João Donato: “São Luís pra mim é o presente”

Pianista completa 84 anos hoje (17), quando se apresenta na cidade. Por telefone, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Foto: Clever Barbosa

“São Luís pra mim é o presente”, me diz um simpático e sorridente João Donato, ao telefone, quando lembro-lhe a feliz coincidência: hoje (17), data em que completa 84 anos, ele se apresenta no Circuito São Luís do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen).

O show do pianista acriano radicado no Rio de Janeiro, um dos inventores da bossa nova, acontece às 21h20, entre os de Gabriel Grossi e Taryn Szpilman – toda a programação do festival é gratuita. João Donato (piano) se apresenta acompanhado por Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo) e Ricardo Pontes (saxofone), um timaço que o acompanha “há 30, 40 anos”.

 

Outro presente que João Donato acaba de receber é o troféu de melhor disco na categoria música eletrônica do 29º. Prêmio da Música Brasileira, realizado na noite da última quarta-feira (15), no Theatro Municipal do Rio. O disco em questão é Sintetizamor, dividido com o filho Donatinho.

Sintetizamor. Capa. Reprodução

Sintetizamor é um trabalho que eu fiz com meu filho Donatinho, aliás, é mais trabalho dele do que meu”, comenta, modesto.

E continua, com a naturalidade de quem está acostumado, ao comparar a sensação de ganhar mais um prêmio a vencer um torneio de tênis: “É como ganhar um torneio de tênis, sei lá o quê. A sensação é a de que o que a gente está fazendo está dando certo, está sendo compreendido”, afirmou.

Na conversa rápida por telefone, Donato riu quando lembrei-lhe seu encontro com Marc Fischer, jornalista alemão que se suicidou antes de ver publicado Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011]. Ao recebê-lo fumando, é interpelado pelo repórter: “você deve ser o último brasileiro que ainda fuma”, no que o pianista retruca: “e provavelmente o último brasileiro vivo”, cito de memória.

A Mad Donato. Capa. Reprodução

Vivíssimo, acaba de lançar A Mad Donato [Discobertas, 2018], box com quatro cds – os inéditos Gozando a existência (1978), Naquela base (1988) e Janela da Urca (1989), além de um cd de raridades, incluindo encontros com Alaíde Costa, Djavan e Nara Leão.

“São músicas que não entraram nos meus outros discos anteriores por falta de espaço, ou por que não combinavam com o repertório. Pegaram o que sobrou, fizeram um apanhado, o Marcelo Fróes, e chamaram de Raridades. Músicas que não foram lançadas nos discos, mas que eram para ter sido lançadas quando foram gravadas. Tem uma gravação minha com a Nara Leão, mas nunca saiu”, comenta sobre o quarto disco da caixa.

E completa, sobre o conjunto: “Sobra sempre muita coisa nas gravações. Ou falta. Quando falta eles inventam qualquer coisa pra completar. E quando sobra fica pra trás e se perde no tempo, a não ser que venha alguém colecionando essas coisas antigas, como aconteceu agora, essa caixa com quatro discos”.

João Donato segue fazendo história, tendo e nos dando vários motivos para celebrar, inclusive o show de hoje à noite. “Vai ser animado, as músicas que a gente gosta de tocar e que as pessoas gostam de ouvir”, promete.

João Donato: vivo, jovem e musical

Donato elétrico. Capa. Reprodução
Donato elétrico. Capa. Reprodução

 

Quando Marc Fischer, em sua busca frenética pelo outro João inventor da bossa nova, o baiano Gilberto, espantou-se ao encontrar o acriano Donato vestido em uma camisa florida e fumando: “você deve ser o último brasileiro que fuma”, disse, referindo-se à diminuição, nos últimos anos, nos índices de consumo de cigarros no país. “E provavelmente devo ser o último brasileiro vivo também”, respondeu-lhe o pianista e compositor.

