Stédile critica governo de Dilma Rousseff mas defende sua permanência

Bem humorado e otimista, sua postura reafirma a coerência do MST, que em 2009 defendeu a manutenção de Jackson Lago no governo do Maranhão

Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)
Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile esteve ontem (8) em São Luís. Pela manhã a liderança cumpriu agenda no Palácio dos Leões, onde foi recebido pelo governador do Maranhão Flávio Dino e diversos secretários de Estado. Em pauta a execução do programa de alfabetização Sim, Eu Posso, em oito dos 30 municípios de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Maranhão, pelo MST, através de parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e as secretarias de Estado da Educação (Seduc) e dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

À noite, Stédile participou de atividade da Frente Brasil Popular no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema (Rua da Estrela, Praia Grande). A FBP é um coletivo de militantes e organizações sociais, entre as quais o MST e a Via Campesina, que tem se manifestado contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em evento intitulado “Análise de conjuntura: os rumos do Brasil frente a crise política atual”, Stédile falou para um auditório completamente lotado, refletindo sobre o atual momento político vivido no país e tentando traçar alguns cenários possíveis.

“A massa trabalhadora ainda não percebeu os riscos que corre com um eventual impeachment. O que os apoiadores e financiadores do golpe querem é a redução de direitos trabalhistas. Até agora, só fomos para a rua nós, militantes. No dia em que os 120 milhões de trabalhadores do Brasil saírem às ruas vai faltar rua”, comentou.

Ele, no entanto, não poupa críticas ao governo Dilma. “Vimos uma inércia em relação à reforma agrária e à titulação de territórios quilombolas. Agora que ela assinou uns poucos decretos, o que é uma merreca”.

Stédile defendeu a reestatização da Vale: “se não por qualquer outro motivo, pelo crime ambiental em Mariana. Mataram pessoas e mataram um rio de mais de 700 quilômetros. Isso tudo é impagável”, defendeu.

O intelectual orgânico do MST, um dos maiores em atividade no Brasil, pregou ainda outra relação do homem com o meio ambiente e o consumo. “Nós da esquerda costumamos culpar o Alckmin pela falta de água em São Paulo, por que é mais cômodo. É claro que ele tem sua parcela de culpa, como representante do grande capital, mas o problema foi a morte das nascentes. Pode chover o quanto chover em São Paulo, o problema não se resolverá. E por que mataram as nascentes? Para dar lugar aos monocultivos de cana de açúcar e eucalipto”.

Stédile reconheceu avanços sociais conquistados nos governos do PT, ainda insuficientes. “O Minha casa, minha vida precisaria de muito mais unidades habitacionais por ano para resolver o déficit acumulado. No ensino superior, seis milhões disputam pouco mais de um milhão de vagas em instituições públicas e privadas. E os cinco milhões que sobram? Eu digo para eles se juntarem ao Levante Popular da Juventude e irem para as ruas. Mas eles não me ouvem”, disse para aplausos e risos da plateia.

A grande mídia também não foi poupada por Stédile, principalmente a Rede Globo. “São os porta-vozes dos interesses dos que querem tomar o poder e, uma vez lá, reimplantar o neoliberalismo, a retirada de direitos dos trabalhadores e de recursos públicos para a saúde e a educação no Brasil, inclusive o petróleo, última riqueza coletiva do país”.

“É preciso defender o mandato de Dilma Rousseff e, uma vez mantida no cargo, ela precisa refazer o governo. Compor um ministério de notáveis, gente que tenha entendimento dos assuntos e seja reconhecida e respeitada pela sociedade. Ir mais para a esquerda”, apostou.

Stédile lamentou ainda o assassinato de trabalhadores sem terra no Paraná. “O Paraná é governado pelo PSDB. É uma amostra do que vem por aí. Passando o impeachment o ministro do desenvolvimento agrário será o Raul Jungman [PPS/PE]”, arriscou um prognóstico referindo-se ao hoje deputado federal. Presidente do Ibama no governo de Fernando Henrique Cardoso, Jungmann foi descoberto ano passado mantendo simultaneamente dois mandatos: não deixou a câmara municipal do Recife para assumir a vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Com diversos atos previstos em várias cidades do país, ele previu ainda que a próxima será uma semana histórica para o futuro do Brasil.

