Um comovente acerto de contas com a própria história

Fun home. Capa. Reprodução

 

O subtítulo Uma tragicomédia em família não é estraga-prazeres em Fun home [título original: Fun home: a family tragicomic; tradução: André Conti; Todavia, 2018, 233 p.; R$ 55], título-trocadilho da nova graphic novel de Alison Bechdel: antes de traduzirmos por casa divertida ou algo que o valha, é preciso ter em mente que se trata de uma abreviatura de casa funerária, um negócio de família em cujos fundos, por assim dizer, a autora foi criada.

Nascida na Pensilvânia em 1960, Bechdel teve lançado no Brasil seu Você é minha mãe? [Companhia das Letras, 2013]. Fun home foi eleito livro do ano pela revista Time em 2006. A obra conta a conflituosa história de sua relação com seu pai, tendo por pano de fundo a estrutura familiar e as ocupações, obsessões e mistérios de Bruce Allen Bechdel.

Administrador da funerária que herdou, Bruce era professor de inglês, leitor compulsivo, restaurador por hobby, obcecado por decoração e um pai distante, frio e opressor, que enxergava nos filhos mão barata e sempre disponível a comandos que variavam de acordo com seu humor.

Pai e filha são homossexuais, mas ela só descobrirá este fato da vida do pai, após a morte dele, em situação que leva a crer em suicídio, quando ela própria decide revelar-se. Peças se encaixam, mas o pai distante segue misterioso para a filha.

O traço de união entre eles é o amor à literatura, com seus jogos, suas coincidências e citações que vão de F. Scott Fitzgerald a Marcel Proust e Albert Camus, passando por Kate Millet, Colette e James Joyce, longe de tornar seus quadrinhos herméticos para quem não os tenha lido.

Os tons esverdeados de Fun home são um marco das narrativas autobiográficas, sem restringir aqui meramente ao universo dos quadrinhos: Alison Bechdel é impiedosa consigo mesmo e com os que a rodeiam – ou rodearam –, sem tornar sua história sui generis piegas ou irreverente, vide os agradecimentos que faz aos familiares, de uma sinceridade comovente, como o enredo.

Bechdel traça com as tintas da delicadeza as incertezas e as descobertas da puberdade e da sexualidade, entre desenhos animados do Papa-Léguas e o escândalo do Watergate, no governo de Richard Nixon, símbolos, para o bem e para o mal, de uma época em que a homossexualidade era considerada doença.

Fun home é um acerto de contas com o passado, entre dolorido e hilariante, uma lição da qual não se pode fugir.

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Assista ao trailer do livro:

Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Sua voz ecoará para sempre

Blues for Lady Day. A história de Billie Holiday. Capa. Reprodução

 

O traço de Paolo Parisi engana o leitor mais apressado: parece econômico, mas o que o quadrinhista quer é que o leitor capte a alma de seus personagens. Ainda mais personagens tão intensos quanto John Coltrane (1926-1967) – biografado em Coltrane [Veneta, 2016] – e Billie Holiday (Eleanora Fagan Gough, 1915-1959), protagonista do recém-lançado Blues for Lady Day – A história de Billie Holiday [Blues for Lady Day; tradução: Rosane Pavam; Veneta, 2018, 112 p.; R$ 55,00].

Autor de traço e texto, Parisi, graduado em História da Arquitetura Contemporânea pela Universidade de Bologna, Itália, se vale de tudo ao refazer a trajetória da cantora, entre diários, discos, canções, livros (citados em bibliografia e discografia essenciais, ao final do volume), o noticiário da época, depoimentos de personagens que orbitaram em seu redor – Count Basie, Artie Shaw, Tony Scott e Louis Armstrong, para citar apenas alguns –, a relação conturbada com o pai Clarence Holiday, também músico, numa narrativa que foge do convencional e da linearidade.

Não deixa de abordar nenhum aspecto da vida trágica, sem pender ao sensacionalismo ou à indulgência: sua graphic novel equilibra-se entre a vida difícil de garota de origem suburbana, a prostituição, problemas com drogas e a polícia, e a estrela fundamental para a música americana – que ganhou o mundo.

Em Breve nota à margem, texto ao final do volume, Parisi explica suas escolhas, algumas bastante pessoais, como nomear os capítulos com títulos de algumas de suas canções preferidas entre as de Billie Holiday. Neste texto, lemos, em alturas diferentes: “O blues é entretenimento e história. O blues é voz política”, e depois: “Nós nos entretemos para não morrer”, entre outros pontos destacáveis.

Reside justo no equilíbrio entre entretenimento e história o grande trunfo dessa hq, como terá nisso residido a qualidade da obra de Billie Holiday, “ao mesmo tempo íntima e política”.

O reconhecimento do desenhista à grandeza de Billie Holiday é mais uma justa e merecida contribuição à preservação do legado de Lady Day. Oxalá sirva também para lhe angariar novos ouvintes.

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Ouça Strange fruit (Lewis Allan), com Billie Holiday:

Novo álbum celebra grandeza de Marcello Quintanilha

Todos os santos. Capa. Reprodução

 

Marcello Quintanilha é, merecidamente, um dos mais festejados quadrinhistas brasileiros da atualidade. Obras como as graphic novels Tungstênio [Veneta, 2014, 186 p.], recém-adaptada ao cinema por Heitor Dhalia [drama, 2018, Brasil, 80 min.], com o próprio Quintanilha no time de roteiristas, e Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.], vêm angariando prêmios no Brasil e lá fora – o niteroiense mora em Barcelona desde o início dos anos 2000.

Todos os santos [Veneta, 2018, 112 p.; R$ 85], seu novo álbum, é uma espécie de portfólio, reunindo os primeiros trabalhos – começou aos 16 anos na carioca Bloch, desenhando roteiros alheios de terror e artes marciais –, desenhos e tiras publicados em jornais e revistas nacionais e estrangeiros (Bravo, O Estado de S. Paulo, Trip, Cândido, El País, Le Monde), além de inéditos – Acomodados!! Acomodados!!, vencedora da I Bienal Internacional dos Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991, permanecia inédita até aqui.

