O que pensam os artistas maranhenses das eleições de 2018?

No próximo dia 13 de dezembro completam-se 50 anos do Ato Institucional nº. 5, vulgo AI-5, que dava ao ditador de plantão o poder de fechar o congresso nacional e, entre outras arbitrariedades, cassar mandatos de parlamentares. O famigerado AI-5 também suspendeu o habeas corpus e, entre outras mazelas, levou artistas brasileiros ao exílio.

O Brasil vivia os anos mais duros de uma ditadura civil-militar cujas sombras pairaram sobre o país por longos 21 anos. A democracia e a Constituição brasileiras são recentes; a segunda completou este mês 30 anos de promulgada. No entanto, ao contrário de vizinhos sul-americanos que também passaram por regimes autoritários, o Brasil nunca fez seu dever de casa, nunca acertou suas contas com o passado – o que nem de longe poderia ser visto como mero revanchismo.

Quando da votação do golpe que destituiu a presidenta legitimamente eleita pelo voto popular em 2016, o deputado federal Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que de “brilhante” tinha apenas o sobrenome: foi reconhecido como um dos mais sádicos torturadores produzidos nos porões da ditadura. Não à toa o hoje presidenciável fez questão de salientar, na ocasião: “o terror de Dilma Rousseff”.

Em qualquer outro lugar do mundo, Bolsonaro teria saído preso da sessão e muito provavelmente não voltaria ao parlamento, com o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar, no mínimo. Aqui, inchou feito cururu no sal e hoje é, como alertou o articulista Francisco Assis no jornal português Público, em artigo de opinião assim intitulado, “um canalha à porta do Planalto”.

A jovem e frágil democracia brasileira está ameaçada e não faltam avisos. A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) é alicerçada por fake news, cujo combate tem sido ineficaz por parte das instituições. Declarações do presidenciável e cabeçadas entre ele e seu vice, o General Hamilton Mourão (PRTB) têm sido cristalinas sobre o que vem por aí, caso o capitão da reserva seja eleito.

O AI-5, que hoje em dia deveria ser tão somente objeto de estudo em escolas e universidades, volta a sobrevoar nossas cabeças como uma ameaça. O documento, entre outras questões obscuras, estabelecia a censura prévia de música, cinema, teatro, televisão, imprensa e outros meios de comunicação.

Causa-me espécie ver artistas, “as antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound, defendendo a candidatura do pesselista, a despeito de o mesmo, além de todo o exposto, já ter declarado a intenção de extinguir o Ministério da Cultura – ou de entregar a pasta ao ator Alexandre Frota, recém-eleito deputado federal por São Paulo. Mais recentemente foi além e chegou a cogitar destino parecido para o Ministério da Educação.

Homem de vícios antigos enviou um e-mail com quatro perguntas sobre as eleições deste ano a mais de 50 artistas maranhenses ou radicados no Maranhão. Além dos artistas originalmente listados, abriu a consulta através do perfil de seu titular em uma rede social: a quem se interessasse em receber o questionário e participar, o blogue estava aberto. Isto é: apesar de o blogue ter lado e declará-lo – seu titular declarou, nas redes sociais, votos a Flávio Dino (PCdoB) para o governo do Maranhão, e Fernando Haddad (PT) para a presidência da república –, como por aqui somente o fizeram claramente a revista CartaCapital e a versão brasileira do jornal El País, a ideia original era ouvir quaisquer artistas que quisessem se manifestar.

O blogue recebeu apenas 10 respostas, entre os artistas que receberam o e-mail original e os que posteriormente solicitaram participar da entrevista. Curiosamente, todos declararam voto no candidato petista no segundo turno.

Responderam ao blogue os compositores Chico Saldanha [lançou ano passado Plano B, seu quarto disco], Gildomar Marinho [tem três cds lançados, Olho de Boi, Pedra de Cantaria e Tocantes, e dois gravados, Mar do Gil e Porta-Sentidos, a serem lançados em breve], Fábio Allex [lançou os cds Porta-Novas em 2013 e De volta ao passado que nunca vivi, em 2016] e Joãozinho Ribeiro [publicou em 2006 o livro-poema Paisagem feita de tempo; em 2013 lançou o cd Milhões de uns – vol. 1; ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e ex-secretário de Estado da Cultura do Maranhão]; o cineasta Francisco Colombo [seu novo curta-metragem, Avesso, recebeu troféus de melhor trilha sonora, melhor ator coadjuvante e melhor fotografia na mostra competitiva maranhense do 41º. Festival Guarnicê de Cinema]; a artista plástica Babula Rosana [recebeu os prêmios Interações Estéticas e Residência Artística em Pontos de Cultura, e Economia Criativa, do Ministério da Cultura]; a cantora Tássia Campos [com o Trio 123, formado por ela, Camila Boueri e Milla Camões, lançou este ano o EP 123]; o escritor Franck Santos [lançou este ano o volume Poemas para dias de chuva, pela editora paulista Patuá]; e as poetas Samara Volpony [estreou com o volume de poemas Contramaré, ano passado, pela Patuá] e Adriana Gama de Araújo [estreou este ano com o volume de poemas Mural de nuvens para dias de chuva, pela editora Penalux].

Alguns dos artistas convidados a responder as quatro perguntas continuam manifestando nas redes sociais um pró-bolsonarismo baseado em fake news, memes e no discurso de ódio contra o PT e a corrupção, lugares comuns que têm sido a tônica da campanha da chapa militar. Talvez tenham optado pelo silêncio em relação à pequena entrevista por não terem o que defender no programa de governo e discursos de seu candidato em relação aos temas propostos.

A seguir, na ordem em que foram recebidas, as respostas dos 10 artistas às quatro perguntas de Homem de vícios antigos. As respostas enviadas não sofreram edição, tendo passado apenas por revisão, optando o blogue por preservar a íntegra das opiniões.

Homem de vícios antigos – O governador Flávio Dino foi reeleito em primeiro turno. Qual a sua opinião sobre o resultado?

O compositor Chico Saldanha. Foto: Francisco Colombo

Chico Saldanha – Resultado mais que esperado. Flávio Dino soube conduzir melhor a campanha explorando com facilidade a fadiga de material do grupo Sarney. Também passou para a população um sentimento de que tentou, apesar das dificuldades impostas pela crise criada com o impeachment, mudar alguns paradigmas na administração e também escolher  bem as prioridades onde iria investir.

O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá

Gildomar Marinho – Acredito que o trabalho sério, com transparência e o cuidado com a coisa pública ajudam a explicar parte do sucesso desta reeleição de Flávio Dino. O leque de alianças e a boa performance pessoal ajudaram a consolidar o fim de uma era oligárquica, patriarcal, materializado na derrota dos seus representantes no Senado e na Câmara de Deputados. Tenho acompanhado, ainda que à distância, daqui do Ceará, a evolução das políticas públicas, notadamente nas áreas de educação, saúde, segurança pública e políticas afirmativas e de inclusão social. Este conjunto de motivos explica sua vitória, destacando que se dá em momento delicado para a democracia brasileira com a onda conservadora que se avolumou no Brasil.

O cineasta Francisco Colombo. Foto: Eduardo Júlio

Francisco Colombo – Acho que o trabalho foi reconhecido, em que pesem as contradições. Basta de família Sarney!

A artista plástica Babula Rosana. Foto: divulgação

Babula Rosana – Foi um ótimo resultado. Prova que a oligarquia Sarney não tem mais força no Maranhão.

O compositor Fábio Allex. Foto: divulgação

Fábio Allex – É a confirmação de que o Maranhão se libertou, ainda que tardiamente, do atraso personificado pela família Sarney. É o reconhecimento, sobretudo, das realizações que foram feitas no campo social, assim como o forte investimento na área da educação. Reflete o esforço e comprometimento que vem existindo, apesar da profunda recessão econômica do país. O estado entendeu que o caminho de mudanças deve continuar. Trata-se, inclusive, do governo mais bem avaliado do país. Apenas isso justificaria.

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

Tássia Campos – Eu votei nele na primeira e na segunda eleição. Apesar de ter duras críticas à gestão da Sectur [a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão], acredito que prum estado tão pobre como o nosso, o melhor é Dino, pra melhoria dos indicadores sociais e garantia de direitos humanos.

O escritor Franck Santos. Foto: divulgação

Franck Santos – Acho merecido! Eu votei nele na eleição passada e nessa também! Precisamos de renovação, de mudanças no estado e na capital. Como professor, acho que o governador Flávio Dino não se comprometeu ainda como deveria com nossa classe trabalhista, mas votei nele justamente esperando que nesses próximos quatro anos algo mude nesse sentido.

A poeta Samara Volpony. Foto: divulgação

Samara Volpony – O resultado retrata a sua excelente gestão. Destaco a maior participação popular, a educação de qualidade, a transparência e o rompimento com a velha política implantada no Maranhão. Se formos refletir, ainda falta muito para sermos o estado que queremos, mas reconstruir um estado que vivia há meio século nas mãos de uma única família não é das tarefas mais simples. Flávio Dino conseguiu, em quatro anos, retirar aquele retrato vergonhoso do Maranhão, as manchetes que sempre nos noticiavam negativamente, para dar lugar àquelas que nos mencionam como exemplo para o país, como na área de educação, em que nós, professores, temos o salário base mais alto do país, só para citar uma entre tantas.

A poeta Adriana Gama de Araújo. Foto: divulgação

Adriana Gama de Araújo – Acredito que quem detém o controle da máquina pública dificilmente não se reelege. Além disso, a possibilidade de um retorno dos Sarneys ao governo fez com que até os críticos da administração Dino votassem nele. Eu não. Ele poderia ter feito um primeiro mandato com investimentos reais no que se refere à educação. Não fez nada além do que governos anteriores fizeram: pintar paredes e propaganda. Sou professora da rede pública e a única coisa que espero é que desta vez ele cumpra tudo que a lei manda. Reajustes dos salários dos professores e escolas realmente dignas. Valorizar de fato a educação não é achar que o pouco que se faz é muito. É colocar tudo que envolve a educação como prioridade.

O compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: Paulo Caruá

Joãozinho Ribeiro – O resultado reflete, antes de qualquer outro comentário, a ampla aprovação da gestão Flávio Dino, não somente pelo percentual de votos atingidos na eleição em primeiro turno, como pelas políticas públicas que chegaram de forma concreta aos segmentos mais necessitados da população, como saúde, educação, segurança, agricultura familiar e alguns outros serviços públicos básicos, vinculados diretamente às questões da cidadania e aos direitos humanos. Neste aspecto, também tem de ser alvo de destaque a responsabilidade fiscal que não escamoteou os investimentos e assegurou a regularidade de pagamento de salários, a despeito de outros estados considerados ricos que se encontram em situação de penúria, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. A reeleição de Flávio Dino, assegurando a continuidade da gestão, por outro lado representa um tiro de misericórdia na oligarquia Sarney e tudo que ela tem representado em vários campos da vida econômica, política e social do estado. Também representa um desafio sem precedentes para o próprio governo, cujas cobranças devem ser maiores e os compromissos da gigantesca coligação que deve apresentar as suas faturas políticas e administrativas, nem sempre coadunadas com o campo da licitude. Muitos desafios em algumas áreas deficitárias, do ponto de vista estratégico, como é o caso da Cultura e do Desenvolvimento Social também precisarão ser enfrentados.

Homem de vícios antigos – Em quem você vai votar para presidente no segundo turno? Por quê?

Chico Saldanha – Claramente em Fernando Haddad, porque foi na ditadura militar que criei consciência politica e cheguei à conclusão que a ditadura atrasou o país e cometeu uma série de atrocidades contra os direitos humanos. Aliás, fico com o vice-presidente [do marechal Artur da Costa e Silva, entre 1967 e 1969, o mesmo que decretou o AI-5] Pedro Aleixo: “na ditadura eu tenho mais medo é do guarda da esquina” e eu da mulher que chicoteou o carroceiro [referindo-se a uma eleitora de Jair Bolsonaro que, em São Luís, desceu de seu carro e agrediu um carroceiro com seu próprio chicote]. Retroceder 55 anos não faz parte dos meu planos A, B ou C [faz trocadilho com o título de seu disco mais recente]….

Gildomar Marinho – Em Fernando Haddad. Primeiro, pelo que representa sua candidatura, que traz em sua essência o projeto iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva, interrompido pelos implacáveis ataques a partir de 2014, culminando com golpe parlamentar de 2016. A experiência de Haddad no Ministério da Educação em um dos momentos de maior expansão do ensino acadêmico da História do Brasil e sua performance à frente da prefeitura de São Paulo, denotam a figura capaz de enfrentar os desafios da Presidência do Brasil, especialmente neste conturbado momento.

Francisco Colombo – Haddad 13! É o candidato mais preparado, com as melhores propostas. Como se não bastasse isso, ele personifica a democracia e o outro o oposto, o autoritarismo, o fascismo.

Babula Rosana – Fernando Haddad. Por que me identifico com as propostas e para barrar que o outro candidato seja presidente do Brasil.

Fábio Allex – Não desejei essa configuração para o segundo turno. Votei em Ciro Gomes, não como “voto útil”, mas por entender que ele tinha o melhor projeto, além da representatividade que construiu ao longo da sua vida pública. Sou apartidário. Talvez isso me permita ter um olhar mais plural, desprovido de paixões por legenda ou personalidade. Consigo perceber a dualidade do PT, no que se refere ao desenvolvimento do país durante o governo Lula, além da posterior avalanche de corrupção na qual o partido se envolveu, ainda que não tenha sido uma exclusividade do partido. Não há relativização, há fatos. Diante do cenário, voto em Fernando Haddad. Um bom candidato, com boas propostas, que agora herda grande rejeição em virtude do antipetismo aclamado pelo país, mas que, de fato, não traduz o que ele pode oferecer. Ele pode, sim, ser uma continuidade do que foi no melhor momento. Já o candidato do PSL, vejo como a opção mais nefasta que pude acompanhar em uma eleição. É nítida a falta de preparo para assumir um cargo de tamanha importância, da falta de consciência política e social, até mesmo para os seus próprios eleitores, além de não ser menos nítido o discurso de ódio que ele profere. Votar nele virou lema de “combate à corrupção”, o que está longe de ser verdade. Ele é um incentivo para o Brasil se dividir cada vez mais. Porém, infelizmente, levando em conta o panorama, parece que essa realidade só será percebida na prática.

Tássia Campos – Votei no primeiro e votarei no segundo em Haddad. Nem tem dificuldade na escolha. É civilização ou barbárie. Fico com a democracia.

Franck Santos – Haddad, claro! Por que jamais votaria em Bolsonaro ou em quem não me representa como nordestino, gay e trabalhador.

Samara Volpony – Voto no Fernando Haddad e na Manuela D’Ávila. São os candidatos que apresentam o projeto de Brasil que eu desejo neste tempo de ódio e caos em que vivemos. Voto no Haddad porque em sua gestão como Ministro da Educação no Governo Lula permitiu a milhares de jovens terem a oportunidade de entrar numa universidade pelos Programas que criou: Fies, Prouni, pelo Enem. Sem esses programas, certamente, os mais pobres jamais teriam a chance de adentrar no Ensino Superior. Voto no Haddad por seu programa de governo na área da educação, na área da economia, na área da cultura. Voto no Haddad porque a sua proposta para o país contempla aqueles esquecidos socialmente, e eu, como artista e professora, só poderia estar ao lado de quem pensa em um Brasil mais justo e democrático.

Adriana Gama de Araújo – Votarei novamente no Fernando Haddad. Conheço o currículo dele. É um homem competente e com sensibilidade para o que de fato melhora a vida das pessoas: educação e respeito ao meio ambiente.

Joãozinho Ribeiro – Haddad 13, sem nenhuma dúvida! Pelo meu histórico de vida e de luta por uma sociedade mais justa, solidária e com oportunidades iguais para todos, já nem precisaria de justificativas. No entanto, as eleições de 2018 culminam com um processo de disseminação de ódio e violência que pode vir a ser institucionalizado, na figura de um candidato de extrema direita que defende uma pauta de intolerância e de extinção de direitos que a humanidade levou séculos para implementar. Embora com algumas críticas a todo o processo, que impediu que o candidato mais legítimo e aprovado pela população sequer pudesse concorrer às eleições presidenciais, temos que colocar a Democracia acima de tudo, que com toda certeza é o valor maior que está em jogo. O resto pode ser objeto de várias batalhas que se anunciam, mas que devem ter como campo preferencial o Parlamento, as redes, as ruas, os movimentos sociais, tudo dentro do marco constitucional, sem o ativismo jurídico-partidário-midiático, responsável por grande parte da crise política e institucional que hoje vivenciamos no país.

Homem de vícios antigos – Como você avalia as propostas dos dois presidenciáveis para a área cultural?

Chico Saldanha – Para te dizer a verdade acredito que Bolsonaro não tem a mínima noção do que seja projeto cultural, dado ao seu total despreparo para assuntos que não versem sobre violência. Pelas ações e diálogo com os produtores culturais quando esteve na prefeitura de São Paulo, acho que o projeto do Haddad ganha por WO [sigla de walkover, que significa a vitória de um time em razão da ausência do adversário].

Gildomar Marinho – Eu percebo, de um lado, a retomada da Cultura para o centro das discussões, como elemento estratégico de afirmação das diversas identidades da nação brasileira, a perspectiva de retomar as políticas culturais iniciadas no governo Lula, capitaneadas pelo ex-ministro Gilberto Gil, a retomada do planejamento estratégico do País, tendo a cultura como pilar desse desenvolvimento. Por outro lado, vejo na proposta do candidato conservador, a retomada de valores há muito descolados da realidade brasileira, além da promessa velada de extinção do próprio Ministério da Cultura.

Francisco Colombo – Haddad e equipe tiveram sensibilidade para entender que cultura é mais que mero diletantismo. O seu oponente, ao contrário, prega o desmonte das estruturas de fomento. Demonstra, reiteradamente, um desejo de vingança contra adversários, incluindo, obviamente, artistas.

Babula Rosana – Não conheço a fundo as propostas, mas deduzo que as do Bolsonaro devem ser as piores começando pelo convite ao Alexandre Frota para Ministro da Cultura. Por outro lado esse mesmo presidenciável diz que vai acabar com o Ministério da Cultura. Do Haddad, pela continuidade dos trabalhos que o PT já teve na área cultural acredito ser progressista e de continuidade dos projetos e processos democráticos e de repartição equivalente dos recursos e editais por todas as regiões do país.

Fábio Allex – Não dá para comparar, pois apenas Haddad tem proposta nessa área. O que não é surpresa. Inclusive, Bolsonaro tem interesse em acabar com o Ministério da Cultura e transformá-lo em uma secretaria. Contudo, sinto falta de um detalhamento nas propostas do petista. Mas, se colocadas em prática, a princípio, atenderia uma diversidade importante, quando diz que vai retomar o investimento em museus, fomentar espaços para a manifestação de povos indígenas, incentivar a leitura e literatura, regulamentar o direito autoral nos meios digitais, bem como tratar do desenvolvimento e ampliação da produção independente.

Tássia Campos – Bolsonaro quer extinguir o MinC [Ministério da Cultura]. Nem tenho o que dizer.

