gorro no calor de Copacabana, como contou em seu livro anterior [O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop, Lazuli, 2013, 215 p.], com foto para comprovar, ao contrário de certo julgamento farsesco na história recente da política brasileira –, Jotabê Medeiros embarcou para a capital Fortaleza e Sobral, cidade natal do bardo, para cobrir o velório para a CartaCapital e colher mais histórias para a biografia, cuja escrita estava quase no ponto final. Com estas andanças, o livro acabou ganhando um novo e surpreendente capítulo final, Inmemorial.

Li Belchior – Apenas um rapaz latino-americano imediatamente quando de seu lançamento, sem saltar mesmo os capítulos que já havia lido publicados previamente na imprensa ou o trecho lido pelo autor quando de sua participação na Feira do Livro de São Luís em 2016, em que comentou a feitura da obra numa mesa que tinha por tema “A desaparição do artista na era da superexposição: como Belchior cantou antes o que viveria depois”, que tive a honra de mediar. Havia acompanhado inclusive a mudança de título: originalmente o livro se chamaria Pequeno perfil de um cidadão comum, aludindo à parceria com Toquinho, de 1979. Fez mais sentido: nem o perfil é pequeno, nem é comum o cidadão.

Uma resenha pura e simples certamente não daria conta de dizer algo novo ou relevante sobre o livro, meses depois: a mim, tudo parecia já ter sido dito. Em uma entrevista que vai além do livro, e não poderia ser diferente, Jotabê Medeiros conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Renato Parada

Homem de vícios antigos – Jotabê, a ideia inicial de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano era uma oficina, em que os inscritos escreveriam uma biografia coletiva, a partir de um curso ministrado por você. Em que momento e por que você decidiu seguir sozinho?
Jotabê Medeiros – De fato, a oficina que propus visava a uma pesquisa coletiva, uma ideia colaborativa que tinha a intenção de questionar o personalismo da figura do biógrafo. Mas foi um fiasco: não teve inscrições suficientes e fui obrigado a postergar. Àquela altura, minha pesquisa já tinha começado e eu estava disposto a escrever o livro de qualquer modo. Não tinha editora ainda, mas fui em frente. É do meu temperamento não recuar ante a primeira dificuldade.

A escrita da biografia começou com esta primeira dificuldade e terminou com outra: o falecimento de Belchior, que levou a mudanças no livro, que já estava praticamente pronto, quando você estava por encontrá-lo. Em que medida o livro seria outro, caso você tivesse conseguido entrevistar Belchior?
Eu imagino que Belchior mantivesse sua disposição de não falar sobre seus planos e sua análise da vida contemporânea. Ainda assim, eu gostaria de ter podido provocá-lo. Sempre quis fazer um texto que, mantendo a equidistância necessária, contivesse o frescor de um avistamento, uma fagulha de proximidade.

Sua biografia é magra, vai ao cerne da questão, sem se prender a firulas ou apelar para fofocas da vida privada. Você já demonstrou incômodo com biografias que ganham volume com elementos que nada acrescentam à compreensão da vida e obra de determinados biografados. Você tinha essa consciência ao escrever?
Sim, tive essa preocupação. Só incorporei à narrativa elementos que têm conexão com a construção de uma personalidade e de uma obra. Claro que é preciso atenção. Há escaninhos da vida pessoal da gente que parecem irrelevantes, mas na verdade não são. Revelam coisas, obsessões, contradições expurgadas. Mas examinei tudo com os olhos da descoberta, tanto a obra quanto o homem. Por isso não invoco a condição de expert, de especialista em Belchior. Eu segui suas pegadas, apenas isso. Por sinal, continuo seguindo.

Recentemente, após a publicação do livro, uma irmã falou em tirá-lo de circulação. A outros, que desconhecem a origem de teu interesse pelo artista e da pesquisa que resultou no livro, este pode parecer oportunista, o que sabemos que não é, já que lançado poucos meses após o falecimento do cearense. Afinal de contas: por que Belchior?
Meu livro teve início um ano e meio antes da morte do artista. Eu me dei conta de que ele era um dos raros outsiders da música brasileira. Tinha conseguido escapar de todos os consensos e panelinhas. Era íntegro e ousado, politizado e independente, solitário e cheio de amigos. Seu rompimento e consequente autoexílio reafirmaram sua singularidade. Creio que ele é único no mundo inteiro.

