Sebo no Chão, som na caixa!

Acervo Sebo no Chão. Divulgação
Acervo Sebo no Chão. Divulgação

Estive uns poucos domingos no Movimento Sebo no Chão, capitaneado pelo estudante Diego Pires, que fim de semana após fim de semana, tem ocupado a praça defronte à Igreja Católica do Cohatrac.

Louvo a iniciativa principalmente por duas características suas: a gratuidade e a descentralização, já que quase tudo em São Luís acontece na região central da capital.

Mais que moda passageira, como tanto vemos por aqui, o Sebo no Chão caracterizou-se como um importante espaço de vivência cultural. O nome do evento remonta ao início, quando simplesmente Diego começou a vender livros na calçada, ao que depois agregou shows musicais, teatro, cinema, gastronomia, brechó, literatura etc.

Muitos artistas já passaram pelo espaço, que agora quer melhorar a estrutura que oferece ao público presente, parte dele já cativo, outra formada de frequentadores ocasionais – caso deste blogueiro.

O Sebo no Chão está com uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, visando adquirir o equipamento de som necessário para a realização dos shows. Mais detalhes no link.

Há algum tempo, no Vias de Fato, o perro borracho Igor de Sousa, publicou um texto sobre o acontecimento dominical. Continue Lendo “Sebo no Chão, som na caixa!”

Gente, livro e pedra

O blogueiro, de latinha na mão, com os poetaços Ademir Assunção e Marcelo Montenegro (Foto: Igor de Sousa, o DP)

Como se árvores brotassem por entre os paralelepípedos, a 7ª. Feira do Livro de São Luís rendeu bons frutos. A começar pelo convite, prontamente aceito, de assumir uma página mensal neste Atual, imensa honra. É o Maranhão falando para o Brasil, depois de ter ouvido o mundo falar durante a #7FeliS.

Sérgio Cohn é poeta-autor-editor cujo trabalho acompanho há bastante tempo, proprietário da editora Azougue, responsável por tanta coisa boa no mercado editorial brasileiro nos últimos anos, da coleção Encontros, das entrevistas do Bondinho, de beats e Mautner e tantos outros, ele, um dos convidados da #7FeliS, ocasião em que falou justamente sobre o tal mercado editorial.

Este ano a Feira do Livro expandiu-se: continuou com a função de vender livros, mas foi além, e em 10 dias trouxe à São Luís alguns personagens fundamentais para o fazer literário brasileiro. Tendo como patrono o poeta Nauro Machado, quase oitentão com 40 livros publicados, e como homenageados Aluísio Azevedo, Catullo da Paixão Cearense, Salgado Maranhão e Zelinda Lima, a Feira fez valer ainda a máxima de outro homem das letras, centenário em 2013: Vinicius de Moraes. “A vida é a arte do encontro”, dizia.

A literatura deixou de ser do gueto, algo para iniciados, e encontrou a cidade. Uma na outra, outra na uma, e esbarrões entre sorrisos e abraços. Esquinas, becos, ruas, ladeiras, praças, auditórios, teatros, galerias, sacadas, escadarias e azulejos, tudo havia sido ocupado pela poesia, como num velho poema de Gullar.

Escritores se encontraram com a gente do lugar, a Praia Grande finalmente revivida, como um lugar propício aos fazeres artísticos, com seu acervo arquitetônico entre o que merece ser chamado patrimônio e suas ruínas cinematográficas, o espaço finalmente valorizando, após umas poucas iniciativas, as pessoas, verdadeiro patrimônio maior de qualquer lugar.

Manhãs, tardes, noites e madrugadas tomadas pela programação da Feira e pela “hora extra” que se fazia entre o Mundico – para provar sua deliciosa anchova na brasa –, o Chico Discos e o Bar do Léo, com seus incríveis acervos e o conhecimento artístico, sobretudo musical, dos proprietários. As histórias engraçadas de Josoaldo Rego e a comanda infalível de Marília Oliveira, os autógrafos de Benjamin Moser a Andréa Oliveira e Rita Luna Moraes – que Talita Guimarães pegou em sua Programação, o que não a fez se emocionar menos. Ambientes que também encantaram Sérgio Cohn, Fabiano Calixto, Ademir Assunção, Marcelo Montenegro, Marcelo Watanabe, Xico Sá, Rodrigo Garcia Lopes, Bráulio Tavares, Caco Pontes e outros.

Admirador do trabalho de todos e de alguns outros que não consegui ver ou encontrar, o calçamento da Praia Grande parecia ter se transformado em feito de nuvens, eu perambulando entre o trabalho e o prazer – aqui plenamente conciliáveis – como O sonhador insone: “tudo é nascente/ o sol pleno de setembro (e outubro, permita-me adulterar o poema)/ traz da mão/ do garoto que passa/ um cheiro de fruta (…)// (a vida já é um tempo/ por demais interessante)”.

A busca idílica de Marcelo Montenegro pela Fonte do Bispo – e outras paisagens do Poema Sujo – e a conquista de novos leitores de poesia: “não pude resistir quando ele disse que era um punk do ABC”, revelou Igor de Sousa, assumidamente um desajustado punk no apelido DP, ao adquirir o belo exemplar dA canção do vendedor de pipocas, de Fabiano Calixto.

A visita de Ronaldo Bressane à Fundação da Memória Republicana, nome pomposo do museu, ou antes, da catacumba do Sarney, “único museu de São Luís com ar condicionado”, onde clássicos da literatura produzida no Maranhão ficam em “aquários”. “Vamos quebrar os aquários, vamos quebrar a fundação, vamos quebrar o Sarney!”, convidou encerrando sua fala na mesa mais transgressora da Feira, dividida com Allan Sieber, Bruno Azevêdo e Iramir Araújo. Gente que sabe o que fala.

Fracasso da Raça, o nome da banda com que Ademir Assunção lançará em novembro seu novo disco, Viralatas de Córdoba, virou jargão anticapitalista. Os atendentes de telemarketing das operadoras de telefonia ou internet ou tv a cabo ou cartão de crédito ou loja ou banco não resolvem o seu problema? É o Fracasso da Raça. Você chega a um estabelecimento a fim de resolver um problema e é direcionado a um telefone, “retire do gancho e siga as instruções”, é o Fracasso da Raça.

Os poemanchetes de Caco Pontes, tornando pura poesia o que nosso jornalismo tem de pior. Letra de música é poesia e vice-versa? Ricardo Corona e sua poesia étnica, sons ganhando sentido, em diálogo com Bráulio Tavares, multiartista consciente de seu próprio fazer, sua fala ilustrada por canções, 35 anos desde a primeira gravação de Elba Ramalho para uma delas, Caldeirão dos mitos.

“Embora haja tanto desencontro nessa vida” você perde a palestra de Alice Ruiz, “A poesia muda o mundo?”, e levanta da mesa pouco antes de ela chegar. Não se pode ter tudo. Alguns autógrafos que te acompanharão pra sempre, a emoção cravada num livro de sua modesta coleção, para uns um orgulho bobo, a vida não foi feita para ser entendida, “a vida já é um tempo/ por demais interessante”, um eco.

A Feira também fez sentido por estar localizada ali nos arredores da Feira da Praia Grande, uma das mais famosas e charmosas da cidade. A Feira virou uma verdadeira festa e deixa saudades. Deixou muita gente com a cabeça ainda mais cheia e a pilha-fila de livros por ler aumentada. A Feira ainda será assunto em rodas reais ou virtuais durante muito tempo.