Franck Santos – Haddad promete rever o Plano Nacional de Cultura, o Sistema Nacional de Cultura e recursos ao Ministério da Cultura, enquanto Bolsonaro até agora não fez ou faz menção às políticas culturais. Um país sem cultura, educação, arte de um modo geral, não é um país!

Samara Volpony – Na verdade, nós temos apenas um candidato que tem propostas para a área cultural: o presidenciável Fernando Haddad. Repudio, enquanto artista que sou, a proposta do candidato Jair Bolsonaro em extinguir o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet e ainda, tratar artistas como “vagabundos”. Seguindo o viés da nossa história, é bastante simbólico que o Ministério da Cultura tenha sido criado no período pós-ditadura militar e agora quererem extingui-lo. Mas não permitiremos esse retrocesso. Quanto à proposta do candidato Fernando Haddad, minha avaliação é bastante positiva. Seu programa de governo prevê uma política nacional para as artes que inclui sua produção, circulação e fomento das áreas, a reestruturação da Funarte [a Fundação Nacional de Artes, vinculada ao MinC], a retomada dos pontos de cultura e memória, priorizar pela Lei Rouanet coletivos da periferia, entre outros. Só podemos avaliar quem tem propostas.

Adriana Gama de Araújo – E Jair Bolsonaro tem propostas para a área cultural? Não vi, não. As propostas do Haddad são muito boas: fazer das manifestações artísticas e culturais um espaço para fomentar democracia, diálogo, diversidade, respeito. Conversar com quem faz e possibilitar caminhos de desenvolvimento e inclusão social.

Joãozinho Ribeiro – Infelizmente, só temos uma proposta para ser avaliada, pois o programa do candidato Jair Bolsonaro sequer dedicou uma linha para essa questão de tamanha relevância para um Brasil que pretende estar acima de tudo, dada a imensa diversidade cultural da nossa nação. Aliás, dos debates e entrevistas que tive a oportunidade de assistir entre candidatos a governador e presidenciáveis, essa questão em raríssimos momentos foi contemplada. Até mesmo no Maranhão, que se destaca pelo grande potencial criativo na área cultural, essa questão passou batida. Em matéria intitulada “Só 5 dos 13 presidenciáveis listam planos para cultura em programas de governo”, publicada na edição de 19 de setembro 2018, do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista responsável pelo texto [o texto era assinado por Eduardo Moura, Isabella Menon, Guilherme Genestreti, Maria Luísa Barsanelli e Maurício Meireles] informava [Joãozinho cita trechos da matéria]: “No acalorado debate desta corrida eleitoral, pouco se ouve falar de cultura. Dos 13 candidatos à Presidência da República, apenas 5 descrevem projetos para a área em seus programas de governo. Poucos programas trazem projetos detalhados para o campo da cultura, alguns deles nem sequer tocam nesse assunto […]. Não há menções à área nas propostas de Jair Bolsonaro (PSL), atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Cabo Daciolo (Patriota) e Henrique Meireles (MDB). Álvaro Dias (PODE) fala apenas em “cultura livre com Cartão Cultura”. José Maria Eymael (DC) lista pontos estratégicos, como “resgate e valorização da cultura e da identidade nacional”, mas não apresenta ações”. Já o programa de Haddad 13 lista um rol de compromissos que representam com legitimidade todo acúmulo de discussões e debates, transformados em planos, projetos e programas, das últimas três décadas, alguns deles inseridos na própria Constituição Federal, e outros refletindo os compromissos internacionais firmados pelo Brasil em tratados e convenções de tal magnitude, assim exemplificados em um trecho do programa [de governo do PT, registrado no TSE]: “cumprir a recomendação da Unesco e aumentar progressivamente os recursos para o MinC, visando alcançar a meta de 1% do orçamento da União”.

Homem de vícios antigos – Como você acompanha e avalia a atual divisão do Brasil, explicitada nas ruas e nas redes?

Chico Saldanha – Igual a você, Homem de vícios antigos, sou do tempo em que a pessoa que trazia dentro de si esse sentimento de raiva, de preconceito, de desrespeito às mulheres e homossexuais tinha muita vergonha de falar isso perto de quem quer que fosse. Por isso, às vezes, fico sem entender como várias pessoas, amigas, por sinal, embarcaram nessa insanidade.

Gildomar Marinho – Acompanho com bastante preocupação, notadamente, quando presenciamos elementos típicos do fascismo, como a intolerância, a desconstrução dos diferentes, o nacionalismo, a xenofobia, a LGBTfobia, com dosagens preocupantes de violência, com mortes e mutilações já registradas. As redes sociais têm se configurado verdadeiros campos de batalhas medievais, em uma espécie de vale-tudo para a aniquilação de seus oponentes que, em muitos casos, são gente do seu próprio sangue. O resultado é esta preocupante escalada da violência. Por outro lado, acompanho uma boa parte da sociedade afirmando-se com incrível senso de justiça, de civilidade e consciência de si e do seu meio. Espero que o bom senso seja vencedor.

Francisco Colombo – Como consequência do golpe político-jurídico-midiático. Desde 2013 a direita se comporta de maneira muito agressiva. Em 2014 não aceitou a derrota de Aécio [Neves, recentemente eleito deputado federal por Minas Gerais] pra Dilma. De lá pra cá, com a participação explícita do judiciário, via [o juiz Sérgio] Moro e Supremo [Tribunal Federal], as coisas caminharam para a ameaça real do fascismo nos empurrando para o precipício.

Babula Rosana – Esquizofrênica. Desinformação, manipulação da mídia e ajuda internacional para o candidato Bolsonaro.

Fábio Allex – É um mal que assola a sociedade, tendo como pauta a intolerância, a qual, no fim das contas, resume-se em uma briga partidária resultante de uma generalização. Enquanto se deveria dialogar com forças diferentes e discutir problemas reais, cai-se nesse embate contraproducente. É algo fortalecido com a figura do Bolsonaro, mas com imensa contribuição do PT. É a busca por uma suposta honra que desonra ainda mais. Só quem perde com tudo isso é o próprio país.

Tássia Campos – Tô assustada com tanta desinformação. Creio que é bem pior que ignorância. A violência está sendo legitimada pelo discurso do tal Bolsonaro. Não acredito em divisão do Brasil, acredito que o fascismo saiu do armário. Ele tava só escondido.

Franck Santos – Acompanho não só com temor como com horror, não só nas redes sociais como no corpo a corpo, com as pessoas próximas, seja nas relações familiares, de amizade ou nos locais de trabalho. Tenho muito medo do que está por vir, tenho medo dos dias sombrios, tenho medo do que possa acontecer às minorias. Tenho estado muito triste e quase deprimido. Também cansado de tentar que essas pessoas compreendam e tenham discernimento para o que é melhor, ou menos pior, para as pessoas dos meus círculos, seja virtualmente ou pessoalmente. O geógrafo Milton Santos já disse muito tempo que há “vários brasis dentro do Brasil” e estamos vendo e sentido isso na pele, olhos e coração.

Samara Volpony – Tenho acompanhado diariamente as redes sociais e também no dia a dia. O que tenho ouvido é um discurso inflamado e a relação com o outro cada vez mais comprometida: de um lado os que votam no candidato A e de outro os que votam no candidato B. As redes sociais viraram palanque do ódio, do rebaixamento do outro, e os que antes eram anônimos ganham fãs, legiões daqueles que concordam com seu pensamento, por mais grosseiro que seja. A minha avaliação é de imenso pesar, porque as pessoas perderam a capacidade de se compadecer, de ter empatia, de ouvir o outro e de pensar no outro. Esses são princípios que aprendi durante minha infância e que vou levar para sempre. As pessoas têm levado esse momento tão delicado, como se estivessem em uma partida de futebol, ainda não se deram conta da imensa responsabilidade que traz o momento, que é um princípio básico de humanidade: pensar no outro.

Adriana Gama de Araújo – O Brasil sofre de uma falta de conhecimento crônica. A nação foi “se fazendo nas coxas” e estas nem eram as do povo. Embora nós a sustentemos, nós não a pensamos. Infelizmente. E com a facilidade da circulação de informação por causa da internet e das redes sociais, as pessoas adquiriram uma falsa noção de conhecimento. Ninguém conhece nada e pensa que sabe de tudo. Política sempre foi para o povo brasileiro sinônimo de “roubalheira” e agora quem está “na mídia” como ladrão-mor é o PT. Uma parte da população decidiu lutar cegamente contra “esse mal”; a outra parte ainda acredita que “a esperança vai vencer o medo” e a corrupção. Estou ao lado dos esperançosos. Justiça cega é suicídio coletivo.

Joãozinho Ribeiro – Para mim, a grande divisão do Brasil deste momento é em grande parte circunstancial, embora não negligencie o perigo do ódio e da intolerância que se avolumaram de 2013 para cá, insuflados, irresponsavelmente, e em grande parte, pela mídia e pelo fundamentalismo religioso, além do ativismo judicial-partidário. Para mim, a grande divisão tem raízes profundas e permanentes na desproporcional desigualdade, que cega as pessoas e que as transformam numa espécie singular de um tipo de analfabetismo inusitado, assim conceituado pelo poeta Mário Quintana: “O maior analfabeto político não é aquele que não sabe ler, mas que, sabendo, se recusa a fazê-lo”. Estamos esquecendo justamente de fazer uma leitura do mundo e de suas grandes expectativas, mergulhados num analfabetismo brutalizado pelo preconceito, pela discriminação e pelo fascismo, ressurgindo em variadas formas em todos os cantos do planeta. Este ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos, as grandes revoltas estudantis de 1968, a Primavera de Praga e o famigerado AI-5, 50; a Constituição da República Federativa do Brasil, 30. Portanto um ano que merece ser prestigiado pela afirmação da cultura da paz e pelo reencantamento do mundo.