Também merecem destaque a HQ A invasão do sagaz homem fumaça (2000), mais conhecida pelos fãs do Planet Hemp, que deu capa e ilustrou o disco homônimo da então banda de Marcelo D2, retratos de Zeca Pagodinho, Mario Vargas Llosa, Paul Gauguin, Fidel Castro e Fernando Henrique Cardoso, com um fósforo quase a queimar-lhe os dedos, na vã tentativa de iluminar o próprio rosto à época dos apagões de seu governo.

A história se repete como tragédia ou como farsa, como nos ensinou Marx, e as melhores retrospectivas nos permitem perceber esta lição na prática. Um projeto de capa de 2000 retrata um senhor calvo, em seu terno alinhado, portando a faixa presidencial, com as mãos algemadas para trás, sendo conduzido por dois policiais.

Edição de luxo, em capa dura, Todos os santos é aberto com uma respeitável fortuna crítica: o prefácio de ninguém menos que Aldir Blanc à primeira edição de Fealdade de Fabiano Gorila [Conrad, 1999], estreia autoral/solo de Quintanilha no mercado editorial – à época ele assinava Marcello Gaú –, saudado pelo cronista e compositor como “o Rosselini tupiniquim”. Antes dos quadrinhos, o leitor poderá deliciar-se também com uma entrevista de Quintanilha a Paul Gravett, “o mais influente crítico de quadrinhos da Europa”, da inglesa ArtReview, “uma das principais revistas sobre artes plásticas do mundo”, que em 2015 publicou duas páginas do brasileiro – devidamente incluídas em Todos os santos.

Marcello Quintanilha não hierarquiza a importância, para sua carreira, das histórias que publica hoje, em álbuns bem acabados, das que veiculou em publicações baratas a partir da oportunidade adolescente. Todos os santos funciona como uma espécie de guia ou porta de entrada para sua obra, em que se destaca seu agudo talento de cronista, de texto e traço sagazes ao relatar flashes de brasilidade, característica marcante de seu trabalho – a capacidade dos melhores cronistas em eternizar o que nos passaria despercebido se não fosse transformado em obra de arte. Afinal de contas, é disso que se trata.

Extras

Tungstênio. Cartaz. Reprodução

 

Estreia hoje (21) em diversas salas de cinema no Brasil Tungstênio, adaptação de Heitor Dhalia para a graphic novel de Marcello Quintanilha. Em São Luís o filme será exibido no cinema do Shopping da Ilha.

Conversei com o diretor e o quadrinhista para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural.

A seguir, a íntegra das conversas.

O cineasta Heitor Dhalia e o quadrinhista Marcello Quintanilha. Foto: divulgação

ENTREVISTA: HEITOR DHALIA

Entre outros feitos você possui no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinhista Lourenço Mutarelli, para citarmos outra bem sucedida adaptação. Você se sente mais à vontade dirigindo um roteiro original, uma adaptação ou tanto faz?
Na verdade, pra mim tanto faz. São dois caminhos diferentes, são duas vertentes e sensações completamente distintas, quando você cria uma obra do zero e aí consegue construir todo aquele universo a partir de uma ideia original, mas também tem um sabor muito grande você adaptar uma obra que já existe, mergulhar no universo de um autor e traduzir esse universo pro mundo, fazer esse universo que já está construído de alguma maneira encontrar ressonância na realidade, em personagens, atores, locações de verdade, traduzir nos figurinos, nos conceitos da dramaturgia. É um desafio, por que você tem a referência do autor de origem e a obra de origem, que você tem que de alguma maneira respeitar. Toda adaptação é de alguma maneira uma traição e ao mesmo tempo uma homenagem à obra original. É um prazer muito grande poder adaptar, eu adaptei duas obras integralmente, O cheiro do ralo e agora o Tungstênio e fiz alguns roteiros originais também. Então as duas coisas têm igual sabor, são desafios diferentes, mas igualmente tentadoras, quando você acha uma obra que você quer adaptar ou tem uma ideia original e quer levar essa obra a cabo. São jornadas distintas, mas ambas muito recompensadoras.

Tungstênio é bastante fiel aos quadrinhos de Marcello Quintanilha, cuja graphic novel já é, em si, bastante cinematográfica. Como foi a decisão de levar essa história à telona?
Na verdade a decisão de fazer o Tungstênio se deve ao fato dos temas propostos pelo filme. O Tungstênio é uma tradução do Brasil 2018, ele toca em questões muito relevantes do nosso tempo. Por exemplo, esse acúmulo de tensões sociais, o esgarçamento da malha social, que tem levado a uma polarização política muito grande e é tudo meio à flor da pele. A gente viu, por exemplo, agora na greve dos caminhoneiros, um exemplo disso: como um evento aleatório consegue detonar uma série de tensões que estão submersas e que atingem todo mundo de uma maneira muito forte, muito violenta. Tungstênio é um pouco isso, esse momento de tensões acumuladas, que no caso, uma pescaria-bomba deflagra uma série de eventos numa espiral de caos. Eu acho que é bem o momento do Brasil atual, essa tensão acumulada que a gente está sentindo. O filme aborda também questões como o saudosismo da intervenção militar. Quando a gente filmou era uma ironia, uma sátira, e tristemente isso parece se tornar o sentimento de uma parcela grande da população, meio absurdo. Aborda também a questão da violência policial, da questão da discussão de gênero, tem uma relação abusiva entre esse policial e a mulher dele. O racismo estrutural que a gente vive, nas periferias, nos subúrbios brasileiros, quando você tem uma grande parte da população que vive ali abaixo da linha da sobrevivência ou lutando por ela de uma maneira muito difícil e essas tensões são mostradas no filme de alguma maneira. O filme não abarca todas elas, por que a história se passa num recorte de tempo muito curto, mas ele toca em temas muito atuais, o racismo, a discussão de gênero, a violência policial, e essa tensão social que a gente vê muito nas redes sociais e que agora explode também no tecido social de um jeito muito violento.