Cito de cabeça a história contada pelo escritor alemão em Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011], que ele não chegou a ver publicado: suicidou-se antes.

Uma das provas da verdade na resposta de Donato é seu mais novo álbum, Donato elétrico [Selo Sesc/SP, 2016], cujo título é outra: a eletricidade-vida, que afinal de contas, move quem pensa em música o tempo inteiro.

Aos 81 anos, João Donato esbanja jovialidade, frescor e originalidade, ao juntar-se a um timaço de jovens músicos com que gravou o álbum novo, de ficha técnica extensa, todos, de algum modo, influenciados pelo som “donatural”: Cris Scabello (guitarra), Cuca Ferreira (saxofones e flautas), Daniel Gralha (trompete), Daniel Nogueira (saxofone), Décio 7 (bateria), Douglas Antunes (trombone), Gustavo Cecci (percussão), Marcelo Dworecki (contrabaixo), Mauricio Fleury (guitarra), Rômulo Nardes (percussão) – o Bixiga 70 –, Anderson Quevedo (flauta e saxofone) – que fez participações especiais em todas as faixas de The Copan connection, mais recente álbum da super big band –, Aramis Rocha (violino), Beto Montag (vibrafone e percussão), Bruno Buarque (bateria), Daniel Pires (viola), Guilherme Kastrup (percussão), Gustavo Ruiz (guitarra), Mauro Refosco (percussão), Renato de Sá (violoncelo), Richard Fermino (trombone e flauta), Robson Rocha (violino) e Zé Nigro (contrabaixo).

Completamente autoral, Donato elétrico ecoa – longe de reduzir João Donato a mero cover de si mesmo – momentos antológicos de sua lavra, como o fundamental A bad Donato e álbuns divididos com Eumir Deodato, outro mago das brancas e pretas.

Produzido por Ronaldo Evangelista, cujo texto elegante no encarte remonta a gênese do álbum, em Donato elétrico optou-se pelo uso de instrumentos antigos, para valorizar a sonoridade de uma época, embora seja impossível o álbum soar mais atual, desde o título de faixas como Here’s JD, Urbano e Frequência de onda.

É um disco em que cabe de tudo: para registrar seu “jazz tupiniquim” (para usarmos a expressão que dá nome à música de Glorinha Gadelha e Sivuca, outro ás da sanfona, instrumento no qual Donato começou e único que ele não toca no álbum), o garoto Donato diverte-se com Fender Rhodes, Farfisa, Pro-One, Moog e Clavinet, além de usar a voz em Tartaruga e G8.

Com arranjos de Anderson Quevedo, Bixiga 70, Cuca Ferreira, João Donato, Laércio de Freitas e Marcelo Cabral, em Donato elétrico João Donato é um membro da grande banda. Em Xaxado de Hércules, por exemplo, destacam-se os saxes de Cuca Ferreira e Daniel Nogueira, como se Coltrane dançasse solando para o bando de Lampião dançar. Combustão espontânea exala a latinidade afro-cubana, outra marca da obra do acriano, e traduz o espírito coletivo em que o disco foi realizado: o título dessa música explica o que acontece (e cujo resultado ouvimos) quando um naipe de feras assim se encontra.

Disco de estreia da Quartabê reverencia Moacir Santos

Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução
Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução

 

Nada na Quartabê é convencional. Nem o nome, nem a formação (quatro moças e um rapaz), rara no meio instrumental brasileiro, nem a acertada escolha do repertório do primeiro disco, formado quase completamente por composições do lendário compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista pernambucano Moacir Santos [1926-2006], intitulado justamente Lição #1 Moacir [2015], o que denota modéstia e humildade.

Descontração é fundamental e o nome do grupo surgiu de uma brincadeira entre seus integrantes: “Surgiu como uma gíria, porque nossos ensaios sempre foram muito bagunçados desde o início. Produtivos, mas com pausa pra youtube, piada e fofoca no meio. E a gente sempre dizia “nossa, essa banda é muito quartabê”, no sentido de sala de aula de escola”, revela a baterista Mariá Portugal.

