Belchior invocado

Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou "O bisbilhoteiro das galáxias". Foto: Talita Guimarães
Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou “O bisbilhoteiro das galáxias”. Foto: Talita Guimarães

 

Amanhã (23) em São Paulo, o jornalista Jotabê Medeiros reúne diversos amigos para celebrar a obra de Belchior, artista cearense de quem está escrevendo a biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, título de uma conhecida canção sua, parceria com Toquinho.

E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa
E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa

Invocação Belchior – debate-canção sobre a vida e a obra de um grande artista, o evento, reunirá, além do organizador, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, seu colega de Farofafá, o compositor Jorge Mello (parceiro de Belchior e fonte de Jotabê na biografia) e Josy Teixeira, doutora em Belchior pela USP, além de músicos revisitando clássicos e lados b do cearense: Edvaldo Santana, Juliano Gauche, Assucena Assucena (vocalista de As Bahias e a Cozinha Mineira), Mário Bortolotto e o próprio Jorge Mello.

“Eu tenho diversos amigos que partilham comigo essa paixão pela obra do Belchior e pela coerência artística dele. Me ocorreu que é legal manter uma obra como a dele, que está agora, talvez, um tanto quanto esquecida, pelo fato de que ele deu um sumiço, que seria legal reunir as pessoas que têm algo a dizer e fazer umas provocações. Os beatniks faziam muito isso, houve uma tradição uma época no mundo cultural, reunir as pessoas, o dadaísmo se reunia no Cabaret Voltaire, lá em Zurique, e lá eles realizavam suas provocações artísticas. A gente esqueceu um pouco essa tradição, tá tudo muito ligado a questões como showbiz, a realização de um show, achei até que essa coisa da extinção do Ministério da Cultura liberou um pouco pras pessoas fazerem ações coletivas sem fins outros que não a própria ação. Esse encontro, Invocação Belchior, é uma coisa assim, eu até brinquei, como tinha essa coisa lá nos beatniks, os belchniks vão se reunir no dia 23 aqui em São Paulo”, anuncia Jotabê.

Biógrafo e biografado têm trajetórias parecidas, como lembra Belchior na autobiográfica Fotografia 3×4, “pois o que pesa no norte/ pela lei da gravidade/ disso Newton já sabia/ cai no sul, grande cidade”, ele cearense de Sobral, Jotabê paraibano de Sumé, o primeiro desce para o eixo Rio-SP em busca de um lugar ao sol na MPB da época dos grandes festivais, o segundo forma-se em jornalismo em Londrina/PR e fixa residência em São Paulo, onde consolida-se como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no país.

“Belchior tratou em algumas músicas da questão da migração, tem também entrevistas que tratam dessa coisa, o fato do cidadão migrante, principalmente do Nordeste, ser visto como um pária, às vezes, aqui no Sul, Sudeste, ser visto como um ser, eles fazem essa confusão, geralmente é o porteiro ou é o pedreiro, no Rio de Janeiro chamam todo mundo de Paraíba, aqui em São Paulo chamam de baiano, sempre com um tom meio agressivo, e o Belchior sentiu isso na pele e fez algumas músicas maravilhosas sobre esse sentimento. Eu sou migrante, mas vim beber pra cá pro Sudeste, conheço esse sentimento meio transversalmente, mas reconheço a grande poesia que nasce desse estado de preconceito. Belchior fez maravilhas, Fotografia 3×4 é a história de todos nós”, prossegue Jotabê.

A Belchiorgrafia em progresso e o evento de amanhã são exceções no noticiário relativo ao artista nos últimos anos, seu bigode grisalho tingido pelo marrom da imprensa sensacionalista, especulando sobre dívidas, motivações e até seu quadro psicológico. Jotabê trabalha com afinco, em meio a uma agenda intensa de compromissos profissionais, atuando como jornalista independente há pouco mais de um ano, escrevendo regularmente em seu blogue, no site Farofafá e no portal Uol.

