Tralha musical na trilha da cidade

[a convite de Ronaldo Rodrigues escrevi o release oficial do Chorinho da Tralha, grupo que vem fazendo e acontecendo na cena musical da ilha]

Foto: divulgação

Tralha é como costumeiramente chamamos tudo aquilo que não serve mais, que está ali pelos cantos apenas ocupando espaço. A expressão empresta nome à Feira da Tralha, charmoso misto de sebo e bar instalado no Edifício Colonial, pela Rua Godofredo Viana, quase esquina com Sol, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, no Centro de São Luís do Maranhão.

Ali, a tralha que já não serve a alguém pode passar a servir a outros interessados, entre livros, cds, dvds e vinis. Na mão de outro, a tralha de um pode virar ouro puro. Foi neste ambiente, entre paralelepípedos, gente e histórias que floresceu o Regional Chorinho da Tralha.

A partir do retorno de Ronaldo Rodrigues (bandolim) à ilha natal, após temporada no Rio de Janeiro, se aperfeiçoando no instrumento, ele reuniu na mesma formação os talentos de João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta) – que cursou mestrado em Belo Horizonte/MG –, Gabriela Flor (pandeiro) – paulista radicada na Ilha – e Gustavo Belan (cavaquinho) – mineiro que fixou residência na capital maranhense. Os três primeiros constam da galeria da Chorografia do Maranhão, que compila 52 entrevistas com instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão, livro de Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e Zema Ribeiro.

O grupo começou a sentar praça por ali aos domingos, na virada da manhã pra tarde. Não tardou para o lugar virar point, parada dominical obrigatória. Lugar de re/encontro de amigos, familiares, de conhecer gente nova, de fazer novos amigos, na comunhão que só a música proporciona.

Correndo o chapéu, ajudando a superar o velho clichê de que “choro é música de velho” – portanto, “tralha” –, o Chorinho da Tralha renova o repertório de nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga, Honorino Lopes e muitos outros, em programa regado a cerveja gelada, mocotó, feijoada, sururu e bode no leite de coco.

O Chorinho da Tralha, formado em sua maioria por músicos que acabaram por se tornar maranhenses por sua paixão pelo lugar, ou que saíram e voltaram ao Maranhão de origem, renovam a importância de uma autêntica roda de Choro, com sensibilidade na escolha do repertório, qualidade na execução e gentileza no atendimento aos pedidos por vezes embriagados.

Do palco original, a calçada do misto de sebo e bar que acabou por lhes emprestar o nome, o Chorinho da Tralha começa aos poucos a alçar outros voos. A depender da soma dos talentos individuais, do carisma e da devoção aos grandes mestres desta grande música, certamente vão longe. É pelo que torcem os habitués da Feira da Tralha. Com uma condição: que sempre estejam de volta aos domingos!

Choro e Praia Grande: patrimônios nossos

Foto: Rose Panet

 

O Instrumental Pixinguinha se apresenta hoje (22), às 19h, no Restaurante Flor de Vinagreira, na Rua da Estrela, Praia Grande – o local é o antigo Antigamente e piadas internas em grupos de whatsapp acendem debates sobre o nome do bairro, tal qual citado, e o nome Reviver, pelo qual também ficou conhecido, desde um inacabado projeto de revitalização que já conta mais de três décadas.

Formado por professores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), vizinha de rua do restaurante, a ideia do Instrumental Pixinguinha é iniciar uma temporada, sentando praça no novo point todas as segundas-feiras – o Expoentes da Música, às quintas-feiras, no mesmo horário, com a dj Vanessa Serra, me parece já estar firmado.

O Pixinguinha é formado por Domingos Santos (violão sete cordas), João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Nonatinho (pandeiro) e Raimundo Luiz (bandolim). O grupo toma emprestado o nome de Alfredo da Rocha Viana Filho, cuja data de nascimento (em 1897) foi transformada em Dia Nacional do Choro – pela lei federal nº. 10.000, de 4 de setembro de 2000, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. No Maranhão, a lei 10.996, de 7 de dezembro de 2018, sancionada pelo governador Flávio Dino, institui o Dia Estadual do Choro, a ser celebrado na mesma data.

É, portanto, simbólica a data escolhida pelo Instrumental Pixinguinha para esta apresentação – que esperamos marcar o início de uma longeva temporada: poderá ser considerada a abertura de uma semana de comemorações do Dia Nacional e Estadual do Choro, que amanhã (23), às 19h, como já é tradição, terá grande festa, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), sendo o grupo o anfitrião, mas com diversos convidados se apresentando ao longo da noite e a homenagem ao cavaquinhista Paulo Trabulsi – único remanescente da primeira formação do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

A semana deve brindar chorões iniciados e neófitos com outras iniciativas, com palcos, grupos e instrumentistas distintos, atestando a relevância de São Luís como praça brasileira de choro, ao lado de cidades como Brasília/DF, Fortaleza/CE Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ e Santos/SP, entre outras.

Que a estas iniciativas se somem outras, num esforço de preservação e ocupação do centro histórico ludovicense. Afinal de contas é sempre mais fácil e cômodo apenas reclamar, enquanto empresários optam por abrir negócios do outro lado da ponte e grupos por tocarem em locais mais chiques ou “blindados”. Choro e Praia Grande são patrimônios nossos e patrimônios não se fazem apenas com pedras, mas sobretudo com gente.

Um sábado chuvoso e choroso

Foto: Rose Panet

 

Apesar do clima chuvoso, um bom público prestigiou a apresentação do Instrumental Pixinguinha, ontem (24), no Auditório Itapecuru do Centro Cultural Vale Maranhão (Rua Henrique Leal, 149, Centro).

João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Raimundo Luiz (bandolim), Domingos Santos (violão sete cordas) e Nonatinho (pandeiro) tinham, todos, diante de si, o Caderno de partituras – Choros maranhenses, organizado pelo flautista Zezé Alves, membro emérito do grupo, também professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), em cujos corredores o Pixinguinha se formou ainda no final da década de 1980.

“O único da formação original é Domingos. Ele costuma dizer que é o dono do conjunto”, gracejou Juca, mantendo a marca bem humorada das apresentações do grupo. Mais adiante, brincou com a plateia: “vocês já repararam que tem dois caladinhos aqui, não é? Mas eles vão falar já já”, disse, referindo-se a Domingos e Nonatinho, no que o violonista retrucou: “tu já falou o que eu ia falar”, referindo-se ao fato de Juca ter feito os comentários anunciando o choro Miritibano, de sua autoria, a segunda da apresentação. O título é o gentílico de Miritiba, antigo nome do município de Humberto de Campos, onde o autor nasceu.

João Neto, Juca e Raimundo Luiz revezavam-se nas explicações entre as músicas, ora comentando autorias, ora contando histórias sobre as composições, determinados contextos, dando um ar didático ao concerto. “Muito obrigado pela presença de todos vocês, apesar do clima chuvoso”, agradeceu Juca. Neto emendou: “é um sábado chuvoso e choroso”.

A apresentação do Pixinguinha, penúltima da temporada 2017 do programa Pátio Aberto, do CCVM (provavelmente transferida de lugar em virtude da chuva), foi aberta com Nova república, do saudoso advogado e cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, também gravado pelo grupo em Choros maranhenses [2006]. Se o Regional Tira-Teima é o mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, o Pixinguinha foi pioneiro: seu disco de estreia foi o primeiro inteiramente dedicado ao gênero por estas plagas.

O Caderno de partituras por que se guiavam ontem é uma espécie de ampliação do repertório do disco, este composto por choros autorais e choros de autoria de mestres do gênero, já então saudosos, caso por exemplo de Um sorriso, de autoria do rosariense Nuna Gomes.

Chorinho da Beatriz (Domingos Santos) “foi a música com que participamos da Mostra de Música Sesc Onde Canta o Sabiá, apesar de ser uma música instrumental”, revelou João Neto. Na sequência foi a vez de Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense). “Cearense era sobrenome mesmo, ele era maranhense”, riu Juca, cujo cavaco evocava uma viola, dando certo ar caipira à execução da música. No meio dela ele soltou um “vocês!”, encorajando o público a cantar o refrão: “não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão”. “Com um coral desses, a gente nem precisa de cantor”, elogiou o cavaquinhista.

Após tocarem Viajando para Carajás (Zé Hemetério), Juca revelou terem alterado a ordem do set list. “Era para termos tocado a que vamos tocar agora, os nomes das cidades são até parecidos”, fez a plateia rir, ao anunciar De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) e perguntar para João Neto: “de quem é essa música?”, ao que o flautista respondeu, rindo também: “de titio” – para quem não sabia, sim, João Neto é sobrinho de Josias Sobrinho.

Juca derreteu-se em elogios ao choro Elegante (Raimundo Luiz), cheio de nuances. “É uma das que eu mais gosto de tocar”, emendou João Neto, no que o cavaquinhista relembrou o Prêmio Universidade FM de melhor música, conquistado pela composição em 2006, ocasião em que o quinteto recebeu também o troféu de melhor disco instrumental. Cabe lembrar que durante muitos anos foi o Pixinguinha também o responsável pelo espaço dedicado ao choro na noite ludovicense, quando ocupavam semanalmente o palco de um bar, hoje extinto.

Ontem ao luar (Catulo da Paixão Cearense) antecedeu Lembro-me de você assim (Juca do Cavaco). “Essa música eu fiz quando a gente estava gravando o disco. Houve uma ocorrência na família, meu sogro faleceu. Era uma pessoa animada, dançante, eu sempre lembro dele desse jeito”, revelou o autor. “É difícil falar mesmo”, completou, a emoção travando a garganta, o sentimento percebido pelo público em comunhão.

A sequência formada por Candiru (Zezé Alves e Omar Cutrim) e Choro axixaense (José Maria Fontoura) garantiu também um passeio pela brejeirice e malemolência do lelê e do bumba meu boi de orquestra, manifestações culturais típicas da região do Munim, particularmente os municípios de Rosário e Axixá, num diálogo saudável entre o choro e estes ritmos.

Catulo da Paixão Cearense ainda voltaria ao repertório, com Flor amorosa (parceria com Joaquim Callado), que antecedeu Chora cavaco (Juca do Cavaco). Antes de tocarem a saideira, o grupo mais uma vez agradeceu a presença do bom público. João Neto anunciou: “para fechar, uma de Cesar Teixeira. Esse choro é a cara dele, enrascado, cheio de passagens harmônicas e melódicas complexas”. Terminaram a noite, após pouco mais de uma hora de apresentação, com Conversa fiada.

A certa altura, Juca havia gracejado que o grupo havia ensaiado seis meses para aquela apresentação. “Seis meses e um dia, não vamos mentir por um dia”, emendou João Neto, também rindo. Brincadeiras à parte, o fato é que poucas vezes, por aqui, o choro foi tratado com tanto esmero, em execuções impecáveis. Uma apresentação como a de ontem demonstra que também em se tratando do gênero o Maranhão não deve nada a outras praças brasileiras.

Um concerto brasileiríssimo

A pianista Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha. Foto: divulgação

 

Um bom público se fez presente ontem (7) ao Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde, pouco depois das 18h aconteceu mais uma edição do projeto Concertos Sesc Partituras.

Na ocasião as atrações eram a pianista Rose Mary Fontoura e os bambas do Instrumental Pixinguinha: João Neto (flauta), Nonatinho (pandeiro), Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas).

O grupo já existe há 27 anos, embora sua formação tenha variado desde então e a história é bastante conhecida: formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o Instrumental Pixinguinha foi o primeiro grupo maranhense a dedicar um disco inteiramente ao choro: Choros maranhenses (2005) reúne composições de seus integrantes e pérolas de mestres já falecidos, todos nascidos no Maranhão.

O repertório do concerto foi executado sem amplificação, apenas com o som natural dos instrumentos, como é a proposta original de projetos como o Concertos Sesc Partituras e o Sonora Brasil. Dividido em duas partes, a apresentação, no primeiro momento, revezava os integrantes do Instrumental Pixinguinha em duos com a também professora da Emem Rose Mary Fontoura, como na valsa Zinha (Patápio Silva), que abriu o espetáculo com ela acompanhada pela flauta de João Neto – na sequência, outra composição de Patápio Silva com a mesma formação, Serenata d’amore.

