Goleada

Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação
Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação

Foi encerrado em grande estilo o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, ontem (6), na cidade balneária terra do padroeiro. Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga cantaram – os três primeiros revezando-se entre violão e percussão; o último apenas ao violão – para o ótimo público presente à praça da basílica.

Um público equilibrado entre moradores do lugar – uns sequer tiveram o trabalho de descer de suas calçadas, as cadeiras pelas portas da vizinhança do santo que dá nome a boa parte da população maranhense – e aqueles que fizeram de Ribamar uma espécie de cidade satélite cultural no último final de semana.

“É tão raro no Brasil, numa cidade do interior, as pessoas estarem ouvindo música popular brasileira à meia noite. Isso aqui é o futuro!”, vaticinou Moacyr Luz. Corroborando de sua profecia, passei a imaginar o que será esta produção de Tutuca Viana daqui a 10 ou 15 anos. O festival está no caminho certo, primando pela qualidade. Seu crescimento e continuidade depende de elementos externos: patrocinadores precisam acreditar que sua marca será vista por mais gente a cada ano, o poder público investir em estrutura (a sinalização da Estrada de Ribamar é precária, por exemplo) e o comércio local acreditar no potencial do evento (não há, na cidade vizinha à capital, um hotel com estrutura para receber os artistas – isto é, eles precisam se hospedar em São Luís, a mais de 30 km do local em que se apresentam). De todo modo, aposto que o São José de Ribamar Jazz e Blues Festival tem tudo para se transformar em uma nova Guaramiranga, talvez o maior evento do gênero hoje no Brasil, também realizado numa cidade do interior em um estado do Nordeste.

O repertório do quarteto no palco é completamente baseado no recém-lançado Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], comercializado pela primeira vez ontem, em São José de Ribamar – disco e dvd haviam acabado de chegar da fábrica e puderam ser adquiridos pelos fãs que enfrentaram a fila após o show para cumprimentar o timaço.

A metáfora futebolística é plenamente cabível: são quatro grandes craques de nossa música e, não à toa, abrem o show com Um a zero (Pixinguinha/ Benedito Lacerda/ Nelson Angelo), ao final da qual Macalé sopra um apito e aponta para o centro do gramado imaginário à beira do palco, para delírio da plateia e gargalhadas de Zé Renato, posicionado a seu lado.

Ao final de Favela (Padeirinho da Mangueira/ Jorge Pessanha), há tempos presente ao repertório de Macalé, o mais performático do quarteto, ele simula um trombone, imitando o som do instrumento com a boca e movimentando as mãos como se o soprasse; depois, tira um revólver de brinquedo de um penico e simula um tiro na própria cabeça, numa crítica à violência que ainda domina os morros, berços de tantos bambas, alguns deles lembrados no set list de Dobrando a Carioca.

O show é, em sua maior parte dedicado ao samba, mas grandes momentos surgem também quando fogem do gênero, casos, por exemplo, de Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé), que fez a plateia cantar junto, e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), idem.

Em Como tem Zé na Paraíba (Catulo de Paula/ Manezinho Araújo), imortalizada por Jackson do Pandeiro, Zé Renato tira onda consigo mesmo, ao entoar o verso final, “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, ao que Macalé emenda, aproveitando a ocasião: “de Ribamar”.

Díficil escolher um ponto alto do show, em que os quatro permanecem o tempo inteiro no palco. São sublimes momentos como as interpretações de Moacyr Luz para Cachaça, árvore e bandeira (Moacyr Luz/ Aldir Blanc), merecida homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça, com citação de Alvorada (Cartola/ Carlos Cachaça), de Guinga para Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), imortalizada por Leila Pinheiro, e de Macalé para O mais que perfeito (Vinicius de Moraes/ Jards Macalé) e Acertei no milhar (Wilson Baptista/ Geraldo Pereira), samba de breque cuja quebradeira faz novamente Zé Renato gargalhar.

“Até pinico dá bom som/ se a criação é mais, se o músico for bom”, dizem versos de Chá de panela (Guinga/ Aldir Blanc), em que, novamente para deleite e delírio da plateia e novas gargalhadas de Zé Renato, Macalé percute o penico que esteve a seu lado (portando seus instrumentos de percussão) o show inteiro. A música que encerra o show (e o disco e o dvd) é uma homenagem a Hermeto Pascoal, com fundo tetra-autobiográfico: nunca é demais lembrar que estamos diante de quatro gigantes. O Um a zero do bis é placar pequeno diante da goleada que foi o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival e, particularmente, seu encerramento com este já antológico Dobrando a Carioca.