Um sebo novo na ilha. Alvíssaras!

Os sócios Riba e Natan. Foto: Zema Ribeiro

 

Há mais de 10 anos entrevistei a saudosa Moema de Castro Alvim, então proprietária do sebo Papiros do Egito, para um trabalho de faculdade – o resultado viria a ser publicado depois, no Overmundo.

Naquela conversa – uma das muitas que tivemos ao longo de mais de 20 anos de amizade – ela alertou para uma equação que não fechava: enquanto faculdades particulares eram abertas, livrarias e sebos se fechavam.

A pulga atrás da orelha me acompanha até hoje.

São Luís é uma cidade que convive com vários títulos – ou apelidos, como queiram. Uns se justificam por si só. Outros acabam ganhando status de verdade de tanto se repetirem, na perspectiva de Goebells, ministro da propaganda nazista.

Um bom exemplo é a rixa entre os atenienses e jamaicanos locais. A meu ver a questão se encerra facilmente: enquanto quase ninguém lê, os clubes de reggae estão lotados – e não, a meu ver, uma coisa não inviabiliza a outra.

Acompanho há algum tempo o trabalho do professor Natan Máximo, que já teve sebo fixo no Centro da cidade (na Rua das Flores), mas que ultimamente tem literalmente montado a barraca em eventos culturais como o projeto RicoChoro ComVida na Praça, de que acompanhou boa parte das edições: enquanto o público prestigiava a boa música no palco, podia também adquirir livros, cds e vinis usados.

A barraca de Natan, com seu caráter agregador e a presença do sócio Riba (outro, não o do Poeme-se), acabou por ganhar o nome de Feira da Tralha, exibido na faixa na fachada do sebo – fixo – que ele e Riba (ambos na foto que abre este post) inauguram hoje, às 18h, no térreo do Edifício Colonial (sala 8, esquina das ruas Godofredo Viana com Sol, Centro).

A inauguração terá apresentação do Regional Deu Branco, formado por Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Erivan Neri (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho), Kleiton Groove (trombone) e Valdico Monteiro (pandeiro). O grupo terá as participações especiais de Joãozinho Ribeiro e Rosa Reis. Na ocasião serão vendidos caldo de sururu e cerveja.

É outra coisa de que há tempos me ressinto: não há um bar nas proximidades do Teatro Arthur Azevedo, para o caso de uma resenha regada a chope e bom papo, após este ou aquele espetáculo. A Feira da Tralha é um sebo, não um bar, mas poderá em parte preencher essa lacuna. Tomara!

De um modo ou de outro, é sempre motivo de comemoração a inauguração de um sebo, uma livraria, uma loja de discos, uma banca de revistas e estes estabelecimentos em extinção – ou melhor, na contramão.

Divulgação

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O poeta Joãozinho Ribeiro resgatou, entre objetos deixados por um cunhado recentemente falecido, um trecho do poema Guerra que te quero paz, que segue publicado ao fim deste post. O intento é encontrar o restante do poema, com alguém que o autor de Milhões de uns possa tê-lo compartilhado no passado. Notem: Joãozinho não procura um parceiro para fechar o poema. Quer saber se, entre os amigos de longa data, alguém sabe, lembra, viu, tem cópia com a outra parte etc., etc., etc. Se alguém puder ajudar, agradecemos antecipadamente.

GUERRA QUE TE QUERO PAZ

Entre as feridas da bomba
Uma criança sem rosto
Vagueia pelos subúrbios
Da cidade destruída
Catando os cacos de infância
Subtraídos da vida

Sem pátria, sem geografia
Perdida num continente,
Delinquente, guerrilheira,
Ensaia para o futuro
Uma canção de esperança
Bordada em letras de muro

Dos cacos que vai juntando
Edifica sobre as perdas
Uma palavra sofrida
Que vaza as dores do mundo
Queixando as rosas da vida
Esmagadas num segundo

A palavra peregrina,
Imitando o voo dos pássaros
Sobe alpes, cordilheiras,
Invade vitrines, praças,
Devassa quartéis, igrejas
Pelos países que passa

Joãozinho Ribeiro encerra temporada na Feira da Tralha

[release]

Apresentação do compositor marca encerramento da temporada Milhões de Uns, de lançamento do cd homônimo

Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra
Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra

 

O compositor Joãozinho Ribeiro encerra a temporada Milhões de Uns, de lançamento de seu disco de estreia, homônimo, com show amanhã (27), às 19h30min, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). A apresentação integra a programação cultural da Feira da Tralha, evento organizado pelos Sebos Nas Canelas e Educare. A entrada é franca.

A ocupação cultural da praça ao lado da Casa do Maranhão tem como objetivos, segundo seus organizadores, contribuir para a revitalização da Praia Grande, prolongar a vida útil de uma série de objetos, gerar trabalho e renda para trabalhadores do segmento da economia criativa, além do comércio em si, de cds, dvds, vinis, livros usados, objetos de antiquário, artesanato, artigos de coleções, instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos, entre outros.

A Feira da Tralha acontece todas as quintas e sextas, das 16h às 21h. As sextas, conta com a apresentação do Regional Deu Branco, um dos mais jovens grupamentos de choro de São Luís, formado por Bernardino Júnior (bandolim), Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Dudu Lima (cavaquinho solo), Erivan Nery (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho centro) e Valderson de Abreu (percussão).

Nesta sexta (27), o grupo abrirá o show Milhões de Uns, de Joãozinho Ribeiro, com a participação especial do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Ele e os convidados serão acompanhados por Arlindo Carvalho (percussão), Arlindo Pipiu (contrabaixo), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugel), Luiz Jr. (violão sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Wanderson (percussão).

“É um prazer e um luxo poder contar com a participação do Criolina. Alê Muniz é um parceiro de longa data, e ao lado da Luciana forma um dos maiores acontecimentos da música produzida no Maranhão recentemente. Interessante também é poder contar com a presença da rapaziada do Deu Branco, valorosos garotos levando adiante o estandarte do choro”, afirmou o compositor.

Ele antecipa um balanço de 2015 e alguns projetos para 2016. “Este ano busquei conciliar a agenda de trabalho profissional com a profissão de fé da criação artística, dedicando-o a diversas apresentações, em vários palcos da cidade, ao lançamento do cd, registro que já era bastante cobrado por amigos e admiradores de nosso trabalho. Para ano que vem pretendo trabalhar no lançamento do segundo volume, além de lançar um segundo livro”, afirmou Joãozinho, que é funcionário público federal e professor universitário.

Autor de mais de 100 músicas, Joãozinho Ribeiro é um dos compositores mais gravados do Maranhão, tendo o nome em discos de artistas como Alê Muniz, Anna Cláudia, Célia Maria, Glad, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis. Em 2006 publicou Paisagem feita de tempo, livro-poema escrito em 1985. Milhões de Uns – vol. 1 é seu primeiro disco. Gravado ao vivo em duas noites no Teatro Arthur Azevedo, conta com as participações especiais de Alê Muniz, Célia Maria, Chico César, Chico Saldanha, Lena Machado, Milla Camões e Zeca Baleiro. Para o volume, Elba Ramalho gravou Asas da paixão em estúdio.

Laborarte comemora 43 anos com vasta programação

Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge "Cara de Borracha"; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu
Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge “Cara de Borracha”; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu

 

Diversos movimentos convergiram para o nascente Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 11 de outubro de 1972. Música, teatro, artes plásticas, fotografia, cultura popular: para tudo havia espaço em seus departamentos, ocupados por nomes que fariam história neste estado, como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Murilo Santos, Wilson Martins, Regina Telles, Tácito Borralho, Rosa Reis, Nelson Brito, Mestre Patinho, Dona Teté e Joãozinho Ribeiro, entre outros, em diferentes épocas.

O Labô, como é comumente chamado pelos mais íntimos, completa 43 anos domingo (11) e preparou vasta programação, inteiramente gratuita, para comemorar. Ano que vem, o casarão 42 da Rua Jansen Müller (Centro) será enredo da Escola de Samba Flor do Samba no carnaval.

Ao longo da programação (veja completa ao final do post), uma videoinstalação apresentará documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte, acumulados ao longo de mais de quatro décadas de atividades ininterruptas.

Entre as montagens iniciais merecem destaque Espectrofúria [1972], recentemente reencenada, sobre texto de Eduardo Lucena, que recebeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem em Niterói/RJ, Os Sete Encontros do Aventureiro Corre-Terra ou O Cavaleiro do Destino, de Josias Sobrinho e Tácito Borralho [prêmio Mambembe de 1978], Agonia do Homem [1972], poemas de Nauro Machado adaptados por Otto Prado, Mártir do Calvário [1973], em que Ubiratan Teixeira interpretou Pilatos, e Marémemória [1974], baseado no livro-poema homônimo de José Chagas, cuja foto de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros encabeça este blogue.

De 30 anos de Laborarte, reportagem do último, aliás, cato informações para este texto. O do compositor-fundador foi publicado em 19 de outubro de 2002 no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, e está também na coletânea Maranhão Reportagem [Clara Editora, 2002], organizada por Félix Alberto Lima.

Entre os destaques da programação de aniversário, acontece hoje (9) a noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, em que Camila Reis, com transcrições de Gustavo S. Correia e ilustrações de Layo Bulhão, transpõe para partituras, cantos entoados nos festejos do Divino e na dança do Cacuriá, e Vem cá curiar o cacuriá, de Inara Rodrigues, sobre a dança em que ambas as autoras dão – ou já deram – passos. O primeiro tem patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura; o segundo foi premiado no Concurso Literário Cidade de São Luís.

Moda, dança e poesia dão o tom da noite de amanhã (10). A partir das 20h Tieta Macau, Deuzima Serra, Moisés Nobre e Raimunda Frazão – uma das homenageadas da 9ª. Feira do Livro de São Luís – apresentam performances nas áreas.