“Seria ótimo poder falar com ele, cotejar alguns temas da obra dele, perguntar, por exemplo, eu tou tendo que ir a fontes, parceiros, para chegar, por exemplo, por que o desespero era moda em 73?, um verso famoso dele [de A palo seco]. O desespero era moda em 73 por que naquela época quem mandava no país era um general chamado Emílio Garrastazu Médici, era linha dura, a perspectiva para artistas e pessoas que eram vítimas da censura era muito dura, então ele cunhou esse verso em relação a esse período do Médici, e pouca gente sabe disso. Eu gostaria de falar com ele e perguntar para ele, diretamente. Não vai ser possível”, contenta-se.

Em 2016 Alucinação completa 40 anos. O disco de Belchior foi eleito o melhor da música produzida no Ceará, em enquete do jornal O Povo. Em outubro, o compositor completa 70 anos, quando deve ser lançado Pequeno perfil de um cidadão comum. “Vai estar na mão do editor daqui a um mês, então acho que sai. Tá previsto, vai sair”, garante. Segundo livro de Jotabê Medeiros, o aguardado sucessor de O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop [Lazuli, 2013], será certamente um presente e tanto para Belchior, seus fãs e interessados em música e jornalismo cultural em geral.

Ouça o álbum Alucinação:

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O texto toma por base entrevista concedida por Jotabê Medeiros ao blogueiro no programa Conversa à Beira Mar da última quarta-feira (20), na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Bisbilhotando na #8Felis

O bisbilhoteiro das galáxias. Capa. Reprodução

O livro que abre este post merece atenção especial, inclusive deveria ser bibliografia das disciplinas de jornalismo cultural nas faculdades. Depois digo mais dele, num post específico.

Logo mais este que vos perturba debato o “jornalismo cultural nos bastidores da cultura pop” com seu autor, Jotabê Medeiros, repórter e crítico do jornal O Estado de S. Paulo, e aproveito para pegar meu autógrafo. Ele trouxe uns exemplares na mochila e lança esta coletânea de histórias de bastidores fartamente ilustrada, contando encontros, às vezes inusitados, com nomes como Bob Dylan, Axl Rose, Zé Ramalho e Manu Chao, entre muitos outros.

Vai ser às 16h, no Café Literário Odylo Costa, filho, no térreo do Convento das Mercês, na programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís.

Amanhã estaremos entre os bastidores e a plateia de Edvaldo Santana.

“Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética”

[Íntegra da entrevista publicada hoje no Alternativo, O Estado do Maranhão]

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção fará três participações na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Com nove livros publicados, um cd lançado e outro a sair ainda este ano, ele concedeu entrevista exclusiva a O Estado do Maranhão

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção tem nove livros publicados: LSD Nô (poesia, 1994), A Máquina Peluda (prosa, 1997), Cinemitologias (prosa poética, 1998), Zona Branca (poesia, 2001), Adorável Criatura Frankenstein (prosa, 2003), A Musa Chapada (com Antonio Vicente Pietroforte e Carlos Carah, poesia, 2008), Buenas Noches, Paraguaylândia (poesia, Assunção, Paraguai, 2009), A Voz do Ventríloquo (poesia, 2009) e Faróis no Caos (coletânea de entrevistas, 2009). Em 2005 lançou o cd Rebelião na Zona Fantasma, com participações dos parceiros Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Tem inéditos um cd – que lança ainda este ano – e quatro livros – três de poesia e uma coletânea de reportagens publicadas em diversos veículos. Alô, editores do meu Brasil!

Já ganhou alguns prêmios com sua produção, mas não é o tipo de cara que espera por bons ventos ou tempos de vacas gordas: o lance dele é o mar bravio, em que se mete a largas braçadas e pernadas, cara e coragem. Para lançar seu primeiro disco, por exemplo, à época, vendeu um carro. Para selecionar as 29 entrevistas de Faróis no Caos, passou dois meses isolado em uma praia.