Você já era reconhecido como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no Brasil. O sucesso do livro catapultou você a estrela de feiras e eventos literários em geral. Em que medida o jornalista ajuda e atrapalha o escritor e vice versa?
Acredito que o desafio é o jornalista aprender a se relacionar, como o escritor, com o seu leitor. Durante 30 anos, em redações, eu nunca soube quem era o meu leitor. Havia às vezes uma enxurrada de e-mails de leitores contrariados com uma crítica, uma reportagem, mas eles (os leitores) e eu nunca fomos apresentados. O livro aproxima, abre debate, derruba muros e fronteiras. Você é inquirido e pode se explicar. Eu não acredito no sucesso, acredito na consistência, na tarefa. Uma vez, finalista de um prêmio de jornalista, me perguntaram o que achava daquilo e eu respondi: “Jornalismo não é corrida de cavalos”. Ninguém ganha por chegar uma cabeça à frente. É preciso persistência, silêncio, concentração e fazer tudo de novo todo dia.

Outra característica que merece ser destacada em teu livro é o distanciamento da hagiografia. Como admirador confesso da obra de Belchior, foi difícil?
Creio que biografias laudatórias e chapas-brancas são um desrespeito para com o biografado. Se esse biografado é o Belchior, então é ainda mais desrespeito. Quando ele andou caminho errado, ele o fez pela simples alegria de ser [citando trecho da letra de Coração selvagem, de 1977]. Era um filósofo, um homem em questionamento contínuo de sua condição. Assim, nivelar sua existência por um padrão de homem médio, domesticado, inócuo, isso sim seria um desrespeito. A viúva de Belchior, Edna, deu um único depoimento após a morte do cantor em um teatro no Ceará. “Ele não era uma celebridade, era um artista renascentista”. Concordo com ela. O biógrafo seria um traidor se resumisse a sua vida a um corolário de fofocas – o contrário também seria uma traição, fazer dele um homem da família, um totem particular.

Fora Belchior, houve alguém que você gostaria de ter entrevistado para o livro e não conseguiu?
Acho que uma narrativa inclui os percalços e as negativas. Fagner não quis falar. Edna, a viúva, também não quis falar. Seus personagens, entretanto, estão colados à história quer eles queiram quer não. É como diz o maestro Ennio Morricone: os silêncios são parte integrante da música, não há música sem eles.

Também me chamou a atenção em teu livro a mistura de biografia com crítica musical, noutra demonstração do convívio harmônico do jornalista com o escritor em você. Além de contar sua versão da vida de Belchior, você analisa seus discos, sua obra. Foi algo consciente?
Pensei em criar uma biografia um pouco menos factual, com mais envolvimento, até alguma paixão. Sei que é perfeitamente possível fazer uma biografia empilhando fatos, não deixando nenhum de fora, mas creio que isso não me atrai. Não analiso todos os discos, ficaria chato e extensíssimo. Analiso os fundamentais, com alguma dose de informação nova sobre eles.

Após o ponto final, várias histórias já surgiram, como você compartilhou com os leitores em um texto para a revista Piauí. Você está colecionando estes causos? Pensa em fazer algo com eles, uma segunda edição ampliada?
Sim, estou colecionando esses causos. Já alimentei a fantasia de publicar um outro livro, A vida após a biografia, reunindo todas essas histórias. Mas ficaria feliz se pudesse, agora na segunda edição [prevista para março], acrescentar dois capítulos. Um deles seria somente para abrigar uma análise e a história de Baihuno [1993], o último álbum de inéditas de Belchior, cuja última canção se chama Até mais ver e é uma despedida (“Qualquer distância entre nós tornada em nada”). Além, é claro, de corrigir algumas coisas e acrescentar detalhes.