O próprio Quintanilha integra o time de roteiristas. Isso ajudou a manter essa citada fidelidade?
Claro que ter o Quintanilha na nossa equipe de roteiristas foi um facilitador, uma honra, um luxo pra gente, tê-lo no processo de roteiro, e também um pouco na filmagem, mas eu acho que a fidelidade, a busca por ela, se deve a uma decisão conceitual de tentar nos aproximar o máximo possível da obra de origem. Tem gente que adapta histórias pegando essas histórias como ponto de partida e não como ponto de chegada. Aqui no caso a gente quis que Tungstênio fosse um ponto de chegada e não só um ponto de partida. A obra original estava presente o tempo inteiro, a gente tentou ser fiel ao máximo à estrutura narrativa proposta naquele quadrinho e o que a gente tentou fazer foi traduzir esse universo pro audiovisual, tentar elucidar e trazer essa dramaturgia pra frente, enfim, foi essa a nossa busca, a nossa tentativa de adaptar essa obra tão instigante pro cinema. Foi uma adaptação que eu acho bem sucedida nesse sentido, por que ela é muito fiel aos conceitos especialmente propostos pelo Quintanilha na realização do quadrinho e a gente tentou traduzir, levar o máximo possível isso pra tela do cinema.

Serra Pelada é outro filme teu que mostra a realidade nua e crua de um Brasil subterrâneo, como a violência que permeia a trama de Tungstênio. É um tema instigante?
Eu acho que a violência é um tema seminal do Brasil, o Brasil é um país que vive em guerra civil, não se dá conta disso e faz de conta que ela não está acontecendo. A gente vê, por exemplo, o Rio de Janeiro, hoje.

Há todo um pano de fundo que aponta para diversas questões sociais em Tungstênio, com a trama quase se confundindo com um documentário, no que o Brasil é um manancial riquíssimo de temas para serem explorados. A seu ver, o cinema é um campo privilegiado para a abordagem dessas questões?
Eu acho que o cinema é uma das formas de expressão mais eficazes para traduzir a realidade. Apesar de ser uma representação do real, o cinema parece real. Eu tenho uma filha de seis anos, ela foi ver uma peça de teatro, e ela falou “ah, eu não gostei, não é o fantasminha, é um ator. Eu gosto mais de cinema, por que o cinema é de verdade”. Então as pessoas têm essa sensação de que o cinema é real, apesar de ser uma construção artística, mas ela consegue traduzir, abarcar a realidade de uma maneira muito forte. Você consegue ter a cor, o tom, o suor, o som, os personagens, a paisagem, então eu acho que o cinema é um grande instrumento de investigação social, é um grande instrumento de compreensão do mundo que a gente vive, e num momento em que a gente está tão sensível, com tantas questões importantes a serem debatidas no Brasil, eu acho que o cinema é sim um instrumento de reflexão, de compreensão e de possibilidade de transformação disso através da crítica, da compreensão do que a gente vive, das questões que a gente vive e também propondo de alguma maneira um lugar de ação. Acho que a partir de uma tomada de consciência ou uma compreensão maior do real a gente é capaz de agir melhor sobre ele. O cinema, sim, é um grande tradutor do Brasil, é um fator de construção da nossa identidade como povo e é também esse lugar de tradução mesmo do Brasil pra ele mesmo e pro mundo também.

Como você avalia o cenário brasileiro, no geral, a partir da destituição de Dilma Rousseff do poder e a tomada da presidência por Michel Temer e companhia?
O Brasil vive um momento muito complexo, a gente viveu uma ruptura democrática e o país tá um pouco perdido nisso. Eu acho que todos os eventos que aconteceram nos últimos anos vão ter efeitos muito marcantes na nossa formação enquanto povo, com nosso pacto social, de alguma maneira ele foi rompido de várias maneiras. Eu acho que a gente vai levar muitos anos pra se recuperar e ter de novo um otimismo enquanto nação, enquanto país. A gente vive um momento muito difícil em nosso momento social, a gente vive um governo que realmente é ilegítimo e que ainda bem que está no fim. A gente vive tensões muito grandes no cenário político, onde não se sabe para que caminho o país está indo, o pacto que se formou durante algum tempo, o bipartidarismo que a gente viveu durante 20 anos se esgotou e agora o Brasil vai ter que repensar seus caminhos e achar uma busca de retomada assim de um caminho democrático, mais inclusivo para a população, torcer para o Brasil voltar a crescer, mas o momento atual é de muita preocupação. A gente tem ameaças reais, com candidatos de extrema direita com apoio expressivo da população. O campo progressista, as pessoas que têm um pouco mais de sensibilidade social têm que tentar se juntar num projeto de país mais justo, mais moderno, que traga conquistas para a maioria da população, que infelizmente vive há 500 anos à margem disso. Por algum tempo houve uma evolução econômica e social e parece que a gente deu passos pra trás. Eu torço pra que o Brasil consiga achar um rumo, que a gente consiga repactuar um mínimo de nação possível, pra que a gente saia dessa polarização extrema e burra em certo sentido, que a gente possa através do diálogo, do conflito e da contradição, por que eles existem, estão aí para serem superados, que a gente consiga achar um caminho pra esse país, que é tão bacana, tão cheio de possibilidades, a gente tem uma economia muito grande e tem tudo pra conseguir florescer. Esse país só vai se reagrupar se a gente seguir o interesse da maioria da população, atuar nas causas que são mais urgentes, que são inclusão social, combater o racismo, discutir questões de gênero e tentar fazer uma economia mais moderna, que consiga produzir riqueza e fazer com que essa riqueza seja dividida pras pessoas que a produzem de uma maneira interessante. O momento político é difícil, é complexo, é assustador em algum sentido, mas eu tenho esperança que a gente vai prevalecer no caminho correto, mais justo e torço pra que a gente não volte atrás mais do que a gente já voltou. O Brasil precisa andar pra frente, superar esse ciclo negativo em que a gente entrou, precisa voltar a ser o país que a gente mostrou que a gente pode ser.