Sua mais perfeita tradução é o sorriso enérgico do poeta Celso Borges, seu curador. O seu nunca cansaço, a sua eterna capacidade de se emocionar com cada dia e acontecimento, feito criança de brinquedo novo. A serpente pode até não ter acordado ainda. Mas seu sono foi certamente incomodado com tanto barulho.

[Textinho que escrevi pro Atual, “o último jornal da Terra”, do grande Sérgio Cohn, da Azougue. Balanço sentimental da 7ª. Feira do Livro de São Luís, cuja equipe de curadoria tive o prazer e a honra de integrar, escrito imediatamente após a hora da xepa, em outubro passado]

O punk lírico Marcos Magah, um autobiógrafo musical

[Vias de Fato, agosto/2013]

Marcos Magah prepara O homem que virou circo, sucessor de Z de vingança, a bem sucedida estreia, discos de uma trilogia sobre mágoa, solidão e morte. Autobiógrafo musical, o punk lírico conversou com o Vias de Fato, vindo diretamente de uma sessão de gravação.

TEXTO E ENTREVISTA: IGOR DE SOUSA E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: ZEMA RIBEIRO

Los Perros Borrachos já haviam pedido a conta e estavam prestes a ir embora, quando o cantor e compositor Marcos Magah, mais de uma hora de atraso, adentrou o Cafofo da Tia Dica, aconchegante boteco por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande. Chegou desculpando-se: estava no Paranã, em uma sessão de gravação de seu novo disco, O homem que virou circo. “Todo mundo só fala desse negócio de Praia Grande. Ninguém cita o Paranã. O Paranã é um bairro importante, cara”, protestou. A conta foi reaberta.

Magah quer armar o circo, digo, lançar o disco, até o fim do ano. Trata-se do aguardado sucessor da estreia Z de vingança, que chegou ao mercado no fim de 2012 e rapidamente esgotou a tiragem inicial, de 700 cópias. Uma nova fornada foi providenciada e tem saído bem, nas melhores casas do ramo e nas não poucas apresentações que o músico tem feito em palcos diversos na capital maranhense [nota do blogue: a mais recente, domingo passado, 18, no Sebo no Chão, no Cohatrac].

O processo só foi possível graças a um produtor de Manaus, que se deslocou até São Luís com todo o equipamento de gravação – as sessões duraram oito dias, na casa do músico –, e ao escritor Bruno Azevêdo, que, maravilhado com o som punk rock bregadélico do artista, resolveu assinar o projeto gráfico e bancar a prensagem do disco, lançado por seu selo Pitomba.

“Primeiro disco, até onde eu saiba, a não recalcar o elemento do brega local como parte da música que ajuda a definir o lugar, que não faz brega involuntário. Magah raciocina através do brega, saca de rock e escreve pra caralho! O resultado é um disco poderoso, tristíssimo e de peito aberto”, classificou Bruno Azevêdo ao justificar seu voto em Z de Vingança, o único que Magah levaria na lista dos 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, publicada no Vias de Fato de abril/maio.

Aos 42 anos, ludovicense, o autor de Viagem ao centro da queda é um “homem lúcido e perigoso” “fazendo rocks duros e pensando em Dolores Duran”, para tentarmos explicar o homem através de sua própria obra. Autobiográfico, Magah é punk e lírico. Integrou a banda Amnésia, que ajudou a consolidar uma cena punk em São Luís, na segunda metade da década de 1980. Não nega influências que vão dos Rolling Stones a Pinduca, passando por Cólera, Ratos de Porão, Richard Hell e Voidoids. E é capaz de fazer música sobre os olhos de uma camelô que “vende bugigangas no centro da cidade”.

Vias de Fato – Como está o processo de gravação do disco novo. E você pretende lançá-lo quando?
Marcos Magah – Rapaz, eu queria lançar no final do ano, está indo bem devagarzinho, com cuidado. Eu acho que essas são as melhores músicas que eu já fiz, então eu estou sendo cuidadoso. O Z eu gravei dentro de oito dias. A gente trabalhava de oito horas da manhã até às três da madrugada, saca? A gente comia em cima dos equipamentos. Era um negócio assim porque o produtor só tinha 10 dias para passar aqui. Ele veio de Manaus. O jeito que eu gosto de trabalhar é assim. Esse jeito que eu estou trabalhando agora eu não gosto. É tudo muito moroso. Eu não tenho esse pique da morosidade, eu sou um cara agoniado demais [risos].

O que você considera mais relevante para a produção do teu som? O que é que você ouve e que faz a tua cabeça? Rapaz, eu mesmo na época do punk, sempre escutei esse negócio da música brega. Odair José, por exemplo, hoje é muito badalado, mas naquela época gostar de Odair José era quase uma ofensa. Precisa entender também o que era o movimento punk naquela época, para as pessoas que não viveram aquela época, porque o movimento mudou tanto desses vinte anos pra cá, que eu falo algumas coisas e ninguém entende. Esses dias eu estava comentando com um cara que em 1985, 86 eu tinha 13 anos e você pegava um ônibus com aquele pessoal, aquela coisa punk e as pessoas… o ônibus ia lotado e as pessoas ficavam em pé, mas o banco do teu lado ninguém sentava. É uma coisa assim, parecia que tinha uma baba em cima de ti, sabe? Era um negócio desgranhento, não tinha MTV, essas revistas sobre rock, não tinha nada disso. Então, a Amnésia [banda em que Magah tocou e ajudou a consolidar a cena punk ludovicense], pra tu entender, surgiu num terreno limpinho, não existia banda de hardcore, por exemplo. As influências que a gente tinha era Dead Kennedys, Exploited, Cólera, Ratos de Porão. A gente passava o dia ouvindo música, era uma loucura, uma paixão maluca, era uma doença.

A gente quem? Eu, Carlos Pança, Carlos Amaral, que hoje mora em Salvador, que era o baterista do Amnésia, era uma pequena turma. E o Cohatrac tinha uma pequena turma do punk. Essas influências, por exemplo, eu vejo até hoje no meu som. Na forma do Redson, do Cólera, de tocar guitarra. É uma coisa que eu trago até hoje comigo. Inclusive coisas de palco, aquela coisa “eu vou morrer hoje aqui, cara!” [risos]. Mas sem aquela coisa dramática, tu tá entendendo?

Você tocando guitarra lembra muito o Keith Richards [guitarrista dos Rolling Stones]. Ah, tem muito de Stones, sempre teve. Tem uma coisa do Stones que não é uma coisa deliberada, “ah, eu vou imitar”. Mas de tanto ver, de tanto escutar, é uma coisa que peguei do Keith Richards por osmose de tanto ouvir. Foi essa coisa do jeito de corpo, sabe? Aquele negócio que ele bate a guitarra e meio que solta, como quem diz “eu não tenho nada a ver com esse crime” [risos], “não fui eu que atirei nesse cara” [risos]. Essa coisa assim, meio interpretativa, cara, eu trouxe. Tem um negócio maluco que no meio do punk eu sempre fui um cara meio esquizóide. Nunca fui um cara muito bem aceito. Porque, por exemplo, naquela época eu adorava discos de Pinduca [cantor paraense, maior expressão do carimbó], eu tinha, era meio maluco. Então, ontem eu tava conversando com um cara e ficava “pô, eu preciso voltar a escutar Pinduca”, tem um clássico dele, “vou tomar banho de cheiro, pra ficar cheirosinho pra Iaiá” [cantarolando]. Aí tinha aquela guitarra [imita o som da guitarra]. Até hoje tem esse negócio dessas palhetadas. Eu tenho uma música chamada Levada do despejo que se tu olhar a guitarra é Pinduca. Agora o jeito é tosco, é punk mesmo [risos].