Sua vasta experiência no campo do jornalismo cultural me faz pensar em vários livros que você tem prontos na gaveta: uma coletânea de entrevistas, outra de reportagens, pelo menos, além da ficção A morte engarrafada, de que já publicou alguns capítulos em seu blogue, e deste A vida após a biografia. Noutras circunstâncias, Paulo César de Araújo fazendo escola [risos]. Seu livro de estreia conta causos a partir de fotografias de grandes nomes do pop em atitudes prosaicas. Você pretende publicar outros títulos?
Sim, é verdade. Os projetos às vezes são inevitáveis, noutras vezes completam um ciclo. O livro de reportagens seria uma espécie de balanço da carreira. Outro dia mesmo encontrei uma entrevista que fiz com Pierre Henry, compositor francês que morreu no ano passado. Creio que muitas delas têm alguma dose de atemporalidade, então daí a ideia. Mas é muito provável que, antes desses livros, eu publique uma obra para crianças. Tenho uma proposta e vou estudá-la.

Por falar em crianças, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano foi escrito com você se equilibrando entre a paternidade de dois filhos pequenos, a editoria de cultura da revista CartaCapital e frilas outros. O quanto essa dose de intranquilidade inspira e bloqueia, ajuda e atrapalha?
Bom, comecei exatamente quando nasceu Tito, meu filho menor, agora com dois anos. Ele não tem culpa da escolha do pai: eu vinha de um longo período de imprensa diária e queria abraçar um projeto que fosse o contrário da rotina, uma reportagem sem deadline e sem títulos e fechamento padronizado. Confesso que muitas vezes escrevi em situação insalubre, com fraldas a trocar, almoço a fazer, faxina atrasada, louça empilhada. Agora, tudo parece que foi pacífico e tranquilo.

Entre os projetos para o futuro, alguma outra biografia?
Tive a intenção de escrever a biografia não autorizada de um outro grande outsider, Luiz Melodia. Mas, até agora, as tratativas para ter acesso a acervo e a parentes não evoluiu muito, e acho mesmo que não vão evoluir. Uma pena, porque Melodia já está merecendo um exame que o traga para o centro do debate público, como artista e testemunha de seu tempo.

Você, a propósito, escreveu talvez o melhor obituário de Melodia e obituários não deixam de ser pequenas biografias. Vivemos tempos de grandes perdas ou é o fluxo natural das coisas e sempre foi assim?
Sou um otimista crônico. Experimento as perdas e choro as perdas, mas prefiro pensar que os ganhos estão em curso e vão trazer grandes contribuições ao futuro. As coisas que permanecem são as coisas vividas com intensidade, ousadia, eletricidade. Os reacionários não deixam legados.

Isso vale, por exemplo, para episódios como o julgamento de Lula e seu entorno, como o ódio cotidiano praticado nas redes sociais, mas não só?
Acho que se estende à política, ao comportamento, a tudo. O julgamento de Lula foi uma vergonha não só para nosso tempo, para o Brasil, mas para a História da humanidade. Como não há exemplos precedentes de recuo do autoritarismo, creio que vai piorar. Mas vejo o esforço de civilidade dos intelectuais, dos artistas, dos homens de ação, e sei que é algo que não vai triunfar.

Voltando a Belchior, esses retrocessos todos que estamos vendo e vivendo, ele, “cantador das coisas do porão” [verso de Conheço meu lugar, de 1979], que dizia “nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer, nunca reverenciar” [de Como o diabo gosta, de 1976], entre tantos outros versos, tem sua obra atualizada pelo triste contexto, não?
Na verdade, acho mesmo que ele anteviu todos os contextos, como convém a um grande visionário. Em Baihuno, seu derradeiro disco, ele canta sobre todos esses dilemas nacionais: “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação/ O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão” [versos da faixa-título]. Ou então: “Diz, América que és nossa/ Só porque hoje assim se crê/ Há motivos para festa?” [de Quinhentos anos de quê?]. O disco termina com uma versão de um poema de Iessiênin, o poeta russo suicida que escreveu: “Sim, está decidido: agora não há mais volta”. Ele transformou o poema em Até mais ver, que é sua despedida de um mundo irremediavelmente corrompido. Era uma decisão extrema, especialmente para um humanista e otimista como Belchior.

