Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].

Jornalista Zema Ribeiro celebra 15 anos na blogosfera

[release]

Blogue Homem de vícios antigos tem a cultura como principal pauta. Mesa redonda e festa marcam comemoração.

Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros em Marémemória, encenada pelo Laborarte em 1973, baseada no livro-poema homônimo de José Chagas. A foto de Murilo Santos tornou-se marca do blogue

O blogue Homem de vícios antigos, majoritariamente dedicado a pautas culturais, editado pelo jornalista Zema Ribeiro, completou 15 anos no ar em abril. Para celebrar a data estão programadas uma mesa-redonda e uma festa, que acontecerão no próximo dia 11 de maio (sábado, véspera do Dia das Mães).

“Iniciei o blogue como um exercício, assim que entrei na faculdade. Era um espaço de divulgar agendas de artistas amigos, depois evoluiu, se profissionalizou. Acabou virando literalmente um vício”, conta Zema Ribeiro, que tem 15 anos de profissão, tendo atuado principalmente em jornalismo cultural e assessorias de organizações de direitos humanos.

Além de editar o blogue, Zema Ribeiro atualmente apresenta, na Rádio Timbira AM, os programas Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, de meio-dia às 14h) e Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 22h), é colaborador do site de jornalismo musical Farofafá e diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem). Sua trajetória profissional é marcada também por colaborações com todos os jornais de São Luís, além das revistas Top (São Luís), Overmundo (Rio de Janeiro) e Brazuca (França, bilíngue). O jornalista também foi colunista do site do Instituto Itaú Cultural.

Mesa redonda – O bate-papo terá como tema “Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos” e, além do editor do blogue, terá as presenças de Alberto Jr. (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, apresentador do programa Quintal Cultural, na Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (jornalista, editor de cultura da revista CartaCapital e do site Farofafá) e Polyana Amorim (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, coordenadora do curso de Comunicação Social do Ceuma).

“Os escafandristas que virão explorar as ruínas da antiquada civilização na qual vivemos atualmente vão encontrar pouca coisa memorável. O blogue do Zema Ribeiro, Homem de vícios antigos, que professa paixão pela obsolescência tecnológica do ferramental que se alimenta do humano – os livros, os discos, o jornalismo –, certamente será um notável resgate. Porque se nutre daquilo que não envelhece jamais: o espírito. A boa música, a boa literatura, a fabulosa história em quadrinhos, a fantástica cultura popular. No presente, todos os microblogs serão famosos durante 15 segundos, mas o macroblogue do Zema já viveu mais do que 15 anos: viveu para sempre”, declarou Jotabê Medeiros.

A mesa redonda acontecerá no auditório do Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro), dia 11 de maio (sábado), às 16h, com entrada franca. Com capacidade para 180 lugares, é necessário se inscrever pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com

Baile de debutante – “Não existe 15 anos sem baile de debutante”, brinca Zema Ribeiro, ao anunciar a festa, que acontecerá no Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados), na mesma data, às 19h, e terá como atrações a dj Vanessa Serra e o Regional Choro da Tralha. O grupo é formado por Gabriela Flor (pandeiro), Gustavo Belan (cavaquinho), João Eudes (violão sete cordas), Chico Neis (violão), João Neto (flauta) e Ronaldo Rodrigues (bandolim).

Ao saber do aniversário, completado no último dia 28 de abril (data, em 2004, da primeira postagem), Vanessa Serra se manifestou em uma rede social: “Parabéns! E viva o Jornalismo feito com amor e seriedade! E umas doses de brilho!”.

“O [blogue] Homem de vícios antigos é, sem dúvida, um espaço onde é possível sentir algum alívio perante a desumanização dos tempos atuais. A começar pelo nome, que logo desperta curiosidade naqueles/as que ainda insistem em manter hábitos quase esquecidos, o blogue desempenha um papel que vai além de trazer informação sobre fatos, produções e atividades culturais e artísticas. Informa, mas também forma, mexe com nossas memórias, provoca, diverte, emociona”, elogia Gabriela Flor.

Chico Neis completa: “Além do visível compromisso com a arte e a cultura, vemos também uma forte presença maranhense, em textos apurados, coerentes e bastante acessíveis, o que não é tarefa fácil – o mais difícil é fazer o simples bem feito. Para resumir: um blogue necessário”.

“Desde que o blogue completou 10 anos a gente vinha pensando em realizar algo, mas nunca dava certo, eu mesmo não dava importância e a coisa não andava. Agora alguns amigos somaram, se doaram e a ideia deixou a cabeça e ganhou o Centro Cultural, o Chico Discos, e vai acontecer. Agradeço a todo mundo que embarcou nessa viagem maluca, com destaque para o amigo Otávio Costa, um leitor fiel do Homem de vícios antigos”, agradece Zema Ribeiro.

“Vanessa Serra é uma das djs mais requisitadas do cenário ludovicense e das rodas dominicais do Choro da Tralha, no sebo Feira da Tralha, que acabou por emprestar nome ao grupo, virei habitué. É uma enorme honra contar com suas presenças na festa, além dos amigos que, à tarde, estarão na mesa, meu professor Jotabê, um ídolo que virou amigo, e os amigos Alberto e Polyana, certamente teremos dois momentos com um nível excelente, sem falsa modéstia”, continua. “Todos eles, de algum modo, fazem parte da história do blogue, desses 15 anos de trajetória”, arremata.