Raimundo Luiz (bandolim) e Domingos Santos (violão sete cordas) executaram Rios (Paulinho Martins). “Carlos Gomes, um dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos”, reverenciou o professor Raimundo Luiz, ao duetar com Rose Mary Fontoura em Al chiaro di luna.

Depois foi a vez de ela ficar sozinha no palco e interpretar duas peças de “uma mulher que eu admiro bastante, uma mulher à frente de seu tempo”, como enfatizou ao anunciar Chiquinha Gonzaga e suas Atraente, mais pulsante, e Tamoio, de andamento mais lento, como ela mesmo indicou – a confessada influência é perceptível na maestria de suas execuções.

O dueto de bandolim e violão sete cordas se repetiu no baião Minha terra, de Jorge Cardoso – bandolinista que é uma das atrações da temporada 2017 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, cuja edição inicial acontece no próximo dia 20 (sexta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt, no mesmo Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, tendo como atrações o dj Pedro Sobrinho, o Regional Deu Branco e o encontro de gerações de Josias Sobrinho e Tiago Máci, voltamos à nossa programação normal.

Outra peça de Chiquinha Gonzaga encerrou o primeiro bloco da apresentação: o Candomblé, de visível influência africana, executada por Rose Mary Fontoura (piano), Nonatinho (pandeiro) e João Neto (flauta e pífano).

A segunda parte do concerto concentrou-se em uma pequena amostra do repertório de Choros maranhenses, único disco do Instrumental Pixinguinha lançado até aqui. “Estas músicas, nossas, ainda não estão no site do Sesc, mas nós já estamos providenciando. Aí qualquer um vai poder executar”, anunciou Raimundo Luiz, referindo-se ao acervo do site Sesc Partituras, em que está disponível para download a maior parte das peças executadas no concerto de ontem.

O quinteto começou por Lembro-me de você assim, feita por Juca do Cavaco em homenagem a seu falecido sogro – ele cumprimentou a esposa, na plateia, antes do início da execução –, tocando, na sequência, Miritibano (Domingos Santos), choro autobiográfico – o título é o gentílico de Miritiba, hoje Humberto de Campos, no interior do Maranhão, terra natal do autor –, e Elegante (Raimundo Luiz), antes da qual o pedagógico Juca do Cavaco fez deferências à Rádio Universidade FM, “a 106,9”, enfatizou a frequência, em cujo prêmio anual a música foi vencedora há alguns anos e por cuja frequência vai ao ar, nas manhãs de domingos, o Chorinhos e Chorões, do qual Juca é ouvinte assíduo e virou bordão, apresentado por Ricarte Almeida Santos, “um dos maiores batalhadores pelo choro em nosso estado”.

Talvez o momento de maior emoção do concerto tenha sido a execução, pelos seis músicos, do belo Choro axixaense, do compositor José Maria Fontoura, pai da pianista e autor da melodia do hino daquele município da região do Munim – a letra do hino é da poeta Mary Silva Fontoura, sua mãe.

Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha foram aplaudidos de pé por uma plateia em êxtase. Ainda de pé, a pianista anunciou o bis: Chiquinha Gonzaga voltava a aparecer, com Gaúcho, com a pianista novamente acompanhada do grupo completo. Um fecho sublime para um concerto de repertório brasileiríssimo, que dá algumas provas a quem porventura insista em duvidar: há plateia para a música que não encontra espaço em grandes meios de comunicação; vivos ou falecidos, nossos mestres não devem nada a ninguém em termos de qualidade; e é preciso investir cada vez mais em projetos/espaços de fruição como o Sesc Partituras.

Correndo o chapéu

[release]

Campanha de financiamento coletivo lançada no último dia 1º. pretende garantir parte do orçamento para viabilizar a publicação; a outra parte do recurso está garantida através de edital da Fapema

Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos
Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos

O sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, o jornalista Zema Ribeiro e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos aprovaram, em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema), projeto que pretende publicar em livro as 52 entrevistas da Chorografia do Maranhão, realizadas pelo trio com instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão.

Porém, o recurso aprovado pela Fundação é insuficiente para as pretensões dos “chororrepórteres”, como eles se autodenominaram. “Foram mais de dois anos de trabalho árduo, publicando quinzenalmente as entrevistas em parceria com um jornal de São Luís, e o registro destas entrevistas em livro, além de uma vontade nossa, é também um desejo de pesquisadores, estudantes de música e interessados em música em geral, e em choro em particular, além dos próprios personagens da série”, revela Ricarte.

Para conseguir o que falta dos recursos para realizar seu intento, o grupo lançou uma campanha virtual de financiamento coletivo. “O crowdfunding é uma tendência mundial para a realização de projetos nas mais diversas áreas, hoje. É claro que estamos abertos a patrocinadores, a empresários eventualmente sensíveis à cultura, alguns dos quais têm colaborado para a realização dos projetos realizados por Ricarte nos últimos anos; mas se eles não se aliarem ao projeto, já estamos, literalmente, com o bloco na rua e o chapéu na mão”, comenta Zema.

A campanha, que pretende arrecadar 30 mil reais e tem dois meses de duração, foi lançada no último dia 1º. de fevereiro. “Realizamos um trabalho que buscou primar pela excelência na apuração dos depoimentos, revelando além das próprias histórias pessoais dos chorões, um pouco da própria história do choro e da música em geral produzidos no Maranhão, as dificuldades e avanços vividos pelo gênero no estado, além de a Chorografia ser também um mapeamento afetivo e sentimental de lugares que, de algum modo, têm relação com a música imortalizada por gênios como Pixinguinha e Ernesto Nazareth, entre outros. Pode parecer que estamos querendo dinheiro demais, mas queremos um livro com um padrão de qualidade, como a memória deste pedaço da história e da cultura do Maranhão merece”, defende Rivanio.

Lançamentos além da Ilha – Outra pretensão do trio – e para isso, outro projeto já está em fase de elaboração, para captação de recursos através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – é lançar o livro em praças de choro pelo país. “O Clube do Choro do Maranhão sempre buscou proporcionar o diálogo entre músicos do cenário local e do cenário nacional, e os projetos que produzimos ultimamente, movimentando a cena chorística da capital maranhense, não fizeram diferente. Nossa ideia é levar este livro à Brasília, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, garantindo a ida de um grupo de choro maranhense até cada uma destas cidades, para as noites de autógrafos”, antecipa Ricarte.

Capricho editorialChorografia do Maranhão, o livro, tem prefácio de Luciana Rabello e produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, que tem investido na produção de obras sobre a cena musical do Maranhão. A editora de Bruno Azevêdo já publicou Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, Em ritmo de seresta – Música brega e choperias no Maranhão, de seu proprietário, e O reggae no Caribe brasileiro, de Ramusyo Brasil, os dois primeiros em parceria com a Edufma.

Personagens e cenários – Para se ter uma ideia da diversidade dos entrevistados, citamos os personagens da galeria da Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes – filhos do capitão Nuna Gomes, compositor e multi-instrumentista rosariense, o violonista Bastico, Zequinha do Sax e Biné do Cavaco –; os bandolinistas César Jansen, Chiquinho França, Raimundo Luiz, Ronaldo Rodrigues, Wendell Cosme e Wendell de La Salles; o banjoísta Biné do Banjo; os cavaquinhistas Ignez Perdigão, Juca do Cavaco, Márcio Guimarães, Paulo Trabulsi, Rafael Guterres, Robertinho Chinês e Zeca do Cavaco; os flautistas Danuzio Lima, João Neto, Lee Fan, Paulinho Oliveira, Serra de Almeida, Zezé Alves; os percussionistas Arlindo Carvalho, Carbrasa, Léo Capiba [in memoriam], Luiz Cláudio, Nonatinho, Vandico, Wanderson e Zé Carlos; o pianista Adelino Valente; o sanfoneiro Rui Mário; os saxofonistas José Luís Santos e Osmarzinho; o trombonista Osmar do Trombone; o tecladista Maestro Nonato; os violonistas Agnaldo Sete Cordas [in memoriam], Celson Mendes, Domingos Santos, Francisco Solano, Giovani Cavalcanti, Gordo Elinaldo, Henrique Cardoso, Hermelino Souza, João Eudes, João Pedro Borges, João Soeiro, Joaquim Santos, Luiz Jr., Marcelo Moreira, Monteiro Jr., Turíbio Santos e Ubiratan Sousa – alguns dos listados assumem mais de um instrumento.

As entrevistas também revelam uma paisagem diversa, afetiva do choro em São Luís. A Chorografia do Maranhão visitou as residências de Adelino Valente, Arlindo Carvalho, César Jansen, dona Zelinda Lima (para entrevistar seu filho Danuzio), Gordo Elinaldo e João Pedro Borges (para entrevistar seu amigo e parceiro Turíbio Santos, que ensaiava lá, para uma apresentação em São Luís), além de Bar do Léo, Barraca Paradise, Barulhinho Bom, Brisamar Hotel, Chico Discos, ECI Museum, Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, Estúdio de Júlio (Camboa), Feira da Praia Grande, Fonte do Ribeirão, Hotel Pestana, Kumidinha di Buteko, La Pizzeria, Praça da Saudade, Praça de Alimentação do São Luís Shopping, Quitanda de Seu João (esquina das ruas do Ribeirão e do Machado, Centro), Quitanda do Jósimo (esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, Centro), Quitanda Rede Mandioca, Restaurante Chico Canhoto, Salomé Bar, Samba Sem Telhado e Sonora Studio.

Participações especiais – A série Chorografia do Maranhão contou ainda com chororrepórteres honorários: num encontro inusitado, em plena Feira da Praia Grande, o jornalista e compositor Cesar Teixeira – fundador do Regional Tira-Teima – ajudou a entrevistar Zeca do Cavaco, atualmente membro do grupamento de choro mais longevo do Maranhão; e Murilo Santos substituiu Rivanio, que não pode comparecer à entrevista com Os Irmãos Gomes no Bar do Léo.

Segunda etapa – Ricarte, Rivanio e Zema priorizam, agora, a publicação do trabalho em livro. Mas revelam uma vontade, para a qual já estão se preparando: revelar os chorões do interior do Maranhão. “Ao longo das entrevistas, diversas cidades maranhenses foram citadas como polos musicais importantes, embora praticamente desconhecidos. A Chorografia do Maranhão, por conta de todas as limitações, sobretudo pelo recurso zero que teve, ou melhor, não teve [risos], acabou se concentrando na capital e, quando entrevistou chorões radicados fora do Maranhão, foi aproveitando visitas suas à capital, por um ou outro motivo. Vamos trabalhar um projeto para garantir as viagens aos municípios do interior, as condições de trabalho, e continuar este mapeamento, do qual este livro encerra uma primeira etapa”, finaliza Ricarte.

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A herança musical de Alice Passos

Com o Maranhão e a música no DNA, a cantora e flautista Alice Passos é a convidada da última edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015. O sarau musical acontece hoje (19), a partir das 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite contará ainda com as apresentações do dj Marcelo Guzmán e do Regional Chorando Callado, que acompanhará a artista carioca.

O grupo se formou por ocasião do projeto Clube do Choro Recebe, produzido por Ricarte Almeida Santos entre 2007 e 2010, no Bar e Restaurante Chico Canhoto. João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho) – a formação para hoje –, à época eram jovens estudantes de música; hoje são dos mais requisitados e frequentes nomes em fichas técnicas de discos e shows de artistas locais e nacionais.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão, irmã da cantora e cavaquinhista Mariana Bernardes e afilhada do multi-instrumentista Egberto Gimonti. Apesar da pouca idade – 25 anos recém-completados – já é vasto seu currículo: aos oito anos entrou para os Flautistas da Pro Arte, passando em seguida a se apresentar com a Orquestra de Sopros da Pro Arte. Integrou por quatro anos a Orquestra Corações Futuristas, fundada e regida por Gismonti.

Em 2006 ela participou do disco Mario Lago – O homem do século XX. Atualmente prepara seu disco solo de estreia. A artista conversou com O homem de vícios antigos.

Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação
Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação

Homem de vícios antigos – Você é filha de maranhense e já se apresentou em São Luís diversas vezes. Qual sua relação com a cidade?
Alice Passos
– São Luís é minha segunda casa. Tenho diversos tios e primos aqui na ilha e desde que vim a primeira vez que venho pelo menos uma vez por ano. Excepcionalmente nos últimos três anos não pude vir, por isso estou muito alegre de estar voltando pra cá, onde me sinto em casa, onde danço o bumba meu boi, o tambor de crioula… Me identifico muito com a música e a culinária da cidade.

Com que sentimento você recebeu o convite para encerrar a temporada de RicoChoro ComVida em 2015?
Fiquei muito contente, pois já não vinha à ilha há três anos e estava morrendo de saudade da família, das praias, do vento, da comida…

Qual a base do repertório de sua apresentação amanhã?
Mesclei músicas que eu imagino que sejam conhecidas do público daqui e que gosto muito com músicas do repertório que venho pesquisando ao longo dos meus 10 anos de atividade como cantora

Você já conhecia os músicos do Chorando Callado? Qual o clima dos ensaios?
Conhecia o João Eudes do violão e o João [Neto] da flauta. É como se tocássemos juntos há 10 anos.

Seu disco solo de estreia, prometido para ano que vem, terá, entre compositores e participações especiais, nomes como Guinga, Paulo César Pinheiro, Francis Hime, Maurício Carrilho, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. O que significa para você o endosso de tantos nomes tão importantes para a música brasileira?
Conheço o Egberto desde criança. É meu padrinho. Engraçado que a nossa relação é muito mais pessoal do que musical, apesar d’eu ter participado da Orquestra Corações Futuristas, regida por ele, durante quatro anos. Fora o Francis, com quem encontrei poucas vezes, tenho uma forte relação de amizade e afeto com todos os outros compositores e músicos citados. Seja encontrando para tomar um chope, seja ensaiando juntos, gravando… Engraçado que, por ter uma amizade com eles há tanto tempo, acho que não tenho muita dimensão do que significa o nome deles no meu projeto. Claro que tenho consciência da importância deles pra a música brasileira, mas pra mim é muito natural tê-los no meu primeiro disco. No caso, acaba que o Yamandu e o Egberto infelizmente não puderam participar. Mas estão no disco Dori Caymmi, Guinga, Sérgio Santos e Théo de Barros. Me sinto muito honrada e agradecida pela generosidade de todos que participaram do meu disco.

Você chegou a tentar outra profissão fora da música?
Nunca! Canto desde os nove anos, tanto em show quanto em gravação.

O fato de ter nascido numa família de músicos ajudou ou atrapalhou em sua decisão de seguir a carreira musical?
Os dois. Atrapalhou no sentido que eu, por rebeldia adolescente, tentei querer outra coisa, só pra ser do contra. Mas não foi pra frente. Ajudou em todos os outros sentidos. Tive muita ajuda.

Você é cantora e flautista. O público de São Luís também terá a oportunidade de ouvir você tocando flauta?
Desta vez não. Toquei flauta praticamente só em orquestras. Faz dois anos que não trabalho mais como flautista, só dou aulas.

Você é reconhecida como um dos nomes que colaborou para a revitalização e o reconhecimento da Lapa enquanto centro sambista do Rio de Janeiro. Você conhece ou acompanha o cenário do samba ou da música popular de modo geral no Maranhão? Se sim, que nomes destacaria?
Muito menos do que eu gostaria. Conheço o grupo Espinha de Bacalhau, Feijoada Completa, torço desde sempre pelo Roberto Chinês que é um baita instrumentista… Sempre que venho tenho pouco tempo pra fazer essa garimpada da música que não conheço. Acabo vendo os mesmo amigos, fico muito tempo com a família. Mas espero voltar a vir anualmente e me inteirar do que tá rolando.

Flávia Bittencourt é a convidada da penúltima edição de RicoChoro ComVida

[release]

Quinta edição do projeto terá ainda Quarteto Instrumental e Paulo do Vale

O talento e o carisma de Flávia Bittencourt. Foto: João Rocha
O talento e o carisma de Flávia Bittencourt. Foto: João Rocha

 

A penúltima edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015 acontece amanhã (21), às 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite terá como atrações o pesquisador Paulo do Vale – que prefere não ser chamado de dj –, o Quarteto Instrumental e a cantora Flávia Bittencourt.

“Para nós é uma honra poder contar com a presença de Flávia Bittencourt no palco do RicoChoro ComVida, ela que é hoje uma cantora nacionalmente reconhecida, mas que nunca esqueceu de suas raízes, sempre reverenciando os mestres da música popular produzida no Maranhão”, declarou Ricarte Almeida Santos, produtor do projeto.

A cantora tem três discos lançados: Sentido (2005), Todo Domingos (2009) e No Movimento (2014). O primeiro reuniu, entre os compositores gravados por ela, Josias Sobrinho [Terra de Noel, incluída na trilha sonora da novela global América], Cesar Teixeira [Dolores e Flor do Mal, com participação especial de Renato Braz], Chico Maranhão [Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba], Zeca Baleiro [Berê] e Martinho da Vila [Ex-amor, com trecho em castelhano vertido por Natalia Mallo], entre outros; o segundo é dedicado ao repertório de Dominguinhos, que havia feito uma participação especial com sua sanfona no disco de estreia da artista; no mais recente, ela deixou aflorar sua veia de compositora, além de registrar gravações para projetos especiais, caso da versão voz e violão para Mar de rosas [versão de Rossini Pinto para Rose Garden, de Joe South], hit dos Fevers, e a gravação de Parangolé (Cesar Teixeira) com participação especial de Zeca Baleiro.

O Quarteto Instrumental reuniu-se especialmente para recebê-la no palco do Barulhinho Bom. João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) prometem um repertório de choro com uma pegada vibrante, mesclando clássicos do gênero a células da cultura popular do Maranhão, além de números autorais. No primeiro time, nomes como Severino Araújo, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, entre outros.

“São quatro dos mais requisitados músicos da cena musical maranhense, não apenas a chorística. Luiz Jr., por exemplo, esteve recentemente acompanhando a compositora Patativa, no lançamento de seu disco no Sesc Pompeia, em São Paulo”, atesta Ricarte.

Com atuação profissional em fotografia e cinema, campos em que seu talento é largamente reconhecido, não é comum ver Paulo do Vale atuar como dj, título que ele rejeita, em respeito aos profissionais da área. Ao projeto RicoChoro ComVida ele abre uma exceção e, antes e depois das apresentações do Quarteto Instrumental e Flávia Bittencourt, mostrará ao público o fruto de suas pesquisas e coleção.

Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.

Serviço

O quê: RicoChoro ComVida – 5ª. Edição.
Quem: Quarteto Instrumental, Flávia Bittencourt e Paulo do Vale.
Quando: dia 21 de novembro (sábado), às 18h.
Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).
Quanto: R$ 30,00 (reserva de mesas pelo telefone (98) 988265617).

RicoChoro ComVida (sobre a edição passada e a próxima)

[Escrevi no Medium os dois textos abaixo; rependuro-os aqui (com pequeníssimas edições), caso você não tenha lido lá, para ir entrando no clima…]

MAGIA MARCA ESTREIA DE RICOCHORO COMVIDA

Foto: Rivanio Almeida Santos

Uma alta dose de expectativa foi gerada em torno da estreia do projeto RicoChoro ComVida, desde seu anúncio. Em parte explicada pela orfandade musical deixada pelo saudoso Clube do Choro Recebe, realizado entre 2007 e 2010, também produzido por Ricarte Almeida Santos — para alguns o novo projeto é uma continuidade daquele.

A proposta e a dinâmica são quase as mesmas, sobretudo o diálogo entre o choro e ritmos da cultura popular maranhense e outras vertentes musicais, através do encontro de instrumentistas e cantores e, agora, DJs.

O Barulhinho Bom, palco da nova empreitada, estava completamente lotado para a inauguração do RicoChoro ComVida. As expectativas foram todas superadas em uma noite carregada de magia.

Entre vinis e o laptop, o DJ Franklin abriu os caminhos, os trabalhos, as trilhas da noite, tocando o melhor do samba e do choro, entre nomes como Paulinho da Viola, Cartola, Nourival Bahia, Clara Nunes, Nelson Cavaquinho e outros bambas. Ficou até fácil para o quarteto formado por João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho).

Fácil é modo de dizer, que música é trabalho duro e sério, e o quarteto inaugural do projeto passeou por um repertório de choros clássicos, entre nomes como Pixinguinha e Waldir Azevedo, incidentando, aqui e ali, sutilmente, a ginga e a malemolência da cultura popular do Maranhão.

Luiz Jr. pegou o microfone e ao declarar a emoção de estar ali, foi às lágrimas. “Eu me sinto honrado em estar aqui. Muito obrigado ao Ricarte, um eterno batalhador do choro e da nossa música. Esse projeto traduz a minha luta de quase 30 anos, pois tenho orgulho de dizer que me dedico exclusivamente à música, que é justamente o reconhecimento da nossa música”, declarou, antes de voltar ao ofício.

O convidado da noite era o cantor Cláudio Lima, que cantou sentado, obrigado por um aparelho ortopédico que trazia na perna esquerda. Esbanjou versatilidade, passeando por nomes como Cesar Teixeira, Marcos Magah, Acsa Serafim, Celso Borges, Alê Muniz e Bruno Batista, entre outros. O adjetivo “visceral” não é nenhum exagero: sentindo fortes dores durante a apresentação, o artista levou o show até o final, foi elegante ao negar o bis — “eu emendei tudo, por que com a perna desse jeito, sair e voltar ia dar trabalho”, disse sorrindo — e saiu do palco para o hospital.

Um momento muito aguardado do RicoChoro ComVida era também o das canjas, algo outrora tradicional no Clube do Choro Recebe: é o momento em que instrumentistas e cantores da plateia sobem ao palco, para uma jam sem ensaio. É a hora dos encontros, dos improvisos e de novo deleite da plateia. Sábado passado deram o ar da graça Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Osmar do Trombone, Osmar Jr. (saxofone) e Zé Carlos (pandeiro), além da cantora Célia Maria, próxima convidada do projeto, na edição de 5 de setembro, véspera de feriado.

Produtor e apresentador da empreitada, Ricarte Almeida Santos agradeceu aos deuses da música e aos patrocinadores (Fundação Municipal de Cultura e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré), apoiadores (Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas) e equipe de produção (RicoMar Produções Artísticas).

Quem achou pouco, talvez tenha razão, ainda mais que, ao contrário do semanal Clube do Choro Recebe, RicoChoro ComVida terá periodicidade mensal. Mas no fim da noite, o DJ Franklin já começou a abrir os caminhos, as trilhas para a próxima edição. Como diria o filho do chorão Godofredo: “quando entrar setembro”…

Veja fotos da edição inaugural de RicoChoro ComVida aqui.

*

VOCÊ SABE O QUE É TRÍTONO?

Trítono? No dicionário é o “intervalo de três tons”. É um conceito musical, mas mesmo na música, pode ir além. E vai. É quando se juntam Israel Dantas (violão), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Rui Mário (sanfona): é o Trítono Trio.

Foto: Divulgação

A formação é recente na cena musical instrumental da cidade, mas somadas as trajetórias individuais de cada um, é possível falar em vasta bagagem e experiência de sobra, talento idem.

O Trítono Trio surgiu espontaneamente, nos intervalos de ensaios, shows e gravações em que seus membros se encontravam, com esta formação oportunizando a cada músico mostrar suas veias de instrumentista — de acompanhamento ou solista –, arranjador e compositor.

Vindo de searas diferentes da música, os componentes do Trítono Trio apresentam ao público suas releituras para clássicos e músicas menos conhecidas do repertório do choro e da música popular brasileira, além de composições próprias, com influências do jazz, da bossa nova, do baião e de ritmos da cultura popular do Maranhão.

Somados aos talentos de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo acústico), o Trítono Trio é o grupo anfitrião da próxima edição do projeto RicoChoro ComVida, que acontecerá dia 5 de setembro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

A trinca de ases com dois coringas receberá a dama Célia Maria, dona de um timbre inconfundível, desfilando sucessos de artistas do Maranhão e do Brasil, entre choro, bolero, samba canção, bossa nova e música popular brasileira em geral.