A Amnésia não deixou registro? Foi até que ano? A Amnésia lançou demos que ficaram assim… até as pessoas esquecerem. A Amnésia foi uma banda muito popular, cara. Não só dentro de São Luís, mas no nordeste inteiro. Brasília, por exemplo, a gente vendia demo adoidado. Durou de 87 a 2002. Durante esse tempo a gente tinha uma popularidade enorme, de ir para outra cidade e parecer que [os fãs] iam virar o carro. Quando a gente saía da cidade jogavam camisas pela janela do ônibus. E a galera correndo atrás e continuavam a jogar camisa. Aqui em São Luís se for procurar pelas pessoas que viram e acompanharam esse processo, o público tinha uma adoração absurda, a tal ponto que as bandas de abertura tinham um público de 600 pessoas. Se eu tivesse o público da Amnésia… Eu fiz um péssimo negócio, cara! Entendeu? Em lançar o Z de vingança e abandonar o Amnésia. Se eu fosse um cara com o mínimo de visão, eu deveria continuar tocando aquela porcaria daquele som velho. Mas como eu sou um cara corajoso…

Mas o Amnésia acabou por causa da sua carreira solo? Não. Acabou, porque, cara, banda de rock tem uma hora que… o cara com 17 anos fazendo um underground bravo, acaba com qualquer pessoa. Viajar em ônibus, em pé duro, fazer circuito pesado, tocar aqui em São Luís, como a gente tocou, saca? E aquelas outras coisas, muito álcool, muita droga. Tem uma hora que neguinho pira! Fica meio doido, tá entendendo? Cansa. Já tinha integrante vendendo instrumento pra comprar disco. Daí não dá! Não dá! Chega um momento que não dá! E como eu sou obcecado, se a gente tiver uma banda junto, eu vou te enlouquecer, porque eu vou querer que tu trabalhe o mesmo tanto que eu trabalho. E os outros caras não tinham o mesmo foco que eu tinha. E aquilo, cara, é uma frustração terrível. Tanto que eu não sinto saudade dessa época. Eu sofri pra porra, porque eu queria que as coisas andassem. É o tipo daquela coisa de moleque, a coisa não parou, eu fui dando seguimento àquilo ali. Por mim, a banda não teria durado tanto assim. Apesar de ser uma das pessoas que a carregou nas costas.

E nesses 10 anos entre o fim da Amnésia e o Z de vingança, o que você fez? Eu fiquei de bobeira por um tempo, bebendo muito. Frustrado, pelo final do casamento. Depois, eu me aborreci de vez e fui para o interior. Nesse intervalo eu morei duas vezes no interior. Morei em São Mateus e Pedreiras. E passei tempo em outras cidades, como Santa Inês, por exemplo.

E o que você foi fazer nessas cidades? Eu fui trabalhar. Fui trabalhar num depósito de madeira, onde eu peguei a manha de vender madeira. E depois em serraria. Fazer porta, janela, lixar porta. Sempre fiz uns trabalhos meio malucos, uns trabalhos de estivador, carregando caminhão. Em Pedreiras eu montei um lance com computador, fazia uns trampos. E eu, como sempre gostei muito de ler, adaptei muita monografia. Acho que isso dá até cadeia, né? Mas eu me formei, mais ou menos, em umas cinco, seis áreas [risos]. Era isso que eu fazia. E paralelamente a isso, eu fiquei tocando em bandas de brega, saca? Tinha umas bandinhas de brega por lá, eu me inseria e ia tocar com os caras, foi onde eu aprendi muito.

Sempre guitarra? Sempre guitarra. Sempre mal tocada.

Magah, você tem formação acadêmica? [Espantado] Eu? Não, cara! Eu tenho paixão por livros. Todo mundo me pergunta, quando a gente começa a conversar sobre literatura, “mas tu te formaste em quê?”. Eu não me formei em nada. Eu sou estivador. Tá entendendo? [risos]

Se você fosse dizer que tem outra profissão além de músico. Eu diria que tenho um carinho pela estiva. Eu gosto de trabalhos braçais. Eu gosto de fazer força.

E esse carinho por livros, você mantém uma biblioteca em casa? Eu tive uma época em que eu pirei completamente, falo isso até em Dedos e anéis [faixa de abertura de Z de vingança]. Lembrando que todas as minhas músicas são reais. Tinha uma época que eu tinha uma biblioteca grande e ela foi se espalhando por vários locais. Grande não, razoável. Grande quem deve ter é Sarney. Sarney deve ter uma biblioteca grande. Mas esses livros foram se espalhando. Eu ainda tenho coisa como John Fante, por exemplo, que eu não deixo, não largo. Tem umas coisas como Émile Zola, que neguinho acha chato, Germinal, por exemplo, que acho interessante. Os livros do coração eu mantenho até hoje. Mas tem coisa que dei. Eu sou um cara muito roubado até hoje. Acabaram de me roubar o [dvd] No direction home, do Bob Dylan. Eu não tenho muito apego a essas coisas. Quem não tem apego nesse mundo, se fode. É o mundo do material, do tátil. E se você não se apega, as pessoas te roubam.

Você não trouxe nadinha aí, não? [risosTá querendo me roubar, sacana? [risos] E eu acabo perdendo também. Tem a coisa também de andar muito. Eu moro numa cidade, moro um tempo numa casa, aí saio daquela casa. Na época em que fui morar em Santa Inês, eu trabalhava numa serraria e morava num quartinho dos fundos, cortando tábua. Nessa época eu fiquei com roupa, guitarra e livro. Não tinha como. Muita coisa ia se perdendo. Tu não tem onde guardar.

Dá pra dizer se houve alguma fase da tua vida que você viveu de música? Rapaz, eu sempre vivi pra música.

Mas nunca viveu da música? Hoje eu vivo disso. Eu até estava tendo uma discussão com um cara: que não existe, na minha cabeça, um mercado de música no Maranhão. Existem caras que se grudam na aba do Estado e conseguem viver desses projetos. Esses caras vivem de brechas que o Estado dá pra eles, de amizades. Mas, se eles fossem largar o Estado e tentar viver de música, talvez não vivessem. Vivem de concessões fraternais e generosas. Mas, assim, não existe um trabalho como o meu… viver de música é um ato muito louco. De heroísmo, de paixão. Porque eu produzo um show aqui, faço um show acolá, é assim que eu vivo. Produzo não sei o quê… o cara me dá, tipo, R$ 2.500,00. Eu pego essa grana, vivo muito humildemente assim. E me viro. O que me propus a fazer bem feito e que eu tento fazer 24 horas. Eu me propus a viver disso e segurar as consequências, mas não é fácil. Eu acho que a gente está tentando dar um norte para uma galera que tá vindo aí. Porque, pra mim, a galera que vai fazer a música maranhense bacana tá por aí. Eu escutei o disco da Nathália Ferro, eu adorei o disco dela. Eu gosto da menina, da Acsa Serafim, muito bacana o trabalho dela. Então, a gente está tentando dar um norte pra essa galera. Tem que ter algum louco, lunático que diga é possível a gente fazer esse caminho dessa maneira. Mas tem que ter entrega e coragem, porque senão não faz.

Você acha que a música brasileira e a música maranhense, em particular, padecem hoje de originalidade? Eu acho que a música mundial está passando por uma crise de originalidade. Quando eu falo que sempre volto pras antigas é por causa disso. Me parece sempre muito parecido, copiado, “eu quero ser um Neil Young”. Eu, particularmente, não quero ser ninguém. Agora, eu acho que aqui em São Luís, as pessoas que eu fico vendo que fizeram um trabalho, esse menino, por exemplo, o Phill Veras, eu o considero realmente um menino com um talento maravilhoso, mas ele, a meu ver, padece dessa coisa.