 

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Senado

Ouvi há pouco na Rádio Senado (em São Luís desde 11 de novembro na frequência 96,9MHz) o programa Curta Musical, cuja edição de hoje era dedicada ao mítico guitarrista Lanny Gordin, um dos nomes fundamentais da Tropicália.

O programa faz jus ao nome, é uma pílula com entre seis e sete minutos e produção de Guilherme Miquelutti, sempre abordando algum tema dentro do universo que é a música popular brasileira – numa busca no portal da Rádio Senado encontram-se rapidamente para audição programas dedicados ao Dia Nacional do Forró, aos 20 anos do falecimento de Tom Jobim ou ao lendário Paebirú, disco de Zé Ramalho e Lula Cortez, hoje raríssimo, entre outros.

Curta Musical tem uma pesquisa interessante e a apresentação flui bem. No entanto, ao abordarem Lanny Gordin e sua importância para a música brasileira esqueceram-se do fundamental disco de estreia de Jards Macalé (cuja capa abre este post, ilustrando Revendo amigos, uma das faixas do disco) – tudo bem, ali ele toca contrabaixo, formando um power trio vigoroso com o próprio Macalé (ao violão) e Tutty Moreno (bateria). Mas não é qualquer contrabaixo: Jards Macalé [1972], o disco, traz algumas das melhores linhas de baixo da história da música ainda que impopular brasileira.

De todo modo, o programa trouxe a colaboração de Lanny com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa – o núcleo central da Tropicália, por assim dizer –, além da retomada da carreira nos anos 2000, quando a Baratos Afins lançou seu primeiro disco solo e deu vazão a outros projetos do guitarrista nascido na China. Novamente a pesquisa do programa esqueceu-se de Aos vivos, estreia de Chico César, lançado em 1994, em que Gordin comparece em algumas faixas.

Apesar da ranzinzice inicial, destaco a qualidade acima da média da programação musical da Rádio Senado e a importância da FM chegar a mais cidades – São Luís é a 10ª. capital a receber seu sinal, que chega também a outros 19 municípios do Maranhão –, permitindo a quem interessar possa acompanhar pautas e sessões legislativas, incluindo o comportamento de nossos representantes na casa.

As sessões e reuniões de comissões são transmitidas ao vivo, na íntegra, sem edição, garantindo transparência aos atos. A instalação da rádio na capital maranhense foi possível graças a uma parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, que dispõe de um vistoso complexo de comunicação, cuja programação tem dado espaço a pautas por vezes ignoradas pela mídia tradicional. Isto é, a TV Assembleia tem cumprido seu papel de emissora pública.

Engana-se quem pensa que o ouvinte da Senado será passivo. Diversos canais de comunicação estão à disposição da população: e-mail (radio@senado.leg.br), facebook (radiosenado), tuiter (@radiosenado) e whatsapp (61-86119591), além do site da rádio, onde é possível visualizar a grade e ouvir a íntegra de sua programação.

Bem vinda, Rádio Senado! E que cheguem logo outras rádios e tevês públicas a São Luís e mais e mais cidades do Brasil!

Documentário conta a história do Suvaco de Cristo

Domingo (9) no Curta! revi, por acaso, 20 anos de Suvaco (com U mesmo!), documentário que conta a história do bloco carnavalesco carioca Suvaco de Cristo. O filme entrevista diversos personagens que fizeram a história da irreverente agremiação, entre ritmistas, diretores, puxadores, foliões e compositores. Estes últimos merecem destaque. Integraram sua ala nomes como Bráulio Tavares, Chacal, Jards Macalé e Lenine – este quarteto fantástico ajuda a contar a história –, entre outros.

Os sambas tinham irreverência, bom humor, deboche, escracho, fazendo alusão ao Cristo Redentor (Divinas axilas deve ser a música com mais autores – são 20 – registrada por estas plagas) e/ou com um pé na história, sempre falando sobre algo em voga no período. Assim são lembrados sambas sobre a Constituição Federal de 1988 (“o bigodão cagou na Constituição”), latas de maconha que chegaram em latas à orla após serem jogadas no mar por uma tripulação, a cassação do presidente Fernando Collor, a ECO 92 (“ECO no ar/ de norte a sul”, com cacófato proposital) e até mesmo as confusões com a cúria carioca: integrantes do Suvaco de Cristo chegaram a ser presos pela polícia militar, acionada pela igreja católica, que achava ofensivo o nome da agremiação.

