Paisagens poéticas

Os poetas Heyk Pimenta e Josoaldo Lima Rêgo. Foto: Zema Ribeiro
Os poetas Heyk Pimenta e Josoaldo Lima Rêgo. Foto: Zema Ribeiro

 

Os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta lançam amanhã (12), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM), em São Luís, seus novos livros de poesia, Carcaça [2016, 127 p.] e A serpentina nunca se desenrola até o fim [2015, 71 p.], respectivamente, ambos pela carioca 7Letras, uma das mais conceituadas quando o assunto é poesia contemporânea brasileira.

A serpentina nunca se desenrola até o fim. Capa. Reprodução
A serpentina nunca se desenrola até o fim. Capa. Reprodução

Josoaldo e Heyk são dois estetas e o par de livros dialoga, desde as capas, a primeira de Diego Dourado, a segunda reproduzindo o Mare fecundatalis, de Augusto Meneghin, envolvendo bons poemas, feitos de paisagens e experiências, reflexos de suas andanças pelo mundo.

Graduado em Ciências Sociais com mestrado em Letras, Heyk é mineiro radicado no Rio de Janeiro, após passagens por São Paulo, Rio Grande do Sul e o casamento com uma maranhense – ele aproveita o lançamento em São Luís para apresentar Zoé, seu primeiro filho, à família da esposa. Geografia também é o forte de Josoaldo, professor do curso na Universidade Federal do Maranhão.

Em Penso agora em como vamos nos virar, Heyk relembra a descoberta da gravidez: “nossos olhos são de gato marianna/ e andamos mexemos/ por dentro das bocas de bicho/ que nos demos”, diz. E prossegue: “agora volto sem nada da rua nenhum golpe brotou/ gastei nosso dinheiro e espalhei/ nossos planos/ amanhã não vai ser melhor o despertador/ mostrará nossas cuecas penduradas na porta/ e dirá eu sei, mas não resta saída crianças”.

Carcaça. Capa. Reprodução
Carcaça. Capa. Reprodução

A paisagem de Josoaldo é mais árida, não menos poética, espaço onde brota, no plural, o resto animal que dá nome a seu conjunto de poemas. O maranhense mergulha fundo na violência do interior do Pará e do Maranhão, sobretudo no campo. Bons exemplos os poemas Eusébio e Nos baixões de Altamira, cuja íntegra transcrevo a seguir.

“eusébio cai morto, tomba da moto no alto turiaçu./ dois tiros trespassam o peito e arrebentam a/ pulseira de jaguar. susto – a perspectiva do salto,/ um sentido amplo e feroz de morte estoura na/ cara do índio. a camisa suja de terra suja de/ sangue e gasolina. o barulho dentro do clarão/ noturno. a moto segue por alguns metros,/ sozinha, depois arrola o metal na mata. um rio/ morre assim, eusébio, com pólvora e razão nas/ entranhas”, diz o que homenageia o kaapor assassinado a tiros em Santa Luzia do Paruá em abril de 2015.

“em altamira/pa/ raimundo nonato decide/ matar o tempo:/ dança no escuro/ e arranca 4 dentes à foice/ sem paz/ ao som duma turbina/ de hidroelétrica”, diz o poema cru/el e político sobre a violência que permeia megaprojetos como a usina de Belo Monte, encravada no Rio Xingu, próximo a Altamira.

O lançamento no MHAM terá apresentação do grupo Ninfas Equatoriais, que acompanhará os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta na leitura de poemas dos livros, com microfone aberto a quem quiser participar.

Museu Russo apresenta hoje (25) leitura bilíngue de Maiakovski

Divulgação do recital circulada em redes sociais. Arte: Aleksandr Ródtchenko
Divulgação do recital circulada em redes sociais. Arte: Aleksandr Ródtchenko

 

Carinhosamente apelidado de Museu Russo, o ECI Museum, na rua 14 de Julho (Praia Grande, ao lado da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo), será palco de uma leitura inédita do russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), considerado “o poeta da revolução” – não à toa o epíteto serve de subtítulo a uma conhecia biografia sua, de Aleksandr Mikhailov [Record, 2008].