A los-hermanização. Exato! Eu acho que o Los Hermanos já faz o seu trabalho muito bem feito, são os caras mais indicados para fazer a música dos Los Hermanos. Eu, Magah velho aqui, acho que tenho que descobrir o meu jeito e escutar meu som interior. Se eu for fazer igual a eles, eu vou fracassar, porque não é real. Aí o cara diz assim, o cara não fracassou, porque ele está em São Paulo e indo bem. Quando eu falo fracassar não é mercadologicamente, tá entendendo? É artisticamente. Esse é que é o problema, porque às vezes você… há brechas para o copia e cola, tanto é que eles é quem povoam e poluem por aí, nas rádios e nas TVs. Mas quando você vai embora desse planetinha é sua honra que você vai deixar. Esses dias eu estava conversando com um amigo meu sobre a Rita Lee. Pô, Rita Lee passou os anos 80 até pouco tempo só fazendo disco porcaria, cara. Agora Rita Lee tá indo embora. Eu acredito que um artista dessa ordem diz assim: “pô, eu bem que podia ter tido um pouco mais de coragem e ter lançado um puta disco, com a bagagem que eu tenho”. Eu acho que tem um pouco disso. Quando eu for embora, o que vai ficar aqui é a obra. É a única vaidade que eu tenho. No dia que eu for embora daqui, a única coisa que eu quero que fique é a minha obra. Os homens vão, mas as obras ficam.

Você considera a sua obra original? Eu não tenho o direito de dizer isso, cara. Não sou eu que tenho que dizer isso. Isso quem diz são as pessoas. Ou não. Dizem que é uma porcaria. Mas também não me importa, não.

Mas a pergunta é no sentido crítico mesmo. Quando você fala que fulano está fazendo uma música que é copia de Neil Young ou Los Hermanos, eu sei que não está apontando o dedo na cara de ninguém. Estou fazendo a pergunta no sentido de uma autocrítica mesmo: como tu percebe a tua obra? Eu acho que, na verdade, esse disco, estou muito ansioso para terminar de gravá-lo e lançá-lo, O homem que virou circo, porque eu ainda nem arranhei o que quero fazer. Ainda não dei o primeiro arranhão na superfície. Mas eu acho esse trabalho um trabalho de referências. Se você, por exemplo, escutar os teclados e escutar o cd de Jerry Adriani, você vai identificar os teclados, com umas guitarrinhas fuleiras que são muito parecidas com os do primeiro disco do Camisa de Vênus, o baixo típico do brega dos anos 70. Eu acho que eu usei as referências que eu tinha, que eu queria dar. Mas é preciso entender que meu trabalho é um trabalho com conceitos. Eu não faço assim: componho um monte de músicas, acho elas legais, vou e gravo. Não. Eu tenho um conceito. Eu quero trabalhar o tema da solidão. Eu vou desenvolver em cima desse conceito. Aí eu vou desenvolver uma sonoridade que também seja cabível com esse tema. Eu tenho uma trilogia: mágoa, solidão e morte. É um tema alegre, não? [risos] A trilogia dO homem que virou circo é isso: o Z é sobre mágoa, O homem que virou circo é sobre solidão e o MIF – cemitério dos cachorros é sobre morte. Eu trabalho assim. Eu tava numa fase meio braba da minha vida, e me propus a fazer três discos para não enlouquecer e resolvi dividir os temas. Peguei o Z, e comecei a escrever músicas só sobre mágoa, sobre a possibilidade de sair dali. Às vezes eu brinco que o Z é um manual de práticas de fuga, como fugir, como se livrar de uma mágoa violenta. Um manual de mágoa e fuga. Aí eu comecei a escrever músicas que só tinham a ver com esse tema. Pra isso eu desenvolvi um personagem que no Z é um homem lúcido e perigoso, nO homem que virou circo é o próprio, e no MIF também. É o mesmo personagem, só que em cada disco ele vai tendo um nome, agregando novos valores e a personalidade dele meio que vai se transformando nesse processo todo. Até a onda da morte.


Vingança com Z. Por que Z de VingançaEu sou apaixonado por essa letra, bicho. E é um trocadilho gostoso, pra deixar no ar. Porque se eu dissesse V de Vingança, pô, tem filme. E todo mundo sabe que vingança se escreve com V. Um dia eu acordei, morava eu e meu baterista aqui na [rua] Jansen Müller, levantei, sem molecagem nenhuma, e esse título me veio à cabeça. Antes de eu começar a escrever o Z. Eu passava o dia todinho falando isso, Z de Vingança. Porque eu tinha um negócio com o Z. Porque eu falava assim “esses caras me estreparam, mas vai ter a volta do Zorro”. E aí eu comecei com essa onda de a volta do Zorro e o Z do Zorro sempre me acompanhando. Aí eu montei um estudiozinho chamado A Volta do Zorro e fiquei com essa coisa do Z, do Z, até que pipocou. E eu sou um cara vingativo pra porra. Dentre outras qualidades nobres, a vingança [risos]. Eu achei bacana assim, me veio, pá, abracei!

Como foi o processo de financiamento do Z de Vingança? Normalmente se mascara esse lado da música. Ele custou 65 centavos. Porque eu pensei primeiro. [Fala como se se dirigisse diretamente aos leitores do Vias de Fato e não aos repórteres:] Vocês que têm raiva de mim, eu estou desinflacionando o mercado da música no Maranhão [risos]. Foram dois pães que eu comprei com o próprio corpo. Então, se você não gosta de mim, se manque, porque eu estou transformando o mercado da música no Maranhão. Sabe por que 65 centavos? Porque eu enviei as músicas pro cara e ele ficou alucinado e se tocou de Manaus pra cá. Nós gravamos em oito dias, mixamos em um e masterizamos em outro. Ele me entregou e foi embora. Saca? Super feliz! Não me cobrou nada. O cara cobrava cinco mil reais num estúdio onde ele morava lá. O cara se tocou de lá pra cá. Então, quer dizer, eu só posso acreditar no que eu faço. Tá entendendo? Porque para eu convencer um cara com umas músicas gravadas fuleiramente num computadorzinho e esse cara se tocar de lá pra cá, meu brother, chegar e dizer “vamos!”, e pegar o equipamento dele, bancar passagem de avião ida e volta, ficar na minha casinha velha e dizer “vamos montar a porra desse disco” e “isso aqui vale ser registrado. O que tu vai fazer com isso, eu não sei. Mas, eu quero gravar isso aí”. E aí, em vez de eu ir até Manaus, Manaus veio até mim.

