A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.