Foi o homenageado o responsável por juntá-los: a Quartabê formou-se especialmente para o Festival Moacir Santos, realizado em 2014 no Rio de Janeiro. “A Quartabê é uma turma um pouco indisciplinada que está aprendendo a lição número 1 do professor Moacir Santos”, anuncia o perfil da banda no site que disponibiliza o disco para audição (gratuita) e download (pago). E não param em Moacir Santos as bênçãos a este quinteto instrumental (que também sabe cantar): Lição #1 Moacir foi gravado (e avalizado) no estúdio Comep por Ricardo Mosca, baterista do grupo Pau Brasil.

Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete e clarone), Maria Beraldo Bastos (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria), Ana Karina Sebastião (contrabaixo elétrico) e Chicão (piano e teclados) reverenciam o mestre sem se contentar em simplesmente executar peças de sua lavra. Tampouco a Quartabê se limita ao repertório mais fácil ou óbvio (se é que isso existe) de Moacir Santos: de suas Coisas, por exemplo, somente as de números 3, 8 e 5, nesta ordem, figuram no disco.

Há no registro espaços para o improviso e para o diálogo da obra “moacirsantosiana” (título de uma das faixas, Moacirsantosiana 10, de Maurício Carrilho) com a de outros nomes, explícita ou implicitamente. No primeiro caso, por exemplo, João de Barro e Antonio Almeida, autores de A saudade mata a gente, gravada na mesma faixa de When it rains [Brad Mehldau]; no segundo, Arrigo Barnabé (cuja banda Claras e Crocodilos é integrada pelas moças da Quartabê) e o Grupo Rumo, expoentes da vanguarda paulistana, no trato instrumental dado pelo quinteto aos 12 temas escolhidos para sua estreia. Com vocais, a vinheta Chamada evoca o clássico Clara Crocodilo [1980].

Difícil (e desnecessário) rotulá-los, pela abordagem inusitada. Não poderia ser diferente em se tratando de uma homenagem, justa e merecida, a um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos – embora menos falado e reconhecido do que deveria, quase praxe por estas plagas. Influência de Tom Jobim e João Gilberto, professor de Baden Powell, Eumir Deodato e João Donato, Moacir Santos certamente aprovaria os resultados obtidos por estes alunos, acima da média.

Aplicados, Mariá revela já estarem pensando na segunda lição: “vamos escolher outro professor, não sabemos qual. Mas ainda este ano pretendemos gravar um EP com mais músicas do Moacir”, adianta.

Ouça a Quartabê em Oduduá (Moacir Santos), faixa que abre Lição #1 Moacir:

Chorografia do Maranhão: Celson Mendes

[O Imparcial, 22 de fevereiro de 2015]

Aviador e violonista, Celson Mendes é o 48º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.

A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].

Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.

Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.

O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].

Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].

Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.

E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.

Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.

E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.

Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.

Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.

O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.

Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.

E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.

E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.

Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.

Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.

Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].

Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!

O fôlego musical de Zé da Velha e Silvério Pontes

[sobre o show da dupla, ontem (19), no Clube do Choro de Brasília, em companhia dos amigos Glauco Barreto, Ricarte Almeida Santos, Nelson Oliveira e Paulo Sá ]

Visivelmente mais magro após uma cirurgia, o trompetista Silvério Pontes não deixa nada a dever. Esbanjou boa forma e saúde musical ontem (19) no palco do Clube do Choro, em Brasília/DF.

Ao lado do trombonista Zé da Velha, com quem forma uma dupla – “a menor big band do mundo” – há 28 anos, desfilou um repertório vibrante de choro, acompanhados do quarteto Choro Livre, grupo anfitrião da capital federal, um dos tantos formados no bandolim projetado por Oscar Niemeyer que serve de sede ao Clube do Choro brasiliense.