Eu me lembro do Bruno [Azevêdo] falar muito entusiasmadamente do disco. “Rapaz, tu tem que ouvir isso aqui”. E que era uma coisa nova na música do Maranhão. Qual foi o papel de Bruno nesse processo? Qual foi a importância? Porra! Toda. Total. Porque eu não conhecia Bruno, nem sabia quem era ele. Quer dizer, já o tinha vista algumas vezes pela rua. Sabia de uma banda em que ele tocava. Mas ter visto assim, como estamos aqui, eu o via passando na rua. Uma vez um cara falou “ó, aquele é o baixista da Catarina Mina [banda de que Bruno Azevêdo foi baixista, com Djalma Lúcio (voz e violão) e Eduardo Patrício (bateria)]”. Não sabia quem era o cara. Pablo [Habibe, guitarrista, editor da revista Bezouro] uma vez chegou na minha casa… pra tu ver, por isso que tem aquela frase em Caixa de Pandora [faixa de Z de vingança], “o que eu sinto é o que eu mais sei”. Eu sou um cara que acredito na minha intuição, porque se eu negar a minha intuição, velho, eu tou fodido. Um belo dia eu estava em casa sozinho andando alucinadamente de um lado pro outro. Já estava com esse CD gravado, pensando “o que eu vou fazer com isso?” Bateu na minha porta o senhor Pablo Habibe, que eu não conhecia… não conhecia ninguém! Eu sou um ermitão. Fico trancado em casa. Não saio de casa pra nada. Só saio à noite para ir ao Chico [Discos, bar], porque nós já somos amigos seculares. Você não vai me ver em noite, em festa. Eu não vou pra essas coisas. Eu sou um cara caseiro. Passo o tempo todo em casa. Eu sou chato. Só. Eu gosto de viver só. Bateram na minha porta, Pablo Habibe, Acsa Serafim e Fábio Pereira, que hoje está substituindo o Pablo, que quebrou o braço. E falaram “e aí, o Ryan tá aí?”, meu baterista estava morando comigo e tava fazendo bateria pra eles. Aí eles entraram lá em casa e eu falei assim, “cara eu tenho um disco. Vocês são músicos?” Porque a solidão tem uma hora que ela enche o saco, você precisa falar com alguém. Tem um limite. Tu passa três, quatro, cinco dias trancado em casa, mas tem uma hora que tu pega uma sacola da Vivo e começa a conversar com ela [risos]. Eu mostrei o disco pra eles. Porra, o Paulo ficou “éééguas”. Ele e o Fábio ficaram alucinados. Aí ele começou, “porra, rapaz, que diabo é isso?” Eu lavando louça e a gente conversando. O Pablo levou o disco, “tem um cara que precisa escutar isso aqui: Bruno Azevêdo”, eu não sabia quem era. Levou. Fiquei preocupado. Quando eu vi estava correndo atrás, “vamos lançar, vamos lançar!”, começou a jogar na internet, ficou mais empolgado do que eu. Fiquei surpreso, o disco começou a vender e gente dizendo “legal”. Pra mim era um disco muito a cara de [rádio] AM, um toque de experimentalismo. O Bruno é responsável por tudo, eu chamo ele de meu patrão, ele fica puto quando eu digo isso [risos]. A Pitomba bancou, eles acreditam em mim. Eu sou um cara feliz, sem nenhum tostão no bolso [risos].

Uma vez, conversando com Bruno, ele disse que não teria lançado O Monstro Souza [Pitomba, 2010] se não tivesse o investimento do Souza [proprietário da barraca de cachorro quente mais famosa de São Luís, que inspirou o livro de Bruno], que deu uma grana e ele pode imprimir o livro. Z de Vingança não existiria sem Bruno. Quem Marcos Magah financiaria se tivesse grana? Eu financiaria o disco do Tiago Máci. Pra mim, esse cara é um dos melhores que já pintou de música em todos os tempos aqui. É um compositor de calibre pesado. De todo coração: um dia eu vou produzir o disco do Tiago Máci. Eu quero fazer. Eu acho muito bom, cara. Ele me lembra um pouco o [compositor] Cesar Teixeira, um gênio. Às vezes eu o olhava com fascínio, apesar de ele [Cesar] não ter nenhuma influência na minha música. Que às vezes tem aquela coisa que você olha para o cara e ele não tem nenhuma influência na tua música, mas que tu admira ele pra cacete.

Eu li em algum lugar que você está produzindo o novo cd de Claúdio Lima. Eu estou fazendo uma pré-produção do disco dele. Na verdade ele quer produzir com um cara de Londres. Ele me chamou para acrescentar esse lance que ele viu no Z e gostou muito, aqueles efeitos que tem de psicodelia e aquela guitarrinha fuleira. Cláudio é muito doido! O primeiro cd dele é genial, ainda bem que entrou lá [na lista do Vias de Fato], eu me senti vingado.

E qual seria a tua lista? Pô, mas tu tá me sacaneando! Eu não sou homem de lista! [risos]. O que eu posso te dizer é que entraram coisas ali que me… pô, olhar ali Nonato e seu conjunto [O som e o balanço, 1975], o próprio disco do Claudio [Claudio Lima, 2002], o Bandeira de Aço [de Papete, 1978] eu sabia de ia dar, pá, pá, pá, na cara de todo mundo. Mas, agora, por exemplo, tiveram coisas que não entraram e poxa…o segundo disco de Raimundo Soldado [Raimundo Soldado, 1981] tinha que aparecer [risos]. Mas tudo bem. Raimundo Soldado perdoa todos vocês! Vocês estão salvos.

Nem com o Z de Vingança nem no Amnésia você tocou em evento público bancado pelo Estado? Com a Amnésia eu fiz coisas muito esdruxulas. Em 1989, todo mundo era anarquista e os caras do Amnésia tinham uma tendência meio marxista. E eu nunca fui um cara muito ligado nessa coisa, sabe? Aí a gente tocou em 1989, no Comício do Lula, aqui na Praça Deodoro, pra umas 12 mil pessoas. Eu acho que poucos sabem disso. Falam muito bem da Amnésia. Ninguém fala mal. Parece que quando a gente morre ninguém fala mal. Mas, eu não, nunca toquei. Eu toco em barzinho, nessas casinhas, no Chico, não chamando o Chico de casinha. Toco no Chico, no Odeon [bar recém fechado na Praia Grande], toco, sei lá, no Miguelitos [casa de comida mexicana no Vinhais]. Entendeu? É uma coisa pequena. Toco por 300 contos. Eu pretendo fazer um caminho que brinque com essa coisa do popular e tal, mas que seja o meu caminho. Eu acho que meio que todo mundo tá num caminho padrão: vou fazer não sei o quê, vou ser contratado, vou para São Paulo. Eu vou fazendo um caminho mais mambembe. E a obra vai te respaldando ao longo dos dias, porque Z de Vingança é um disco, mas isso é trabalho longo. Vou fazer outro [disco], com uma sonoridade que acredito. É a construção. Ter credibilidade perante as pessoas que gostam do meu trabalho. Eu sou franco e jogo duro, não abro mão daquilo que eu gosto. Eu acho que é isso que constrói uma carreira. Não só boas músicas, mas um caminho que o público meio que se orgulha. Que aquela meia dúzia de pessoas olhe pra ti e diga “eu respeito esse cara”. Eu admiro muito o Marcelo Nova [roqueiro baiano, vocalista e guitarrista do Camisa de Vênus], uma cara de público pequeno, mas que você respeita o cara. Eu acho que credibilidade também é importante, porque neguinho pelo sucesso tá querendo fazer qualquer coisa. Eu também não sou um ingênuo de dizer “não, eu não faço isso”. Eu não tenho esses pudores, essa coisinha da culpa cristã. “Eu sou limpinho, eu não faço, eu não me envolvo”. Se eu quiser fazer uma turnê no interior, eu utilizo os mecanismos que estão à minha disposição para poder chegar nesse público que eu quero chegar. Eu vejo a coisa beligerante, de guerrilha, eu uso as armas que eu tenho. Mas eu também não vou pegar uma lança e enfiar no meu rabo e dizer “ah, morri como herói”. Não é assim.

Mas você tocaria num evento patrocinado pelo governo do Estado, por exemplo? É uma pergunta boa, cara. Eu nunca pensei sobre isso. Eu acho isso tão improvável que nunca me passou pela cabeça. Eu não acho que o governo do Estado um dia vá me chamar para tocar num evento seu. Eu acho que o governo do Estado tem o seu time. Eu não estou nesse time. É uma situação hipotética inimaginável. Eu sou um marginal!