RicoChoro ComVida tem produção de RicoMar Produções Artísticas, patrocínio de Fundação Municipal de Cultura (Func) e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio de Barulhinho Bom, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Músika S.A. Produções Artísticas, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio e Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt.

Ricarte Almeida Santos estreia projeto no rastro do Clube do Choro Recebe

[release que eu já tinha publicado aqui; agora com novas informações]

Divulgação
Divulgação

 

RicoChoro ComVida acontecerá mensalmente no Barulhinho Bom (Praia Grande) e mantém formato que estimula diálogo do choro com ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais

Tido como o mais longevo projeto musical independente da noite de São Luís, o Clube do Choro Recebe deixou saudades ao ser encerrado, em 2010, após aproximadamente três anos de existência.

Entre março de 2013 e maio passado, Ricarte Almeida Santos inventou, com o irmão-fotógrafo Rivanio Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro, a série Chorografia do Maranhão, que entrevistou 52 instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão. O projeto agora está em fase de captação de recursos e um volume reunindo os depoimentos publicados no jornal O Imparcial deve sair em livro em breve, em edição da Pitomba! Livros e Discos, do irrequieto Bruno Azevêdo.

Órfãos daquele projeto, majoritariamente sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto (Cohama), com breves passagens por La Pizzeria/Pousada Portas da Amazônia (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), sempre reclamaram da ausência de um palco adequado para a fruição do choro, não obstante a resistência de grupos e experiências como o Regional Tira-Teima – o mais antigo em atividade no estado – e o Cantinho do Choro, ainda em voga.

Foi atendendo a inúmeros pedidos que Ricarte Almeida Santos resolveu, através da RicoMar Produções – dele com a gestora cultural Marla Silveira –, voltar à produção de um espetáculo mensal, nos moldes do saudoso Clube do Choro Recebe, em que o choro dialogue com os ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais – proposta que norteou as noites de sábado daquele projeto, então semanal.

Atrações – O projeto RicoChoro ComVida estreará no próximo dia 1º. de agosto (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), tendo como atrações o Quarteto de Aço, formado por João Neto (flauta e flautim), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, viola e guitarra) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho). O convidado da noite será o cantor Claudio Lima, um dos mais versáteis intérpretes da música brasileira produzida no Maranhão.

“A formação do Quarteto de Aço é quase a gênese do Choro Pungado, um dos grandes acontecimentos do Clube do Choro Recebe, que incorporou em seu repertório o diálogo do choro com as manifestações de nossa cultura popular. Claudio Lima, com dois discos gravados, é um artista de extrema sensibilidade, gosto apurado, com grandes serviços prestados à música brasileira, seja por seus registros sonoros, seja pelos belos projetos gráficos que assina em trabalhos alheios”, elogiou Ricarte Almeida Santos, produtor do RicoChoro ComVida.

Quem também sobe ao palco da primeira edição do projeto é o Dj Franklin, com uma trilha de “samba, choro e outros baiões”, pescados de sua vasta coleção de vinis. Ele é um dos mais respeitados djs ludovicenses, com um profundo trabalho de pesquisa musical. Sua alegria contagiante é um dos temperos do cardápio com que ele prepara cada apresentação, em especial esta inaugural do RicoChoro ComVida. Franklin tocará antes e depois das apresentações do Quarteto de Aço e Claudio Lima.

Neste semestre inaugural a frequência do projeto será mensal. Novas datas e novas atrações já estão fechadas, mas, por enquanto, a produção prefere guardar segredo. Os ingressos para as apresentações custarão R$ 20,00, cada.

Nova casa – O palco da nova produção de Ricarte é o Barulhinho Bom, que mudou de endereço há alguns meses. Antes localizado na Lagoa da Jansen, já contando alguns bons serviços prestados à boa música, além de bar e cozinha diferenciados, veio juntar-se à teimosia e resistência do bairro da Praia Grande, um dos três do centro histórico ludovicense, cartão postal tombado como patrimônio cultural da humanidade.

“O sucesso do projeto depende da parceria e solidariedade de um monte de gente envolvida, desde os artistas que se apresentarão a cada edição, a equipe de produção, patrocinadores, apoiadores, a casa que abriga os espetáculos e, é claro, o público, razão maior de tudo isso”, enumera Ricarte.

O projeto RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio cultural de Dunas Gráfica, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt, Calado e Corrêa Advogados Associados e Restaurante Barulhinho Bom.

Serviço

O quê: estreia do projeto RicoChoro ComVida
Quem: Dj Franklin, Quarteto de Aço (João Neto, Luiz Cláudio, Luiz Jr. e Wendell Cosme) e Claudio Lima
Quando: 1º. de agosto (sábado), 18h
Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00
Maiores informações: (98) 981920111 (Ricarte Almeida Santos, produção), 988265617 (Marla Silveira, produção) e/ou 991668162 (Zema Ribeiro, assessoria de comunicação)
Fan page: facebook.com/ricochorocomvida

Alvíssaras! Ricarte Almeida Santos inaugura novo projeto musical

Rico Choro Com Vida terá primeira edição dia 1º. de agosto, no Barulhinho Bom

Arte: Nuna Neto
Arte: Nuna Neto

 

Talvez o Clube do Choro Recebe tenha sido o mais longevo projeto musical já realizado em São Luís/MA, em seus moldes. Os encontros musicais semanais realizados no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, com rápidas passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), eram feitos com baixo orçamento, e muito do que aconteceu em aproximadamente três anos, entre 2007 e 2010, tempo de duração do citado projeto, foi fruto das doações de alguns.

E não se fala aqui só em dinheiro. Fatores como tempo, energia, amor e carinho também se somaram para seu êxito – coisas que não têm preço, nem figuram em comerciais de cartões de crédito. Equipamento de som, cachês de músicos, produção e assessoria, embora pequenos, eram garantidos por pequenos patrocínios, além do apurado com a bilheteria da casa, sempre praticando preços populares.

Tive a honra, o prazer e o privilégio de, à época, ser assessor de comunicação do exitoso projeto – até hoje, vez por outra, ouço a indagação: “quando é que o Clube do Choro vai voltar?”. A abreviatura do nome do projeto na pergunta se justifica pela estreita relação, à época, do produtor Ricarte Almeida Santos com o Clube do Choro do Maranhão, apesar de o Clube do Choro Recebe ser bastante identificado como algo do apresentador do Chorinhos e Chorões na Rádio Universidade FM (106,9MHz) – e não agiam errados os que cometiam esta personificação.

Idealizador do projeto a partir de uma visita do músico mineiro Paulinho Pedra Azul à Ilha, em 2007, era Ricarte Almeida Santos o responsável por articular grupos e artistas convidados para os saraus semanais que viraram sinônimo de música de qualidade em São Luís, já que o formato pensado, proposto e realizado, embora privilegiasse o choro, não se fechou ao gênero, abrindo diálogos bastante interessantes e importantes, sobretudo com os ritmos da – e com os artistas que a fazem – cultura popular do Maranhão. Também era ele que corria em busca de patrocínios, que “perturbava” os músicos para garantir os ensaios que se traduziam em intimidade musical entre grupos e convidados no palco, além de ser o mestre de cerimônias que, sábado após sábado, apresentava grupos e artistas e outras informações pertinentes, já que – e isso também merece destaque – o Clube do Choro Recebe cumpriu uma função pedagógica. E se houvesse outras tarefas, certamente seriam desempenhadas com o mesmo capricho e zelo.

Não é raro também encontrar entre os que tenham passado pelo projeto, em seu palco ou plateia, os que elogiem a atenção do público presente à música, principal atração das noites daqueles sábados. “As pessoas iam ali para ouvir música”, costumam afirmar, em oposição a lugares em que a música é apenas um detalhe, quando o que importa para as pessoas é tocar sua própria percussão, batendo talheres em pratos ou estalando selfies (praga menos avassaladora naqueles idos).

O fato é que, passados três anos, com a inexistência de apoio dos poderes públicos e os escassos patrocínios da iniciativa privada, o projeto teve que ter um fim decretado, deixando muitos órfãos, incluindo o produtor e este que vos perturba.

Três anos depois, em março de 2013, iniciamos, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, este responsável pelas fotografias, e este que lhes toma o tempo com estas mal traçadas, a série Chorografia do Maranhão, publicada quinzenalmente aos domingos (com raras falhas na periodicidade) no jornal O Imparcial, que gratuitamente nos cedeu duas páginas de seu caderno Impar e recebeu, também gratuitamente, por mais de dois anos, até aqui, 52 entrevistas com instrumentistas de choro nascidos ou radicados no Maranhão.

A Chorografia do Maranhão contempla um panorama único e inédito, constituindo-se na maior série de entrevistas já publicada por um jornal no Maranhão – apesar da pausa, seu trio de realizadores não deu ainda o trabalho por encerrado, por entender que algumas figuras fundamentais para a história e o desenvolvimento do choro no estado ainda estão de fora.

Por outro lado, somado o entusiasmo do escritor e editor Bruno Azevêdo e de sua Pitomba! Livros e Discos, já está sendo trabalhado o lançamento do material em livro – oxalá que na próxima Feira do Livro de São Luís (Felis) – para o que estamos correndo atrás de patrocínio.

Mas as coisas não param por aí. Ainda bem!

Durante um show do compositor Cesar Teixeira – com participações especiais de Flávia Bittencourt e Célia Maria – no Bar do Léo, no último sábado (4), e em seu programa, ontem (5), Ricarte Almeida Santos anunciou: dia 1º. de agosto, ele inaugura o projeto Rico Choro Com Vida, que acontecerá aos sábados, uma vez por mês, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), sempre das 18h às 21h.

O projeto manterá o formato do Clube do Choro Recebe: um grupo apresenta repertório instrumental por uma hora, recebendo depois um convidado. Na sequência, palco livre para as tão charmosas canjas. Para a primeira edição, o embaixador do choro no Maranhão anunciou o nome do cantor Cláudio Lima, que será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, guitarra e viola), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e Rui Mário (sanfona), o mesmo quarteto que acompanhou Cesar Teixeira no show de sábado. A formação é quase o Quartetaço (que tinha o flautista João Neto em vez de Robertinho Chinês), que batizado por Aço, de Bruno Batista, foi formado justamente para acompanhá-lo quando de uma apresentação no Clube do Choro Recebe, e engendrava o Choro Pungado, quinteto que acabou reunindo todos eles ao redor da fogueira do fazer choro, mesclando o gênero a tudo o que se possa imaginar em termos de ritmos da cultura popular do Maranhão, certamente uma das maiores invenções daquele projeto – infelizmente, de existência ainda mais meteórica que o próprio.

Os ingressos custarão R$ 20,00 e poderão ser adquiridos no local. Ao novo ciclo que se inicia, desejamos vida longa: Rico Choro Com Vida, Rico Choro Com Vida longa!

Chorografia do Maranhão: Luiz Cláudio

[O Imparcial, 8 de junho de 2014]

Nascido no Pará e radicado no Maranhão desde 1981, o percussionista Luiz Cláudio é o 33º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

O paraense Luiz Cláudio Monteiro Farias participou de alguns processos revolucionários da música produzida no Maranhão. Nascido em 17 de março de 1964, o músico aportou na Ilha no início da década de 1980 para trabalhar como intérprete em um hotel e nunca mais voltou à terra natal – a não ser a passeio e, recentemente, para gravar o disco do trio Loopcínico, que mistura os tambores do Maranhão a bases eletrônicas.

Filho de Cláudio da Silva Farias e Maria de Nazaré Monteiro Farias, é casado com Susana Almeida Fernandes, que o acompanhou à entrevista que concedeu à série Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Eles têm três filhos: Luiz Cláudio Filho, Leonardo e Luana.

Em paralelo ao ofício musical, Luiz Cláudio hoje continua trabalhando como tradutor e intérprete – a camisa que usava quando conversamos trazia a expressão “drums”, que pode ser traduzida como “tambores”. Ele carregava um derbak, instrumento egípcio e lembrou do arrebatamento que foi ver e ouvir o Tambor de Crioula de Mestre Leonardo pela primeira vez, numa longínqua manhã de domingo de carnaval.