Na sequência, Joãozinho Ribeiro atrela à programação de aniversário do Laborarte o show que tem apresentado ao longo deste ano, lançando seu disco de estreia, Milhões de uns – vol. 1. Nesta ocasião, a apresentação terá as participações especiais de Josias Sobrinho e Rosa Reis.

“Para mim é uma honra e um prazer fazer valer o dito popular, “o bom filho à casa torna”. Minhas relações com o Labô têm tempo e história”, declarou o compositor, autor da maioria das músicas do espetáculo carnavalesco-teatral Te gruda no meu fofão. “Alegria maior ainda é poder dividir o palco com Josias Sobrinho e Rosa Reis, nomes de importância fundamental, em diferentes épocas, para o surgimento e a continuação do Laborarte nas trincheiras em prol de nossa cultura popular”, continuou. “Darei um presente ao Laborarte, o público pode esperar uma surpresa”, prometeu, deixando o mistério no ar.

A noite de sábado guarda espaço ainda para show das Afrôs e a programação se encerra no domingo de aniversário (11), com um cortejo do Cacuriá de Dona Teté na Feira do Livro (Praia Grande), às 17h30, cujo encerramento também acontece na data.

Como afirmou Cesar Teixeira em seu texto de há 13 anos, “nomes de pessoas e considerações sobre o trabalho do Laborarte não caberiam nesta página – dariam um livro”. Faça parte dessa história!

Programação

Hoje (9), a partir das 20h

Receba! – Dança, Negritude, Pertencimento, com Luana Reis
Noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, de Camila Reis, e Vem Cá Curiar o Cacuriá, de Inara Rodrigues
Instalação fotográfica Chuseto, de Jesús Pérez
Videoinstalação – documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte
Roda de Capoeira Angola com os mestres Nelsinho, Patinho e convidados
Shows de Rosa Reis e Camila Reis
Palco livre

Amanhã (10), a partir das 20h

Exibição de vídeo de Moda e intervenção Beltranesca, com Tieta Macau
Solo de dança popular com Deuzima Serra
Performance Poéticas, com Moisés Nobre, Raimunda Frazão e convidados
Show de Joãozinho Ribeiro – Lançamento do cd Milhões de uns, com participação especial de Josias Sobrinho e Rosa Reis
Cânticos aos 43 anos de Laborarte
Show das Afrôs

Domingo (11), às 17h30

Cortejo do Cacuriá de Dona Teté na 9ª. Feira do Livro de São Luís (Praia Grande)

Noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro terá música e cinema

[release]

Apresentação do compositor dá continuidade à temporada de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, seu disco de estreia. Na ocasião será exibido curta-metragem integrante da programação do Festival Avanca-São Luís

A cantora Milla Camões aplaude o compositor Joãozinho Ribeiro em edição da temporada Milhões de uns. Foto: Ton Bezerra

 

O compositor Joãozinho Ribeiro volta ao palco do Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II) dia 28 de agosto (sexta-feira), às 20h, dando continuidade à temporada de lançamentos e noites de autógrafos do cd Milhões de uns- vol. 1, trabalho que marca sua estreia no mercado fonográfico.

Cinema – A abertura da noite fica por conta da avant-première do festival Avanca-São Luís. Na ocasião Francisco Colombo apresentará um curta-metragem que integra a programação da mostra, que acontecerá dias 2 e 3 de setembro, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

O cineasta e professor universitário está cursando mestrado em Comunicação em Aveiro, Portugal, e selecionou alguns filmes de um festival local para mostrar em São Luís. “É uma oportunidade única, já que provavelmente estes filmes não chegarão ao circuito das salas de cinema no Brasil, mesmo as não comerciais”, avisa. O festival também acontecerá em Imperatriz, com produção de Marcos Fábio Belo Matos, professor da UFMA naquele município.

“Quem me conhece e acompanha minha trajetória sabe que sempre gostei de estimular o diálogo entre as mais variadas linguagens artísticas, seja como artista, seja como gestor”, afirmou Joãozinho Ribeiro, que já mesclou poesia à música das noites de Milhões de uns e agora traz o cinema para o centro das atenções.

Participações especiais – Os convidados do show são Milla Camões e Hugo Carafunim. À cantora o artista não poupou elogios quando de sua última apresentação e é conhecida a aclamação da plateia quando ela interpretou o blues Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro e Betto Pereira) no show de gravação do cd: escalada apenas para a primeira noite, acabou participando também da segunda, atendendo ao pedido do público.

O trompetista Hugo Carafunim é sobrinho de Joãozinho Ribeiro. Ex-aluno da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM) e da Banda do Bom Menino do Convento das Mercês – onde hoje dá aula –, suas primeiras aparições públicas foram justamente ao lado do tio, no circuito musical alternativo Samba da Minha Terra, que levou samba e choro a 18 comunidades de São Luís entre 2002 e 2003.

O repertório base da apresentação é o de Milhões de uns – vol. 1, mas Joãozinho Ribeiro deve interpretar ainda composições inéditas, além de outras, já gravadas por diversos artistas – convém lembrar que ele é um dos compositores mais requisitados do Maranhão. Durante a apresentação será acompanhado por Darkliwson (percussão), Elton Nascimento (flauta e saxofone), Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical) e Murilo Rego (teclado). Os ingressos individuais custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Serviço

O quê: show Milhões de uns – vol 1 e Avant-première do Festival de Cinema Avanca-São Luís
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Milla Camões, Hugo Carafunim e Francisco Colombo
Quando: 28 de agosto (sexta-feira), às 20h
Onde: Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II)
Quanto: R$ 20,00

Joãozinho Ribeiro autografa Milhões de uns no Malagueta

[release]

Show acontece sexta-feira, 31, com participações especiais de Adler São Luís, Célia Maria e Milla Camões

Divulgação
Divulgação

 

Ilha adentro, o compositor Joãozinho Ribeiro segue sua turnê-maratona de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro de 2012, com a participação de diversos artistas, entre os quais Chico César e Zeca Baleiro.

Recentemente Joãozinho esteve no Bip Bip, em Copabacana, Rio de Janeiro, mítico cenário da música e boemia cariocas, ocasião em que (re)encontrou diversos amigos maranhenses, autografou seu disco e prestigiou uma roda de choro que contou com a presença de uma lenda viva da flauta: a francesa Odette Ernst Dias, radicada no Brasil, uma das fundadoras do Clube do Choro de Brasília.

A próxima aparição de Joãozinho Ribeiro com a turnê de Milhões de uns será no Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Jardim Renascença II, telefone: (98) 32273000), nesta sexta-feira, 31, às 21h30. Os ingressos individuais podem ser adquiridos no local e custam R$ 20,00.

Na oportunidade Joãozinho Ribeiro contará com as participações especiais de Célia Maria, Milla Camões e Adler São Luís, seu primo. Anfitrião e convidados serão acompanhados por Celso Bastos (saxofone, flauta e clarinete), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (viola, violão sete cordas e guitarra) e Rui Mário (sanfona).

Convidados – Célia Maria iniciou sua carreira artística no tempo em que as rádios eram dotadas de auditórios, e parte da programação era preenchida com música ao vivo, entre calouros e profissionais. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conviveu com nomes como Nelson Cavaquinho e Cartola. Seu disco de estreia – e até aqui único gravado – leva apenas seu nome e foi lançado em 2001 e rendeu, no ano seguinte, o Prêmio Universidade FM de melhor compositor a Joãozinho Ribeiro por Milhões de uns.

Carioca de nascimento, maranhense de adoção, Milla Camões está gravando seu disco de estreia. Reconhecida na noite ludovicense, já venceu o Prêmio Universidade FM na categoria Talento da Noite. Versátil, transita pelos universos do samba, da bossa, do choro e do jazz com igual desenvoltura. Em 2012 foi escalada para a primeira noite do espetáculo de gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro. Cantou Coisa de Deus, blues parceria dele com Betto Pereira. Ovacionada pela plateia, precisou ser escalada para a segunda noite, interpretando a mesma canção.

Primo de Joãozinho Ribeiro e Arlindo Pipiu, Adler São Luís deixou a cidade natal que lhe dá nome artístico após concluir o ensino médio – então segundo grau – no Liceu Maranhense na década de 1970. A ideia era cursar Engenharia Química no Rio de Janeiro. Mas a música falou mais alto. Na década de 1980 gravou Tambô de criola, com a banda de Elba Ramalho e participações de nomes como Manassés, Marcos Suzano, Paulo Moura e Luiz Melodia. Em 1981, sua música Couraça foi gravada pela potiguar Terezinha de Jesus em Pra incendiar seu coração (CBS). Em 2012 lançou o livro de poemas Substância rara. Radicado em São Paulo há 20 anos sempre vem ao Maranhão para recarregar as baterias.

Em clima de festa e reencontro a noite de autógrafos de Milhões de uns promete ser mais uma celebração à amizade e à boa música. De avalistas, o espírito agregador e a vasta obra musical de Joãozinho Ribeiro, talento reconhecido como um dos compositores mais gravados do Maranhão.

A música é a arte dos encontros

Joãozinho Ribeiro autografa hoje Milhões de uns – vol. 1 no Bip Bip, em Copacabana. Foto: Paulo Caruá

 

Mesmo de férias, o compositor Joãozinho Ribeiro não baixa a guarda. Explico: funcionário público federal, ele está no Rio de Janeiro, acompanhado da musa Rose Teixeira, a quem dedicou, entre outras, Te gruda no meu fofão, tema de espetáculo homônimo encenado pelo Laborarte em tempos idos. Pois se o funcionário público goza férias, o artista não. Ou ao menos não completamente: poeta e musa estarão hoje (20) à noite no mítico Bip Bip, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, onde o primeiro autografa Milhões de uns – vol. 1 para cariocas e turistas que aparecerem.