Você falou sobre a intuição que permeou a construção de Z de Vingança. Você acredita em Deus? Porra, quando neguinho fala em Deus é esse papo sempre muito complicado. Eu sou um homem de muita fé. Existe algo que é muito complicado. Eu creio que a gente, em termos de física, a gente não sabe de nada. A luz é a coisa mais rápida que viaja no universo, talvez seja só brincadeira de criança. Rapaz, eu não gosto de fugir de pergunta assim [risos]. A pergunta é se eu acredito em Deus. Sim. Da forma como eu o concebo. Eu acredito mais nas coisas que eu não vejo, do que nas coisas que vejo [risos].

E qual é a forma que você concebe Deus? Não sei. Acho que a gente vai cair num lugar comum. Energia. É muito difícil trabalhar com esse tipo de coisa. Eu acho que passa mais pelo campo do sentimento. O vocabulário humano é muito pobre para tentar te dizer em palavras como concebo Deus. Acho que essa é uma questão metafilosófica muito complicada. É um sentimento bom. Eu gosto de ser ingênuo.

Uma coisa que eu tendo a comparar quando te escuto é com Wander Wildner. Gosto demais. Apesar do Pablo, meu guitarrista, dizer “não deixa esse cara ser comparado contigo, aquilo é uma desgraça!” Eu adoro Wander Wildner. Inclusive eu vejo similaridades não só com a nossa música, mas no jeito de viver. Wander é assim também. Esses tempos ele largou a profissão de músico e foi trabalhar numa funilaria na Alemanha. Trabalhava durante o dia na funilaria e à noite tocava. Eu vejo similaridade no jeito de pensar, de viver, a trajetória no punk também. Wander Wildner sou eu. Eu sou Wander Wildner [risos].

Intuindo que você não se preocupe muito com isso: Marcos Magah está pronto para subir ao palco do Teatro Arthur Azevedo e receber um Prêmio Universidade, seja lá em que categoria concorrer? Eu tou pronto pra tudo. Sou um homem de combate. Não tenho medo de nada. E outra coisa, esse negócio de “ah, eu não vou”. Eu não tenho medo de sujar minha mão. Depois eu limpo no paletó do garçom que estiver passando, ou do governador, melhor ainda se ele estiver de branco. Eu não penso nessas coisas, nem passou pela minha cabeça. Eu nunca fiz música para receber prêmio. Tanto que quando eu fiz o Z ele ia ficar pra mim.

Você não se preocupa, então, com o público, quando compõe? Nem um pouco. Se eu me preocupar, eu já fracassei. Isso é conversa de perdedores. Quando eu falo fracassado não é o fracasso construído pela sociedade de consumo. É uma coisa da tua verdade. Eu faço música pensando em mim, tanto que eu sou um cara egoísta pra caralho, moro sozinho e não consigo dividir a casa com ninguém.

Marcos Magah é MPM? Eu nem sei o que diabo é isso.

Música Popular Maranhense. Eu não! Eu faço música pro mundo, para todo mundo que quiser ouvir. Eu não tenho nada a ver com isso aí.

Como você define a música que faz? Rapaz, infelizmente a gente tem trabalhar com rótulo. Eu sempre brinquei em dizer que eu primeiro fazia “magahlismo”, assim, muito pretensiosamente. A arrogância também tem o seu lado romântico, mas é uma brincadeira, lógico. Eu brinco de chamar de rock-bregadélico, que é um termo que acho legal. Essa é a definição mais próxima do que eu faço. Também não estou preocupado em ser original não, cara. Agora eu escuto um som interior, que vem de dentro de mim. Quando eu lançar O homem que virou circo, eu vou mostrar para vocês, é um disco que não tem começo e não tem fim. Sabe no cinema, que os atores ficam na frente e a trilha sonora fica atrás?! O que eu fiz com esse disco, a trilha sonora vai pra frente e o ator fica atrás. Quando a música termina, o diálogo dos atores continua. O disco nem começa e nem tem fim. Ele começa com a voz de um menino dizendo “ei, moço, por que o senhor virou circo?” Então ele não tem começo, porque o começo dele é o fim do Z e termina com uma vaia sonora, que é o que vai começar o MIF também. Esses três discos estão interligados. Aí tem um lance da literatura e do cinema também. É isso O homem que virou circo, ele não tem fim, nem começo. É muito doido esse disco. É gente falando, é gente vaiando, cadeira quebrando, copo… enquanto isso a música tá rolando.

Outras estratégias no fazer política: o caso Black Bloc

IGOR DE SOUSA*
ESPECIAL PARA ESTE BLOGUE

As táticas Black Bloc são uma demonstração do poder que já existe nas mãos da população, e esse poder é normalmente desconsiderado pela simples existência das chamadas “vias institucionais”. Quando atuamos com ação direta, queremos também chamar atenção a isso, a essa multiplicidade de caminhos para atender as reivindicações sociais e à ineficiência de se utilizar apenas um, especialmente um que é viciado pelo próprio sistema onde está inserido. Queremos demonstrar que política também se faz com as próprias mãos. (Roberto, 26 anos, manifestante anarquista Black Bloc em entrevisa por e-mail à CartaCapital )

Manifestação com tática Black Bloc

Ondas de manifestações varreram o país de cabo a rabo, dando visibilidade ao que nenhum profeta da insatisfação seria capaz de prever. Manifestações a céu aberto que reuniram um contingente inegável de pessoas; o Planalto Central sitiado por manifestantes, câmaras de vereadores ocupadas pelo país, colocando na pauta do dia a inoperância e mediocridade desse setor, governadores andando com o cu na mão por medo de a qualquer momento estar apenas não dormindo, mas perdendo completamente o controle político. Jovens, adultos, trabalhadores, universitários e secundaristas resolveram ir às ruas e mostrar toda uma gama de insatisfações referentes a questões de cunho político, econômico e social. Nesse sentido, vieram à tona insatisfações referentes ao modelo socioeconômico, às formas de representação política e jogo eleitoral pactuado no cenário contemporâneo, o velho dilema da corrupção e a ausência de mecanismos eficazes de controle, bem como desvios de recursos públicos, entre outras.

Na multiplicidade de atos e estratégias, vem ganhando destaque e ataques furiosos na mídia corporativa, sob acusações de uso de táticas violentas que desviam o caráter ordeiro de manifestações pacíficas; destruição de patrimônio público e privado e desacato a autoridades; grupos políticos de viés anarquista que usam uma estratégia denominada Black Bloc, que consiste basicamente em criar um cordão de contenção frente a polícia e sua habitual brutalidade e o enfrentamento e destruição de símbolos do capitalismo e ufanismo através da quebra de agências bancárias, concessionárias e símbolos nacionais como estátuas e placas de sinalização. Coloquemos os pingos nos is e falemos do que realmente interessa.

Quando se deseja falar em violência ou mesmo de ações de caráter violento esquece-se de referir-se a quem ou que pessoa física se expõe a essa situação ou corre-se o risco de repetir-se um discurso que tende, a priori, a desqualificar ações de caráter direto, uma vez que uma instituição por si só é muito mais um símbolo, uma dada forma de expressão, de consecução, forma de raciocinar e produzir, instituição social, sendo os danos realizados por esses grupos, se realmente mensurados, irrisórios, não afetando de maneira significativa a capacidade econômica dessas instituições, mas abalando simbolicamente a força de representação das mesmas ao evidenciar a situação de insatisfação com o sistema econômico e mesmo a crise política que vivenciamos dia a dia. Essa crise se manifesta pela não aceitação da insanidade cotidiana, da felicidade expressa pelo puro consumo, da naturalização da pobreza, da aceitação do modelo falido de mobilidade que temos e escravidão frente ao tempo de produzir, tão habituais no sistema capitalista, onde a performance de destruição de cashs de bancos, vidraças de lojas e relógios públicos muito mais tendem a colocar no debate da vez o valor real das instituições que esses símbolos representam e o jogo a que estamos submetidos.