O filme é de 2006, quando o Suvaco completou 20 anos. Um bloco que começou com 20 ou 30 amigos chegou ao pico de arrastar 50 mil às ruas do Rio de Janeiro, o que levou a diversas dissidências também apontadas no documentário. 20 anos de Suvaco revisa um importante capítulo do carnaval e da cultura brasileiros.

Jards no Maranhão na Tela

Jards, documentário musical de Eryk Rocha, sim, o filho do homem, será exibido amanhã (28), às 22h, no Cine Praia Grande, e quinta (30), às 18h, no Teatro Alcione Nazareth, ambos no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Ambas as sessões são gratuitas, devendo os interessados retirar os ingressos nas bilheterias com uma hora de antecedência das exibições.

Para lembrar Nelson Jacobina

Faleceu na manhã de hoje (31), em decorrência de um câncer (dado como curado há alguns anos), o músico Nelson Jacobina. Coadjuvante, mas não menos importante, Jacobina talvez estivesse para Jorge Mautner como Vadico para Noel Rosa, para dar apenas um exemplo. Atualmente era também integrante da Orquestra Imperial.

Topei com ele há alguns anos no camarim de um show que fez com o parceiro no Circo da Cidade, produção de Ópera Night. Entre nomes como Tom Zé, Elomar, Jards Macalé e tantas outros que só Ópera opera a vinda à Ilha, a plateia para Jorge Mautner (voz e violino) e Nelson Jacobina (violino) foi uma das menores em que já estive. O que não os impediu de fazer um grande show.

No encontro no camarim após o show, Mautner sem camisa no calor de São Luís exibia no peito uma profunda marca de anos de instrumento. Não tirei foto nem peguei autógrafo. Contei uma história ouvida dias antes, que lembrava uma passagem deles (ou só de Mautner?) por Imperatriz, ocasião em que Neném Bragança sentou em cima (e obviamente quebrou) os óculos de Mautner. Este lembrava do episódio e os dois riram um bocado.

Os vídeos abaixo dão uma ideia da importância de Nelson Jacobina para a música brasileira, quer como compositor quer como músico, embora seu nome quase nunca seja lembrado de imediato, de tão atrelado a Mautner. É a melhor forma de lembrá-lo e homenageá-lo.

Por exemplo, quando Mautner (violino) e Jacobina (violão) acompanham Jards Macalé nesta magistral execução ao vivo de Vapor Barato (Jards Macalé/ Wally Salomão):

Ou nessa versão dos autores para o clássico Maracatu Atômico (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina), em que louvam Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e, claro, Chico Science, que com sua Nação Zumbi gravou a versão mais conhecida da música (também gravada por Gilberto Gil):

Agora a versão dos malungos:

Suas Lágrimas negras (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina) por Nina Becker, sua companheira de Orquestra Imperial, a música também já gravada por Gal Costa, Olívia Byington,  e em dueto por Otto e Julieta Venegas:

And last but not least sua Ela rebola (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina), com sua Orquestra Imperial:

Cidade lagoa

Música de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, composta entre o fim da década de 1930 e o início da de 40, sacada genial acerca do caos urbano do Rio de Janeiro da época, atualíssima e aplicável a qualquer cidade com tais problemas. O blogue traz duas gravações distintas e belíssimas, acima a de Moreira da Silva, o Kid Morengueira (a faixa não integra o disco O último malandro, de 1958, que ilustra o “vídeo”: encontrei-a em Moreira da Silva fotografa o Rio, coletânea com data de lançamento incerta).

Olha a letra, transcrita do encarte de Iaiá [Biscoito Fino, 2004], de Mônica Salmaso, cuja gravação se ouvê ao final do post:

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo pára
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai

Então, poucos-mas-fieis leitores, lembrem da chuva que castigou São Luís na manhã de hoje (20) e adaptem a letra a seu gosto: “É uma enorme cachoeira a ilha onde moro/ que da praça Deodoro/ vou de lancha ao Araçagy”. Ou “Que maravilha nossa linda São Luís/ ainda querendo ser Paris/ sem ter uma luz acesa”. Fiquem à vontade para o exercício.

Da minha casa até o trabalho de minha esposa pego exatos 10 semáforos (nem conto o resto do trajeto, que faço do trabalho dela ao meu): com aquela chuva apenas dois funcionavam. Na avenida Camboa, no bairro homônimo, os três por que passamos estavam apagados. Em São Luís acontece de tudo: água empoça até mesmo sobre a ponte (aconteceu na do São Francisco).