A postura crítica de Stédile, intelectual menos conhecido do que deveria, em geral tachado de “guerrilheiro” e “terrorista” pela velha mídia que critica, reafirma a coerência do MST que representa: em 2009, quando da cassação do governador do Maranhão Jackson Lago, através de um golpe judiciário, os sem terra estavam na linha de frente na defesa do mandato conquistado legitimamente através do voto popular.

“A história se repete como tragédia ou como farsa”, como dizia um intelectual que também lhe serve de inspiração, mais barbudo que ele.

Subiu Oscar Niemeyer, artista e comunista

O jovem Niemeyer e a maquete da catedral de Brasília

Oscar Niemeyer (1907-2012) era comunista. Morreu sendo, convicto como um José Saramago, idem. Niemeyer era comunista em gestos como comprar uma casa – ou era um apartamento? – para o também comunista Luis Carlos Prestes. Ou ao projetar a casa de seu motorista, cravada nalguma favela carioca. Ou ainda ao dizer que dinheiro só servia para duas coisas: gastar e emprestar aos amigos e não cobrar.

Não sei se a grande mídia fica feliz ou triste com a morte de Niemeyer. A big old media poderia ter certo prazer pela morte de um comunista, num tempo em que isso está tão fora de moda – ou desvirtuado, para dizer o mínimo, embora não fosse este o caso de Niemeyer, um comunista autêntico e absoluto. O partido da imprensa golpista poderia, por outro lado, entristecer-se pela morte de um gênio, que há coisas que ninguém pode negar.

Não lembro a primeira vez que ouvi falar ou vi uma obra do arquiteto. Mas não canso de elogiá-lo como gênio por sua arte: a arquitetura que nos legou Brasília, a capital federal inaugurada por Juscelino Kubitschek em que, a cada vez que passo por lá, não canso de me sentir dentro de uma imensa obra de arte a céu aberto, com os versos de Caetano e Djavan ecoando na cabeça, o “céu de Brasília/ traço do arquiteto”, certamente o céu mais bonito que já vi, coisa de deuses, – que pouco importa que digam que comunistas são ou devem ser ateus – Niemeyer e o que ele foi encontrar agora.

São Luís tem uma obra de Niemeyer, a Praça Maria Aragão em que sempre dá prazer e orgulho pisar. Pelo pássaro arquitetado pelo gênio, pela visão linda que se tem 360 graus, pela homenagem à companheira de comunismo, a médica e militante maranhense. Não tivesse sido Jackson Lago apeado do Palácio dos Leões, capaz de à praça já ter sido anexado o Museu de Arte Contemporânea, cujo projeto foi a Niemeyer encomendado pelo então governador.

Início dos anos 2000 lembro-me de ter usado em um antigo computador de trabalho – época em que eu sequer tinha um em casa – uma proteção de tela, baixada no site da revista Trip. Era uma animação com rabiscos alçados ao status de grande arte que deixavam-nos pensando nas mais básicas ideias da concepção de Brasília, como se o arquiteto estivesse ali, invisível, desenhando para nós.

Dava até vontade de evitar as possíveis lesões por esforço repetitivo e, de hora em hora, parar um pouco o trabalho, só para ficar revendo seus desenhos, que ele, agora invisível, já não fará mais por aqui.

Uma coisa é certa: se Deus deixá-lo trabalhar, o céu estará ainda mais bonito quando a gente chegar por lá.

Kate Moss: "Esse é seu escritório? Você ainda trabalha?" Oscar Niemeyer: "Todos os dias!" (Vogue Brasil, maio de 2011)
Kate Moss: “Esse é seu escritório? Você ainda trabalha?” Oscar Niemeyer: “Todos os dias!” (Vogue Brasil, maio de 2011)

As fotos que ilustram este post, roubei-as, aquela, do blogue da Cynara Menezes, a Socialista Morena, e esta, do Facebook da jornalistamiga Gilda Lamita, agradecendo e abraçando a ambas.

Outro viés da notícia no contexto da imprensa maranhense

“Atualmente, o governo do Estado está sob a direção de Roseana Sarney Murad, filha de José Sarney, que assumiu a gestão em abril de 2009, após a cassação do mandato do então governador Jackson Lago (2007-2009) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Roseana concluiu o mandato de Jackson e foi reeleita governadora em 2010. O processo eleitoral que a reelegeu tem sua legitimidade e lisura questionados enfrentando três processos de cassação impetrados por seus opositores. As análises feitas pelos grupos de oposição, pelos cientistas políticos, pesquisadores e movimentos sociais e legitimadas pelos dados oficiais revelam um estado cada vez mais empobrecido, em relação assimétrica e inversa com os discursos do “progresso e do desenvolvimento” alardeado nas propagandas oficiais e no impresso oficial da família, O Estado do Maranhão”.