O quadrinhista Marcello Quintanilha e o cineasta Heitor Dhalia. Foto: divulgação

ENTREVISTA: MARCELLO QUINTANILHA

Tungstênio, o filme, é bastante fiel à HQ, que quando lemos, já pensamos inevitavelmente em cinema, como de resto toda tua obra. Quando você a escreveu e desenhou, já imaginava uma adaptação?
Não, eu não imaginava uma adaptação. Eu trabalho sempre dentro das premissas que se referem ao quadrinho, se referem à experiência da leitura de quadrinhos como um todo. Acredito que o efeito cinematográfico que muitas vezes é atribuído às minhas obras em particular e a muitas obras de quadrinhos em geral, se deve a própria experiência da leitura do quadrinho como um meio que tem características próprias.

Você integra o time de roteiristas, o que certamente ajudou a manter essa fidelidade aos quadrinhos. Houve essa intenção ou preocupação?
A principal preocupação de todas as pessoas envolvidas no roteiro foi a de encontrar a melhor maneira de traduzir o que era relatado no quadrinho pro expectador. Acho que o quadrinho foi uma grande base pra esse trabalho de tradução. Eu particularmente estou muito satisfeito com a forma com que isso foi feito.

Tuas graphic novels expõem as vísceras de um Brasil periférico de modo um tanto brutal, pois muito realista. No entanto, há sutilezas e delicadezas, no caso de Tungstênio, desde o título. Esse equilíbrio é algo premeditado ou simplesmente acontece enquanto você desenvolve a trama?
Acho que nem uma coisa nem outra, por que todas as histórias que eu tive oportunidade de trabalhar até hoje refletem aquilo que eu trago comigo como pessoa, trazem uma experiência vivida tanto por mim como por pessoas muito próximas a mim, de maneira que acredito que tudo o que está transcrito nas histórias, tudo o que está exposto nas histórias reflete aquilo que eu sou capaz de sentir como pessoa. Acho que por isso essa sutileza pode ser tão bem identificada.

Tungstênio, a HQ, foi premiada em Angoulême, o mais prestigiado prêmio quadrinhos do mundo. Qual a sensação? E quais as expectativas quanto a prêmios em festivais de cinema para o filme?
A sensação é a melhor possível, por que é fantástico quando um quadrinho que expressa tanta brasilidade é tão bem acolhido fora do contexto brasileiro, ou seja, quando um trabalho que representa uma visão tão específica sobre uma realidade brasileira consegue transcender o universo no qual ele está circunscrito de alguma maneira e é capaz de chegar a públicos tão distintos, como pode ser o público europeu, por exemplo. É fascinante quando isso acontece. Sobre as expectativas em relação ao filme, eu não trabalho no terreno das expectativas, mas seria muito interessante se conseguíssemos nos comunicar com os espectadores de uma maneira tão direta e tão honesta como ocorreu com o quadrinho. Eu acho que vamos por um muito bom caminho nesse sentido.

Heitor Dhalia tem no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinista Lourenço Mutarelli. Como foram as negociações para essa adaptação? A escolha dele foi proposital?
Sobre as negociações a respeito da adaptação, tudo foi muito direto e muito objetivo desde o começo. Eu já conhecia o trabalho do Heitor e já admirava muito o trabalho dele. Quando ele me propôs trabalhar na adaptação eu achei fantástico e uma semana depois já tínhamos tudo concretizado, já tínhamos começado a trabalhar na adaptação. Foi um processo relativamente simples, na verdade.

Você mora na Espanha já há algum tempo, mas percebemos em teu trabalho toda uma brasilidade, coisa de quem conhece a fundo o que está retratando. A internet certamente ajuda, mas como você faz para manter estreitos os laços com sua terra natal?
Eu não faço nada para manter os laços com a minha terra natal, por que eu não me sinto distante da minha terra natal, não existe nenhum trabalho específico nesse sentido. Eu realmente não me sinto distante do Brasil, eu não me sinto sequer a 10 centímetros de distância. Não existe nada que seja necessário pra que essa proximidade seja mantida. Eu sei que pode parecer estranho pra muitas pessoas, mas realmente não me sinto distante do Brasil, nunca me senti distante do Brasil. Cada vez que tenho oportunidade de voltar ao Brasil o sentimento que eu tenho é de que nunca saí daí. Não me sinto estranho, absolutamente nada. É simples assim, é simples assim.

Como você tem observado e acompanhado o cenário político que se abateu sobre o Brasil desde a destituição de Dilma Rousseff e a tomada de poder por Michel Temer e companhia?
Tenho observado como um dos momentos mais interessantes de toda a história da vida política brasileira no sentido de que muitas pessoas, ou uma imensa parcela da população, parece que vem se dando conta cada vez mais da importância de sua participação no processo político. Acho que é um momento fundamental da nossa história democrática. Estou muito ansioso para acompanhar os próximos desdobramentos, vamos ver o que acontece.

