A Jamaica brasileira invade a Pauliceia

Cultura da radiola terá destaque na Virada Cultural, em São Paulo. Duo Criolina e convidados farão 12 horas celebrando ritmos jamaicanos e maranhenses.

Pouco tempo depois de inventado na Jamaica o reggae se consolidou como preferência popular no Maranhão. Não à toa a capital São Luís recebeu a alcunha de Jamaica brasileira. O gênero musical e seu principal porto brasileiro serão lembrados durante a programação da Virada Cultural, em São Paulo, entre os dias 18 e 19 de maio. Num palco comandado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, o reggae à maranhense comparecerá, com as presenças do poeta Celso Borges, dos djs Otávio Rodrigues, Joaquim Zion e Vanessa Serra e da atriz Áurea Maranhão.

Ano passado a Semana Internacional da Música (SIM-São Paulo) levou representantes maranhenses para uma noite, também numa parceria com o Festival BR-135, organizado pelo duo Criolina. Desta vez serão 12 horas de reggae, entre às 18h de sábado até às 6h de domingo, celebrando a cultura da radiola – lá fora conhecida como sound system –, muito difundida no Maranhão.

O duo Criolina. Foto: Layla Razzo

Representando o Maranhão, “Criolina, Radiola e convidados” será uma das festas de rua que acontecerão durante a Virada Cultural. As demais irão representar algum aspecto cultural dos estados da Bahia, Pará e Rio de Janeiro. “A Virada é o maior evento cultural do planeta, um festival com 24h de programação, gratuito e além de ocupar as ruas, conta com programação em centros culturais das periferias, as unidades do Sesc, teatros da cidade e vários equipamentos culturais. É ótima e uma boa desculpa para ocupar as ruas com arte, sair de casa e afirmar a nossa cultura como expressão popular e cidadã”, advoga a cantora Luciana Simões.

“Diminuíram consideravelmente os recursos nacionais para a cultura e justamente por ser um espaço de fomento devemos estar presentes e resistentes. A proposta de colocar o Maranhão no mapa também segue como uma grande bandeira pra nós. Eu acho que o espaço oferecido ao Criolina é um reconhecimento ao Maranhão, e uma ótima oportunidade para se mostrar a cena reggae, que é uma forte cena de rua, representativa e que causa bastante curiosidade”, pondera Alê Muniz, seu companheiro de Criolina.

Joaquim Zion também comenta o interesse dos paulistanos pela cultura reggae, mas aponta algumas diferenças entre as cenas. “A cultura reggae é bem forte em  São Paulo. Já há alguns anos vem crescendo a cultura sound system, que é um pouco diferente do estilo Inna Maranhão das radiolas daqui, porque lá eles tocam com radiolas, DJs e MCs rimando nas bases e o estilo basicamente é ragga, enquanto aqui o nosso lance é one drop, lovers rock, essa batida que chamamos para dançar agarrado a dois. Mas a mensagem é a mesma”, pontua. Ele comenta também sua expectativa: “é máxima pra gente, e o público pode esperar um grande set de hits, clássicos e raridades que fazem parte do imaginário do regueiro do Maranhão. São Paulo tem muitos maranhenses e tenho certeza que será uma grande festa”, promete.

O jornalista e dj Otávio Rodrigues diante de uma radiola. Foto: divulgação

Alcunhado Doctor Reggae, o jornalista e dj paulista Otávio Rodrigues ajudou a difundir o reggae no Brasil e consolidar São Luís como uma de suas principais praças, quando morou na cidade, na década de 1990. “Minha relação com o Maranhão é orgânica, me sinto como se tivesse nascido aí também. Morei na Ilha, viajei bastante pelo interior, fosse em busca de manifestações folclóricas, paisagens ou reggae – ou as três coisas juntas”, lembra.

Ele discotecará e dividirá o palco com o poeta Celso Borges; juntos, apresentam o espetáculo Poesia Dub, em que misturam poesia, com elementos de música jamaicana e da cultura popular do Maranhão. “No Poesia Dub, eu e Celso resgataremos algumas gemas do nosso repertório, como Morto vivo, Matadouro, Bumba meu dub e Linguagem [lista títulos de poemas apresentados no formato], e também mostraremos coisas novas, algumas com participação de Gerson da Conceição, gravadas pouco antes de sua súbita partida”, anuncia, lembrando o amigo baixista que se somava à trupe, recém-falecido.