Intitulado Gente é pra brilhar a tertúlia acontece hoje (25), às 19h, com entrada franca. Tomam parte os poetas maranhenses Celso Borges, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego e Luís Inácio, além do escritor Adriano Sousa, que recentemente lançou em São Luís o livro Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação [Educ/Fapesp, 2015], fruto de sua tese de doutorado. O recital contará ainda com a participação especial de Anastassia Bytsenko, doutora em literatura russa pela Universidade de São Paulo (USP), e Eugenio Itskovich, do ECI Museum.

Gente é pra brilhar será bilíngue; os dois últimos lerão poemas de Maiakovski em sua língua mãe. O arsenal vai muito além de “melhor morrer de vodca que de tédio” e o “sou todo coração”, que de tão conhecidos e repetidos podem, por vezes, ser atribuídos a outros, na selva das redes sociais.

O poeta Celso Borges não nega Maiakovski entre os de sua preferência. Ele antecipa a dinâmica do evento. “Cada um de nós falará quatro poemas do escritor russo, com prioridade para as traduções dos Irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman. Será muito interessante também podermos ouvi-lo na sonoridade da língua russa”, declarou.

Leia um poema de Maiakovski:

Reprodução
Reprodução

Por uma poética política

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Sábado passado (19) um grupo de prosadores, poetas e músicos ocupou o Memorial Bandeira Tribuzzi, na Praia da Ponta d’Areia.

O elefante branco tem “35 anos de inexistência”, conforme decretou o poeta Celso Borges, enquanto lia poemas seus, de Marcos Magah e do poeta que empresta o nome ao monumento, falecido no dia em que a cidade da qual compôs o hino completou 365 anos.

O autor de O futuro tem o coração antigo também fez o papel de mestre de cerimônias, chamando ao microfone nomes como André Lucap, Beto Ehongue, Bruno Azevêdo, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego, Madian, Luís Inácio Oliveira, Reuben da Cunha Rocha e outros. Sua senha-vinheta era “ê, Ponta d’Areia/ há muito tempo que eu não te vejo, não”, da Ponta d’Areia de Chico Maranhão, mixada com seu “eu quero ver” de A serpente (parceria com Ramiro Musotto e Zeca Baleiro).

Não fiquei até o fim do at(entad)o poético, formado em grande parte por amigos meus. Sua intenção é alertar para o abandono de lugares, em São Luís, que poderiam ser cartões postais, mas estão sendo roídos pelo salitre do descaso, do abandono, da insegurança.

Outras ocupações virão, promete o coletivo organizador do encontro. Torço para que com ampla divulgação e cobertura da mídia, falatório nas redes sociais e presença de pessoas ouvindo poesia e música, comprando livros, quem sabe até dividindo o microfone e reivindicando a reinvenção do espaço público.

Espero sobretudo a atenção e sensibilidade dos gestores públicos no sentido de revitalizá-los, não só no que tange à pedra, mas no que tange à gente.