Um dos mais requisitados percussionistas destas plagas, Luiz Cláudio já tocou e gravou com inúmeros artistas e não esconde serem os ritmos da cultura popular do Maranhão sua principal escola – mesmo quando o assunto é tocar choro, o que foi fundamental para o meteórico Choro Pungado, outra formação importante que integrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quais as primeiras memórias musicais de tua infância? O que te tocou pela primeira vez? Foram as big bands americanas. Meu pai havia herdado do meu avô vários LPs. Meu avô trabalhava na Icome, uma empresa em Macapá, durante a segunda guerra mundial, ele trabalhava com código morse, numa base lá. Nessa interação com os aliados, era um ponto de abastecimento dos aviões americanos. Esses americanos começaram a trazer pra ele muitos LPs, aquela época de Glenn Miller [trombonista americano], Tommy Dorsey [trombonista e trompetista americano], isso foi herdado por meu pai, ele tocava isso na radiola em casa, a gente criança, e ele ficava dançando com a minha mãe o tempo todo, ouvindo aquilo. E a gente ouvindo aquela música boa. Claro, além daquilo a gente ouvia muita música brasileira, ele gosta muito de música brasileira. Dolores Duran, Maysa, Lupicínio Rodrigues, aí vai, Pixinguinha…

Com que idade você veio ao Maranhão? E o que te trouxe? Com 17 anos de idade. Eu vim trabalhar aqui como intérprete.

Já nessa idade? Já, já era formado em inglês, eu comecei muito cedo. Eu fui convidado pra ser o intérprete aqui, acho que o primeiro intérprete, na época era o [hotel] Quatro Rodas, hoje é o Pestana, passou por várias gestões. Um tio meu passou em casa, foi uma coisa do acaso. É o destino. Esse tio passou em casa numa noite, “olha, teu filho fala inglês, eu tou com um gerente amigo meu lá, indo morar em São Luís para ser gerente de um hotel, e precisa de um intérprete, que ele não fala português, tem que ter uma pessoa para treinar e cuidar da recepção. Teu filho não quer ir?”. Eu estava sentado na porta de casa, sem pretensão nenhuma, sem saber o que tinha no Maranhão, o que estava me esperando musicalmente, isso é uma coisa interessante, em um dia eu dei a resposta, em três dias eu estava morando aqui e nunca mais voltei.

Quando você chegou ao Maranhão, já tinha algum envolvimento com música ou isso apareceu aqui? Semiprofissionalmente, vamos dizer, aqui. Em Belém eu saía nas escolas de samba tocando tamborim, ainda naquela época de couro de gato, existiam fábricas famosas. Aqui é que eu tive o primeiro contato de tocar numa banda.

Você disse que não sabia o que te esperava em São Luís. O que era que te esperava em São Luís? A cultura popular, os tambores, que é minha principal escola.

Numa de tuas primeiras vindas ao Maranhão, na [praça] Deodoro, houve uma cena impactante. Exatamente. Havia um ônibus que eu tomava, o Calhau, que passava, passa até hoje, na frente do hotel, e deixa você no Centro da cidade. Me falaram, “olha, você quer conhecer o Centro? Você pega esse ônibus, você vai descer bem na Deodoro”. Eu tava de folga do hotel, fui embora. Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás. Em Belém o carimbó, as manifestações, os ritmos do Pará não aparecem, não estão tão presentes no contexto urbano, misturados com a cidade quanto aqui no Maranhão. Eu acho que aqui é mais que qualquer lugar do Brasil. [O impacto] foi uma coisa inexplicável, eu me aproximei, perguntei onde era a sede. Uma semana depois eu já estava lá frequentando para começar [a aprender a tocar].

Hoje você é um percussionista reconhecido não só aqui, mas nacionalmente. Quem você considera seus mestres? Quem te ensinou esse ofício da percussão? A minha formação musical não foi erudita, formal. Foi muito empírica, muito de ver, ouvir e depois levar para casa e fazer o dever de casa. Naquela época celular nem existia, a gente usava um gravador k7. Os mestres para mim foram Mestre Leonardo, do tambor de crioula, Mestre Felipe, também do tambor de crioula, e o Bibi, tocador chefe lá da Casa de Nagô, na Rua Cândido Ribeiro [Centro]. Eu os considero mestres por que eu não estudei música formalmente, então o que eu aprendi com esses ritmos me serve até hoje. Quando eu comecei a descobrir novos estilos musicais, como o choro, o jazz, que eu comecei a estudar música mesmo, esses ritmos daqui servem até hoje como a principal base, o principal alicerce. Neles você encontra todas as matrizes rítmicas africanas. Não só africanas, mas ibéricas, indígenas, você consegue absorver uma quantidade de informações rítmicas, tocando esses ritmos do Maranhão. O boi e o tambor, principalmente, eles têm uma polirritmia, é muito difícil. Quando você consegue entender a complexidade daquilo, tudo o que vem pela frente é fichinha, entendeu? Quando eu comecei a aprender outros estilos, eu pensava “eu já vi isso”. Tudo isso veio desses ritmos daqui, que são ancestrais, vieram da África, do Oriente Médio.

Quando é que você foi para São Paulo? Já tocava profissionalmente? Já. O primeiro grupo que eu participei foi o grupo Asa do Maranhão: Sérgio Brenha, Mano Borges, Chico Poeta, Celso Reis. Era uma movimentação muito forte, Rabo de Vaca, Terra e Chão, era um grupo da Universidade [Federal do Maranhão], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] fez parte. O Rabo de Vaca, que era uma escola, era Jeca [percussionista], Josias [Sobrinho, compositor], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. O Asa do Maranhão foi um dos últimos e eu comecei no Asa, no Colégio Marista, ali no Centro. Depois vieram César Nascimento, o primeiro artista com quem eu toquei aqui, Mano Borges. Eu fui para São Paulo no final da década de 1980.

Foi a música que te levou para lá? Foi.

Você tem uma carreira paralela de tradutor e intérprete com a de músico. Houve alguma fase em que você tenha vivido exclusivamente de música? Muito. Em São Paulo eu vivi quase inteiramente de música. Nas horas vagas é que eu trabalhava como tradutor e intérprete, mas eu priorizava a música.

Lá você participou de vários trabalhos, gravação de discos. Muitos. Eu tive a sorte de cair num berço musical da boa música de São Paulo. Nada contra, mas quase não toquei em bares, quase não toquei em bandas cover. Só trabalhei com os grandes compositores, tanto na música instrumental quanto na cantada.

Cite alguns nomes. Vamos lá! Eu comecei com a Ceumar [cantora e compositora mineira hoje radicada na Holanda], vocês conhecem Dindinha [primeiro disco de Ceumar, lançado em 1999, produzido por Zeca Baleiro], a Rita Ribeiro [cantora maranhense radicada em São Paulo, hoje Rita Beneditto], gravei nos dois primeiros cds dela, Juliana Amaral [cantora paulista], Chico Saraiva [violonista carioca], Grupo A Barca, Nelson Aires, pianista, é muita gente! Gerson Conrad [compositor, ex-Secos e Molhados], que acabou voltando para a arquitetura, e Zeca Baleiro! Além de tocar e gravar com toda essa galera boa, eu participei de muitas oficinas e workshops com músicos e manifestações do Oriente Médio. Foi aí que eu conheci e fiz oficinas de música árabe, africana, cubana. Aí eu comecei a ver o Maranhão lá dentro. A bagagem, o que eles tocavam, eu dizia, “olha, isso tem lá no Maranhão”, mas não de forma arrogante. Eu levava o pandeirão, fazia um Boi de Pindaré, as células são muito parecidas com música marroquina. Uma coisa que eu sempre gostei foi fazer essa, vamos chamar de fusão, palavra batida, esse diálogo entre estilos e instrumentos musicais, misturando outras linguagens com as daqui. Pra mim a música é universal, então você pode fazer no pandeirão outros ritmos que não os tradicionais daqui, pode tocar no pandeiro outras coisas além de samba. Daí que vieram vários arranjos para o Choro Pungado.

Por falar em Choro Pungado, além dele e do Asa, que outros grupos você integrou? O Quinteto Calibrado, o Choro Pungado, o grupo Asa do Maranhão, o Duo Sound, com Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], Som na Lata, Loopcínico, mais recente. Acho que foram estes.

E artistas com os quais você tocou? Ah, aqui em São Luís teve a Flávia Bittencourt [cantora], teve [os cantores e compositores] César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz, a gente fez uma excursão interessante pelo Projeto Pixinguinha [da Funarte]. Taí: eu toquei muito samba pelo Projeto Pixinguinha, na época eu encontrei [os sambistas] Luiz Carlos da Vila, Luizinho Sete Cordas e Moacyr Luz. Fizemos oito capitais do Nordeste, três dias em cada cidade. Toquei nos discos de Celso Borges [XXI, de 2000, e Música, de 2006]. Toquei no disco de Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, de 2010], de Cesar Teixeira [Shopping Brazil, de 2004]. Cesar Teixeira e Josias Sobrinho pareciam, para mim, antes de conhecê-los pessoalmente, eram como deuses. Eu não sou daqui. Quando eu cheguei, eu morei na esquina de São João com Afogados, ao lado do Chico Discos, no mesmo prédio. Eu descia e parava na casa de Arlindo, que eu posso dizer que foi o meu primeiro grande influenciador na coisa da percussão moderna, me inspirou muito, a coisa do set, eu já falei isso pra ele, ele não acreditou [risos]. Ele me abriu a cabeça. Voltando a Cesar, de repente ele me chama para gravar, acho que é o único registro dele até agora, foi o maior presente da música maranhense, ter gravado nesse cd.

Quais os discos mais importantes nos quais você já tocou? Cesar Teixeira, Ceumar, Dindinha, Som na Lata, que é um projeto social, um cd muito bom, Loopcínico, pra mim é um marco, um divisor de águas, embora não compreendido, mas um dia a gente vai ser [gargalhadas]. Vô imbolá [de Zeca Baleiro] e Rubens Salles, foram dois cds que eu gravei, Liquid Gravity e Munderno, um gravado em São Paulo e o outro em Nova Iorque.

Vamos falar de choro. O que significou para você integrar o Choro Pungado e o Quinteto Calibrado? Aprendizado. O Quinteto Calibrado, os caras, a veia deles é muito forte, tradicionalistas, é importante beber na tradição. O moderno você pode vir com milhões de ideias novas, mas você não pode trabalhá-las sem entender como é feito originalmente. Essa é a base, em cima dessa base, que não pode ser mudada, alterada, você pode inserir outros elementos. Por isso é importante conhecer e tocar com os caras que entendem isso. Foi muito bom. Daí, amizade com Luiz Jr., Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], pensamos em criar um grupo diferente, de choro, respeitando as tradições, o original, mas dialogando com essa rítmica maranhense. Daí surgiu o Choro Pungado, que era um laboratório vivo de criação. Nós íamos lá para casa ensaiar, comer os quitutes que a Suzana fazia, acho que é por isso que os ensaios rendiam muito [risos]. Lá em casa eles fizeram duas músicas, uma foi Fim de tarde, do Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], parece que o Nicolas Krassik [violinista francês radicado no Rio de Janeiro] gravou [Krassik tocou violino na faixa, no disco Made in Brazil, de Robertinho Chinês]. O Choro Pungado pra mim foi também um divisor de águas na minha cabeça, eu achava que choro tinha que ser tocado só daquela maneira, que é lindo, maravilhoso. Eu cheguei a assistir em São Paulo o [Conjunto] Época de Ouro, ainda com o pai do Paulinho da Viola [o violonista César Faria, falecido], e ele tocando junto. Quando eu vi isso foi uma coisa de louco! O Choro Pungado serviu também, pra mim acho que foi o maior legado dele, ele desencadeou interesse em alguns dos músicos por essa coisa de buscar o novo sem ter medo. Posso dizer, acho que ele vai concordar quando ler, o Rui Mário, ele já era um grande músico, mas abriu mais ainda a cabeça dele. quando nós trouxemos o Rui pro Choro Pungado, ele ainda tem a veia do baião, do forró da família, tradição. Eu lembro de ter apresentado pra ele dois caras: o Piazzolla [o falecido compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla], colocamos Libertango no repertório, depois o Toninho Ferragutti [sanfoneiro], com quem eu já havia gravado e tocado em São Paulo, com Nelson Aires. Eu acho que isso foi uma alavanca para ele enveredar por essa coisa que ele faz hoje, que é misturar o jazz, um pouco de erudito, sem deixar de lado as raízes dele. O maior legado do Choro Pungado acho que é esse. Robertinho fez um cd logo depois aproveitando essas influências. João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] já era um grande músico, hoje está melhor ainda.