O poeta Celso Borges. Foto: Layla Razzo

O poeta Celso Borges relembra as origens do espetáculo: “Eu costumo dizer que eu tenho dois santos em minha vida: São Luís e São Paulo. Cidades que estão entranhadas na minha alma, no meu coração. Morei 20 anos na Pauliceia. Aquela cidade, o tempo que eu morei lá, foi um tempo de muita alegria, de muita celebração, encontros com muitas pessoas, muitos artistas, fiz muitas amizades, tive diálogos maravilhosos com poetas, compositores, letristas. E foi ali também que eu, junto com Otávio, desenvolvi o Poesia Dub, a partir de 2004, 2005. É uma alegria enorme poder voltar a São Paulo e voltar fazendo uma nova apresentação do Poesia Dub. Vai ser uma grande celebração, estou muito animado”. O espetáculo é composto por poemas de Celso Borges, com citações de obras de Torquato Neto, Allen Ginsberg, um poema de Bandeira Tribuzi, e trilhas de Otávio Rodrigues.

“Na marcação de baixo poderosa que ele fazia, ele fazia também os vocais, a gente vai usar bases gravadas dele, e vou ler uma parceria nossa”, antecipa a homenagem a Gerson da Conceição, que estaria no palco com eles.

A estrutura do palco maranhense incluirá uma radiola de sete metros de largura, que tocará reggae, ritmos caribenhos e os gêneros musicais que permeiam a cultura popular do Maranhão, com destaque para o bumba meu boi e o tambor de crioula. A dj Vanessa Serra, que também esteve na Sim-SP, anuncia seu set list, reverenciando grandes nomes: “Vou levar um set com hits da música jamaicana e maranhense, que ouvíamos nas festas, nas rodas de violão e nas rádios de São Luís. Expoentes como o som de Nonato e Seu Conjunto, Humberto de Maracanã, Nicéas Drumont, Betto Pereira, Papete, João do Vale, Jacob Miller, Eric Donaldson e Beto Douglas não vão faltar”.

“Radiola e tambor de crioula são duas coisas que não podem faltar numa autêntica festa maranhense. Muito mais do que minha opinião, esse é o testemunho de alguém que já viu festejos no Maranhão de ponta a ponta: onde quer que se vá, na hora de celebrar tem de ter radiola e tambor”, finaliza Otávio Rodrigues.

Serviço

O palco maranhense fica na Rua Cásper Líbero (ao lado da Igreja de Santa Efigênia). Os shows são gratuitos. Conheça os horários das apresentações:

18h – Criolina + Luh Del Fuego
19h – Vanessa Serra
20h – Poesia Dub
21h – Joaquim Zion
22h – Otávio Rodrigues
23h – Criolina + Luh Del Fuego
0h – Vanessa Serra
1h – Poesia Dub
2h – Joaquim Zion
3h – Otávio Rodrigues
4h – Criolina + Luh Del Fuego
5h – Vanessa Serra.

Antes das apresentações do Poesia Dub e Criolina haverá performances da atriz Áurea Maranhão.

O som político de Dicy

A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos
A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Rosa semba [2016, em CD e LP] é a metáfora perfeita para o canto de Dicy (que não usa o sobrenome Rocha para assinar seu disco de estreia). Semba é tanto a origem do centenário samba, gênero de música popular que é um dos sinônimos de brasilidade, quanto “música e dança de par tradicionais de Angola”, conforme o dicionário. A flor que precede a semba no título tem beleza, perfume e delicadeza inconfundíveis, mas a estes atributos somam-se os espinhos.

A voz bela e doce de Dicy está a serviço da denúncia social, o que extrapola inclusive sua carreira artística – com formação em comunicação e marketing, ela é assessora de comunicação do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), entidade parceira na realização do disco, e da Rede Amiga da Criança –, sem fazer de sua obra mero panfleto ou coisa que o valha.