Comentários a respeito de Belchior

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas
A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

 

A cantora Tássia Campos apresenta hoje (11), meia noite, no Odeon (Travessa João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande), mais uma edição do show Encontrando Belchior. Desta vez, com a presença do biógrafo do cearense, Jotabê Medeiros (Farofafá), que na ocasião lerá um trecho de Pequeno perfil de um cidadão comum, livro que lança ano que vem – amanhã medeio a mesa “Jornalismo cultural: a desaparição do artista em plena era da superexposição (O caso Belchior: como ele cantou antes o que viveria depois)”, palestra que o jornalista profere na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís, às 20h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Tássia elege Coração selvagem como seu disco preferido entre os lançados pelo artista, que resolveu sumir do mapa há alguns anos. E Todo sujo de batom, terceira faixa do álbum, como sua predileta. “Embora Coração selvagem, que dá título ao álbum, seja um retrato fiel da minha vida”, confessa.

Ela, que já realizou tributos a nomes como Sérgio Sampaio e Novos Baianos, entre outros, sempre trata com reverência os artistas escolhidos para homenagear. Não é diferente com Antonio Carlos Belchior. “É um desafio cantá-lo para além do que já foi eternizado por Elis [Regina]. A métrica é difícil, não é uma tarefa simples cantar, mas sem dúvida são as mensagens em garrafas que Belchior mandou ao mar. Não envelhecerão nunca, assim como espero como artista permanecer me reinventando”, exige-se a recompositora, como afinal este modesto repórter chama os que, como Tássia, imprimem uma marca tão pessoal naquilo que interpretam, reinventando canções às vezes consagradas, como se as compusessem novamente.

Ela sobe ao palco do Odeon acompanhada da banda Os Joões dos comentários a respeito: João Simas (guitarra), João Paulo (contrabaixo), João Vitor (teclado) e Thiago Guerra (bateria) – fora o biógrafo, nascido João Batista em João Pessoa/PB, e a cantora, “moça de Joãozinho no cabelo”, como canta Vanessa da Mata.

Sobre as origens do espetáculo e as expectativas para o encontro com Jotabê Medeiros, ela comenta: “Quando Emilio Azevedo me atentou que eu devia fazer um show em homenagem ao Belchior, ele estava de fato sumido, meio esquecido. Entre a divulgação, o show e após os shows começaram a falar muito de Belchior, creio que pelo momento atual do país. Eu estava sintonizada com a obra dele já fazia um tempo, pelo preparo do show. Receber o Jotabê é mais uma mostra dessa sintonia. Queremos o Belchior de volta porque ele é muito importante”.

Ao repertório de Encontrando Belchior não deixarão de comparecer a música que dá título à obra em progresso do jornalista, além de “Paralelas, Comentário a respeito de John, Velha roupa colorida, Todo sujo de batom e Coração selvagem”, que ela cita, repetindo as preferências e citando algumas das mais conhecidas, sem dar pistas dos lados b que escolheu e sem vontade de estragar a surpresa de quem tem, via sua voz, um encontro marcado com um bigodudo que anda fazendo uma falta danada.

Divulgação
Divulgação

Serviço

O quê: show Encontrando Belchior
Quem: Tássia Campos e banda Os Joões dos comentários a respeito. Participação especial de Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior
Quando: hoje (11), meia noite
Onde: Odeon Sabor e Arte (Rua João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (metade para estudantes)

Belchior invocado

Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou "O bisbilhoteiro das galáxias". Foto: Talita Guimarães
Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou “O bisbilhoteiro das galáxias”. Foto: Talita Guimarães

 

Amanhã (23) em São Paulo, o jornalista Jotabê Medeiros reúne diversos amigos para celebrar a obra de Belchior, artista cearense de quem está escrevendo a biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, título de uma conhecida canção sua, parceria com Toquinho.

E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa
E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa

Invocação Belchior – debate-canção sobre a vida e a obra de um grande artista, o evento, reunirá, além do organizador, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, seu colega de Farofafá, o compositor Jorge Mello (parceiro de Belchior e fonte de Jotabê na biografia) e Josy Teixeira, doutora em Belchior pela USP, além de músicos revisitando clássicos e lados b do cearense: Edvaldo Santana, Juliano Gauche, Assucena Assucena (vocalista de As Bahias e a Cozinha Mineira), Mário Bortolotto e o próprio Jorge Mello.