Alfredinho, proprietário do mítico Bip Bip. Foto: Dario de Dominicis/ CartaCapital

A escolha não poderia ter sido mais apropriada e é cercada de coincidências. Tanto o Bip Bip quanto Joãozinho Ribeiro são menos conhecidos do que deveriam, dadas suas importâncias, um para a boemia carioca, outro para a música produzida no Maranhão, ambos para a cultura brasileira de modo geral. O bar foi fundado em 13 de dezembro de 1968, data da promulgação do famigerado Ato Institucional nº. 5, que acirrou as trevas da ditadura militar brasileira, de que o artista foi bravo combatente, destacado militante da greve da meia passagem, em São Luís do Maranhão, setembro de 1979.

As coincidências não param por aí: tanto João Batista Ribeiro Filho, o artista, quanto Alfredo Jacinto Melo, atual proprietário do bar, que adquiriu em 1984, são conhecidos por diminutivos. Outra coincidência reside no futebol: tanto Joãozinho quanto Alfredinho atualmente frequentam a segunda divisão, com seu “glorioso” Botafogo.

Como todas as noites (o bar abre às 19h30), a de hoje será pautada pela arte, cultura e solidariedade, além da confiança mútua entre proprietário e frequentadores, desta feita somada à do artista que, aproveitando um passeio, resolve estreitar os laços entre a cidade maravilhosa e a ilha magnética.

A noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro no Bip Bip tem entrada franca. Milhões de uns – vol. 1 será vendido por R$ 20,00 na ocasião.

Chorografia do Maranhão: César Jansen

[O Imparcial, 21 de setembro de 2014]

O recluso bandolinista César Jansen é o 40º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Já fazia tempo que tentávamos essa entrevista com o bandolinista César Jansen. Em torno de sua figura paira certo mistério. Apesar de ainda jovem e estudioso dedicado do bandolim, ele já não se apresenta mais para grandes plateias. Apenas rodas de amigos e familiares têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo tocar seu bandolim, de sonoridade potente, de modelo idêntico ao do mestre Jacob do Bandolim, confeccionado pelo luthier carioca Tércio Ribeiro, o mesmo que havia sido escolhido pelo autor de Vibrações para recuperar seus instrumentos. Jansen possui sete bandolins e de um dos modelos existem apenas dois iguais no Brasil. Além do dele, um é de Joel Nascimento, outra fera do bandolim e do choro.

Talvez nesse mistério residisse a nossa grande expectativa em entrevistar César Alberto Olívio Jansen, nascido no bairro do Bom Milagre, em São Luís, em 12 de setembro de 1956, filho de Nicomedes da Luz Jansen, fabricante de mosaicos perto da Rua de Santana, “cansei de ir lá visitá-lo, levar comida”, e Isabel Olívio Jansen, doméstica, “depois se empregou na secretaria de agricultura do Estado do Maranhão, onde se aposentou”.

Encontro marcado, os chororrepórteres tocaram a campainha do apartamento do músico 15 minutos antes da hora, quando foram recebidos carinhosamente por ele e sua esposa Soraia. Ainda deu tempo para que ele fosse buscar as filhas – Júlia e Laura – em um curso de inglês ali perto.

Depois a conversa transcorreu solta, entremeada por certa timidez do instrumentista, mas nada que limitasse a realização de uma rica entrevista. Colecionador voraz de tudo que se relacione ao choro e ao bandolim, César Jansen possui um acervo dos mais preciosos, em vídeos, discos, livros, cadernos de partituras e outros registros multimídia.

Fundador do Instrumental Pixinguinha – ao lado de Paulinho [Santos, flauta], Marcelo Moreira [violão], Domingos Santos [violão], Francisco Solano [violão sete cordas], Biné do Cavaco e Carbrasa [percussão] –, em 1990 participou, como bandolinista, do antológico show do grupo, Homenagem à Velha Guarda, no teatro Arthur Azevedo, quando, dentre outras peças, executaram a rebuscada Suíte Retratos, do genial maestro Radamés Gnattali.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa? O que te fez enveredar pelo campo da música? Nada de extraordinário na minha casa na minha infância. Minha mãe escutava muito Roberto Carlos, era uma coisa que ela fazia sempre, comprava todo ano o disco do Roberto Carlos. Papai, não, papai nunca [interrompe-se]. Depois que eu me entendi, eu questionei, queria saber por que eu tinha gosto pela música. Ele me disse que meu avô, Maximiano, tinha tocado violino. Eles eram de Viana.

Então você não tem uma memória musical mais profunda da infância? Não, a minha lembrança mais longínqua de música é que todo ano, em frente à minha casa, brincava o Boi [de Orquestra] de Rosário. Aquilo realmente me deixava [interrompe-se novamente]… era semelhante ao que é hoje, o Boi, a Catirina, as índias todas enfeitadas. Depois disso eu fiz o primário ali no Monte Castelo, no Grupo Escolar Estado do Piauí, até aí também não tinha nada a ver com música. O lance surgiu quando eu fiz uma espécie de vestibular para entrar para a Escola Técnica, um exame de admissão. Eu fui pra Escola Técnica, lá tinha ginásio na época, eu fiz o ginásio industrial e o curso técnico em eletromecânica. O ginásio eram quatro anos e o curso técnico três anos. No meio do ginásio eu entrei para a banda marcial, fui tocar tarol. Estudei com o mestre da banda, Manoel Ferreira, o nome dele. Conheci muita gente lá, hoje são músicos, tipo Camilo Mariano [baterista], foi contemporâneo meu, conheci Pipiu [Arlindo Pipiu, multi-instrumentista], também tocava tarol na banda, Nato Araújo [violonista], todos tocavam na banda. Quando eu estava na banda marcial – a Escola Técnica tinha duas bandas, uma marcial e uma musical –, eu recebi um convite para participar da banda musical tocando tarol. A musical era mais orquestrada, mas tinha uma parte percussiva, era um tarol, um bumbo e um surdo. Aí o tarolista estava saindo da Escola e eu recebi o convite para ir para lá. Só que para tocar tarol na banda musical tinha que aprender música, não era como na marcial que era só meter a vareta. Lá eu tinha que ter a partitura e ir pela partitura. Aí eu fui obrigado pelas circunstâncias a aprender música, eu estudei com João Carlos Nazaré [maestro], o pai da Alcione [cantora], ele era o mestre da banda. Ele era secundado por Nonato, o Mestre Nonato do Conjunto, então eu estudei com os dois. Lá eu aprendi a ler partitura, que é o grande lance.

O maestro João Carlos era muito exigente? Super-exigente! Durão! Primeiro que ele era militar. Meu amigo, se na marcial era dureza, na musical era muito mais.

E Nonato, era mais suave? Nonato era. Os alunos iniciantes recebiam a primeira dura com João Carlos, só para saber como era. Depois ele não perdia tempo com iniciantes, ele jogava pra Nonato. Na musical eu conheci Zé Américo Bastos [multi-instrumentista], Pinheirinho, Chico Pinheiro [clarinetista, ele chama-o inicialmente pelo apelido], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], tudo tocava na banda na minha época de Escola Técnica. Aí foi, o lance da música começou aí nessa história.

Além de músico você tem outra profissão? Eu fiz a Escola Técnica, fiz o curso de eletromecânica. Ao final do curso técnico eu fiz vestibular para Engenharia Mecânica, na época era a FESMA, Federação das Escolas Superiores do Maranhão. Era lá na UFMA, a UFMA cedia um prédio e a FESMA funcionava lá, engenharia mecânica, civil, agronomia, se não me engano tinha outros cursos. O curso de engenharia mecânica são cinco anos, eu não cheguei a completar. Eu estava no 10º. período eu passei no concurso do Correio, fui fazer um curso em Brasília, passei dois anos em Brasília, [fazendo o] curso superior de Administração Postal, que existia, hoje mudou, mas na época era a Escola Superior de Administração Postal, voltada para a área específica dos Correios. Hoje é o que eu sou, Administrador Postal dos Correios.

Você já tem quanto tempo de Correio? Eu entrei nesse curso em 1979, praticamente 35 anos. Já me aposentei pelo INSS, mas continuo trabalhando.

Como continuou sua trajetória na música até chegar ao bandolim? Aprendi a ler partitura, mas pela circunstância do vestibular eu larguei essa coisa de banda musical. Mas a partitura é fundamental na história. Saí da Escola [Técnica] e entrei na Escola de Engenharia. Lá eu conheci outras figuras importantes na minha vida musical. A primeira, Joãozinho Ribeiro [poeta e compositor], foi meu colega de turma. Teve outras pessoas importantes, Natan Souza, o irmão dele, Naassom Souza, é delegado de polícia hoje, Oder Lima. De outros cursos eu conheci Adelino [Valente, pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], fazia engenharia civil, era mais adiantado do que eu, já estava quase se formando. Eu entrei na Engenharia em 1975. Em 76 uma tia minha, Lili, viajou de férias para o Rio de Janeiro e de lá ela trouxe um violão de presente por eu ter passado no vestibular [risos]. Até hoje eu lembro a marca desse violão: Rei dos Violões, mas era um violão “peba” [risos]. Foi com esse que eu aprendi tudo, um violão de cordas de aço. Joãozinho já era músico, já tinha suas composições. Ele foi a primeira pessoa a afinar meu violão. Eu sabia ler música, mas não me toquei que eu sabia ler partitura. Joãozinho foi lá em casa, afinou o violão e me deu o conselho: “troca essas cordas, cordas de aço, tem que ser corda de nylon”. Eu ia comprando revistas, chamadas “vigu”, violão e guitarra, de cifra. Eu ia muito para a casa de João, trocar ideia, fazíamos o curso juntos, ele morava no Desterro, um casarão lá. Um dia ele me disse: “rapaz, Jansen, eu vou te dar um negócio que eu tenho guardado há muitos anos, eu estou vendo que tu estás gostando, tu te vira”. Ele foi lá e buscou um método de violão clássico, de um autor chamado Mateo Carcassi. Era uma cópia, até hoje eu tenho, não sei onde está, eu tenho muita coisa guardada. Quando eu folheei me veio a história das partituras. Preciosidade, eu me passei para esse método. Se você sabe ler partitura você não precisa de professor. Os métodos vêm praticamente como uma receita de bolo. Vem até a posição dos dedos da mão esquerda, 1, 2, 3, 4, a posição dos dedos da mão direita, P, I, M, A. Eu devorei o método todinho, nessa época eu já morava no Santa Cruz. Eu me lembro que minha mãe dizia: “menino, tu é só com esse lengo, lengo, lengo, não sai nada, eu não entendo nada do que tu estás fazendo” [risos], até o dia em que eu consegui tocar uma música pra ela, “ah, agora tu sabe tocar”.