Para você, o que é o choro? Eu acho que o choro é o retrato da nossa cultura popular brasileira, da música de massa, da música da rua, com esse tratamento mais sofisticado da música erudita, não vou dizer do jazz. Eu acho que os choros originais, os primeiros, não têm essa influência jazzística, tem mais essa influência erudita, clássica. É isso, essa união dessa influência barroca, da música clássica no Brasil, com nossas raízes africanas, principalmente, a síncope do samba, souberam fazer esse casamento muito bem.

Quem hoje no Brasil te chama a atenção? Que você ouve e para para escutar? [O grupo] Nó em Pingo d’Água, gosto do Hamilton de Holanda [bandolinista]. Dos atuais, que estão aí. Paulinho da Viola [cantor, compositor e instrumentista] tem um lado chorístico muito forte.

Voltando a antes do Choro Pungado e do Quinteto Calibrado: como foi que você caiu no choro? Você lembra de um marco? Lembro. Antes desses grupos, a gente fazia música de um modo mais espontâneo. Centro da cidade, acho que já existia a ponte, mas não existia o outro lado, não havia música, movimento. Eu lembro de sair da porta do Laborarte [o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], grupo que eu fiz parte, outra escola muito importante da minha vida, gestão Nelson Brito [dramaturgo, falecido], quando ele assumiu. Lá nós saíamos sete horas da noite, eu, Jorge do Rosário, na percussão. Era uma percussão de choro, pandeiro, atabaque de couro e madeira, um cavaco, era um sambista da antiga, usava uma boina, Bonifácio, e um sete cordas, irmão de Sávio Araújo, seu Nato [Araújo]. A gente saía tocando choro e samba, pelo prazer de tocar e ganhar algum trocado para tomar cachaça. Olha o nosso percurso: a gente saía do Laborarte, encostava no Rui [o Bar do Rui, vizinho ao Laborarte, na Rua Jansen Müller, no Centro de São Luís], tocava, passava o chapéu, era assim, uma maravilha! De lá a gente ia pro Hotel Central [na Praça Benedito Leite, Centro, hoje desativado], o chapéu rodava, a grana ia toda pra comida e bebida. Nessa peregrinação, a gente fazia uns três, quatro bares num fim de semana, numa sexta-feira. Minha escola começa aí. O Nato era nosso guarda costas, ele era fortão. De vez em quando tinha uma treta nesses bares e a gente botava “Nato, vai lá e resolve!”. Ele não levava desaforo pra casa.

Você se considera um chorão? Sim, me considero. Acho que todo músico brasileiro tem que se considerar chorão, por que é o estilo musical que conseguiu sintetizar em um só bom gosto e elegância, nos arranjos executados, além de uma percussão muito forte, que é a marca nossa. Com todo respeito ao baião, mas dos estilos brasileiros é o mais bem lapidado e acabado. É uma música muito detalhista. Eu gosto de ser chorão, mas ainda não sou chorão: se você absorver e conseguir, eu não consegui ainda, tocar aquilo com domínio total, você consegue tocar qualquer outra música. Muita gente não gosta, mas todo músico brasileiro deveria passar pelo choro. É uma escola maravilhosa.

Como você avalia o choro praticado hoje em São Luís? Muito bom, muito fértil. Acompanho pelos jornais, eu não saio muito à noite. A velha guarda, os tradicionais continuam aí, Tira-Teima, Pixinguinha, e tem vários grupos novos que eu ainda não tive oportunidade de assistir. Só o fato de ainda estarem criando grupos novos significa que a linguagem continua firme e forte. Duas faculdades de música, os músicos dentro dessas faculdades, alguns integrantes de grupos estudam nestas faculdades. Para a cena está faltando voltar o nosso Clube do Choro [Recebe].

Qual a importância daquele projeto? Foi decisivo. Não só pro choro, mas pra música instrumental como um todo. Lá você permitia que nós tocássemos o choro, o samba e trabalhos autorais. Acompanhamos o Criolina [os cantores e compositores Alê Muniz e Luciana Simões], Bruno Batista [cantor e compositor] e outros cantores que foram lá, com ou sem influência do choro. E grupos instrumentais que além do choro tocavam outros gêneros. Tinha aquele aspecto muito informal, o público frequentava, prestava atenção, e foi gravado, muita memória ali, muitos grupos tocaram, acabaram, outros se formaram a partir dali. Foi um marco que precisa voltar.

Eu queria que você comentasse rapidamente o Som na Lata e o Loopcínico, os discos, os processos. O Som na Lata foi, ainda é até hoje, a gente vive numa cidade muito injusta socialmente, uma inquietação a partir de meu dissabor em ver muitas crianças desocupadas, mas com ritmo, talentosíssimas. Daí eu comecei a fazer oficinas no GDAM [o Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], a convite do Adão [liderança do GDAM]. Esse trabalho começa com oficinas de educação ambiental, ética, disciplina, a gente passa esses conceitos para as crianças, depois entra na parte musical, muito forte, culminando com a formação de uma banda e o cd. Eu concluí todas essas fases e saiu aquele cd, nós fomos premiados pela Universidade FM, melhor hip hop, tinha essa categoria. Uma das músicas [Shopping Brazil] de Cesar Teixeira fala no som da lata, [cantarola:] “o quê que tem? Se eu como na lata?”. A música tinha tudo a ver e ele, com aquela cabeça maravilhosa, cedeu esse espaço [parte dos músicos do Som na Lata participou da gravação da faixa-título do disco Shopping Brazil]. O Som na Lata tem que voltar e nós vamos voltar em breve. O Loopcínico vem de outra inquietação: quando eu estava em São Paulo eu conheci a música eletrônica, entre os anos 1980, 90, tocava lá nos clubes, nas casas noturnas, fazia produção com alguns djs, como o Érico Teobaldo, que produziu um dos cds [PetShopMundoCão] do Zeca [Baleiro], mas não tinha conseguido ainda uma forma de trabalhar a música eletrônica que fosse completamente dominado pela música maranhense. Eu consegui com o Loopcínico, ali eu consegui dar voz aos tambores. O disco foi gravado em Belém, no estúdio Ná Music, mas com a linguagem maranhense. O disco foi indicado agora ao Prêmio da Música Brasileira 2014. Entre quase cinco mil cds nós ficamos na pré-seleção entre cento e poucos. Pra mim já foi um prêmio. Eu chamei Beto Ehongue [cantor, compositor e dj] e Lobo de Siribeira [cantor e compositor], foi a formação inicial. O Loopcínico era um sonho antigo como percussionista, instrumentista. A concepção dele é muito nova, não a base, a eletrônica já existe há muito tempo, mas a concepção desse cd, inserido no nosso contexto, ainda está sendo muito nova. Muita gente não percebeu que os tambores foram gravados ao vivo, eles não foram sampleados, há uma diferença. Muita gente ainda não conseguiu entender por que aqueles tambores estão ali misturados com as bases eletrônicas.

Chorografia do Maranhão: João Neto

[O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]

Tendo integrado praticamente todos os grupos de choro de São Luís, o flautista João Neto é o 25º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.

Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.

Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.

Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.

Ano passado graduou-se no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com a monografia Um panorama histórico-cultural sobre vida e obra de compositores de Choro da Baixada maranhense: breve análise musical de obras já editadas.

A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.

Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.

Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.

Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.

Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.

Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.

Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.

Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.

Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.

O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.

Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.

A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.

Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.

Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.

A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.

O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.

Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.

Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.

Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.

E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013; Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.

Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.

Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.

Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.

Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.

Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.

Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.

A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].

Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.

Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.

Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!

Chorografia do Maranhão: Wanderson

[O Imparcial, 13 de outubro de 2013]

Dos ritmos da cultura popular do Maranhão ao choro, o passeio desenvolto do percussionista Wanderson, 17º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Wanderson dos Santos Silva iniciou sua trajetória artística no bumba meu boi mirim Capricho Sesiano, organizado por Dona Laura, professora de artes das unidades Lara Ribas e Ana Adelaide Belo do Serviço Social da Indústria, popularmente conhecidas como Sesi do Santa Cruz e Sesi da Alemanha.

Nascido em 11 de abril de 1980 na Maternidade Benedito Leite e criado por perto do primeiro, o percussionista até hoje mora no Conjunto Radional. Filho de Silvio Matos da Silva, farmacêutico falecido, e Maria Ribamar dos Santos da Silva, cabelereira, Wanderson seguiu as trilhas percussivas: do Capricho Sesiano passou ao Barrica, em paralelo aos estudos e ao esporte – chegou a disputar várias edições dos Jogos Escolares Maranhenses e formou-se em Administração.

Membro do Regional Chorando Calado, grupo que integrava o cardápio musical do Bar e Restaurante Chico Canhoto à época do Clube do Choro Recebe, o músico hoje se orgulha de já ter tocado com quase todos os chorões da cidade.

Professor da Banda do Bom Menino do Convento das Mercês, atualmente Wanderson está em estúdio, gravando um disco instrumental autoral, um passeio por toda sua formação musical, o que inclui bumba meu boi, tambor de crioula, tambor de mina e choro – um pé na modernidade sem tirar o outro da tradição. Ele conversou com a chororreportagem no Chico Discos, antes de seguir para o Teatro Arthur Azevedo, onde seu set percussivo já estava montado para mais um show de sua agenda.

Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era a vivência musical na tua casa, na tua infância? Geralmente era aos fins de semana, meu pai só descansava aos domingos, então ele botava o som o dia todo para tocar. Eu escutava Altemar Dutra, essas músicas mais ou menos dessa época, Roberto Carlos.

Ele comprava discos? Comprava discos, cds, k7s. Até hoje eu guardo, tenho comigo.

Que outras vivências musicais você tinha? Em casa, praticamente foi assim, influências também de meus irmãos mais velhos, que eram quem botavam o som na época, tipo Titãs. Meu outro irmão que escutava bastante samba, por incrível que pareça, hoje é evangélico e não escuta mais nada. Eu via a turma de meus irmãos tocando. Lá onde eu moro a influência musical é praticamente zero.

Mas eles tocavam instrumentos? Brincavam de tocar percussão, atabaques, faziam aquela rodinha de samba.

Daí veio a tua vontade de aprender a tocar percussão? Também teve aquela influência da escola. Por volta da terceira série, por aí assim, eu cantei no Capricho Sesiano [grupo de bumba meu boi formado por alunos do Serviço Social da Indústria – Sesi]. Cantei lá, toquei durante uns três anos seguidos, Moça Laura [professora de artes], chegamos até a viajar para Belém.

Como você escolheu o estudo da percussão? Por volta de 14 anos de idade comecei a me interessar por tocar. Eu sempre escutei bastante música regional, bastante boi, sempre gostei de boi, das músicas daqui da região. Eu tinha uma irmã, Darlene, ela pegou e me levou pra Madre Deus. A gente foi, digamos assim, beber da fonte. Eu quero aprender, eu vou na Madre Deus, naquela época era assim, os melhores percussionistas tocavam na Madre Deus. Peguei minha mochila e fui com ela. Fui fazer o teste para o Bicho Terra, não era aquele alvoroço que é hoje, a gente ainda tocava como bloco tradicional, na rua. Fiz o teste e fiquei. De lá comecei a ter as influências de ritmo, comecei a pesquisar, ir pra Madre Deus, estudar percussão. Por volta de 1994, 95, por aí assim. Ainda não tinha nem projeto Viva [de revitalização e construção de praças em diversos bairros da capital] nem nada.