“Eu tenho diversos amigos que partilham comigo essa paixão pela obra do Belchior e pela coerência artística dele. Me ocorreu que é legal manter uma obra como a dele, que está agora, talvez, um tanto quanto esquecida, pelo fato de que ele deu um sumiço, que seria legal reunir as pessoas que têm algo a dizer e fazer umas provocações. Os beatniks faziam muito isso, houve uma tradição uma época no mundo cultural, reunir as pessoas, o dadaísmo se reunia no Cabaret Voltaire, lá em Zurique, e lá eles realizavam suas provocações artísticas. A gente esqueceu um pouco essa tradição, tá tudo muito ligado a questões como showbiz, a realização de um show, achei até que essa coisa da extinção do Ministério da Cultura liberou um pouco pras pessoas fazerem ações coletivas sem fins outros que não a própria ação. Esse encontro, Invocação Belchior, é uma coisa assim, eu até brinquei, como tinha essa coisa lá nos beatniks, os belchniks vão se reunir no dia 23 aqui em São Paulo”, anuncia Jotabê.

Biógrafo e biografado têm trajetórias parecidas, como lembra Belchior na autobiográfica Fotografia 3×4, “pois o que pesa no norte/ pela lei da gravidade/ disso Newton já sabia/ cai no sul, grande cidade”, ele cearense de Sobral, Jotabê paraibano de Sumé, o primeiro desce para o eixo Rio-SP em busca de um lugar ao sol na MPB da época dos grandes festivais, o segundo forma-se em jornalismo em Londrina/PR e fixa residência em São Paulo, onde consolida-se como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no país.

“Belchior tratou em algumas músicas da questão da migração, tem também entrevistas que tratam dessa coisa, o fato do cidadão migrante, principalmente do Nordeste, ser visto como um pária, às vezes, aqui no Sul, Sudeste, ser visto como um ser, eles fazem essa confusão, geralmente é o porteiro ou é o pedreiro, no Rio de Janeiro chamam todo mundo de Paraíba, aqui em São Paulo chamam de baiano, sempre com um tom meio agressivo, e o Belchior sentiu isso na pele e fez algumas músicas maravilhosas sobre esse sentimento. Eu sou migrante, mas vim beber pra cá pro Sudeste, conheço esse sentimento meio transversalmente, mas reconheço a grande poesia que nasce desse estado de preconceito. Belchior fez maravilhas, Fotografia 3×4 é a história de todos nós”, prossegue Jotabê.

A Belchiorgrafia em progresso e o evento de amanhã são exceções no noticiário relativo ao artista nos últimos anos, seu bigode grisalho tingido pelo marrom da imprensa sensacionalista, especulando sobre dívidas, motivações e até seu quadro psicológico. Jotabê trabalha com afinco, em meio a uma agenda intensa de compromissos profissionais, atuando como jornalista independente há pouco mais de um ano, escrevendo regularmente em seu blogue, no site Farofafá e no portal Uol.

“Seria ótimo poder falar com ele, cotejar alguns temas da obra dele, perguntar, por exemplo, eu tou tendo que ir a fontes, parceiros, para chegar, por exemplo, por que o desespero era moda em 73?, um verso famoso dele [de A palo seco]. O desespero era moda em 73 por que naquela época quem mandava no país era um general chamado Emílio Garrastazu Médici, era linha dura, a perspectiva para artistas e pessoas que eram vítimas da censura era muito dura, então ele cunhou esse verso em relação a esse período do Médici, e pouca gente sabe disso. Eu gostaria de falar com ele e perguntar para ele, diretamente. Não vai ser possível”, contenta-se.