Formado na Universidade Estadual de Londrina, o autor, convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, passou pelas redações da Folha de Londrina, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Marie Claire, Veja São Paulo, além de frilar por outras: Revista dos Bancários (SP), O Tempo (Belo Horizonte), Gazeta do Povo (Curitiba), A Notícia (Joinville), Cult, IstoÉ, Revista Educação e Caros Amigos. Quando o jornalismo, sobretudo o cultural, começou a ficar careta ele caiu fora – um de nossos mais interessantes jornalistas está exilado das redações.

Ademir Assunção fará três participações na 7ª. FeliS: dia 28 de setembro (sábado), às 18h, no Auditório da Associação Comercial do Maranhão (Praça Benedito Leite), com mediação deste jornalista, ele profere a palestra “A farsa da big mídia e as revistas fora do centro: uma outra história”. Domingo (29), às 19h30min, apresenta-se no recital Poesia no Beco, no Beco Catarina Mina (Praia Grande), acompanhado do guitarrista Marcelo Watanabe. Dia 30 (segunda-feira), às 16h30min, divide um Café Literário com o também jornalista e poeta Eduardo Júlio. “Poesia rima com rebeldia: Leminski, Torquato e cia. Ilimitada” é o tema da conversa, que acontece na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Em entrevista por e-mail a O Estado, Ademir Assunção falou de poesia, jornalismo, música, revistas literárias, sua trajetória, redes sociais e da expectativa por sua primeira visita à São Luís do Maranhão.

ENTREVISTA: ADEMIR ASSUNÇÃO

O Estado do Maranhão – Ano passado você lançou o livro de poemas A voz do ventríloquo e a coletânea de entrevistas Faróis no caos. Sua trajetória parece desde sempre marcada por essa, digamos, vida dupla: a poesia e o jornalismo. Em que sentido um e outro se ajudam e completam e/ou atrapalham?
Ademir Assunção – Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética. Peguei um período em que era possível praticar um jornalismo bem mais instigante do que o atual. Era possível desenvolver um estilo, ou vários estilos de escrita, e discutir questões relevantes com mais profundidade. Sempre fui fascinado pela página grande de um jornal, com todas as suas possibilidades criativas, desde a linguagem gráfica, fotográfica, até a própria escrita. O jornalismo me ajudou a criar uma disciplina e a procurar uma poesia mais impura, mais misturada ao cotidiano. E o estudo da tradição poética me ajudou a praticar um jornalismo mais criativo, enquanto foi possível. Embora sejam linguagens e meios bem diferentes, procurei contaminar um ao outro, levando uma consciência poética ao jornalismo e trazendo um pouco das impurezas da linguagem jornalística para a poesia.

Poesia “é saber usar a língua para extrair gemidos, uivos e palavras obscenas das mulheres mais vagabundas”. Esta é a resposta que você deu ao também poeta Edson Cruz, em O que é poesia? [2009], livro que ele organizou. O que mais é poesia? E levando em conta essa definição, você arriscaria um chute? Há muitos ou poucos poetas por aí? Bons ou ruins? Não gosto da poesia como algo puro, uma espécie de virgem imaculada no alto de um pedestal. Prefiro a poesia que vai para o meio da rua, que lambe as feridas dos trombadinhas, que se deixa violentar por tudo o que é humano, que se arrisca aos altos voos mas que tem consciência de que o asfalto é duro é áspero. Como diria Nietzsche: “de tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue.” Sim, há muitos poetas que escrevem com essa fúria e essa urgência. São esses os que mais me interessam.