Você não chegou a buscar outra profissão? Na época eu fazia assim: eu tive influências também, depois, de canto coral. Eu cantei três anos no [Coral] Lilah Lisboa, de Chico Pinheiro [professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo e membro das bandas da Companhia Barrica e Bicho Terra]. E paralelamente, na escola, eu fazia esportes. Normal, jogava basquete, JEMs [os Jogos Escolares Maranhenses], essas coisas tudinho. Mas sempre paralelo com o estudo da música. Em 2001, 2000 eu já fui trabalhar de auxiliar administrativo, no Laboratório Salomão Fiquene, aí eu saía de lá, quando era época de São João eu ia tocar, época de coral eu ia pro coral, era tudo ali perto, o coral era na São Pantaleão, o laboratório era no Apicum.

Você sempre recebeu apoio da família, da mãe, do pai, para trilhar o caminho da música? No começo foi difícil. Minha mãe ela queria que eu estudasse, como toda mãe, estudar, fazer vestibular. Meu grande passo para a música foi depois do falecimento de meu pai. Meus irmãos viram e disseram “vamos pra cá!”, por volta de 96, quando eu entrei na Escola de Música.

Quando você cita o falecimento de seu pai, ele era o mais radicalmente contra? Não. Ele era a favor de tudo. A mãe que geralmente era “não, é pra estudar”. Fazia parte de tudo, mas não podia largar o estudo. Por exemplo: se fosse pedir um livro de música, aí era difícil ela entender, hoje a gente já tem como garantir.

Antes da Escola de Música você já tocava profissionalmente? Eu tocava com o Barrica. Toquei com o Barrica 15 anos, cheguei novinho lá.

Que instrumentos você tocava lá? Todos os instrumentos de ritmo regional. Eu entrei pra tocar no Bicho Terra. De lá fiz um teste e passei pro Barrica. Eu fui o primeiro a ser de fora da Madre Deus a entrar pro grupo, de percussão. Era só gente do meio. Dessa forma foi que eu procurei a Escola de Música e outras fontes, por que por ser de fora tinha preconceito, botavam até o pé pra eu cair tocando.

Com quantos anos você entrou na Escola de Música? Eu entrei em 1996, com 15, 16 anos.

Pra estudar percussão mesmo? Pra estudar cavaquinho. Não tinha o curso de percussão.

E aí? Estudei, toquei cavaquinho durante uns quatro anos. Toquei nesses grupos de samba, tocava em rodas de samba, fui um dos primeiros cavaquinhos do Retoque, um grupo que tinha lá no Belira. E paralelamente tocava percussão no Barrica. Meu primeiro instrumento na Escola de Música foi violino. Só que quando eu peguei o violino eu não me adaptei e o instrumento era caro. Peguei uma poupança que eu mesmo fiz, naquela época mamãe não apoiava, a poupança eu fiz com um bolão da Copa [do Mundo] de 1994, ninguém acreditou que o Brasil ia pros pênaltis, eu ganhei o dinheiro todinho. Saquei o dinheiro e comprei meu primeiro cavaquinho, meu primeiro instrumento. Aí mudei de curso. Meu primeiro professor, na época, foi até Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Depois de Raimundo que eu fui ter aula com Juca [do Cavaco, professor de cavaquinho da EMEM]. Depois é que entrou o curso de percussão na Escola de Música. Mas paralelamente eu já tocava percussão no Barrica e estudava cavaquinho na Escola. Tinha essa coisa dessas influências do samba, e eu misturava essa coisa do samba com os ritmos regionais. Até no Barrica.

Quando você mudou para percussão na Escola? Eu fui da primeira turma. Acho que 1997, 98.

Nem terminou o curso de cavaquinho? Não, eu tranquei. Paralelamente eu fazia os dois. Depois me decidi pela percussão.

Quem são teus principais mestres da percussão? Na Escola era Jeca, meu professor. Dei uma parada durante uns dois anos, fiquei só no Coral, parei por conta de problemas familiares, tava jogando JEMs, quando eu retornei, já era Nonatinho [percussionista do Instrumental Pixinguinha] o professor.

Você disse que passou uns 15 anos no Barrica. Sua saída de lá é mais ou menos recente. A que se deveu? A eu me profissionalizar mesmo. A eu correr atrás do meu trabalho.

No sentido de que o Barrica é um espaço amador? Não, no sentido de que o Barrica tem um dono e eu resolvi ser meu próprio dono. Decidi virar um profissional da música. Lá são pequenos cachês, é de grupo. Lá você não é visto, é visto o grupo: a Companhia Barrica.

Hoje você consegue viver de música? Consigo. Hoje eu tenho outros trabalhos paralelos, mas eu consigo.

Quais são esses trabalhos paralelos? Eu tenho minha carreira acadêmica. Sou graduado e pós-graduado em administração. Estou pensando em dar aulas em faculdade. Justamente visando um futuro, por que a carreira musical tem certos limites, na minha opinião. Na Europa o cara é dentista e toca na orquestra, não tem essa história de ser músico e ser só músico, tu tem outra alternativa, tu pode fazer as duas coisas paralelamente. Eu bati muito de frente aqui, o cara é só músico, quer ser só músico. Infelizmente o nosso mercado não dá pra isso. Eu tenho amigos que moram fora, vivem de música e vivem bem. É o que eu sempre digo: tu quer viver bem ou tu quer sobreviver? São coisas bem diferentes.

Antes de formado, você conseguiu viver bem de música? Com música você sobrevive. Viver bem, bem, é difícil. São poucos os que conseguem.

Você não acha que no teu caso essa condição decorre de ser um cara novo? Tipo, daqui a 10 anos você poderia estar vivendo bem de música? Eu acho que o mercado, aqui em São Luís, é um pouco complicado. Talvez se eu fosse pra fora.

Quem são os percussionistas que você mais admira aqui em São Luís? [Carlos] Pial, meu amigo, me ajudou bastante quando comecei a tocar. O próprio Jeca, aquela história, a gente não descarta da onde a gente veio. Zé Pretinho, um cara bom pra poxa. E outros, os grandes mestres. No Barrica, quando entrei, como passei por muito preconceito, eu ia comendo de outras fontes, pra já chegar lá sabendo. Em vez de aprender só lá, como eles não queriam me ensinar, “não, tu é de fora, então eu não vou te ensinar, se tu quiser, tu olha, tu aprende”, eu ia por fora, eu ia na Liberdade, eu ia nos encontros que tinha no Reviver [o bairro da Praia Grande], eu participei dos primeiros Pungar, encontros de tambor de crioula, Leonardo [mestre de tambor de crioula] ainda vivo. Então a gente ia por esse caminho, observando, conversando com Zé Olhinho [mestre de bumba meu boi].

E no cenário nacional? Qual é o nome que chama tua atenção? [Marcos] Suzano, que hoje é meu amigo, Celsinho Silva, meu amigo também, fiz oficinas com eles, saí daqui, peguei meu ônibus, fui bater em Teresina, oficina com Suzano. Na linha do pandeiro eu digo que tenho umas cinco influências: Jorginho do Pandeiro, Celsinho Silva, Marcos Suzano, Bira Presidente [pandeirista do grupo Fundo de Quintal] e Jackson do Pandeiro. Fora também o estilo de tocar de pandeiro diferente aqui, do pessoal do Fuzileiros da Fuzarca [bloco carnavalesco da Madre Deus]. E influência assim que eu tenho da percussão geral, eu gosto muito do Gustavo di Dalva, que toca com Gilberto Gil, Leonardo Reis, são os grandes nomes de percussão mais ou menos nesse jeito que eu gosto de tocar. Por que tem várias linhas: tem o cara que é do axé, tem o cara que é do forró…

A gente sabe que a percussão é um mundo. Na falta de instrumentos, até numa mesa dessa aqui você vai fazer música. Em que instrumento você se sente mais à vontade? O que eu sinto mais à vontade são os instrumentos de percussão maranhense, por essa vivência toda que eu tive durante esses 15 anos lá dentro da Companhia [Barrica], eu colhi muito. Os próprios músicos, o próprio Zé Pretinho, o pessoal lá de frente da percussão, eles dizem que eu fui o único que soube pegar de lá e botar em outro lugar. Os instrumentos daqui, o pandeiro de couro, que eu estudei mais, e os instrumentos também de samba, que vem do tempo em que eu tocava cavaquinho.

Quais seriam esses instrumentos maranhenses? Zabumba, tamborito, pandeirão, tambor de crioula – a parelha, eu toco todos três –, vindo pro lado do carnaval, contratempo, retinta, particularmente todo instrumento maranhense eu toco. A própria caixa do divino, que é um instrumento tocado por mulheres, lá no Barrica quem tocava era eu.

Além de Barrica e Bicho Terra de que outros grupos você já participou? Quando eu saí, que eu decidi me profissionalizar, eu já toquei com quase tudo que é grupo de São Luís.

Mas como integrante? Como integrante praticamente só lá. Toquei em grupos de samba: toquei no Retoque, desde a época do cavaquinho eu tirava mais festa. Eu tava nesse processo: cavaquinho, percussão, nessa briga. Ou eu escolhia um ou outro. Podia chegar num ponto que eu não seria melhor em nenhum, eu seria mediano nos dois. Então eu decidi estudar.

E grupo de choro? Choro foi o seguinte: quando eu entrei na Escola eu vi o [Instrumental] Pixinguinha tocando e eu sempre me interessei. E eu tinha comigo que eu não sabia tocar pandeiro. Aí eu vi aquilo e disse: vou aprender isso aí. Comecei a estudar e o primeiro grupo de choro, formado, bonitinho, foi o Chorando Calado. Na época em que eu entrei, éramos eu, Jordani [percussão], Tiago [Souza, sax e clarinete], Wendell [Cosme, cavaquinho e bandolim] e João [Eudes, violão]. Depois Jordani saiu, ficamos só nós quatro.

Qual a importância do Chorando Calado pra você? A gente é uma família, nós quatro. Quatro irmãos. Através de muito estudo, muita repetição, ensaio, a gente conseguiu essa abertura no meio dos grupos grandes que já existiam aqui, de chorões. A gente recebeu, como éramos da Escola, muito apoio do Pixinguinha, a maioria eram nossos professores, botavam a gente pra tocar nos eventos lá. Às vezes a gente sabia só 10 músicas. Hoje quando a gente se junta, é só olhar um pro outro.

Mas o Chorando Calado nunca mais fez apresentações como Chorando Calado. O que está faltando? Tiago! Nós chegamos a botar outros, [os flautistas] Lee Fan, [João] Neto, até Zezé [Alves, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], mas a gente decidiu não usar mais o nome. Até por que teve a história do Clube do Choro [Recebe] dar um tempo. Eu tenho esperança que volte, foi uma escola pra gente na época. Um projeto de suma importância, na época era o nosso palco. Ali que a gente começou a fazer nosso trabalho, a ter novidades no repertório.

Fora o Chorando Calado, você integrou outros grupos de choro? Eu já toquei com o Pixinguinha, um tempo em que o Nonatinho se afastou. Já toquei nOs Cinco Companheiros, com Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Essa vivência [no Clube do Choro Recebe] fez com que eu tivesse o prazer de hoje já ter tocado com praticamente todos os grupos de choro daqui.

Daqui a pouco quando você terminar essa entrevista, vai participar da gravação de um dvd [o show Justiça de Paz e Pão, em que servidores do Tribunal Regional do Trabalho no Maranhão interpretaram obras de compositores maranhenses]. De que discos você já participou? Já, bastante discos. [O compositor Luiz] Bulcão, [a cantora] Teresa Cantu, cds e dvds. Várias bases de bumba meu boi. [O cantor] Mano Borges é um trabalho constante, uma das pessoas que na época em que fui tentar me profissionalizar foram pessoas que me deram apoio, começaram a me injetar nas coisas, Oberdan [Oliveira, guitarrista], Antonio Paiva [contrabaixista]. Outra influência de que lembrei agora, que eu tive na infância, bastante grande, foi a Casinha da Roça. Eu cresci naquilo ali.

A gente percebe essa vivência, essa tua natureza da cultura popular do Maranhão em tua base percussiva. Como você percebe a relação da percussão da cultura popular do Maranhão com a prática do choro? É possível fazer esse encontro? Você acha interessante? É possível, é bastante interessante, até por que essa questão do ritmo maranhense não é valorizado pelo maranhense, mas quando a gente viaja, que dá uma volta por outros ares, é o diferencial. É o que tu chega, é o que tu mostra, e o pessoal fica de boca aberta.