Por ocasião de lançamento do filme Tungstênio você virá [veio] ao Brasil e aproveita para lançar nova HQ. O que pode adiantar sobre ela?
Sim, estou lançando um novo livro, que se chama Todos os Santos [Editora Veneta, 2018, 112 p., R$ 84,90]. O livro é uma compilação de trabalhos feitos pra imprensa, trabalhos publicados em revistas do Brasil, trabalhos publicados em jornais do Brasil, jornais da Europa, quadrinhos publicados nas primeiras revistas onde eu comecei a publicar, na antiga Editora Bloch, no Rio de Janeiro, um apanhado de vários momentos da minha carreira. Estou muito feliz de ter podido reunir esse material em livro. Também há algumas histórias que nunca foram publicadas, também está incluída a história Acomodados acomodados, que foi a história que foi vencedora da I Bienal Internacional de Quadrinhos, em 1991, que até hoje permanecia inédita e eu estou muito ansioso de que esse material finalmente chegue ao público. É isso, realmente espero que as pessoas gostem.

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Veja o trailer de Tungstênio:

Violência: ficção, realidade e atualidade

Nunca se chegou a um consenso sobre o cangaço: bandidos ou heróis? O que é mais interessante notar é o fascínio que o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, exerce até hoje, passado tanto tempo de sua atuação e dizimação.

Jurados de morte. Capa. Reprodução

Uma das histórias de Jurados de morte [Dupla Criação/7 Cores Gráfica e Editora, 2017, 26 p.; pedidos pelo e-mail teclandocomadupla@gmail.com ou telefone (98) 3227-7688] parte da sobrevivência inusitada de Cara de Cão, um cangaceiro cujo nome, pelas mãos e imaginações de Iramir Araújo e Beto Nicácio, autores da HQ, remonta a Cara de Cavalo, da icônica bandeira “seja marginal, seja herói” do artista plástico pré-tropicalista Hélio Oiticica.

Araújo e Nicácio, com anos de relevantes serviços prestados aos quadrinhos no Maranhão – convém lembrar que hoje, 30, celebra-se o Dia do Quadrinho Nacional –, atuam em todas as frentes: no mercado publicitário, na produção e publicação e na crítica, tendo mantido durante muito tempo colaboração com veículos de comunicação da ilha.

Esta Jurados de morte, lançada em dezembro passado na Comic Con Experience 2017, em São Paulo, tem os componentes de um bom faroeste: ação, violência, bom humor. Na primeira história, um grupo de cangaceiros é chacinado pela polícia – os macacos, como eram comumente chamados –, com apenas Cara de Cão sobrevivendo, no que reside o elemento surpresa da trama. Araújo e Nicácio partem de um elemento histórico (o cangaço) para sobrepor sua ficção.

Na segunda, uma trama em que a honra dita o preço da vida e esta flerta o sobrenatural. A história se passa em uma cidade do interior do Brasil, em que os poderes econômico e político têm estreitas relações. A revista não traz a típica advertência, mas bem poderia: “qualquer semelhança é mera coincidência”. À guisa de apresentação, troçam Araújo e Nicácio: “não duvide se lhe dissermos que as duas histórias desse volume nos foram contadas tal como as narramos, com um ou outro exagero ou uma ou outra omissão. Não duvide se lhe afirmarmos que, por as termos revelado, estamos, também nós, jurados de morte”.

Em ambas não fica delimitada sua localização no tempo – a do cangaço, obviamente, é mais fácil imaginar. Mas histórias como as de Jurados de morte podem acontecer em qualquer tempo e lugar: é que temas como a violência continuam atuais e reais, mesmo quando tratados sob as tintas da ficção.

Jornada poética

Como falar com garotas em festas. Capa. Reprodução

 

Como falar com garotas em festas [How to talk to girls at parties; Quadrinhos na Cia., 2017, 80 p.; R$ 44,90; leia um trecho] não é, ao contrário do que o título porventura possa sugerir, um manual com fórmulas para serem seguidas à risca ou com desconfiança, tampouco um guia politicamente incorreto.

Em primeiro lugar, é o encontro de três artistas geniais, que dispensam apresentações: Neil Gaiman [Sandman e Coraline, entre outros], autor do conto, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá [10 pãezinhos, Daytripper e a adaptação aos quadrinhos de Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros], responsáveis pela adaptação da história aos quadrinhos.

É redundante dizer que uma graphic novel é cinematográfica, já que os conceitos se confundem um tanto entre a sétima e a nona artes. Além do mais, Como falar com garotas em festas ganhou também adaptação para a telona, com direção de John Cameron Mitchell e elenco com Elle Fanning e Nicole Kidman, que estreia este ano (ainda sem data para chegar ao Brasil).

É um álbum sobre amor e amizade, as confusões destes e outros sentimentos no período turbulento chamado adolescência. Enn e Vic são amigos na Londres dos anos 1970, durante a explosão do punk rock. Um é tímido e não tem sorte com as garotas; o outro é bonitão e espalhafatoso e sempre desperta a inveja do amigo.

O traço de Moon e Bá já é um clássico há tempos e a atmosfera do conto de Gaiman o envolve em poesia, não que eles não já tivessem, mas aqui a questão é particular e direta. Numa casa, em uma festa a que o par de amigos chega por acaso, Enn conhece Triolet, a “garota-poema”. “Você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”, ela lhe diz em determinada altura.

Há várias metáforas colocadas: nada é apenas o que parece ser e perde quem se contentar com a/s aparência/s, do título ao caderno de rascunhos ao final do volume (que permite perceber detalhes do processo de desenvolvimento da obra).

A hq aborda esse turbilhão de sentimentos adolescentes com um pé na ficção científica, como se a adolescência não fosse um período complicado por si só. Um período de descobertas, experiências, aventuras. De quebrar a cara. De transição. De diversão e de começar a se preocupar com novas responsabilidades. No texto de Gaiman e no traço e nas cores de Moon e Bá tudo se torna mais poético e com poesia é menos duro seguir a jornada.

