O lugar dos livros

“Na minha biblioteca tem os livros que estão comigo desde a adolescência e os chamados livros do coração, aqueles que li e tenho a esperança de reler, e ainda aqueles que comprei a partir de desejo muito forte de ler, mas que ainda não tive oportunidade de começar. Acredito que existe um tipo de livro que você precisa em determinada época. Essa obra exige uma adequação, um momento e uma hora exata para a leitura. Às vezes, você pega um livro, abre, lê duas ou três páginas e não prossegue. Depois de cinco ou seis anos, você abre aquele mesmo livro e se apaixona, lê até o final. Isso aconteceu comigo diversas vezes. Então, hesito em me livrar dos livros.”

“Sou leitor profissional, faço crítica para jornal e, por esse motivo, entrei na lista de envios das editoras. Sem pedir, recebo até 25 livros por semana em casa. E isso acaba virando um problema porque não é a toda hora que você consegue encontrar tempo para organizar e mesmo fazer uma triagem de tantos volumes.”

“Três prateleiras da minha estante quebraram por excesso de peso, e os livros estão espalhados por diversos pontos do apartamento. Comecei a fantasiar que, uma hora ou outra, o piso também vai ceder e serei responsável pela morte da família do andar de baixo, onde, inclusive, tem uma adolescente que berra o dia inteiro. Mas, apesar disso, tenho tudo bem organizado na cabeça. Se alguém precisar de um livro da minha biblioteca, é só perguntar que eu encontro. A minha organização é totalmente afetiva, não tem lógica. Na sala, devo ter uns cinco mil livros. Meu criado-mudo está uma calamidade. Outra fantasia que tenho é de morrer soterrado pelos livros do meu criado-mudo, onde deve ter uns 200 livros.”

“Traduzi para a Cosac Naify, o livro Paris não tem fim (2007), do Enrique Vila-Matas, mas eu não conhecia o autor. Depois disso, ele veio ao Brasil para participar de um evento literário, circulou e concedeu entrevistas. É comum perguntarem a um autor estrangeiro se ele conhece a literatura brasileira e, para a revista Época, ele respondeu o seguinte: “Conheço a Clarice Lispector, o Dalton Trevisan e o grande Joca Terron”. Fui o único que mereceu um adjetivo. Peguei o exemplar da revista e procurei o expediente para ver se não tinha algum amigo meu fazendo piada. Não tinha. Meses depois, recebi uma ligação telefônica de uma repórter da revista Época, a mesma que tinha entrevistado o Vila-Matas, para falar sobre um outro assunto. Perguntei a ela se o escritor catalão tinha dito aquilo mesmo. Estava em dúvida. Afinal, ele poderia ter dito “o grande Dalton Trevisan, Joca Terron” e, na edição, por descuido, o “grande” teria se aproximado de meu nome. Mas a repórter garantiu que a frase era aquela mesma e, confesso, fiquei muito feliz porque o Vila-Matas é um autor que admiro.”

“A maior probabilidade é que um livro não seja escrito. As exigências da sobrevivência, o cotidiano, tudo, absolutamente tudo, atuam contrariamente ao seu desejo de escrever. Sobrevivo da minha imagem como escritor, atuando no jornalismo, com crítica, no mercado editorial, por meio de traduções e palestras. Há todo um sistema relacionado ao universo do livro. Mas não sobrevivo diretamente da minha ficção.”

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Recebo em casa a 12ª. edição do Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná que, ao completar um ano, salta de 32 para 40 páginas dedicadas à literatura. O título deste post “trocadilha” O lugar da poesia, manchete de capa do mensal.

Leio as sete páginas com os melhores momentos de Joca Reiners Terron no Um escritor na biblioteca, e faço isso em voz alta nos trechos acima, para minha esposa, ao lado. Guardadas as devidas proporções, há um quê de Joca no blogueiro: minha modesta biblioteca, embora menor, faz minha esposa, exagero!, pensar no dia em que não poderemos entrar em casa de tantos livros (e discos e dvds), vivo da fama de blogueiro sem ganhar por isso, tendo que me virar entre assessorias e frilas, e minha citação, pelo admirado Jotabê Medeiros, em O Estado de São Paulo, em matéria sobre a subida de Nelson Jacobina, me fez sentir algo parecido com o que o autor de Sonho interrompido por guilhotina sentiu no episódio Vila-Matas.