SERVIÇO

15 ANOS DO BLOGUE HOMEM DE VÍCIOS ANTIGOS

Mesa redonda

Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Zema Ribeiro, Alberto Jr. (Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (CartaCapital, Farofafá) e Polyana Amorim (Ceuma).

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 16h.

Onde: Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro).

Quanto: grátis. Inscrições pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com (capacidade do auditório: 180 lugares).

Festa

Baile de debutante: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Regional Choro da Tralha e dj Vanessa Serra.

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 19h.

Onde: Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados).

Quanto: R$ 20,00 (capacidade do bar: 50 pessoas).

O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

O gigante Wander Piroli

Foto: Fernando Rabelo

 

Dois poderosos cartões de visita abrem Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito [Conceito Editorial, 2018, 256 p.], perfil biográfico do escritor mineiro assinado pelo jornalista e poeta conterrâneo Fabrício Marques, terceiro volume da coleção Beagá Perfis: o primeiro, uma foto do biografado engraxando os sapatos (esta que abre este post); o segundo, uma coleção de frases que ele deixou organizada em um livro inédito, de entrevistas, Todo amor é marginal – de onde sai, inclusive, o subtítulo do presente volume.

Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

A grandeza desta biografia reside justamente em dar conta da dimensão humana do escritor, para quem a literatura (e o jornalismo) se confundia/m com a própria vida. “Tenho vergonha de ficar triste, porque a vida me ofereceu coisas demais”, diz outra frase, que vem a intitular a orelha, assinada pelo contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão.

Fabrício Marques escreve uma espécie de “Wander Piroli por ele mesmo”, dando voz ao próprio biografado, através de depoimentos deixados, entrevistas e principalmente através de sua atuação, sobretudo no campo jornalístico, em Belo Horizonte, enriquecido e endossado por depoimentos de quem conviveu com o autor de O menino e o pinto do menino, entre redações, botequins e as então incipientes tertúlias literárias Brasil afora. “E lá ia eu com essa cara de cachaceiro falar de literatura infantil”, disse Piroli certa vez, ele, autor diverso, que conversava com os adultos mesmo em suas obras infantis.

O livro é recheado de preciosas lições a jornalistas que, se seguidas à risca, poderiam representar algum novo fôlego ao agonizante ofício no Brasil – sobretudo em tempos de fake news. Piroli foi grande mesmo fazendo jornalismo policial, editoria em geral alçada à segunda categoria: nunca se contentou com o que estava registrado nos famigerados boletins de ocorrência. “Fulano matou? Matou. Por quê? Sempre tem um porquê. Precisamos ir atrás dos porquês”, aconselhava colegas e focas. Foi professor de jornalismo sem nunca ter estudado para exercer a profissão para a qual pareceu ter nascido talhado: as primeiras faculdades de jornalismo estavam começando no Brasil quando ele se iniciava entre as máquinas de escrever, oficinas gráficas e seu discreto garrafão de cinco litros de pinga sob a mesa.

“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”, disse em entrevista ao jornalista Aramis Milarch, em 1979, sobre a matéria-prima de sua obra, literária ou jornalística. Essa busca incessante por histórias e personagens, a ele tão fundamental quanto respirar, beber ou fumar, foi um dos fatores que o tornou um gigante.

Piroli nunca saiu de Minas Gerais – a não ser em viagens curtas para um evento aqui, outro acolá – e a Lagoinha, bairro da capital mineira, é personagem constante em sua obra, mas isto está longe de enquadrá-lo como provinciano: a qualidade de sua obra é indiscutível e não são poucos os depoimentos a colocá-lo ao lado de nomes como Hemingway, Tchecov e Kafka, para ficarmos em uns poucos.

“[Charles] Bukowski e [John] Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, disse o escritor Joca Reiners Terron ao jornalista Jotabê Medeiros, em 2011 – ambos figuram na vasta galeria de depoentes à obra do jornalista, poeta e escritor Fabrício Marques, que equilibra seus ofícios na construção de um texto que deixa transparecer a enormidade (a eternidade e a atualidade) de Piroli – para além da aparência física –, autor infelizmente ainda menos conhecido do que deveria, apesar de sucessivas reedições de sua obra, cujos direitos atualmente pertencem à editora Sesi-SP, que já publicou alguns dos 18 inéditos deixados pelo escritor, falecido em 2006.

O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro:

Para mudar concepções e posturas

Auditório da OAB/MA ficou lotado para bate-papo com Marcelo Canellas. Foto: Ascom/OAB/MA

 

Caco Barcelos esteve em São Luís na última segunda-feira (7), quando participou do lançamento do I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, no auditório da seccional.

Tino Marcos falou para uma plateia lotada de profissionais e estudantes, a quem o prêmio é voltado, em cinco categorias – impresso, rádio, tevê, webjornalismo e fotojornalismo –, com premiações de R$ 3.000,00 e R$ 500,00, para profissionais e estagiários, respectivamente. O edital está disponível no site da OAB/MA.

A comissão julgadora será formada por representantes dos sindicatos dos jornalistas e radialistas, Defensoria Pública da União, Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, e coordenações dos cursos de comunicação da UFMA, Estácio e Ceuma.