Anacronismo para retratar o Brasil

Mensur. Capa. Reprodução

 

O bullying transformou o protagonista de Mensur [Quadrinhos na Cia., 2017, 208 p.; R$ 54,90; leia um trecho] em Gringo. Filho sem pai de uma dona de casa, ele ganhou o apelido na escola. São seus dramas que o leitor acompanha ao longo das páginas da nova graphic novel de Rafael Coutinho, que já dispensa apresentações.

A luta de espadas que dá título ao álbum se parece com a esgrima, mas tem o claro objetivo de produzir ferimentos no rosto do oponente e estas cicatrizes serão motivo de orgulho para seus praticantes. Era uma prática de estudantes universitários alemães no século XV e o autor traz para o Brasil, entre Caxambu, Ouro Preto e São Paulo, cidades que dão nome às partes do livro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que espadas ferindo rostos são a maior violência nas páginas de Mensur. É uma obra de ficção, mas Rafael Coutinho retrata um Brasil violento e desigual, em que tudo, por mais grave que seja, é banalizado e dado como absolutamente normal – vide a sequência de golpes perpetrados no ambiente político.

Gringo é ao mesmo tempo um personagem anacrônico e um brasileiro comum. E ao mesmo tempo também, para alguns, um herói. Lida com fantasmas do passado, busca tornar-se um ser humano melhor, valoriza a palavra e a honra – instituições que em geral funcionam mal, como tantas no Brasil –, busca ganhar a vida honestamente, mesmo em subempregos, apaixona-se e tem o CPF negativado apesar de já ter pagado a fatura – experiências comuns de tantos brasileiros comuns.

O letramento de Mensur utiliza a caligrafia do autor em resultado charmoso. Rafael Coutinho não se limita ao quadrinho: por vezes determinadas cenas – e particularmente as “danças” dos espadachins – escorrem, tornando-se páginas inteiras, transformando-as em verdadeiras obras de arte – o que de resto, Mensur é, desde a capa.

Jornalismo desglamourizado

Tabloide. Capa. Reprodução

 

“Ninguém vai acreditar nisso!”, adverte o fotógrafo Horácio. “Por isso mesmo é que vamos publicar!”, retruca a jornalista Samantha Castello. A ilustração da quarta capa de Tabloide – A dama dos afogados [Veneta, 2017, 136 p.], de L. M. Melite, dá uma preciosa pista de onde o leitor vai se meter ao acompanhar as aventuras da dupla nesta graphic novel patrocinada pelo Programa de Apoio à Cultura paulista.

Baseado em fatos reais, afirma a ficha catalográfica, Tabloide é o mergulho na aventura em geral sem glamour de fazer jornalismo. Samantha está acima do peso, é desbocada, nem sempre higiênica, por vezes escatológica e comumente descrente. Mas não calcula nem freia seus ímpetos quando o objetivo é conseguir uma informação para a qual em geral seus pares não estão dando muito valor. Sensacionalismo? Quiçá.

Tabloide se desenrola a partir da investigação do assassinato de uma transexual em circunstâncias inusitadas: vestida de noiva, dentro de um carro popular, em uma represa que funciona como cemitério de automóveis, destino de fraudes em seguros.

Assombrada por seus próprios fantasmas, Samantha conduz o leitor por aventuras que passam por situações de trabalho escravo e tortura, temas infelizmente ainda bastante atuais no Brasil sob a égide dos golpistas.

A protagonista não hesita em brigar – literalmente, se necessário – para cumprir seu ofício, consciente de seus dilemas éticos. Polêmica, é uma grande personagem no traço apenas aparentemente desleixado do autor. No meio de tudo há uma reprodução fac-símile de Tabloide, com “jornalismo sádico” por subtítulo e uma coleção de manchetes pra lá de inusitadas. Nada é mera coincidência.

Lennon no divã

Lennon. Capa. Reprodução

 

Como grupo ou individualmente a vida e a obra dos Beatles são por demais conhecidas em sucessivas edições, umas bem cuidadas, outras meros caça-níqueis. Até hoje, qualquer lançamento ou relançamento envolvendo os fab four rendem cifras incalculáveis, seja na música, literatura, teatro, cinema.

A graphic novel Lennon [tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2017, 151 p.; R$ 39,80; leia um trecho] aborda a trajetória de John Lennon sob um ponto de vista inusitado: sucessivas visitas do astro a uma analista.

Lennon se reencontra e enfrenta fantasmas do passado, desnudando-se no traço elegante de Horne Perreard e roteiro de Eric Corbeyran, baseados no texto original de David Foenkinos, autor do livro que deu origem à HQ.

Nada é novidade para beatlemaníacos médios – ok, a expressão é uma contradição em termos –, mas mesmo para estes, vale a pena conferir Lennon, narrado em primeira pessoa e de forma quase linear.

John Lennon revela a importância de Lewis Carrol para seu processo criativo, quando os desenhos de Perreard dão conta do onírico do autor, revela a podridão, mais que o glamour, do showbiz, e é ultrarromântico ao abordar o encontro de seu protagonista com Yoko Ono.

Em 18 sessões, um monólogo – só Lennon fala, nunca há a interferência de sua analista – dá conta da biografia daquele que, ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, formou o mais importante grupo musical de todos os tempos e revolucionou para sempre a música pop.

Mesmo sem acrescer novos dados à biografia do ídolo, Lennon teria fecho perfeito se acabasse na 18ª. sessão. O epílogo é óbvio ao encerrar o álbum com o assassinato de John Lennon, quebrando o ritmo a que o leitor se acostuma logo nas primeiras páginas.

Tragédias brasileiras

Hinário nacional. Capa. Reprodução

 

Radicado há anos na Espanha, o quadrinhista brasileiro Marcelo Quintanilha talvez seja quem melhor retrata, no campo das graphic novels, o Brasil real e profundo. Após o policial Tungstênio – vencedor do prêmio Angoulême, o mais importante dos quadrinhos, em 2016 – e o “drama classe média” (embora estas aspas reduzam bastante a questão, reconheço) Talco de vidro, ele volta à carga com Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 54,90].