A mediocrização do jornalismo cultural brasileiro te obrigou a um exílio voluntário. Entrevistas como as reunidas em Faróis no caos estão cada vez mais raras na chamada grande mídia. Neste aspecto, uma volta ao passado parece mesmo impossível? Nada é impossível e o tempo não é linear como pensamos. É possível que a qualquer momento surja uma nova tribo de jornalistas que encare o exercício da escrita e da informação de maneira apaixonada e ousada, e não apenas como uma profissão, onde “quem pode manda e quem tem juízo obedece”. Para mim, isso é uma total falta de juízo. É preciso também que as condições se apresentem para que essas mudanças aconteçam. Quanto ao meu exílio, não foi tão voluntário assim. Passei períodos difíceis, sem grana, sem conseguir trabalho em jornal ou revista algum. Mas nunca estive disposto a vender o que tenho de mais precioso: a minha inquietação.

Muito do conteúdo dos poemas de A voz do ventríloquo é uma crítica a essa sociedade do espetáculo e do consumo desenfreado, que vai mais a um show ou a um restaurante para postar a foto do artista no palco e da comida no prato que para apreciar um ou outro. A experiência parece só existir se compartilhada. Escrever é um exercício solitário, que vai na contramão disso tudo. Como você dosa o exercício de escritor com a exposição na medida que o mesmo deve ter, divulgando a obra, conquistando leitores? Sinceramente, nunca me preocupei em conquistar mais leitores. Sigo fazendo o que tenho que fazer. A escrita, para mim, é vital. Tenho tanto prazer em passar madrugadas escrevendo solitariamente quanto em subir em um palco e apresentar meus poemas com minha banda. É claro que tenho intenção de influenciar mais pessoas, de interferir no resultado do jogo, mas que isso aconteça sem concessões descabidas. A poesia é capaz de abrir o olho de muita gente. Não a encaro como um entretenimento. Não tenho nenhuma dúvida de que minha percepção seria mais pobre se não tivesse lido Uivo, de Allen Ginsberg, ou a tradução da Ilíada por Haroldo de Campos, para citar dois exemplos.

Além dos livros de poesia e prosa e da atividade jornalística, outra atividade sua é a música. Para você, há diferença na hora de compor uma letra de música ou escrever um poema? Apenas diferenças técnicas. No meu caso, a maior parte das minhas parcerias musicais nasceu de poemas já escritos. Poucas vezes escrevi poemas para harmonias ou melodias já prontas. Acho um equívoco pensar que a “grande poesia” só pode existir no livro. Itamar Assumpção, por exemplo, é um poeta de altíssima voltagem. Só que em vez de publicar livros, gravou discos. São meios diferentes, com possibilidades diferentes. Gosto muito do poema cantado de Gilberto Gil [Metáfora, do disco Um banda um]: “Na lata do poeta tudo nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha caber / O incabível.”

Depois de Rebelião na Zona Fantasma você está preparando um novo disco, fundindo poesia com rock e blues, numa experiência para muito além de recitar poemas com fundo musical. A banda que te acompanha se chama Fracasso da Raça, um belo nome que já traduz uma opinião, uma visão de mundo. Deste novo disco – como se chamará? – já tive a oportunidade de ver o clipe de Bang bang no sábado à noite e ouvir Lena [enviada por e-mail em primeira mão]. Em ambas estão referências fundamentais para tua literatura, como Bob Dylan, John Lee Hooker, Sérgio Leone. O que mais esperar? E qual a previsão de lançamento? Este novo disco, que se chama Viralatas de Córdoba e será lançado em novembro, está mais radical do que Rebelião na Zona Fantasma. Das 14 faixas, há apenas uma cantada, um blues interpretado pela cantora Fabiana Cozza. É um poema que Edvaldo Santana musicou, sem nenhuma alteração. Todos os outros são entoados, com ritmos, com modulações, com intenções de voz diferentes. Porém, meticulosamente encaixados em harmonias e compassos musicais. Como você frisou, não se trata de poemas falados com um “fundo musical” aleatório, improvisado. O processo de composição com os músicos Marcelo Watanabe [guitarrista que o acompanhará em Poesia no Beco, durante a 7ª. FeliS], Caio Góes e Caio Dohogne foi muito curioso. Os próprios compositores jamais haviam trabalhado desta maneira. Gravei também O Deus, parceria com Edvaldo Santana e Paulo Leminski e Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto. Ambas são canções, originalmente cantadas, mas fiz uma versão falada (ou “entoada”, como prefiro). Em Chevrolet acrescentei o poema Eu Caminhava Assim tão Distraído, do poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.