Cabe no choro? Cabe. Inclusive a gente lá no Chorando Calado botava muito boi, bloco misturado com choro. Cabe. É uma célula a mais. O choro em si é um gênero, então ele agrega um monte de ritmos. Eu sou um admirador da cultura popular do Maranhão. Meu set up tem um monte de instrumentos de fora, mas tem os instrumentos daqui pelo meio. Eu não me esqueço de onde eu vim. O Barrica, pra mim, foi uma escola. Quando eu viajava, eu sempre ia conversar com músicos, ia atrás de informação, sempre fui bastante curioso.

O que é o choro para você? Tanto quanto é o bumba boi é uma influência musical muito grande. É visto com preconceito, como música de velho, mas na verdade é uma música muito difícil. Eu digo pra meus alunos: todos os que vão pra linha do choro se tornam bons músicos. Os compositores de choro são grandes mestres da música. O choro não tem música feia. Até as mais atuais, a qualidade é lá em cima.

Com toda essa vivência já demonstrada na seara da cultura popular, você se considera um chorão? Considero. Até meus amigos dizem que quando vai pro lado do choro eu sou meio ranzinza. Eles, “não, Wanderson, é por que tu é chorão” [risos]. Eu me considero. Eu ouço choro todo dia: Zé da Velha, Silvério Pontes, Tira-Poeira, Época de Ouro, Zé Nogueira. Eu escuto tudo, os tradicionais, os modernos. As músicas de choro que eu mais gosto vêm daquele tempo que eu tocava cavaco: gosto muito de Naquele Tempo, de Pixinguinha, Minhas mãos, meu cavaquinho, de Waldir [Azevedo]. É essa linha que eu gosto mesmo de escutar, de sentar pra escutar.

Você tocou no disco inédito de Joãozinho Ribeiro [Milhões de Uns, disco de estreia do compositor, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012]. O que significou para você? Você vê o quanto o trabalho do maranhense é esquecido. Ali eram só composições antigas, só que totalmente atuais. Tem muita música ali que eu nem sonhava em tocar, são atuais, podem tocar em qualquer lugar. Foi uma experiência muito boa, os músicos, todo mundo voltado pro show. Eu já escutava muito [a música] Milhões de Uns, quando eu me vi naquele local tocando, era uma coisa que eu almejava fazer e hoje eu faço parte. Pessoas com quem eu nem sonhava tocar.

Gravado em Belo Horizonte, Cinco Gerações será lançado amanhã (24) em São Luís

Como o disco de estreia de Osmar do Trombone show de lançamento terá participações especiais

Oriundo de Carajri, na Baixada Maranhense, Osmar do Trombone é um talentoso músico, cujo nome pode ser lido em diversas fichas técnicas de discos e shows, além das rodas informais, escola fundamental para qualquer músico que se preze, ainda mais em se tratando de choro.

A genética não explica tudo e é sempre necessário muito trabalho para se desenvolver um talento. Feito pimenta e facebook, Osmar do Trombone vem sendo curtido já faz bastante tempo. Nascido em uma família de músicos, a história é por demais conhecida. Frequentadores do saudoso Clube do Choro Recebe, ouvintes do Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM (106,9MHz) e, mais recentemente, leitores da Chorografia do Maranhão nas páginas de O Imparcial, série para a qual o músico foi entrevistado em junho passado, já a leram ou ouviram, talvez mais de uma vez.

Inspirado e cheio de brejeirice, Osmar compôs um choro ao qual deu o nome de Quatro gerações. Eram ele – o próprio Osmar –, seu filho Osmar Jr., saxofonista, seu pai e seu avô. Depois, ao descobrir um bisavô que já tocava, mudou o nome da música: Cinco Gerações.

O belo choro batiza a estreia de Osmar do Trombone em disco solo, gravado ano passado em Belo Horizonte. O nome do solista não aparece na capa. Cinco Gerações é encarado como um trabalho da dupla formada por pai e filho, ou além, da grande roda que se tornou a feitura desta bolachinha recheada de felizes coincidências.

Osmarmanjos filho e pai em detalhe do encarte de Cinco Gerações

Depois de desistir do curso de Administração e resolver dedicar-se integralmente à música, Osmar Jr. prestou vestibular para Música em Minas Gerais – está cursando o bacharelado em saxofone na UFMG. Rapidamente virou figurinha fácil em rodas de choro em bares como Salomão, Pastel de Angu, Bolão e Mosteiro – tive a oportunidade de visitar este último em dezembro passado e já deveria ter escrito algo para compartilhar com os poucos mas fiéis leitores, não é mesmo?

Nestas rodas, Osmarzinho, como também é conhecido, sempre falou do pai – “papai toca trombone” – e sempre procurou mostrar a música instrumental produzida no Maranhão. Um dia Osmar foi visitá-lo, descascou o trombone e mandou ver Na Glória (Ary dos Santos/ Felipe Tedesco/ Raul de Barros): quase toma de seu filho o posto de xodó dos mineiros.

Entre idas e vindas entre Maranhão e Minas, sem pressa, com participações especiais e um repertório entre o autoral e as belas criações de nossos grandes mestres na arte de compor, Osmar do Trombone foi moldando Cinco Gerações, sonho agora realizado, já acalentado há bastante tempo.

Solidariedade e gentileza sabemos o que geram: senhor de seu instrumento, Osmar humildemente permitiu a presença de outros trombonistas em seu disco, o que certamente contribuiu para enriquecê-lo. O resultado evidencia as qualidades de Osmar enquanto instrumentista e compositor, um artista apto a subir em qualquer palco no mundo, sem nunca esquecer as referências de sua Baixada, de seu Maranhão de origem. As influências estão ali nas células rítmicas de suas criações, mesmo quando elas deixam livres – para improvisar e mostrar também suas influências – os músicos de Minas que aparecem na ficha técnica: Abel Borges (pandeiro), Alaécio Martins (trombone), Fábio Martins (percussão), Gilberto Júnior (trompete), Lucas Ladeia (cavaquinho), Lucas Telles (violão sete cordas), Luísa Mitre (sanfona), Marcelo Braga (sax soprano), Marcos Flávio (trombone), Miguel Praça (trombone), Oszenclever (pandeiro), Rafael Francisco (flauta), Raíssa Anastásia (flauta), Rodrigo Picolé (pandeiro), William Alves (trompete), além dos maranhenses João Neto (flauta) e Osmar Jr. (saxofones), este também integrante do Quarteto de Saxofones completado por Cesar Baracho (sax alto), Harrison Santos (sax tenor) e Luís Flávio (sax barítono).

Osmar do Trombone assina cinco composições: Saudades de Tororoma, homenagem a um rio que lhe banhou a infância, Cinco Gerações (que aparece em duas gravações, uma um bis em execução do Quarteto de Saxofones integrado por Osmar Jr. na UFMG), Momentos, Pulo do Gato, com acento jazzístico, e De ladeira abaixo. Intercaladas à porção autoral, as demais faixas funcionam como uma antologia do choro maranhense: O samba é bom (Antonio Vieira), Das cinzas à paixão e Rayban (ambas de Cesar Teixeira), Saiba, rapaz (Joãozinho Ribeiro) e Terra de Noel (Josias Sobrinho) demonstram também a coragem de Osmar do Trombone. Não é fácil nem simples regravar em leitura instrumental, choros com letras, ainda mais da lavra destes compositores. Não é que o músico dispense a lírica dos bardos, isso não explicaria: o que Osmar e companhia fazem é tornar – nunca reduzi-las a – instrumentais as criações alheias.

Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho são alguns dos convidados do show de lançamento de Cinco Gerações, que acontecerá nesta sexta-feira (24), às 21h, no Barulhinho Bom (R$ 10,00, ingressos à venda no local). Além do filho Osmar Jr. (saxofones), Osmar do Trombone será acompanhado por Daniel Cavalcante (trompete), Domingos Santos (violão sete cordas), João Neto (flauta), João Soeiro (violão), Luciano Lima (percussão), Rafael Guterres (cavaquinho), Rui Mário (sanfona) e Wanderson Santos (percussão). Mas como em qualquer roda de choro que se preze, no Maranhão, em Minas Gerais ou em qualquer lugar, outros nomes com certeza aparecerão. São Cinco Gerações festejando: você não vai deixar a sua fora dessa, vai?

Cantar, a sagrada vocação de Renato Braz

Passarim cosmopolita, Renato Braz solta o canto no Chorinhos e Chorões

Extremamente simpático e bastante modesto – “eu tou tocando errado aqui”, desculpou-se ao interpretar, em off, o Cigarro de paia, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, sucesso de Luiz Gonzaga –, Renato Braz esteve em São Luís sábado passado (20), para um show reservado. Era a terceira edição do projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol, organizado pelos amigos Eden do Carmo, Aristides Lobão e Lúcio. Cabelos ao vento, ele trajava calça xadrez e uma camisa com uma estampa de Amarcord, de Federico Felini. Emoldurado pela bela paisagem, Renato Braz fez um show onírico qual o cinema do italiano: vê-lo e ouvi-lo era também a realização de um sonho.

Além do paulista, também desfilaram talentos ao palco Zeca do Cavaco e João Neto Trio (com o próprio na flauta, João Eudes, violão sete cordas, e Vanderson, percussão), Milla Camões (acompanhada de Celson Mendes ao violão, Jeff Soares, contrabaixo e Fleming, bateria) e Sérgio Habibe (com Edinho Bastos, guitarra, e Rui Mário, sanfona). Aposto que alguns dos poucos mas fiéis leitores estão indignados de só estarem sabendo disso agora.

Renato Braz passeou pelo repertório de seus discos e cantou coisas que gosta, lembrando os centenários Wilson Batista e Dorival Caymmi, elogiando ainda os maranhenses que o antecederam no palco. Celson Mendes e Marconi Rezende subiram ao palco para acompanhar-lhe, em participações especiais. Puro deleite.

Aproveitando a passagem pela ilha, o músico compareceu aos estúdios da Rádio Universidade FM (106,9MHz), e concedeu uma entrevista a Ricarte Almeida Santos e este blogueiro, imensa honra – como disse o apresentador, “fazer Chorinhos e Chorões tem seus privilégios”. O bate papo musical vai ao ar amanhã (28) domingo que vem (4/8), às 9h.

Renato Braz aponta influências – “o primeiro grande artista que eu quis ser era o Tim Maia, é minha primeira referência como cantor” –, fala da carreira (sete discos lançados desde 1996, incluindo Por toda a vida, inteiramente dedicado ao repertório dos irmãos paulistas Jean e Paulo Garfunkel, e Papo de Passarim, dividido com Zé Renato, ex-Boca Livre, outro ídolo), da relação com a música maranhense (a amizade com Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, de quem gravou Bambayuque no disco de estreia, e Flávia Bittencourt, em cuja estreia cantou em Flor do Mal, de Cesar Teixeira), discos fundamentais para sua formação, como Brazilian Serenata, de Dori Caymmi, e Urubu, de Tom Jobim, as novas tecnologias e a feitura de seus discos, hoje independentes – “só canto aquilo que me emociona”, rodas de choro e, em tom brincalhão, da amizade com o casal-música Paulo César Pinheiro e Luciana Rabello.

Em meio a tudo isso, música. Muita música, de qualidade. Além de faixas de seus discos, surpresas, como interpretação sua ao violão para Só louco, de Dorival Caymmi (que completaria 100 anos em 2014), além de uma inédita de Fred Martins – Depressa a vida passa, como depressa passou esse Chorinhos e Chorões. Mais não digo para não estragar a surpresa – ou já o fiz?. Nada, este texto é nada perto do programa.

Errata: os poucos mas fiéis leitores deste blogue e os muitos e fiéis ouvintes do Chorinhos e Chorões terão que esperar mais um bocadinho para ouvir o programa acima anunciado apressadamente. Amanhã (28), aproveitando sua passagem pela ilha, Ricarte Almeida Santos conversa com o professor Marco César.