O livro já provoca desde o título, que subverte a “coleção ou livro de hinos religiosos”, atrelando-o a hinos de clubes de futebol cantados a plenos pulmões em estádios lotados ou não e o clássico junino Olha pro céu (Luiz Gonzaga e Peterpan), que se configuram personagens importantes na trama.

O enredo entrelaça vários dramas em torno do mesmo tema: o abuso sexual. Da namorada que cede a ver filmes de ação (que o namorado prefere) em vez de filmes mais românticos (sua própria preferência) a relação entre colegas de escola (“eu tô acostumada”), os clichês machistas e homofóbicos repetidos ad nauseam, o taxista que “graceja” e a passageira que interrompe a corrida pelo meio do caminho, além do drama de um motorista de ônibus acidentado, cuja memória fragmentada faz questão de lembrar que é ele quem manda em casa.

Quintanilha, em suas ficções, é um perfeito tradutor da tragédia brasileira. As pequenas desgraças individuais são traços de nossa formação, agravados pelo golpe em curso. Hinário nacional é impresso em amarelo, cor da palidez – nossa impotência diante da realidade? –, e se vale da retícula, cujo efeito granulado pode ser lido como outra metáfora: pontinhos formam uma imagem, como os dramas individuais compõem a desgraça brasileira.

Exceção e regra em Encruzilhada

Encruzilhada. Capa. Reprodução

 

Marcelo D’Salete é uma exceção: um quadrinista negro de sucesso no Brasil. Sua obra é regra: sua ficção documenta a realidade cotidiana de periferias das grandes cidades e o massacre diário da juventude negra e pobre. Mas sua obra é, ao mesmo tempo, exceção, já que não é qualquer artista que se interessa por abordar tais temas sob tais perspectivas, dando voz aos oprimidos.

A violência policial já não nos choca, pois está estampada nas edições diárias dos jornais impressos ou circula em sites e grupos de whatsapp. D’Salete no entanto não alivia: o traço sujo traduz a vida sofrida dos que habitam a periferia e vivem sob o jugo dos agentes da lei – que em geral desrespeitam-na. “Com polícia a gente fica quieto” é o mantra repetido por uma personagem em Risco, história inédita que se soma à reedição de Encruzilhada [Veneta, 2016, 160 p.], originalmente lançado em 2011.

São cinco histórias que não causariam estranhamento a quem acompanha o noticiário, sobretudo através de programas policialescos sensacionalistas – redundância intencional –, em que sangue é sinônimo de audiência. São Paulo está perfeitamente traduzida no preto e branco – e cinza – dos quadrinhos de D’Salete, cujos grafites, espalhados por paredes e muros, e marcas, por outdoors, neons e embalagens, garantem autenticidade às narrativas, jogando o consumismo (e o capitalismo) no cerne da questão urbana e sua onda de violência, que atinge “trabalhadores, ladrões, policiais, camelôs” e usuários de crack.

As histórias de Encruzilhada – a grafia do título na capa do álbum não por acaso evoca um picho – não são fábulas com moral; antes evocam uma amarga realidade, causando incômodo e propondo reflexões, exceto a quem já perdeu qualquer grau de humanidade ou sensibilidade, anestesiado pela “normalidade” do status quo, justamente contra o que mira a arte consciente de D’Salete.

Modelo vivo, de Laerte, o último grande trabalho de Toninho Mendes

Modelo vivo. Capa. Reprodução
Modelo vivo. Capa. Reprodução

 

Falecido em janeiro passado, Toninho Mendes “nos anos 1980, elevou as expressões gráficas do underground ao palco principal da cultura e mudou a história dos quadrinhos nacionais. Um mundo de referências anárquicas passava a contaminar o jornalismo, as HQs, o debate comportamental e político”, como anotou em seu obituário o jornalista Jotabê Medeiros.

A Circo Editorial, fundada por Toninho Mendes na década de 1980, publicou nomes como Angeli (Chiclete com banana), Laerte (Piratas do Tietê), Glauco (Geraldão) e Luiz Gê, entre outros. Sua última grande contribuição para a cultura nacional foi a organização de Modelo vivo [Barricada, 2016, 88 p.; R$ 49,00], mais recente álbum de Laerte.

Os tempos são outros – ou serão os mesmos? – e por isso é importante ver as coisas em perspectiva: Modelo vivo é uma antologia que demonstra a importância de Laerte não apenas para os quadrinhos nacionais. Seus mais de 40 anos dedicados ao traço demonstram que o humor pode sintetizar cenários, traduzir conjunturas e ainda fazer rir – não o riso fácil e inconsequente.

A obra se completa com uma série de ilustrações de corpos nus, algo deixado em segundo plano por Laerte ao longo de sua trajetória. “Desenhar gente é uma das maneiras mais fecundas de fazer desenhos, porque nos usamos inteiramente na ação de desenhar”, afirma no texto de apresentação de Modelo vivo. “Fiz isso menos do que gostaria”, continua.

Os desenhos a que Laerte se refere foram feitos ao longo de um curso livre organizado por ela e seu filho Rafael Coutinho, em 2013 – a cartunista é vista em ação no ótimo Laerte-se, documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, disponível no Netflix.

O advento das redes sociais facilitou bastante a vida de quem deseja acompanhar o trabalho de artistas que admira. Laerte continua colaborando com a Folha de S. Paulo. Para quem, ainda assim, ainda não conhece o trabalho da cartunista, Modelo vivo é uma boa porta de entrada.

O álbum passeia sobretudo por esta produção mais underground, reunindo tiras e HQs publicadas em revistas e fanzines como Cachalote (1994, editada por Laerte, Adão Iturrusgarai e Miriam Lust, que depois daria nomes ao álbum de Rafael Coutinho, filho de Laerte, com roteiro de Daniel Galera), Circo (1987), Geraldão (1988 e 89), Chiclete com banana (1988 e 89) e Piratas do Tietê (1991), além de uma inédita, realizada em 2000.