Abro parênteses: impossível não adentrar o recinto, entre bar e teatro, adornado por um painel com temas chorístico-musicais, o fundo de palco evocando o homenageado do ano, o pianista acriano João Donato, e perguntar quando São Luís, outra importante praça do mais brasileiro dos gêneros musicais, terá uma sede algo parecida. Fecho parênteses.

Foi com música de João Donato que Zé da Velha e Silvério Pontes abriram o show: uma execução primorosa de A rã (letrada por Caetano Veloso). Clássicos do choro, como Cheguei (Pixinguinha), Pedacinhos do céu (Waldir Azevedo), Carioquinha (Waldir Azevedo), misturaram-se a temas menos conhecidos, como Casa nova (Pedroca) e Maxixe da família (Silvério Pontes).

Ainda houve espaço para piadas, entre as declarações da dupla pelo prazer de voltar à cidade em que ainda tocam hoje (20) e amanhã (21), às 21h (ingressos à venda no local, R$ 20,00). “Já são 28 anos tocando juntos, já é Zé da Velha e Seu Velho Pontes”, brincou o trompetista.

Com seus cabelos prateados e timidez característica, além do fôlego para soprar seu trombone, Zé da Velha ainda cantou Ai, que saudades da Amélia (Mário Lago/ Ataulfo Alves), para deleite da plateia.

Para semana que vem a produção do Clube do Choro anunciou apresentações do bandolinista baiano Armandinho Macedo, “depois do turbilhão do carnaval”. Inspirado nos acontecimentos chorísticos em Brasília/DF, Ricarte Almeida Santos, que estava na plateia, estuda a possibilidade de o Clube do Choro do Maranhão tornar às suas atividades musicais em breve.

Tássia Campos: da periferia ao universo

Sobre Trilha sonora do universo, show de Tássia Campos, ontem (27), no Cine Roxy, na programação da 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes

Numa época em que só se ouve falar em política, Tássia Campos aponta a poesia na nossa cara

Tássia Campos sobe ao palco acompanhada apenas do DJ Franklin e sob uma base posta por ele manda ver num reggae em inglês. O músico – sim, em seu caso DJ é músico! – havia tocado antes de Trilha sonora do universo, o show da cantora na 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes, em cartaz pela cidade até o próximo 1º. de novembro.

O espetáculo aconteceu ontem, no Cine Roxy. Antes de entrar, comentávamos, minha esposa, eu e o amigo Celso Serrão – que há tempos não via – que este era um daqueles espaços cujo novo nome – Teatro da Cidade de São Luís – não vai pegar. A cidade está cheia de exemplos: a Escola Técnica (hoje IFMA, depois de ser CEFET), a RFFSA (Plantão Central da Beira Mar), o Circo da Cidade (Circo Cultural Nelson Brito) – esse não pega mais nem o velho nem o novo.

O público era bom, embora o Roxy não estivesse completamente lotado, mesmo com toda a programação da mostra sendo gratuita. Após o duo com o DJ, a banda atacou. E que banda!: Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Paulo (contrabaixo) e Moisés Mota (bateria).

Aos incautos, Trilha sonora do universo, o título do show, pode soar pretensioso. Não é: tem a medida exata de quem conhece o talento que tem sem soar arrogante, sua trilha sonora e seu universo particulares.

O repertório vai de Novos Baianos (A menina dança), Bob Marley (Is this Love?) e Sérgio Sampaio (Que loucura! e Cada lugar na sua coisa), artistas que ela homenageou este ano com tributos, em shows diferentes, a André Lucap (Intervalo), Celso Borges (Persona non grata, poema dele musicado por ela, que o apresentou acompanhada de Edinho Bastos ao teclado), Kléber Albuquerque (Logradouro, primeira gravação dela que tocou no rádio e lhe valeu o troféu de artista revelação no Prêmio Universidade FM ano passado), João Donato (A rã) e George Gershwin (Summertime, no bis), entre outros.