Em 2016 Alucinação completa 40 anos. O disco de Belchior foi eleito o melhor da música produzida no Ceará, em enquete do jornal O Povo. Em outubro, o compositor completa 70 anos, quando deve ser lançado Pequeno perfil de um cidadão comum. “Vai estar na mão do editor daqui a um mês, então acho que sai. Tá previsto, vai sair”, garante. Segundo livro de Jotabê Medeiros, o aguardado sucessor de O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop [Lazuli, 2013], será certamente um presente e tanto para Belchior, seus fãs e interessados em música e jornalismo cultural em geral.

Ouça o álbum Alucinação:

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O texto toma por base entrevista concedida por Jotabê Medeiros ao blogueiro no programa Conversa à Beira Mar da última quarta-feira (20), na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Agenda #9FeliS

Foto: Acervo Talita Guimarães
Foto: Acervo Talita Guimarães

 

Enquanto não sai oficialmente a programação completa da 9ª. Feira do Livro de São Luís, que volta à Praia Grande entre os próximos dias 2 a 11 de outubro, este blogue anuncia a participação de seu titular no evento. Medeio duas mesas:

5 (segunda), às 20h, “Uma historiadora ludovicense: a figura e a obra de Lourdinha Lacroix“, palestra do professoramigo Flávio Soares, no Auditório Lourdinha Lacroix (Casa do Maranhão) Mário Meirelles (Teatro João do Vale). Na #9FeliS, Maria de Lourdes Lauande Lacroix, professora, historiadora e patronesse desta edição da FeliS, lança História da Medicina em São Luís: Médicos, enfermidades e instituições, que tive o prazer e a honra de revisar; e

10 (sábado), às 17h, “Editoras alternativas: pedras no caminho do mercado“, debate-papo com Bruno Azevêdo (Pitomba!), Eduardo Lacerda (Patuá) e Bruno Brum, no Auditório Mário Meireles Espaço Café Literário Lourdinha Lacroix (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho).

Ilustra este post foto roubada da Talita Guimarães (ao centro, não lembro quem fez), após a mesa que, baita honra, dividi com Jotabê Medeiros na FeliS passada.

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Veja a programação completa da #9FeliS.

Bisbilhotando na #8Felis

O bisbilhoteiro das galáxias. Capa. Reprodução

O livro que abre este post merece atenção especial, inclusive deveria ser bibliografia das disciplinas de jornalismo cultural nas faculdades. Depois digo mais dele, num post específico.

Logo mais este que vos perturba debato o “jornalismo cultural nos bastidores da cultura pop” com seu autor, Jotabê Medeiros, repórter e crítico do jornal O Estado de S. Paulo, e aproveito para pegar meu autógrafo. Ele trouxe uns exemplares na mochila e lança esta coletânea de histórias de bastidores fartamente ilustrada, contando encontros, às vezes inusitados, com nomes como Bob Dylan, Axl Rose, Zé Ramalho e Manu Chao, entre muitos outros.

Vai ser às 16h, no Café Literário Odylo Costa, filho, no térreo do Convento das Mercês, na programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís.

Amanhã estaremos entre os bastidores e a plateia de Edvaldo Santana.

A obra de arte no asilo e a direita reaça nas ruas e gabinetes

A gente morre e não vê tudo. Roubei o texto abaixo do facebook de Jotabê Medeiros, um dos melhores jornalistas deste país.

É sobre a censura perpetrada ao judiciário carioca por Bolsonarinho, filho vocês sabem de quem, por conta de uma obra de arte (sim: obra de arte!) de Carlos Latuff, um dos melhores desenhistas deste país.

Trouxe o texto para cá por achar que o assunto merece debate e que podemos contribuir com a difusão desta informação. Hoje é uma obra de arte, amanhã o que será? Hoje censura. E amanhã? Tortura? Tempos sombrios vive o Brasil…

A obra de arte de Carlos Latuff censurada no judiciário carioca

O desembargador Siro Darlan, do Rio de Janeiro, concedeu hoje o que talvez se configure como o primeiro caso de asilo a uma obra de arte.

Darlan foi proucrado pelo juiz João Batista Damasceno, da 1ª. Vara de Órfãos e Sucessões, com um caso desesperador: decisão do TJ do Rio de Janeiro determinava um prazo até o meio-dia de hoje, quarta, para a retirada de seu gabinete da charge Por uma cultura de paz, de Carlos Latuff. A censura foi motivada por um pedido do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), filho do deputado federal Jair Bolsonaro – ambos conhecidos não exatamente por seu espírito democrático.