As revistas literárias e culturais são tema de uma das mesas de que você participa na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Recentemente a editora Abril fechou a Bravo!, que apesar de já não ser como quando iniciou, ainda tinha alguma importância. É um sinal dos tempos? Ou sempre foi assim: a tesoura que corta o orçamento pega primeiro na cultura? Essa é a realidade do mercado editorial. Se uma publicação comercial não dá lucro financeiro, acaba sendo extinta. Não era um leitor assíduo da Bravo!, mas lamento seu fim. Particularmente, preferia que a Veja fosse extinta e a Bravo! continuasse.

Você é um dos editores da revista Coyote, que já conta 10 anos, 24 edições, um pequeno apoio da Prefeitura de Londrina e muita paixão e teimosia dos editores – a teimosia uma espécie de sal da poesia, tempero que não pode faltar. A meu ver é a mais importante revista de literatura do Brasil, hoje. Como surgiu a ideia e o que os leva a resistir? Rodrigo Garcia Lopes [também convidado da #7felis], Marcos Losnak e eu fizemos outras revistas antes, juntos, ou separados. A Coyote nasceu de uma necessidade nossa de mostrar autores, tanto do passado quanto do presente, que considerávamos importantes e que não víamos em outras publicações. E há uma particularidade da Coyote que as pessoas notam de cara: a linguagem gráfica. Para mim, Losnak é um gênio do design gráfico. Não entendemos a revista apenas como “suporte” para textos. A própria linguagem gráfica assume um papel de altíssima significância.

Que outras revistas literárias te fizeram e/ou fazem a cabeça? Várias, da Navilouca à Azougue. Muitas revistas surgiram nas últimas décadas, a maioria desapareceu, mas deixou contribuições importantes. Para citar algumas: Bric-a-Brac (Brasília), Orobóro e Medusa (Curitiba), Imã (Vitória), Ontem Choveu no Futuro (Campo Grande), Carioca e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Pulsar (Teresina, se não me engano), Pajeurbe (Fortaleza) e Revista de Autofagia (Belo Horizonte). Há várias outras que me escapam à lembrança no momento.

Você conhece a Pitomba, editada aqui por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha? Qual a Coyote, também tem periodicidade de-vez-em-quandal e é feita com pouquíssimo apoio, no fim das contas sai do bolso do trio mesmo. O que acha da publicação? Gosto do tom de provocação e irreverência da Pitomba. Cada poeta ou grupo de poetas traz suas referências críticas e criativas. É importante que elas apareçam, que causem atritos. Os atritos provocam movimento, abrem novos horizontes perceptivos.

Outro tema que você debaterá é relação entre poesia e rebeldia, passando por obras de Paulo Leminski e Torquato Neto, entre outros, poetas que também influenciaram teu trabalho, você um rebelde. Quem são os rebeldes de hoje, que nomes valem a pena e mereceriam uma indicação tua, a um amigo, dentro de uma livraria? É preciso situar o termo “rebeldia”, para que não se torne algo caricato. Atitudes rebeldes surgem da necessidade de se firmar outras maneiras de viver e de fazer as coisas. Elas são vitais para ampliar a percepção, as experiências, para não cair na vala da acomodação, do mais-do-mesmo. Espíritos rebeldes sempre existiram, no passado, no presente e existirão no futuro. A lista dos poetas vivos que mais me instigam não é pequena. Para citar apenas cinco deles, eis alguns que procuro acompanhar com grande interesse: Douglas Diegues, Rodrigo Garcia Lopes, Fabrício Marques, Celso Borges e Micheliny Verunschk. Mas há um punhado de outros, que podem se sentir incluídos.