Ademir Assunção leva o Jabuti de Poesia

UM QUILO MENOS DISSO

Há uma canção melancólica de Tom Waits que narra a história de uma garota interiorana que vai para Nova York e cai nas mãos de pessoas erradas. No fim, restam apenas alguns litros de sangue na calçada e uma bolsa de pele de crocodilo vazia, jogada no bueiro por um vigarista. Há uma canção de Bob Dylan que narra o desterro de uma garota de nariz empinado que acaba na sarjeta, tendo que filar o rango de um maltrapilho que ela olhava do alto do pedestal. How does it fell/ To be on your own/ With no direction home/ Like a complete unknow/ Like a rolling stone? Há dias de calmaria e há dias de tormenta. Há um disco de Carmen McRae rolando na vitrola. Há céus azuis e há céus cinzentos. Há anjos e há demônios em quase todas as mitologias. Há pessoas que julgam e há pessoas que não se importam mais. It could be right or it could be wrong. Não há erros. Há fluxos, rajadas de vida. E muitas vezes o vento muda de direção. Há pessoas que às vezes estão tristes. Há muito desacerto. Há certezas demais. Há um vazio gigante entre os dois extremos da conexão. Há coisas que acontecem somente para que os antigos laços sejam reatados e novos sejam rompidos. Há drogas pra dormir. Há um avião B-52 caindo, há o rugido pesado de uma guitarra e há o choro de um recém-nascido. Há bombas que foram lançadas em 1944 e ainda não pararam de cair. Há um muro bem ali na frente. Ainda não consigo distinguir sua cor. Não sei nada sobre sua textura. Nem sobre sua densidade. Mas sei que estou indo em direção a ele. A 180 por hora. E não vou tirar o pé do acelerador.

Este poema em prosa abre a sétima noite do diário do ventríloquo – A voz do ventríloquo [Edith, 2012], de Ademir Assunção, é dividido em noites, cada noite uma seção de poemas.

O trecho com que abro este post, batizado por um verso de Sérgio Sampaio, traduz um pouco do que é o poeta, mostra algumas de suas influências e a forma como ele lida com as coisas – principalmente a poesia.

Ademir Assunção esteve em São Luís no final de setembro. Participou de três momentos da Feira do Livro de São Luís. Entrevistei-o por e-mail antes de sua chegada e provavelmente deixei sua indicação ao prêmio Jabuti na categoria poesia de fora do papo por ainda não ter à época a lista dos 10 finalistas – em que figurava também, entre outros, o maranhense Josoaldo Lima Rêgo, meu colega de equipe de curadoria, por Variações ao mar [7Letras, 2012]. Minha conversa com ele foi publicada pela metade nO Estado do Maranhão e inteira cá neste blogue.

No fundo, talvez, se eu já tivesse conhecimento da lista, a pergunta entraria na roda apenas por critérios jornalísticos (acho que a entrevista vai além), justamente por saber que Ademir não escreve poesia – ou prosa, ou jornalismo ou o que quer que seja – para ganhar prêmios. A prova disso são os quatro livros inéditos que ele tem na gaveta – uma coletânea de reportagens, outros de poesia.

Ademir Assunção já era um papo de longa data, ele desde sempre bastante atencioso ao responder e-mails, e conhecemo-nos pessoalmente durante a 7ª. FeliS, um grande acontecimento: nomes importantes como Fernando Moraes e Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, preferiram-na à Feira de Frankfurt. As críticas existentes devem deixar a FeliS ainda melhor – e maior – ano que vem.

Mas voltando: como eu disse na mediação de uma das mesas de que ele participou no evento literário, um cara fundamental na minha formação. Conheci sua poesia meio que por acaso: Xico Santos, editor proprietário da Altana, mandou-me de presente seu Zona Branca [2001], publicado por aquela editora. Desde então tenho acompanhado com avidez e alegria sua trajetória, lançamento após lançamento – vem um disco novo aí em novembro! –, suas dicas e suas reações a essa sociedade e seus problemas.

Este post, pois, é para anunciar a vitória de Ademir Assunção na categoria Poesia do prêmio Jabuti 2013, com seu A voz do ventríloquo. Ele, que gostou do que viu e viveu em seus dias de ilha, quem sabe não torna a ela ano que vem? De minha parte será um enorme prazer. Ademir: ligando ou não para prêmios, parabéns!