A negritude fala alto e as 10 faixas de Rosa semba remetem às origens do axé baiano, quando as letras do gênero ainda tinham um forte conteúdo político de acentuada denúncia social, sobretudo sobre a realidade da população negra habitante das periferias de Salvador e da Bahia, mas não só.

Um conjunto de composições de maranhenses reaproxima musicalmente o Maranhão da África ancestral. Voltando à faixa-título, seu subtítulo também ajuda a entender o conjunto, no feliz trocadilho de Beto Ehongue, seu autor: “Menina que Deus crioula”. “O samba que você me convidou estava bom/ não sei sambar mas ando pela rua de Nagô/ saúde no pé e boa da cabeça menina que Deus/ crioula/ Rosa semba”, diz a letra.

Acompanhada por Gerson da Conceição (contrabaixo e guitarra; voz em Jolie e Equinócio), Guillermo Caso (guitarra em Jolie), Isaías Alves (bateria), Javier Sirera (teclados), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Josemar Reis (percussão em Jolie), Luiz Cláudio (percussão) e Marcos Lussaray (guitarra, violão, violão acústico, banjo), Dicy canta as coisas simples de seu lugar, entre lavadeiras na beira do rio (Lavadeira, de Beto Ehongue) e a cheia dos campos naturais da Baixada maranhense e o cotidiano de pescadores (Baixada, dela, em parceria com o marido-produtor Joaquim Zion, e Adeus campo, de Tataqui), além de exaltar a beleza da mulher negra (Neguinha do carrapatal, de João Madson e Gerson da Conceição, e Quem é essa nega, de João Simas).

Rosa semba tem ainda poema do chileno Pablo Neruda (1904-1973) musicado por Dicy (Se cada dia cai, extraído de Últimos poemas – O mar e os sinos, traduzido por Luiz de Miranda), e versão de André Gabeh para Ain’t no Sunshine when she’s gone (Bill Waters), que virou Não há nada em seu lugar, poderoso reggae que abre o disco, cerzido entre sons que irmanam África e Maranhão, ambos negros, nunca é demais frisar.

Equinócio (Eliseu Cardoso) é a síntese do som político de Dicy: música para dançar e pensar, um passeio musical e geográfico por cidades (negras) de Camarões, Costa do Marfim, Togo, Guiné, Níger, Guiné Equatorial, Gana e Tanzânia. Utópica e onírica, a música versa sobre o fim do racismo no mundo: “minha negra, minha preta meu amor/ dançai este tambor/ o continente negro dá o seu perdão/ ao mundo, a escravidão”.

Ouça Rosa semba, o disco:

Pedra que rola não cria limo

[Íntegra da matéria publicada ontem no jornal O Imparcial]

A cena reggae do Maranhão em diálogo com três especialistas no assunto: Joaquim Zion, Neto Myller e Otávio Rodrigues. Os três concordam: o reggae aqui é único no mundo

A partir da década de 1970 o reggae popularizou-se no Maranhão, configurando-se importante fenômeno de massas, apesar da indústria, da crítica e da língua jogarem contra. Algumas possibilidades são apontadas, mas ninguém sabe ao certo como um ritmo estrangeiro, cantado em língua idem, quase nunca entendido pelos que, na origem, lotavam os salões, ganhou a preferência local da rapaziada que buscava diversão barata, sobretudo nos fins de semana.

No recém-relançado Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade cultural [Edufma, 1995; Pitomba, 2016], Carlos Benedito Rodrigues da Silva, mais conhecido pelas alcunhas de Professor Carlão ou Carlão Rastafari, conta histórias que beiram o anedótico, embora frutos de pesquisa séria. Por exemplo, colecionadores que compravam todos os exemplares de um único disco ou mesmo um artista que, em visita à Jamaica, riscou todos os seus discos tendo em vista garantir a exclusividade de um dono de radiola nos salões da ilha.

Muitas lendas envolvem a expansão do fenômeno reggae no Maranhão, o que levou a capital, São Luís, a receber o epíteto de Jamaica brasileira, para alegria da massa regueira e desgosto daqueles cujo farol ainda mira(-se no exemplo de) Athenas.