Minha esposa vira e retruca, entre a ironia e a compreensão: “não vai te inspirar nesse cara!”

Um blogueiro na biblioteca

Há quase um ano, salvo melhor juízo, tomei conhecimento do Cândido, jornal que a Biblioteca Pública do Paraná estava lançando à época. Fã confesso de Paulo Leminski, não resisti, ao ver uma caricatura sua na capa de estreia, a ligar para a BPP e ser simpaticamente atendido por um homem cujo nome não lembro agora.

Disse-lhe que era de São Luís, Maranhão, e que gostaria de receber o jornal. Ele anotou meu endereço e disse que meu nome não era estranho, que já havia lido meu blogue. Li o primeiro número do Cândido pela internet e este cuja capa é estampada pelo Leminski é o único que não tenho em minha coleção. O 2 demoraria a chegar e cheguei mesmo a pensar que aquela simpatia toda ao telefone havia sido apenas educação. O que não seria pouco.

Enganei-me, ainda bem. Mês após mês tenho recebido em minha casa um dos 5.000 exemplares de sua tiragem. Pode parecer bobagem, mas sinto-me honrado. Um jornal bonito, de capas coloridas e miolo em p&b, com conteúdo de primeira. Dedicado quase exclusivamente à literatura, já passaram por suas páginas nomes como Marçal Aquino, João Paulo Cuenca, Cadão Volpato, Sérgio Sant’Anna, Fernando Morais, André Dahmer, Joca Reiners Terron, Luiz Vilela, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Reinaldo Moraes, entre muitos outros, para citar apenas alguns que me vêm à cabeça imediatamente, sem eu correr ali à bagunça das estantes para relembrar.

Cândido, o nome do jornal, é homenagem a “Cândido Lopes, que hoje dá nome à rua em que está localizada a Biblioteca Pública do Paraná. Lopes fundou o jornal Dezenove de Dezembro, em 1854, o primeiro impresso paranaense”, aspas extraídas de Pelas calçadas da literatura, texto assinado por Guilherme Magalhães no nº. 10 (maio de 2012, p. 13) do citado jornal literário.

19 de dezembro é a data em que nasci, quase século e meio depois, coincidência que eu só viria a descobrir ao ter em mãos aquele número do jornal. Mas não seria a primeira: em maio passado minha esposa viajou à capital paranaense para apresentar um trabalho em um seminário de Direitos Humanos. Dois dias depois, às próprias custas s/a, juntei-me a ela para um turismo na cidade em que, para meu confesso espanto, Leminski é pouco lembrado. Antes da outra coincidência, volto a Guilherme Magalhães, no citado texto: “Por outro lado, figuras de proa da literatura paranaense dos últimos 50 anos também ainda não tiveram a honra de virar logradouro, o que pode denotar o distanciamento do tempo como um critério para as homenagens. Jamil Snege, Paulo Leminski (que virou nome de pedreira e de escola, mas não de rua) e Manoel Carlos Karam (que dá nome a uma casa de leitura) ainda não foram lembrados pelos políticos curitibanos, responsáveis por propor nomes a logradouros” (p. 13). Visitei a belíssima Pedreira Paulo Leminski e sua Ópera de Arame, além de ter comido e bebido na Manoel Carlos Karam, praça de alimentação do encantador Mercado Público Municipal, passeio que recomendo a qualquer turista, com pouca grana como eu ou não.

A outra coincidência conto agora. Chegando em Curitiba, calhou de o ônibus que me levou até o hotel parar justo em frente à BPP – hospedei-me bastante perto dela –; uma visita ao órgão público já estava planejada, ao menos em minha cabeça. Num sábado de maio pela manhã – sim, em Curitiba a Biblioteca Pública funciona aos sábados de manhã – apareci por lá e pedi para falar com alguém responsável pelo Cândido. A recepção me encaminhou a Tatijane Albach, que me dispensou enorme atenção e simpatia, levou-me para conhecer parte das dependências da BPP, que passava por reforma e tinha alguns setores fechados, e ainda me deu alguns presentinhos, além de apresentar-me alguns projetos.

O Um escritor na biblioteca, a plateia conversa com um escritor, com moderação de um jornalista, é uma reedição de projeto da década de 1980; os melhores momentos dos debate-papos têm sido reproduzidos Cândido após Cândido, devendo virar livro em breve; assim como deve ganhar reedição um livro já publicado com os participantes de há 20 e poucos, 30 anos.

