Lennon no divã

Lennon. Capa. Reprodução

 

Como grupo ou individualmente a vida e a obra dos Beatles são por demais conhecidas em sucessivas edições, umas bem cuidadas, outras meros caça-níqueis. Até hoje, qualquer lançamento ou relançamento envolvendo os fab four rendem cifras incalculáveis, seja na música, literatura, teatro, cinema.

A graphic novel Lennon [tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2017, 151 p.; R$ 39,80; leia um trecho] aborda a trajetória de John Lennon sob um ponto de vista inusitado: sucessivas visitas do astro a uma analista.

Lennon se reencontra e enfrenta fantasmas do passado, desnudando-se no traço elegante de Horne Perreard e roteiro de Eric Corbeyran, baseados no texto original de David Foenkinos, autor do livro que deu origem à HQ.

Nada é novidade para beatlemaníacos médios – ok, a expressão é uma contradição em termos –, mas mesmo para estes, vale a pena conferir Lennon, narrado em primeira pessoa e de forma quase linear.

John Lennon revela a importância de Lewis Carrol para seu processo criativo, quando os desenhos de Perreard dão conta do onírico do autor, revela a podridão, mais que o glamour, do showbiz, e é ultrarromântico ao abordar o encontro de seu protagonista com Yoko Ono.

Em 18 sessões, um monólogo – só Lennon fala, nunca há a interferência de sua analista – dá conta da biografia daquele que, ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, formou o mais importante grupo musical de todos os tempos e revolucionou para sempre a música pop.

Mesmo sem acrescer novos dados à biografia do ídolo, Lennon teria fecho perfeito se acabasse na 18ª. sessão. O epílogo é óbvio ao encerrar o álbum com o assassinato de John Lennon, quebrando o ritmo a que o leitor se acostuma logo nas primeiras páginas.

Novo disco de Fito Paez tem versão e dueto com Chico Buarque

SYLVIA COLOMBO
DE BUENOS AIRES
DA FOLHA.COM

Os primeiros acordes sugerem um tango a la Astor Piazzolla (1921-1992). Logo, porém, vêm versos familiares, mas em outra língua: “amó aquella vez como se fuese ultima/ besó a su mujer como se fuese ultima”.

O músico argentino Fito Paez

Construcción, versão portenha para o clássico de Chico Buarque, é o carro-chefe de Canciones para Aliens, novo disco do argentino Fito Paez, 49, que acaba de ser lançado no Brasil.

Chico surge também em outra faixa. Dessa vez de viva-voz. Faz um duo com Fito em Tango (Promesas de Amor), composição do japonês Ryuichi Sakamoto.

“Já tinha ouvido Chico cantando em espanhol e achava fantástico. No disco soa como quem se aventura num outro terreno, mas com seu estilo, sem perder a identidade”, diz o argentino à Folha.

Não é de hoje que Fito realiza intercâmbios com a música popular brasileira. Gravou uma versão de Track, Track, dos Paralamas do Sucesso, e teve sua Un Vestido y un Amor imortalizada por Caetano Veloso no álbum Fina Estampa.

“O Brasil é essencial no meu trabalho. Busco muita inspiração ali e acho que a troca tem aumentado.”

O álbum traz também outras versões. A ideia da reunião de reinterpretações surgiu quando foi convidado para gravar um bolero do mexicano Armando Manzanero para uma coletânea.

A partir daí começou a escolher faixas que gostaria de regravar. “Não é um álbum conceitual. As escolhas foram todas subjetivas”.

Estão no disco músicas do norte-americano Marvin Gaye (Baila por Ahí), do francês Jacques Brel (Ne me Quitte Pas), do argentino Charly Garcia (Yo no Quiero Volverme tan Loco) e do chileno Victor Jara (Te Recuerdo Amanda), entre outras.

Fito conta que não teve problemas com relação a direitos autorais, exceto com a viúva de John Lennon, Yoko Ono, que vetou uma versão de Across the Universe [grifo do blogue].

Sobre o músico Luis Alberto Spinetta, morto em fevereiro, declara que a Argentina perdeu alguém da envergadura de um Caetano Veloso para o Brasil. “Nós mesmos não chegamos a compreender ainda a riqueza de seu legado. É algo que vai ser descoberto com o tempo. É um poeta do rock. E nos deixou um baú cheio de tesouro”, completa.

Imperdível

O diretor Geneton Moraes Neto (D) observa Caetano Veloso

CANÇÕES DO EXÍLIO
Direção de Geneton Moraes Neto tem capítulo inédito.

Agora em quatro episódios – a série foi apresentada originalmente em três programas –, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner relembram momentos marcantes em suas trajetórias na série dirigida por Geneton Moraes Neto.

A expatriação de Gil; o interrogatório a que Caetano foi submetido ao visitar sua terra natal; o choque de Macalé ao sair do Carnaval diretamente para o inverno londrino; as discussões de Mautner em defesa do Brasil como um país do futuro; e os diálogos com o cineasta Glauber Rocha são alguns dos temas abordados.

Sob a ótica dos próprios artistas que sofreram “na pele” com a ditadura, a atração apresenta, em quatro programas especiais, os principais acontecimentos decorrentes do cárcere, da vida no exílio e da tão aguardada volta para casa.

A posição contestadora e contrária ao regime dos entrevistados gerou alguns fatos curiosos como, por exemplo, a tentativa de influenciar Caetano a compor uma canção exaltando a Transamazônica, usando o argumento de que outros companheiros já estariam contribuindo com o governo; e os momentos vividos por Gil na prisão, onde teve seu cabelo cortado à força e foi obrigado a fazer um show.

No último e inédito episódio, Caetano e Gil falam sobre a relação com a música britânica durante o tempo vivido naquele país. Em quatro escalas, os baianos relembram as sensações vividas ao lado de Jimmy Hendrix – com quem conversaram após a apresentação considerada a última de sua carreira –; dos performáticos Rolling Stones; de Bob Dylan, que acabara de sofrer um grave acidente; e de John Lennon e Yoko Ono na experimental Plastic Ono Band.

Comentam ainda a importante influência dos rockeiros estrangeiros em seus trabalhos à época, citando principalmente a faixa O Sonho Acabou, inspirada nos versos de God, de John Lennon.

Produzida por Jorge Mansur, a série conta com a participação especial do ator Paulo Cesar Peréio, apresentador e ex-militante do Partido Comunista, que atuou na década de 1970 em diversos filmes contra o regime de exceção.

Estreia: terça, dia 18/10, às 23h.

Do site do Canal Brasil.