Começo brincando com o nome do jornalista a evocar diversas situações em que Marcelo Canellas – uma das reservas morais da Globo, foi ele quem veio, na verdade – foi confundido com colegas de ofício e casa. Contar estes causos foi seu jeito descontraído e leve de extrapolar o tema proposto para a noite, “Jornalismo e cidadania”, e conquistar o público.

Ao citar as “confusões”, de gente anônima e famosa, trouxe à baila a questão da vaidade. Todo mundo tem, é natural, o lance é saber dosar. O jornalista precisa ser movido por outra coisa. “Quando eu comecei, eu queria mudar o mundo. Hoje eu continuo querendo isso, mas sei que não vou conseguir sozinho”, declarou.

Canellas lembrou-se de que uma das motivações que o levaram ao jornalismo – completa 30 anos de profissão em 2017 – foi a leitura do clássico Geografia da fome, do pioneiro Josué de Castro. “Quando eu for jornalista vou fazer uma matéria sobre este livro”, prometeu a si mesmo.

Fez uma série, espécie de Nova geografia da fome – roubo aqui o título do livro de Xico Sá e Ubirajara Dettmar, lançado depois – em tempos pré-Bolsa-família. Canellas lembrou-se de uma entrevistada da primeira reportagem da série. “Quando vi aquela mulher na soleira, era a própria personificação da indesejada das gentes”, comentou, dando um exemplo de como o jornalista precisa também ter faro e acreditar nele. “Quando cheguei com a equipe, a primeira coisa que fiz foi uma vaquinha com os colegas. Fomos à mercearia do lugar e compramos arroz, feijão, açúcar”, ele revelou não ac(r)e(d)itar (em) imparcialidade e neutralidade jornalística.

“A segunda coisa que fiz”, continuou, “foi procurar o orelhão mais próximo e ligar pedindo uma ambulância. Aquela senhora ia morrer. Enquanto a ambulância chegou eu fiz a entrevista mais perturbadora de minha carreira”.

A primeira reportagem da série foi ao ar algum tempo depois e Canellas assistiu, em casa, satisfeito. No dia seguinte, esperou ansiosamente para ver a segunda e, qual não foi sua surpresa, Fátima Bernardes, à época âncora do Jornal Nacional, leu uma nota, ao fim, anunciando a morte daquela personagem, 15 dias após seu depoimento ao repórter.

“Eu sou muito emotivo. Tenho interesse pela vida das pessoas. Com alguns personagens eu chego a manter contato por anos, de outros viro amigo”, revelou, respondendo à pergunta de alguém da plateia.

Provavelmente a grande maioria dos presentes ao lançamento do certame vá escrever e inscrever matérias concorrendo ao prêmio. Canellas, com a leveza habitual, sem posar de “professor que tudo sabe”, deu conselhos, principalmente a quem está começando: “ninguém chega a lugar nenhum sendo vaquinha de presépio, concordando o tempo inteiro com o que o chefe determina”.

Repórter especial do Fantástico há alguns anos, ele citou como exemplo as reuniões de pauta do dominical global: “é a reunião do pau, a reunião em que colega briga com colega e colegas brigam com chefes, tentando convencer o porquê da importância de determinado assunto virar pauta”. Para ele, que quando começou a carreira “passava notícia do orelhão, na ficha, disputando o telefone com a moça que ligava para a tia”, a questão é tirar o máximo de proveito das novas tecnologias, sem descuidar da qualidade da apuração e do texto.

Produto escasso no mercado contemporâneo, abordou a ética na ótica de Claudio Abramo, segundo o qual “não existe uma ética jornalística propriamente dita. A ética do jornalista é a mesma ética do marceneiro. O que ele queria dizer com isso? Que se você for ético e honesto como pessoa, você será um jornalista ético e honesto”. Canellas sabe fazer citações sem nunca tornar sua fala maçante. Lembrou ainda de A melhor profissão do mundo, discurso que Gabriel García Marquez proferiu em 1996 em uma assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol).

Penso que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos contribuirá para melhorar o nível da cobertura do tema, em geral pautado pelos jargões reverberados pela “legião de imbecis” (conforme Umberto Eco) que usam a expressão “bolsomito”.

Curioso que parte desse público – talvez até houvesse alguns na plateia, na ocasião – que trata, como ele salientou, “os direitos humanos como uma entidade metafísica ou um departamento do governo”, por vezes bata palmas para as reportagens televisivas do Canellas, sem se tocar que elas, no fim das contas, estão abordando questões de… direitos humanos.

Por exemplo as duas com que ilustrou sua palestra: uma tratava de um esquema fraudulento de adoção de crianças, que, com o verniz legal aplicado por juízes e promotores, beneficiava famílias ricas em detrimento de famílias pobres, nada de novo no front brasileiro; a outra acompanhava a saga de um músico que começou a ensinar música para crianças em instrumentos feitos de material reciclável catado em lixões de Assunção, Paraguai. A orquestra-mirim já rodou o mundo.

Que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, além de qualificar a cobertura das diversas temáticas a que se propõe, consiga contribuir também para mudar concepções e posturas em meio à nossa classe. Oxalá!

“Para cada craque há um escritor ou poeta correspondente” e para todos há Xico Sá

A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução
A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução

 

Xico Sá é o nosso melhor cronista esportivo desde Nelson Rodrigues – seu padrinho espiritual, ao lado de Edgar Alan Poe, que empresta nome ao agourento corvo com que seca adversários e graúdos.