Outra acusação, fazendo uso de comparações grosseiras e mesmo estereótipos banais, são as de perigo ao sistema democrático ou coisa que o valha. Os anarquistas são apresentados como grupo homogêneo, geralmente irracional, sem qualquer organização, tendentes à violência gratuita e pouco afeitos ao diálogo. Faz-se necessário perguntar: o que representa, dentro do atual padrão de democracia adotada, mais perigo do que as práticas oligárquicas e mesmo descabidas dos políticos profissionais que temos?

Não faltam escândalos para povoarem a memória recente com o mal uso de dinheiro público, obras públicas sem finalidade alguma, escândalos envolvendo corrupção; financiamentos execráveis para campanhas eleitorais, pactos de mediocridade; colocando sob suspeita qualquer nível de controle de órgãos e instituições fiscalizadoras (Ministério Público, Juizados, Controladoria Geral da União, Supremo Tribunal Federal etc.); sem falar no já banalizado descaso com a educação, saúde, pautas fundiárias, transporte público e moradia.

Ganha força nesse cenário de descrença com as formas habituais de fazer política, outra forma de tratar a política, força essa que com radicalidade tem ido para cima e peitado figurões da política nacional como Sérgio Cabral no Rio de Janeiro e Geraldo Alckmin em São Paulo, esfacelando a estabilidade política de outrora e criando contraespetáculos, talvez por isso a ira da mídia conservadora, através de postagens de fotos, gravações de vídeos, contrainformações na rede que visam subverter e sabotar o espetáculo midiático que toda política democrática se tornou. Essa outra forma é caracterizada por um fazer política fluído, instável, criador de zonas de autonomia e ação, como no pensador Hakim Bey no livro TAZ (Zona Autônoma Temporária), se propondo a fazer com ações, no anonimato e rejeitando o conceito de liderança e mesmo de vanguarda, das receitas prontas e da representação política asfixiante preponderantes, atualizando a luta anarquista em busca de formas de democracia direta.

Nessa luta dos que dormem contra os que quase não comem, fica demonstrada a força que temos nas mãos, somos nós os agentes capazes de atos que impulsionam o futuro, não mais um líder iluminado ou uma fórmula pensada a luz de escritos de gabinete, todavia, o canal de diálogo deve ser usado quando necessário, não sendo a estratégia Black Bloc, enquanto tática, sua substituição, mas a canalização de força e energia combativa para outro viés de fazer política. Combatamos nossos verdadeiros inimigos com bombas, atentados, poesias ou mesmo votos, fiquemos firmes, não deixando alguns fingirem que não existimos com tanta tranquilidade.

*Igor de Sousa é estudante de Ciências Sociais na UEMA, um dos Perros Borrachos e integrante da ala jovem do jornal Vias de Fato

Marcos Magah no Sebo no Chão

O Sebo no Chão tem ajudado seus frequentadores a vencer aquela depressão em geral causada pela musiquinha tocada no encerramento do Fantástico, aos domingos.

Neste agora, por exemplo, a partir das 20h, tem show de Marcos Magah, com participações especiais de Tiago Máci e Celso Borges, além de discotecagem brega com Bruno Azevêdo, papa no assunto.

A propósito, está nas bancas o Vias de Fato de agosto (leia o editorial), com a entrevista que fizemos, eu e Igor de Sousa, os autointitulados Los Perros Borrachos, com Magah, que já está em estúdio gravando O homem que virou circo, aguardado sucessor da bem sucedida estreia Z de Vingança, assuntos que ele aborda, entre outros, ao longo da conversa.

Recomendo os três: show, entrevista e disco. Neste domingo você encontra tudo na praça da Igreja do Cohatrac, bairro em que Magah começou, com a extinta banda Amnésia.

O blogueiro no Club Cult

Num lançamento da Pitomba há algum tempo na UFMA disse umas coisinhas sobre a revista. A matéria do Club Cult já foi ao ar na TV Guará e está disponível (como outras) no canal do programa no youtube.

No Vias de Fato de fevereiro a entrevista que eu e Igor de Sousa, os autointitulados Los Perros Borrachos, fizemos com o trio de editores. Em breve a gente pendura por aqui.

De carinhos e conflitos

Não sei se chamo Igor de Sousa de amigo-irmão ou de filho. Ambos os parentescos caem bem: já o tinha visto umas poucas vezes, em geral por conta de nossa atuação em organizações de direitos humanos no Maranhão, e em meados do ano passado DP, como o chamo carinhosamente, veio estagiar na Cáritas Brasileira Regional Maranhão, onde além de trabalharmos, conversávamos muito sobre música, literatura, cinema e artes em geral, sempre um aprendendo com o outro.

Deixei a Cáritas semana passada e ele permanece por lá, onde espero que tenha vida longa, pois reconheço neste estudante de Ciências Sociais um belo quadro para as lutas, não só naquela entidade.

Com nossas meninas temos também bebido um bocado, descobrindo e redescobrindo botecos, bares, calçadas, shows, churrasquinhos e nossa cozinha, onde ele sempre pede para ouvir Celso Borges, Itamar Assumpção, Jards Macalé, Miles Davis e Ferreira Gullar, entre outros. Pedidos raros e atendidos na medida do possível, a depender do clima da farra e do resto da galera que porventura nos acompanhe.

O apelido “depê” vem de um endereço de e-mail que ele ainda hoje usa, embora já disponha de um e-mail “sério”, “adulto”, feito, aquele, quando ele tinha mais ou menos a metade da idade que tem hoje, 22 bem vividos e estudados: desajustado underline punk arroba hotmail ponto com.

Mas comecei a falar dele e quase me perco por conta de um texto seu que recebi hoje. Queria minha ajuda na edição e para fazer repercutir o assunto. Já saiu no site da Cáritas/MA, mas roubo-o ao “blogue cachorro”, como ele carinhosamente chama este espaço, especialistas que estamos em reeditar velhas gírias, este blogue que divide a honra de sua leituratenta apenas com o Socialista Morena. “Quando encontrar a Cynara [Menezes] novamente, diga-lhe que só leio dois blogues: o teu e o dela”, pediu-me certa vez. Quando encontrá-la novamente ela já saberá.

Sobre o texto abaixo, DP demonstra uma sincera indignação: “como é que um cara desse pode ser ofensivo? Ele é menor que eu”, revela. “O cara tá com mais de 30 boletins de ocorrências nas mãos e não acontece nada! É por isso que eu estudo, para ver se consigo ajudar esse povo”. Qual professor Raimundo para Ptolomeu, penso: “eu queria ter um filho assim”.

“A GENTE NÃO SABE O QUE TÁ ACONTECENDO”

Vítima de prisão irregular e ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro, liderança quilombola, concedeu entrevista coletiva na manhã de hoje (4), na sede da CPT-MA

TEXTO E FOTO: IGOR DE SOUSA*

Em uma coletiva de imprensa realizada na manhã de hoje (4), na sede regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT-MA), foi exposto que dois policiais militares encarceraram de forma ilegal o líder quilombola José da Cruz Monteiro (51), da comunidade de Salgado, área que se encontra em processo de titulação via Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),  no município de Pirapemas/MA.  A prisão ocorreu devido à morte de um caprino que invadiu a sua roça. José da Cruz já havia feito vários boletins de ocorrência na delegacia local para providenciar soluções sobre a invasão dos animais à sua propriedade, não obtendo qualquer resultado por parte da polícia.