São Luís, cidade lagoa. Abaixo a belíssima gravação de Mônica Salmaso para a música-epíteto da capital maranhense, com o luxuoso acompanhamento do Quinteto Sujeito a Guincho (feliz coincidência, aliás: carros estacionados em áreas alagáveis, e estas não são poucas, com a chuva estão o nome do quinteto):

Outra gravação para Cidade lagoa que merece atenção é a de Jards Macalé em O q eu faço é música [Atração, 1998]. O blogue agradece a Ricarte Almeida Santos, pela memória e hipertexto.

Semana Sérgio Sampaio

SARAVÁ RELANÇA SINCERAMENTE

Em 2005 Zeca Baleiro inaugurava seu selo Saravá Discos lançando Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, coleção de 10 poemas do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), de Hilda Hilst, musicados pelo maranhense e interpretados por um time feminino de primeira linha da MPB, e Cruel, póstumo inédito de Sérgio Sampaio.

Fã confesso de Sampaio, Baleiro anunciaria, pouco tempo depois, o desejo de trazer ao formato digital Sinceramente (1982), disco do capixaba que até pouco tempo era encontrado apenas em vinil ou para download na internet.

Demorou, mas Sinceramente finalmente é relançado: disco tão bom quanto raro, foi o último lançado em vida, de forma independente, por Sampaio, que morreria 12 anos depois, em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

Em 2007, quando Sérgio Sampaio completaria 60 anos, fiz pequenas entrevistas com algumas pessoas acerca de sua vida e obra. A ideia era escrever uma matéria por ocasião da data. Acabou não rolando. As entrevistas e depoimentos permaneceram inéditos.

Para festejar o lançamento Saravá, inicio aqui uma série de posts para tirá-los das gavetas virtuais. Ou colocá-los, sabe-se lá.

Começo com Zeca Baleiro, que me respondeu por e-mail, dia 12 de abril de 2007, as cinco perguntas abaixo, sobre Sampaio, Cruel e um site dedicado à memória do artista (que este blogueiro não tem notícias atuais sobre o mesmo ter sido lançado ou não).

ENTREVISTA: ZECA BALEIRO

ZEMA RIBEIRO – Qual a importância, o devido lugar de Sérgio Sampaio na música popular brasileira?

ZECA BALEIRO – Acho que o Sérgio, junto a outros de sua geração como [Jards] Macalé, [Jorge] Mautner e [Luiz] Melodia [que participa de Sinceramente] inauguraram uma mistura de música brasileira com blues e rock, diferente da que foi experimentada pelos tropicalistas, muito bem-sucedida. Hoje seriam chamados de ecléticos, mas eram muito mais que isso, eram artistas muito intuitivos e sagazes que abriram uma picada nova, vigorosa e com muita, muita poesia.

Por que artistas de seu quilate morrem, na miséria, em quase completo desconhecimento por parte da maioria da população? Não saberia discorrer sobre o tema, que é muito complexo. Não gosto de simplificações, há sempre muitos fatores a serem analisados, inclusive a própria postura do artista diante do mundo, do mercado, do “sucesso”. Enfim, difícil dar qualquer palpite sobre isso.

O que significa para você produzir um disco póstumo de um grande ídolo? O resultado satisfez tuas expectativas, sejam elas comerciais, estéticas, emocionais etc.? Sobretudo emocionais. Pra mim foi um acerto de contas com o Sampaio, com o que a sua música causou em mim, de uma forma definitiva. Foi um disco também muito bem recebido pela crítica. E tem tido uma venda modesta mas satisfatória, sempre crescente.

De onde partiu a ideia de lançar um site, cuja intenção, imagino, é, além de preservar a obra de Sampaio, torná-la conhecida dos mais novos? Quem está envolvido neste projeto? Há muita gente envolvida no projeto, que começou após uma conversa com Angela e João, sua ex-mulher e seu filho. Há colaboradores como Sérgio Castellani, jornalista e grande fã do Sampaio; Rodrigo Moreira, que escreveu sua biografia e Sérgio Natureza, parceiro do Sampaio e grande poeta e compositor. Acho importante a existência do site, pois garante um pouco mais de permanência do Sampaio, o personagem, pois sua música já está no panteão dos grandes, mesmo que o mundo a desconheça.

O lançamento de Cruel cumpre uma função importantíssima no sentido de difundir a obra de Sampaio, mas a tiragem é pequena, bem como o relançamento dos discos do compositor em cd, cujas tiragens, idem, logo se esgotam. A que você credita o, ainda hoje, quase total desconhecimento da obra do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, como Sampaio é mais comumente lembrado, pelos brasileiros? Sampaio teve um sucesso estrondoso com o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua], vendeu mais de 500 mil cópias à época, um verdadeiro fenômeno de vendas, comparável apenas a Roberto Carlos, seu conterrâneo e maior vendedor de discos do país. Depois disso, sua carreira desandou, e embora tenha feito discos artisticamente fantásticos, foram grandes fiascos comerciais, o que o relegou a um grande ostracismo. A desinformação do público também colabora, por isso é tão importante a criação do site.