As linhas entre a literatura e o jornalismo em seu fazer cotidiano são tão tênues que dão nisso: A pátria em sandálias da humildade [Realejo Edições, 2016, 228 p.; R$ 33,60], cujo título obviamente refere-se ao vexame brasileiro em casa, na última Copa do Mundo, os 7×1 da derrota para os alemães.

O livro é uma coletânea de sua produção nos últimos pouco mais de 10 anos, com textos publicados na Folha de S. Paulo e El País, um sobre – pasmem! – uma vitória do Íbis (na extinta revista 10), além de um inédito, incluindo missivas ao jogador-pensador-doutor Sócrates, seu saudoso colega de Cartão Verde, programa da TV Cultura cuja bancada integraram juntos.

Os textos de Xico Sá sobre o ludopédio não se encerram nas quatro linhas e é aí que ele triunfa, como se fosse aquele jogador que além de jogar bonito ainda marca os golaços de uma vitória por goleada.

Para Xico Sá, futebol é sociologia, através do qual tenta explicar e entender o Brasil, é também filosofia e psicanálise de botequim. Ele esbanja categorias ao citar filmes, livros e canções, ao comentar política. Nunca soa pedante, nada soa excessivo neste livro que agradará até mesmo quem não gosta de futebol.

Os textos sobrevivem ao prazo de validade do jornal impresso e ao embrulhar peixes do dia seguinte. Ao relermos, revivemos dramas, na vitória e na derrota. Com a categoria habitual do cronista, que escreve como se, qual Sócrates, desse um passe de calcanhar, deixando o leitor na cara do gol.

Seu consultório sentimental também está aberto ao longo das páginas, seja em cartas abertas que endereça a craques como Neymar, Adriano, Ronaldo e o próprio Sócrates, seja ao tratar do futebol em âmbito conjugal.

A coletânea A pátria em sandálias da humildade acompanha o período de três Copas do Mundo, incluindo o vexame do Mineirão. Xico humaniza a tragédia. Aliás, não é só esta elite futebolística que interessa ao cronista, muito pelo contrário: num livro bom por inteiro, os melhores textos são justamente sobre times e campeonatos menos nobres, a série D, a Lampions League, onde os fracos não têm vez.

“A noite de 10 de novembro de 2016, depois de um 3×0 contra a Argentina de Messi, vai ficar marcada no calendário freudiano do torcedor brasileiro como o dia em que ele jogou fora a tarja preta de um luto que parecia sem fim. Dois anos e quatro meses depois do tragicômico 7×1, neste mesmo Mineirão, mesmo o mais chic dos playbas e a mais grã-phyna das neymarzetes saíram do estádio mascando o torresmo da superação”, anota no inédito Rumo à estação Finlândia, camarada Tite, acertadamente otimista, sobre a já garantida vaga para a Copa na Rússia ano que vem.

Que venham ainda muitas Copas, séries A, B, C e D, estaduais, amistosos e peladas em várzeas. A pátria em sandálias da humildade é um gol de letra, mais uma prova de que Xico Sá é um craque, longe de pendurar as chuteiras.

Biografia de Zózimo Barrozo do Amaral está à altura de sua elegância, importância e bom humor

[O Imparcial, hoje]

Em mais de 600 páginas, Joaquim Ferreira dos Santos faz profundo e bem-humorado mergulho na vida do colega com quem trabalhou

 

O jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em foto de Joëlle Rouchou
O jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em foto de Joëlle Rouchou

Joaquim Ferreira dos Santos já contava quase década e meia de profissão quando foi contratado para ser repórter da coluna de Zózimo Barrozo do Amaral, quando este editou o mítico Caderno B do Jornal do Brasil, em 1983.

Enquanto houver champanhe, há esperança. Capa. Reprodução
Enquanto houver champanhe, há esperança. Capa. Reprodução

É minucioso e superengraçado o volume que dedica a retratar a vida do colega: Enquanto houver champanhe, há esperança: uma biografia de Zózimo Barrozo do Amaral [Intrínseca, 2016, 637 p.; R$ 69,90]. A frase-título encimava o “painel do ego”, diante do qual trabalhava o personagem, com fotos de celebridades colunáveis, às vezes com o colunista ao lado, os inseparáveis cigarro e copo de bebida nas mãos.

O livro começa pelo episódio em que o bem-nascido Zózimo esbanja grã-finagem e bom humor ao ser preso pelo regime militar e seguir por uma bem-sucedida sequência de episódios quase sempre hilariantes, a mais perfeita tradução do “ganha-se pouco mas é divertido”, embora este não fosse bem o caso do colunista social – como os leitores perceberão quando converterem, para valores atuais, seu salário quando da transferência para O Globo, já na década de 1990.

Aliás, chamá-lo simplesmente de colunista social talvez o diminua. O episódio da prisão, que abre o livro, demonstra inequivocamente, que Zózimo não se ocupava apenas de jantares elegantes da sociedade, regras de etiquetas e o ti-ti-ti do “quem come quem” (para usar uma expressão do autor) típico desta função supostamente mais fácil e glamourosa do jornalismo.