Indagado se concorda com a alcunha, o jornalista, produtor e DJ Ademar Danilo não teme soar imodesto: “eu que botei este apelido”. Mais uma lenda ou não, o hoje apresentador do África Brasil Caribe, na Rádio Difusora, é um nome fundamental para a popularização do reggae por aqui nos últimos 30 anos.

O DJ Neto Myller. Foto: divulgação
O DJ Neto Myller. Foto: divulgação

Entre as principais mudanças na cena no período, o DJ Neto Myller, residente do Chamamaré (Ponta d’Areia), onde se apresenta aos domingos, destaca: “o público em geral há 30 anos para o que é hoje e também os locais onde são feitas as festas de reggae: ficou mais elite [risos]”, afirma, referindo-se a certo embranquecimento e aburguesamento dos ambientes onde se toca reggae.

Otávio Rodrigues, o Doctor Reggae. Foto: divulgação
Otávio Rodrigues, o Doctor Reggae. Foto: divulgação

O jornalista, pesquisador e DJ Otávio Rodrigues, não à toa conhecido como Doctor Reggae, foi o primeiro a levar o reggae às ondas do rádio no Brasil, tendo produzido e apresentado na Excelsior FM, entre 1982 e 83, o Roots, Rock, Reggae, com direção geral de Maurício Kubrusly. Morando em São Paulo, ele continua de olho na cena do Maranhão, “não como antes”, reconhece, referindo-se ao período em que morou aqui, quando produziu e apresentou programas como Rádio Reggae (Mirante FM) e Bumba Beat (Mirante e Universidade FM).

Mesmo de longe, ele também aponta mudanças. “Vou tentar desenhar uma das linhas possíveis, me apoiando na tecnologia/comunicação: 1) tape-deck, anos 1970, quando se torna possível copiar o disco do meu amigo e eu mesmo fazer uma festa; 2) rádio, anos 1980, programas bons, que divulgavam as músicas e, alguns, até a cultura por trás delas; 3) DJ de frente, anos 1990, porque implicou no desenvolvimento deles como comunicadores; e 4) computador caseiro, programas de edição, anos 2000, porque permitiu aos maranhenses produzir as músicas localmente”, enumera.

O DJ Joaquim Zion. Foto: divulgação
O DJ Joaquim Zion. Foto: divulgação

Joaquim Zion, DJ residente do Porto da Gabi, onde se apresenta há quase quatro anos, na Sexta do Vinil, destaca o fortalecimento da cena roots reggae na capital maranhense. “Um movimento contrário às grandes radiolas que tocam quase que exclusivamente reggae eletrônico, o surgimento de muitos bares de roots reggae e o aparecimento de centenas de DJs, homens e mulheres, fortalecendo assim a cena do reggae na ilha”, aponta.

O reggae também ganhou a academia. Diversos estudos têm se dedicado ao gênero jamaicano, o que acaba por contribuir para a superação de preconceitos. Livros como Onde o reggae é a lei [Edufma/Pitomba, 2013], de Karla Freire, e O reggae no Caribe brasileiro [Edufma/Pitomba, 2014], de Ramusyo Brasil – além do já citado Da terra das primaveras à ilha do amor –, deram importante contribuição para a compreensão do fenômeno – ou ao menos de parte dele.

“Bons, muito bons esse livros! Têm pegada acadêmica, portanto são seriíssimos, no sentido de pesquisa bem feita, ideias comparadas, refletidas, bem organizadas. Essas obras jamais matam a cobra sem mostrar o pau (e a pedra, no caso). Devo ao Carlão e sua obra pioneira e prima boa parte do que aprendi sobre o reggae e a cultura maranhense – eu e todo mundo”, elogia Otávio Rodrigues.

Obras que certamente contribuíram para a diminuição do preconceito contra o reggae e os regueiros. “O preconceito ainda existe, mas diminuiu bastante”, avalia Neto Myller. Joaquim Zion aprofunda a questão. “O preconceito com o reggae acho que nunca vai acabar, aqui principalmente. O Brasil é um país profundamente racista, e a imensa maioria que frequenta o reggae, principalmente aqui na nossa ilha, é de negros e negras. Historicamente a polícia sempre viu esses agrupamentos de pessoas ouvindo reggae com preconceito. É claro que já melhorou bastante, mas ainda somos perseguidos”, aponta.