Tatijane brindou-me ainda com um exemplar de Helena (ano 1, número zero, junho de 2012), revistão colorido de 114 páginas, anunciada na contracapa como “um pouco de muito da nossa cultura”, o nome, uma homenagem à poeta Helena Kolody. “A gente tem uma tradição de publicações com nome de homens, o Cândido, a Joaquim [revista editada há tempos por Dalton Trevisan]”, ela deve ter citado outros, “agora a Helena, uma mulher”, explicou anunciando a publicação trimestral da BPP.

Voltei ao hotel para guardar o pacote com Helena e alguns exemplares do Cândido antes de prosseguir o passeio com a esposa; Tatijane desceu as escadas e foi comprar pão de queijo para um café com que ajudaria a espantar o frio nem tão rigoroso assim que fazia aquela manhã em Curitiba.

Tatijane e o blogueiro, quando este visitou a BPP

Sexto Piso publica O livro uruguaio dos mortos, de Mario Bellatin

RANA GUSTAVO
TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O livro uruguaio dos mortos [Sexto Piso, 280 p., 2012] talvez seja a obra mais importante já escrita por Mario Bellatin. Sua sobrecarregada imaginação perturba a fronteira entre realidade e ficção, tendo como resultado uma originalidade sem limites, girando em torno de certas perguntas sem resposta, como a que em algum momento inesperado faz o narrador do relato: “Tua imagem no espelho te reflete?”

Mario Bellatin escreve para um alguém misterioso que só viu uma vez, com quem desde então dialoga sobre os mistérios da ressurreição da carne. Conta em detalhes eventos que habitam seu mundo particular, onde o tempo nem avança nem retrocede, como o espaço também não está em um lugar específico. O livro uruguaio dos mortos é uma espécie de espiral que ao mesmo tempo dá voltas sobre certos eixos recorrentes dispara em todas as direções alcançadas pela prodigiosa capacidade de observação do autor.

Sobre o autor | Mario Bellatin nasceu no México, estudou Teologia e Cinema e pratica sufismo. Tem mais de 40 livros publicados [a Cosacnaify lançou, no Brasil, Flores e Cães heróis] e já foi traduzido para 15 idiomas. Venceu os prêmios Xavier Villaurrutia, Mazatlán, Barbara Gittings Literature Award e o Premio de Narrativa Antonin Artaud por Disecado [Sexto Piso]. Atualmente é curador honorário do Documenta 12. Entre seus projetos mais importantes, fora a literatura, está a Escola Dinâmica de Escritores e Os Cem Mil Livros de Bellatin.

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Arrisquei-me a traduzir o pequeno texto acima para compartilhar mais um lançamento deste escritor que tanto me fascinou desde que o descobri em Flores e Cães heróis, cuja leitura recomendo. Bom saber que já publicou mais de 40 livros, ficando, de já, na torcida para que mais obras suas cheguem ao português, ao Brasil. Colombo, parceiro de devoção bellatinesca, este post é pra ti, com o perdão de qualquer deslize en la traducción. Ao Joca Reiners Terron, que escreveu o posfácio de Flores, agradecimentos pelo link e paciência no tuiter.

Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica: poéticas da leitura em Sonho interrompido por guilhotina

[…]

Esta não é senão a narrativa que devolve Raduan Nassar àquele tempo, personagem de Joca Reiners Terron em “Cem Mil Frangos Fantasmas”. Pródigo renitente sob o olhar de um narrador que tem diante de si uma entrevista concedida ao repórter Elvis Cesar Bonassa, da Folha de S. Paulo, em 1995, décadas à frente desse dia. As respostas de Nassar dão a liga para a malha movediça dessa história, a memória arrebatada da escrita de Um copo de cólera, a rotina dos dias gastos no fio vivo da navalha exposta na conversa em que o autor cavalga novamente o verbo, e quem sabe a ignição dessa lembrança possa atear clareza sobre seu abandono da literatura?

[…]

Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

[…]

Aqui e aqui trechos (donde catei os acima) do trabalho que batiza este post, a dissertação de meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, que ele defende logo mais na ECA/USP. A ele, todo o sucesso, mais que merecido. Força, bróder!

Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica: poéticas da leitura em Sonho interrompido por guilhotina

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Esta não é senão a narrativa que devolve Raduan Nassar àquele tempo, personagem de Joca Reiners Terron em “Cem Mil Frangos Fantasmas”. Pródigo renitente sob o olhar de um narrador que tem diante de si uma entrevista concedida ao repórter Elvis Cesar Bonassa, da Folha de S. Paulo, em 1995, décadas à frente desse dia. As respostas de Nassar dão a liga para a malha movediça dessa história, a memória arrebatada da escrita de Um copo de cólera, a rotina dos dias gastos no fio vivo da navalha exposta na conversa em que o autor cavalga novamente o verbo, e quem sabe a ignição dessa lembrança possa atear clareza sobre seu abandono da literatura?

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Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

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Aqui e aqui trechos (donde catei os acima) do trabalho que batiza este post, a dissertação de meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, que ele defende logo mais na ECA/USP. A ele, todo o sucesso, mais que merecido. Força, bróder!

Malditos, mas sem perder a ternura

DIOGO GUEDES

Comparada com o passado, a época atual lida melhor com o choque e as quebras de convenção. Tanto que a ideia de algo maldito, renegado, uma constante na história da literatura, hoje parece bem mais rara – mesmo as obras que rompem com a moral, com as convenções estéticas e com os paradigmas do tempo atual são facilmente aceitas, concorrem a prêmios disputadíssimos e recebem críticas elogiosas até mesmo de acadêmicos respeitados. Apesar disso, a Companhia das Letras decidiu agora lançar uma coleção, a Má Companhia, apenas com livros polêmicos, politicamente incorretos e “malditos”. Algo estranho, quando o controverso parece cada vez mais aceito.

Não que o “maldito” não exista mais. Na verdade, escolher o que merece o adjetivo parece ser algo como tachar algum autor de “poeta marginal”. Nos dois casos, é claro que existem traços que levam leitores, crítica ou mercado a fazerem a relação entre os vagos conceitos e a obra. O problema é que o termo acaba funcionando como uma prisão tautológica, uma definição e um limite que o escritor vai passar a carreira tentando superar. Uns parecem conformados e até satisfeitos com a alcunha, mas, mesmo para esses, ela normalmente não passa mais do que um recurso preguiçoso para estabelecer a imagem contracultural de sua produção.

Joca Reiners Terron, Reinaldo Moraes e Marçal Aquino: seus livros são boa companhia

Até agora, o selo da editora paulista possui três títulos lançados, além da confirmação de lançamentos futuros. A coleção começou com Tanto faz e Abacaxi, obras de Reinaldo Moraes da década de 1980 reunidas em um único volume, e O invasor, de Marçal Aquino, que completou dez anos de sua primeira publicação. Os dois livros, como propõe a coleção, saíram em formato pocket, com um belo projeto gráfico do Estúdio Retina 78.

Em julho, mais um título: Sonetos Luxuriosos, de Pietro Aretino, com tradução e apresentação do falecido poeta José Paulo Paes. A obra, escrita originalmente no século 19, mostra bem o movimento da coleção de referir-se a livros que se marcam como polêmicos e malditos em relação a um contexto específico, mas que conseguem carregar essa fama até os dias atuais.

Isso parece evidente mesmo nos lançamentos mais recentes, como O invasor e Não há nada lá (2001), de Joca Reiners Terron, que deve sair neste último semestre do ano. Eles se reportam sempre ao seu momento histórico e à reação da crítica e do público daquele instante, ao que se convencionava como status quo literário da época.

Segundo Joca Reiners, a ideia da coleção da Companhia das Letras veio de um jantar com o fundador da editora, Luiz Schwarcz, e Marçal Aquino. “Eu vinha fazendo a piada de que criaria uma nova editora chamada de Má Companhia das Letras desde uma conversa que tive com o escritor Paulo Sandrini no Encontros de Interrogação, evento no Itaú Cultural em 2004”, lembra Joca Reiners. A brincadeira incluía imaginar versões “maléficas” dos elegantes logos da casa, com aviões explodindo e carros colidindo. “No jantar, depois de uns goles, arrisquei contar a piada ao Luiz. Para minha surpresa, ele a levou a sério”.

Maldições Literárias – Em entrevista ao Pernambuco de fevereiro, Reinaldo Moraes comentou parte do processo de releitura e re-edição de suas duas obras. Ambas contam com o mesmo personagem, o jornalista Ricardo de Melo, narrando suas vivências com mulheres, porres e escatologias – como o próprio autor descreve, “um Ulisses avacalhado que vive atrás de umas nereidas”. “Só dei umas garibadas pontuais no texto, sem mexer na estrutura das frases nem nos coloquialismos ‘de épóca’. Mexi onde achei legal mexer pro texto fluir e ‘dizer’ melhor. Como dizia o Murilo Mendes, outro grande mexedor de obras relançadas, posso mexer à vontade, pois não sou meu sobrevivente, sou meu contemporâneo”, revelou o escritor na ocasião.