A charge de Latuff está enquadrada no gabinete e mostra um PM atirando com um fuzil em um homem negro crucificado.

O magistrado decidiu transferir a obra para a sala do desembargador Siro Darlan, pois lá a censura não tem efeito. O desembargador diz que promoveu “asilo a uma obra de arte” e que “quem alguém estiver insatisfeito que vá ao presidente do Superior Tribunal de Justiça reclamar”.

O deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), que pediu a censura ao TJ, vai encaminhar denúncia à corregedoria do tribunal. O deputado Bolsonaro chegou a divulgar em seu site oficial um modelo de ação indenizatória para os policiais militares do Rio que se sentissem ofendidos com a obra de Latuff, estimulando retaliação.

No Facebook Latuff comemorou o “asilo artístico” e relatou ameaças sofridas de policiais militares ao juiz Damasceno, que se disse favorável à desmilitarização da PM, pois “a política de segurança pública militarizada tem como alvo os pobres e excluídos, ‘inimigos eternos’ sujeitos ao extermínio”.

O lugar dos livros

“Na minha biblioteca tem os livros que estão comigo desde a adolescência e os chamados livros do coração, aqueles que li e tenho a esperança de reler, e ainda aqueles que comprei a partir de desejo muito forte de ler, mas que ainda não tive oportunidade de começar. Acredito que existe um tipo de livro que você precisa em determinada época. Essa obra exige uma adequação, um momento e uma hora exata para a leitura. Às vezes, você pega um livro, abre, lê duas ou três páginas e não prossegue. Depois de cinco ou seis anos, você abre aquele mesmo livro e se apaixona, lê até o final. Isso aconteceu comigo diversas vezes. Então, hesito em me livrar dos livros.”

“Sou leitor profissional, faço crítica para jornal e, por esse motivo, entrei na lista de envios das editoras. Sem pedir, recebo até 25 livros por semana em casa. E isso acaba virando um problema porque não é a toda hora que você consegue encontrar tempo para organizar e mesmo fazer uma triagem de tantos volumes.”

“Três prateleiras da minha estante quebraram por excesso de peso, e os livros estão espalhados por diversos pontos do apartamento. Comecei a fantasiar que, uma hora ou outra, o piso também vai ceder e serei responsável pela morte da família do andar de baixo, onde, inclusive, tem uma adolescente que berra o dia inteiro. Mas, apesar disso, tenho tudo bem organizado na cabeça. Se alguém precisar de um livro da minha biblioteca, é só perguntar que eu encontro. A minha organização é totalmente afetiva, não tem lógica. Na sala, devo ter uns cinco mil livros. Meu criado-mudo está uma calamidade. Outra fantasia que tenho é de morrer soterrado pelos livros do meu criado-mudo, onde deve ter uns 200 livros.”

“Traduzi para a Cosac Naify, o livro Paris não tem fim (2007), do Enrique Vila-Matas, mas eu não conhecia o autor. Depois disso, ele veio ao Brasil para participar de um evento literário, circulou e concedeu entrevistas. É comum perguntarem a um autor estrangeiro se ele conhece a literatura brasileira e, para a revista Época, ele respondeu o seguinte: “Conheço a Clarice Lispector, o Dalton Trevisan e o grande Joca Terron”. Fui o único que mereceu um adjetivo. Peguei o exemplar da revista e procurei o expediente para ver se não tinha algum amigo meu fazendo piada. Não tinha. Meses depois, recebi uma ligação telefônica de uma repórter da revista Época, a mesma que tinha entrevistado o Vila-Matas, para falar sobre um outro assunto. Perguntei a ela se o escritor catalão tinha dito aquilo mesmo. Estava em dúvida. Afinal, ele poderia ter dito “o grande Dalton Trevisan, Joca Terron” e, na edição, por descuido, o “grande” teria se aproximado de meu nome. Mas a repórter garantiu que a frase era aquela mesma e, confesso, fiquei muito feliz porque o Vila-Matas é um autor que admiro.”