Para Otávio Rodrigues o preconceito não foi superado. “Apoiada no comércio de cervejas, alimentada por rixa entre torcidas de radiolas, exposta à falta de segurança, entre outros aspectos, a cena maranhense acaba associada ao que há de pior, a despeito de ser uma conquista – e um legado. Também percebo preconceito interno, que separa a “turma do vinil” da “turma da radiola”, um fenômeno que, paradoxalmente também une. Precisa é fortalecer esse último verbo”, conclama.

Uma coisa não é lenda nem ufanismo: o reggae praticado por aqui é único no mundo. “Aqui no Maranhão desenvolvemos um jeito diferente na forma de dançar e também no estilo das músicas que tocam no salão. Aqui gostamos de um estilo que chamamos de reggae roots, pra dançar agarradinho; os jamaicanos chamam essa batida de one drop, que foi o estilo que marcou e marca a nossa ilha”, afirma Joaquim Zion. A particularidade do “dançar agarradinho” também é apontada por Neto Myller.

Otávio Rodrigues arremata: “é original e único, no Brasil e no mundo, especialmente quando falamos daquele feito por produtores e artistas emergentes locais (eventualmente jamaicanos da antiga entre eles) com o propósito primordial de tocar em radiolas. Eu chamo de breggae, elogiosamente, por perceber aí traços do outro gênero dançante no que diz respeito a sua difusão entre as massas, o apelo romântico, a simplicidade nos arranjos, entre outros aspectos importantes. Tomando-se a variedade da música jamaicana, observa-se que foi exatamente um tipo de reggae mais rural, por vezes até rústico, natural entre artistas que vinham do interior do país em busca de oportunidades na capital, que mais colaborou na formação estética do gosto maranhense ao longo dos anos 1980 e 1990. Não admira que os meninos das periferias de São Luís, tão logo colocaram as mãos nas ferramentas certas, tenham desenvolvido um reggae diferente de qualquer outro, ainda que buscando fazer igual. Essa percepção da originalidade do reggae maranhense – o breggae – não é unicamente minha. Meus amigos gringos, grandes conhecedores do assunto, confirmam (e ficam de cara): não tem igual no mundo!”.

RicoChoro ComVida se consolida no calendário cultural de São Luís

Próxima edição do projeto acontecerá 3 de outubro, no Barulhinho Bom

O passeio de Célia Maria acompanhada pelo Trítono Trio, então um quinteto. Foto: Rivanio Almeida Santos
O passeio de Célia Maria acompanhada pelo Trítono Trio, então um quinteto. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O DJ Pedro Sobrinho registrou a emoção com o convite. Jornalista de formação, escreveu em seu blogue, dois dias após a segunda edição de RicoChoro ComVida (sábado, 5 de setembro): “um momento de realização pessoal e profissional”, declarou, agradecendo ao produtor Ricarte Almeida Santos a oportunidade de participar do projeto, num texto que acaba por se transformar em um manifesto contra os preconceitos que puristas têm por DJs.

Célia Maria e os integrantes do Trítono Trio também registraram deferências ao produtor, no palco do Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), que abriga a temporada – mais cinco apresentações estão previstas até dezembro de 2015, a próxima tendo como atrações o grupo Urubu Malandro, a cantora Alexandra Nicolas (interpretando repertório consagrado por Carmen Miranda) e o DJ Joaquim Zion, mas isto é assunto para outro texto, específico sobre a noite de 3 de outubro próximo.

Rui Mário (sanfona) destacou a importância do projeto para a valorização da música e dos músicos do Maranhão, não só do choro. O Trítono Trio, completado por Robertinho Chinês (bandolim) e Israel Dantas (violão), na ocasião substituído por Luiz Jr. (violão sete cordas), recebeu os reforços de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo). O resultado foi um repertório refinado em execuções idem. Nada de conformismo ou mesmice. Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), por exemplo, ganhou ares de tango, sem perder a essência da música ligeira que exige habilidade e técnica apuradas de quem encara o desafio de tocá-la.