Quarta irmã Cajazeiras, o presidente do Senado sempre soube utilizar a mídia

“Para além da meteórica atividade jornalística, antes de ingressar na Academia Maranhense de Letras e de iniciar sua carreira política, Sarney desde o começo da vida pública, relaciona-se e utiliza-se estrategicamente dos meios de comunicação. A aproximação com a linguagem do cinema, à época um importante instrumento de transmissão da informação em se tratando da realidade maranhense onde a televisão ainda estava se afirmando e muitas cidades interioranas dispunham de salas de projeção, a utilização de jingles de campanha com direito a produção de disco com artistas de renome no rádio brasileiro, a utilização da Rádio Timbira, estatal onde eram veiculados spots e informações do governo, foram passos iniciais na direção do que viria a se constituir mais tarde”.

“Com tal histórico de concentração dos meios de comunicação nas mãos de um grupo político dominante e/ou de grupos políticos e empresariais (que estão ou já foram) vinculados ao primeiro, onde a maioria das concessões, no caso das mídias eletrônicas, e as estruturas, no caso da mídia impressa, foram implementadas a partir de práticas patrimonialistas, o discurso que prevalece nos noticiários é um discurso hegemônico e bipolar, ora com o predomínio de fatos que se banalizam com o passar do tempo: os buracos no período chuvoso, os engarrafamentos, os assassinatos, os assaltos a bancos; notícias em torno de pautas sazonais/comemorativas, ora a exaltar as “singularidades” da cultura e da natureza do Maranhão. São raríssimas as inserções de temas considerados importantes e estratégicos para a sociedade maranhense em trabalhos jornalísticos que possam revelar investigação e análise, motivando assim um debate público e que possibilite aos leitores capacidade de interpretação, de discernimento, de criação de sentidos para a compreensão da realidade do estado. E quando temas mais complexos aparecem, são externados como fatos contados de forma recortada, incompleta, a esconder a sua verdadeira natureza, implicações, causas e personagens.

Nessa perspectiva, o campo da comunicação que deveria ser instrumento de fortalecimento da pluralidade de vozes, do contraditório, da liberdade de expressão, o espaço democrático das diversas versões e olhares, torna-se, majoritariamente, apenas um campo das repetições dos padrões de manipulação dos discursos, das verdades parcialmente construídas ou ocultadas no processo de reconstrução da realidade através das narrativas”.

“José Sarney funda O Estado do Maranhão enquanto um “instrumento político”: o instrumento é um objeto inanimado, algo a ser manipulado. Emílio Azevedo, refere-se ao Vias de Fato como uma “iniciativa política”: iniciativa refere-se a ação, movimento, e sendo político, a algo que está intrínseco ao elemento humano que constrói um espaço e debate públicos. A análise, que não é simplesmente uma questão semântica, repercute nas formas de operacionalização das experiências. No primeiro caso, o jornal é instrumento político, objeto empresarial de obtenção de lucro e também de manutenção do poder político. No segundo caso, abre espaço para setores e tema sociais obscurecidos, negados, e favorece a democratização não tão somente do acesso à informação, mas também às formas de construção dessa informação.

A apresentação da notícia no Vias de Fato, além do predomínio do gênero opinativo, adquire características do formato de revista dado que a experiência não tem compromisso com o “furo de reportagem”, mas com o aprofundamento e a investigação dos temas que lhes são caros e complexos”.

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Trechos da monografia Vias de Fato: outro viés da notícia no contexto da imprensa maranhense, que a cantoramiga Lena Machado apresentou ontem ao curso de Comunicação Social, habilitação em jornalismo, da Faculdade São Luís, sob orientação de meu orientador Francisco Colombo. O trabalho foi aprovado pela banca examinadora com nota 10.

Ao publicar os trechos acima, do trabalho que teve revisão deste blogueiro, repetimos os parabéns já transmitidos à autora por telefone, ontem, logo após sua defesa. Íntima do palco, Lena Machado preferiu não ter amigos assistindo-a perante a banca e preferimos respeitar a vontade de sua timidez. Com o título, o jornalismo soma-se à música para fazer ecoar sua voz na defesa dos direitos humanos e justiça social no Maranhão e em qualquer lugar por onde ande, cante e escreva.