E o bandolim? Aprendi a tocar violão erudito, partitura e tal, depois eu fui comprando outros métodos, outras coisas. Aqui em São Luís, na época, era muito difícil. Hoje eu acho até que não, diante da internet, tem tudo, tudo de graça, é muito mais fácil. Eu aprendi violão, fazia engenharia, era professor de matemática e física, ensino médio, ensinava particular, ganhava meu troquinho, comprava meus discos, música clássica, Segovia [Andrés Segovia, violonista espanhol], coisas difíceis de encontrar aqui em São Luís. Comecei a gostar de me envolver com o samba, escutar Martinho da Vila, Paulinho da Viola, o contato com Joãozinho [Ribeiro], Chico Buarque. Na época existiam os acordes naturais, o cara que estava mais desenvolvido só tocava em dissonância, coisas mais elaboradas. Joãozinho já estava nesse nível, ouvia muito Chico Buarque, Bossa Nova. O irmão de Natan [Souza] convivia com a gente, me deu um cavaquinho. Aí, violão clássico, partitura, cavaquinho, Brasileirinho [choro de Waldir Azevedo]. Brasileirinho me abriu as portas. Tinha um programa na TV Educativa, era um noticiário, mas a música de abertura, o pano de fundo, era Brasileirinho. Só que não tocava toda, aquilo me deixava doido. Tinha um ceguinho que tocava isso, na porta da Livraria ABC [hoje extinta], eu dava uma moedinha e o ceguinho tocava. Eu fiquei com esse cavaquinho, tinha que tirar de ouvido a música. Encontrar um disco de Waldir Azevedo, nem se fala, e partitura ainda menos [o bandolinista posa para fotos tocando o instrumento; a sonoridade é elogiada pelo chororrepórter]. Esse bandolim, eu vou te contar a história dele, eu não sei se tu vais conseguir ler aqui [aponta para o interior do instrumento], Tércio Ribeiro. Esse cara é quem faz o bandolim de Hamilton de Holanda. Eu fiz o concurso pro Correio e fui morar em Brasília, dois anos, de 1979 a 81. Coincidentemente Natan e Naassom já tinham ido na frente fazer esse mesmo curso. Natan tocava violão, eu tocava cavaquinho e violão, tinha o movimento do choro, a gente fazia grupo de choro lá em Brasília. Comprei centenas de partituras, centenas de discos, praticamente tudo de Jacob. No último semestre do curso, o cavaquinho não estava mais me satisfazendo, comprei um bandolim. Aí o bandolim entrou na minha vida.

Capa da primeira edição de “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto. A obra foi relançada pela Funarte em 2009. Reprodução
Reproduzido de pensario.uff.br

Eu gostaria de falar um pouco dessa relação antiga que os Correios têm com o choro. Você meio que recupera isso em sua vida. O Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, era carteiro, autor de um livro chamado O ChoroEsse livro, se você for pesquisar, praticamente 60% dos músicos eram oriundos dos Correios. Praticamente toda folha que tu abres, fulano de tal, Correios.

Teus pais nunca implicaram com suas escolhas musicais quando você era jovem? Não, por que praticamente a minha carreira fora da música é exemplar. Eu era aluno primeiro lugar no primário, ginásio, no científico [os atuais níveis fundamental e médio]. Não implicaram, passei em vestibular, concurso. A minha parte eu estava fazendo. A música nunca foi profissional, eu nunca levei para o lado profissional.

Se você fosse eleger os seus principais mestres no bandolim, na música, quem figuraria nesta lista? Você tem um pouco de autodidata, mas tem sempre alguém que é uma referência importante, fundante, de nosso aprendizado. Eu reputo Joãozinho Ribeiro como uma pessoa muito importante. Se ele não tivesse afinado meu violão talvez eu tivesse desistido. É também uma questão de ouvir: Jacob [do Bandolim] é fundamental não só para os bandolinistas, mas para qualquer músico. Os músicos que conhecem Jacob se apaixonam. Um rapaz também muito importante foi o Marcelo [Moreira, violonista, fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Quando eu voltei de Brasília, eu já tocava, mas queria fazer Escola de Música. Eu ficava um pouco acanhado, a Escola era ali no Monte Castelo, perto do Aldenora Belo [hospital especializado em tratamento de câncer], uma mansão, na frente tinha uma estátua de uma águia. Era Sinhô [João Pedro Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], era Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], e eu “aí eu não entro” [risos]. Depois foi lá para a Rua da Saavedra [Centro]. Aí quando eu voltei de Brasília, já era 1983, mais ou menos, eu consegui me matricular e fui estudar com Marcelo. Aí quando eu toquei, Marcelo disse “não, rapaz, eu não tenho nada para te ensinar” [risos]. Eu frequentei diversos semestres e fiz uma amizade muito grande com ele. Marcelo era amigo de Joãozinho, ele soube que eu era amigo de Joãozinho, a amizade cresceu. Inclusive me ajudou a fundar o Instrumental Pixinguinha.

Você nunca viveu de música? Não. Já ganhei algum cachê, até com choro. Tinha um regionalzinho, eu, Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013].

De que grupos musicais você fez parte? Quando eu voltei de Brasília, em 1981, “rapaz, eu tenho que formar um grupo aqui”. Convidei Joãozinho, Natan, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], tinha um primo meu que tocava pandeiro, já faleceu. “Vamos fundar um grupo de choro”. Não teve nome esse grupo. Nós ensaiávamos no escritório de Natan, ele é engenheiro civil, tinha um escritório no Canto da Fabril, nós ensaiávamos lá. Joãozinho Ribeiro, [violão] seis cordas, Natan, seis cordas, Juca, cavaco, eu, bandolim, e pandeiro. Não deu certo, cada um foi para seu lado, depois eu fundei outro grupo, chamado Alma Brasileira. Era eu, Natan, Fernando Vieira [o falecido violonista Fernando Cafeteira, ex-integrante do Regional Tira-Teima], Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], cavaquinho, e Carbrasa, pandeiro. Com o Alma Brasileira nós chegamos a tocar bastante tempo. Depois se você quiser eu posso mostrar vídeo desse grupo. Depois se desfez. Depois eu fui para a Escola de Música, aí teve o Pixinguinha: eu, Solano, Marcelo, Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Paulinho da Flauta e Carbrasa. Esses eram grupos de choro. Agora eu fiz parte também de grupos de samba. Lá no Correio mesmo eu fundei o Arco Samba, com funcionários do Correio. Eram funcionários do Correio e pessoas que eu convidei. Éramos eu, cavaquinho, Quirino, banjo, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], diretor da Escola de Música, era regente do coral do Correio, violão, aí tinha Bento, Carbrasa, Josebel, faziam parte desse grupo de samba. Participei também com esse pessoal aí do Remandiola, Força Maior.

Depois você acabou virando uma lenda ao desaparecer do cenário do choro, do samba, musical enfim. O que aconteceu? Na verdade depois do show [o mítico show Homenagem à Velha Guarda, do Instrumental Pixinguinha, no Teatro Arthur Azevedo] eu não toquei mais em público, mas continuo tocando. Em 1990 foi o auge do Instrumental Pixinguinha. Eu achava naquela época que ali era o ponto de partida, dali nós iríamos ganhar o mundo. Depois do show parece que cresceu, ninguém mais queria ensaiar. Marcava ensaio, eu chegava lá, aparecia eu, Solano, Marcelo, dois, três não apareciam. Marcava outro ensaio, a mesma coisa. Aí eu digo, “rapaz, quer saber de uma coisa? Eu tou perdendo meu tempo aqui”. O trabalho todo montado, tudo feito, “eu não preciso disso aqui pra sobreviver”. O meu deleite é só pegar uma partitura, um bandolim e tirar qualquer música. Isso me satisfaz. Tanto que larguei, aí fui entrar nesse negócio de samba. Vamos tocar Fundo de Quintal, Grupo Raça, Roque do Cavaco, de 20 sambas que a gente tocava, tocava um chorinho. Mas eu continuo com a amizade com todas essas pessoas.

E em rodas domésticas? Ah, todo final de semana eu tou na casa desse aqui [aponta para um irmão que acompanhou a entrevista], fazendo um choro, tomando uma cervejinha. Volta e meia Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], que era cavaquinista do Pixinguinha, aparece, Solano tem uns anos que não aparece, mas de vez em quando aparecia. Eu continuo, eu estudo permanentemente.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Desses grupos qual o que você participou por mais tempo? E o mais marcante? O mais marcante foi o Pixinguinha, nós fizemos um trabalho à altura da Camerata Carioca, foi um trabalho naquele nível, música camerística, de arranjo, tudo, um negócio elaborado. Eu sei o que é vivenciar um grupo, sei as dificuldades, os pontos positivos e os pontos negativos. Eu tive a maior alegria no samba.