Jornalismo, com J maiúsculo, era o que praticava Zózimo Barrozo do Amaral, às vezes com pitadas de literatura – não raro só os implicados em suas notas cifradas entendiam d/o que ele estava falando. E nisso residia a graça: o leitor comum, o jornal ao lado de seu café com leite, pão e manteiga, adorava imaginar-se íntimo daqueles ambientes que por vezes sequer frequentava. Tudo temperado a muito bom humor.

O personagem de Joaquim Ferreira dos Santos frequentou as páginas do noticiário, sendo um dos jornalistas mais influentes do país, por mais de três décadas, até a morte, em 1997 – este talvez o único episódio triste de toda a narrativa, ainda assim contado de forma bem-humorada. Zózimo tinha consciência da importância de seu ofício e ia pessoalmente à cata de notícias, isto é, o expediente esticava diariamente por jantares, boates e restaurantes. De algum modo, morreu em consequência de seu ofício, e isto também o torna grande.

O que faz o autor, valendo-se de seu talento e da elegância de seu próprio texto, um dos melhores do jornalismo brasileiro, hoje, e servindo Zózimo como exemplo, é dar verdadeiras lições de jornalismo, história, cultura, política e sociedade brasileiros, passando por todos estes cenários, ao longo do período.

Num tempo em que se apregoa a morte – ou no mínimo um respirar por aparelhos – do jornalismo e as colunas sociais contentam-se com o copiar e colar de releases enviados por assessorias, Enquanto houver champanhe, há esperança é um livro necessário, não apenas para quem é do ramo.

Jornalismo com J maiúsculo

Reportagens. Capa. Reprodução
Reportagens. Capa. Reprodução

 

A nanobiografia do autor, ao fim do volume, afirma: “formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão para se dedicar às histórias em quadrinhos”. A bem da verdade, ele não deixou a profissão: Joe Sacco [Malta, 1960] tornou-se talvez o mais importante autor de jornalismo em quadrinhos e este Reportagens [Quadrinhos na Cia., 2016, 199 p.; tradução de Érico Assis; leia um trecho] é prova inconteste.

Aliás, Journalism é o título original deste álbum, que reúne verdadeiras lições de jornalismo – e geopolítica – em um gênero em geral tido como menor, menos sério ou menos importante. O próprio Sacco assina uma “saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo” – lição número um.

Seu trabalho é tão profundo quanto reportagens que se utilizam apenas de palavras e fotografias – aliás, seus quadrinhos deixam no chinelo muitos jornalistas acostumados (viciados) aos ares-condicionados de confortáveis redações e/ou ao copia e cola de releases e opiniões prontas dos patrões.

Joe Sacco não vai apenas para a rua, como é necessário para o bom e velho jornalismo, não apenas enfia os pés na lama: ele vai literalmente para o meio do olho do furacão, retratar dramas humanos em zonas de guerra.

Reportagens é uma coletânea de trabalhos de menor extensão publicados por ele mais ou menos recentemente em revistas e jornais como Boston Globe, Details, Guardian Weekend, Harper’s Magazine, New York Times Magazine, Virginia Quarterly Review e XXI.

O jornalista-quadrinhista é objetivo sem se tirar de cena – por vezes as reportagens têm um quê de making-of (além de um texto ao final de cada uma, detalhando pormenores de suas feituras e opiniões do autor sobre o próprio trabalho, um interessante exercício de autocrítica, inclusive).

O ponto em comum destas reportagens é a violência. O modus operandi militar – igual em qualquer parte do mundo – é alvo de Julgamentos de guerra, que se passa no Tribunal Penal Internacional, em Haia. O preconceito contra imigrantes africanos em Malta – terra natal de Sacco – é retratado em Os indesejáveis. Kushinagar retrata fiel e cruamente as injustiças, desigualdades sociais e a fome na Índia.

Se há quem ainda torça o nariz para o jornalismo em quadrinhos – gênero ainda pouco explorado no Brasil –, há quem reconheça Joe Sacco como um dos maiores correspondentes de guerra de nossos tempos, ele, autor também de Notas sobre Gaza [Companhia das Letras, 2010, 432 p.] e Palestina [Conrad, 2011, 328 p.], temas e geografias que também frequentam Reportagens.

Diante de pautas tão densas e cruéis é impossível falar em ludicidade – mesmo em se tratando de histórias em quadrinhos. Sacco não perde o bom humor e, aqui e ali, tira onda de seus interlocutores, fazendo com isso, críticas a funcionários públicos corruptos e coronéis – tenham os nomes que tiverem em outros países e línguas.

Belchior invocado

Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou "O bisbilhoteiro das galáxias". Foto: Talita Guimarães
Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou “O bisbilhoteiro das galáxias”. Foto: Talita Guimarães

 

Amanhã (23) em São Paulo, o jornalista Jotabê Medeiros reúne diversos amigos para celebrar a obra de Belchior, artista cearense de quem está escrevendo a biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, título de uma conhecida canção sua, parceria com Toquinho.

E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa
E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa

Invocação Belchior – debate-canção sobre a vida e a obra de um grande artista, o evento, reunirá, além do organizador, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, seu colega de Farofafá, o compositor Jorge Mello (parceiro de Belchior e fonte de Jotabê na biografia) e Josy Teixeira, doutora em Belchior pela USP, além de músicos revisitando clássicos e lados b do cearense: Edvaldo Santana, Juliano Gauche, Assucena Assucena (vocalista de As Bahias e a Cozinha Mineira), Mário Bortolotto e o próprio Jorge Mello.