Célia Maria agradou o público ao mesclar em seu repertório, clássicos do cancioneiro nacional, músicas de seu disco de estreia e do próximo disco, ainda sem data de lançamento. Entre outras, A banca do distinto (Billy Blanco), um libelo contra o racismo, Ingredientes do samba (Antonio Vieira), Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro), ambas de seu disco de estreia, Saiba, rapaz (Joãozinho Ribeiro), música que cantou no disco de estreia do compositor, Adeus, Billie (Cesar Teixeira), inédita que está em seu disco novo, que cita a diva jazz Holiday, e Balança pema (Jorge Benjor).

As canjas, inspiradas, contaram com as presenças de Paulo Trabulsi (cavaquinho), Luiz Cláudio (percussão) e Alberto Trabulsi (voz e violão). A exemplo da primeira edição, certamente as canjas dão ideia das edições futuras – nenhuma é igual a outra. Esta contou inclusive com a canja surpresa do mineiro Paulinho Pedra Azul, que havia feito show no Teatro Arthur Azevedo na quinta-feira anterior, celebrando os 30 anos de namoro com a capital aniversariante. Entre choros seus e de Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, além do clássico Jardim da fantasia, o artista não poupou elogios ao projeto e à militância chorona de seu idealizador, produtor e apresentador, além dos músicos que o acompanharam, de improviso, dizendo-se feliz em estar ali. A plateia foi ao delírio.

Com patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas e produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida já está consolidado no calendário cultural de São Luís: o projeto manteve um bom público, mesmo com a programação gratuita alusiva ao aniversário da capital que já acontecia na cidade.

Patativa estreia em disco

[release]

Foto: Beto Matuck
Foto: Beto Matuck

 

A sambista Patativa está com tudo e não está prosa. Neste ano, em que completou 76 de idade, sua carreira vive um novo e único momento: Patativa, que nunca havia gravado um disco solo, lançará dois cds.

O primeiro, concebido sob iniciativa de Zeca Baleiro, diretor artístico, e Luiz Jr., produtor musical, se chama Ninguém é Melhor do que Eu e traz participações de Simone, Zeca Pagodinho e do conterrâneo Baleiro. É um apanhado de 12 sambas mais o hit regional Xiri Meu, cacuriá malicioso que o povo maranhense já inclui entre seus grandes “clássicos”. O disco sai em novembro pelo selo Saravá Discos, o mesmo que em outros tempos gravou Antonio Vieira e Lopes Bogéa.

O segundo disco, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão (SECMA), terá o título Patativa canta sua História e está em fase final de gravação, devendo ser lançado no início do ano que vem. O produtor e arranjador é também o músico Luiz Jr.

Ninguém é Melhor do que Eu – Recebendo Lena Machado e Zeca Baleiro como convidados, Patativa lança Ninguém é Melhor do que Eu com show no dia 19 de novembro, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga). O evento começa às 19h, com os DJs Marcos Vinicius e Joaquim Zion, e o grupo Samba na Fonte.

Antecipando o que vem por aí, Ninguém é Melhor do que Eu, faixa que dá nome ao disco e tem a participação de Zeca Pagodinho, começa a ser executada nas rádios maranhenses, em primeira mão, nesse final de semana. E a partir da próxima segunda-feira, passa a ser distribuída para rádios de todo o país.

PATATIVA – ‘Ninguém é melhor do que eu’ – show de lançamento do cd
Participações especiais: Lena Machado e Zeca Baleiro.
Abertura: DJs Joaquim Zion e Marcos Vinicius e Grupo Samba na Fonte.
Onde: Porto da Gabi (Aterro do Bacanga).
Quando: 19 de novembro (quarta-feira), às 19h.
Quanto: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia para estudantes e demais casos previstos em lei).
Onde comprar online: DR. Ingresso, (98) 3015-3017.
Pontos de venda: Papos e Sapatos (Lagoa da Jansen) e Livraria Poeme-se (Praia Grande), a partir do dia 4/11 (terça feira).

O sambista Moyseis Marques cai no reggae em São Luís

Para Ademar Danilo, Joaquim Zion, Marcos Vinicius e Neto Myller

Via Lena Machado.