Nada óbvio, portanto. Nem na escolha, nem nos arranjos, que Tássia e banda se preocupam em mostrar cada música, mais ou menos conhecida, com uma nova cara, um novo som, um novo coração. Como disse quando, ao avistar um de seus compositores na plateia, ao cantar sua música: “Desculpa, Lucap, mas essa música é minha!”. É isso: Tássia é uma recompositora.

Nela, tudo é sinceridade. Ela que faz poucos shows por preferir se manter afastada do esquema “pires na mão” praticado por nossos órgãos de cultura, agradeceu ao SESC a oportunidade de estar ali e elogiou o alto nível de profissionalismo de toda a equipe envolvida para que a Mostra aconteça – apesar de este blogue ter ficado sabendo do show pelo Facebook da própria cantora, a assessoria de comunicação (do SESC? Da Mostra?) ou não está funcionando ou nos ignora.

“Eu tenho até camarim. Eu perguntei a um dos músicos: “será que isso tudo é pra mim mesmo?”. Um camarim com flores, frutas… a gente é tão acostumado a ser maltratado, que até estranha, se espanta quando é bem tratado”, revelou, entre a sinceridade e a ironia, sempre apertando o dedo em nossas feridas. “E eu ainda tou recebendo pra fazer isso aqui; geralmente eu pago [para fazer shows]”, riu.

Emocionada chegou a chorar ao lembrar o saudoso mestre Leonardo, uma das maiores personalidades do bumba meu boi do Maranhão, oriundo da Liberdade natal da cantora, bairro sempre mais lembrado pelo estigma e pelas estatísticas da violência que por sua riqueza cultural. “É um bairro pobre, mas é tão rico. Só na rua em que nasci, tem um boi, um cacuriá, um tambor de crioula, uma quadrilha”, enumerou. “Leonardo para mim era [como] meu avô. Eu era uma das poucas pessoas de que ele lembrava, já acometido pelo Alzheimer [lágrimas interrompem a fala]. Depois de 26 anos eu deixei a Liberdade, mas por causa dele [Leonardo] é que eu vou ser sempre periferia!”, anunciou antes de mandar os “ó aqui pra vocês!” no Punk da periferia de Gilberto Gil.

Sobrou até para a tal da lei seca: “Eles fazem merda e roubam quatro anos e nós é quem temos que ficar sem beber?”, perguntou, anunciando que iria, dali, caçar canto para infringi-la. Se os que já saíram de lá embriagados de tanto talento, beleza e poesia mereciam, imagina ela, que nos proporcionou aquela hora e pouco de muita magia.

p.s.: obrigado, Celijon, pela info do batera. Hora dessas quito minha ausência com a Satchmo.

p.s.2.: obrigado, Fafá, pela foto do Gleydson Nepomuceno que ilustra o post, roubada de teu facebook. 

p.s.3.: CB, depois que o Souza inchou no bucho não rolou estica, foi mal aê! Terça ‘tou no Odeon pra te ver/ouvir, o que ainda direi por aqui.

Musa Rara

Há tempos o poeta Edson Cruz me falou dum projeto que estava desenvolvendo e convidou-me a colaborar, do Maranhão. Topei. Há  tempos o Musa Rara foi ao ar e eu ali, sem saber o que escrever no meio de tanta gente e tanta coisa boa. Pra não mais esperar, joguei, na estreia, o mesmo texto que havia escrito pro Vias de Fato de fevereiro, que, motivos de força maior, só foi às bancas agora no comecinho de março.

Estreio pois no Musa Rara com um texto que escrevi sobre Ho-ba-la-lá, livro em que me viciei após a recomendação certeira do professoramigo Flávio Reis. Impossível escapar ileso, imune, impune à leitura. Eu, que sempre tive “problemas” com a Bossa Nova, passei ao menos a ouvir seu papa, João Gilberto, com outros ouvidos. Continue Lendo “Musa Rara”