Poetas Luís Inácio Oliveira e Josoaldo Lima Rêgo autografam novos livros no Chico Discos

POETAS CONTEMPORÂNEOS DE SÃO LUÍS LANÇAM LIVROS PELA 7LETRAS

Noite de autógrafos será realizada no bar Chico Discos

Dois representantes da poesia contemporânea do Maranhão, Josoaldo Lima Rêgo, 33, e Luís Inácio Oliveira, 43, lançam, no dia 22 de novembro (quinta-feira), às 20h, no Chico Discos (Rua de São João, 389C, Centro) os seus respectivos livros Variações do Mar e Forasteiro Rastro, lançados pela 7Letras, a mais importante editora de poesia do Brasil na atualidade.

Os trabalhos vêm movimentar a cena da poesia local e inserir mais valores na tradição poética da cidade. Ambos autores são professores universitários. Josoaldo Lima Rêgo é formado em Geografia e leciona na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Estudou em São Luís, São Paulo e Coimbra (Portugal). Também professor da UFMA, Luís Inácio Oliveira é formado em Direito e cursa doutorado em Filosofia na Universidade de Campinas (Unicamp).

Pela 7Letras, Josoaldo Rêgo já tinha lançado Paisagens Possíveis em 2010, resultado de um prêmio concedido pela Pró-Reitoria de Cultura da Universidade de São Paulo (USP). Este primeiro trabalho teve o aval do respeitado poeta e tradutor paulista Cláudio Willer. Segundo Josoaldo, Variações do Mar pode ser percebido como uma continuação do anterior, porque nele aparecem muitos temas presentes no primeiro. “É marcado por deslocamentos (viagens), deambulações, mar, rios e cidades”, completa.

Sobre o conceito de mar presente no título, ele explica: “Pensei no mar como algo que representasse ‘intimidade’. Algo que vai de maneira sinuosa perpassando personagens, cidades e acontecimentos diversos. Tem um poema no começo do livro, chamado A Intimidade do Mar, que tem um único verso: “salitre nos ossos”. Sendo de São Luís, penso que o salitre é o nosso DNA”.

Tendo se destacado na geração da poesia maranhense dos anos 1990, quando lançou o seu primeiro livro, Luís Inácio Oliveira reaparece renovado e com a poética ampliada. Ele conta que os poemas de Forasteiro Rastro foram escritos desde o final dos anos 90 até 2010. Sendo assim, o livro é um projeto poético que foi se formando ao longo desse tempo. “É um trabalho que tem a ver com a experiência da viagem e do deslocamento espacial e temporal, com o olhar de estrangeiro, muitas vezes dirigido à minha própria cidade e com os rastros e as marcas deixados por essas experiências”, ressalta.

Em Forasteiro Rastro Luís Inácio enveredou pela primeira vez por poemas em prosa, que possuem logicamente um teor narrativo. “São tentativas de captar imagens reveladoras, como numa espécie de fotografia poética de rua. Por isso, são textos ligados também à experiência de perambular pela cidade (São Luís e outras por onde andei) com esse olhar meio forasteiro e se deixar afetar por coisas pequenas, mas surpreendentes”, conclui. (Release de Eduardo Júlio).

*

AGRESTE

Talvez rasgar as costas
na praia.
Ser pedra sem viagens
fora do lume.

Caminhar como um killer
qualquer.

Agreste entre agrestes,
nada. Só uma fresta aberta
com a palavra.

Josoaldo Lima Rêgo

*

ARREBOL

o que não mata a sede do aguardente
o que afoga dentro da voz da cantora
o violão de 7 cordas
o que naufraga a tempo de virar gesto
e degringola cacos
de vidro assim chamados madrigais
noturnos
o que te espera na próxima esquina
e nem te lembras com alarde
o que se deve à cicatriz de uma palavra
e é alado e ilegível

Luís Inácio Oliveira

*

SERVIÇO

Lançamento dos livros de poemas Variações do Mar, de Josoaldo Lima Rêgo, e Forasteiro Rastro, de Luís Inácio Oliveira.
Quando: Dia 22 (quinta-feira), às 20h.
Local: Chico Discos.
Preço de cada livro: R$ 20,00.
Aberto ao público.