Para quem conhece (e acompanha) o trabalho de Laerte, algumas histórias soarão clássicas, como A volta dos palhaços mudos, Penas, Aquele cara e O míssil, na qual a colaboração de Toninho Mendes é creditada. As duas últimas, atualíssimas, dialogam com o estado policialesco do Brasil sob o golpe desde 2016.

Toninho Mendes não imaginava que a organização de Modelo vivo seria seu último grande trabalho, mas não poderia haver despedida em melhor estilo: “o melhor de” Laerte, uma artista ainda absolutamente necessária.

Dylan Dog terá três edições publicadas este ano no Brasil

A primeira, Retorno ao crepúsculo, já está nas bancas

Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução
Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução

Os 30 anos da primeira publicação de Dylan Dog passaram em brancas nuvens no Brasil em 2016. A novata editora Lorentz busca agora corrigir o erro e promete três histórias do “investigador do pesadelo” para este ano. A primeira, Retorno ao crepúsculo, publicada originalmente na Itália em junho de 1991 (no número 57 da hq), já está nas bancas.

O roteiro é de Tiziano Sclavi, criador do personagem, e arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, e a história se passa em Inverary, cidade localizada na Zona do Crepúsculo, um lugar em que ninguém envelhece ou morre, onde todos os dias são absolutamente iguais.

Dylan Dog deixou de ser publicado no Brasil em 2006, como lembra Júlio Schneider no posfácio – ele que também traduz esta hq, que mistura terror e bom humor, seja nas piadas infames de Groucho, o assistente de Dylan Dog, que homenageia o xará Marx, seja no pânico de Edgar Allan Poe, que também se assombra com a Zona do Crepúsculo.

Se hoje Dylan Dog anda forçadamente esquecido, eis uma importante contribuição para mudar este quadro. O personagem chegou a protagonizar a fumetti – como são chamadas as revistas em quadrinhos na Itália – mais vendida na terra de Umberto Eco, intelectual falecido ano passado, que chegou a declarar: “posso ler a Bíblia, Homero e Dylan Dog por dias e dias”. Não à toa ele próprio virou personagem em uma hq do detetive cujo charme reside também em dirigir um modesto fusca.

Graphic novel mergulha na vida e obra de Carolina Maria de Jesus

Carolina. Capa. Reprodução
Carolina. Capa. Reprodução

 

O professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença causou polêmica ao ecoar recentemente racismo, machismo e classicismo acadêmico em um evento em homenagem a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. Para ele, a principal obra da ex-favelada e ex-catadora não é literatura – o livro está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp. O professor foi rebatido pelos poetas Ramon Mello e Elisa Lucinda, que saíram em defesa da escritora e de seu legado, já reconhecido por nomes como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector – que esteve na noite de autógrafos de seu livro de estreia, em 1960.

“A menina Bitita, mineira de Sacramento, arrombou a porta estreita e branca da elitista literatura brasileira ao tornar-se Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. O livro, quando lançado em agosto de 1960 em sucessivas edições, alcançou a marca de 100 mil exemplares vendidos em poucos meses, superando em vendas naquele ano, Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado, e foi publicado em 40 países e 14 línguas”. Assim a professora Sirlene Barbosa inicia o artigo que serve de posfácio a Carolina [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 39,90], graphic novel biográfica da escritora, com pesquisa e argumento dela e roteiro e desenhos de João Pinheiro.

Ele já havia dedicado graphic novels a biografias de escritores antes: Kerouac [Devir, 2011] e Burroughs [2015, Veneta]. Uma característica de seu trabalho é seu traço versátil adaptar-se às realidades de seus personagens reais: o preto e branco de Carolina parece imitar carvão ao dar o tom certo à miséria humana vivida pela escritora e seus vizinhos de favela do Canindé – onde hoje está localizado o estádio da Portuguesa de Desportos.

Carolina Maria de Jesus foi personagem complexa e por vezes contraditória. Enfrentou preconceitos os mais diversos: por ser negra, pobre, mulher. Aliás, passados 40 anos de sua morte, continua enfrentando, como demonstra o episódio envolvendo o professor. Sirlene Barbosa e João Pinheiro mergulham profundamente na tragédia humana que lhe cerca, mostrando a realidade nua e crua e por vezes cruel. Muitas vezes a escritora foi vítima de preconceito entre seus iguais, isto é, os vizinhos de barracos no Canindé.

A narrativa de Carolina é bastante apoiada em Quarto de despejo: diário de uma favelada, que teve a primeira edição publicada por iniciativa do jornalista Audálio Dantas, que descobriu a escritora meio que por acaso ao cobrir uma pauta para a então Folha da Noite: Carolina ameaçava tornar seus vizinhos personagens do livro que estava escrevendo, reagindo à antipatia deles, para quem ela não passava de uma pobre solteirona metida e fedorenta – às vezes faltava dinheiro para comprar sabão e não foram poucas as vezes em que passou fome junto com os filhos.

“Não são ratos, não são abutres…”, “… são gente”, dizem os quadrinhos a certa altura, apresentando a paisagem violenta por todos os ângulos: desagregação familiar, violência contra a mulher, abuso de álcool e a disputa entre humanos e animais por comida, evocando o poema O bicho (1947), de Manuel Bandeira: “Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ (…)/ o bicho, meu Deus, era um homem”.

Carolina passeia pela vida e obra da escritora que lhe batiza, certamente ajudando a jogar luzes sobre aquela e angariar novos leitores para esta, que segue sendo apontada como influência: Quarto de despejo: diário de uma favelada foi o primeiro livro lido pela também escritora, negra e mineira Conceição Evaristo, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) este ano e atualmente é tema de uma Ocupação no Itaú Cultural.