Em 31 de janeiro, após abater o animal que estava em sua pequena plantação, foi à delegacia comunicar o feito e solicitar a retirada do mesmo. Porém, após relatar o fato, foi preso pelos policiais que ali estavam de serviço. A prisão foi feita sem qualquer flagrante, sem qualquer mandado de prisão. Ao ser preso, o líder quilombola recusou-se a receber algemas, sendo jogado à força em uma cela, havendo incitação por parte dos policiais para que os presos espancassem o referido senhor. Após horas sem comer nada, passando o dia apenas com o gole de café que havia tomado em casa, foi transferido para a delegacia de Itapecuru-Mirim. Lá foi comunicado ao advogado Diogo Cabral, assessor jurídico da CPT-MA, que a situação de José da Cruz Monteiro era de depoente, configurando completa arbitrariedade aos fatos ocorridos em Pirapemas. Durante o período em que esteve preso, José da Cruz teve sua casa invadida e vasculhada por policiais. Ele relatou ainda que sua casa e a de seu cunhado estão ameaçadas de demolição por Ivanilson Pontes Araújo, proprietário da área.

O que se percebe pela recorrência dos fatos, seja no que tange à quantidade de boletins de ocorrência registrados pelo senhor José da Cruz Monteiro, sem qualquer providência por parte da polícia, seja pelo envenenamento de animais e água potável na comunidade Salgado, ocorrido em 2011 e sem resposta até o presente momento, é uma total complacência do governo do estado do Maranhão quanto à situação de violência e conflito no campo referente às comunidades quilombolas e camponesas. Há violência cotidiana contra essas comunidades, havendo inclusive a existência de grupos armados no interior do estado. Quanto aos órgãos responsáveis pela titulação, há lentidão e descaso. Hoje o Incra conta com mais de 300 processos aguardando titulação, contando com um quadro ínfimo de funcionários para os referidos trabalhos. A própria comunidade de Salgado é um exemplo notável dessa morosidade: já titulada certificada pela Fundação Cultural Palmares (FCP), a área aguarda titulação pelo Incra. O processo está parado desde 2000.

Outro dado alarmante é tratamento dado pelas autoridades estaduais. No ano passado, a delegada geral agrária foi categórica ao afirmar que no Maranhão não há conflitos no campo, havendo apenas conflitos entre vizinhos. Será?

Somente no último semestre do ano passado foram vitimadas quatro pessoas: duas lideranças sindicais e dois indígenas.

E assim segue a vida real de trabalhadores rurais na terra do faz de conta do governo Roseana Sarney.

Ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro (C), entre outro morador de Salgado e o advogado Diogo Cabral (D)

 

ENTREVISTA: JOSÉ DA CRUZ MONTEIRO

Qual a situação da sua comunidade? Lá, a nossa situação nós não aguenta, é muita escravidão. Muita injustiça. Ele [Ivanilson Pontes] coloca os vizinho [a reportagem optou por manter a transcrição da entrevista o mais próximo possível da fala de Monteiro] da gente contra a gente para matar o que é nosso. Ele coloca a própria polícia de Pirapemas contra a gente.

De quem o senhor fala? Quem persegue vocês? São três irmãos que vivem nos perseguindo. Eles são filhos de Moisés Sotero Araújo. Ele se diz proprietário das terras lá em Pirapemas. Quem afronta a gente lá é o Ivanilson Pontes Araújo.

Há situação de conflito na sua comunidade? Existem ameaças de morte? Ameaças às pessoas da comunidade? Como ocorrem? As ameaças que acontecem lá são com nossas criações e com a gente. Ele ameaça nós de morte e mata nossas criações para não ter o que comer. Ele mata e manda os outros matar, manda os capangas.

E a polícia? O que faz? A polícia sempre protege ele [o proprietário]. A gente se queixa e a polícia só protege o proprietário. Ela [a polícia] é bandida, só protege o proprietário. Diz que não pode fazer nada porque tem outras autoridades no conflito.

Como aconteceu a sua prisão? Eu fui preso pelo delegado de Pirapemas, pelo doutor Ricardo porque eu queria terminar de assinar o boletim de ocorrência. Nessa hora ele disse que eu estava preso, que eu era um bandido. Me pegaram, me jogaram para um bandido numa cela. Nesse dia eu passei o dia com um gole de café. Eu vinha registrando boletim de ocorrência, era a quarta vez que os bode entrava na minha roça. Na quarta vez eu matei. O dono não tira, eu tive que matar. Eu fui preso em Pirapemas e fui levado para Itapecuru para ser preso lá. Eu matei o bode para pesar a carne e vender para esperar o Ivanilson para ele pagar o meu prejuízo. Mas ele já tinha dado a carne do bode para a polícia. Eu saí jurado de lá, prometeram derrubar minha casa e a do meu cunhado hoje. Disseram que vão derrubar a do meu cunhado e depois a minha. A gente não sabe o que tá acontecendo, tá marcado pras 10 horas. Disseram que em dois dias vão me tirar de lá, de um jeito ou de outro.

*IGOR DE SOUSA é estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), estagiário da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e membro do jornal Vias de Fato.

Lawrence Ferlinghetti recusa prêmio húngaro sobre Direitos Humanos

POR CAROLYN KELLOGG
DO LOS ANGELES TIMES BOOKS

TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O poeta em frente à sua livraria em 2003

O poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, proprietário da City Lights Bookstore em San Francisco, declinou de um prêmio húngaro de mais de 64 mil dólares, alegando preocupações sobre direitos civis e liberdade de expressão.

Não é pequena a ironia de que o prêmio recusado por Ferlinghetti, o Prêmio Internacional de Poesia Janus Pannonius (Janus Pannonius International Poetry Prize) seja oriundo de uma divisão húngara do PEN (caneta em inglês, a sigla), organização internacional que apoia a liberdade de escrever e frequentemente realiza campanhas para ajudar escritores que foram presos ou silenciados.

Ao saber que o prêmio foi parcialmente financiado pelo governo húngaro, Ferlinghetti escreveu uma carta expressando suas preocupações. “Se o prêmio é em parte financiado pelo governo húngaro, e as políticas de direita deste regime tendem ao autoritarismo e o consequente cercear das liberdades de expressão e civis, penso ser impossível, para mim, aceitá-lo nos Estados Unidos. Assim, devo recusar o prêmio em seus termos atuais”, diz um trecho.

Ferlinghetti (93) serviu a Marinha na Segunda Guerra Mundial. Estava na invasão da Normandia e visitou Nagasaki uma semana depois da bomba atômica.  Ela “era como um par de quilômetros quadrados cobertos de nada, mas com cabelo humano e ossos saindo, algo horrível de se ver”, declarou ao PBS (Public Broadcasting Service) há 10 anos. A experiência relatada foi o início das convicções políticas do pacifista.

Mas Ferlinghetti é também um lutador. Em 1956 ele colocou sua jovem livraria e editora no centro dos debates sobre a liberdade de expressão ao publicar Uivo, de Allen Ginsberg. O editor chegou a ser preso, mas foi absolvido pela corte, após provar que o poema não era obsceno.

Ao rejeitar o prêmio, Ferlinghetti tentou doar o dinheiro a um fundo de apoio a casos de liberdade de expressão na Hungria, mas não ficou satisfeito com os esforços da PEN húngara em atender seu requerimento.

* O tradutor agradece a leituratenta e as dicas preciosas de Igor de Sousa e Reuben da Cunha Rocha.