“Eu tenho diversos amigos que partilham comigo essa paixão pela obra do Belchior e pela coerência artística dele. Me ocorreu que é legal manter uma obra como a dele, que está agora, talvez, um tanto quanto esquecida, pelo fato de que ele deu um sumiço, que seria legal reunir as pessoas que têm algo a dizer e fazer umas provocações. Os beatniks faziam muito isso, houve uma tradição uma época no mundo cultural, reunir as pessoas, o dadaísmo se reunia no Cabaret Voltaire, lá em Zurique, e lá eles realizavam suas provocações artísticas. A gente esqueceu um pouco essa tradição, tá tudo muito ligado a questões como showbiz, a realização de um show, achei até que essa coisa da extinção do Ministério da Cultura liberou um pouco pras pessoas fazerem ações coletivas sem fins outros que não a própria ação. Esse encontro, Invocação Belchior, é uma coisa assim, eu até brinquei, como tinha essa coisa lá nos beatniks, os belchniks vão se reunir no dia 23 aqui em São Paulo”, anuncia Jotabê.

Biógrafo e biografado têm trajetórias parecidas, como lembra Belchior na autobiográfica Fotografia 3×4, “pois o que pesa no norte/ pela lei da gravidade/ disso Newton já sabia/ cai no sul, grande cidade”, ele cearense de Sobral, Jotabê paraibano de Sumé, o primeiro desce para o eixo Rio-SP em busca de um lugar ao sol na MPB da época dos grandes festivais, o segundo forma-se em jornalismo em Londrina/PR e fixa residência em São Paulo, onde consolida-se como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no país.

“Belchior tratou em algumas músicas da questão da migração, tem também entrevistas que tratam dessa coisa, o fato do cidadão migrante, principalmente do Nordeste, ser visto como um pária, às vezes, aqui no Sul, Sudeste, ser visto como um ser, eles fazem essa confusão, geralmente é o porteiro ou é o pedreiro, no Rio de Janeiro chamam todo mundo de Paraíba, aqui em São Paulo chamam de baiano, sempre com um tom meio agressivo, e o Belchior sentiu isso na pele e fez algumas músicas maravilhosas sobre esse sentimento. Eu sou migrante, mas vim beber pra cá pro Sudeste, conheço esse sentimento meio transversalmente, mas reconheço a grande poesia que nasce desse estado de preconceito. Belchior fez maravilhas, Fotografia 3×4 é a história de todos nós”, prossegue Jotabê.

A Belchiorgrafia em progresso e o evento de amanhã são exceções no noticiário relativo ao artista nos últimos anos, seu bigode grisalho tingido pelo marrom da imprensa sensacionalista, especulando sobre dívidas, motivações e até seu quadro psicológico. Jotabê trabalha com afinco, em meio a uma agenda intensa de compromissos profissionais, atuando como jornalista independente há pouco mais de um ano, escrevendo regularmente em seu blogue, no site Farofafá e no portal Uol.

“Seria ótimo poder falar com ele, cotejar alguns temas da obra dele, perguntar, por exemplo, eu tou tendo que ir a fontes, parceiros, para chegar, por exemplo, por que o desespero era moda em 73?, um verso famoso dele [de A palo seco]. O desespero era moda em 73 por que naquela época quem mandava no país era um general chamado Emílio Garrastazu Médici, era linha dura, a perspectiva para artistas e pessoas que eram vítimas da censura era muito dura, então ele cunhou esse verso em relação a esse período do Médici, e pouca gente sabe disso. Eu gostaria de falar com ele e perguntar para ele, diretamente. Não vai ser possível”, contenta-se.

Em 2016 Alucinação completa 40 anos. O disco de Belchior foi eleito o melhor da música produzida no Ceará, em enquete do jornal O Povo. Em outubro, o compositor completa 70 anos, quando deve ser lançado Pequeno perfil de um cidadão comum. “Vai estar na mão do editor daqui a um mês, então acho que sai. Tá previsto, vai sair”, garante. Segundo livro de Jotabê Medeiros, o aguardado sucessor de O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop [Lazuli, 2013], será certamente um presente e tanto para Belchior, seus fãs e interessados em música e jornalismo cultural em geral.

Ouça o álbum Alucinação:

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O texto toma por base entrevista concedida por Jotabê Medeiros ao blogueiro no programa Conversa à Beira Mar da última quarta-feira (20), na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

“A ficção é uma realidade que ainda não aconteceu”

João Miguel na pele do jornalista Ernesto. Frame. Divulgação
João Miguel na pele do jornalista Ernesto. Frame. Divulgação

 

Quase memória [drama, Brasil, 95 min.] é caminhar no pântano: nem sempre se pode confiar onde se está pisando. Será verdade tudo o que lembramos?

O filme de Ruy Guerra baseado no romance de Carlos Heitor Cony é esta tensão entre o claro e o escuro, lembranças vívidas e lapsos, lacunas, o que o título nos entrega de bandeja.

Quase memória, o livro, é, em termos de vendagem, título brasileiro raro, quase na casa do meio milhão de exemplares vendidos.