Você participa ainda do Poesia no Beco, em um espetáculo de voz e guitarra, espécie de miniatura do que será o disco. Quais as expectativas para esta apresentação e em geral, nesta sua primeira visita à Ilha natal de Ferreira Gullar? O que vou apresentar em São Luis do Maranhão, com o guitarrista Marcelo Watanabe, é uma versão, digamos, mais descarnada das composições que estão nos dois discos, o Rebelião e o Viralatas. Não tem os arranjos, com bateria, baixo, backing vocais, percussão, que estão presentes nos discos. As composições serão apresentadas mais próximas da raiz, de como elas nasceram. Tomara que as pessoas se sintam estimuladas com o que vão ouvir. Quero aproveitar essa minha primeira viagem ao Maranhão para mostrar o que estamos fazendo e também conhecer o que os criadores daí estão aprontando.

Onde o reggae era a lei

Prefácio do livro Onde o reggae é a lei [Edufma/ Pitomba, 2013], de Karla Freire.

OTÁVIO RODRIGUES

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da músi­ca negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de pri­meiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dança­rinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o es­quema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os super­graves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas su­biam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – oshomens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tam­bor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar re­ferência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Estou prospectando a terra dura da memória atrás da essên­cia desse primeiro encontro, já que alguns episódios me colocaram em delírio, desconfiado de estar vivendo uma experiência supra­dimensional. Ungido pelas baixas frequências e exposto demais ao sol, cheguei mesmo a pensar que tinha aberto um portal ou mer­gulhado num túnel fantástico, absorvido num vórtice do tempo. Como um Jurassic Park ou uma aventura de Júlio Verne, me vi ali, no meio dos dinossauros e atravessando a lava dos vulcões, perdido nos horizontes de uma Jamaica já extinta.

Pois estávamos no final dos anos 1980, quando o reggae ain­da era meio cult em São Paulo e no Rio, restrito a alguns círculos do movimento negro e entre os surfistas, que voltavam de viagens internacionais com as mochilas derramando discos e fitas. Tirando a Bahia, o grande público achava que a coisa se resumia a Bob Mar­ley, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Gilberto Gil e pronto – e quase sempre associada à ideia de verão e praia, esse lugar comum e equivocado. Ora, dava até tontura descobrir que o hit parade do Maranhão igno­rava a cobertura nacional de rádio e tv e, mais ainda, que também fora da Jamaica o reggae podia ser coisa dos mais pobres e dos mais pretos, e não apenas um lance legal dos entendidos e da juventude bronzeada.

Mil novecentos e tape-deck

Naquela ocasião, infelizmente, não haviam sido ainda conce­bidos este trabalho de Karla Freire nem o que dignamente lhe pre­cede e referencia, Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor, do pro­fessor Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Juntas, essas obras são o ponto de partida para qualquer estudo, reportagem ou tentativa de se compreender ou explicar o reggae no Maranhão – se é que isso é mesmo possível.

Com dedicação, talento e um gosto chamativo pelo objeto de sua pesquisa, Karla puxa a história do começo e faz sobrevoos inéditos nos acontecimentos dos últimos vinte anos, comprovando o contínuo processo de mudanças. Demonstra que, do esforço ou participação de todos os envolvidos – incluindo o público, natural­mente –, resulta algo original e único que não corresponde ao ideal de qualquer um em particular. Parece ser esse o bicho vivo do qual estamos falando, a tal Jamaica Brasileira, uma entidade que se reno­va a cada temporada, pra não dizer diariamente.