Já o primeiro lançamento de O invasor, de Marçal Aquino, se deu simultaneamente à finalização do filme do seu parceiro Beto Brant. Com a edição anterior esgotada, o livro volta às prateleiras acompanhado do roteiro da película e de fotos da filmagem. A obra é descrita pelo escritor como um “policial puro-sangue”, tratando, com um ponto de vista pessoal, dos planos de dois engenheiros paulistas para matar seu sócio.

Não há nada lá, de Joca Reiners, traz em seu próprio enredo as marcas do adjetivo “maldito”. William Burroughs, Rimbaud, Raymond Roussel, Aleister Crowley e Torquato Neto são alguns dos interlocutores da obra, marcada por uma prosa ousada e experimental . “O livro trata de preocupações muito em pauta na virada do século, como a do fim do mundo, a da extinção do livro etc. Foi escrito sob essas condições”, descreve. Segundo ele, a obra ainda faz a defesa de uma literatura imaginativa, em detrimentos dos valores jornalísticos e naturalistas – para a nova versão, recebeu uma apresentação bastante elogiosa assinada pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas.

Como é de se imaginar, republicar o texto finalizado há dez anos trouxe alguns incômodos. “É muito difícil. Sinto grande dificuldade em reler coisas antigas. É como se ver numa foto na qual você não se reconhece mais”, revela Joca Reiners. O livro, segundo ele, traz as marcas de uma época em que ele levava sua “tendência à pompa” a sério, o que levou ao corte de alguns excessos e à revisão de frases, buscando uma maior clareza.

Sobre o selo que ajudou involuntariamente a criar, o escritor diz não conseguir enxergar o que há de exatamente em comum entre sua obra e os demais títulos da coleção. Para ele, na verdade, há pouco em comum em quaisquer dos livros seus. “No Não há nada lá eu ainda tinha cabelos, e talvez por isso o texto fosse mais barroco e as ideias mais complicadas. Hoje sou completamente careca e busco ser mais direto”, reflete bem-humorado.

Incluído no rótulo, Joca Reiners se reporta às origens do adjetivo para aceitar a alcunha. “Existe aquela literatura designada ‘maldita’ por Paul Verlaine, que organizou uma antologia de poetas do século 19 com esse título. Na época, esses poetas (Rimbaud e Corbiére entre eles) não tinham recebido a atenção que mereciam”, conta. “Nos dias de hoje, creio que quase toda a ficção literária é maldita, pois merece pouca atenção do público leitor, cada vez mais adepto da não-ficção. A única maldição a ser evitada é aquela que o escritor cria para si próprio”.

Assim, para ele, além da temática, a restrita primeira edição de Não há nada lá, com apenas 500 exemplares, que saiu pela Ciência do Acidente, é o seu próprio atestado de marginalidade e maldição. Já Reinaldo Moraes, um dos autores no Brasil que mais recebe a adjetivação de “maldito”, conta que se vê, por meio de resenhas de jornalistas, acadêmicos e blogueiros, “perigosamente próximo ao mainstream literário, não mais estacionado na margem”. Mas se diz ciente do perigo: “Sei que isso é momentâneo e pode mudar a qualquer momento”.

Como amigo de André Conti, responsável pelo selo, Joca Reiners promete, depois de ter um papel importante no surgimento da coleção, continuar participando dela, ao menos como opinante. “Fico enchendo o saco do André Conti, o editor, com sugestões”, confessa. A atitude é completamente compreensível. Afinal, no fundo, os leitores parecem saber que a literatura que marca verdadeiramente a vida pessoal é aquela suja, sem amarras, tanto comprada como lida de forma escondida e obscura. Talvez só através dos malditos é possível ser contaminado pela maldição da literatura.

Estou re-devorando os dois primeiros volumes lançados pelo Má Companhia. Pesquei o texto acima, do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº. 66, páginas 8 e 9 (leia e/ou baixe a íntegra), do tuiter do Joca Reiners Terron, onde soube também que está sendo lançado em Curitiba/PR o jornal literário Cândido, que eu adoraria receber.