O filme é uma livre adaptação, em que Carlos Campos (espécie de alter-ego cinematográfico do escritor) conversa consigo mesmo neste exercício de reconstrução da memória. Ele é Tony Ramos – em estupenda interpretação – e Charles Fricks, num longa que conta ainda com atuações de João Miguel e Mariana Ximenes.

O Carlos velho ouve no rádio o decreto do ato institucional nº. 5, em 13 de dezembro de 1968, o que deixaria a ditadura ainda mais dura, perdoem o trocadilho infame; o Carlos jovem vê na tevê a notícia da morte do piloto brasileiro de fórmula 1 Ayrton Senna em 1º. de maio de 1994.

Sem compará-los são dois momentos trágicos da vida pública nacional, estopim para o diálogo que Carlos terá consigo mesmo ao longo de uma noite e uma madrugada. O relógio bate seis vezes marcando a hora da Ave Maria e o início do diálogo e, dia amanhecendo, garrafa de uísque vazia, seis vezes anunciando a chegada da manhã.

Jornalista, Cony é filho de jornalista, e livro e filme acabam sendo, também, uma declaração de amor ao ofício cada vez mais avacalhado nestes tempos sombrios – se o blogueiro parece pessimista, a adaptação não.

Há humor nas lembranças que Carlos tem do pai em diversos momentos marcantes de Quase memória, mesmo os trágicos, como o crítico de teatro Mário Flores (Júlio Adrião), que morre vítima de infarto ao saber de sua demissão por notícia do jornal em que havia dedicado três décadas a óperas e que tais. Noutra passagem, Ernesto (João Miguel), pai de Carlos, é promovido a autor da coluna de obituários, após imaginar (e publicar) o discurso de um padre – que acabou morrendo sem proferi-lo.

Parceiro de Chico Buarque em músicas como Tira as mãos de mim, Bárbara, Fado Tropical, Ana de Amsterdam, Tatuagem e Não existe pecado ao sul do Equador, Ruy Guerra já havia adaptado ao cinema um livro do escritor: Estorvo [2000].

Quase memória pré-estreia na abertura da oitava edição do festival Maranhão na Tela, com exibição gratuita e aberta ao público dia 21 de março, às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande).

Homem de vícios antigos assistiu o filme a convite da produção do festival.

EP Descostura marca estreia de Valéria Sotão

Artista disponibilizou três faixas, antecipando o álbum que gravará em 2016. Também já está no ar o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das faixas de Descostura

 

Este é o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das três faixas de Descostura, EP que Valéria Sotão acaba de disponibilizar na internet. Compositora e cantora – é ela quem prefere ser chamada nesta ordem – que acrescenta um “de voz miúda” ao se apresentar nas redes sociais.

Descostura. Capa. Reprodução
Descostura. Capa. Reprodução

Chocolate meio amargo tem direção de Emilio Andrade e atuação de Luciano Teixeira e Larissa Ferreira. Descostura, o EP, está disponível para audição no soundcloud da artista, que promete para ano que vem o álbum completo de estreia. Apesar de jovem, Valéria já deu algumas guinadas na vida.

Primeiro, abandonou o jornalismo. “Fiz jornalismo porque queria mudar o mundo, mas aprendi logo a falta de autonomia na área. Sempre quis música; mas minha família queria uma garantia, então fiz faculdade e adiei a música”, conta. Dedicou-se por algum tempo à fotografia, profissionalmente. Com Descostura alça, agora, voo musical.

“Acho que o jornalismo me trouxe uma bagagem cultural única, que posso usar na música, e a fotografia é uma arte e todas as artes são relacionadas”, afirma, costurando suas áreas de atuação.

Valéria Sotão, compositora e cantora "de voz miúda". Foto: divulgação
Valéria Sotão, compositora e cantora “de voz miúda”. Foto: divulgação

Ela compõe desde os 15 anos, mas só recentemente fez sua estreia num palco, durante o evento Lição de moda, no recém-inaugurado Shopping Passeio, no Cohatrac. “O produtor do evento me chamou sem nunca ter me ouvido, pois disse que confiava no meu bom gosto. Moda é arte, forma de expressão assim como a música”, acredita.

Descostura tem uma pegada pop, cujas influências, ela mesmo confessa, são Caetano Veloso, Rita Lee, Secos & Molhados, Placebo e David Bowie. Ela, no entanto, não renega a cultura popular – o clipe de Chocolate meio amargo tem trechos rodados num de seus principais palcos no Maranhão, a Praia Grande. “Eu adoro a cultura popular maranhense. Já vivi muitas coisas na Praia Grande, já fiz faculdade de música – que não terminei – por ali… Adoro bumba meu boi”, revela.

Raflea (nome artístico de Rafael Cunha França, integrantes de bandas como Torre de Papel e Casaloca), um exército de um homem só, tocou todos os instrumentos do disco, exceto a bateria, assinada por Carlos Silva, e o violão da faixa-título, tocado pela própria Valéria. A capa do EP é um desenho de Ksyfux (nome artístico de Agnaldo da Silva Jr.).

As três faixas são ótimo aperitivo. É esperar, em 2016, pelo início da gravação do álbum completo, que incluirá as faixas de Descostura e outras inéditas e, após isso, por shows de lançamento.

Um relato humano sobre uma tragédia nacional

Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde

Presos que menstruam. Capa. Reprodução
Presos que menstruam. Capa. Reprodução

A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.