Imperdível

O diretor Geneton Moraes Neto (D) observa Caetano Veloso

CANÇÕES DO EXÍLIO
Direção de Geneton Moraes Neto tem capítulo inédito.

Agora em quatro episódios – a série foi apresentada originalmente em três programas –, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner relembram momentos marcantes em suas trajetórias na série dirigida por Geneton Moraes Neto.

A expatriação de Gil; o interrogatório a que Caetano foi submetido ao visitar sua terra natal; o choque de Macalé ao sair do Carnaval diretamente para o inverno londrino; as discussões de Mautner em defesa do Brasil como um país do futuro; e os diálogos com o cineasta Glauber Rocha são alguns dos temas abordados.

Sob a ótica dos próprios artistas que sofreram “na pele” com a ditadura, a atração apresenta, em quatro programas especiais, os principais acontecimentos decorrentes do cárcere, da vida no exílio e da tão aguardada volta para casa.

A posição contestadora e contrária ao regime dos entrevistados gerou alguns fatos curiosos como, por exemplo, a tentativa de influenciar Caetano a compor uma canção exaltando a Transamazônica, usando o argumento de que outros companheiros já estariam contribuindo com o governo; e os momentos vividos por Gil na prisão, onde teve seu cabelo cortado à força e foi obrigado a fazer um show.

No último e inédito episódio, Caetano e Gil falam sobre a relação com a música britânica durante o tempo vivido naquele país. Em quatro escalas, os baianos relembram as sensações vividas ao lado de Jimmy Hendrix – com quem conversaram após a apresentação considerada a última de sua carreira –; dos performáticos Rolling Stones; de Bob Dylan, que acabara de sofrer um grave acidente; e de John Lennon e Yoko Ono na experimental Plastic Ono Band.

Comentam ainda a importante influência dos rockeiros estrangeiros em seus trabalhos à época, citando principalmente a faixa O Sonho Acabou, inspirada nos versos de God, de John Lennon.

Produzida por Jorge Mansur, a série conta com a participação especial do ator Paulo Cesar Peréio, apresentador e ex-militante do Partido Comunista, que atuou na década de 1970 em diversos filmes contra o regime de exceção.

Estreia: terça, dia 18/10, às 23h.

Do site do Canal Brasil.

Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica: poéticas da leitura em Sonho interrompido por guilhotina

[…]

Esta não é senão a narrativa que devolve Raduan Nassar àquele tempo, personagem de Joca Reiners Terron em “Cem Mil Frangos Fantasmas”. Pródigo renitente sob o olhar de um narrador que tem diante de si uma entrevista concedida ao repórter Elvis Cesar Bonassa, da Folha de S. Paulo, em 1995, décadas à frente desse dia. As respostas de Nassar dão a liga para a malha movediça dessa história, a memória arrebatada da escrita de Um copo de cólera, a rotina dos dias gastos no fio vivo da navalha exposta na conversa em que o autor cavalga novamente o verbo, e quem sabe a ignição dessa lembrança possa atear clareza sobre seu abandono da literatura?

[…]

Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

[…]

Aqui e aqui trechos (donde catei os acima) do trabalho que batiza este post, a dissertação de meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, que ele defende logo mais na ECA/USP. A ele, todo o sucesso, mais que merecido. Força, bróder!

Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica: poéticas da leitura em Sonho interrompido por guilhotina

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Esta não é senão a narrativa que devolve Raduan Nassar àquele tempo, personagem de Joca Reiners Terron em “Cem Mil Frangos Fantasmas”. Pródigo renitente sob o olhar de um narrador que tem diante de si uma entrevista concedida ao repórter Elvis Cesar Bonassa, da Folha de S. Paulo, em 1995, décadas à frente desse dia. As respostas de Nassar dão a liga para a malha movediça dessa história, a memória arrebatada da escrita de Um copo de cólera, a rotina dos dias gastos no fio vivo da navalha exposta na conversa em que o autor cavalga novamente o verbo, e quem sabe a ignição dessa lembrança possa atear clareza sobre seu abandono da literatura?

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Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

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Aqui e aqui trechos (donde catei os acima) do trabalho que batiza este post, a dissertação de meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, que ele defende logo mais na ECA/USP. A ele, todo o sucesso, mais que merecido. Força, bróder!