Como é comum nas epopeias, há controvérsias sobre a gê­nese. Foram as ondas de rádio trazendo músicas do Caribe? A si­milaridade com os ritmos dançantes da ilha? Alguém que tinha os discos e começou a tocar? Ou uma combinação de tudo isso? Se­gundo o cantor Jackie Brown, no meio dos anos de 1970 a produtora jamaicana Sonia Pottinger (1931-2010) – uma das raríssimas representantes femininas no ofício – colocava seus lançamentos nas mãos de marinheiros, convicta de que alcançariam outras praias. Teriam alguns desses pacotes de bolachinhas chegado à costa norte brasileira? O fato é que Riba Macedo, tido como um dos pioneiros do Maranhão – para muitos, o próprio Adão –, comprou seu pri­meiro disco de reggae no comércio informal das calçadas de Belém do Pará, um dos portos brasileiros de maior comunicação com o Caribe. É um ponto que ainda merece pesquisa e, de pronto, suscita uma pergunta: por que a moda pegou primeiro no Maranhão e, só mais tarde e por tabela, no Pará?

Mas, além de possuir discos exclusivos e insistir em tocá-los nas festas, o radioleiro Riba parece ter se envolvido ainda em outro acontecimento crucial: o primeiro tape-deck, em 1975. Com esse equipamento, podia copiar os discos para fitas cassete e partilhar as músicas com os amigos, vários deles radioleiros também. Ele con­ta ter surpreendido muita gente com a novidade: “Uma vez, numa vesperal lá no Filipinho, veio um moço forte, falou: ‘Tu é que é Riba Macedo? Ô, rapaz, o que você tem de novo aí, diz que tem um jogo de luz, um tal de trepideque…’ Não, rapaz, é tape-deck! ‘Como é que é isso?’ Peguei uma fita e botei pra funcionar. Comprei em Belém. Ninguém tinha.” Como se sabe – e a pesquisa de Karla não deixa es­capar –, o cassete reinou nas festas e programas de rádio ao longo da década de 1980, até a chegada do mini disc (MD). Guarnecida por uma cápsula plástica que lhe protegia do pó dos terreiros e quintais da periferia de São Luís, executada por um sistema imune a solavan­cos e quedas de energia, a fita foi o meio físico da consolidação do reggae no Maranhão.

A era do breggae

Outro advento técnico importante é o da radiola de mesa, que colocou os djs de frente para o público e lhes abriu caminho para performances mais entusiasmadas ao microfone, inclusive com alguma participação sobre as músicas. A cena reggae do Maranhão virou do avesso. O primeiro a abandonar o móvel vertical foi Natty Nayfson, em meados de 1995. Infelizmente, um dos talentos mais explosivos dessa nova configuração, Antônio José Pinheiro Silva, o “Lobo”, morreu em 1996, não tendo tempo de desenvolver técnicas mais elaboradas e, quem sabe, deixar um legado mais contundente. O fato é que, a despeito de seu papel revolucionário, a radiola de mesa não produziu djs como os do estilo jamaicano, que dominam o microfone e têm realmente o que dizer, a ponto de se tornarem grandes artistas e lançarem discos como intérpretes.

Antonio José, o "Lobo" em ação
Antonio José, o “Lobo” em ação

O privilégio estava reservado a cantores como Dub Brown, Toty, Rosy Valença, Ronnie Green e outros dessa geração, que ir­rompeu no século 21 em mais uma onda de mudanças patrocinada por um equipamento: o computador. Ora, em pequenos estúdios adaptados na garagem ou no quarto dos fundos, com o auxílio de um teclado, um microfone e um violão – afora algum talento –, dá pra fazer melôs parecidas às dos gringos. Parecidas mesmo, porque esse novo cancioneiro flutua em um mar de referências, fisgando linhas melódicas que remetem aos clássicos das radiolas e arranjos que o aproximam do brega. Apesar dos mimetismos, não há similar no mundo: esse “breggae” feito hoje no Maranhão é mesmo uma coisa de louco.