Profissão: cantora

ALBERTO JR.*
ESPECIAL PARA ESTE BLOGUE

Dicy Rocha: "ser cantora é um exercício profissional e uma missão espiritual a ser cumprida"

Numa repartição pública como outra qualquer de São Luís, em meio a papéis e burocracias institucionais, o funcionário fez-lhe a pergunta de praxe: “Profissão?”. A resposta soou como novidade e espanto para ele que estava acostumado em carimbar documentos de profissionais dos mais diversos. Nunca tinha lhe aparecido uma cantora. E a cantora, no caso, era Dicy Rocha.

No imaginário daquele funcionário as cantoras são como sereias midiáticas que só se manifestam no palco, no rádio ou na televisão. Quem diria que uma jovem negra, de olhos graúdos e voz doce chegasse num dia de semana qualquer requerendo o reconhecimento de sua atividade profissional, como se fosse uma operária ou artesã no ofício de cantar.

Para ela, ser cantora é um exercício profissional e uma missão espiritual a ser cumprida. Não há grandes sonhos ou fantasias almejadas. O que existe de fato é uma força muito grande e a responsabilidade de que seu canto e sua música promovam encontros e afetos. Sua arte não está a serviço do mercado, passa por ele e o transcende.

Projeto Sexta do Vinil – Para a apresentação de amanhã (6), no Porto da Gabi, Dicy Rocha preparou um repertório pelo Dia de Santos Reis. Além das canções já conhecidas do público, algumas novidades e encontros musicais darão o tom especial da noite. Acompanhando a cantora estarão os músicos João Simas (violão), Davi Oliveira (baixo), Isaías Alves (bateria) e João Neto (flauta e cavaquinho).

Além deles, duas participações especiais: o percussionista moçambicano Jorge Paco, que está de passagem por São Luís, e que apresentará no palco os timbres e ritmos africanos, e também o mestre Josemar Ribeiro, percussionista maranhense dos mais renomados e um dos pioneiros da Companhia Barrica, que volta aos palcos após um hiato de alguns anos sem tocar. Ele é marido da Gabi proprietária da casa.

O show faz parte do projeto Sexta do Vinil, que acontece todas as sextas no Bar Porto da Gabi, localizado no Aterro do Bacanga, sempre com discotecagem da equipe de som da Rádio Zion e Radiola Reggae, na presença dos djs Joaquim Zion, Marcus Vinícius e Neto Myller, e com participação de artistas convidados.

Carreira – No ano que findou, o nome de Dicy provocou muita curiosidade nos ouvidos mais atentos e sensíveis da cidade. Alguns ainda teimam em confundir sua pronúncia inserindo um ‘erre’ ou alterando o som da sílaba tônica. Outros falam no nome como se fosse verbo, sinônimo de quem tem o que dizer (cantar).

Do aparecimento de sua voz para o público, junto com o grupo vocal Flor de Cactos, em festivais de música organizados pelo cantor Wilson Zara, até o seu mais recente projeto, Negra Melodia, nas noites do bar Odeon Sabor e Arte, a cantora vem experimentando um repertório de canções brasileiras que ressaltam a identidade negra e a música do campo, buscando o diálogo entre gerações diferentes de músicos e compositores.

Recentemente, a cantora recebeu o troféu de “talento da noite” pelo Prêmio Universidade FM. Um reconhecimento dado por um público que já é cativo e renovado a cada apresentação. Ela agradeceu dizendo: “Chegou um momento da minha vida que eu tive que fazer duas opções: cantar ou cantar”, reforçando a canção de Caetano que diz: “o certo é ser gente linda e cantar. O certo é fazendo música”.

Dicy está em processo de gravação do seu primeiro álbum, com produção do músico espanhol Javier Sirera León. Contemplada com os editais de 2011 da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (SECMA) e do Banco do Nordeste (BNB), a previsão para que o disco seja finalizado e lançado é até julho deste ano.

Quem tiver ouvidos que ouça o som de Dicy Rocha, amanhã à noite, no Bar Porto da Gabi.

*Alberto Jr. é radialista

SERVIÇO

Projeto Sexta do Vinil | Show de Dicy Rocha e Banda | Discotecagem da Rádio Zion e Radiola Reggae | Dia 6 de janeiro (sexta), 22h | Bar Porto da Gabi, Aterro do Bacanga | Entrada: R$ 10,00 | Maiores informações: (98) 8849-9016.