A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.

Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.

A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).

Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.

Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.

Nana Queiroz em foto de João Fellet
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet

 

Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema?
Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.

Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis?
Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?

Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra?
Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.

Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações?
Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.

Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto?
Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.

Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa?
Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.

Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades?
Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.

Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres?
Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.

Tarja preta em oposição às imprensas marrom e chapa branca

 

Três gerações da música do Maranhão se encontram hoje (14), às 20h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), no Baile da Tarja Preta, festa que comemora o aniversário de seis anos do Vias de Fato.

Cesar Teixeira, Marcos Magah e Tássia Campos, além do DJ Jorge Choairy estarão juntos para celebrar a longevidade do “jornal que não foge da raia”. Além de música, a noite terá a encenação do esquete Xópim Tarja Preta, de autoria do jornalista Emílio Azevedo, um dos fundadores do Vias de Fato, encenada pelos atores Lauande Aires e Rejane Galeno.

“Os personagens travam um diálogo sobre quem é louco e quem é normal. Conversam sobre o que seria loucura e normalidade, dentro da sociedade em que vivemos; nesse capitalismo à brasileira, com sua herança escravocrata, racista, violenta, patrimonialista; com sua urbanidade profundamente desigual, consumista; com seus profissionais liberais e seus mendigos; e com a presença cada vez mais ameaçadora de um conservadorismo raivoso, de fundo religioso, pseudocristão”, adianta Emílio.

O jornal nasceu a partir do movimento Vale Protestar, contraponto ao Vale Festejar, um festejo junino fora de época que privatizou por muitos anos o Convento das Mercês. Entre 2006 – ano da eleição de Jackson Lago, depois cassado por um golpe judiciário – e outubro de 2009, quando circulou a primeira edição do jornal, muitas discussões e amadurecimento das ideias.

Também fundador do jornal mensal, Cesar Teixeira atesta a importância do jornal para a realidade maranhense: “O Vias de Fato é uma prova de que ainda se pode acreditar em um jornalismo sem amarras no Maranhão, fazendo da sua sobrevivência um compromisso com a sociedade e com a história”, afirmou.

Indago-lhe sobre sua participação no Baile da Tarja Preta e seu aval aos talentos de Tássia Campos e Marcos Magah. “A minha participação será modesta. O palco é deles. Vai ser um prazer estar junto de dois legítimos representantes da nova geração e, embora não seja um avalista do seu talento, assino embaixo”, declarou.

Tássia corresponde o entusiasmo: “[Este encontro] ressignifica as coisas nas quais acredito e é também um lisonjeio, porque eu não componho. O que tenho escrito é apenas a minha história e eles escrevem a história. Me sinto feliz pela possibilidade deste encontro”, afirmou.

Com formação em Ciências Sociais, a cantora é tida por seus pares como uma das mais autênticas artistas de sua geração. Ela não se preocupa em ganhar ou perder patrocínios e espaço para agradar ou desagradar: é uma artista de opinião. Sobre esta questão, ela declarou ao blogue: “Não consigo ficar em cima do muro. Tenho posicionamentos, não acredito em blindagem à crítica – isto já me coloca à margem de algumas coisas – e procuro ser coerente. Acredito que mais artistas com pensamento crítico faria diferença demais. Aqui ainda rola o provincianismo, da colegagem, do disse-me-disse, o que compromete, inclusive profissionalmente, muita coisa. Mas não posso delegar essas responsabilidades aos outros. Mas me incomoda demais isso de, por conta de falta de postura crítica, pouca gente se dá muito bem, pra muita gente se dar muito mal”.

Ela ainda deu pistas do repertório que apresentará logo mais: “Decidi que vou contemplar meus compas de palco: vou cantar Cesar, Magah, Bruno Batista… Mas também tem coisa dA mulher do fim do mundo, [disco novo] da Elza [Soares], Novos Baianos e uns reggaes que eu amo cantar. Vai ter também encontro com os meus rapazes, Chico Maranhão e outras cositas”, antecipou.

Um dos responsáveis pela consolidação de uma cena punk rock em São Luís do Maranhão, Marcos Magah integrou a Amnésia, ainda na década de 1980 – a banda chegou a tocar no comício do então candidato à presidência da república Lula, para uma multidão, na Praça Deodoro, em 1989. Sumido por algumas temporadas, fez de tudo um pouco até reaparecer com Z de vingança [2012], lançado pelo selo Pitomba!, do escritor e editor Bruno Azevêdo, que, de cara, incluiu o disco entre seus prediletos em enquete do Vias de Fato.

A entrevista que Marcos Magah deu a Los Perros Borrachos – Igor de Sousa e este que vos escreve –, publicada pelo jornal meses depois, teve grande repercussão. É a este espírito coletivo que Emílio credita a longevidade do jornal. “A longevidade é, sem sombra de dúvida, fruto do grupo que faz parte do jornal, é consequência do trabalho de quem distribui, divulga, escreve, milita. Sem este trabalho coletivo, que começou no impresso e logo se expandiu para a internet, o Vias não teria durado nem um ano. Some isso a nossa relação direta com as ações de organizações e movimentos populares, de alguns professores e estudantes. Todo esse pessoal, toda esta ação conjunta, é, sem dúvida, a força deste projeto”, finalizou.

Os ingressos para o Baile da Tarja Preta custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos no local.