“A maior probabilidade é que um livro não seja escrito. As exigências da sobrevivência, o cotidiano, tudo, absolutamente tudo, atuam contrariamente ao seu desejo de escrever. Sobrevivo da minha imagem como escritor, atuando no jornalismo, com crítica, no mercado editorial, por meio de traduções e palestras. Há todo um sistema relacionado ao universo do livro. Mas não sobrevivo diretamente da minha ficção.”

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Recebo em casa a 12ª. edição do Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná que, ao completar um ano, salta de 32 para 40 páginas dedicadas à literatura. O título deste post “trocadilha” O lugar da poesia, manchete de capa do mensal.

Leio as sete páginas com os melhores momentos de Joca Reiners Terron no Um escritor na biblioteca, e faço isso em voz alta nos trechos acima, para minha esposa, ao lado. Guardadas as devidas proporções, há um quê de Joca no blogueiro: minha modesta biblioteca, embora menor, faz minha esposa, exagero!, pensar no dia em que não poderemos entrar em casa de tantos livros (e discos e dvds), vivo da fama de blogueiro sem ganhar por isso, tendo que me virar entre assessorias e frilas, e minha citação, pelo admirado Jotabê Medeiros, em O Estado de São Paulo, em matéria sobre a subida de Nelson Jacobina, me fez sentir algo parecido com o que o autor de Sonho interrompido por guilhotina sentiu no episódio Vila-Matas.

Minha esposa vira e retruca, entre a ironia e a compreensão: “não vai te inspirar nesse cara!”

Reinventando a resenha

Criança, sempre ouvi dizer que “remédio de doido é doido e meio”, dito popular em que você pode substituir o doido por qualquer palavra que dá certo. Por exemplo, excêntrico.

Bob Dylan proibiu a presença de jornalistas e fotógrafos nos shows que fez recentemente pelo Brasil, exigência sem sentido num tempo em que (quase) qualquer pessoa que bloga “pode” ser um jornalista e que qualquer celular que não o meu fotografa. A gente troca por excêntrico ou deixa o doido mesmo no ditado?

Não googlei, mas devem ter pipocado na internet milhares de textos relatando a experiência, (ainda) inédita para este que vos enrola antes de ir ao que interessa, de ver um show do Bob Dylan. Jotabê Medeiros (sempre ele!) havia postado em seu blogue uma foto feita por sua mulher, que foi pega pelos seguranças e liberada após não encontrarem a imagem em sua câmera, sei lá por que, apagou depois.

Rafael Grampá foi ao show e nos conta o que viu:

Tomei emprestado daqui. Lembrar o Cohen foi lindo, que disco idem esse novo, Old Ideas…  assunto para outro post.

Estadão na Folha: ainda o encontro de Bob Dylan e Jotabê Medeiros

Bob Dylan será um dos destaques da 46ª. edição do Festival de Jazz de Montreaux, um dos mais conhecidos e longevos do mundo, já tendo rendido ótimos discos ao vivo com shows de artistas brasileiros por lá, entre outros A Cor do Som, Elis Regina e Gilberto Gil, que este ano volta aos palcos suíços.

A Folha de S. Paulo anunciou a antecipação da lista oficial de atrações pelos organizadores do festival, que trará ainda os brasileiros Adriana Calcanhotto, Cidade Negra, Jorge Benjor, Luiz Melodia e Sérgio Mendes.

Notem como o jornal se refere a Mr. Zimmerman, abre aspas, “visto no último domingo pelas ruas de copacabana”, fecha aspas. Quando poderia ter dito “atualmente em turnê pelo Brasil”, a Folha faz uma desnecessária alusão ao encontro do repórter Jotabê Medeiros e da fotógrafa Nana Tucci, do concorrente O Estado de S. Paulo, com o ídolo.

Eu queria ser Jotabê Medeiros

porque ele tem um dos melhores textos do jornalismo brasileiro, faro, bom humor, teimosia e a sorte necessários ao bom jornalismo, esse artigo cada vez mais raro nas redações.

Jotabê e Dylan: dois gênios

E também, obviamente, porque ele encontrou Bob Dylan em Copacabana.