Além de instrumentista que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho choros, tenho cerca de 12, valsas e choros.

Você já participou de algum disco? Eu gravei, mas não chegou a ser lançado. A minha gravação, o disco saiu. Logo depois desse show do Pixinguinha, Marcelo fez a direção musical de um disco de Rosa Reis. Nesse show a gente tocava uma música de Joãozinho Ribeiro chamada Estrela. Rosa gravou no disco dela e tinha uma participação do bandolim. Eu fui ao estúdio, gravei, o conjunto todo foi gravar. Só que nessa gravação houve um problema técnico. Depois de gravado disseram que o bandolim estava desafinado. Me chamaram para refazer, eu disse “rapaz, eu não vou refazer” [risos]. E recentemente Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] me chamou para participar de um cd que ele está produzindo com músicas autorais. Eu fui lá há uns meses e botei uma parte de bandolim.

O que significa o choro? O que é essa música para você? O choro é a verdadeira música brasileira. A essência da música brasileira é o choro. Você às vezes escuta, ontem mesmo eu estava escutando, me lembrando desse compromisso da entrevista, eu estava escutando Joãozinho tocar uma música dele chamada Saiba, rapaz. Aparentemente se pensa que é um samba, mas na verdade é um choro. Essa gravação que eu estava escutando, é uma gravação feita na TV Educativa, ele, Raul do Cavaco, Mascote [o multi-instrumentista Antonio Sales Sodré] no violão de sete cordas e Jeca no pandeiro. É um choro! Ele fez sem saber que estava fazendo choro. Está na essência do brasileiro.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Como você vê as novidades, os novos nomes, os novos estilos? Acompanho, sim. Eu vejo como uma evolução natural. Em 2014 já não se pode mais dizer que Hamilton de Holanda é novidade. Ele já tem quase 30 anos de carreira. Você olha agora, aqui mesmo, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] fazendo coisas diferentes, e não são coisas que você não possa considerar como choro. Isso tem que ser compreendido, respeitado e admirado. Eu vejo com bastante satisfação.

Quem são os grandes nomes de destaque, hoje, além de Hamilton? Bandolinista tem o Danilo Brito, velocidade, mas não só, uma velocidade cristalina. Rogério Caetano, violão sete cordas fenomenal. Jorge Cardoso, morou inclusive aqui, trabalhou no Correio, convivi um ano com ele aqui, é um baita bandolinista, fez curso na Itália.

E o choro no Maranhão? Como você avalia, apesar da falta de ensaio [risos]? Eu acho que está um pouco parado, eu não vejo muita coisa, fora o teu programa [o dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Assim como o samba, o choro tem essas idas e voltas. O Maranhão tem quatro pessoas que eu reputo como fundamentais: Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], é um cara que praticamente todo mundo passou pelas mãos dele, Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], Joaquim [Santos] e João Pedro [Borges]. Por coincidência são todos violonistas. Esses caras são fundamentais. Com Ubiratan eu cheguei a fazer um trabalho, Velhos Moleques, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis [compositores]. Ubiratan dirigiu esse show e nós íamos ensaiar na casa de Vieira. Eu participei como bandolinista, Ubiratan escreveu os arranjos. Depois ele me deu os choros que ele tinha na época, eu cheguei a gravar na TVE um choro dele chamado Cabeça de choro.

Você se considera um chorão? Na contracapa do LP Vibrações, assim Jacob fala sobre Dino Sete Cordas: “Não é chorão autêntico porque não chega atrasado, raro beber e adora ensaiar”, então, sob a ótica de Jacob, também não sou um chorão autêntico [risos]. Mas é óbvio que Jacob estava de gozação com Dino, da mesma forma que eu comigo. É claro que me considero um chorão porque vivo, pesquiso, estudo, escuto e pratico essa música há quase 40 anos.

Agora é pra valer!

[release]

TEMPORADA CELEBRA 60 ANOS DE JOÃOZINHO RIBEIRO*

Compositor realizará shows bimestrais até o fim de 2015. Apresentações serão seguidas de sessões de autógrafos do disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece neste sábado (11), no Bar do Léo

Divulgação
Divulgação

 

Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade neste recém-iniciado abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).

Milhões de Uns - Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução

É que Milhões de Uns não é apenas o título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.

A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João (a faixa-título), Milla Camões (Coisa de Deus), Célia Maria (Saiba, rapaz), Zeca Baleiro (Palavra e Erva santa), Chico César (Anonimato e Erva santa), Alê Muniz (Planos urbanos), Lena Machado (Rua Grande), Chico Saldanha (Matraca matreira) e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.

Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).

O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).

Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.

Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia neste sábado (11), às 21h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará alguns bares e outros logradouros ludovicenses. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows bimestrais até o fim do ano – a empreitada tem apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func).

Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Livraria Poeme-se (Praia Grande), Banca do Dácio (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).

Serviço

O quê: show Milhões de Uns. Lançamento do cd homônimo.
Quem: Joãozinho Ribeiro e banda. Participações especiais: Célia Maria e Chico Saldanha.
Quando: dia 11 de abril (sábado), às 21h.
Onde: Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais).
Quanto: entrada franca.
Apoio: Fundação Municipal de Cultura (Func).

*Este texto é uma versão atualizada de um release postado anteriormente.

Adiado show de Patativa

Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck
Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck

 

O show que a compositora Patativa apresentaria neste sábado (14), no novo Barulhinho Bom (Praia Grande), foi adiado. Maria do Socorro Silva, a Patativa, “foi acometida por uma virose e não teria condições de cantar”, informou a produção.

Em novembro passado ela lançou seu disco de estreia, Ninguém é melhor do que eu, em show no Porto da Gabi. A ideia da apresentação cancelada era proporcionar ao público ludovicense nova oportunidade de vê-la no palco. Mês que vem ela deve realizar uma turnê no circuito Sesc/SP, com produção de Zeca Baleiro.

Em momento oportuno, a produção informará nova data para o show de Patativa, o que este blogue terá o maior prazer em divulgar.

Março fazendo água – É o segundo show adiado em São Luís este mês. Sexta passada (6), o lançamento de Milhões de Uns – vol. 1, de Joãozinho Ribeiro, que inauguraria uma temporada do compositor, anunciado para o Bar do Léo, não aconteceu. A produção do compositor também deve anunciar a nova data de estreia em breve.

Adiado show de Joãozinho Ribeiro no Bar do Léo

A temporada de shows de lançamento de Milhões de Uns – Vol. 1, do compositor Joãozinho Ribeiro, prevista para ter início nesta sexta-feira (6), no Bar do Léo, conforme anunciada em post anterior, foi adiada por motivo de força maior. O blogue informará a nova data (e local, caso haja alteração) em momento oportuno. Joãozinho Ribeiro e sua equipe de produção e assessoria pedem desculpas por eventuais transtornos e agradecem a atenção e presença em nova oportunidade.

Temporada celebra 60 anos de Joãozinho Ribeiro

[release]

Compositor realizará shows mensais até o final do ano. Turnê alcançará São Luís e municípios do interior. Nas ocasiões será lançado o disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece nesta sexta (6), no Bar do Léo

Milhões de Uns - Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução

 

Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade no próximo abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).

É que Milhões de Uns não é apenas título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.

A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João, Milla Camões, Célia Maria, Zeca Baleiro, Chico César, Alê Muniz, Lena Machado, Chico Saldanha e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.

Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).

O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).

Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.

Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia nesta sexta-feira (6), às 20h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará por alguns bares e outros espaços ludovicenses e deve descer também a alguns municípios do interior. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows mensais até o fim do ano.

Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Banca do Dácio (Praia Grande), Livraria Poeme-se (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).

Obituário: Marco Cruz

Foto: Fernando Motta (facebook)
Foto: Fernando Motta (facebook)

Faleceu ontem (10), vítima de um câncer no estômago, o compositor Marco Cruz. Soube ao ligar o rádio para ouvir o Santo de Casa, na Universidade FM (106,9MHz). Não entendi direito – ou não quis acreditar – e liguei para a produção perguntando.

Tocaram duas músicas suas, em sequência: Bangladesh, em que ele divide os vocais com Mano Borges na faixa-título do disco que este lançou há aproximadamente 20 anos – justamente a primeira vez que ouvi sua bela voz e falar em Marco Cruz – e a toada Moderna Mocidade, do Boi da Mocidade de Rosário, grupo para o qual forneceu outras crias para o repertório.

As últimas menções ao nome de Marco Cruz em minha memória estão ligadas aos shows de gravação – de que integrei a equipe de assessoria de comunicação – e lançamento do disco ao vivo Milhões de uns, estreia de Joãozinho Ribeiro no mercado fonográfico. Este resgatou do cofo de parcerias Cidade minha, que interpretou junto com o Coral São João, e Tá chegando a hora, marchinha carnavalesca que encerra o disco fruto dos shows, em que, com todos os convidados, Joãozinho canta: “tá chegando a hora/ de anunciar a despedida”.

Há algum tempo não surgiam notícias que relacionassem o recém-falecido compositor, também técnico em informática, à música. No entanto, o também parceiro Zé Lopes anunciou que Marco Cruz deixa inacabado um disco em que estava gravando Salmos que havia musicado.

Sopa de letrinhas

Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação

 

É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.

Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.

A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.

O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução

O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.

Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.

É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.

Infância. Capa. Reprodução

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.

Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?

A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.

O livro das ignorãças. Capa. Reprodução

Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.

Sandiliche. Capa. Reprodução

Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.

Cazuza. Capa. Reprodução
Isabel Comics! Capa. Reprodução

Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.

Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.

Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!

[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]