Mas é possível contar tudo isso de outro jeito, retomando o episódio de Riba Macedo nas calçadas de Belém e, daí, as aventuras de afamados djs e colecionadores como ele. Porque a lavra dessas pedras é uma ciência e possui, também, sua arqueologia – as levas de discos compradas no Rio e em São Paulo, as que eram trazidas ou enviadas da Europa, a garimpagem nos baús de velhas lojas e estú­dios de Kingston. Dá pra percorrer a linha do tempo observando a evolução na maneira de dançar ou no modo de vestir e, de novo aí, resgatar os acontecimentos e personagens que fizeram essa história. A obra de Karla Freire, nesse sentido, é um tesouro. Certamente, vai inspirar muitos outros estudos sobre o tema.

&

Otávio Rodrigues foi o apresentador do primeiro programa de reggae no rádio brasileiro. É uma enciclopédia ambulante do assunto e um dos jornalistas que inspiram este blogue (pena o Bumba Beat nunca mais ter sido atualizado).

Onde o reggae é a lei é a adaptação da dissertação que Karla Freire apresentou ao Mestrado em Ciências Sociais da UFMA, onde já havia se formado jornalista e se especializado em Jornalismo Cultural. O nome da editora Pitomba, de seu marido Bruno Azevêdo, aparece lá em cima por que são dele a edição, pesquisa de imagens e projeto gráfico.

O livro terá mini-turnê de lançamento em São Luís entre amanhã (25) e segunda-feira (28). As noites de autógrafos em outras capitais já estão sendo armadas. Confira a programação na Ilha:

Divulgação

Autógrafos de professores. Em caneta azul, por favor!

O convite é feião (como parece “ter” que ser qualquer coisa que tenha alguma oficialidade) e traz erros nos títulos das obras publicadas pelo Centro de Ciências Sociais (CCSo) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o que, a meu ver, pega muito mal. Desejo aos livros melhor sorte, em ambos os aspectos (revisão & projeto gráfico).

Há títulos interessantes e certamente os conteúdos o são e eu destaco os dos queridos professores amigos: Rádios comunitárias no Maranhão: histórias, avanços e contradições na luta pela democratização da comunicação, de Ed Wilson Ferreira Araújo, Diluindo fronteiras: hibridizações entre o real e o ficcional na narrativa da telenovela, este sim o título correto do livro de Larissa Leda Fonseca Rocha (destes dois já fui aluno), Pobreza, resistência e enfrentamento no Estado do Maranhão, este sim o título correto do livro de Lília Penha Viana Silva, presidente licenciada do Conselho Regional de Serviço Social – 2ª. Região/Maranhão (CRESS/MA), para quem “compus” o jingle-brinquedo de (nunca usado na) campanha: “para o CRESS ser feliz, qual é a senha?/ Lília Penha!/ Lília Penha!”, tremenda molecagem, voltemos aos livros, Jovens, imaginários de paz e televisão, de Vera Lúcia Rolim Salles, com quem tive a honra de trabalhar durante o Laboratório Internacional de Mídias Livres em São Luís (2009), que, infelizmente, ficou em edição única, e Discurso jornalístico, política e liderança no Brasil (1985-1990), de Joanita Mota de Ataíde, responsável por minha mais recente ida à UFMA (já faz um tempinho, é verdade) para parlar com estudantes sobre jornalismo cultural.

Mais infos na imagem que abre o post, cliquem para ampliar, tudo que tenho sobre a noite coletiva de autógrafos.

“Só espero poder morrer sentindo o cheiro dos meus livros…”

A frase acima foi dita pelo jornalista (cultural) Daniel Piza, em março de 2008, em entrevista ao colunista da Folha João Pereira Coutinho. O primeiro comentava seu “otimismo” em relação aos livros: que eles não acabariam etc. Mais à frente, na mesma entrevista, o autor de Jornalismo Cultural [Editora Contexto, 2003] afirmaria: “Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!”.

Aos apenas 41 anos, Daniel Piza faleceu ontem, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). O sepultamento acontece amanhã (1º.) de manhã. Leia o obituário na Folha.